quinta-feira, janeiro 12, 2006

Pesadelo da Su 2



acho que não precisa de comentário. e a saga continua, ou não se tratasse de uma trilogia!

segunda-feira, janeiro 09, 2006

“Certuficado” de virgindade

No arquivo distrital de Viseu existe um documento cuja data não nos foi possível precisar, mas que nos parece ser do início do século XX. É um certificado passado por uma parteira da época, chamada Bárbara Emília, natural de Coira, Viseu, a pedido de uma jovem que pretendia libertar-se da difamação e provar a sua virgindade, para contrair casamento.

O documento dizia assim:

Eu Bárbara Emília, parteira que sou de Coira, atesto e certufico pela minha onra que Maria de Jesus tem as partes fudengas tal e qual como nasceu, insceto uma spequenas noisas negras junto dos montes da crica que a não serem da nascença sarão porvenientes de marradas de piça.”

Manuel Paula Maça, in Gazeta do Tejo.

;)

Licenciatura em Estudos Sexuais

Nota de Candidatura: 10 valores (mínimo)
Média do ano anterior: 17 valores
Específicas: sem indicação

1.º ano:

Introdução aos Estudos Literários Eróticos I e II
História do Género (1.º sem)
Tipologia do Palavrão (2.º sem)
Kama Sutra I e II
Psicologia do Erotismo e do Sexo I e II
História do Preservativo Masculino (1.º sem)
História do Preservativo Feminino (2.º sem)
Noções e Técnicas de Engate I e II

2.º ano:

Literatura Erótica I e II
Poesia Erótica de Bocage (1. sem)
Poesia Erótica Portuguesa (2.º sem)
Kama Sutra III e IV
A Literatura do Marquês de Sade I e II
Posições I e II
A História da Masturbação I e II

3.º ano:

Literatura Erótica II e III
Internet: pesquisas eróticas I e II
Kama Sutra V e VI
A Literatura do Marquês de Sade III e IV
Posições (e instrumentos) III e IV
Sociologia aplicada aos estudos sexuais (1.º sem)
História dos Sex Shops (2.º sem)

4.º ano:

História da Pornografia I e II
História dos Programas Eróticos na TV I e II
História do Entrar e Sair I e II
Posições (e Locais) VI e VII
Stripptease Prático I e II
O Sexo na Arte ou O Sexo na Cidade, Sexo no Campo (escolher uma)

5.º ano: Estágio “profissional”.

Vagas: 0
Professores: incógnitos
Alunos: a faculdade em peso!
Visitas guiadas todas as sextas feiras:
Sex shops
Clubes nocturnos
Passeios pela Trindade e Rua da Alegria

Nota: curso com muita saída!!!

(feito por mim e Ana verde, numa aula de Latim do primeiro ano – 2002…reformulado em 2006)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Pesadelo da Su 1

saudades?

o curso foi há pouco tempo e já tenho saudades de algumas coisas que este pónico novo curso acentua por ser tão incrivelmente mau, estúpido e desorganizado.
Portanto, saudades de coisas tão básicas como ouvir alguém a falar de coisas que têm o mínimo interesse, mesmo que não sejam abordadas da melhor maneira...
Dos cadernos de capa preta cujas últimas páginas eram azuladas com desenhos, comentários mauzinhos (ou não) sobre profs e não só... e ataques de riso incontroláveis por eles provocados... Dos conselhos sempre tão (in)úteis como "comprem a Magazine Litteraire, no aeroporto de Paris..."
ou
Ou dos "não necessariamente", das participações orais tipo maçã (redondas e escorregadias) nas aulas de Literatura Brasileira, ou da necessidade tremenda de bater com a cabeça na parede por se estar a ouvir a mesma coisa, na mesma aula, pela 567ª vez...
Ou das garrafas de água sugadas pela sabedoria assustadora (quem diria!)
E se a saudade é uma coisa tão estúpida como o ter de olhar para trás com algum sentimento de perda e de desejo de regressar... então...

sexta-feira, dezembro 16, 2005

férias....

elas estão aí, desejadas, muito necessitadas. e continuaremos a estudar e a trabalhar, mas é diferente. não ouviremos professores nem perguntas como "quem é o espaço?"....

pausa para ser. pausa para repensar a bidinha. ///////////////////////////////////
/////////////////////////////////////////(achei giro por isto aqui). e pausa para ler!!!

e tal e coisa, deixemo-nos de póneis.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Livros para as férias ou para o próximo ano...

Pois é, as férias estão aí, há mais tempo (ou não) para pôr a leitura em dia. aqui ficam algumas sugestões, que são baseadas nas minhas leituras desde Julho deste ano até o presente mês. Obviamente, a lista diz respeito apenas aos melhores, por ordem de leitura:

1. Eles Eram Muitos Cavalos - Luiz Ruffato
2. A Criança no Tempo - Ian McEwan
3. Morreste-me - José Luís Peixoto
4. Ana Karenine - Tolstoi
5. O Jovem Torless - Robert Musil
6. No Antigamente, na Vida - Luandino Vieira
7. A Terceira Rosa - Manuel Alegre
8. O Manual dos Inquisidores - António Lobo Antunes
9. O Jogador - Dostoievski
10. Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Márquez
11. O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago
12. A Guerra do Tabuleiro de Xadrez - Manuel António Pina
13. Histórias com Juízo - Mário Castrim
14. Antigas e Novas Andanças do Demónio - Jorge de Sena
15. O Físico Prodigioso - Jorge de Sena
16. O Dia dos Prodígios - Lídia Jorge
17. Ficções - almada Negreiros

Nota: os que estão a azul são mesmo imperdíveis!

terça-feira, dezembro 06, 2005

a pedido de muitas famílias, pronto...


(foto da milai, no regresso de Braga para o Porto)

texto escrito durante uma aula. chamei-lhe "Monólogo"...

As rosas viviam brancas por entre as folhas e arbustos. Uma rara brisa acariciava papoilas e passarinhos voavam tranquilamente. Havia no ar um vago som de uma flauta. Erecto, o corpo do jovem baloiçava-se ao som dessa música que nostalgiava. E as suas pernas azuis claras eram o pêndulo de um relógio calmo.
De repente, o som mágico parou. O corpo estava encostado a uma árvore, pacificado, sonolento. Não se apercebeu que, por detrás da colina, de onde provinha a melodia que cessara, uma pastora, que guardava seus rebanhos, gritava de desespero, tentando fugir à futura e terrível violação. Um homem de desejos possantes agarrou-a, roçou-se nela, forçando a sua interioridade e, satisfeito, abandonou-a dobrada sobre si, arrancando cabelos e a pele do ventre, que vem agarrada às roupas rasgadas.
Debaixo da árvore, as pernas azuis ganharam agilidade e o corpo anda. Era tão belo como uma maçã polida. Caminhou pela encosta, desce ao rio. Despiu a roupa e a sua brancura marmórea molhou-se. Nada, de costas, ainda, contemplando o mundo, como se tudo estivesse certo e o mundo fosse um lugar de coisas boas.

quarta-feira, novembro 23, 2005

vida pessoal

Pois é, grande pónei!
Eu a pensar que is recuperar alguma vida pessoal após o congresso e aulas assistidas... mas não, já chegaram os trabalhos do seminário, os testes dos miúdos (fazer, corrigir, matrizes, grelhas...), preparar visitas e actividades na escola, e coisas do género que só servem, bem no fundo, para nos dar cabo da cabeça... E quinta vou colaborar no encontro sobre Bocage, mas desta vez é apenas um apoio físico, não a apresentação de uma comunicação, como no congresso de lit. brasileira....
Ontem fui ao teatro: O Tio Vânia, no Teatro Carlos Alberto. Recomendo vivamente. E hoje vim ao blog. é esta a minha vida, que tristeza tão inútil estas mãos... Também tenho lido, as Ficções de Almada Negreiros são extradordinárias, agora ando com O Dia dos Prodígios de Lídia Jorge...

e pronto... vou fazer uma ficha sobre verbos para os meninos do 7.º ano...

sexta-feira, novembro 11, 2005

aula assistida

a primeira aula assistida até correu bem, os meninos foram queridos e colaboraram (até ao minuto 70, mais ou menos, depois começaram a dispersar...); eu estava à vontade, sabia muito sobre Caeiro, mas, claro, faltou-me um pouco a pedagogia: fazê-los chegar às coisas sem eu as dizer, manter a turma toda atenta e a seguir o raciocínio, diversificar tarefas... enfim, coisas a aprender com o tempo. o início foi fantástico: dois retroprojectores, nenhum funcionava! acho que foi por causa das tomadas, estava tudo estúpido, mas resolvi a questão mais ou menos. espero sinceramente que as vossas assistências corram como a minha (ou melhor!), que já não vão mal, acho eu! Boa sorte e bom trabalho!

terça-feira, novembro 08, 2005

gafes jornalísticas!!

os nosso broncos

Jornalista da RTP: É trágico! Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos! (trata-se de uma nova variedade de árvores...)

Um jornalista da TVI: "As chamas estavam a arder". (fantástico!!!)

Rodapé do Telejornal da Sic: O assassino matou 30 mortos. (era para ter a certeza que estavam bem>mortos...)

Jornalista da TVI: Foi assassinado, mas não se sabe se está morto. (e para se ter a certeza nada melhor que pedir ajuda ao assassino que matou 30 mortos!)

Uma jornalista da TVI: "Estão zero graus negativos." (ok)

Comentário de uma jornalista sobre o caso Aquaparque: "Os aquaparques têm feito, durante este ano, muitas vítimas, que o digam dois mortos registados este mês...". (em directo além!)

Lídia Moreno - Rádio voz de Arganil: Quatro hectares de trigo foram queimadas...Em princípio trata-se de um incêndio. (em princípio, pois até se pode tratar duma inundação...)

A meio de um relato de futebol: "Chega agora a informação...o jogador que há pouco saiu lesionado foi vítima de uma fractura craniana no joelho." (mais um caso raro na medicina!!!)

Numa notícia do jornal da noite, Manuela Moura Guedes ao dar uma notícia diz que "um morreu e outro está morto". (sem comentários...)

segunda-feira, outubro 31, 2005

dia das bruxas...


acho que não preciso de ir a festa nenhuma para as ver. tive seminário, só pensei no estágio, vi muita gente que, encobertamente, são bruxas, e verdadeiras!

Provérbios...

Quando demos os provérbios aos meninos do 7.º ano, fizemos um exercício com os provérbios desconstruídos por Mia Couto... aqui ficam alguns deles...

Provérbios – Versão Mia Couto


O arisco não petisca

Nem a água é mole nem a pedra é dura

O certo é sabido

Antes ao Sol que mal acompanhado!

Ele tinha mais freios que dentes

Pensar no nascimento da bezerra

Cão que ladra é porque tem medo de ser mordido

O prometido é de vidro

Já a formiga tem guitarra

quarta-feira, outubro 26, 2005

tão fofinho

pois é, su, tão lindo e tão fofinho... quase podia ter outro nome, tipo... ;)

segunda-feira, outubro 24, 2005

Notas de um estagiário de Português, para os outros estagiários seus colegas, amigos e simpatizantes.

Primeiro: isto não segue uma estrutra lógica ou organizada. É assim que o estágio nos deixa, às vezes. Isto é uma espécie de texto-coisa meio híbrido, sem planemamento nem revisão – ou seja, o oposto daquilo que ensinamos e defendemos como essencial nos trabalhos dos nossos alunos.


Segundo: estágio, nestes moldes actuais (2005/2006) é um grande pónei (vá, façam o gesto a acompanhar a expressão). Para já. Não há informações de parte nenhuma e cada orientador vai fazendo como quer, apalpando às escuras. E isto é como o sexo: há bons e maus guias de exploração do terreno. Só uma coisa é certa: não há remuneração nem subsídios para ninguém...

Terceiro: os colegas do núcleo foram, obviamente, escolhidos unanimamente de entre 21 candidatos ao lugar de parceiros de mim para o pseudo-trabalho...

Quarto: a escola é problemática, tem alunos difíceis, com dificuldades e necessidades óbvias. Mas há de tudo, como em todas as escolas. Mas é necessário destacar a nossa turma do sétimo ano onde todos os problemas se conjugam: não sabem ler, nem escrever, nem portar-se na sala,... de brinco na orelha, de boné – de um lado, ou umas peixeiras do outro lado, com a mania que sabem muito daquilo... e a média da idade ronda os catorze-quinze anos... (!)

Quinto: o trabalho, para já, tem sido do pior – mas já começa a ser reconhecido. Grande liberdade em relação ao sétimo ano, o que se traduz em criatividade, originalidade... mais trabalho. Sim, era muito mais fácil escolher os textos já sugeridos pelo programa e pronto...

Sexto: a gaivota entra pela janela. Mas também o gato. E as pombas. Meu Deus, parece um jardim zoológico, em que não faltam os camelos e os burros ;) Perto do mar é normal que tudo tenha uma outra vida – e o seu encanto especial.

Sétimo: reuniões estranhas, grandes palhaçadas. Mas salva-se a orientadora: tem jeito para a coisa (palavra que não deve ser usada, demasiado imprecisa e vaga, já dizia a nossa querida I.M.Du.).

Oitavo: e só não escrevo uma carta de expectativas porque há coisas mais importantes para fazer, tipo, discutir exercícios para explicar a diferença entre há e à (com acento grave, claro).

Nono: bem-vindos ao pior ano das nossas vidas. Ou talvez não...


(escrito na segunda semana de estágio...)

segunda-feira, outubro 17, 2005

carta a Alberto Caeiro (1.º trabalho de seminário)

Caro Alberto Caeiro,

Espero que a sua não-vida quase real lhe esteja a correr bem. E com isto apenas quero dizer que, apesar de toda a imaterialidade da sua existência, possa ainda andar pelos campos a ver a Natureza e conhecê-la pelo seu único lado: o de fora.
Escrevo-lhe porque preciso de dizer-lhe umas palavras de reconhecimento e, mais do que isso, de agradecimento.
Nascendo de um não-nascimento, é talvez a Pessoa que mais precisaria de ter nascido. E a sua morte de 1915, mais falsa que o seu nascimento inverdadeiro, foi uma perda irreparável para a poesia universal, que continua ainda a fazer-se de místicos que ouvem os rios terem êxtases ao luar, ou de formalistas que tentam descobrir duas árvores iguais, uma ao lado da outra, nem que para isso tenham de lhes cortar ramos, tirar alguns frutos ou tirar-lhes folhas.
Admiro-o, sobretudo, por essa visão de garça, de Atena atenta (que invejo e que às vezes finjo ter incorporada nas coisas que mal escrevo), tão patente na sua escrita. É uma escrita tão profundamente original que qualquer descuido se lhe perdoa logo. E não ligue aos comentários de um tal Fernando Pessoa, que acha que você escreve “mal o Português”. O que é o Português enquanto instrumento, quando a sua poesia é uma novidade tão fresca e saborosa? Uma língua com oitocentos anos, velha e carunchosa, não pode comportar tais versos sem a violação de algumas das suas regras…
Essa visão tão nova e especial das coisas será, talvez, fruto da sua não-vida passada numa quinta do Ribatejo – e se calhar, também, da sua instrução, que não passou da elementar. Quase dá vontade de dizer que a Natureza nunca foi apreendida por ninguém. Talvez o Alberto tenha sido o primeiro a ver o real sem a visão deturpada por medos que criaram uma série de construções filosóficas que tentam complicar a Natureza, quando, no fundo, ela é tão simples e natural como o levantar-se o vento. (Desculpe se me aproprio tanto das sua palavras, mas elas são tão exactas, apesar de tão simples, que não resisto a usá-las).
Mestre, também eu me comovo ao ler os seus versos. Uma comoção entre a nostalgia, a boa disposição e uma certa inveja: quantos poemas seus não gostaria eu de ter escrito! Fica a consolação de os ler e de serem também um pouco meus, quando os transporto na minha memória e os recordo, independentemente do lugar onde estou ou para onde vou. E por isso, por poder activar a sua visão das coisas em qualquer lugar, tenho só de lhe agradecer por esta nova perspectiva da eterna descoberta da novidade do mundo.
Deste seu imperfeito discípulo, um abraço para além da vida e da terra,

Tiago Aires

sexta-feira, outubro 14, 2005

Eva - conto

EVA

“Solidão de sozinho”
José Luandino Vieira, João Vêncio: os seus amores


Era de certeza uma árvore nova, nunca antes vista por ali. Folhas vermelhas, flores azuis. Que coisa do Diabo era aquela, nascida em ano de incertezas e estranhidades?
Era no jardim que a árvore estava. No jardim daquela mulher ainda nova, acabada de chegar, há quase um ano, à vila. Todos a adoravam por ser tão bela, tão gentil e tão generosa. Era uma abelha cheia de mel, diziam as mais novas da vila, que aprendiam com ela formas de fazer o enxoval mais perfeito – seus pontos diferentes, seus motivos inspirados e suas cores alegres e vivas nos bordados. Era uma mulher prendada, diriam; uma mulher primeira, orientadora das segundas, diria eu.
Era a Eva.
Eva gostava de neve, de flores na Primavera, do vento no fim do dia, do sol nas tardes passadas no jardim – comungava da Natureza-ela-toda, menos da chuva. A chuva era a tristeza mais triste, fazia uma pessoa sentir-se só de sozinha; nem consigo queria ficar. E dormia.
Ao fim desse recente ano de ensinanças e amizades, choveu muito. Era um ano de grossas gotas caindo sem fim, sem pausa, sem qualquer dormência ou preguiça. Eva dormia, bebia chá, andava pela casa, livro atrás de si, só. A chuva era tanta que as moças não se atreviam a percorrer o caminho para a sua casa, e mesmo que o fizessem, Eva não era a mesma para elas, porque nos seus olhos fundos azuis-esverdeados só se lia solidão… Mulher só em casa quando chove é como macaco fora do seu galho ou galinha sem grão para encher o papo. Mais valia só que a chover a potes, pensava ela. Mas isso era errado: se não chovesse, ela não estaria nunca só. Assim, a chover, não só estava só sem outros, como estava sozinha sem si.
O estar sozinha sempre suscitou sururu entre as pessoas da vila. As mais novas sabiam que ela era viúva (e todos na vila ficaram logo a saber também), daquelas viúvas de amores impossíveis e estranhos – o marido, morto, ficara perdido em Espanha, numa luta de políticos e gentes, que o apanhou desprevenido e o tornou mais um agredido-desaparecido. Morreu, lhe disseram. Mas ela nunca teve certezas claras, mas o escuro ensombrou seu destino. Por isso ela aceita a solidão de si em si, às vezes sem si, como se nada tivesse mais a esperar, a não ser que os dias de chuva passassem, porque foi num dia de chuva que Eva recebeu a notícia – “Morreu”.
Em sua casa as flores murcharam e não foram substituídas – jardim abandonado, as árvores cá fora ficaram sem flores e sem frutos. O piano foi fechado e vendido. O tempo andou e curou aos poucos a dor de uma perda por desaparecimento, sem corpo presente que confirmasse uma solidão eterna. E depois desapareceram as galinhas e os porcos, e até os cães e os gatos de raças ancestrais; as comidas luxuosas e arranjadas a preceito. Numa situação económica insustentável tudo se vende. Decide, Eva, fugir da sua terra – cortar o cordão umbilical por vezes é o melhor a ser feito. Fugir a todos que tentavam, de todas as maneiras, consolá-la da perda, perdendo-a com o desbaratamento dos seus bens, parcos já por falta de trabalho – não se tratava de mais nada. Cortara raízes e fora para sítio secreto, pequeno, onde não poderia ser encontrada facilmente por pretendentes e famílias que a quisessem (ou às suas parcas finanças que ainda poderiam fazer a felicidade de algumas pessoas).
Sim, pretendentes, porque Eva era nova, mulher que se procurava ainda para casar. Mas ela fechara-se em si e procurava apenas a sua sozinhidade, só quebrada, por vezes, pelas segundas, a que ensinava as suas coisas aprendidas antes, na sua meninice. Fugiu a pretendentes. Nova Penélope? Nem tanto, enquanto que Penélope nunca perdeu a esperança da vida de Ulisses – e da sua vinda, Eva não acreditava mais no regresso, porque também não acreditava na vida – acrente.
E nesse ano choveu tanto, tanto, tanto que nasceram culturas esquisitas. Num campo onde se plantaram feijões, nasceram os ditos cujos, mas também favas. No meio das cebolas nasceram batatas, no meio das batatas nasceram abóboras. Coisas não plantadas nesse ano surgiram, tal foi a saciedade dos campos férteis, abundantes de húmus. Campos revolvidos que deslocaram culturas de um lado para outro, tudo misturado e alterado, quase uma salada do mais natural possível.
E nasceram outras coisas, espécie de cruzamentos indisciplinados que levaram a novas coisas: morangamoras, peçãs, pessigos e tantas outras estranhezas que pareciam estrangeiras, como os frutos tropicais, aproveitadas logo para fazer saladas de frutas muito curiosas. E isto porque, culturas houve, que nasceram fora do tempo normal ou esperado.
Depois de toda aquela estranhitude frutífera, nasceu aquela estranhidade floral: uma árvore de folhas vermelhas e de flores azuis. Explicações não as havia, como as havia para as misturas de frutas. Dizia-se, primeiro, certezas nunca serão certas, que a árvore nascera das lágrimas de Eva, as folhas vermelhas do sangue derramado do seu marido, as flores azuis dos seus olhos sozinhos, porque o verde da esperança já secara. Um jovem cá da vila, que anda a estudar na cidade, explicou-nos que era coisa que podia acontecer, que as ciências podiam explicar, que era uma mistura de coisas que não percebi muito bem… Mas o povo também não percebeu e não se deixou convencer, foi juntando dois mais dois e deu a soma: tudo o que de estranho nascera só tinha aparecido depois da chegada de Eva! De filha do amor e saudade de Eva pelo marido, a nova árvore passou a ser vista como um qualquer tipo de manifestação do Diabo…
Já o Sol vigorava nas ruas da vila, mas, as moças, proibidas, já não visitavam Eva para aprender coisas úteis no lar. Eva consumia os seus dias entre as tardes no jardim ao sol, com um livro atrás de si. À noite bebia chá, dormia, ou olhava a arvora estranha. Assim, sem chuva, a solidão de Eva via-se melhor, iluminada e límpida, sozinha sem si.
Há quem diga, eu não vi nem sei, que um dia nasceu uma maçã preta na árvore, e Eva, como a outra, a das escrituras, comeu-a, sentiu-se nua e desapareceu da vila. O certo é que nada se encontrou em sua casa e a árvore foi cortada, apesar de me parecer que ela está a rebentar, de novo…

Braga


E assim foi o fim-de-semana em Braga: divertido, cansativo, com muito chocolate ("Charlie e a Fábrica de Chocolate" foi o filme que estivemos a ver até às quatro da amnhã...) e...
Valeu a pena. Celebrar o aniversário da madrinha vale sempre a pena!

(o quadro atrás de mim é uma pintura da mãe da Milai! - A Gaivota entra pela janela!)