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segunda-feira, julho 02, 2007

O deus, as escadas e o pijama

«E porque os deuses são ciumentos, não serão permitidas, em meu corpo, as carícias de outros braços ou o beijo de outras bocas.»


Tito Lívio, Senhor Partem Tão Tristes

As escadas alongavam-se até ao chão. De madeira com mármore do meio para a borda, propícias à revitalização da alma pela perde do corpo, ou pela imobilidade opaca. Uma nesga de céu azul era visível pela janela do tecto. Parado, fixado no chão do olhar, o deus chorava. A dor primeira da separação estava quase leve, andava leve. Em vez da continuação surgiu uma nova que mais valia ter surgido na mesma altura que a outra: outra pessoa na sua vida – dor de pensar nos corpos juntos e da partilha da vida que fora quase dele para a eternidade e que agora poderia pertencer a outrem. Mas isso não era a maior dor aos sete meses – mas sem saber que nem dois meses depois da separação o outro encontrara outra pessoa. E ele, o deus, que era tão especial, que continuaria a ser amado para sempre – chorava a sério ao ver-se esquecido tão cedo.

O deus estava de pé e hesitava em começar a descer as escadas. Um pé estendia-se com vontade de acção, mas o olhar parado parecia não dar autorização – e todos sabemos do poder dos olhos – ele, que o outro disse tantas vezes como: deus grego ou Apolo, às vezes um anjo protector outras um demonão, o shamsu, o que fazia festinhas cómicas (leia-se cócegas), o que era lindo lindo lindo, o miau, o do cabelo e braços fofinhos, o das pernas boas, o das mãos irrequietas, o dos lábios macios, o da inteligência argumentadora e irónica, o da surpresa e do inesperado, o da falsa indiferença patente nos olhos vivos. O amor – que o deus via nas orelhas que estranhava no outro e que aprendeu a amar com o tempo de vida partilhado, não reparando ou amando também os dentes afastados da frente ou pouco cabelo, valorizando as suas pernas, as suas mãos, a sua boca, o seu pescoço, as suas costas com os seus risquinhos. Agora, todo este corpo seria de outro, bem como a sua humildade, dedicação e alegria de viver. E o outro corpo estava só e não era assim tão perfeito como o pintado anteriormente – o deus aumentava de volume porque a dor o fizera compensar-se na comida, sobretudo nos doces e chocolates – e já só achava dignos de si os seus pés e as suas mãos.

Resolveu finalmente sentar-se. Olhou o céu e parou de chorar, embora sentisse ainda o peito como que espalmado entre duas tábuas rijas que dificultassem o respirar. A notícia tinha-o atingido de mansinho, mas aos poucos foi-se insinuando com cada vez mais força, oprimindo, tolhendo. Ao passar pelo jardim de Primavera onde lho contaram, as flores iam murchando e os pássaros calaram-se. Alguém cantava e ficou sem voz quando o deus a olhou. Os semáforos ficaram vermelhos para toda a gente durante horas e gerou-se um caos profundo.

Um pé balançava-se três degraus abaixo, enquanto o outro estava plenamente pousado sobre o mármore frio das escadas que também eram de madeira. Recostou-se contra o contra o corrimão em que ninguém mais passaria a mão. As palavras ditas não voltariam a ser ditas. Que dicionário teríamos outros inventado? Que palavras teriam voltado a ser usadas? Miau? Demonão? Que outras teriam tido mais significado? Que gestos se teriam convertido em rituais de iniciação e de amor? Mas agora também não interessava mais – o deus tinha feito aquilo que lhe competia. O deus não era ciumento, mas não permitia que um corpo que fora seus fosse agora objecto de prazer – dar e receber – de um outro. Ninguém o pode julgar por isso porque ele é o deus, e terá o seu plano que transcende todos os humanos e simples mortais.

O deus estava de pijama, um pijama azul, abotoado até cima, como nas noites de verão em que parecia incompreensível ao outro que o deus vestisse pijama – mesmo que de verão – e abotoasse tudo até ao fim – ou início, dependendo do ponto de observação – e usava cobertor, enquanto o outro se afastava da roupa de cama, nu ou quase, recebendo ainda a brisa do rio pela varanda aberta.

O deus estava de pijama azul com uma mancha vermelha que ia também por um dos braços, abotoado até cima. Já não chorava e não comia chocolate nem se sentia ele próprio um caos profundo. Isto porque resolveu, com um empurrão, usando as escadas longas e fortes, transcender todos os humanos e simples mortais – que afinal os outros dois eram. Antes de se sentar lavou as mãos do sangue dos outros em seu sacrifício involuntário, depois, enquanto fechava a porta da varanda e se sentava no topo das escadas, desejou deixar de fazer parte de tudo isto. Porque inespecífica demais a formulação, acabou por deixar a vida quando deixar aquela vida era apenas o que pretendia.


segunda-feira, julho 23, 2012

cinco poemas de Manuel António Pina

LUDWIG W. Em 1951

«As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem
                                                                           [que palavras?
E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma.»

***


Café do molhe


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
****

Uma prosa sobre os meus gatos


Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.





*****

Sétimo Dia


Voltámos, um a um, da tua morte
para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.
*****

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Manuel António Pina, Todas as Palavras. poesia reunida, Assírio & Alvim, 2012, p. 232-233, 240-241, 270-271, 288, 358

segunda-feira, junho 30, 2008

Sugestões de Junho


No meio de tanta coisa para fazer e tanta outra que ficou por fazer, ficam aqui as coisas boas materiais que posso partilhar convosco. Sim, porque morangos, cerejas, framboesas, rio e certas intimidades não posso partilhá-las com a maior parte de quem me vai lendo… Mas o costume está aí: livros, filmes, séries, músicas… E que cada um faça delas o melhor proveito, ou não.


Livros:

1 – A Bíblia (Evangelho Segundo São Mateus e Evangelho Segundo São Marcos), Paulus****

argumentos: início da segunda parte da Bíblia, do Novo Testamento. Gosto de várias versões sobre os mesmos acontecimentos, sobre uma mesma história. E estas são apenas duas delas. E é obrigatório pela quantidade de frases, actos, parábolas e sei lá mais o quê que saíram daqui para o comum dos dias. Só alguns exemplos: «Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4, 4); «se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda» (Mt 5, 39); «Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.» (Mt 6, 24); «Não deis aos cães o que é santo, nem atireis pérolas aos porcos» (Mt 7, 6): «Pois dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21), etc. etc.


2 – O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei, JRR Tolkien, Europa-América*****

argumentos: fim da trilogia que me empolgou, primeiro no cinema, depois nos dvds em casa, e agora, finalmente, nos livros. Dos outros dois volumes já falei aqui. Não sei o que mais dizer disto, do mundo alternativo construído, do valor da amizade, da coragem, da inteligência, de tudo, mas é o volume em que tudo se consuma e termina (e com bastantes diferenças em relação ao filme). Ficam só algumas frases: «O Destino dos homens, quer queira quer não: a perda e o silêncio.» (p.368); «O mundo está a mudar: sinto-o na água, sinto-o na terra, cheiro-o no ar. Não creio que nos voltemos a ver.» (p.279).


3 – No Reino de Caliban II, Manuel Ferreira, Plátano Editora*****

argumentos: uma antologia da poesia africana de língua portuguesa muito bem construída, com bibliografia dos autores, organizados por gerações, revistas, núcleos. Este volume em concreto apresenta a poesia angolana e a poesia são-tomense até meados dos anos setenta. Cada conjunto de poetas é apresentado por textos introdutores que ajudam a localização e contextualização dos autores e suas produções. Fundamental para perceber a evolução da poesia destes países de língua portuguesa. Da poesia de São Tomé e Príncipe – ver aqui.


4 – História do Cerco de Lisboa, José Saramago, Caminho*****

argumentos: eu já sabia que este romance se arriscava a ser um dos meus favoritos, pelas poucas coisas que lera dele para me preparar para a exposição. E não me desiludiu a leitura da história de um revisor que revê as provas de uma História do Cerco de Lisboa que decide mudar o relato, introduzindo um «Não», alterando a história da conquista de Lisboa aos mouros pelos portugueses em formação. Além desta reformulação de que tanto gosto nas histórias, é muito interessante ler a vida deste homem Raimundo, a sua relação com os outros, com o espaço, com as palavras («assim mesmo foi o mundo feito e feito o homem, com palavras» p.50). E a história de amor é das coisas mais bonitas que tenho lido («Ninguém deveria poder dar menos do que deu alguma vez, não se dão rosas hoje para dar um deserto amanhã, Não haverá deserto,» p.245). Cruzamento de planos temporais narrativos distintos, muitas intertextualidades (Eça, Balzac, Garrett, Pessoa, Dante, Camões, Camilo, Salomão…), meta-reflexões («o mistério da escrita está em não haver nele mistério nenhum» p.181), desvarios, enfim, Saramago no seu melhor. Para despertar o apetite: «Enquanto não vier o poeta D. Dinis a ser rei, contentemo-nos com o que há.» p.288 – há que se refere? Descubram, lendo!!!


5 – O Rio, Estórias de Regresso, Arlindo Barbeitos, INCM****

argumentos: um conjunto breve de histórias breves – como a poesia dele, concisa. E histórias interessantes que valem pelo insólito, pelo desfecho inesperado, mas também pela construção do texto e suas belezas íntimas. Gostei em especial de «A Bruxa», «O Carro», «O Camião de Cerveja» e «A Música». Mais: «Amaram-se, julgo que sofregamente, enquanto seres que o carácter e a geografia traziam solitários e um amor serôdio fez encontrar. Quiçá o álcool ajudou.» p.12.


6 – As Passagens do Tempo, Nuno Artur Silva, Cotovia****

argumentos: ficções breves, muito breves. Mas muito interessantes, com uma lógica própria, diferente da comum. Mais: «Os diferentes lugares do mundo estão a ser ocupados por lugares sempre iguais. Lugares sem nomes, lugares nenhuns […] esses não são os lugares no espaço, mas lugares no tempo.» p.17 ou «De pessoa para pessoa também há uma diferença horária, de minutos, segundos, menos de um segundo, quase imperceptível. Uma diferença não assinalada pelos relógios. Impossível de medir, a não ser pelo amor, sempre tão desacertado.»p.18. O livro inclui ainda uma série de fotografias de Raquel Porto.


7 – O Capote, Nikolai Gógol, Assírio & Alvim****

argumentos: um texto inovador e incontornável da literatura mundial. A história de um homem, Akáki Akákievitch, e do seu mundo cinzento, grotesco, sufocador, e do seu capote, o velho substituído pelo novo. E de um tom a lembrar-me de um certo Albert Camus. E um final surpreendente, de natureza fantástica, que rompe com toda a acção anterior… Muito bom, tão bem feito!


8 - Cães Pretos, Ian McEwan, Gradiva*****

argumentos: depois de A Criança no Tempo (um dos meus livros de eleição) e de O Sonhador (ainda não li Expiação), este Cães Pretos veio mostrar-me mais uma obra extraordinária de Ian McEwan, que se arrisca assim a entrar para a lista dos meus autores favoritos (se é que tal lista existe). História em vários compassos de um homem que perde os pais aos oito anos e adopta todos os outros como seus, incluindo os sogros, com quem vai tendo uma relação muito especial, sobretudo com a sogra, dominada pela recordação do momento que lhe mudou a vida, o encontro com os «cães pretos». Muito bom, com pormenores amorosos belíssimos. Mais: «Quando aprendemos a dar um nome a uma parte do mundo, aprendemos a amá-la.» p.68 ou «Olho para uma rapariga e avalio-a pela quantidade de June que há nela.» p.73.


TV:

Destaque para dois regressos, de séries de que já falei outras vezes e por isso fico-me por aqui. O regresso sem pausa de Anatomia de Grey***** e o regresso de O Amor no Alasca***** (apesar de Irmãos e Irmãs ter de ir embora…).


Música:

Gil do Carmo, Sisal*****

argumentos: uma voz interessante e talentosa, uma fusão entre a pop e o fado, letras poéticas e com pormenores risíveis, um trabalho pouco comum e inovador, de qualidade. Gil do Carmo, que já conhecia como letrista de Mariza e outros, com uma ou outra música por aí, em novelas, surpreendeu-me há uns tempos com uma música numa telenovela da TVI que a minha Mãe via: Ilha dos Amores. E a música era «Na Maré de Ti». E noutro sítio qualquer ouvi outra, «E se esta noite». Agora que já tenho o álbum e o ouvi inteiro, e já me tem feito companhia, destaco também: «A2», «A roda da rosa», «Chegada a casa», «Renea», «Quem me dera ser o fado»…


Cinema:

Tropa de Elite****

argumentos: um filme brasileiro de elevada qualidade, com uma filmagem turbulenta que acompanha o ritmo alucinante da vida nas favelas e dos policiais que nelas têm de intervir. Violência, idealismo, choque de visões. Um filme bastante bom, a fazer lembrar outros filmes brasileiros como Cidade de Deus, numa linha moderna sobre a violência urbana, a droga e as armas. Com Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, entre outros. Só me aborreceu a música… «O rap das armas» é uma seca…


Exposições:

A Consistência dos Sonhos – ver informações aqui.

Colecção Berardo – no Centro Cultural de Belém, com entrada gratuita. Pode ainda ver-se outras exposições, como Utopia e Le Corbusier. Eu só vi a parte da Colecção Berardo, desta vez, porque hei-de voltar, com mais tempo... E ainda hei-de falar à frente desta visita, a outros sítios de Lisboa. Mas tem coisas muito interessantes!

domingo, dezembro 21, 2008

Sugestões de Dezembro

Algumas das coisas que preencheram este mês:

1 – A História de Van Gogh e o Rapaz dos Girassóis, Laurence Anholt, Círculo de Leitores****

argumentos: um livro muito bonito visualmente, com ilustrações (do próprio Laurence Anholt) que partem dos quadros de Van Gogh para recriar um tempo da vida do pintor: a da sua estadia numa aldeia e o relacionamento desenvolvido com o rapaz os girassóis. Revela a importância da arte e a incompreensão a que as novidades são votadas, ou seja, o problema da aceitação da diferença. Ver mais em: http://www.anholt.co.uk/

2 – «Ficções 3», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente****
3 – «Ficções 4», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente****

argumentos: gosto muito destas revistas/livros que apresentam contos inéditos, contos traduzidos pela primeira vez ou melhor traduzidos do que nas versões já existentes, contos recuperados das colectâneas de diversos autores. Destes dois volumes destaco os contos de Maupassant, Dino Buzatti, Mário de Carvalho e Ambrose Bierce, Henry James, Marcel Aymé, Margaret Atwood e Hélia Correia. Mais: «Tirando o moscardo, a única vez que vi um bicho a voar sem ter com quê, foi uma cobra num livro de Lídia Jorge. Mas isso era ficção, a mesma autora não o nega.» (Mário de Carvalho, 3, p.96); «Na altura, ainda não sabia que quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre a falta de algo onde quer que esteja.» (José Luís Peixoto, 3, p.127) e «Aquilo a que chama morrer é apenas a última dor na realidade, não existe “morrer”» (Ambrose Bierce, 4, p.10).


4 – Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto, Caminho****

argumentos: mais um interessante livro de Mia Couto, mas pareceu-me um pouco inferior aos anteriores. Mas ainda assim um excelente livro: leitura facilitada pela predominância do diálogo e pelo tom de mistério da trama, já que começam a surgir dúvidas sobre a verdade da realidade enfrentada por um médico que se deslocou a Moçambique para recuperar o amor de uma moçambicana que conheceu em Lisboa, e que espera que ela regresse de um estágio, ao mesmo tempo que vai conhecendo os mistérios de Vila Cacimba. As personagens são muito interessantes, existe humor e profundidade – a leitura rápida pode deixar alguns pormenores não revelados – e frases daquelas que se recortam para álbuns e diários: «Eu só melhoro quando deixo de ser eu.» (p.13), «agora sofro de rugas até na alma» (p.29), «Todos sabem: a casa só é nossa quando é maior que o mundo» (p.50), «o meu medo não é de morrer. o meu medo é ter de nascer de novo.» (p.135) e «Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que e sempre tardio e pouco.» (p.155).


5 – Dacoli e Dacolá, Miguel Horta, Pé de Página***
6 – O Afinador de Palavras, Rui Grácio e Catarina Fernandes, Pé de Página***
7 – Os livros que gostam de contar histórias, Fátima Éffe & Zé-Luís, Pé de Página****

argumentos: uma série de livros de leitura encomendada pela coordenadora de Português do segundo ciclo para escolher qual destes para o quinto e para o sexto – para uma actividade de leitura na sala de aula seguida de conversa com o autor ou assistência de uma pequena representação teatral. Apesar de o primeiro ter histórias bonitas, e o segundo umas imagens belíssimas (tristonhas), eu optei nitidamente pelo terceiro, sobre os livros (de bolso, em branco, as letras e as palavras, etc. etc…) Mas o terceiro fica para o sexto, porque é um pouco mais extenso e exigente. Mais: «A nossa terra é onde está o nosso coração e o nosso coração sabe sempre o seu lugar» (Miguel Horta, p.5), «Na realidade, as palavras, tendo o mesmo som e as mesmas letras, nem sempre significam o mesmo. Podem ter muitos significados, consoante as companhias com que andam…» (Rui Grácio e Catarina Fernandes, p.10) e «O livro não é apenas um livro» (Fátima Éffe & Zé-Luís, p.8).


8 – A Viagem do Elefante, José Saramago, Caminho*****

argumentos: um grande romance, mais um. Este conta a longa e difícil viagem do elefante salomão (letra minúscula de propósito), mais tarde dito o solimão, através de portugal, espanha, itália, até à Áustria, que é enviado a maximilano da áustria como presente do rei d. joão III. Obviamente a viagem do elefante é apenas o pretexto para uma série de meditações sobre o ser humano, espelhado ou não no comportamento e natureza do elefante, mas também críticas ao poder político e religioso, onde prepondera, a meu ver, o humor de uma ironia distanciada mas também compadecida. Um excelente romance de um dos nossos melhores escritores. Mais: «Nem tudo são letras no mundo, meu senhor, ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético, Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu,» (p.19); «costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas.» (p.75); «Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades.» (p.147) e, entra muitas outras, «Ter de pagar pelos próprios sonhos deve ser o pior dos desesperos.» (p.97).


9 – Trabalhos e Paixões de Benito Prada, Fernando Assis Pacheco, Asa****

argumentos: um romance de tom picaresco, muito bem construído, sobre a família Prada, centrada no filho mais velho, Benito, que segue as pisadas do pai e deixa a Galiza para trabalhar em Portugal, mas de modo permanente. Mais do que os amores, temos a sua vida de trabalho, os sofrimentos e as conquistas, o valor da família, tudo num contexto histórico que ganha algum relevo, por vezes: Primeira República, emigração massiva dos galegos, Sidónio Pais, o Estado Novo, Franco… Com aspectos curiosíssimos, como «mas era apenas sonho, e os sonhos doem como não doem as picadas das vespas» (p.47), «Gasta-se muita literatura a falar do medo.» (p.168) e «Tristeza tão triste nunca saiu nos livros.» (p.224).


10 – A Musa Irregular, Fernando Assis Pacheco, Asa***

argumentos: poesia reunida de Fernando Assis Pacheco. Poesia de amor, de medos, de paz e de guerra, de dor, de vida e morte. Poesia sobre tudo, em sumo. E vale a pena conhecê-la, de resto. De resto, alguns poemas ainda virão para este blogue.

Cinema:

O Empregado do Mês***
Uma Série de Desgraças****

Música no Coração*****
O Feiticeiro de Oz****
A Minha Super Ex****


TV:

Clara e Francisco****
Robin Hood****
O Triângulo Jota***

sexta-feira, outubro 31, 2008

Sugestões de Outubro

Terminada A Bíblia, de volta à poesia (após um mês de ausência), com surpresas pelo meio. E o regresso ao fado. Um mês com muitas aventuras, mas com balanço positivo. Segue-se mais. Ficam aí as sugestões para os vossos meses:

Livros:

1 – A Bíblia (Epístola de S. Tiago, Epístolas de S. Pedro, Epístolas de S. João, Epístola de São Judas, Apocalipse), Paulus****

argumentos: já é recomendável só por serem os últimos livros, mas além disso recomenda-se porque dão mais (do mesmo ou não) sobre a formação da Igreja, de modo pessoal, individual, com linguagens próprias. Destaque maior para Apocalipse, atribuído a São João e um dos textos mais conhecidos, citados, parodiados do conjunto completo. Mais: «aquele que duvida é como a onda do mar que o vento leva de um lado para o outro.» (Tg 1, 6) e «No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor.» (I JO 4, 18).


2 – O Ingénuo, Voltaire, Quasi/DN****

argumentos: não é de agora a minha paixão pelos contos/novelas de Voltaire. Zadig e Cândido já fizeram as minhas delícias no passado. Desta vez, embora com um final trágico, a história tem alguns dos mesmos ingredientes: humor, crítica (política, social, religiosa) e uma série de situações bizarras que se encadeiam logicamente com uma coerência notável (falo de acasos, coincidências, mal-entendidos, ingenuidades...). Gostei muito e recomendo, juntamente com os outros títulos. Mais: «discutiu mas acabou por reconhecer o seu erro (caso bastante raro na Europa entre as pessoas que discutem)» p.19, «Leu histórias, entristeceram-no. O mundo pareceu-lhe preverso e miserável. Realmente, que é a história senão um quadro de crimes e infortúnios?» p.48, «Para alguma coisa serve a infelicidade.» p.93.


3 – O Jardim Sem Limites, Lídia Jorge, Planeta de Agostini****

argumentos: fiz as pazes com Lidia Jorge ao ler este livro. Uma casa devoluta em Lisboa (a Lisboa que já conheço melhor e que se me afigura agora evocativamente) onde co-habitam várias personagens, cada uma com as suas frustrações e desejos, observadas e contadas por uma voz que nunca ganha realmente corpo ou identidade e por uma máquina Remington. Gostei especialmente do Static Man (que acaba por ocupar grande parte da história) e da dona da casa e suas deambulações. Mais: «Tens a certeza de que estás a escrever sobre factos que podiam ter acontecido? Se não podiam, então rasga, é porque não presta...» p.16, «Deve-se pedir às pessoas que ainda se lembram, precisamente, que não se lembrem mais, para não nos atrapalharem a vida.» p.56 e «É uma coincidência. Isto é, não existe Deus, mas para nos confundir existe a coincidência.» p.387.


4 – O Ano de 1993, José Saramago, Caminho****

argumentos: mais uma obra do escritor que mais me ocupou este ano. Desta vez um livro que está classificado como poesia, em prosa, é certo, nuam espécie de versículos. Uma história corre estes versículos, a da destruição do mundo tal como o vemos. Algo apocalíptico com passagens avassaladoras: o interrogatório, a violação, o fogo, a árvore, a fertilidade e a menstruação... Recomendo vivamente. Mais: «Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos» p.42, «Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada» p.72 e «E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade.» p.87.


5 – Obra Quase Incompleta, Alberto Pimenta, Fenda****

argumentos: nesta recolha da obra (até 1990) há de tudo: os poemas (das mais diversas direcções que o poeta seguiu), os textos de reflexão sobre a poesia e a sua poesia, as fotos dos momentos em que fez sessões de poesia ao vivo. Irónico, provocador, humorístico, insólito, perturbador... Podem ver/ler aqui alguns poemas escolhidos. Mais: «se o poema é tudo, como dizer seja o que for sobre ele? e se por outro lado é fragmento (coisa nunca verdadeiramente começada nem verdadeiramente acabada) como dizer também seja o que for sobre ele?»p.255.


6 – O Sonho dum Homem Ridículo, Dostoievski, Quasi/DN***

argumentos: dois contos aqui publicados, diferentes, mas ambos interessantes. Embora predomine o onírico utópico, há um forte realismo com incidência nos males da natureza e da vida humana que vale a pena ler antes dos grandes romances do senhor. Mais: «Naquele momento era para mim absolutamente evidente que a vida e o mundo dependiam quase unicamente de mim. posso dizer ainda mais: que o mundo, agora, parecia quase criado para mim apenas... pois, quando tivesse dado o tiro, o mundo deixaria de existir, pelo menos para mim.»p.21.


7 – O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Mr. Hyde, R. L. Stevenson, Quasi/DN*****

argumentos: gostei muito desta história que já conhecia de alguns sítios, talvez filmes, talvez animações, talvez de resumos, com certeza da cultura geral. Um interessante jogo/estudo (o que quiserem) sobre a dualidade do ser humano e da coexistência do bem e do mal em cada um de nós. Com uma nota de suspense e mistério, o livro só peca por ser tão pequeno... ou talvez não. Mais: «Tenho alguma simpatia pela heresia de Caim (...). Deixo o meu irmão ir para o inferno da forma que melhor lhe aprouver.» p.7 e«O homem será, um dia, conhecido como uma mera comunidade de habitantes multifacetados, incongruentes e independentes.»p.80.

8 – História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luís Sepúlveda, Asa*****

argumentos: ora mais um livro daqueles de que toda a gente fala e diz quão fantástico é e coisa e tal, que me deixou sempre de pé atrás. Mas é um gato, e convenhamos, uma gaivota, e ambos fazem parte da minha vida (a gaivota de uma fase que já ficou lá a atrás). E adorei o livro! Gato Zorbas, podes vir cá para casa que eu deixo. Tudo muito simples, muito eficaz, muito bonito. ai a inveja a certos textos... E entra-se nele já com a ideia: como é que um gato vai ensinar uma gaivota a voar? Mas afinal é bem mais do que isso! Mais: «gostava especialmente de observar as bandeiras de barcos, pois sabia que cada uma delas representava uma forma de falar, de dar nome às mesmas coisas com palavras diferentes.» p.12 e «Ouvi-o ler o que escreve. São palavras belas que alegram ou entristecem, mas que produzem sempre prazer e suscitam o desejo de continuar a ouvir.»p.107.

9 – Quatro Contos Dispersos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Figueirinhas****

argumentos: quatro contos publicados em revista e um numa edição da EXPO'98, agora reunidos num único volume. «Era uma vez uma praia atlêntica» tem a força das narrativas marítimas de Sophia e uma preocupação com a justiça, com uma belíssima descrição de um homem que se aproxima à de«Homero» dos Contos Exemplares. Outros dois, publicados na Colóquio Letras, intitulam-se «Leitura no Comboio» e «O Cego». Mas queria destacar sobretudo o outro conto, projecto de um maior que não teve término, com o título «O Carrasco». Gosto imenso de toda a descrição dos efeitos físicos e psicológicos do carrascos sobre as pessoas e as coisas com quem contacta, muito bom! E vale a pena ler Sophia, sempre! Mais: «Mesmo envelhecido era um homem belo, alto, de ombroa largos e costas direitas. Tinha os olhos de um cinzento nebuloso como o mar de Inverno mas, às vezes, um sorriso os azulava e então pareciam muito claros na pele quimada. A sua estatura, o seu porte de mastro, as suas veias grossas como cabos e os anéis da barba e do cabelo, a aura marítima que o rodeava, davam-lhe um certo ar de monumento manuelino mas, simultaneamente, tinha a beleza tosca e tocante de um barco de pescadores, cosntruído com as mãos, pintado com as mãos e deslavado por muito mar e muitos sóis.»p.40.

10 – Leitão Ciclista em busca do paraíso, Arsénio Mota, Pé de Página***

argumentos: a pedido da direcção do colégio, para ver se convidávamos o escritor a vir à escola. O meu parecer foi positivo, porque o livro é muito bem feito, engraçado, e coloca o problema da relação da pessoa com a sua terra natal: um leitão que gosta de andar de bicicleta decide ir em busca da terra da mãe, um pequeno paraíso terrestre, mas descobre uma realidade bem diferente... Mais: «queiramos ou não, ficamos a pertencer pelo nascimento à nossa pátria, à nossa língua e cultura. E mais, ficamos a pertencer ao nosso tempo, pois outro não temos!» p.36.

Música:

Mariza - Terra*****

argumentos: ora finalmente cá tenho o novo cd de Mariza. Estranhei ao início: demasiados ritmos alternativos incorporados por aqui: mornas de Cabo Verde, o jazz, o flamengo, eu sei lá mais o quê. Mas a voz dela une tudo com uma harmonia que enlaça e não permite escapar. Gosto, em especial, de «Minh'alma» e «Se eu mandasse nas palavras», mas também de «Já me deixou», «Rosa Branca», «Tasco da Mouraria», «Alfama», «Alma de Vento» entre outras. A grande senhora está de volta, e bem!


Cinema:

Uma estranha passagem por Veneza***, de Paul Schnader, com Rupert Everett, Natasha Richardson, Helen Mirren e Christopher Walken (1990 - muito estranho, mas interessante, com belas paisagens de Veneza. Com argumento de Ian McEwan e Harold Painter).
O Amante de Lady Chatterley***, de Pascale Ferran, com Marina Hands, Jean-Louis Coullo'ch, Hippolyte Girardot (2006, uma de várias versões do romance de D. W. Lawrence - um pouco estranho, sobretudo o final e a primeira cena de sexo...).

domingo, setembro 04, 2005

tormes 2005




(fotos:
1-feq
2-piscina da quinta
3-vista da casa da ermida)

Tormes 2005

Pois aqui fica o comentário a uma semana muito boa… podia ter sido melhor… ao lerem percebem porquê…

Domingo: cheguei à Ermida às 9:42, vindo da Régua. A Marta chegou um minuto depois, vinda do Porto. Com ela vinha a Filipa, de Setúbal (Uni Évora). Conhecemos algum do pessoal e não deu para ver quase nada da quinta… O meu colega de quarto era o Manuel, professor-estudante caboverdeano, muito divertido. O meu quarto era bastante grande, ao contrário de outros…
A quinta é muito gira! Grande jardim, piscina, o rio de um lado, as linhas do comboio do outro, a casa dos moinhos do rio Teixeira :), a casa do Túnel,…

Segunda-feira: o pequeno almoço era servido às 8:15, às 9h estávamos no autocarro, às 9h30 estávamos na Fundação, após um agitado percurso pelo “pavimento degradado” (assim rezavam as placas da estrada).
A Fundação está sediada na antiga casa que a mulher de Eça recebeu de herança. Eça não chegou a viver lá, só passou por lá algum tempo, a ver o estado da quinta (que era muito mau…). Agora está fantástica: a quinta produz o Vinho de Tormes, os lagares: de um lado foram transformados na loja de recordações, do outro foram transformados num pequeno auditório e na fundação em si. A casa foi mobilada com coisas vindas da casa de Eça em Paris, pouco do lá estava era da própria casa.
Sessões de trabalho: das 9h30-11h00, 11h30-13h00; 15h00-17h00.
No primeiro dia a Professora Beatriz Berrini (Brasil) falou-nos de A Relíquia e deu-nos uma panorâmica geral sobre a obra de Eça. De tarde a Dª Maria do Carmo, a mulher do falecido filho de Eça, e presidente da fundação, leu um artigo de Helena Cidade Moura sobre a cidadania na obra do autor; vimos um filme sobre ele (o pessoal quase todo a dormir), visitámos a casa.
À noite fomos jantar à Casa do Lavrador: jantar à século XIX: arroz de feijão com pataniscas de bacalhau e leite-creme de sobremesa. Todos adoraram o menu e o sítio, que tinha uma espécie de pequeno museu, e candelabros (não havia electricidade, nem lavatório – tinha de ser um com um jarro, e as casa de banho é melhor nem comentar…).
Altas conversas com a Marta, Manuel, Ana (Covilhã, Uni Lisboa) Paula e Cláudia (as manas dos Açores)…

Terça-feira: De manhã: Beatriz Berrini a falar de A Relíquia (o pessoal desesperou um bocado…). Fizemos um trabalho de grupo sobre o primeiro capítulo da obra. De tarde foi a Professora Fátima Outeirinho (Univ. Porto), que nos falou do Eça cronista – muito bom!
Na quinta, alguns foram à piscina – mas esteve um tempo ranhoso durante o curso! Eu, a Marta e o Robert (EUA) fomos em demanda :) dos moinhos do rio Teixeira e só encontramos franceses… Grande noite de cantorias dos brasileiros e dos caboverdeanos. Altas conversas até tarde: eu, Marta, Ana.

Quarta-feira: a manhã foi de… Beatriz Berrini! O Quixotesco e o Pícaro em… A Relíquia! De tarde concluímos o Eça Cronista.
Tivemos também um passeio por St.ª Maria de Cárquede e por Resende, onde jantamos (o vinho, meu Deus, era da Quinta do Carqueijal, produzido e embalado na Quinta da Seara d’Ordens – Poiares!); vimos também uma exposição de fotografia. Choveu bastante. Altas conversas, agora mesmo a sério, até altas horas, no quarto da Marta, entre nós, o Manuel, a Cláudia e a Paula.

Quinta-feira: a recepção de A Relíquia, pela professora Beatriz Berrini e ainda um pouco de A Ilustre Casa de Ramires. De tarde, Maria João Reynaud falou sobre “No Moinho”. (r. b. pelo menos seis vezes…). Falou muito comigo antes da sessão… Adormecidos: dez pessoas, incluindo a Dª Maria da Graça; foi hilariante!!!
Tivemos depois uma visita a Baião. Fomos a uma Feira de Artesanato onde praticamente só havia comida e vinho… Vi o Ricardo, um colega meu da Residência e da FLUP… Jantámos lá, e fomos surpreendidos por um trio popular: acordeão, ferrinhos: o delírio ver caboverdeanos, brasileiros e a indiana a dançar aquilo…
Já na quinta, grande loucura a última noite: invasão dos quartos do pessoal, cantorias cá fora, agora também em Português Europeu.

Sexta-feira: A Professora Fátima Marinho falou-nos de A Ilustre Casa de Ramires, sobre o dandismo e um pouquinho sobre o conto “A Perfeição”. A Prof. Reynaud e a Prof. Marinho foram substituir a Professora Isabel Margarida Duarte, que ficou doente:(
Fomos levar o pessoal ao comboio das três e meia para o Porto, alguns deles ainda tiveram coragem para comprar cavacas de Resende (comíamos aquilo todos os dias ao pequeno-almoço!). Às quatro e meia fui eu apanhar o comboio para a Régua. As açoreanas foram comigo, mais a Rita (Univ. do Algarve) e a Manju (Índia – a fazer uma tese sobre Saramago!)…

Tenho ainda de referir as pessoas do curso, que me ensinaram coisas e me marcaram: Ana Varela (S. Tomé), Rebecca (EUA), Lúcia (Brasil, a estudar agora na Uni Porto), a Da Luz (Cabo Verde), Fátima (Brasil), Sara (Braga), Manuel (Cabo Verde), Manju (Índia), Robert (EUA), Telma (Coimbra)… enfim…

em especial: Filipa, Paula, Ana Sofia e a minha Martinha…

domingo, agosto 31, 2008

Sugestões de Agosto


Mês de fim de festa. Assim mesmo, da festa da irresponsabilidade e do protelar até à última – tem corrido sempre bem, até agora. Menos coisas este mês, pela vida exterior que tive o prazer de desenvolver. Mas ainda assim, tempo para tudo – afinal o problema não é o tempo mas aquilo que fazemos dele. E eu fiz isto, entre outras coisas:

Livros:

1 – A Bíblia (Actos dos Apóstolos), Paulus***

argumentos: o seguimento dos evangelhos, mais concretamente do de Lucas, é o relato das viagens e palavras (=actos) dos discípulos de Jesus, animados pelo Espírito Santo que os ajuda e incita a espalhar a mensagem de Jesus pelo mundo. Focos em Pedro e, depois, em Paulo.


2 – Prosas Bárbaras, Eça de Queirós, Lello & Irmão****

argumentos: continuação do amigo Eça. Desta vez um livro que resulta de uma série de textos primeiros que Eça publicou, de nítida estética romântica, sobre arte, amor, vida: «Esta história é de há seiscentos anos – e de ontem à noite…»(p.55). Alguns aproximam-se do conto, outros da crónica, outros da carta. Mais: «É na natureza que se deve procurar a religião: não é nas hóstias místicas que anda o corpo de Jesus – é nas flores das laranjeiras.»(p.104).


3 – Ariel, Sylvia Plath, Relógio D’Água***

argumentos: conjunto de poemas de uma grande escritora norte-americana, talvez mais conhecida pela sua vida com fim trágico do que pela obra – mas vale a pena! Densa, difícil – pode ser que sim, mas tudo o é, quando se aprofundam sentidos. Dela postei aqui. Esta edição tem a vantagem de ser bilingue.


4 – Cartas de Aniversário, Ted Hughes, Relógio D’Água***

argumentos: conjunto de poemas-cartas dirigidas quase exclusivamente a Sylvia Plath, com quem foi casado. Obra e vida fundem-se sem limites bem-definidos. Tem textos muito interessantes, dos quais postei um aqui. Mais: «Não nos apercebemos/que os narcisos são um/fugaz vislumbre da eternidade.»(p.217).


5 – Se Isto É um Homem, Primo Levi, Público/Mil Folhas*****

argumentos: a obra extraordinária de um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocausto. Mas não é mais um simples relato do Holocausto; é um acto de fé na natureza humana. Difícil de ler pelo choque que provoca, mas impossível de deixar. Mais: «Muitas coisas então foram ditas e feitas entre nós; mas é bom que delas não se guarde memória»(p.13); «Então pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem.»(p.24); «As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem»(p.135).


6 – O Deus das Moscas, William Golding, Público/Mil Folhas*****

argumentos: um romance do pós-guerra marcado pela actualidade dos temas. O motivo central é o mal, em estado puro, que se apodera das crianças perdidas numa ilha desconhecida - mas que também pode ser a história da condição humana. Com um tom aparentemente ligeiro, que se adensa com o evoluir da permanência da ilha e os contactos uns com os outros. Duro, enigmático, extraordinário. Mais: «Rafael chora o fim da inocência, o negrume do coração do homem e a queda pelo ar daquele verdadeiro e sensato amigo que se chamava o Bucha»(p.222).


7 - Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio, INCM****

argumentos: ainda não terminei o livro mas gosto muito. A história de várias famílias nos Açores no início do século XX, centrada sobretudo numa personagem feminina chamada Margarida, descrita pelo narrador e pelas personagens de uma forma que a enche de particularidades especiais («encheu a testa de uma reticência triste»(p.66)). Mais: «O amor não queria confissões explicadas no vão de uma janela, nem alegorias literárias de um querer-bem concebido como matéria de um mito, ligado à rocha das ilhas e às noites de mau tempo no Canal.»(p.152). Muito interessante, com um prefácio de José Martins Garcia.


TV:

Os amigos de Brian (RTP2)****

argumentos: em repetição, nas tardes da Dois. Não vi quando deu à noite, mas estou a ver agora. E gosto bastante pelas histórias cruzadas de um grupo de amigos, seus problemas quotidianos e existenciais. Não admira que haja problemas por causa de Marjorie (Sarah Lancaster)– a jovem fantástica que por lá anda e que o italiano (Raoul Bova) se tenha casado com uma mulher mais velha – extraordinária (Rosanna Arquette). Pena que o italiano tenha morrido, até porque era das minhas personagens favoritas na série… Mas recomenda-se! Ainda com Barry Watson, Matthew Davis, Rick Gomez, Amanda Detmer, entre outros.

Foi o mês de Agosto de um ano olímpico – já se imagina o que andei a ver. Daqui a quatro anos há mais!


Música:

Deolinda, A Canção Ao Lado*****

argumentos: sobre os Deolinda já falei aqui. Mais não posso dizer, se não que são muito bons e que tenho ouvido muito, sobretudo «Eu tenho um melro» e «Movimento Perpétuo Associativo». A música portuguesa em grande!


Cinema:

Os Seis Sinais da Luz, de David L. Cunningham (filmes onde o fantástico domina conquistam-me facilmente. Gostei também deste, simples e interessante)****
A Time To Kill, de Joel Schumacher (apesar do mundinho dos advogados e tal, intenso)****
A Rainha das Andorinhas (animação Japonesa com desenhos bonitos e uma historinha com moral fácil, mas tão bonito!)****
A Chave Mestra, de Iain Softley (filme de terror sem monstros e sem sangue! Assim já vale mais a pena!) ***
La messa è finita, de Nanni Moretti (ele é doido, mas bom)***
Palombella Rossa, de Nanni Moretti (idem, ibidem)***
A Múmia 3 - a tumba do imperador dragão, de Rob Cohen (sem Rachel Weisz não é a mesma coisa. Mas é mau não apenas por isso…)**
Uma Noite no Museu, de Shawn Levy (Ben Stiller e uma cambada de personagens históricas em contacto. Gostei, no geral) ***
Casino Royale, de Martin Campbell (por favor…)**
Morte num Funeral, de Frank Oz (uma comédia inteligente)****
Bee Movie, de (adoro filmes de animação bem feitos)*****
The Mist, de Frank Darabont (se não tivesse monstrinhos visíveis seria bem mais interessante, e aquele final…)****
(alguns dos filmes em dvd com tradução em Português do Brasil...)

sábado, janeiro 21, 2012

5 poemas de João Luís Barreto Guimarães



apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia: acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentir os movimentos e escrever a uma

amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.

vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim
mesmo confundir todos os relógios da rota só
apenas para ter mais tempo para ficar. o resto é saber

o alfabeto de cor até ao fim para que as palavras vão
nascendo devagar até ser sonho no sono dos dias
ou ser sono dentro de mim

***

um gato assim era quase um sítio perdido entre
o pelo e o acordar pequena fábula sonhada por
entre as patas quem o enviou quis ensinar ao

mundo o sentimento da inveja. a mãe tirava da
boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia
na hora a que chegava das sete vidas paralelas.
um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo

sem se despedir ou pagar o que levou:
a coleira nova e o guizo ................... 150$00
duas latas de comida ...................... 395$00
um saco de areia higiénica ............... 200$00

dá notícias pedaço de deus se acordares desse
intrigante sono repousando de (qual?) cansaço
que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?


****

deixar assim como que por mistério as
mãos tomarem o atalho do coração como
se os olhos fossem sábios para isso e
nada menos que tudo exigíssemos: sermos

eremitas nos nossos próprios sentimentos
(rasgar desenhos do pôr do sol com um
arpão no coração) e mesmo o céu: trazê-lo

sempre azul sempre muito mais azul. é
dessa cor perfeita que falo por imagens
de dentro é esse o lugar onde as rochas
são grãos de areia no tempo. o pescador

sempre regressa (mil viagens passadas)
para pousar os sentidso e medir rumos
pelo pulso das dunas no coração

****

9 de novembro

O vendedor de castanhas quer duzentos pela dúzia. Embrulha-as de amarelo se a compra é feminina, em folhas telefónicas brancas se quem as descasca é rapaz.
A gata escapa do frio e entra pelo Café. Aproveita o caixilho para afagar todo o pelo, do focinho à cauda ao focinho. Deixa-se ficar ali, circulando entre as mesas, atenta à pressa das mãos que celebram o outono com migalhas já maduras.
O letreiro à entrada diz que bicho algum pode entrar. O mais certo é que a gata ainda não saiba ler.

***

A noite passada enviei um SMS ao meu Pai
mas ele não respondeu. Já kontava kom issu. O
corpo dele baixou faz
outro mês amanhã
nenhum de nós destinou o Sony Ericsson dele
ao rectângulo do caixão. Era
de um género antigo (outrossim
muito estimado)
algumas horas ligado mesmo sem conversação
começava a avisar: bateria esgotada.
Duvido porém que a rede fosse boa
lá no fundo.
Quando descia aos arrumos era o que acontecia.
Sucede que agora se quero falar com ele
tenho de ligar a Deus. E eu não falo com Ele.
Não quero ter de calar (olhando-O
olhos nos Olhos:)
«uma morte nunca é justa»
«foi demasiado cedo» «já agora
passe aí a meu Pai».
Já tenho ligado para Deus
parece dar sempre ocupado.


João Luís Barreto Guimarães, Poesia Reunida, Lisboa: Quetzal, 2011: 31, 53, 89, 112, 274

segunda-feira, março 31, 2008

Sugestões de Março


Nem sempre muito actualizadas, é certo. Mas o tempo é aquela coisa escorregadia que me escapa entre os dedos, sobretudo quando o deixo fugir porque me empreguiço. E para quem tem mais facilidades de livrarias, cabo, aluguer de filmes e assim as susgestões podem parecer muito atrasadas... Aceitam-se também outras sugestões.


Livros:

1 – A Bíblia (Jeremias, Lamentações, Baruc), Paulus

argumentos: Em Jeremias vi sobretudo o profeta em que não se acredita e sofre nas mãos dos incrédulos, e se tem vontade que as suas palavras ditadas por Deus aconteçam o mais rápido possível (já que não há duvida de que acontecerão). Lamentações é um conjunto de cantos fúnebres sobre a destruição de Jerusalém e vale por alguns versos como: «Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede:/ haverá dor semelhante à minha dor?» Lm 1, 12-13. Baruc, em prosa e verso, dá-nos uma ideia do sentimento de exílio dos israelitas espalhados pelo mundo. Insistência na visão horrível das pessoas que chegam «ao ponto de comer a carne de seus próprios filhos e filhas» Br 2, 3.***


2 – Palomar, Italo Calvino, Planeta DeAgostini

argumentos: o nome Italo Calvino deveria chegar, mas está bem: é um livro pequeno feito de pensamentos, observações, experiências de um peculiar Palomar que nos vai dando conta do seu modo de ver e estar no mundo, através da descrição, narração e meditação. Reflexões muito interessantes sobre o silêncio que usarei na minha dissertação. E ainda: «estar morto, significa habituar-se à desilusão de se sentir igual a si próprio, num estado definitivo que já não pode esperar modificar.»p.127****


3 – Os Achados da Noite, José Jorge Letria, Prémio Cidade de Ourense

argumentos: poesia precisa-se mas eu não sei recomendar livros de poesia… Muito menos quando são individuais (e não antologias ou a compilação da obra completa…). Por isso ficam aqui só alguns versos de que gostei: «A minha idade é a de todos os medos»p.15; «Não ouso sair/ de onde estou e estou tão só que não suporto/ o eco grave de uma voz sobreposta à minha voz»p.93***


4 – Poemas Completos, Manuel da Fonseca, Portugália

argumentos: obra que documenta, poesia com personagens, o Alentejo, insatisfação, ansiedade, vida, raiva contra o mundo… expressões que só fazem sentido lendo a sua poesia. «vinham as naus no silêncio das coisas mortas./ Os homens tinham esquecido as palavras de navegar»p.19; «Ao menos se alguém morresse/ e esse alguém fosse um de nós/ e esse um de nós fosse eu…»p.103; « - em que dia nos vamos suicidar?»p.138.***


5 – O Estrangeiro, Albert Camus, Público/Mil Folhas

argumentos: finalmente chegou a vez de Camus. E comecei logo por um que adorei. Fiquei conquistado por Mersault e sua maneira de estar no mundo e se relacionar com os outros, indiferente, indolente, apático. E a sensação de revolta pela incompreensão deste ser demonstrada em tribunal, onde tudo é deturpado, ou não fizesse ele parte do ciclo temático do absurdo. Excelente texto para se estudar as relações Literatura-Direito. «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade»p.73.*****


6 – A Peste, Albert Camus, Diário de Notícias

argumentos: e continua a leitura de Camus. E mais um grande livro, desta vez do ciclo temático da rebelião. Uma cidade assomada pela epidemia da peste e as reacções das diversas personagens à situação de perigo, isolamento e distância dos entes queridos, em que a condição humana é posta à prova. Lido como uma alegoria em relação à ocupação alemã, pode ser lido muito para além disso. Mais: «sem memória e sem esperança, instalavam-se no presente. A peste, é preciso dizê-lo, tirara a todos o poder do amor, e até o da amizade. Porque o amor exige um pouco do futuro e, para nós, já não havia senão instantes.»p.132; «Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber porquê.»p.152; «há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.»p.222.*****


7 – A Queda, Albert Camus, Livros do Brasil

argumentos: deste não gostei tanto, mas ainda assim é muito bom. Pertence ao ciclo temático da medida (estes ciclos foi o próprio autor que assim os designou). Um discurso de um homem do Direito para um interlocutor também ele desse mundo. Muitas reflexões sobre a vida e sua condição. Mais: «nós não estamos senão mais ou menos em todas as coisas»p.11; «muita gente trepa agora à cruz somente para que a vejam de mais longe, mesmo se para isso for preciso espezinhar um pouco aquele que lá se encontra há tanto tempo»p.134.****


8 – Pensamentos, Marco Aurélio, Livros RTP

argumentos: uma colecção de pensamentos, alguns em estilo aforístico, a partir dos melhores exemplos gregos próximos de uma filosofia estoicista ou da sua experiência de homem dobrado ao íntimo, em torno da morte, da brevidade da vida, da fugacidade dos prazeres e da fama, da mudança. Mais: a morte «não é somente uma obra da natureza, é uma obra útil à natureza»p.22 e «Tens uma excelente maneira de te defenderes deles: evita ser-lhes semelhante.»p.64.***


9 – O Outro Que Era Eu, Ruben A., Assírio & Alvim

argumentos: pronto, outro livro e outro escritor que me fica para recuperar um dia. A extraordinária história de um homem que é dois – não mentalmente – mas sim fisicamente, desdobrado, em que um faz tudo o que o outro não consegue fazer: «indivíduo sai de si continuando a ser ele próprio, e se forma em outro que é ele próprio»p.71. E as reacções do país que não consegue perceber (país nacionalista que se pode ver no tempo da ditadura) o alcance da sua natureza. Mais: «ainda existiam escondidas, pessoas capazes de dizer que não. A tragédia é que se desconhecia onde habitavam.»p.47 e «Eu devia matar-me por acidente!»p.79.*****


TV:

Anatomia de Grey

argumentos: uma das minhas séries favoritas já há algum tempo. Por tudo, pelas histórias (se bem que o caso amoroso Meredith e McBrasa podia resolver-se sem tanto enredo…). Começou na RTP1, dava fim-de-semana sim, fim-de-semana não ou mais ou menos. E eu achava estúpida, porque não gostava de séries de hospitais (excepção para o Dr House, de que já gostei mais…). Depois passou para a noite, às tantas, dois episódios seguidos – e eu vi tudo… tipo tolinho. Repetiram na Dois: e eu voltei a ver quase tudo. E agora aproxima-se do fim e espera-se a nova série com novos desenvolvimentos. Sim, eu não tenho cabo ou coisas do género mas vou sabendo umas coisas pela net... Só espero que não desapareça como O Amor no Alasca.
Mas há outras recomendáveis: Dexter é estranha, um pouco chata por causa dos pensamentos infinitos que preenchem a cabeça do protagonista e dos ritmos latinos à Miami que se vão ouvindo, mas tem cenas interessantes. Irmãos e Irmãs é também de se lhe tirar o chapéu, mas já vai muito adiantada e não se perceberão alguns dos antecedentes que influenciam a história de agora se não se viu do início… Mas vale a pena, e com grande elenco. A Dois: continua a ser a melhor alternativa da tv portuguesa. E as Noites da Dois: brindaram-nos esta semana com duas mini-séries extraordinárias: A Linha da Beleza (do romance homónimo de Alan Hollinghurst, de Saul Dibb, com Dan Stevens, Alex Wyndham , Oliver Coleman, Hayley Atwell, Don Gilet), e Elizabeth I ( de Tom Hooper, com Helen Mirren e Jeremy Irons). Recomendo – estejam atentos que elas voltam qualquer dia (acho que até já deram antes, eu é que na altura tinha vida…).


Música:

Ana Moura – Para Além da Saudade

argumentos: conhecia esta grande fadista de uns fados escolhidos para estarem na colecção de fado do Público: Porque Teimas Nesta Dor e Nasci Para Ser Ignorante. E já tinha ouvido também O que foi que aconteceu, algures no pc (agora resgatada). Depois ouvi-a numa novela da TVI com O Fado da Procura – e ficou na cabeça e adoro-o. Daí a ter o último cd ainda demorou, mas já o tenho e ouço-o muito, agora. Os Búzios, Águas do Sul, O Fado da Procura, Rosa Cor de Rosa, Mapa do Coração, Aguarda-te ao chegar, Até ao fim do fim, Fado das Horas Incertas, Vaga no Azul Amplo Solta (há mais vídeos no youtube de outras músicas) são os meus fados favoritos de um conjunto de quinze grandes canções… Voz quente, grave mas bonita. E com muito bom gosto.

Palavra ainda sobre o Festival da Canção. Parece-me que a escolhida tem algum potencial, a Vânia é potente. A minha canção favorita não ganhou; Magicantasticamente!, dos BláBláBlá, aqui.


Cinema:

O Labirinto do Fauno

argumentos: de Guilherme del Toro com Adriana Gil, Ivana Baquero e Sergi López. Um filme de 2006 que ganhou três Óscares: direcção artística, fotografia e caracterização – quem o viu ou ver percebe porquê. História de uma menina com uma mãe grávida e doente e de uma figura paternal comandante de uma das facções da guerra civil espanhola que encontra um mundo alternativo e do qual é a princesa. Para poder voltar à sua origem tem de cumprir três perigosas tarefas (e numa delas encolhemo-nos todos porque sabemos que a criatura sem olhos e quase mumificada que preside ao festim vai acordar e persegui-la… E pronto, mais não conto, porque vale a pena a ver. E tem um labirinto também.****


Os Irmãos Grimm

argumentos: de Terry Gilliam, com Matt Damon, Heath Ledger, Mónica Belluci, Jonathan Prye e Lena Headey. Uma história alternativa da vida dos dois irmãos alemães que vivem a vida a encenar fenómenos paranormais até ao momento em que descobrem um verdadeiro e tem de lidar com o cepticismo de um e a crença do outro (baseado no seu livro de histórias – que vão surgindo em determinados elementos e objectos). É giro para ver com amigos, sobretudo se perceberem alguma coisa das histórias…***

sábado, agosto 06, 2011

5 poemas de Justo Jorge Padrón





Não sei por quanto tempo

Não sei por quanto tempo seguirei
nesta inútil sucessão de instantes.
Caminho pelas ruas com a morte à espreita.
Ainda que o meu coração o peito pise
e o corpo obedeça
às vezes do azar ou ao instinto,
ainda que sinta qua ainda posso ocupar
um trabalho nas máquinas,
um lugar entre os vivos,
eu já não me pertenço.
Olho o horizonte
e nada me devolve a inquietude aos olhos.
Onde estará aquele fogo feliz?
Já nada tenho e a vida não acaba.
Vou escutando o lento desagregar,
o processo invisível até à ruína.

***

Nova primavera

Com um novo esplendor indeciso e ardente
e uma silvestre exactidão de aromas
chegou a primavera.
Chegou como se jamais pudesse ir-se
e se se julgasse jovem para sempre.
Vi-a instalar-se junto da minha janela,
derramando clamor de pássaros e um sol indecifrável
que estalava no ar as cores.
toda a aura letal do longo inverno
se anulou diante do singelo furor
e da graça sem limites da sua primeira flor.

****


Sapatos para um deus grego

E brindei pelo deus grego e pelos seus pés descalços,
e entre o espesso aroma daquele vinho
e da alada loucura do instante,
para acalmar com o couro os seus belos pés de brisa,
abandonei na sombra os meus sapatos.

A noite abriu a porta e na mansão
ouviram.se comovidos os seus passos de silêncio.
O vento vestiu-se com folhas de penumbra
e bebendo na minha taça passou beijando as frontes.
Os nossos olhos criaram uma estrela
que cruzava a obscuridade e as distâncias.

Nunca mais soube daquele par de sapatos.

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Texto para um Anjo

Uma vez escrevi um texto para um anjo.
Um poema invisível semelhante às suas asas.
Ignoro ainda quem voará melhor.
Não sei em que ocasiões me recorda
a por vezes, quando durmo, deposita nos meus lábios
polpa de melão níveo ou solta no meu ouvido
ondulantes arpejos que jamais escutei,
ou sussurra palavras trémulas e remotas
que me abrem com as suas chaves as janelas da água,
enfaroladas luzes de um país atrás das suas sombras.
Com segurança conduz-me pela sua cósmica mão
por todos os espaços que sonharam os livros,
e ao mesmo tempo sou a juventude
e os olhos de tudo o que vive
no pulsar fraterno da brisa.
Sinto o calafrio das flores amando-se,
o pranto de uma estrela afundada num charco.
O meu poema invisível é o meu segredo
e ainda que agora o anuncie e o partilhe,
ele, com as suas asas diáfanas, num traço de luz
porá nos vossos sorrisos o esquecimento.

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Voo em Chamas

Sobre o resplandecente milagre da orquídea
uma azul borboleta ergue as suas asas.
Por um instante duvido se são ondas ou pétalas,
ou se é a luz a nova flor que se abre
na aparência trémula do voo detido.
Permanece o silêncio olhando fixamente
a vertigem incendiada do espaço,
a irisação suprema, o luxo do unânime.
Uma gota de orvalho golpeia a corola.
A súbita centelha sobressalta
a comovida flor e em espiral ressurge
o voo em chamas de uma luz celeste,
enquanto os olhos torpes se perguntam
onde amanhecerá a borboleta.


Justo Jorge Padrón, Obra Poética 1966-1996, Sintra: Tertúlia, 1998: p. 255, 285, 397, 529, 769

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Sugestões de Fevereiro

As coisas que povoaram o meu mês de Fevereiro. Aqui a revisão e as sugestões:
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Livros:

1 – Bíblia (Eclesiástico, Isaías), Paulus

argumentos: sem grandes argumentos… Eclesiástico é um conjunto de recomendações ou procedimentos moralizantes que no fundo repetem o que já está para trás… e a desorganização é um pouco irritante. «O orvalho abranda o calor, e a palavra é melhor que o presente» Eclo 18, 16. Isaías, o primeiro dos livros proféticos é mais interessante.***

2 – O Sonhador, Ian McEwan, Booket

argumentos: uma história de um menino sonhador que se tornará num escritor: as aventuras com as bonecas da irmã, a troca de corpo com o gato (uma das minhas passagens favoritas, claro), a forma de derrotar rufiões na escola e visões sobre o que é ser bebé ou ser adulto. Agradável para ser lido a/por crianças, jovens e adultos. «o próprio facto de nos habituarmos a viver com mistérios é em si um mistério»p.62****


3 – Onde vais Drama-Poesia?, Maria Gabriela Llansol, Relógio d’Água

argumentos: embora tenha uma relação de conflito com esta escrita que nem sempre é fácil e dentro das lógicas a que estamos habituados («ler é ser chamado a um combate, a um drama»p.18), gostei deste livro. Pelas reflexões metatextuais, pelas relações intertextuais hetero e auto-autorais. Mais: «escrever e dizer não são sinónimos _________ como qualquer pessoa, tenho opiniões sobre o processo do mundo; essas opiniões são ditos; o texto vê e não opina; nem aconselha»p.185, ou «Damos nomes ao que somos juntos, reconhecendo que o Amor é o seu único nome, mas tememos dizê-lo para não apressar a morte.»p.287****


4 – Poeta Militante II, José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores

argumentos: mais do mesmo, que é mais de outra beleza. Como ficar indiferente a «(Um dos grandes acontecimentos do século XX. Encontrei uma pedra no campo e beijei-a.)»p.22 – porque não será este um dos grandes momentos do século em que se moveu? Mas surgem outros, e fortes, até porque «o tempo soltou-se dos relógios»p.479 ou «Saudades de não poder inventar o futuro»p.301. Para se chegar às perguntas de sempre: «Vais perguntar outra vez porque existes?/ Para quê? Para ficares com os olhos do tamanho de ilhas tristes?»p.68 ou «Mas vivos que são?/ Mortos incompletos»p.306. *****


5 – Poeta Militante III, José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores

argumentos: ainda mais do mesmo, que percorre ainda outros caminhos. Forte insistência no tema/figura da morte: «o problema estava em não saber/morrer»p.82 ou «tornam a morte ridícula de tanto a esperarem ao espelho»p69. Reflexões sobre o seu século XX, sobre a vida, sobre o ofício do poeta: «ofício de tecer respirações de homem»p.176 e «digam-me lá:/ para que serviria ser poeta/ se não chorasse/ publicamente/ diante do mundo?»p.544. Muito bonitos os poemas sobre a Noruega e um em que interpela Sophia (p.422-4).*****


6 – O Livro das Igrejas Abandonadas, Tonino Guerra, Assírio & Alvim

argumentos: pequenos contos/poemas, como os de aqui já falei, mas todos em torno de uma determinada região e suas igrejas e gentes, coisas veladas, silêncios, cruzamentos de tempos, certo ar de magia e poder oculto da existência… Mais: «Mais solitário que Deus não há ninguém»p.28 e a história de «A Ovelha» - uma delícia.****


7 – Uma das últimas tardes de Carnaval, Carlo Goldoni, Colibri

argumentos: comédia da boa (também se recomenda A Estalajadeira), quase sem enredo e cujo carisma reside na linguagem pura e nos diálogos. Personagens a quem o amor parece querer sorrir, mas com alguns dos cuidados e medos típicos. Mas o texto, que teve a sua estreia a 23 de Fevereiro de 1762, ou seja, imediatamente antes de Goldoni partir para França, parece ser uma despedida do próprio dramaturgo ao seu público, pois Anzoleto faz o mesmo antes de partir para a Rússia, apresentado os seus cumprimentos e agradecimentos aos convidados da festa: «onde quer que tenha estado sempre trouxe o nome de Veneza gravado no coração»p.123.****


8 – A Baía dos Tigres, Pedro Rosa Mendes, D. Quixote (BBL)

argumentos: «Este é um livro sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte»p.13. Mas também um livro sobre a vida ou a esperança dela/nela, apesar de tudo, através das suas múltiplas facetas, em muitas histórias que relembram o prazer de ouvir contadores num cruzamento do real com a ficção em que dificilmente se percebe onde acaba um e começa outro. Relato a partir de uma viagem real por um continente minado («Minas à frente, atrás, à esquerda, à direita. Minas dentro de nós»p.81), de Angola a Moçambique (mais centrado em Angola), com uma estrutura não-cronológica, assistemática, que prende pelo humanismo que respira em cada página. «O viajante é apenas o seu relato, identifica-se com ele porque dele extrai a sua identidade; não existe fora do mapa; viajante e mapa são uma e a mesma identidade»p.221-2. *****



TV:

Câmara Clara (2:)

Argumentos: cultura da boa. Paula Moura Pinheiro conduz inteligentemente áreas tão diferentes como literatura, cinema, política, música, pintura, ou tema como cidade, felicidade, pós-colonialidade… Com sugestões de leitura, de espectáculos, de filmes, de cds, sempre com temas actuais e convidados topo de gama.*****


Música:

Susana Félix - Pulsação

argumentos: Fiquei apaixonado por «Flutuo» há uns tempos. Depois uma ou outra música agradável em novelas que o zapping apanhava na tvi. Depois a sua nova sonoridade no Gato Fedorento. Depois, finalmente, Pulsação na minha mão, nos meus ouvidos. Muito bom, do início ao fim. É uma espécie de best of, com novas roupagens para os temas antigos. Destaque para: «(bem) na minha mão», «Flutuo», «Fintar a pulsação», «Sou eu», «Luz de presença»… E ainda para uma aqui não incluída: «O mesmo olhar». Voz simpática e bonita, sem exageros, melodias simples e eficazes – directas à melancolia.*****

Cinema:

Sweeny Todd

argumentos: Tim Burton, Johnny Depp (muito bom aqui) já são razões suficientes. Juntem-se-lhes Alan Rickman e Helena Bonham Carter. Músicas de Stephen Sondheim? Mais. Depois porque um musical negro não é coisa que haja muito por aí. Está muito bom, embora chegasse a um certo momento em que pensei: «isto nunca mais acaba?». Grande trabalho de fotografia, de direcção artística e guarda-roupa, além da realização e interpretações.****

Gangster Americano

argumentos: Ridley Scott novamente a realizar com Russell Crowe e agora também Denzel Washington. E adoro Russell Crowe. Não é o meu tipo de filme, com crimes, polícias e drogas, de longe, mas gostei, no geral. Um pouco longo…***

Nota: este ano não fui ao Correntes d’Escrita, mas destaco o vencedor: Ruy Duarte de Carvalho com Desmedida, embora eu preferisse que vencesse O Outro Pé da Sereia de Mia Couto.

segunda-feira, agosto 18, 2008

3 poemas de Sylvia Plath


Papoilas de Julho

Pequena papolias, pequenas chamas do inferno,
Vocês não fazem mal?

E tremeluzem. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos entre as chamas. Nada queima.

E fico exausta ao olhar-vos
A tremeluzir assim, pregueadas e de um vermelho vivo, como a pele de uma boca.

Uma boca que acabou de sangrar.
Pequenas bainhas ensanguentadas!

Há fumos que não posso tocar.
Onde estão o vosso ópio, essas cápsulas que dão náuseas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue, ou dormir!
Se minha boca pudesse casar com uma ferida assim!

Ou se os vossos venenos pudessem penetrar em mim, nessa cápsula de vidro,
Para me entorpecer e inquietarem.
Mas sem cor. Sem cor alguma.

***
A chegada da gaiola das abelhas

Encomendei isto, esta gaiola de madeira limpa
Quadrada como uma cadeira e quase tão pesada para se poder levantar.
Diria que era o caixão de um anão
Ou se um bebé quadrado
Se não tivesse lá dentro tal clamor.

A caixa está fechada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela
E não me posso afastar dela.
Como não tem janelas, não posso ver o que está lá dentro.
Há só uma pequena rede, sem saída.

Encosto os olhos à rede.
Está escuro, escuro.
Dá a sensação de um formigueiro de mãos africanas
Reduzidas e apertadas para exportação,
O preto sobre o preto, a trepar furiosamente.

Como é que as vou deixar sair?
Assusta-me o barulho mais que tudo,
As sílabas ininteligíveis.
É como a plebe de Roma,
Gente pequena, vistos um a um, mas juntos, meu Deus!

Dou ouvidos a este latim em fúria.
Não sou um César.
Apenas encomendei uma caixa de doidas.
Podem ser devolvidas.
Podem morrer, não tenho de as alimentar, sou a dona.

Pergunto-me se terão muita fome.
Pergunto-me se me esqueceriam
Se eu abrisse a fechadura e ficasse parada e me transformasse em árvore.
Como o laburno, em suas colunatas de oiro,
Ou a cerejeira com seus saiotes.

Talvez me ignorassem de imediato
Vestida com o meu traje lunar e o véu de luto.
Não sou fonte de mel
Por que razão se haviam de voltar contra mim?
Amanhã vou fazer de bom Deus, vou libertá-las.

A caixa é apenas temporária.

Sylvia Plath, Ariel, tradução de Maria Fernanda Borges, Lisboa: Relógio d’Água, 1996, p.165, 127.

*****
Colher amoras

Ninguém nas veredas e nada, nada além das amoras,
Amoras de ambos os lados, embora mais à direita
Uma aléia de amoras descendo em curva e um mar
Se alçando lá no fim. Amoras
Grandes como o meu polegar e a silenciar como olhos
De ébano nas sebes, gordas
De sumo azul-vermelho. O sumo esbanjam entre meus dedos.
Eu não pedira esta fraternidade de sangue: — elas na certa me amam.
E se acomodam em meu jarro, achatando-se os lados.

No alto, as gralhas negras, revoada cacofónica
— Pedaços de papel queimado girando num céu a pleno.
É delas a única voz protestando, protestando...
Acho que o mar não aparecera.
As campinas altas e verdes resplandecem como acesas por dentro.
Chego a um arbusto cheio de amoras tão maduras que o arbusto é de moscas
Pendentes, suas barrigas verde-azuladas e os vitrais das asas numa tela chinesa.
A festa de mel das amoras alvoroçou-as. Elas acreditam no céu.
Uma curva mais: amoras e arbustos terminam.

Tudo o que vem agora é o mar.
De entre dois morros uma súbita brisa se afunila em direção a mim
E me esbofeteia a face.
Esses montes são muito verdes e doces para quem provou sal.
Entre eles, sigo a trilha das ovelhas. Numa última curva
Alcanço a face norte dos montes, cor de laranja e rocha
E a face olha para nada, nada exceto um grande espaço
De luzes brancas metálicas; nada exceto um ruído de ferramentas sobre a prata,
Os golpes e golpes contra um metal intratável.

Lido aqui. http://br.geocities.com/edterranova/sylviap3.htm

quinta-feira, julho 31, 2008

Sugestões de Julho

Neste mês a A. Verde chamou-me várias vezes «viajante». Não o serei, até porque aprendi já que viajar é bem diferente de deslocar. Mas ainda assim, andei muito por aí, dividido entre Poiares, Lisboa, Tormes, Porto, Braga… A estabilidade precisa-se, urgentemente. No meio de tanta deslocação foi possível ler, foi possível fazer algumas coisas. Balanço de mês muito positivo, apesar de tudo e de tanta coisa. Aqui ficam algumas.

Livros:

1 – A Bíblia (Evangelho Segundo São Lucas e Evangelho Segundo São João), Paulus****

argumentos: novas versões sobre os mesmos factos, ou factos a mais ou a menos que surgem nos diferentes relatos. E gosto disso, de perspectivas diferentes. Mais: «Quem não está comigo, está contra Mim. E quem não recolhe comigo, espalha.» (Lc 11, 23) e «Jesus fez ainda muitas coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que os livros que seriam escritos não caberiam no mundo.» (Jo 21, 25).


2 – Os Nomes (1961-1974), Gastão Cruz, Assírio e Alvim**

argumentos: embora não me tenha agradado muito a sua poesia, que me pareceu demasiado artificial, postei aqui dois poemas.



3 – O Desenho no Tapete, Henry James, Relógio d’Água****

argumentos: uma novela interessantíssima em torno dos problemas da literatura. Misteriosa, hábil, bem construída e que vale a pena conhecer. Mais: «Lembro-me de que ele me disse que ela sentia em itálico e pensava em maiúsculas» (p.35).


4 – A Ilha de Páscoa, Pierre Loti, Teorema***

argumentos: livro de viagem à estranha, inóspita e misteriosa ilha de Páscoa, descrita com os pormenores do homem que chega ao local do exótico e se tenta aproximar o mais que pode ao outro. Tem passagens muito bonitas. Mais: «No meio do Grande Oceano, numa região por onde nunca ninguém passa, existe uma ilha misteriosa e perdida; não existe outra na terra nas duas proximidades e, a mais de oitocentas léguas em redor, apenas a circundam inquietas e vazias imensidades. Encontra-se pejada de altas estátuas monstruosas, obra de qualquer raça ignorada, hoje perdida ou desaparecida, e o seu passado é um enigma.» (p.5).


5 – As Traquínias, Sófocles, INCM***

argumentos: numa fase em que ainda se pensava no TETRA, decidi ler textos de teatro que ainda por cá andavam. Uma tragédia como deve ser, em torno de Héracles e Dejanira, que tenta manter o marido preso a si pelo amor, mas provoca antes a ruína da família. Gostei de voltar aos clássicos gregos e de recordar a minha primeira paixão cultural, quando ainda tudo para mim de bom vinha daqueles lados. Boa tradução com introdução explicativa. Mais: «Como um marinheiro que no seu barco recolhe carga em excesso, assim eu fiz, para ficar com o coração em destroços.» (p.55).


6 – O homem que se puniu a si mesmo, Terêncio, INCM**

argumentos: idem em relação ao livro anterior, mas desta vez uma comédia, latina, de que não gostei tanto, porque o enredo é uma confusão pegada e parece-me haver ali fragilidades... Mas bem traduzida, anotada, prefaciada… Mais: «Sou um homem: e nada do que é humano eu considero alheio à minha natureza.» (p.40)


7 – Antologia Poética de Carlos Nejar, prefácio, organização e selecção de António Osório, Pergaminho***

argumentos: breve conjunto da poesia de um importante poeta brasileiro, bem prefaciada e conseguida. A sua poesia tem momentos interessantes, como tentei mostrar pela minha selecção breve, aqui.


8 – Cartas de Inglaterra, Eça de Queirós, Europa-América****

argumentos: em época de Tormes, decidi ler as coisas «ecianas» que andam por casa sem terem ainda sido lidas. Esta edição é má, saiu grátis com um jornal no ano passado (já agora, as melhores edições do Eça: as dos Livros do Brasil estão já superadas pelas que vão agora saindo na INCM, edição crítica, e Presença, edição apenas do texto, sem aparato crítico, mas resultantes da mesma edição da INCM), mas os textos são muito interessantes, sobretudo pela ironia e pelos temas: literatura, colonialismos, Londres e arredores, as questões agrárias e relação com a Irlanda, o Natal e a literatura dele ou nele… Mais: «Dai a César o que é de César! Houve só um homem, Brutus, que deu a César o que a César era devido: um punhal através do coração!» (p.13), «Eu não reclamo que o país escreva livros, ou que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escritos, e que se interessasse pelas artes que já estão criadas.» (p.116).


9 – O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, Mensagem***

argumentos: idem em relação ao anterior. Novela escrita por dois amigos que decidiram escandalizar a sociedade Lisboeta da época, com uma história sobre um assassinato e uma assalto estranho e uma história que envereda para uns intrincados casos romanescos. Interessante pelo jogo de real/realidade/ficção que se tenta criar: «Ah! Como toda esta história é artificial, postiça, pobremente inventada!» (p.86). Mais: «É meu sistema admitir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquilo que me apresentem como coisa positiva. É o único meio prudente de nunca nos afastarmos muito da verdade.» (p.70); «Não sou uma mulher, sou um romance.» (p.206).


10 – Alves e Cª., Eça de Queirós, Atena****

argumentos: idem. Uma novela em que tudo corre rápido e breve, mas com tempo para tudo, como o Eça faz muito bem. O adultério centrado naquele que é traído, no homem da casa, o que dá uma perspectiva diferente do assunto na obra de Eça. Com uma boa dose de humor e ironia fina. Mais: «e parecia-lhe ver por toda a cidade esta sarabanda de amantes e de maridos, uns escapulindo-se, outros tentando apanhá-los, um chassez-cruisez de homens, perseguindo-se em torno das saias das mulheres!» (p.73).


11 – Expiação, Ian MCEwan, Gradiva*****

argumentos: ora finalmente o livro do filme de que mais gostei do ano passado. História magistral, análise de sentimentos e reacções, imagens fortes (a das duas figuras junto à fonte com a jarra a partir-se e o mergulho de Cecília na fonte, o sexo na biblioteca, contra a estante de livros – das coisas mais fantásticas que li sobre o assunto), simbólicas, estruturas inesperadas e vitalizadoras… Um romance a todos os níveis notável. Apaixonei-me obviamente por Cecília, tinha de ser. Mas também Robbie e Briony me seduzem muito, profundas e bem construídas. O livro, como o filme, também nos coloca a terrível questão do perdão perante uma coisa imperdoável, perante a expiação de uma culpa que arruína outros seres, perante a própria essência do homem. Muitas reflexões sobre a escrita, sobre a literatura, sobre as pessoas que lêem. De destacar também a relação que se cria entre autor do relato/personagem/relato e a realidade daquilo que ela, Briony, quer fazer, tantos anos depois. E a verdade bruta que irrompe no fim e que choca, mesmo a quem já conheça a história. É um dos que me ficam para a vida. Mais: «Robbie e Cecília tinham passado anos a fio a fazer amor – por carta.» (p.235), «O problema tem sido este: como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus?» (p.417).


TV:

Pushing Daisies*****

argumentos: a nova série das segundas-feiras da Dois: é extraordinária! Série de Bryan Fuller, conta a história de Ned (Lee Pace), um pasteleiro, que tem o dom extradordinário de, através do toque, pode fazer os mortos reviverem (e assim ajuda um detective a resolver alguns casos) mas também a de matar, exactamente com o mesmo toque (e por isso mantém uma relação amorosa peculiar com a sua paixão eterna, Chuck (Anna Friel), a quem deu uma segunda vida). Tudo isto narrado por Jim Dale, num tom de história de conto de fadas, com cores muito vivas, música orquestral e efusiva, num ambiente perfeito! Vale mesmo muito a pena ficar na Dois: à segunda-feira (e terça, quarta, sexta…).

Música:

ColdPlay – Viva La Vida*****

argumentos: mais um brilhante álbum dos ColdPlay, uma das minhas bandas favoritas. Neste dizem-se mais sexys, menos melancólicos, mas o que estava de bom nos outros continua aqui. Gosto muito da presença da morte por aqui, embora o álbum se inscreva sob a égide da vida. Destaco «Life in Technicolor», «Cemeteries of London», «42», «Viva la Vida», «Violet Hill», «Strawberry Swing», «Death And All His Friends» entre outras. «Violet Hill» teve uma edição especial on-line, no sítio do grupo, e grátis, assim como outra, não incluída no cd, «Death will never conquer».

Atonement OSTExpiação (Banda Sonora)*****

argumentos: a música composta para o filme Expiação de Joe Wright pelo italiano Dario Marianelli. 14 temas extraordinários, batidos pela máquina escrever, em que cada que nota transparece um sentimento trágico e imensamente triste… ou não… sei lá. Vencedor do Óscar para melhor Banda Sonora Original - sem qualquer tipo de dúvidas! Mas acompanha muito bem o filme, o livro, a vida. Muito bom! No youtube podem ouvir-se algumas das músicas.


Cinema:

A máscara de cristal*** – de Dave McKean. Fantástico interessante, com implicações lógicas demasiado lógicas, mas com pormenores muito interessantes.
10000 a.C.** – de Roland Emmerich. Épico a que falta muita coisa para o ser, mas vê-se bem…
Butterfly on a wheel** - de Mike Barker, com Gerard Butler, Maria Bello e Pierce Brosnan. De fugir, não pelas interpretações, sobretudo pela de Gerard Butler, mas pelo enredo recambulesco, angustiante sem motivo, e estúpido.
Antárctida**** – de Frank Marshall, com Paul Walker, Bruce Greenwood, Moon Bloodgood, Jason Biggs. Forçados a deixar para trás a sua amada equipa de cães de trenó devido a um acidente inesperado e a condições atmosféricas perigosas na Antárctida, os cães têm de sobreviver sozinhos ao Inverno rigoroso, durante 6 meses, até os aventureiros conseguirem montar uma missão de salvamento.
Meet the spartans*** – paródia muito paródica de 300, mas também de outros filmes e personalidades do mundo do espectáculo. E por muito que se estranhe, eu gosto deste tipo de filmes, pela parvoíce e pelo puro objectivo de fazer rir!

sexta-feira, setembro 08, 2006

músicas

A música portuguesa vive de coisas que às vezes me fazem arrepiar. A última que o conseguiu foi “Flutuo” de Susana Félix. A simplicidade aparente, uma letra mínima, repetida e elíptica, potenciadora de sentidos mais vastos parece-me um caso bastante interessante e original. A nível musical pode não haver uma regularidade (segundo o UM), mas talvez seja isso que dá também encanto à música: suave, discreta, acompanhamento de palavras, numa inseparabilidade ou comunhão entre fundo/forma. A descontinuidade, mesmo existindo, é anulada pela sensação de evasão que nos alcança, ou de desprendimento, de deixarmo-nos ir: “o meu destino está fora de mim e eu aceito”, mas também aceitação, comunhão, como se realmente estivéssemos a flutuar num rio, mas também um certo desinteresse ou desistência, e o deixar as coisas correr (ou flutuar), até ao “amanhã”. Depois repare-se no refrão, que pela sua brevidade ou concisão acaba por nos permitir pensar em vários sentidos, já para não falar no desfecho, que parece ser uma repetição e surpreende-nos com uma subtil mudança de verbos e pronomes pessoais que transformam todo o sentido. Além disso, é de destacar a beleza do verso “fazer de mim pretérito mais-que-perfeito”, de um carácter inesperado. Mesmo as rimas e sonoridades estão originais e bastante interessantes. E depois tem um piano e violinos, tipo…

Mas há outras músicas que me fazem arrepiar, noutro sentido. Não falo da música pimba ou popular, mas da outra, daquela que surge nos tops e dá nas rádios nacionais. A última sensação, bem, já há algum tempo, é “Sei-te de Cor”, de Paulo Gonzo. Talvez o senhor tenha andado a ler “sei os teus seios/sei-os de cor” de Alexandre O’Neill, mas se calhar isso é demasiada pretensão minha. Enfim, os meus ouvidos foram (já não são, porque mal começa a música eu mudo de estação, nas raras vezes em que ouço rádio) bombardeados com uma voz terrível, sem beleza ou qualidade nenhuma. Mas nem é isso que mais me incomoda, porque ele já era assim nas outras músicas mas só esta me leva à náusea! É que a música começa e termina muito suavemente, mas só com a voz dele em destaque, é só ele que faz a melodia (ou melhor, tenta…). O resto é uma guitarrada com piano (???) e bateria, que abafam um pouco a pseudo-voz. Enfim, música foleira e banal, mas má, servida com um certo pretensiosismo a grande coisa (só se for grande pónei)… Reparemos na letra, que é o que nos diz mais, a nós amantes da literatura. As rimas, quando existem, não são más nem boas, escapam – mas isso é um pormenor. A repetição também existe – mas aqui é integral, quase toda a letra é repetida! Depois, vemos que a construção do texto é sobre a omnisciência que a voz possui do objecto do discurso: “Sei de cor”, “”sei cada capricho teu”, “sei ao pormenor o teu melhor e o pior” são exemplos dessa sabedoria, que chega a irritar: “sei de ti mais do que queria”, como é possível amar alguém que se conhece assim tão bem? Enfim, o pior é que o conhecimento, além de ser sobre o físico e sobre o psicológico, é também adivinhatório: “sei cada capricho teu e o que não dizes ou preferes calar”. A acrescentar “sei por que becos te escondes” – o que nos diz isto da mulher???? E a cereja no topo do bolo, de uma congruência e lógica matemática fascinantes: “Numa palavra diria: sei-te de cor” ??? Quantas palavras estão ali? Eu conto quatro: um verbo (sei), um pronome (-te) – pronto, esta pode contar como uma – uma preposição (de) e um nome (cor). meu Deus, eu sei que sou de letras, mas estas contas eu ainda sei fazer!!! Obviamente o senhor que escreveu tamanha barbaridade e que a canta também deve saber, mas o artifício de escrita foi mais forte e ele não lhe resistiu, já que não encontrava coisa melhor para ali pôr… O pior é que a coisa até pegou e já rendeu uns eurositos ao fulano.

No meio disto tudo, porque uma demasiado sintética e outra completamente descabida, quem se vai aguentando bem é a Floribella!!!