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terça-feira, dezembro 28, 2010

dois poemas de Else Lasker-Schüler


Reconciliação

Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação -
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar-se -
Por que hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.


*****

David e Jónatas

(I Samuel, 18)

Na Bílblia estamos escritos
Num abraço de cores vivas.

Mas os nossos jogos de meninos estão
Vivos também na nossa estrela.

Eu sou David,
Tu, o meu companheiro de brinquedos.

Ah, os dois tingíamos de vermelho
Os nossos corações brancos de carneiro!

Como as flores em botão nos salmos do amor
Sob o céu de um dia de festa.

Mas os teus olhos de despedida, os teus olhos -
Estás sempre a despedir-te no silêncio do beijo.

E o teu coração, que fará
Ainda sem o meu?

A tua noite doce
Sem as minhas canções?


Baladas Hebraicas, Else Lasker-Schüller, Assírio & Alvim, p.45, 69

terça-feira, dezembro 21, 2010

Poema de Natal, 2010


Natal de 1972

Neste comércio festivo que há dois mil anos quase
perdura mal cobrindo remendadamente
o solstício do Inverno e os deuses sempre vivos
de cuja falsa morte o mundo paga em crimes,
como em vileza humana, o medo que escolheu
quando ao claror da aurora rósea e livre
de viver como os deuses e com eles
preferiu a lei e a ordem projectadas
na sombra em sombras da caverna obscura
e desejou o mal em preço de ser-se homem —
tudo o que em milhares de anos é tribal
congrega-se feliz num doce rebolar-se
da traição de que fomos contra a vida.
Tão vil que levou séculos a inventar
um deus assassinado para desculpá-la,
e fez dele o comércio das famílias
que cortam no peru as raivas de existirem,
beijando-se visguentas, comovidas,
tal como têm babado os pés dos deuses,
ah não eles mesmos mas imagens vãs
que não resplendam da grandeza humana.
Alguma vez teremos o dinheiro
para comprar de novo o Paraíso,
em vez de prendas para o sapatinho?
O Paraíso aqui — aquele que venderam
no começar do mundo. E que nos trocam
por outros no futuro ou nos aléns,
agora, aqui, aberto a todos, claro
- um sol sem fim nos bosques ou nas praias,
uma nudez sem morte nos corpos sem alma.


Jorge de Sena, in: Natal... Natais - Oito séculos de Poesia sobre o Natal, antologia organizada por Vasco Graça Moura (Público, 2005:275)

terça-feira, dezembro 14, 2010

Antínoo


Busto de Antínoo de Villa Adriana (Museu do Louvre)


Pois chegou a casa a revista «Forma Breve», n.º 7, onde já publiquei, num número anterior. Desta vez o tema era «Homografias. Literatura e homoerotismo» e, embora pouco percebendo das questões de género e sexualidade na literatura, achei boa altura para estudar a figura de Antinoos na poesia portuguesa contemporânea (muito parecido com o que fiz com a Penélope, para um congresso na FACFIL). Com um ano de atraso, a revista chegou-me mesmo, e com o meu artigo: «Esse humano que foi como um deus grego: Antínoo entre eros e thanatos na poesia portuguesa contemporânea», do qual espero ainda fazer a sequela: Esse humano que ainda é como um deus grego: Antínoo à luz de Sophia e Jorge de Sena» (ou qualquer coisa assim parecida). Fica aqui um excerto:



«Ainda em Dual, na secção V «Arquipélago», encontra-se:

Lamentação de Adriano sobre a morte de Antínoos

Não escreverei mais o meu nome em letras gregas sobre a cera das tabuinhas
Porque estás morto
E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina (Andresen, 2004:64)

O poema, embora parta da mesma história que os anteriores, tem uma construção e temática muito diversa deles. Notavelmente mais breve, aqui o sujeito poético é identificado com Adriano que, em tom de lamentação já anunciado pelo título, assume uma perspectiva de compromisso perante a morte do amado. Esse compromisso revela uma certa negação do futuro. Não está presente a descrição física, mas antes a descrição indirecta do estado psicológico de quem fica vivo e em sofrimento que leva a uma vontade de auto-anulação: o sofrimento provocado pela morte, a solidão provocada pela ausência levam Adriano a desistir do seu «projecto de viver a condição divina», pois a morte física de Antínoo provoca uma espécie de morte espiritual de Adriano, como se morressem ambos com a morte física de apenas um deles. Está subjacente aqui a ideia de que o amor é capaz de pôr em acordo a condição humana e a condição divina, mas que a morte é capaz de destruir esse acordo, pelo menos numa fase inicial (repare-se que o poema permite a leitura de Adriano se dirigir directamente ao corpo morto de Antínoo). A destruição do amado leva à destruição do próprio mundo: amar alguém é amar o mundo em que esse alguém se encontra – e a destruição vai nos dois sentidos».

«Forma Breve 7, Homografias. Literatura e homoerotismo», Universidade de Aveiro, 2009, p.126-127

nota:
já nem me lembrava que também aqui tinham já surgido poemas meus sobre a figura... totinho.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Desafio em Novembro


: isto é cada vez mais difícil, o cansaço instala-se e o descanso não tem sido suficiente para que ele desapareça efectivamente dos espaços que me formam enquanto corpo e ser pensante. Quase exaurido, com uma vontade louca de mandar meia dúzia de outros dar uma curva ao bilhar grande e mudar radicalmente de vida. Mas enfim, há laços e compromissos. E o meu compromisso comigo mesmo em ser bom, o melhor possível, dentro dos meus limites (ilimitados), impele-me a continuar a necessidade de ler, ver filmes, teatro (A Cabeça de Baptista, de que não gostei particularmente), séries, concertos (Rodrigo Leão e Cinema Ensemble), coisas dessas. Mas o décimo segundo é-me exigente, o décimo deixa-me desalentado, o terceiro ciclo sabe-me a coisa sem fim que já se viu e não acrescenta. Mas deixemos as lamúrias - nem me interessam de facto, e aqui ficam sugestões de coisas bonitas e boas que vivi este mês. Destaque muito para Mário de Carvalho, de quem já tinha lido Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto e Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde - que adorei ler há uns anos -, e de quem decidi ler os outros oito livros que tinha, e ainda bem que o fiz: ironia, humor, reflexões metalinguísticas e metaliterárias, uma enorme erudição e profundo conhecimento do humano, escrita(s) admirável(eis), mesmo ao meu estilo. Ainda.

Livros:
111. O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana, Mário de Carvalho, Caminho, 264p.***
112. A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, Mário de Carvalho, Bis/Leya, 96p.****
113. Fabulário, Mário de Carvalho, Caminho, 128p.***
114. Quatrocentos Mil Sestércios seguido de O Conde Jano, Mário de Carvalho, Caminho, 136p.*****
115. Apuros de Um Pessimista em Fuga, Mário de Carvalho, Caminho, 80p.***
116. Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina, Mário de Carvalho, Caminho, 228p.*****
117. A Sala Magenta, Mário Carvalho, Caminho, 176p.****
118. A Arte de Morrer Longe, Mário de Carvalho, Caminho, 128p.*****
119. Diário da Vida de Um Mocho II, João Lobo, Calígrafo, 172p.**
120. a invenção do amor e outros poemas, Daniel Filipe, Presença, 76p.****


filmes:
190. I Love You, Phillip Morris, Glenn Ficarra e John Requa**** (medinho, Ewan genial)
191. Magnitude Máxima, ???**
192. Scoop, Woody Allen***** (de morrer a rir!)
193. Okuribito - A partida, Yojiro Takita***** (tão belo e comovente)
194. José e Pilar, Miguel Gonçalves Mendes***** (já não tenho mais lágrimas possíveis)
195. Virgin Territory, de David Leland**** (acho bem)
196. Letters to Juliet, de Gary Winick***** (pela beleza de tudo)
197. Harry Potter e os Talismãs da Morte, David Yates***** (óptimo início para o fim)
198. À Noite no Museu 2, Shawn Levy***

séries:
além de continuar (acabou ontem) a ver Chuck, de ver o fim de Sobrenatural, vi de enfiada duas séries estranhas (três temporadas cada), com muitas falhas, mas com pormenores engraçados, Dante's Cove e The Lair. Medinho.

domingo, agosto 01, 2010

Desafio em Julho


Ah, que bom ter todo o tempo por minha conta, sem dever nada a ninguém dele, ou quase - porque as férias não foram logo em Julho, mas quase. Sem fazer quase nada do que deveria, ainda fui ao Mosteiro de Tibães com os meninos do terceiro ano, passeei por Braga e pelo Porto - mas adiei Lisboa e acabei o mês em Gaia, nas mudanças da C., com uma incursão rápida mas intensa pela Feira Medieval de Santa Maria da Feira, onde adquiri o meu belíssimo pau de chuva.
Óbvio tempo para as coisas culturais. Além do Mimarte, livros e filmes. Destaque para Rui Cardoso Martins (livros 73 e 74), um escritor recente em termos de publicação de romances e que me parece que merece toda a atenção, já que estes dois primeiros títulos são mesmo muito bons e não só pelos títulos geniais. De Jane Austen não há surpresas, bom - mesmo a versão «zombie» tem o seu interesse para quem leu o original sem eles e para quem tem mente aberta para este tipo de paródia (mas gostei mesmo das últimas páginas, onde se esboça um guia de leitura verdadeiramente hilariante). Dos outros, o esperado, o inesperado (67 e 68), o neutro por falta de expectativas. Destaque ainda para o facto de ter atingido os 80 livros, que era o meu desafio deste ano...
Quanto aos filmes, estive numa de restos... Os filmes que restavam nos dvds emprestados então, ou mesmo meus (medo), os que eram mais pequenos, os que iam surgindo na tv... Destaque para Coisa Ruim, um filme invulgar no cinema português, e muito destaque para um dos melhores filmes do ano, para mim, do mesmo realizador de Revolutionary Road, Sam Mendes: Away we Go - Um Lugar para Viver, filme que faz querer ter bebés e assim... lol (hum, quem quero enganar?).

Livros:
61. Orgulho e Preconceito e Zombies, Jane Austen e Seth Grahame-Smith, Gailivro, 360p.***
62. Sensibilidade e Bom Senso, Jane Austen, Europa-América, 236p.*****
63. Baladas Hebraicas, Else Lasker-Schuler, Assírio & Alvim, 104p.***
64. Quatro Cavaleiros a Pé, José Saramago, Padrões Culturais Editora, 48p.***
65. O Herói das Novelas, Lídia Jorge, Padrões Culturais Editora, 48p.***
66. História do Rei Gonzalve e das Suas Doze Princesas e As Memórias de Joséphine, Pierre Louys, Teorema, 100p.**
67. Laços de Família, Clarice Lispector, Relógio d’Água, 126p.***
68. Contos de Clarice Lispector, Clarice Lispector, Relógio d’Água, 368p.****
69. Carta ao Pai, Kafka, Quasi, 92p.***
70. Uma Questão de Cor, Ana Saldanha, Caminho, 104p.*****
71. A Sophia, A.A. V.V., Caminho, 148p.****
72. Melancolia, António Pinto Ribeiro, Ambar, 112p.****
73. E Se Eu Gostasse Muito de Morrer, Rui Cardoso Martins, Dom Quixote, 216p.*****
74. Deixem Passar o Homem Invisível, Rui Cardoso Martins, Dom Quixote, 240p.*****
75. Herbert West: Reanimador, H. P. Lovecraft, Quasi, 96p.***
76. Electra, Sófocles, CECH-FLUC/FESTEA, 94p.****
77. O Barco Aberto, Stephen Crane, Quasi, 96p.****
78. O Guarda da Praia, Maria Teresa Maia Gonzalez, Verbo, 148p.*****
79. Histórias do Bom Deus, Rilke, Quasi, 104p.***
80. A Canção de Zefanias Sforza, Luís Carlos Patraquim, Porto Editora, 160p.***

Filmes:
97. Slither, de James Gum***
98. Um Amor de Perdição, de Mário Barroso***
99. Final Destination 2, de James Wong***
100. Gremlins 2: The New Batch, de Joe Dante***
101. Transe, de Teresa Villaverde**
102. Cursed, de Wes Craven***
103. Underworld: Evolution, de Len Wiseman***
104. Memórias de uma Gueixa, de Rob Marshall****
105. About a Boy, de Chris Weitz e Paul Weitz****
106. A Minha Falsa Noiva, de Gil Junger***
107. Cidade Baixa, de Sérgio Machado***
108. Coisa Ruim, de Tiago Guedes e Frederico Serra*****
109. Wanted, de Timur Bekmambetov***
110. In Bruges, de Martin McDonagh*****
111. Away We Go, de Sam Mendes*****
112. Prey, de Darrell Roodt***
113. O Cavaleiro das Trevas, de Cristopher Nolan****
114. Up in Smoke, de Lou Adler***
115. London, de Hunter Richards****
116. Arthur and the Invisibles, de Luc Besson****
117. Princess Protection Program, de Allison Liddi***
118. Confetti, de Debbie Isitt***
119. Miúda Insuportável, de Nick Moore***
120. The Cave, de Bruce Hunt**

quinta-feira, abril 29, 2010

Desafio em Abril



O desafio continua, sempre. Entre as mil solicitações, as leituras têm andado... com textos pequenos. Faz-se o que se pode. De Penélope (28) - que me irá ocupar em breve (onde aprendi a escarificar e que o «acto perfeito da entrega e do amor, o difícil limite a alcançar, era escrever um livro em comum, um livro de literatura em que romance e mito se fundissem»p.34), à melhor poesia de 2009 reunida numa edição de ajuda humanitária (29), às aventuras que me acompanham desde sempre (30), a um filme que vi e que descobri ser de um livro, onde as linguagens se distanciam e se complementam para contar uma história de esperança, perserverança e amor num longo domingo que se prolonga na memória de Mathilde - e agora na minha (não andará aqui um pouco de Penélope?), para além da guerra (a primeira), dos quadros, dos gatos (31), ao «Bairro» de Gonçalo M. Tavares - os outros livros ainda esperam mas serão em breve, e aqui também se falará deles (33-36) -, à imperfeição assumida que apresentarei na FNAC em breve (32), ao ensaio sobre Cesário (37)... Muitos filmes, sim, que são mais fáceis de incluir no tempo e no intervalo do cansaço. Até breve, que outras coisas me esperam.

livros:
28. O Regresso de Penélope, António Vieira, Colibri, 154p.*****
29. Resumo. a poesia em 2009, Assírio & Alvim e FNAC, 168p.****
30. Uma Aventura no Pulo do Lobo, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Caminho, 212p****
31. Um Longo Domingo de Noivado, Sébastien Japrisot, Asa, 240p.****
32. Livro Imperfeito, António Paiva, Edições Ecopy, 208p.***
33. O Senhor Valéry, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 88p.*****
34. O Senhor Henri, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 98p.****
35. O Senhor Brecht, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 72p.*****
36. O Senhor Juarroz, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 72p.*****
37. Um Ramalhete Para Cesário, Stephen Reckert, Assírio & Alvim, 104p.****


filmes:
45. Into the Wild, de Sean Penn***** (profundo, não recomendado a gente sem paciência)
46. O Perfume, de Tom Tykwer***** (belíssima adaptação do livro, vale a pena)
47. À Procura da Felicidade, de Gabrielle Muccino****
48. A Noiva Cadáver, de Tim Burton***** (como demorei tanto tempo para ver este filme? linda visão sobre a morte e sobre o amor)
49. Submerged, de Anthony Hickox**
50. Beowulf, de Robert Zemeckis****
51. Marie-Antoniette, de Sofia Coppola***** (com os sem all stars - eu vi ;), no guarda-roupa dela, um grande filme com Kirsten Dunst)
52. The Condemned, Scott Wiper***
53. Eastern Promises, de David Cronenberg****
54. Caos Calmo, de Antonello Grimaldi****
55. Nine, de rob Marshall**** (menos tempo e mais Nicole, tinha sido bom)
56. Disturbia, de D. J. Caruso***
57. Orgulho e Preconceito, de Joe Wright***** (oh meus Deus, como não tinha visto antes? quase tão bom como Expiação! Keira e Matthew impecáveis)
58. O Véu Pintado, de John Curran***** (como se inveja um homem como Edward Norton assim, aqui)
59. Macht Point, de Woody Allen**** (desilusãozita - mas a minha amiga Scarlett compensa)
60. O Rapaz do Pijama às Riscas, de Mark Herman***** (muito interessante, a ver sem falta)
61. O Laço Branco, de Michael Haneke****
62. Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky***
63. Bem-Vindo ao Norte, de Dany Boon***** (impecável para dar umas boas gargalhadas com nível)

outros:
Ensaio Sobre o Medo, pelo grupo Artes Cénicas (Outurela - Carnaxide).

domingo, outubro 25, 2009

desafio em Outubro

Espacio para la lectura, Santiago de Compostela

Em tempo de trocar de casa - finalmente, embora não por ter demorado a procura, pois a única que fui ver me atraiu logo - tempo também para arrumar esta outra casa, a virtual. Não tenciono voltar cá nos próximos tempos, pelo menos para escrever: os testes acumulam-se, a preparação de aulas sobre obras integrais, a mudança e adaptação. Assim, antecipo já o desafio/sugestões, que não são muitas, concedo, porque a viagem, a Diana e o trabalho deixaram-me cansado (que já estava, da conclusão da dissertação). Mas isto vai animar e já só falta um livro para terminar o desafio :)

Livros:

96. Enciclopedia da Estória Universal, Afonso Cruz, Quetzal, 134p.*****
97. Ética Para Um Jovem, Fernando Savater, D. Quixote, 160p.****
98. Anões e Pigmeus da Pátria, Adulcino Silva, Erasmos, 94p.*
99. Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, Mário de Carvalho, Caminho, 320p.*****

Caim, perdão, cair ou afim


«Abri um dos rolos e li, ao acaso:
"... E ouviram a voz de Deus que percorria o jardim, tomando a brisa da tarde..."
Ali se relatava, em grego vulgar, um mito da criação do mundo por uma divindade que deambulava em jardins, ao refresco da brisa. A narração pareceu-me primitiva, um tanto incongruente e mal pensada, nada que se comparasse à lenda de Deucalião e Pirra. Fui tomando os rolos e rodando-os, sempre ao acaso: havia intermináveis enumerações, heróis que viviam centenas de anos, lamentações, apóstrofes, traições, guerras, extermínios, tudo exposto num estilo bárbaro, repetitivo, obscuro. Tudo me pareceu brutal, intolerante, sanguinário. Não o serão menos os nossos mitos e lendas. Mas no meio das violências e das felonias há sempre, entre nós, um exemplo de clemência e grandeza de alma que se avantaja e fica como regra da humanidade para os tempos vindouros. No entanto, alguns daqueles textos lisonjeavam a inveja, o desamor dos outros, a sede de matança, como se fossem virtudes. São assim esses deuses bárbaros. Aceitam sacrifícios humanos, apraz-lhes o sangue e o odor das carnes calcinadas. Dessa feição era aquele abominável deus de Cartago, Bel, que nunca se fartava das cinzas dos impúberes e que, em boa hora, nós, romanos, derrubámos.
Admito que a leitura breve e porventura superficial daqueles livros fosse insuficiente para formar uma ideia de todo o conjunto. Talvez estivesse a ser injusto ou preconceituoso e as partes edificantes as contivessem as folhas que não li, que foram as mais.
(...)
Mas não deixa de ser estranha uma religião que precisa de tantos textos e se funda em tantos milhões de palavras.»

Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde
, Mário de Carvalho, Editorial Caminho, 1994, p.289-290

sexta-feira, julho 17, 2009

Hoje, Mia Couto

Mia Couto, na Centésima Página, para falar do novo livro, Jesusalém. Ok, admito, durante muito tempo pensei que era Jerusalém - e achei estranho, porque Gonçalo M. Tavares teve muito sucesso com um livro com este título e assim, tão próximo, parecia-me excessivo... e até pensei que por causa disso o romance tivesse recebido o título de Antes de Nascer o Mundo, no Brasil, mas não foi por isto, então... Sei que comecei a lê-lo, enquanto esperava que me dissessem se continuava ou não no colégio (e sim, continuo), e estou a adorar (só não adorei a ideia de continuar com a minha turma no secundário e de, por razões técnicas, não continuar com a minha turma de segundo ciclo...); não era para ler já, queria esperar pelas férias para apreciar melhor e ler antes tudo o que me falta ler do antes. Mas o Mia vem cá falar hoje e apetece-me ouvi-lo sabendo um bocadinho do que se trata. É muito bom, a fazer lembrar o Terra Sonâmbula e O Outro Pé da Sereia, e a fugir ao anterior, Remédios de Deus e do Diabo - pelo menos para já, o que é bom (e vou ter Estudo Acompanhado...).

segunda-feira, maio 25, 2009

excertos de «O mundo não passa de mundo»

III. 7. O Grito

A poetisa veio ter connosco, convidando-nos para nos juntarmos ao grupo que lá dentro se ia formando no sofá e nas cadeiras dispostas em círculo para a ouvir. Foi nesse momento, de repente, que o grito ecoou pela praia e ressoou pela casa, como se estivéssemos a ouvir um búzio. Todos ouviram e traduziram em silêncio a espera por alguma reacção que se seguisse. Ao fundo da praia, perto do mar, a mulher que tinha passado por nós, vinha a correr, desvairada, chorando. Eu e a mulher do piano acordámos da letargia e descemos as escadas.

III. 8. Borboletras

Era uma vez um homem que escrevia apenas por fragmentos. Coisas pequenas, se bem que muitas vezes profundas, concisas. Há quem ache que as duas coisas estão intimamente ligadas, mas nem sempre. De qualquer modo, os seus escritos compunham-se de fragmentos: frases breves, às vezes não sendo mesmo frases gramaticais, no sentido estrito, ou apenas letras desenhadas pelo prazer de as escrever, sem significarem nada, mas eram sempre pequenas preciosidades, fruto do acaso, da vida, se bem que muitas vezes apenas da interior; escritos a qualquer momento do dia ou do sono, interrompido a custo para a escrita que se poderia perder na manhã seguinte se não acontecesse naquele momento; sobre tudo o que lhe interessava ou causava espécie.

III. 11. Manual de sobrevivência a um coração partido

Na deslocação, revi a minha comunicação sobre um livro medieval recentemente descoberto pelo meu professor numa biblioteca privada e em cuja edição eu estava envolvido. Um livro interessantíssimo sobre a forma de sobreviver a males de amor, em espécie de manual didáctico. Após várias entradas frescas ou mais conhecidas pelo vulgo, o autor anónimo deixava bem claro, no final: «As receitas que i poderam haver, seerá frol quem no mais tender, ca a seu golpe nom pode durar arma». E era sobre este final, de uma certa desesperança na resolução dos casos com a ajuda do próprio manual, que eu ia falar no congresso. Por experiência própria, pois então.

III. 13. O exílio

Doía-lhe aquela existência e não conseguia perceber como poderia sobreviver no seu próprio espaço, voltar a ser o que era. É que estando ela no seu lugar de sempre, como se poderia sentir em exílio? O exilado é aquele que está morto para a sua terra, em parte, pelo menos, e ela sentia-se assim, morta na sua terra, como que exilada antes desta ser sua e fosse apenas um reflexo e algo que nunca poderia realmente existir – a vida.

III. 15. Deus como romancista

Cá fora, vestiu o casaco rapidamente, e circulou, para não se deixar chorar. Mas chorou, a andar, como se fosse um mendigo sem casa – e era-o, naquele momento, sem a melhor casa da vida, a casa dos verdadeiros amigos que nos abrigam o mais importante: o gosto que têm de nós. E ele via-se assim, de repente, sozinho numa rua que não costumava frequentar, com casas que lhe pareciam vazias de vida, embora fossem bonitas. E, por fim, achou a entrada de uma casa onde se sentar e perder-se durante algum tempo. Nada do que se passou a seguir interessa a ninguém. Dos seus vinte e cinco anos de pouca experiência, o professor não sabia o que era perder um amigo de forma tão voluntária. Nem nunca saberia, de facto.

sábado, março 28, 2009

O livro dos dias - (breve selecção de Março)

5. Primeira frase, em muitas das últimas, que não é sobre ti, ou para ti. Ou então não...

6. O comprazimento da dor. O gostar de sofrer. Não é isso que quero mas às vezes parece que sim. É como se nada valesse realmente a pena e o melhor seria fugir e ler, apenas, até a morte chegar e levar-me para uma biblioteca eterna. Mas não é de livros que preciso, T., é de ti. do teu assoar discreto, do riso tão próprio, dos olhos inquietos. É por eles, pela falta deles e de tudo que sofro. Não podes ser da amizade, tens de ser também do amor, do meu amor - isso já és, falta o resto...

8. «O meu Guano desapareceu, fiquei muito triste... e o Rafa: ó Rita, não fiques triste, o Guano só morreu e depois volta.» - A sabedoria das crianças!

9. Esses botões desapertados, por esquecimento, em lugar tão crítico, bastariam para encher a minha mão. Mas não para saciar o que tu sabes que também termina em ão.

10. Deus é realmente um romancista dos ranhosos. E o resto é silêncio, pois então.

14. E não é que voltou mesmo! O meu primo Rafael afinal sabe mesmo destas coisas. E ainda comentou «Foi às meninas»!

19. E «enquanto eu não reclamo a dor dos dias» e a morte não toma conta dessa reclamação, continuarei aqui, à espera...

27. «É para dizer que em parte a minha vida está ligada à tua e tens que cuidar de ambas - agora não tens outra saída senão viver eternamente.» Marta
embora "eternamente" seja demasiado para mim...

29. «A ouvir o silêncio que a ausência da tua voz, do teu abraço... de ti... traz até a mim...» (roubado ao Tozé - frase do msn)

30. Face ao vazio e à loucura: as palavras.

31. Pergunto-me quantas vezes te terás lembrado de mim hoje. Nenhuma, ou uma ou outra, por acidente. Pois eu apenas uma; ao acordar lembrei-me da tua ausência real... e nunca mais apaguei de mim o desejo de ti.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

O mundo não passa de mundo

É o título do terceiro livro de contos. Substitui o antigo e provisório título Já deste corda ao Pardal?. Este de agora é menos concreto, mas mais meu, depois do espectáculo do Shakespeare e de acontecimentos recentes. Assim mesmo: O mundo não passa de mundo. E dos cinco primeiros contos:

1. Cosmos
2. Das palavras inúteis
3. Martim e a demanda
4. Conto contando-te
5. O homem sem a sua sombra

selecciono estes excertos só porque sim (os outros contos são mais privados e inacabados, ainda)

III. 1. Cosmos: «Mas nesse dia, estando ele à beira de um rio borbulhante, nu para tomar banho, apareceram uns seres estranhos, que ele pensou serem homens, por serem feitos à imagem e semelhança deles. Estes viram-no belo e harmonioso, mas acharam-no horrível, embora não se saiba se por ser diferente se por inveja dessa diferença. E perceberam quem era, e o que tinham de fazer. Por isso, atiraram-se a ele, para o afogar. Desse deus simples, sem nome, sem rosto, ficou a flutuar no rio amansado uma luz, e dessa luz, intensa, quente, começou a libertar-se um nevoeiro cerrado, que subia e formava nuvens mais grossas e escuras. Os seres parecidos com homens tiveram medo e fugiram, sabendo que tinham atentado contra um deus. Eram eles próprios deuses, mas sem a simplicidade e sem a pureza daquele que ali andava a ocupar espaços que eles próprios ambicionavam. Mas temeram e fugiram. Mais tarde viriam, dar-se-iam a conhecer e também eles viriam a ser expulsos deste mundo, mas deles ficaram estas estátuas, estas pinturas, estes templos como memória, como habitação. »

III. 2. Das palavras inúteis: «Ela não leu as palavras dele, ele não soube dizê-las de outra forma e as coisas teriam sido perdidas como num deserto um grão de arroz, se ela não fosse diferente, se ela não precisasse de as ouvir, de saber como «Dou por mim muitas vezes ao longo do dia a pensar no teu sorriso, nas tuas palavras e fico sempre cm vontade de estar contigo, de te abraçar, de te beijar e de dizer ao teu ouvido o quanto eu gosto de ti.». Não precisava, ao contrário dele e de tantos outros, das palavras para estabelecerem certezas. Mas ela não sabia como as palavras são importantes para que as certezas não passem drasticamente a dúvidas.»

III. 3. Martim e a Demanda: «Na verdade, a torre da vitória, apesar de bem conhecida por todos, de vista, ao longe, era tida como o maior mistério das redondezas. Era uma torre muito alta, coberta de silvas até metade, negra no restante, com pedras salientes como escamas, brilhantes ao sol, assustadoras em qualquer momento do dia ou da noite, envoltas num clima que lhe parecia intrínseco e que raiava a maldade pura. Ninguém, no castelo, percebia era o objectivo de guardar o livro do Graal num sítio mau. Ninguém achava também outro lugar onde fosse possível ter guardado uma coisa tão importante, embora não pensassem que poderia não estar ali, mas num mundo tão vasto como a soma dos reinos que ainda faltavam conquistar para juntar aos já conquistados. Ninguém que se tivesse aventurado pela floresta para chegar à torre tinha voltado para contar o que vira o que lhe sucedera…»

quarta-feira, janeiro 21, 2009

continua sem ser um regresso...

só por companhia, motivado por este post. E apesar de gostar mais da versão estúdio, fica esta (é que as de estúdio têm uns vídeos amadores que valha-me Deus).

Isto não é um regresso...

Fui ver O Mercador de Veneza, no São João, encenação de Ricardo Pais. Tudo de bom, desde a encenação ao texto (e suas opções), passando pelo elenco extraordinário e palco e tudo mais. Nada de novo, portanto. Gosto muito do que costumo ver lá - mas não é disso que quero escrever. Esta peça em especial marcou-me de forma estranha, impressa na alma... No trabalho (já pareço gente crescida) ninguém pode já ouvir-me falar da peça, do texto, em especial de duas frases, ambas ditas por António (Albano Jerónimo), a personagem ambígua da qual pouco se sabe e da qual realmente se gostaria de saber, com uma relação um pouco dúbia com Bassânio (Pedro Almendra). Essas frases são «Na verdade, não sei por que ando tão triste» e «o mundo não passa de mundo». Logo a abrir, como que escolhidas de propósito para mim. Mas há mais... Fica aí o início do texto (não a versão do Daniel Jonas, mais interessante, mas ainda assim dá para seguir a ideia; azuis destacantes...), mas não conto. Ficam também imagens dessa sequência do espectáculo. E realmente não sei os motivos...



«ATO I

Cena I
Veneza. Uma rua. Entram Antônio. Salarino e Salânio.

ANTÓNIO - Não sei, realmente, porque estou tão triste. Isso me enfara; e a vós também, dissestes. Mas como começou essa tristeza, de que modo a adquiri, como me veio, onde nasceu, de que matéria é feita, ainda estou por saber. E de tal modo obtuso ela me deixa, que mui dificilmente me conheço.

SALARINO - Vosso espírito voga em pleno oceano, onde vossos galeões de altivas velas - como burgueses ricos e senhores das ondas, ou qual vista aparatosa distendida no mar - olham por cima da multidão de humildes traficantes que os saúdam, modestos, inclinando-se, quando perpassam com tecidas asas.

SALÂNIO - Podeis crer-me, senhor: caso eu tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeições navegaria com minhas esperanças. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debruçado nos mapas, sempre, procurara portos, embarcadoiros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.

SALARINO - Meu hálito, que a sopa deixa fria, produzir-me-ia febre, ao pensamento dos desastres que um vento muito forte pode causar no mar. Não poderia ver correr a ampulheta, sem que à idéia me viessem logo bancos e mais bancos de areia e mil baixios, inclinado vendo o meu rico "André" numa coroa, mais fundo o topo do que os próprios flancos, para beijar a tumba; não iria à igreja sem que a vista do edifício majestoso de pedra me fizesse logo lembrado de aguçadas rochas, que, a um simples toque no meu gentil barco, dispersariam pelas ondas bravas suas especiarias, revestindo com minhas sedas as selvagens ondas. Em resumo: até há pouco tão valioso tudo isso; agora, sem valia alguma. Pensamento terei para sobre essa conjuntura pensar, e há de faltar-me pensamento no que respeita à idéia de que tal coisa me faria triste? Mas não precisareis dizer-me nada: sei que Antônio está triste só de tanto pensar em suas cargas.

ANTÔNIO - Podeis crer-me, não é assim. Sou grato à minha sorte; mas não confio nunca os meus haveres a um só lugar e a um barco, simplesmente nem depende o que tenho dos azares do corrente ano, apenas. Não me deixam triste, por conseguinte, as minhas cargas.

SALARINO - Então estais amando.

ANTÔNIO - Ora! Que idéia!

SALARINO - Não é paixão, também? Então digamos que triste estais por não estardes ledo, e que saltar e rir vos fora fácil e acrescentar, depois, que estais alegre porque triste não estais. Pelo deus Jano de dupla face, a natureza, agora, confecciona uns sujeitos bem curiosos: uns, de olhos apertados, riem como papagaio trepado numa gaita de foles; outros andam com tal cara de vinagre, que nunca os dentes mostram à guisa de sorriso, muito embora Nestor jurasse que a pilhéria é boa.

(Entram Bassânio, Lourenço e Graciano.)

SALÂNIO - Eis que vem vindo aí Bassânio, vosso muito nobre parente, acompanhado de Lourenço e Graciano. Passai bem, que em melhor companhia vos deixamos.

SALARINO - Ficaria convosco até deixar-vos mais disposto, se amigos muito dignos não me solicitassem neste instante.

ANTÔNIO - Sei apreciar em tudo vossos méritos. Os negócios vos chamam, estou certo, e o ensejo aproveitais para deixar-nos.

SALARINO - Bom dia, caros lordes.

BASSÂNIO - Quando riremos outra vez, senhores? Dizei-nos: quando? Quase vos tornastes estranhos para nós. É concebível semelhante atitude?

SALARINO -Nossas folgas irão ficar só ao dispor das vossas.

(Saem Salarino e Salânio.)

LOURENÇO - Caro senhor Bassânio, já que achastes Antônio, vos deixamos. Mas mui gratos vos
ficaremos, se hoje à noite, à ceia, vos lembrardes do ponto em que devemos encontrar-nos de novo.

BASSÂNIO -Combinado.

GRACIANO - Signior Antônio, pareceis doente. Preocupai-vos demais com este mundo. Perda de vulto é tudo o que nos custa tantos cuidados. Podeis dar-me crédito: mudastes por maneira extraordinária.

ANTÔNIO - O mundo, para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste

O Mercador de Veneza, William Shakespeare, excerto retirado daqui.

domingo, dezembro 21, 2008

Sugestões de Dezembro

Algumas das coisas que preencheram este mês:

1 – A História de Van Gogh e o Rapaz dos Girassóis, Laurence Anholt, Círculo de Leitores****

argumentos: um livro muito bonito visualmente, com ilustrações (do próprio Laurence Anholt) que partem dos quadros de Van Gogh para recriar um tempo da vida do pintor: a da sua estadia numa aldeia e o relacionamento desenvolvido com o rapaz os girassóis. Revela a importância da arte e a incompreensão a que as novidades são votadas, ou seja, o problema da aceitação da diferença. Ver mais em: http://www.anholt.co.uk/

2 – «Ficções 3», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente****
3 – «Ficções 4», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente****

argumentos: gosto muito destas revistas/livros que apresentam contos inéditos, contos traduzidos pela primeira vez ou melhor traduzidos do que nas versões já existentes, contos recuperados das colectâneas de diversos autores. Destes dois volumes destaco os contos de Maupassant, Dino Buzatti, Mário de Carvalho e Ambrose Bierce, Henry James, Marcel Aymé, Margaret Atwood e Hélia Correia. Mais: «Tirando o moscardo, a única vez que vi um bicho a voar sem ter com quê, foi uma cobra num livro de Lídia Jorge. Mas isso era ficção, a mesma autora não o nega.» (Mário de Carvalho, 3, p.96); «Na altura, ainda não sabia que quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre a falta de algo onde quer que esteja.» (José Luís Peixoto, 3, p.127) e «Aquilo a que chama morrer é apenas a última dor na realidade, não existe “morrer”» (Ambrose Bierce, 4, p.10).


4 – Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto, Caminho****

argumentos: mais um interessante livro de Mia Couto, mas pareceu-me um pouco inferior aos anteriores. Mas ainda assim um excelente livro: leitura facilitada pela predominância do diálogo e pelo tom de mistério da trama, já que começam a surgir dúvidas sobre a verdade da realidade enfrentada por um médico que se deslocou a Moçambique para recuperar o amor de uma moçambicana que conheceu em Lisboa, e que espera que ela regresse de um estágio, ao mesmo tempo que vai conhecendo os mistérios de Vila Cacimba. As personagens são muito interessantes, existe humor e profundidade – a leitura rápida pode deixar alguns pormenores não revelados – e frases daquelas que se recortam para álbuns e diários: «Eu só melhoro quando deixo de ser eu.» (p.13), «agora sofro de rugas até na alma» (p.29), «Todos sabem: a casa só é nossa quando é maior que o mundo» (p.50), «o meu medo não é de morrer. o meu medo é ter de nascer de novo.» (p.135) e «Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que e sempre tardio e pouco.» (p.155).


5 – Dacoli e Dacolá, Miguel Horta, Pé de Página***
6 – O Afinador de Palavras, Rui Grácio e Catarina Fernandes, Pé de Página***
7 – Os livros que gostam de contar histórias, Fátima Éffe & Zé-Luís, Pé de Página****

argumentos: uma série de livros de leitura encomendada pela coordenadora de Português do segundo ciclo para escolher qual destes para o quinto e para o sexto – para uma actividade de leitura na sala de aula seguida de conversa com o autor ou assistência de uma pequena representação teatral. Apesar de o primeiro ter histórias bonitas, e o segundo umas imagens belíssimas (tristonhas), eu optei nitidamente pelo terceiro, sobre os livros (de bolso, em branco, as letras e as palavras, etc. etc…) Mas o terceiro fica para o sexto, porque é um pouco mais extenso e exigente. Mais: «A nossa terra é onde está o nosso coração e o nosso coração sabe sempre o seu lugar» (Miguel Horta, p.5), «Na realidade, as palavras, tendo o mesmo som e as mesmas letras, nem sempre significam o mesmo. Podem ter muitos significados, consoante as companhias com que andam…» (Rui Grácio e Catarina Fernandes, p.10) e «O livro não é apenas um livro» (Fátima Éffe & Zé-Luís, p.8).


8 – A Viagem do Elefante, José Saramago, Caminho*****

argumentos: um grande romance, mais um. Este conta a longa e difícil viagem do elefante salomão (letra minúscula de propósito), mais tarde dito o solimão, através de portugal, espanha, itália, até à Áustria, que é enviado a maximilano da áustria como presente do rei d. joão III. Obviamente a viagem do elefante é apenas o pretexto para uma série de meditações sobre o ser humano, espelhado ou não no comportamento e natureza do elefante, mas também críticas ao poder político e religioso, onde prepondera, a meu ver, o humor de uma ironia distanciada mas também compadecida. Um excelente romance de um dos nossos melhores escritores. Mais: «Nem tudo são letras no mundo, meu senhor, ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético, Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu,» (p.19); «costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas.» (p.75); «Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades.» (p.147) e, entra muitas outras, «Ter de pagar pelos próprios sonhos deve ser o pior dos desesperos.» (p.97).


9 – Trabalhos e Paixões de Benito Prada, Fernando Assis Pacheco, Asa****

argumentos: um romance de tom picaresco, muito bem construído, sobre a família Prada, centrada no filho mais velho, Benito, que segue as pisadas do pai e deixa a Galiza para trabalhar em Portugal, mas de modo permanente. Mais do que os amores, temos a sua vida de trabalho, os sofrimentos e as conquistas, o valor da família, tudo num contexto histórico que ganha algum relevo, por vezes: Primeira República, emigração massiva dos galegos, Sidónio Pais, o Estado Novo, Franco… Com aspectos curiosíssimos, como «mas era apenas sonho, e os sonhos doem como não doem as picadas das vespas» (p.47), «Gasta-se muita literatura a falar do medo.» (p.168) e «Tristeza tão triste nunca saiu nos livros.» (p.224).


10 – A Musa Irregular, Fernando Assis Pacheco, Asa***

argumentos: poesia reunida de Fernando Assis Pacheco. Poesia de amor, de medos, de paz e de guerra, de dor, de vida e morte. Poesia sobre tudo, em sumo. E vale a pena conhecê-la, de resto. De resto, alguns poemas ainda virão para este blogue.

Cinema:

O Empregado do Mês***
Uma Série de Desgraças****

Música no Coração*****
O Feiticeiro de Oz****
A Minha Super Ex****


TV:

Clara e Francisco****
Robin Hood****
O Triângulo Jota***

domingo, dezembro 07, 2008

Alçada Baptista, 1927/2008

Descobrem-se assim as coisas. Estava a abrir o email e aparece a notícia. Reconheço que nunca me disse nada nem nunca li nada do senhor, mas quando escritor morre, mesmo ficando o que de mais importante escreveu (em princípio), fica sempre o lamento por aquilo que não chegou a ser escrito.
Advogado e escritor, publicou ensaios, crónicas, romances e ficção, cujas características princípiais estão as narrativas imaginárias e as memórias pessoais, o interior do Homem, o afecto, a mulher...

Obra:

Documentos Políticos (crónicas e ensaios) (1970)
Peregrinação Interior I - Reflexões sobre Deus (1971)
O Tempo das Palavras (1973)
Conversas com Marcello Caetano (1973)
Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança (1982)
Os Nós e os Laços (romance) (1985)
Catarina ou a Sabor a Maçã (1988)
Tia Suzana, Meu Amor (romance) (1989)
O Riso de Deus (romance) (1994)
A Pesca À Linha, Algumas Memórias (1998)
A Cor dos Dias (2003)

O segundo, o terceiro, o quinto e o último parecem interessantes, só pelo título. Informação recolhida aqui e aqui.

Palavras do autor:

«- Essa é uma das minhas dúvidas: um homem e uma mulher não podem viver na dialéctica e muito menos nesta pedagogia doméstica de se ensinarem como é que um quer o outro. O futuro não vai conhecer a dialéctica e o amor entre duas pessoas tem que ser o nosso ensaio de futuro, pelo menos aquele que nos é mais acessível. Amar é uma atitude de compreender e aceitar: é reconhecer os outros e respeitar a sua liberdade. Não pode ser outra coisa, se quisermos acabar com este espectáculo triste em que todos andamos metidos. Eu só aceito catástrofes naturais: os tremores de terra, as inundações, as secas, os ciclones, a morte. Não posso aceitar esta destruição domiciliária dos sentimentos e da vida pela vontade deliberada dum homem e duma mulher que é o que se anda pr'aí a viver com o nome de amor...»

de Os Nós e os Laços

segunda-feira, novembro 17, 2008

Selecção sofrida e demorada, mas breve, da poesia reunida de Jorge Sousa Braga


*
Alguns enxames de abelhas invadiram o Museu do Louvre e exploraram cuidadosamente todas as naturezas mortas com flores, não tendo deixado um único grão de pólen.

**
Era quase tão bela como a Vénus de Milo. Um dia cortou os braços a sangue frio.

***
Na tarde em que ia morrer estava Sócrates com os seus discípulos quando um pássaro com um ramo de ervas no bico irrompeu na cela. Depois de ter bebido a cicuta, Sócrates continuou discorrendo durante algum tempo ainda, sobre a imponderabilidade do pensamento. Morreu com um sorriso na boca. Os discípulos repartiram entre si os objectos de uso pessoal. O pássaro que até aí se mantivera na penumbra apoderou-se do sorriso e desapareceu no céu de Atenas.

****
Cabril

Esta noite sonhei que era um rio. Um rio pequenino, é certo, que nada mais conhecia além das montanhas onde nascia, dos amieiros e dos juncos que nele se debruçavam. Como todos os rios, o que eu mais ardentemente desejava era desaguar. Comecei a perguntar onde ficava o mar, mas ninguém me sabia responder. Apontavam-me com um gesto vago ora o este ora o oeste. Escolhera já a forma de desaguar – em delta, claro – mas não recolhera ainda o menor indício da proximidade do mar. Uma noite em que estava acampado ente as dunas cheguei finalmente a uma conclusão (a mesma a que todos os rios chegaram talvez antes de mim): o mar não existia.

(E essa conclusão era salgada.)

*****
A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
a vontade de voar

******
Vou ao céu
E venho-
-me

*******
Qual é a minha
ou a tua
língua?

********
O Velho Poeta

O seu desejo era que plantassem
um espinheiro numa nesga de

terra frente ao mar e ao rio
e que ele florisse nem

que fosse uma única vez
Este espinheiro protegê-lo-ia

mais do frio que um edredão
A nesga de terra continua lá

e o mar e o rio e a manhã
Só o espinheiro e o poeta

é que não

*********
A Religião da Cor

A paleta está cheia de cores: azul-celeste, laranja, rosa, cinábrio, amarelo vivo, violeta, borra de vinho.

Falta-me uma cor ainda. Para pintar a inexistência de Deus.

**********
Van Gogh por ele próprio

Vivo numa cela. O universo é uma cela com três metros de comprimento por dois de largura. Fecharam-se nesta cela e disseram-me: Bem, Vincent, agora podes correr à vontade.


Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu, Assírio & Alvim, p.30, 36, 37, 99, 178, 179, 184, 277, 296, 299.

quinta-feira, novembro 13, 2008

um poema de Tamara Kamenszain

Gentios

Deus escreve a diferença
no espelho da desordem genética
se me olho desconto meu duplo
se te vejo acrescento tua metade.
Diferença idêntica
faz rir de tanto nos parecermos
área à semita judia o ário
loucos soltos fechados juntos
protegidos sob a intempérie sem fio
como animais ante seu próprio enterro
pelos restos do campo.
Nesse lugar descampado
nesse perímetro que nos concentrava
eu sou aquela que morreu por ti
e por tua gentileza ainda sou
a que te deixou
---------------morrer.
Deus nos arquivará distintos
sem seu livro dos parentescos
no velho eu você no novo
dois testamentos na fossa comum
e depois
--------que nos identifiquem.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Sugestões de Outubro

Terminada A Bíblia, de volta à poesia (após um mês de ausência), com surpresas pelo meio. E o regresso ao fado. Um mês com muitas aventuras, mas com balanço positivo. Segue-se mais. Ficam aí as sugestões para os vossos meses:

Livros:

1 – A Bíblia (Epístola de S. Tiago, Epístolas de S. Pedro, Epístolas de S. João, Epístola de São Judas, Apocalipse), Paulus****

argumentos: já é recomendável só por serem os últimos livros, mas além disso recomenda-se porque dão mais (do mesmo ou não) sobre a formação da Igreja, de modo pessoal, individual, com linguagens próprias. Destaque maior para Apocalipse, atribuído a São João e um dos textos mais conhecidos, citados, parodiados do conjunto completo. Mais: «aquele que duvida é como a onda do mar que o vento leva de um lado para o outro.» (Tg 1, 6) e «No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor.» (I JO 4, 18).


2 – O Ingénuo, Voltaire, Quasi/DN****

argumentos: não é de agora a minha paixão pelos contos/novelas de Voltaire. Zadig e Cândido já fizeram as minhas delícias no passado. Desta vez, embora com um final trágico, a história tem alguns dos mesmos ingredientes: humor, crítica (política, social, religiosa) e uma série de situações bizarras que se encadeiam logicamente com uma coerência notável (falo de acasos, coincidências, mal-entendidos, ingenuidades...). Gostei muito e recomendo, juntamente com os outros títulos. Mais: «discutiu mas acabou por reconhecer o seu erro (caso bastante raro na Europa entre as pessoas que discutem)» p.19, «Leu histórias, entristeceram-no. O mundo pareceu-lhe preverso e miserável. Realmente, que é a história senão um quadro de crimes e infortúnios?» p.48, «Para alguma coisa serve a infelicidade.» p.93.


3 – O Jardim Sem Limites, Lídia Jorge, Planeta de Agostini****

argumentos: fiz as pazes com Lidia Jorge ao ler este livro. Uma casa devoluta em Lisboa (a Lisboa que já conheço melhor e que se me afigura agora evocativamente) onde co-habitam várias personagens, cada uma com as suas frustrações e desejos, observadas e contadas por uma voz que nunca ganha realmente corpo ou identidade e por uma máquina Remington. Gostei especialmente do Static Man (que acaba por ocupar grande parte da história) e da dona da casa e suas deambulações. Mais: «Tens a certeza de que estás a escrever sobre factos que podiam ter acontecido? Se não podiam, então rasga, é porque não presta...» p.16, «Deve-se pedir às pessoas que ainda se lembram, precisamente, que não se lembrem mais, para não nos atrapalharem a vida.» p.56 e «É uma coincidência. Isto é, não existe Deus, mas para nos confundir existe a coincidência.» p.387.


4 – O Ano de 1993, José Saramago, Caminho****

argumentos: mais uma obra do escritor que mais me ocupou este ano. Desta vez um livro que está classificado como poesia, em prosa, é certo, nuam espécie de versículos. Uma história corre estes versículos, a da destruição do mundo tal como o vemos. Algo apocalíptico com passagens avassaladoras: o interrogatório, a violação, o fogo, a árvore, a fertilidade e a menstruação... Recomendo vivamente. Mais: «Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos» p.42, «Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada» p.72 e «E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade.» p.87.


5 – Obra Quase Incompleta, Alberto Pimenta, Fenda****

argumentos: nesta recolha da obra (até 1990) há de tudo: os poemas (das mais diversas direcções que o poeta seguiu), os textos de reflexão sobre a poesia e a sua poesia, as fotos dos momentos em que fez sessões de poesia ao vivo. Irónico, provocador, humorístico, insólito, perturbador... Podem ver/ler aqui alguns poemas escolhidos. Mais: «se o poema é tudo, como dizer seja o que for sobre ele? e se por outro lado é fragmento (coisa nunca verdadeiramente começada nem verdadeiramente acabada) como dizer também seja o que for sobre ele?»p.255.


6 – O Sonho dum Homem Ridículo, Dostoievski, Quasi/DN***

argumentos: dois contos aqui publicados, diferentes, mas ambos interessantes. Embora predomine o onírico utópico, há um forte realismo com incidência nos males da natureza e da vida humana que vale a pena ler antes dos grandes romances do senhor. Mais: «Naquele momento era para mim absolutamente evidente que a vida e o mundo dependiam quase unicamente de mim. posso dizer ainda mais: que o mundo, agora, parecia quase criado para mim apenas... pois, quando tivesse dado o tiro, o mundo deixaria de existir, pelo menos para mim.»p.21.


7 – O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Mr. Hyde, R. L. Stevenson, Quasi/DN*****

argumentos: gostei muito desta história que já conhecia de alguns sítios, talvez filmes, talvez animações, talvez de resumos, com certeza da cultura geral. Um interessante jogo/estudo (o que quiserem) sobre a dualidade do ser humano e da coexistência do bem e do mal em cada um de nós. Com uma nota de suspense e mistério, o livro só peca por ser tão pequeno... ou talvez não. Mais: «Tenho alguma simpatia pela heresia de Caim (...). Deixo o meu irmão ir para o inferno da forma que melhor lhe aprouver.» p.7 e«O homem será, um dia, conhecido como uma mera comunidade de habitantes multifacetados, incongruentes e independentes.»p.80.

8 – História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luís Sepúlveda, Asa*****

argumentos: ora mais um livro daqueles de que toda a gente fala e diz quão fantástico é e coisa e tal, que me deixou sempre de pé atrás. Mas é um gato, e convenhamos, uma gaivota, e ambos fazem parte da minha vida (a gaivota de uma fase que já ficou lá a atrás). E adorei o livro! Gato Zorbas, podes vir cá para casa que eu deixo. Tudo muito simples, muito eficaz, muito bonito. ai a inveja a certos textos... E entra-se nele já com a ideia: como é que um gato vai ensinar uma gaivota a voar? Mas afinal é bem mais do que isso! Mais: «gostava especialmente de observar as bandeiras de barcos, pois sabia que cada uma delas representava uma forma de falar, de dar nome às mesmas coisas com palavras diferentes.» p.12 e «Ouvi-o ler o que escreve. São palavras belas que alegram ou entristecem, mas que produzem sempre prazer e suscitam o desejo de continuar a ouvir.»p.107.

9 – Quatro Contos Dispersos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Figueirinhas****

argumentos: quatro contos publicados em revista e um numa edição da EXPO'98, agora reunidos num único volume. «Era uma vez uma praia atlêntica» tem a força das narrativas marítimas de Sophia e uma preocupação com a justiça, com uma belíssima descrição de um homem que se aproxima à de«Homero» dos Contos Exemplares. Outros dois, publicados na Colóquio Letras, intitulam-se «Leitura no Comboio» e «O Cego». Mas queria destacar sobretudo o outro conto, projecto de um maior que não teve término, com o título «O Carrasco». Gosto imenso de toda a descrição dos efeitos físicos e psicológicos do carrascos sobre as pessoas e as coisas com quem contacta, muito bom! E vale a pena ler Sophia, sempre! Mais: «Mesmo envelhecido era um homem belo, alto, de ombroa largos e costas direitas. Tinha os olhos de um cinzento nebuloso como o mar de Inverno mas, às vezes, um sorriso os azulava e então pareciam muito claros na pele quimada. A sua estatura, o seu porte de mastro, as suas veias grossas como cabos e os anéis da barba e do cabelo, a aura marítima que o rodeava, davam-lhe um certo ar de monumento manuelino mas, simultaneamente, tinha a beleza tosca e tocante de um barco de pescadores, cosntruído com as mãos, pintado com as mãos e deslavado por muito mar e muitos sóis.»p.40.

10 – Leitão Ciclista em busca do paraíso, Arsénio Mota, Pé de Página***

argumentos: a pedido da direcção do colégio, para ver se convidávamos o escritor a vir à escola. O meu parecer foi positivo, porque o livro é muito bem feito, engraçado, e coloca o problema da relação da pessoa com a sua terra natal: um leitão que gosta de andar de bicicleta decide ir em busca da terra da mãe, um pequeno paraíso terrestre, mas descobre uma realidade bem diferente... Mais: «queiramos ou não, ficamos a pertencer pelo nascimento à nossa pátria, à nossa língua e cultura. E mais, ficamos a pertencer ao nosso tempo, pois outro não temos!» p.36.

Música:

Mariza - Terra*****

argumentos: ora finalmente cá tenho o novo cd de Mariza. Estranhei ao início: demasiados ritmos alternativos incorporados por aqui: mornas de Cabo Verde, o jazz, o flamengo, eu sei lá mais o quê. Mas a voz dela une tudo com uma harmonia que enlaça e não permite escapar. Gosto, em especial, de «Minh'alma» e «Se eu mandasse nas palavras», mas também de «Já me deixou», «Rosa Branca», «Tasco da Mouraria», «Alfama», «Alma de Vento» entre outras. A grande senhora está de volta, e bem!


Cinema:

Uma estranha passagem por Veneza***, de Paul Schnader, com Rupert Everett, Natasha Richardson, Helen Mirren e Christopher Walken (1990 - muito estranho, mas interessante, com belas paisagens de Veneza. Com argumento de Ian McEwan e Harold Painter).
O Amante de Lady Chatterley***, de Pascale Ferran, com Marina Hands, Jean-Louis Coullo'ch, Hippolyte Girardot (2006, uma de várias versões do romance de D. W. Lawrence - um pouco estranho, sobretudo o final e a primeira cena de sexo...).

domingo, setembro 07, 2008

Fragmentos de contos do Vazio Repetido

Já há muito tempo que ponho aqui nenhum conto. Ou porque são muito grandes para um blogue ou porque não são assim tão grande coisa... Mas tenho cumprido religiosamente o meu compromisso de escrever um conto por semana (bom, às vezes atraso-me outras adianto-me, como agora, que tenho dois a mais;) o que é muito bom). Mas agora deu-me para pôr aqui uns fragmentos de alguns, só porque sim.


II. 21. A consistência dos sonhos
:
«Pegou na carteirinha amarela que dizia: «Um dia paro de esperar. Hoje é o dia». Despediu-se até ao dia seguinte e desceu a escadaria ladeada de estátuas. Não tomou o café. Correu para o autocarro que ali vinha e que esperou um pouco por ele. Tinha decidido, entretanto, que não esperava mais. Os sonhos não se compadecem de quem só espera. Há quem alcance, há quem desespere, há quem procure. E entrou, agradecendo ao condutor, enquanto a chuva recrudescia e o palácio ia ficando para trás.»


II. 24. O dia que não amanheceu:
«Tentei pegar no telemóvel para telefonar à Maria, para ver se ela me acordava com o telemóvel, mas não consegui, porque entretanto estava a ligar de olhos fechados e foi para outro número. Não sei se desliguei, se cheguei mesmo a marcar… Tentei berrar, porque ganhei a consciência de que mais alguém estava em casa. Era a Sandra, que estava a dormir no outro quarto. Ao berrar, acordei, e ouvi a Sandra dizer, Rápido, saiam todos que ele está a acordar. Olhei para o corredor e vi umas vinte pessoas saírem pela janela do quarto, para que eu não desse conta.»


II. 26. Teias de aranha:
«Entretanto, o senhor Eugénio foi-me chamando muitas vezes, não para o ver sobre questões de saúde, mas para me mostrar outras invenções em que se entretinha. Em poucos anos mostrou-me um conjunto admirável de descobertas próprias que ele mostrava inicialmente com orgulho, depois com relutância, depois com desespero. É que ao longo do tempo que me foi mostrando as suas invenções, eu fui-lhe explicando que aquelas coisas já existiam, inventadas por outros, antes, e que muita gente as tinha em casa, a seu uso diário. Desfilaram então pelos meus olhos a torradeira, que ele apresentava como a máquina de aquecer deliciosamente o pão, obrigando-me a provar uma fatia torrada lá com manteiga, e que nada tinha de excepcional em relação ao excepcional sabor do pão torrado na mais corriqueira torradeira; a campainha para pessoas que eram enterradas vivas por engano, que felizmente não me fez experimentar, respeitando a minha claustrofobia; um modo de gravar vozes em fitas que quase todo o mundo conhecia como cassetes mas que para o senhor Eugénio era novidade sua, exclusiva e radical. Aconselhei-o então, ao ver o seu desânimo, mas também o seu talento como inventor de diversas coisas, de diversos domínios, a deixar a sua casa torre de marfim onde se fechava, e a percorrer o mundo para ver o que já existia e o que ainda faltava. E assim partiu uns dias depois.»


II. 28. Sinais/Signos:
«Os funerais aqui ainda são antecedidos pelos sinais, toques específicos do sino da igreja. Durante muito tempo, sempre que tocavam os sinais, uma grande parte das pessoas da aldeia pensavam «Lá foi o António, coitado. Deus o tenha na Sua glória.». Mas não, o António continuava a resistir à doença que o roía por dentro há anos, contra todas as expectativas dos médicos. De tal maneira era assim que, a dada altura, o próprio António pensava que chegara a sua vez quando ouvia os sinais, sem se aperceber que ainda estava vivo e que se fosse por causa dele que tocavam os sinais ele não saberia, pois não os ouviria. Ou antes, era assim que eu pensava. Mas entretanto descobriu que as coisas são bem diferentes quando morreu e ouviu os sinais e soube que eram sobre si. E ouviu os pensamentos das pessoas que foram ao seu funeral.»


II. 30. O suave milagre de Tormes:
«Ninguém tem dificuldade em encontrar, pelo menos, o espaço bíblico no conto, as referências, enfim, toda uma construção a partir de Renan e della Gatina, também presente em «A Morte de Jesus» e em A Relíquia. Mas enfim, encontrar o tom bíblico na linguagem e sua instrumentalização, como ele dizia, era um pouco mais… forçado. Mas ele lá foi demonstrando a sua ideia. Acredite, levou provas a que chamou irrefutáveis de que Eça plagiara manuscritos meio secretos, meio perdidos, que teria adquirido, talvez, na sua ida à Terra Santa, ao Egipto e afins, aquando da inauguração do canal do Suez. Era uma tese ridícula, na minha opinião. Ele explorou-a muito, perante a minha incredulidade e indiferença dos restantes cursantes, cheios de sono àquelas horas da tarde de calor após refastelado almoço. Depois, não satisfeito, comparou com «A Perfeição», claramente, obviamente – diria eu – feita a partir de A Odisseia do bom velho e sonolento Homero, mas muito diferente dela. E quem faz uma assim, faz mais. Então, «O Suave Milagre», em todas as suas versões, não era mais do que isto: uma tradução, mais ou menos literal a que se seguiram as adaptações mais ao estilo do autor. Estava lá tudo, segundo ele. Só lhe faltava encontrar o manuscrito que Eça usara.»


II. 34. Para além das amoras:
«Mas C. era perspicaz e era de facto superior a todos naquela casa. A sua formação em literatura e as leituras que fez por dedicação e por prazer tinham-lhe dado uma enciclopédia interior que fazia com que soubesse portar-se em todas as situações, observando e vivendo ao mesmo tempo, antecipando sem esquecer, lembrando sem deixar de adivinhar as reacções. E depois havia o seu ar estudadamente indiferente que com o tempo se tornou natural em si, sem esforço. Pensava muitas vezes que aquilo que somos é fruto de coisas que fazemos uma, duas, três - as vezes suficientes para que se tornem rotina, e por isso, sem esforço, sem pensamento envolvido. Duvidava por isso de quem era realmente, do que era, do quanto haveria em si de construção que ela não deveria ter escolhido para si, pensando no entanto que era impossível saber que construções eram as indicadas ou não, todas elas passíveis de ser totalmente mudadas na sua construção… bastava, por exemplo, ela ter escolhido um curso diferente, ou em vez de se deixar maravilhar pelos livros se tivesse entusiasmado por bordados e vestidos – ou só por isto, como a maior parte das amigas que lhe queriam imputar, filhas de famílias de amigas de bem, vizinhas ou não, que vinham sempre às festas que a família teimava em organizar com alguma frequência e cuja organização, desta vez, deixaram para C., que já tinha idade para isso…»


II. 35. Fragmentos do funeral:
(do fragmento 11) «O amigo admirou-se, primeiro pela fraqueza que tomara o exilado em relacionar-se novamente com o outro, depois pela força em fazer o que fez, no meio do acto sexual. Admirou-o mais por isso e pelas palavras que ele sabia que eram sérias e que funcionariam para o exilado, embora nunca pudesse ser assim com ele.
- Fiz hoje o funeral dele.
Estas cinco palavras simples, talvez todas menos «funeral», ressoaram nos ouvidos de ambos como um acto real e consumado. E estava: era a tal palavra ontológica em que ele tanto acreditava e que por isso mesmo funcionava para ele. Naquela tarde o exilado fizera o funeral mental, sentimental do não exilado. Para sempre. Imaginou todos os passos de um funeral real, mas em que quem ia a enterrar era o seu sentimento pelo outro no mais recôndito de si. Nos dias seguintes andava pela casa como se nada tivesse acontecido.»


Bem, depois dos excertos todos isto ficou muito grande... se calhar era melhor um conto inteiro, mas ficam aqui estas pérolas da minha mente literária fértil... E parece-me que vou já escrever o conto número 38...