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domingo, setembro 04, 2005

Tenho na banheira um pouco de mar.
Aqui
Posso ser estrela, alga ou peixe
Ou simples areia.

quinta-feira, julho 07, 2005

poema de aniversário para a MIM

desejo que os teus dias tenham espuma
e que as tardes, uma a uma,
te tragam sempre como pela primeira vez,
e que as ondas brancas tombem
sobre o teu corpo vestido de nudez.

terça-feira, junho 07, 2005

dispersão

esta dispersão em tudo o que vejo
os búzios musicais
as flores, os frutos vermelhos e frescos
na mesa
a fala de Penélope ecoando ainda pela casa.

e um sentimento tão grande de vazio
como um morango para uma formiga.
e uma falta de mim
que ando perdido nas coisas
e ainda não regressei
porque talvez não queira regressar.

à noite, quando na casa se ouvem respirar os livros
é Palamedes quem me fala da vida.

mas o sentimento de vazio tão grande
como o de uma ausência do mais essencial
continua nesta parte de mim.
e não regresso
porque nas coisas de que gosto
me realizo melhor

de forma mais eterna.

para a minha irmã

queria escrever um poema que pusesse em evidência a semelhança de uma ágata com um morango - cortados ao meio. o aspecto certo e regular do corte, a textura diversa da parte de trás. e a formação do geóide brilhante, tão semelhante ao meio branco açucarado de um bom morango. e as cores múltiplas de uma em contraste com o vermelho do outro. ah, e o sabor do segundo, como diferenças. só. queria, mas não sei. fica para outra vez.

terça-feira, maio 17, 2005

poema que condensa os meus mais recentes motivos poéticos

Penélope
sentada à beira-mar
como amoras negras
para espantar a solidão.

segunda-feira, maio 16, 2005

sexta-feira, maio 13, 2005

lamento pela morte de um navegador

continuaremos juntos pelas ondas
e veremos sempre o mar azul
como se nada mais existisse no mundo.
veremos as chuvas e as cores do céu
sentiremos as cores da terra longe
e as vidas, sons e sabores estrangeiros.
continuaremos e ouviremos toadas
e sentiremos a fome de tudo.
porque se as ondas te reclamaram
também eu reclamar-te-ei
em todas as viagens e em todas as paragens.

29 abril 2005, numa aula de lit. bras.

quarta-feira, maio 11, 2005

o poema do post anterior

é verdadde, a marta foi co-autora do poema... mas não sabia que ela queria ver a sua veia literária exposta...

temos de dizer, claro, que a estrutura de base é de um (lindíssimo) poema de Sophia:

Soror Mariana-Beja

Cortaram os trigos. Agora
a minha solidão vê-se melhor.

(in: O Nome das Coisas, 1977)

terça-feira, maio 10, 2005

pequeno poema

plantaram árvores em frente à minha casa.
um dia, a minha solidão terá sombra.

quarta-feira, maio 04, 2005

sonho que tive esta noite

hoje, se o sol não nascer à hora do costume, fui eu que morri.
e por isso a luz foi toda comigo, porque eu sou o centro do universo
o deus do calor e da luz das vossas vidas todas.

(sonho que tive esta noite, em que eu dizia isto a alguém e depois atirava-me de uma falésia... acima)

segunda-feira, abril 18, 2005

Um texto com alguns anos, mas há coisas que nunca mudam...

Um texto que eu escrevi depois de um exame ou prova global qualquer, enquanto esperava pelo autocarro para ir para casa. É verídico. reparem no fantástico pormenor do carro!


Paciência

Parou um carro azul à minha frente, com um senhor jovem e gordo; de camisa aos quadrados azuis, verdes e amarelos; que bebia água e falava ao telemóvel.
Parou um autocarro Rodonorte e lá foram umas seis pessoas embora.
O homem do carro azul, um citroen saxo de matrícula 93.33.OV, está a ler um livro enorme, mas parece ir nas primeiras páginas. A leitura está a ser desagradável e por isso pousa o livro no banco do lado. Recosta o banco para trás, bebe mais água e espera... Quem espera desespera! É o que aparece acontecer... Em apenas cinco minutos fez tudo isto e muito mais. Não para quieto um segundo.
Liga o rádio: notícias, apesar de já serem 11:14 horas. Aperta o baraço dos calções de licra azul, olha para o relógio e espera. Desaperta um botão da camisa, coça a cabeça, põe as mãos no guiador, no banco do lado, na janela...
Grande seca, e ainda faltam mais quarenta minutos.
Pega novamente no livro, que agita por breves momentos. A sua capa é branca, totalmente branca, sem imagens.
O autocarro já abriu, mas ainda não se pode entrar, está apenas a refrescar.
O vaivém dos carros é constante, mas o seu barulho ainda permite ouvir o som lubrioso das andorinhas e de outros pássaros. Corre uma brisa refrescante do rio.
O homem espera.
A paciência tem limites, assim como o Homem. Começa a comer bolacha de água e sal: são mais saudáveis...
Uma senhora velha e magra passa a passadeira e procura o seu autocarro.
Na estação, acaba de chegar o combóio das onze e meia, na linha dois, plataforma um.
Aparece um senhor de olhos azuis, todo esfarrapado que olha a gente com olhos desconfiados e segue caminho.
Vem um senhor a vender gelados, cujo negócio está em grande, ultimamente.
A paciência tem limites, e o Homem também. O limite da paciência atingiu-se, o Homem ainda não atingiu o seu limite.
Atira o livro para o rio. Atira as bolachas para a mata, atira a água para o chão. Gira a chave e atira-se ao desconhecido, procurando atingir o seu limite terreno.
Entretanto, chegou a hora de entrar no autocarro e ir para casa.

15/06/00

segunda-feira, abril 11, 2005

2 poemas inspirados por Monte Clérigo

Monte Clérigo I

O sol torra a saída inicial
E só sinto o forte cheiro a sal,
Molhado,
Caio na beleza magistral
E penso, extasiado,
Que me podia perder,
Facilmente,
Nas curvas de um búzio
Mesmo que estivesse a chover.


Monte Clérigo II

Aqui tudo é azul
Mar, céu e ar.

De manhã, quando o sol é breve
A solidão existe e extasia.
Não se sai dela e vive-se
Como se no mundo
Apenas existisse beleza.