sexta-feira, julho 08, 2005

férias, finalmente

depois de um humorístico exame de Literatura Brasileira IV (que mais poderei chamar à palhaçada de questões que saíram?), posso finalmente dizer: estou de férias!!!!
ou talvez não, até porque ainda não saiu o raio da lista das escolas para o estágio e enquanto não saírem vamos ter de continuar a encontrar-nos por cá, de vez enquando (leia-se: todos os dias), sequiosos por saber que edifício vai ter a honra de nos acolher (e mais à nossa sabedoria) durante o próximo ano... Entretanto, vamos tendo uma visão do que nos espera lá, já que a nossa faculdade sofre todos os dias o arrastão chamado "universidade júnior"...

o sol brilha (estranho, por causa do fogo), o mar ondeia (mas com um cheiro grotesco), e até os autocarros avançam (com suas greves frequentes) e todos nos convidam às férias... em casa!
Anne Karenine vai ser uma óptima companhia para os próximos dias, logo depois de Antes do Baile Verde.

e por aí afora, pássaros voam, enquanto algumas pessoas bordam ;)!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quinta-feira, julho 07, 2005

Poiares







a minha linda aldeia já está na net. aqui ficam algumas fotos de algumas coisas que podem encontrar por lá, se algum dia lá quiserem ir visitar-me...
1.ª foto: as nossas armas
2.ª foto: vista sobre o Colégio Salesiano de Poiares
3.ª foto: umas casas da rua principal (perto da minha)
4.ª foto: vista lá da zona...

"o mar entra pela janela"




ora aí está uma coisa parecida:

"De manhã, deitado, ouvi o mar por detrás da porta. as ondas
rebentavam contra o primeiro andar, as algas acumulavam-se
no patamar e no quarto."

excerto de um poema de Nuno Júdice

poema de aniversário para a MIM

desejo que os teus dias tenham espuma
e que as tardes, uma a uma,
te tragam sempre como pela primeira vez,
e que as ondas brancas tombem
sobre o teu corpo vestido de nudez.

talvez...


"Sentia-se triste como uma casa sem móveis."

Flaubert, Madame Bovary

terça-feira, julho 05, 2005

3 Poemas de Mia Couto

(Escre)ver-me
Nunca escrevi
sou
Apenas um tradutor de silêncios

A vida
Tatuou-me nos olhos
Janelas

Sou
Um soldado
Que se apaixona
Pelo inimigo que vai matar!

Fevereiro de 1985 – in Raiz de Orvalho

*

Tinha tanto...

Tinha tanto medo de solidão
que nem espantava as moscas

(inédito)
*

a cidade...

A cidade emagrece no osso da criança.
A fome nos deixa a boca deserta
Tudo está morto,
falta morrer o cemitério.

(inédito)

quinta-feira, junho 30, 2005

imagens, imagens, imagens.


e pronto, é só para dizer que já sei por imagens no blog, por isso, preparem-se!

Estudos Portugueses: Comunicado!



Pois ééééééé! É real! Acabei o curso, e com duas grandes notas finais: Teoria da Literatura II - 17, Literaturas Africanas em Língua Portuguesa IV - 18.

a todos os meninos e meninas que estiveram comigo nestes quatro anos de curso (do CURSO), o meu muito obrigado por tudo, além do desejo de muitas felicidades e sucesso, pois fomos (e somos) uma turma espectacular que merece tudo do melhor.

aos que vão para estágio: boa sorte e bom trabalho.
aos que ficam mais um tempinho: está quase, força!
aos indecisos: decidam-se com cabecinha
aos que não cabem nestas categorias: get a life!

Bjinhos e abraços e até sempre!

O logoteta

(Foto de Milai Laranja)

A prenda tão esperada. Uma tarde inesquecível em que as estórias se confundiram com as vidas de cada um de nós, porque José Luandino Vieira já faz parte das nossas vidas (pelo menos, das nossas estantes).

E porque as palavras não chegam, e não saem tão perfeitas como as dele, ficam apenas as lembranças desta tarde, que, só por acaso, não começou à "hora das quatro horas"... Quem lá esteve sabe do que não falo, quem não esteve é capaz de imaginar...

Tributo



















"parece-me por vezes ver o mundo às avessas, esperando que, ainda assim, ele permaneça com a possibilidade de nele encontrar beleza."
Mlt.

e foi ela quem nos ensinou a ver o mundo de outra maneira, não através dos olhos dos poetas, mas através dos nossos próprios olhos, poetizados.

poema para todos aqueles que me conhecem ;)

Gato em apartamento vazio

Morrer – isso não se faz ao gato.
Pois que há-de um gato fazer
Num apartamento vazio.
Ir arranhando as paredes.
Roçar-se por entre os móveis.
Por aqui nada mudou
Mas está mais que mudado.
As coisas estão nos sítios,
Mas os sítios outros são.
E nem se acende a luz pela noitinha.

Ouvem-se passos na escada,
Todavia, não os tais.
A mão que põe no pratinho o peixe
Também não é a que antes punha.

Algo aqui não acontece
às horas que acontecia.
Algo há aqui que não corre
Como devia correr.
Alguém aqui esteve, esteve,
E agora teima em não estar.

Vasculhados todos os armários.
Percorridas todas as prateleiras.
Uma vez verificado o chão sob a alcatifa.
Contra todas as proibições até,
espalhados os papéis.
Que é que fica ainda por fazer.
Dormir e esperar.

Deixa-o só voltar,
deixa-o lá mostrar-se.
Há-de aprender
que com um gato não se brinca assim.
Há-de um bicho ir-se chegando para perto,
Como quem não quer a coisa,
bem devagar,
muito sobre as patinhas ofendidas.
E ao princípio nada de saltar nem de miar.


Wislawa Szymborska“ Paisagem com Grão de Areia”

segunda-feira, junho 27, 2005

o prometido é de vidro 3

pois ééééé´...
a saga ainda não acabou, pois descobri, aquando da minha afincada leitura imanente do caderno de T.L.II, uma fantástica frase. não sei quem a pronunciou, mas aí fica ela...

"a ambiguidade é um conceito muito ambíguo".

é gira, não é?

Livros recomendados by mim

dos imensos cinquenta livros que já li este ano (em seis mesitos apenas), tenho de salientar-te alguns que têm de ser lidos, ou nem por isso...

1- Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, Assírio e Alvim (ainda em leitura, e até ao final do ano, pois tem quase 1900 páginas...) 4tulisses

2- Terra Sonâmbula - Mia Couto, Ed. Caminho ou Público/Mil Folhas 5tulisses

3- Nostálgica - Aléxandros Papadiamándis, Expo 98 4tulisses

4- Viagem ao Tejo com Pessoa na Bagagem - Egyd Gstattner, Granito 3tulisses

5- Madame Bovary - Flaubert, Visão 5tulisses

6- João Vêncio: os seus amores - José Luandino Vieira, Ed. Caminho 5tulisses

7- Lilias Fraser - Hélia Correia, Relógio d'Água ou Público/Mil Folhas 5tulisses

8- O Nome da Rosa - Umberto Eco, Difel ou Público/Mil Folhas 4tulisses

9 - A Demanda do Santo Graal, INCM 4tulisses

10- A Metamorfose - Kafka, Público/Mil Folhas 4tulisses

11- O Colar - Sophia de Mello Breyner Andresen, Ed. Caminho 5tulisses

12- Memorial de Aires - Machado de Assis, Livros RTP 4tulisses

13- Estórias de dentro de casa - Germano Almeida, Ed. Caminho 4tulisses

14- A Leitora - Raymond Jean, Teorema 3tulisses

15 - Antes do Baile Verde - Lygia Fagundes Telles, Livros do Brasil 5tulisses (embora ainda não o tenha concluído...)

chave de leitura:

5tulisses: muito mais do que obrigatório
4tulisses: muito bom
3tulisses: interessante
2tulisses: pois é...
1tulisse: grande ponéi
0tulisse: para que raio andei a perder o meu tempo?

menos 25 minutos

O S. João foi um espectáculo: fenomenais os cheiros, o contacto, a alegria e a diversão... pressentidos na tv...
Enquanto umas malucas estavam a cantar e a encantar os marines, outras a jantar pinhões e coisas do género, estava eu em casa, alone, ou melhor, na companhia de Bakhtine, o nosso amigo romanesco. E de pouco serviu, ou nada, estar esta noite com ele, já que no exame eu tive a brilhante ideia de sair ao meio-dia e cinco minutos, porque pensava que o tempo já tinha terminado, mas a professora estava a ser boazinha... Enfim, uma questão sobre Bakhtine que não chegou a ter três páginas completas é quase como um balão de S. João: ambos queimam! E porque agora se segue africanas, o melhor é ir ler alguns poetas, se não, queimo-me mesmo!

;)

quarta-feira, junho 22, 2005

o desespero da teoria da literatura

quão mau é, uns dias antes do exame do teoria da literatura, eu estar em frente a um computador, a escrever num blog estranho, que não interessa para nada, a não ser para me divertir um bocado? pois éééé, isto só quer dizer que o desespero acaba por ser tamanho que nem o Barthes e o seu prazer da leitura me conseguem fazer olhar para aqueles belíssimos textos em frencês e em inglês como se tratassem de belos pedaços de prosa arrancados da alma de um Raul Brndão. e pronto, como já estou a divagar e o tempo vai passando, vou mas é estudar o Sur Racine, e outras coisas que tais, se não vou ser fortemente, digamos, "recepcionado" no exame pela falta de conhecimento....

pois ééééé

quinta-feira, junho 16, 2005

em resposta ao manel

obviamente aquele bela era uma ironiazinha...

por acaso a Irlanda e a Inglaterra não tiveram grande fortuna este ano. a primeira não chegou à final(14.º na semi-final), a segunda ficou em 22.º!
aqui fica a lista dos vencedores...

1: Grécia (+)
2:Malta (+/-)
3:Roménia (+)
4:Israel (+)
5:Letónia (+/-)
6:Moldávia (++)
7:Sérvia-Montenegro (???)
8:Suiça(+)
9:Noruega (--)
10:Dinamarca (-)
11: Croácia(++)

frases cómicas dos nossos mentores

"Não é grande coisa, o rei Artur..." (A.S.L.)

"Não vai ser agora, se não ainda arrancam a cadeira e dão-me com ela na cabeça..." (P. Tav.)

"A Menina e Moça não é um OVNI" (Far.)

"Vamos todos queimar as aulas" (Far.)

"os deuses têm pouco que fazer" (Far.)

"isto são coisas de quem não tem mais nada para fazer" (Far, acerca das funcionárias da secretaria)

"o prof. é um chato..." (Far, sobre si mesmo)

"é sex, mas é assim que se escreve..." (Far.)

"podem comprar... desviar, roubar os livros..." (Far.)

"a empregada eclipsou-se" (Far.)

"Vamos é falar da selecção nacional, do Ronaldo e do Cristiano..." (L. Gr)

"O sistema entra em qualquer fechadura" (L .Gr.)

"Isso não me interessa nem um átomo." (Cl. Brr.)

"Eu fui aluno do Roland Barthes" (Ar. Sar.)

"Coitadinho do leão, que não tem nenhum cristão para comer!" (criança romana, citada por F. Tp.)

o prometido é de vidro 2

pois é, aqui fica a segunda parte desta saga quase interminável das gafes dos nossos fantásticos profs. ;)

"Se comerem a árvore..." (M. Ra., citando a serpente do Génesis)

"Eu agora estava a delirar..." (M. Ra.)

"É um poema quase só de versos..." (=verbos, M. Ra.)

"Depois vou-vos usar..." (M. Ra., = vou-vos mostrar como se usa)

"o alfa negativo tem carga negativa" (M. Ra.)

"uma pessoa que trabalha no correio chama-se... correio" (M. Ra.)

"a nossa sociedade é mais epicurista do que estoicisma..." (M. Ra.)

"Uma obra muito famosa, sabem quais são?" (M. Ra.)

"É uma criação inventada pelos gregos" (M. Ra.)

"Foi uma irreverência muito bem pensada" (M. Ra.)

"Ando sempre a fechar as luzes" (M. Ra.)

"é muitíssimo velo" (M. Ra.)

"protuguês... petroguês..." (=português????) (M. Ra.)

"via muito-a" (M. Ra.)

"dactilorgarfar" (M. Ra.)

"Eu savia, tu savias, ele savia..." (M. Ra.)

"A Sapo já não é assim..." (=Safo; M. Ra.)


"o ta marbuta pode ser inspirado (=aspirado) na leitura" (Ab.)

"vulcães" (Ab.)

"O vosso colega perguntou uma pergunta que disse..." (Ab.)

"o árabe é uma língua semética" (Ab.)

"abertura e fechadura" (Ab.)

"Flexblidade" (Ab.)

"soltero" (Ab.)

"vocês têm tanto bagagem" (Ab.)

"traços para peões" (=passadeiras; Ab.)

aluno: "Não há nenhum contexto em que se distingam?"
prof: "Sim, sim, são iguais" (Ab.)

"antecida" (=antecedida; Ab.)

"as morfemas" (Ab.)

"Escreví" (escrito assim no quadro...; Ab.)



"Recadeiras" (G. M.)

"pertinância" (G. M.)



"linga" (S. Car.)



"prótagonistas" (P. Tav.)

Comissão de Curso de EP revela destino da viagem de finalistas: CEDOFEITA

Após um fim de semana de reuniões exaustivas e assembleias gerais foi deliberado o destino, há tanto tempo esperado, da viagem de finalistas. «Porque Cedofeita é fácil, é barato e dá milhões!» Ao que se sabe, a AEFLUP, que já foi constituída 40% por estudantes de EP, vai comparticipar em 50% dos custos de deslocação...

;)

quarta-feira, junho 15, 2005

de um poeta maior(ssíssimo)

As mãos

Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Eugénio de Andrade

Etimologias (feito em 30/12/02)

Rui - vem do genitivo de rum,rui, que pode indicar um carácter embriagatório

Susana - de açucena, uma serpente mortífera também chamada de "Boa".

Marta - um nome complicado, com vários fenómenos fonéticos. vem de (a)mar (sou) t(u)a...

Ana Luísa - Ana em hebraico significa graça. luísa (germ.) significa gloriosa em combate. juntos, significam que vence tudo, sempre com muito estilo!

Ana Verde - Ana significa graça. Verde vem mesmo da cor dos olhos. significa que com ela por perto não há crise de acabar o riso...

Helena Sofia - Nome que alia a beleza e a tentação à sabedoria pelan. mulher imbatível que, pela origem grega do nome, terá tendência a fugir-lhe e a preferir o nome de "lenita".

Milai - surgiu uns meses antes do ano 1000. quando as pessoas se lembravam, diziam: 1000 ai! e ficou.

Marisa - o nome diz tudo. é um composto de má+brisa. houve uma síncope do -r-.

o prometido é de vidro (como diz Mia Couto)

aqui vão algumas pérolas dos nossos profs, só identificados pelas iniciais... mas vê-se bem quem são eles... coisas que podem acontecer (e acontecem) a qualquer um e que eu, mui honradamente, registei, para a posteridade! Esta é só a primeira parte, virão mais coisas engraçadas, mas também frases mais interessantes ditas pelos nossos mentores ;)


"A salvação dos mortos em situação de perigo" (J. C. M.)

"Um santo morrido em martírio" (J. C. M.)



"Primeiro só havia a televisão privada" (M. J. Ry)

"Vénus de Nilo" (M. J. Ry)

"Onde eu queria chegar é isto..." (M. J. Ry)

"quando o preso está preso..." (M. J. Ry)

"Humidifica-lhe o rosto com um lenço - reparem - molhado!, podia ser seco!" (M. J. Ry)



"Carlo Goldoni foi muito inovativo" (G. M.)

"Em companhia com Beatriz..." (G. M.)

"pensoso" (G. M.)

"algumas das poemas..." (G. M.)

"Plutão é uma feira cruel" (G. M.)

"abridores" (G. M.)

"imensio" (G. M.)

"A mulher ganhou independência com o estúdio" (G. M.)



"o que é que isto acontece" por "o que é que isto quer dizer...." (J. Des.)



"manteram" (Far.)

"quanto mais sofre, maior é o sofrimento" (Far.)



"descobrer" (S. Car.)

"abrimento" (S. Car.)

"ouvi ontem, nestes dias, na sexta-feira..." (S. Car.)



"expostas de uma outra forma diferente" (C. Sl.)

"Marx e Engels eram alemãs" (C. Sl.)

"digam não percebam" (C. Sl.)



"metrópela" (Crs. P.)

"Não sei se a partir de amanhã, se a partir de sexta-feira" (Crs. P., numa aula de quinta-feira)



"Obras manuscritas, escritas à mão" (Ar. Sar.)



"Manifesto Anti-Antas" (P. Tav.)

"Só existe sebastianismo desde que D. Sebastião desapareceu!" (P. Tav.)

"A tempestade dura só pouco" (P. Tav.)

"Seria normal que nos apresentamos" (P. Tav.)

"poribindo" (P. Tav.)

"é muito quente, o calor." (P. Tav.)


"suicidar-se ou suicidarem-no." (F. Tp.)

"fora e flauna" (F. Tp)

"A história termina, terminando." (F. Tp.)



"Escreve tal qual como escreve" (como fala.... - I.M.D.)



"O código da estrada... como é que se chama?" (M. L. Sp.)



"houveram muitos professores..." (L. Gr.)



"É na água que as bestas vão comer." (A. S. L.)

tulisses II

a vida é uma tampa.
para vivê-la basta destampá-la.

(colaboração com sandra carvalho)

tulisses I

o amor é verde e uma vaca comeu-o.

terça-feira, junho 07, 2005

promessa

dentro em breve, no meu blog, as fantásticas calinadas e frases maradas dos nossos professores. imperdível!

dispersão

esta dispersão em tudo o que vejo
os búzios musicais
as flores, os frutos vermelhos e frescos
na mesa
a fala de Penélope ecoando ainda pela casa.

e um sentimento tão grande de vazio
como um morango para uma formiga.
e uma falta de mim
que ando perdido nas coisas
e ainda não regressei
porque talvez não queira regressar.

à noite, quando na casa se ouvem respirar os livros
é Palamedes quem me fala da vida.

mas o sentimento de vazio tão grande
como o de uma ausência do mais essencial
continua nesta parte de mim.
e não regresso
porque nas coisas de que gosto
me realizo melhor

de forma mais eterna.

para a patrícia

ela pensava que os gatos eram almofadados por dentro.

(Alexandre O'Neill)

poema de António Reis

sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego

tu
se o ar é fresco

eu
se deixo de respirar
subitamente

para a minha irmã

queria escrever um poema que pusesse em evidência a semelhança de uma ágata com um morango - cortados ao meio. o aspecto certo e regular do corte, a textura diversa da parte de trás. e a formação do geóide brilhante, tão semelhante ao meio branco açucarado de um bom morango. e as cores múltiplas de uma em contraste com o vermelho do outro. ah, e o sabor do segundo, como diferenças. só. queria, mas não sei. fica para outra vez.

terça-feira, maio 24, 2005

parabéns a mim: rescaldo

muito obrigado por se terem lembrado de mim. Tó e Celine que me foram aliviar do trabalho, Marta e Patrícia que me cantaram os parabéns no bar, pessoal de Poiares (fantásticos), maninha querida, Su e Marisa, que às onze da noite me levaram um bolinho com as velas e me cantaram os parabéns... tolinhas :)

p.s- o bolo era bom.
su, hoje estou a usar o perfume que me deste ;)

segunda-feira, maio 23, 2005

parabéns a mim...

que belo dia, aquele em que fiz teste de História da Língua Portuguesa II, fiz trabalhos de Literatura Portuguesa VI e tive aula de Teoria da Literatura II prática...
ah, e em que fiz anos...

terça-feira, maio 17, 2005

Festival Eurovisão da Canção

longe vai o tempo em que Portugal parava para ver e ouvir o espectáculo musical que nos mostrava as tendências europeias neste campo. Hoje (ou de alguns anos a esta parte) o festival tem cada vez menos impacto, audiência e importância.
Eu, nascido nos longínquos dias de Maio de 83, ainda sou daqueles que assistem ao festival, porque acredito no valor da música, gosto da diversiddade europeia e adoro o stress final das votações. Porém, o stress já não é assim tanto, pois Portugal fica sempre nos últimos, a diversidade está a perder-se porque quase todos cantam em inglês e o valor da música que lá se apresenta nem sempre é existente...
Enfim, Portugal até pode ir potente (Sofia, Rita Guerra...) ou levar músicas giras (MTM...) mas... Excepção feita a Lucia Moniz, com uma música bonita, aliada à simpatia e aos instrumentos tradicionais portugueses, levaram Portugal a ter a sua melhor classificação de sempre.
Os meus favoritos, para variar, nunca ganham. Há dois anos era um grupo belga com um dialecto inventado de propósito, muito étnico, que ficou em terceiro lugar. O ano passado era um casal que cantava "at the end ofthe road"(...), cuja nacionalidade não me lembro, mas eram de leste... Era uma múscia divertida, ritmada, que misturava no final umas subidas de voz femininas tipo ópera!
E pronto, não comento a nossa bela música deste ano... pois ééééééé...................................

poema que condensa os meus mais recentes motivos poéticos

Penélope
sentada à beira-mar
como amoras negras
para espantar a solidão.

segunda-feira, maio 16, 2005

sexta-feira, maio 13, 2005

lamento pela morte de um navegador

continuaremos juntos pelas ondas
e veremos sempre o mar azul
como se nada mais existisse no mundo.
veremos as chuvas e as cores do céu
sentiremos as cores da terra longe
e as vidas, sons e sabores estrangeiros.
continuaremos e ouviremos toadas
e sentiremos a fome de tudo.
porque se as ondas te reclamaram
também eu reclamar-te-ei
em todas as viagens e em todas as paragens.

29 abril 2005, numa aula de lit. bras.

quarta-feira, maio 11, 2005

o poema do post anterior

é verdadde, a marta foi co-autora do poema... mas não sabia que ela queria ver a sua veia literária exposta...

temos de dizer, claro, que a estrutura de base é de um (lindíssimo) poema de Sophia:

Soror Mariana-Beja

Cortaram os trigos. Agora
a minha solidão vê-se melhor.

(in: O Nome das Coisas, 1977)

terça-feira, maio 10, 2005

pequeno poema

plantaram árvores em frente à minha casa.
um dia, a minha solidão terá sombra.

segunda-feira, maio 09, 2005

queima 2005

A queima já era, e começa uma fase em que temos de "morrer para o mundo".
Foi a última, enquanto estudante (de uma licenciatura), por isso houve coisas que tiveram um sabor especial: a Serenata continua a ser uma seca, mas lá teve uns momentos (leia-se: instrumentais) que me emocionaram; o jantar de EP, muito simples mas ao mesmo tempo importante, como sempre; a Consti trajada pela primeira vez; a missa fantástica, com a agitação das fitas e as músicas e danças africanas; a imposição das insígnias que levou às lágrimas algumas pessoas, sobretudo com a fantástica (quase cantada, quase tocada) Faculdade, da nossa magnífica Tuna Feminina de Letras, mas também com a cartolação... E o cortejo foi o mais divertido de sempre!
E como isto já era muita inovação, o resto da semana foi igual ao costume: não fui nenhuma noite, a não ser quinta, ver os Da Weasel, que a minha prima adora. Neste dia recordei o facto de não gostar do conceito queima à noite e apercebi-me por que razões não costumo ir ao queimódramo desde o segundo ano de faculdade. Sem comentários: a reacção da Su quando viu a Marta.
E se para o ano há mais, para nós, caros finalistas de EP, será diferente. Seremos outsiders, o efeito nunca será o mesmo (tirando o efeito do álcool em algumas pessoas, certo?), mas aquilo que vivemos estes quatro anos fica ad aeternum

e depois a nossa bandeira é que tem história...

A bandeira da Grécia baseia-se em nove listas horizontais iguais de azul que alternam com branco. Existe um quadrado azul no canto superior designado por cantão, que contém uma cruz branca. A cruz simboliza a ortodoxia grega, a religião tradicional do país, e cada uma das nove listas corresponde a uma sílaba da frase "Liberdade ou Morte" (Ελευθερία ή θάνατος). As proporções oficiais da bandeira são de 7:12.
O esquema de cores de azul e branco foi pela primeira vez usado na década de 1820, mas a forma actual só foi adoptada como bandeira nacional em 1978. Anteriormente, num azul mais escuro, a bandeira era apenas usada no mar e pela marinha mercante, e a bandeira nacional era uma simples cruz branca em fundo azul.

(adapatado de uma enciclopédia livre)

quinta-feira, maio 05, 2005

mais coisas giras de o Colar (III)

"e eu esperei-te em todas as esperas.

por isso não direi que eu te perdi
quando voltar a voz das primaveras."

"Eu sou como os romances de cavalaria."

"é muito perigoso não conhecer a vida."

poema que Lord Byron diz no final de O Colar (II)

Não iremos mais juntos divagando
Pela noite fora
Embora a lua brilhe tanto como outrora
Embora como outrora
Não cesse do amor a voz uivante
Que me devora

Pois o coração gasta o peito
E a espada gasta a bainha
O tempo rói o coração desfeito
E a alma é sozinha

Embora a noite sempre peça amor
E o dia volte demasiado cedo
E o luar corte como espada nua
Não irei mais em pânico e segredo
Sob a luz da lua.

De leitura obrigatória (I)

Imagine-se Veneza "que é sobre água construída". Canais, gôndolas, cantores fazendo serenatas às donzelas. Noite calma e azul.
Imagine-se uma jovem apaixonada pela "sombra da mais bela maravilha de Veneza", um fidalgo que canta às donzelas que logo se apaixonam por si.
Imagine-se uma rosa que os une. E corações que se partem e se têm nas mãos. Porque "para quem hesita, só há solidão".
Imagine-se também uma empregada fiel e esperta; um tio preconceituoso; e um colar ("A secreta luz do anismo do mar, agora rodeia o meupescoço e ilumina a minha cara e todo o meu corpo.") mandado por um pretendente mais velho.
Imagine-se um jantar com cheiro a mar, onde se bebe champanhe com rodelas de pêssego, onde surgem conversas paralelas e vários incidentes.
Imagine-se um encontro entre os dois, em que o primeiro amor sai derrotado e se salienta a sabedoria dos mais velhos.
Imagine-se Lord Byron aparecendoe dizendo um poema que expressa a solidão do ser.
Não se imagine mais. Leia-se: O Colar de Sophia de Mello Breyner Andersen, Editorial Caminho, 2001 (já que a única encenação da peça foi em 2002, pela Cornucópia, e foi absolutamente fantástica.)

quarta-feira, maio 04, 2005

para a Tereré:), mas também para quem me apresentou Al Berto

o Medo (2) - Al Berto

14 de Janeiro
todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetecia ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer, que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado, nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.

sonho que tive esta noite

hoje, se o sol não nascer à hora do costume, fui eu que morri.
e por isso a luz foi toda comigo, porque eu sou o centro do universo
o deus do calor e da luz das vossas vidas todas.

(sonho que tive esta noite, em que eu dizia isto a alguém e depois atirava-me de uma falésia... acima)

segunda-feira, abril 18, 2005

Como um Romance de Daniel Pennac - Comentário, parte 2

O livro termina com aquilo que o autor intitula de “Os Direitos Inalienáveis do Leitor”, que é uma lista de direitos que os jovens devem conhecer, para que não sintam a leitura como obrigação (com exemplos retirados da minha experiência pessoal):

1 O Direito de Não Ler
(não leio todos os dias leitura recreativa, não leio tudo o que já deveria ter lido…)

2 O Direito de Saltar Páginas
(quando li pela primeira vez As Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, aos 12 anos, saltei os vários capítulos da viagem e só li a novela de Joaninha – mais tarde, aos 15 foram precisamente os capítulos da viagem que mais interessaram)

3 O Direito de Não Acabar Um Livro
(podemos deixar livros a meio por diversos motivos. O último foi Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, do Marquês de Sade, ao qual não tenciono voltar nunca…)

4 O Direito de Reler
(reler as obras de que mais gostamos pode dizer muito de nós. Já reli todos os livros de Uma aventura, na infância, mas também reli o Gilgamesh, a Odisseia, releio poemas de Sophia, … – por vários motivos: gosto pessoal, necessidade escolar, uma tradução melhor que entretanto surgiu,)


5 O Direito de Ler Não Importa o Quê
(sobretudo no início da paixão pelos livros, depois com o tempo o gosto literário refina-se: li desde Os Cinco, Uma Aventura, Alice Vieira, aos livros de Júlio Dinis e Almeida Garrett, até a romances cor-de-rosa e banda desenhada de western e coisas semelhantes, ou seja, tudo o que ia apanhando nas prateleiras dos meus pais e tios…)

6 O Direito de Amar os “Heróis” dos Romances
(o quanto eu não gostava dos heróis de Uma Aventura, ou não me “apaixonei” por Maria Eduarda ou pela Georgina dos olhos azuis…)

7 O Direito de Ler Não Importa Onde
(no comboio, na cama, na biblioteca, no jardim, na praia, na sala, em todas as posições possíveis e imaginárias…)

8 O Direito de Saltar de Livro em Livro
(a possibilidade de não se circunscrever a um livro em determinado momento. Um livro de obrigação (estudo, profissional), um livro de entretenimento (romance, contos..) e um livro de devoção ( qualquer género, aquele livro que mais nos marcou e que gostamos de reler). Geralmente, além dos textos escolares, vou lendo ficção e poesia…)

9 O Direito de Ler em Voz Alta
(dá uma outra magia à leitura, sobretudo quando se lê poesia ou prosa muito bem escrita, com musicalidade...)

10 O Direito de Não Falar do Que se Leu
(geralmente tenho sempre necessidade de falar sobre o que li, a não ser que tenha sido uma coisa terrível. Mas é um direito que assiste o leitor e que deverá ser transmitido aos jovens, para os tranquilizar…)


(adapatado de um trabalho de MEP I)

Como um Romance de Daniel Pennac - Comentário, parte 1

Como um Romance tem este título porque se lê como se fosse um verdadeiro romance, mas é, no fundo, um ensaio sobre as relações que as crianças e jovens estabelecem com a leitura.
O autor analisa várias situações que lhe são fornecidas pela sua experiência de pai e de professor e, obviamente, de leitor. A questão impõe-se desde o início: qual o motivo para os jovens não gostarem de ler? É ideia quase consensual de que os jovens não lêem e que não gostam de o fazer quando têm necessidade disso, a nível escolar.
O filho mais velho do autor tem de ler um livro para a escola e não consegue avançar na leitura. A televisão (passividade, facilidade), jogos electrónicos, “o anacronismo dos programas, a incompetência dos professores, a decrepitude das instalações escolares, a falta de bibliotecas” podem ser alguns dos motivos que levam o jovem a afastar-se do livro. Ler é um acto que exige maior esforço intelectual do que assistir a um qualquer programa de televisão, em que muitas vezes só na imagem reparamos. O que se deve tentar fazer é arranjar tempo para a televisão, a música, os jogos, as saídas em grupo e a leitura.
Uma das estratégias de levar a um encantamento para a leitura é a descrita pelo autor em vários dos capítulos da obra: ler histórias aos meninos, desde pequenos, exactamente antes de irem dormir. Toda a magia dos mundos ficcionais, criados pelas leituras feitas pelos pais, levam a criança a iniciar um gosto pela leitura, que mais tarde se traduz não pela audição da história mas sim pela leitura da mancha gráfica, leitura feita pela própria criança. Esta prática poderá vir a criar na criança o gosto e até a necessidade de continuar a ler.[1] A escola não pode é quebrar este encantamento. Por um lado, os pais devem continuar a insistir nas leituras antes da hora de dormir, por outro, a escola tem de potenciar leitores, atraí-los, e não afastá-los (programas desajustados, métodos de leitura desinteressantes, …). É isto que acontece ao filho mais velho do autor: por um lado, a escola e seus programas, pelo outro, a “Trindade” formada entre o menino, o pai e o livro quebrou-se, deixando-o sozinho com o livro que acaba por se lhe tornar “hostil”. Pode-se retomar a actividade de ler para o jovem, criando novamente a magia pelos mundos paralelos que surgem, até que o jovem nos peça para ser ele a ficar sozinho com o livro, para criar uma outra intimidade e superar barreiras por si mesmo.
Além disto, o autor chama a atenção para a “gratuidade do prazer de ler”, ou seja, ler é um prazer pessoal e os adultos (pais ou professores) não devem exigir ao jovem a prova de uma competência, não lhe apresentar o livro como esforço a ser vencido...
Na segunda parte da obra, o autor, valendo-se da sua experiência como professor, começa por abordar a questão da leitura referindo expectativas dos pais, professores e até dos alunos (perante a leitura). A primeira grande constatação é a de que os jovens não têm tempo para estarem consigo mesmos e com o livro, (é o piano, desportos, festinhas, aulas suplementares de línguas e de informática,...).
Sugere a ideia de “dar a ler”, ou seja, a ideia de que “o culto do livro resulta da tradição oral”, que vai ser demonstrado depois na terceira parte da obra. Este trabalho pode e deve ser desenvolvido pelo professor na sala de aula (o professor de língua materna, sobretudo, mas também os outros), e pode passar, por exemplo, por actividades como a leitura em voz alta de um livro durante uma aula ou, posteriormente a esta prática, a criação de bibliotecas de turma, clubes de leitura, … Trata-se de criar leitores, mas esta criação deve ser entendida somente como uma redescoberta do prazer de ler (“Acontece apenas que o prazer de ler estava ali à mão de semear, sequestrado nos sótãos adolescentes por um medo secreto: o medo (muito antigo) de não compreender”). O objectivo é criar leitores, através da leitura na sala de aula em voz alta de romances, contos… Deixar crescer um gosto pelas histórias, pelas personagens, pelo livro, pela vontade de querer saber o que se segue a determinado acontecimento; esperando que com isto os alunos cheguem a tal ponto de curiosidade que vão eles próprios procurar o livro na biblioteca, em casa ou na livraria para descobrirem o resto da história, ou até, que comecem, eles próprios, a procurar livros que lhes poderão interessar para ler. Assim, afasta-se a ideia de que ler custa, não tem interesse, utilidade/prazer, de que não se percebe nada do que os escritores escrevem, …
Uma das ideias principais da terceira parte é a de que os livros que estão nos programas são sempre “chatos” e os alunos lêem outras coisas (humoristicamente, o autor diz que Madame Bovary é “seca” para os alunos franceses que têm de o ler na escola, enquanto que para os alunos americanos é já uma obra “interessante”, porque não faz parte do seu currículo, e a correspondência completa-se com a obra de Salinger L’atrape-couer, de que os americanos não gostam e que os alunos franceses lêem com prazer). Isto porque se uma obra está num programa escolar ela tem de ser chata e não se faz o esforço de a ler por se ter medo de não compreender (e temem-se as avaliações...).
Reforça-se a ideia de gratuidade da leitura: para haver esta reconciliação com a leitura, o professor não deve pedir nada em troca (exigir comentários, resumos, fichas...), porque quando a reconciliação estiver feita serão os leitores a questionar-se sobre o contexto cultural do livro, a biografia/obra do autor, e eles próprios falarão do que leram.
Contar livros é também uma técnica de sedução, nem que seja um resumo em três palavras, como diz o autor, desde que consiga prender a atenção de um futuro leitor dessa obra.

[1] Se bem que existam casos de crianças a quem nunca leram histórias e que mais tarde se tornam leitoras, e o oposto também aconteça…

Um texto com alguns anos, mas há coisas que nunca mudam...

Um texto que eu escrevi depois de um exame ou prova global qualquer, enquanto esperava pelo autocarro para ir para casa. É verídico. reparem no fantástico pormenor do carro!


Paciência

Parou um carro azul à minha frente, com um senhor jovem e gordo; de camisa aos quadrados azuis, verdes e amarelos; que bebia água e falava ao telemóvel.
Parou um autocarro Rodonorte e lá foram umas seis pessoas embora.
O homem do carro azul, um citroen saxo de matrícula 93.33.OV, está a ler um livro enorme, mas parece ir nas primeiras páginas. A leitura está a ser desagradável e por isso pousa o livro no banco do lado. Recosta o banco para trás, bebe mais água e espera... Quem espera desespera! É o que aparece acontecer... Em apenas cinco minutos fez tudo isto e muito mais. Não para quieto um segundo.
Liga o rádio: notícias, apesar de já serem 11:14 horas. Aperta o baraço dos calções de licra azul, olha para o relógio e espera. Desaperta um botão da camisa, coça a cabeça, põe as mãos no guiador, no banco do lado, na janela...
Grande seca, e ainda faltam mais quarenta minutos.
Pega novamente no livro, que agita por breves momentos. A sua capa é branca, totalmente branca, sem imagens.
O autocarro já abriu, mas ainda não se pode entrar, está apenas a refrescar.
O vaivém dos carros é constante, mas o seu barulho ainda permite ouvir o som lubrioso das andorinhas e de outros pássaros. Corre uma brisa refrescante do rio.
O homem espera.
A paciência tem limites, assim como o Homem. Começa a comer bolacha de água e sal: são mais saudáveis...
Uma senhora velha e magra passa a passadeira e procura o seu autocarro.
Na estação, acaba de chegar o combóio das onze e meia, na linha dois, plataforma um.
Aparece um senhor de olhos azuis, todo esfarrapado que olha a gente com olhos desconfiados e segue caminho.
Vem um senhor a vender gelados, cujo negócio está em grande, ultimamente.
A paciência tem limites, e o Homem também. O limite da paciência atingiu-se, o Homem ainda não atingiu o seu limite.
Atira o livro para o rio. Atira as bolachas para a mata, atira a água para o chão. Gira a chave e atira-se ao desconhecido, procurando atingir o seu limite terreno.
Entretanto, chegou a hora de entrar no autocarro e ir para casa.

15/06/00

segunda-feira, abril 11, 2005

No surprises - Radiohead - lindo, não? É pena, mas às vezes pode ser o melhor...

No suprises

A heart that´s full up up like a land fill.
A job that slowly kills you. Bruises that won´t heal.

You look so tired and happy.
Bring down the government, they don´t, they don´t speak for us.

I´ll take a quiet life, a handshake, some carbon monoxide.
No alarms and no suprises,
No alarms and no surprises.
Silent,
silent.

This is my final fit, my final bellyache with no alarms and no surprises.
Such a pretty house, such a pretty garden.

No alarms and no surprises.

Thom York – Radiohead

2 poemas inspirados por Monte Clérigo

Monte Clérigo I

O sol torra a saída inicial
E só sinto o forte cheiro a sal,
Molhado,
Caio na beleza magistral
E penso, extasiado,
Que me podia perder,
Facilmente,
Nas curvas de um búzio
Mesmo que estivesse a chover.


Monte Clérigo II

Aqui tudo é azul
Mar, céu e ar.

De manhã, quando o sol é breve
A solidão existe e extasia.
Não se sai dela e vive-se
Como se no mundo
Apenas existisse beleza.

quarta-feira, março 30, 2005

para começar bem: um poema de Sophia

O vazio desenhava desde sempre a forma do Teu rosto
Todas as coisas serviam para nos ensinar
A ardente perfeição da Tua ausência

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, 1962