quinta-feira, maio 25, 2006

o que faz falta (trabalho de seminário a partir de uma crónica de M L Lepecki)

O que faz falta

O que faz falta, para Maria Lúcia Lepecki, nestas questões de poesia no ensino secundário, é deixar a poesia ser poesia: “superfície e profundidade”, “mistério”, “musicalidade”, “representações e significados”.
O que faz falta é uma verdadeira metodologia do ensino da poesia. Não só no ensino secundário e obviamente. Já no ensino básico os alunos lêem uns poucos poemas, tendo ainda a ideia de que os poetas não são “umas pessoas muito normais” e que “os poemas são textos difíceis”. E os professores partilham da opinião, colocam os poetas de lado e continuam com o texto narrativo. Até que os alunos chegam ao ensino secundário e são confrontados com Sophia, Torga, Eugénio, Herberto ou Al Berto nos seus poemas ligeiramente mais difíceis e as dificuldades aumentam, bem como o desinteresse e o “desprazer”.
Interessante e necessário será motivar os alunos desde muito cedo para a fruição estética da língua, do poema na sua componente verbal: sons, ritmos, cadências, rimas, repetições, prolongando a infância onde já se contactou com trava-línguas, lenga-lengas e adivinhas. E conduzir os alunos gradualmente para o jogo que a poesia encerra em si, para a poesia visual, para os poemas tradicionais, para os grandes poetas nas suas composições mais simples (aparentemente), de sabor medieval, até. E começar também, de forma provocatória, a desmistificar a poesia: todas as palavras são permitidas, tudo é assunto para a poesia, “tudo é tempo de poesia”. E então surgem os grandes temas, acompanhados de metáforas, comparações, imagens, hipérboles: vida, amor e morte – e todos os assuntos a eles ligados.
Introduzir os alunos na “cidade da poesia” é possível recorrendo ao desafio, “ao mistério” e à “questão de superfície e de profundidade”. Mostrar que um poema pode ser interpretado de diversas formas, dependendo da leitura que se faz dele – individual ou colectiva, contextualizada ou descontextualizada, analítica ou expressiva. A poesia é para ser lida (ou comida), mas em voz alta, com todas as técnicas que se aconselham: boa colocação de voz, volume adequado, expressividade, respeito pelo ritmo, acento de determinadas palavras-chave. E reler, muitas vezes, até que o poema fique em nós, sempre pronto a ser activado em qualquer altura. E reler novamente até que a sua forma e estrutura se justifiquem por si mesmas, tudo comungue de uma unidade própria que poderá ser destruída por uma outra forma de unidade, vista por outro leitor, mas que não deixa de ser a nossa forma, com todas as virtudes e falas inerentes. E só assim o poema será dito, ou antes, passado aos alunos. Só pela técnica do jogo ou pela técnica do encantamento podemos seduzir os alunos para os mistérios da poesia.
Na prática docente, isso poderá ser difícil. Das aulas que observei no sétimo ano, as adivinhas e trava-línguas seduziram os alunos, “A Nau Catrineta” também teve os seus efeitos positivos, mas “Chuva Fina” de Cecília Meireles foi já um choque para o qual os alunos não estavam preparados. Poesia próxima deles, com as inquietações deles funciona melhor. Nas aulas de reforço, pude trabalhar com alguns o ritmo do Hip Hop de Boss AC em “Que Deus” por confronto temático com “Os Senhores da Guerra” dos Madredeus – e a sedução foi de outro género. Foi sedução efectiva.
No décimo segundo ano, em que o programa e o fantasma do exame final não permitem perdas de tempo, nota-se uma difícil abertura e compreensão da poesia de Pessoa. Ainda me lembro de tentar dar o poema “Pobre e velha música” de Pessoa, em que tentei demonstrar, entre outras coisas, a importância da escolha das palavras que, alteradas, mudam todo o sentido do texto: e era apenas o caso de uma preposição “inocente”. Ou Alberto Caeiro (anti-poeta) de que os alunos gostaram, o “senhor estranho” que vê as coisas como elas são, sem inventar para elas realidades outras. E os alunos aperceberam-se de que convivem com a poesia no dia-a-dia, que nasceram com ela, pois entendiam as refutações do “senhor estranho” e viam outra realidade: a que está diante dos seus olhos.
Mistério e jogo, sedução e encantamento: duas abordagens diferentes, auxiliadas pela fruição, que se devem complementar para atrair o maior número de alunos possível, porque se a poesia “não se diz”, ela está nas ruas, expectante.

sexta-feira, maio 19, 2006

são elas... sim, as boas!!!

AULA INAUGURAL, de Mário Quintana

É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como
na guerra do Paraguai ...
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia não há salvação.
A poesia é dança e dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança.
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança;
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante de tua cova.
Tece coroas de rimas...
Enquanto o poema não termina.
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas...)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas...)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta,
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo dos teus pés,

Deixa rugir o Caos atônito...

Luandino, Mia Couto e outros africanos


Mia Couto esteve na FLUP na terça-feira passada. foi uma tarde muito interessante, com um anfiteatro nobre repleto de gente sequiosa por ouvir e poder falar com o autor de "O Outro Pé da Sereia", o seu mais recente romance. Ainda não li o livro, mas de certeza que é fantástico, como todos os outros, sobretudo "Terra Sonâmbula" e "Chuva Pasmada" - tão diferentes mas tão fantásticos!
Hoje soube-se a notícia de que Luandino Vieira (finalmente) recebeu o Prémio Camões. Sendo o prémio de literatura em língua portuguesa mais importante, acaba por ser a maior honra que um autor lusófono pode receber. Ao lado de Luandino Vieira estão nomes como: Miguel Torga (1989), João Cabral de Melo Neto 1990), José Craveirinha (1991), Vergílio Ferreira (1992), Rachel Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), José Saramago (1995), Eduardo Lourenço (1996), Pepetela (1997), António Candido (1998), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Autran dourado (2000), Eugénio de Andrade (2001), Maria Velho da Costa (2002), Ruben Fonseca (2003), Agustina Bessa Luís (2004), Lygia Fagundes Telles (2005).
Grandes nomes aos quais se junta o maior escritor Angolano (Pepetela que tenha paciência), fantástico pela imaginação prodigiosa, pelas descrições apaixonadas da cidade de Luuanda, pelas personagens extraordinárias (Pedro Caliota e o Mau Miau, João Vêncio...), pela criatividade linguística (não só dada pelo casamento entre o português e línguas bantas a nível lexical, mas também sintáctico, mas também semântico - criando uma nova forma de ver e dar a ver a realidade, usando técnicas semelhantes às de Guimarães Rosa, e às quais Mia Couto e Ondjaki são devedores). E apesar de não ser muito fácil (ou exactamente por isso), ler a sua obra torna-se numa prática de prazer e fruição, de constante surpresa e ostranenie no sentido mais pleno do conceito...
Finalmente, notícia só de que este mês é de leituras africanas. Depois de "O Último Voo do Flamingo" de Mia Couto, estou a acabar "Quantas Madrugadas tem a Noite" de Ondjaki. Seguem-se "O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo" de Germano Almeida, "O Outro Pé da Sereia" de Mia Couto e "Makandumba" de Luandino.
Por fim (ou finalmente 2) - agradecimento à Professora Cristina Pacheco pela conferência "Da importância dos textos africanos nos Programas de Português dos ensinos Básico e Secundário e no programa de Literaturas em Língua Portuguesa", realizada no da 15 de Maio na FLUP, a pedido do meu núcleo de estágio (Boa Nova).
Mas mais do que isso, agradecimento à Prof. Cristina Paheco por me ter introduzido de uma maneira tão apaixonante ao mundo das literaturas africanas, que poderá ser a minha vida futura...

quinta-feira, maio 11, 2006

Produções artísticas

vou dar a minha última aula no dia 18 de Maio. A notícia... tenho muita coisa para fazer com eles, mas não sei se tenho tempo... de qualquer maneira. aqui fica a montagem que fiz para o último dossier.

quarta-feira, maio 10, 2006

Inventário das Coisas Sós (pequenos excertos de uma grande obra ainda por escrever)

No início era o verbo, assim dizem. Deus, sozinho no seu poder, cria o universo, as estrelas e planetas em redor delas, satélites em redor deles. Nesses planetas, ou pelo menos num deles, cria uma série vidas que culmina no homem. Há quem diga que tudo foi criado para o homem, que na altura era apenas Adão, o grande nomoteta da história. Mas na verdade, ou na minha, Deus fez tudo por um acto egoísta e um pouco louco de destruir a sua solidão infinita. Pouca sorte teve, pois logo teve de expulsar os seus novos amigos porque estes se portaram menos bem. No meio disto tudo não sei onde ficam os anjos nem as outras pessoas que são Deus: uma pessoa trina não pode sentir-se só… mas nem todas as Pessoas são compreensíveis às luzes da lógica e da matemática.




Todos os degraus da escada sentiram o seu peso e se prestaram como encosto para as costas curvadas pela avidez ainda, mas cada vez menos, cega de ler nitidamente. Por vezes rangiam como se lhes custasse ou então como se se condoessem com situação tão estranha. E também eles, todos seguidos uns aos outros, permitindo reinventar constantemente o mito de Ícaro, numa versão mais segura, se sentiam sozinhos porque nunca estavam no mesmo plano para poderem ser-se iguais. E, no fundo, o soalho de madeira era apenas uma escada cujos degraus tinham conseguido superar o estado de desigualdade e unir-se solidamente. Ou o contrário – talvez no início tudo fosse conjunto e só com o passar dos tempos as coisas se transformaram e se tornaram sós.


Naquela noite os livros pareciam respirar. Por entre as cortinas brancas, algumas esfarrapadas, os seus sussurros eram cicios mornos, estranhos, roçando as orelhas, a nuca, o pescoço. Deitado no chão, Alberto sentiu uma súbita tentação de volúpia, um desejo de ternura, de contacto, de entrega e abandono de si. As mãos, tantas vezes vazias, enchiam-se agora de desejo satisfeito, a pouco e pouco. Cá fora, as folhas agitavam-se com o vento nocturno e algumas amoras mais maduras caíam no chão.

segunda-feira, maio 08, 2006

quinta-feira, abril 27, 2006

santiago


houve quem tivesse ido. eu não. fiquei em poiares a preparar aulas que depois correram mal. mas já me ofereceram uma caneca e mandaram-me fotos. esta é uma das fotos do chão que eu não pisei, a chuva que não me molhou, dos reflexos que não presenciei. mas vejo-os, e são tão bonitos...

Dois poemas recentes


Imitação da Felicidade I

Imito-te
como as aves ao vento.

26/04/06


Imitação da Felicidade II

Imito-te
como as cúpulas ao sol.

Porém
as torres só se vêem no chão quando chove.

E a imitação
é triste porque existe a noite.

27/04/06

quarta-feira, abril 26, 2006

Reflexos


Só porque sim. e porque é bonito.

Conselho de Nicamor Parra (Chile)

JOVENS
Escrevam o que queiram.
No estilo que lhes pareça melhor.
Passou demasiado sangue sob as pontes
para continuar-se a crer
que possa seguir-se um só caminho.

Em poesia tudo é permitido.

Com a condição expressa
é evidente
de superar-se o papel em branco.

quarta-feira, abril 19, 2006

candidatura e ensino

a minha candidatura foi invalidada, que loucura!
tudo porque supostamente já tenho "qualificações próprias" e por isso tinha de concorrer já certinho, com escolas e tudo. ora, como o tipo de candidato nãos e pode mudar no melhoramento de candidaturas, estou excluído!
que pena, eu que gostava tanto de dar aulas a criancinhas!;)
tenho mesmo de rever a minha vida, e não é por causa do concurso, claro. o que fazer? não sou suficientemente bom para viver da escrita (quase inexistente, neste momento) nem há hipóteses de investigação a sério... por muito que as literaturas lusófonas chamem por mim, há o jornalismo como possível escapatória, ou não...
uma coisa é certa, ser professor de português, mesmo de secundário, está fora de questão, não é o que quero fazer na minha vida futura. repetir as mesmas coisas, muitas das quais em que nem sequer acredito, usar as estratégias de sempre que nem sempre são adequadas, eficazes ou pertinentes... e depois, ter de fechar todas as portas, aliás, só se podem abrir e fechar portas sucessivamente (e nunca abrir mais do que uma), rotular tudo, encaixotar tudo em esquemas e conceitos que só podem ser aqueles, e ser-se rigoroso na interpretação de textos, não podendo deixar abertas as hipóteses dos alunos (como, se o texto literário é a construção infinita de sentidos e possibilidades?), coitados, que nem raciocinam e só têm de desenhar um círculo no V ou no F ou escolher uma resposta entre três possíveis...
e porque de facto o ensino do português é uma treta pegada (e isso vejo da minha experiência de observador de aulas e de aprendiz de alguma coisa, de vez em quando) não quero fazer parte de uma classe estupidificante como esta. claro que há excepções, mas não as conheço nem trabalham comigo.
e mesmo que quisesse ser diferente, fazer (não no ano de estágio, claro) aquilo que acho necessário fazer, não poderia: não sei fazer como elas querem, já não sei fazer à minha maneira...
é por isso que este ano a minha vida tem de tomar um rumo orientador. vou concorrer a vários colégios privados e fazer um mestrado. de preferência, gostava de ficar no colégio de minha aldeia. para fazer a experiência de efectivamente ter turmas, alunos com quem trabalhar num projecto coerente e constante, sem cortes abruptos pela constante mudança de professores, de forma sequenciada e globalizante.
e se, no final de tudo, a coisa não resultar, a experiência tem de ser ou noutro campo ou noutro país.
dói descobrir agora que por vezes os sonhos são tão estúpidos como a vida.

inquérito

Um colega meu pediu-me para responder a este inquérito...

1 - Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Cem Anos de Solidão. Porque além de ser potente e uma verdadeira obra-prima (entre outras que já li e que se calhar até gostei mais do que deste livro), sempre durava pelo menos Cem anos ou ainda, quem sabe, por relação de homofonia, pudesse ser Sem anos (o que pode ser perto da morte mas também da eternidade). Ou A Bíblia.

2 - Já alguma vez ficaste apanhado por uma personagem de ficção?

apanhado, tipo… Georgina das Viagens (a abnegação!!!), o desejo de ter o carisma sedutor de Oblonski (Ana Karenina). E o que dizer de grandes personagens femininas como Blimunda, Madame Bovary, ou masculinas como Gonçalo Ramires (A Ilustre Casa de Ramires) ou Marc (A Identidade) Tantas… às vezes…

3 - Qual foi o último livro que compraste?

O Mundo dos Outros, José Gomes ferreira

4 - Qual o último que leste?

Férias da Páscoa abençoadas porque me permitem ler sem parar (muito): acabei de ler Enciclopédia dos Mortos de Danilo Kis, li Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira, Nação Crioula de Agualusa, Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto de Mário de Carvalho.

5 - Que livros estás a ler?

Acabei hoje de manhã A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós. vou recomeçar a Obra Completa de António Gedeão.

6 - Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?

Com a falta de tempo que marca os meus livros (ou melhor, a leitura para eles…) levava coisas ainda não lidas. E porque estaria num espaço deserto (não sei por quanto tempo, mas pronto), e só poderiam ser cinco, seriam coisas “granditas”:
(i) Ulisses, James Joyce (é preciso ter coragem);
(ii) A Bílbia (ah pois é!);
(iii) Tristan Shandy, Lawrence Sterne (primeiro é preciso comprá-lo…);
(iv) Onde Vais Drama-Poesia, Gabriela Lhansol
(v) Todos os Poemas de Ruy Belo (sei lá eu quando vou pegar nela…).

7- A que 3 pessoas vais passar este testemunho?

Su, To, Milai

quinta-feira, março 30, 2006

um ano

e depois?

De um concurso de poesia

O ano passado concorri a um concurso de poesia de Ovar. não ganhei, claro. agora, o professor Pedro Eiras disse-me que vão ser publicados dois deles numa colectânea, mas já não sabia quais. aqui ficam, em primeira mão (e um ano depois...) os três poemas...


1
O gato que a minha vizinha reclama ser seu invade a minha solidão


O gato da minha vizinha costuma vir para minha casa.
Talvez goste das almofadas espalhadas pelo chão,
dos sofás ao pé das janelas onde bate o sol todo o dia
ou do calor que está sempre na cozinha.

Eu gosto do tinir da malga do leite no azulejo.
Gosto do calor do seu corpo felpeludo,
aquecendo-me os pés nas tardes de Inverno
fazendo-me companhia enquanto leio...

O gato que a minha vizinha reclama ser seu invade a minha solidão
e aquece mais a casa com a sua presença.
O que ele gosta – nunca mo disse, mas sabe o que eu gosto...
Nada me deve, tudo preenche.



2
Levantei-me cedo e era azul toda a manhã.
A aldeia sonolenta desperta do luar.

Uma borboleta balanceia-se por entre as flores;
Parece uma criança a dar os primeiros passos.

O céu é o mar onde naufragam estrelas;
Um mundo novo se anuncia, e ainda outro.

O rumor das árvores é uma sombra fresca.
Resguardado, teço para ti o caminho dos meus sonhos.




3
As Palavras

Gosto de apanhar amoras nos dias de verão
pelas ruas ermas da aldeia
entre as vinhas e as oliveiras,
quando o sol começa ou se incendeia.

Escolho as melhores,
as podres ficam, ou as amargas.
E recolho só aquelas que trazem
O sumo mais doce...

Pudesse eu colhê-las todo o ano,
A todo o instante.
E o meu olhar seria constante e pleno
Como se fosse uma criança inocente e gulosa.

terça-feira, março 28, 2006

por que motivos...

pelos quais me apetece...
infelizmente, é só mesmo para ver...

quinta-feira, março 23, 2006

há coisas assim

geniais, fantásticas, brilhantes.
espero ao menos que os links funcionem ;)

http://84.40.3.164/ (Honda Civic)


http://www.youtube.com/w/Spin-dj-is-a-god?v=AW1jB0ey1ZE&eurl (Deus é um Dj)

Amostra sem valor

(porque ando a ler a poesia de António Gedeão e fico por vezes parvo a olhar para as letras com inveja de não ter sido eu a escrever certas coisas, aqui fica um dos poemas que mais me tocou, entre cinquenta mil outros:))

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja meu,
não pesa num total que tende para Infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
universo sou eu, com nebulosas e tudo.

(António Gedeão, Máquina de Fogo)

segunda-feira, março 20, 2006

Feira da Universidade do Porto



já acabou e foi muito engraçado estar lá. mas o melhor é este postal. e já que tenho de ir embora para o Seminário, ficamos-nos por aqui...

tu sabes que é para ti.

Silogismos

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

Ana Luisa Amaral. Imagias

quarta-feira, março 15, 2006

A peça

(apesar de não estar trabalhado, revisto, alterado ou o que for... e porque a Su e a Consti gostaram muito...)

Tinha chegado há pouco tempo a casa quando chegou embrulhado num plástico transparente com folhas desenhadas a branco. Era um vaso com uma planta, cujo nome ainda hoje desconheço, de flores cor-de-rosa claro com riscos e manchas mais escuras.
Sim, eram para mim. Não havia qualquer hipótese de confusão, de troca, engano, erro ou confusão de morada ou de identificação: lá estava a minha rua, número e o meu nome. Mas mais nada. Nenhum cartão com a assinatura de tão inesperado presente. O moço que o transportava também nada podia adiantar, que veio apenas entregar, mas podem ser de uma admiradora secreta, disse-me, com um sorriso de quem já está habituado a situações como aquela. Mas eu não estava e, aparvalhado, entrei na sala com as flores, o plástico, o meu nome, a minha morada e sem o cartão inexistente, tudo ao mesmo tempo.
Sentei-me, olhando-as. Só então devo ter de facto reparado no plástico, nas folhas brancas e numa grande fita vermelha, até exagerada e ligeiramente pirosa, que envolvia o vaso e o plástico. E nenhuma informação de destinador. Peguei nela, pu-la na varanda e fechei a porta sobre ela.
Primeira questão: quem me mandou a planta? Segunda: porquê? Era óbvio que teria sido a minha namorada, mas estando ela a quarenta quilómetros de distância… Bem, nada a impedia de a encomendar, bastava telefonar, dar a morada e pronto. E aconteceu assim, provavelmente. Mas não. Ou pelo menos ela nada confirmou quando eu lhe telefonei e agradecer e a perguntar porque não tinha assinado nem dizia nada, ela que sempre fora muito eloquente para bilhetes, cartas e postais de namoro. Era a segunda questão que eu tentava responder: não tanto o porquê, até porque o amor não necessita de justificações para as suas demonstrações, mas sobretudo por que não se tinha identificado. Grande problema: jurou afincadamente, perante a minha suspeita e insistência, que não tinha sido ela e até fez uma cena de ciúmes pelo telefone, que andava alguma interessada em mim e que eu já devia ter dado algum encorajamento para estar a receber uma planta no dia dos namorados. Eu nem me lembrava que era dia de S. Valentim, dia muito bem apanhado pelo comércio para incentivar a uma espécie de consumo em franca expansão. Foi a pedra de toque: fula comigo por eu desconfiar dela e por ela desconfiar já de mim, e eu chateado com a situação toda, cortamos a comunicação por ali, sem marcação prévia de novo contacto.
Vim novamente à varanda. A planta sorria com suas flores de pétalas soltas ao vento ligeiro de Fevereiro. É engraçada: com caules castanho-vermelho suave, muitas folhas em forma de pequenos corações, e as flores no cima, como se fossem chapéus de plumas de senhoras que olham para o chão que pisam delicadamente.
Não tendo sido a Joana, quem? Haveria alguém interessado em mim? Ou alguém que quereria destruir a nossa relação, dando motivos de desconfiança à Joana? Então só podia ser alguém que me conhecesse bem, que soubesse a minha morada e o meu nome completo! Mas logo de seguida foram as questões vitais que irromperam das pétalas trocistas: serás capaz de tomar conta de nós? E eu não respondi trocistamente, porque poderia não ter-lhes respondido sequer, ou dizer-lhes que tinha mais que fazer do que tratar de flores e plantas. Mas não. Quem mandou isto não gostaria que eu as deixasse morrer… Mas talvez por isso não mandou um animal, com receio… Preocupado, sim é o termo, pensei que pode um homem fazer sozinho num apartamento para permitir que a planta continue a viver? Recordei as plantas da minha Mãe, o trabalho esforçado por um crescimento e florescimento perfeitos, tal como tudo em que a minha Mãe punha a mão e podia controlar. Assim, pensei que esta planta era de rua. Pus um prato debaixo dela (normal, de cozinha, porque não tinha dos outros) e reguei-a. Fechei suavemente a porta da varanda, com alguns escrúpulos de a deixar sozinha ao frio de Fevereiro… Mas, caramba, é uma planta… Mas quem nos garante que as plantas não sofrem e não têm frio como os animais?

No dia seguinte a Joana telefonou. Queria saber da planta ou melhor, se já sabia alguma coisa de quem ma enviara. A resposta não lhe agradou mas notei na sua voz uma certa tranquilidade satisfeita quando lhe disse que mesmo não sabendo quem ma deu, ia tomar conta dela.
Aquela tranquilidade satisfeita fez-me suspeitar novamente que fora ela. Para me pôr à prova? Tentar saber de alguém que pudesse estar interessado em mim ou eu em alguém?
Mas foi ao fim da tarde, quando estava já a caminho de casa, ao ver um cartaz a anunciar uma peça de teatro e ao constatar que já não ia ver um espectáculo há muito tempo e que a última vez tinha sido com a Joana, que me lembrei da famosa cena final que a ela adorou: uma personagem oferece uma planta a outra, dizendo-lhe que a relação deles dependeria daquela planta: se a planta vivesse só com os seus cuidados, significava que já estaria pronta para passar para um nível mais avançado: cuidar de outra pessoa numa relação a dois. Desconfiei novamente da Joana e da sua tranquilidade satisfeita aquando da minha frase “vou tomar conta dela”.
Telefonei-lhe logo a dizer que vou ver uma peça no mesmo teatro onde fomos ver a outra, lembras-te? Aquela da planta que marcava o compasso de espera da relação amorosa entre as personagens principais? Sim, essa, que nós achámos muito interessante por não sabermos a conclusão. E mais nada. Da sua fala, tom, velocidade e palavras nada pude avaliar.
Nessa noite, conduzi até à casa da minha Mãe. Cá fora, as plantas com ou sem flores mostravam que o tempo pouco passara por ali. Beijei-a e serviu-me do seu chá, enquanto a brindava com um vaso de flores cor-de-rosa claro com riscos e manchas mais escuras, embrulhado num plástico transparente com folhas desenhadas a branco. Mas sem a grande fita vermelha, exagerada e ligeiramente pirosa, a envolver o vaso e o plástico.
26 de Fevereiro de 2006

o meu porto

já foi a minha vista, durante três anos. também já a tive.
agora eu estou na vista, ao fundinho, à direita.
mas é melhor ver do que estar...

coisas

é só para dizer, caso reparem no "contador" e no seu número pequenito, que o coloquei ontem.. ou foi anteontem? não sei, já. eu que sempre me orgulhei de dominar tão bem o tempo já nem sei a quantas ando. mas isso é temporário ;) em Maio recupero a minha vida (ou não). de qualquer maneira, até arranjo tempo para vir aqui e ler alguns livros fantásticos, ir com a MIM aos alfarrabistas, assistir a conferências de poesia francesa moderna e contemporânea, and so on.

segunda-feira, março 13, 2006

pequeno poema de Alberto Caeiro



Quem tem as flores não precisa de Deus.

Aquela Nuvem


(Na praia. O menino aprende a linguagem das nuvens.)


Aquela nuvem
parece um cavalo…

Ah! Se eu pudesse montá-lo!

Aquela?
Mas já não é um cavalo,
é uma barca à vela.

Não faz mal.
Queria embarcar nela.

Aquela?
Mas já não é um navio,
é uma Torre amarela
a vogar no frio
onde encerraram uma donzela.

Não faz mal.
Quero ter asas
para a espreitar da janela.

Vá lancem-me no mar
Donde voam as nuvens
Para ir numa delas
Tomar mil formas
Com sabor a sal
- labirinto de sombras e de cisnes
no céu de água-sol-vento-luz concreto e irreal…


José Gomes Ferreira, Poeta Militante, Publicações D. Quixote


(foto do filme O Fabuloso Destino de Amélie)

Festival RTP da Canção

Mais um festival português, muito parvo e polémico.
A música que ganhou (de uma forma muito pouco estúpida, diga-se) foi “Coisas de nada” (tipo…) das Non Stop. Uma música muito Spice ou ABBA, sei lá, simples, feita mesmo só para festival eurovisão (em que a qualidade musical nem sempre, ou muito raramente, significa vitória). A outra música que teve também 22 pontos, “sei quem sou (Portugal)” da Vânia era também bastante dançável, mais portuguesa, embora com um refrão um pouco estranho… Não admira, portanto, que a audiência gritasse durante o resto da cermónia: VÂNIA, VÂNIA… como é que as Non Stop vão representar Portugal se “democraticamente” foram escolhidas pelo júri (cinco pessoas!) e não pelo povo (que com certeza foram mais de cinco…)
As melhores músicas, pela interpretação e originalidade eram “Durmo com pedras na cama” (embora ela não tenha cantado tão bem como esperado) e “Ir mais além” (a dos transmontanos poderia fazer sucesso…) e “As minhas guitarras”, um fadinho suave (que podia mostrar Portuga)l também poderia ser uma boa opção (nós até somos conhecido por ele, tipo, Mariza...). Já se viu que quem ganha o festival é quem mistura um pouco da mdernidade com um pouco das tradições do seu país (tipo: a música da Grécia do ano passado, e a nossa melhor música foi “O meu coração não tem cor”, da Lúcia Moniz, que tinha uma letra bem nacional e uns cavaquinhos muito lusos…).
O filme vai repetir-se, só que desta vez na Grécia, e com outras personagens…
ninguém percebeu também qual o motivo para se ter ouvido a música do ano passado na íntegra, quando das outras poucas cantadas, que fizeram um determinado percurso na nossa cultura, só o foram durante trinta segundos ou coisa assim...

sexta-feira, março 10, 2006

Tradução muito livre de um passo da Ilíada (Livro IV, V-422-6)

Sobre as praias sonoras as vagas do mar
Movem-se
Umas após outras.
E logo se quebram, em terra,
Frementes.
E em torno dos promontórios
Engrossam e sobem muito alto
Cuspindo a espuma marinha.

quase um ano

quase um ano de postagens, ou de blog, ou de coisas que vão sendo aqui mostradas, às vezes.
quase um ano.
quase um ano de muitas coisas e boas ou não.
e para que isto não seja estúpido ou lamechas,
ficamos por aqui.

sexta-feira, março 03, 2006

teatro

fomos ao teatro com o 12.º ano. Felizmente Há Luar! foi a peça.
comentário sábio de uma aluna da escola: "Felizmente há luar, se não os gatos não miavam".
sempre é melhor do que fcar a dormir, como fizeram alguns alunos.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Ode aos livros que não posso comprar

Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
-- sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.
Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

40 Anos de Servidão, Jorge de Sena

Para a Susana




Parabéns, lá lá lá (já te cantamos duas vezes na aula)
E já te escrevi uma carta muito gira que até fala de coesão e coerência textual.
E já vais com sorte, não é toda a gente que tem dedicatórias escritas por um futuro prémio... Camões (para já ficamos por aqui...).
Mas como sou uma pessoa excepcional e fixe (como diriam os nossos índios), ainda te deixo uma imagem (era uma animação, mas não fica a mexer-se...) que está qualquer coisa. bjs

7.º D da Boa Nova

a nossa querida turma do 7.º D já tem um blog! Dinamizado por nós, meros professores estagiários não remunerados. tudo é escolhido por eles, nós só gerimos e ajudamos a manter o decoro... vão a:

Carnaval



Há anos que para mim Carnaval significa Veneza. Ainda mais este ano, depois de ter dado a descrição de Veneza aos miúdos (Cavaleiro da Dinamarca) e de os ter posto a escrever páginas de diário imaginadas, a partir de uma pesquisa na internet e em folhetos turísticos e após um plano de viagem registado numa agenda. E aumenta aquele gostinho amargo de ainda não lá ter ido, pelo menos fisicamente...

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

a conta mistério...

quem adivinhar o que significa ASTI recebe um prémio!

uma gargalhada...

mais uma pérola...

"só me apeteceu esbofeteá-la com o estojo..."

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

terça-feira, fevereiro 14, 2006

vão a:

http://www.t2comvaranda.blogspot.com/

a sério, e vejam a versão primeira de "hung up", agora cantada por Madonna. está demais!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

professores e nós nas notícias...

"Olhar o futuro com pessimismo

Ainda são estagiários, mas como planeiam fazer do ensino o futuro, Susana Duarte e Tiago Aires recebem esta medida com desagrado. Para Susana Duarte, alargar a validade dos concursos «não vai resolver os problemas dos professores». «Quem ficar colocado longe de casa tem que aguentar os três ou quatro anos, porque se desistir perde o lugar». Um problema grave, numa altura em que as colocações já não chegam para todos.
Tiago Aires considera que a medida «é uma faca de dois gumes». «Pode ser benéfica para as escolas e para os professores», mas «quando um professor estiver num sítio onde não quer, acaba por não dar o seu melhor, o que é prejudicial para os alunos».
Métodos de colocação que fazem os futuros professores olhar para o futuro com «pessimismo»".
in: Professores: alargar concurso é prolongar ausências
2005/12/13, Portugal Diário, IOL, por: Marta Sofia Ferreira e Sara Marques

o mar entra pela janela (relação intertextual?????) ;)

"E, às vezes, de súbito, uma gaivota atravessa, sem o quebrar, o vidro dos espelhos”

Sophia de Mello Breyner Andresen, Histórias da Terra e do Mar (p.71)

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

numa aula de 12.º ano...

o mar vasto ao vento
os marineiros num lenho leve
- é duvidoso este tempo,
não havendo quem o teve.

pónei

na estação de s. bento, à espera do comboio. doente. o dia seguinte a uma aula terrível. na véspera da apresentação de um trabalho de seminário.

e só me apetece entrar no comboio e ler sophia. ou quem sabe escrever alguma coisa com interesse...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

e pronto...

já fiz o dossier da minha aula de dia 2 de fevereiro. está impresso, aqui ao meu lado. entretanto, como não me apeteceu ir para casa, andei a ver pinturas de Klimt, Vieira da Silva, Arpad Szenes, José Malhoa e Costa Pinheiro. gostei desta em especial, por isso fica...

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Pesadelo da Su 3


palavras para quê?

Outras licenciaturas

Pois é, quem não conseguir entrar em Estudos Sexuais pode entrar numa outra licenciatura bem mais... exigente fisicamente, digamos. cliquem e vejam:

http://pisca-piscadaalma.blogspot.com/

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Pesadelo da Su 2



acho que não precisa de comentário. e a saga continua, ou não se tratasse de uma trilogia!

segunda-feira, janeiro 09, 2006

“Certuficado” de virgindade

No arquivo distrital de Viseu existe um documento cuja data não nos foi possível precisar, mas que nos parece ser do início do século XX. É um certificado passado por uma parteira da época, chamada Bárbara Emília, natural de Coira, Viseu, a pedido de uma jovem que pretendia libertar-se da difamação e provar a sua virgindade, para contrair casamento.

O documento dizia assim:

Eu Bárbara Emília, parteira que sou de Coira, atesto e certufico pela minha onra que Maria de Jesus tem as partes fudengas tal e qual como nasceu, insceto uma spequenas noisas negras junto dos montes da crica que a não serem da nascença sarão porvenientes de marradas de piça.”

Manuel Paula Maça, in Gazeta do Tejo.

;)

Licenciatura em Estudos Sexuais

Nota de Candidatura: 10 valores (mínimo)
Média do ano anterior: 17 valores
Específicas: sem indicação

1.º ano:

Introdução aos Estudos Literários Eróticos I e II
História do Género (1.º sem)
Tipologia do Palavrão (2.º sem)
Kama Sutra I e II
Psicologia do Erotismo e do Sexo I e II
História do Preservativo Masculino (1.º sem)
História do Preservativo Feminino (2.º sem)
Noções e Técnicas de Engate I e II

2.º ano:

Literatura Erótica I e II
Poesia Erótica de Bocage (1. sem)
Poesia Erótica Portuguesa (2.º sem)
Kama Sutra III e IV
A Literatura do Marquês de Sade I e II
Posições I e II
A História da Masturbação I e II

3.º ano:

Literatura Erótica II e III
Internet: pesquisas eróticas I e II
Kama Sutra V e VI
A Literatura do Marquês de Sade III e IV
Posições (e instrumentos) III e IV
Sociologia aplicada aos estudos sexuais (1.º sem)
História dos Sex Shops (2.º sem)

4.º ano:

História da Pornografia I e II
História dos Programas Eróticos na TV I e II
História do Entrar e Sair I e II
Posições (e Locais) VI e VII
Stripptease Prático I e II
O Sexo na Arte ou O Sexo na Cidade, Sexo no Campo (escolher uma)

5.º ano: Estágio “profissional”.

Vagas: 0
Professores: incógnitos
Alunos: a faculdade em peso!
Visitas guiadas todas as sextas feiras:
Sex shops
Clubes nocturnos
Passeios pela Trindade e Rua da Alegria

Nota: curso com muita saída!!!

(feito por mim e Ana verde, numa aula de Latim do primeiro ano – 2002…reformulado em 2006)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Pesadelo da Su 1

saudades?

o curso foi há pouco tempo e já tenho saudades de algumas coisas que este pónico novo curso acentua por ser tão incrivelmente mau, estúpido e desorganizado.
Portanto, saudades de coisas tão básicas como ouvir alguém a falar de coisas que têm o mínimo interesse, mesmo que não sejam abordadas da melhor maneira...
Dos cadernos de capa preta cujas últimas páginas eram azuladas com desenhos, comentários mauzinhos (ou não) sobre profs e não só... e ataques de riso incontroláveis por eles provocados... Dos conselhos sempre tão (in)úteis como "comprem a Magazine Litteraire, no aeroporto de Paris..."
ou
Ou dos "não necessariamente", das participações orais tipo maçã (redondas e escorregadias) nas aulas de Literatura Brasileira, ou da necessidade tremenda de bater com a cabeça na parede por se estar a ouvir a mesma coisa, na mesma aula, pela 567ª vez...
Ou das garrafas de água sugadas pela sabedoria assustadora (quem diria!)
E se a saudade é uma coisa tão estúpida como o ter de olhar para trás com algum sentimento de perda e de desejo de regressar... então...

sexta-feira, dezembro 16, 2005

férias....

elas estão aí, desejadas, muito necessitadas. e continuaremos a estudar e a trabalhar, mas é diferente. não ouviremos professores nem perguntas como "quem é o espaço?"....

pausa para ser. pausa para repensar a bidinha. ///////////////////////////////////
/////////////////////////////////////////(achei giro por isto aqui). e pausa para ler!!!

e tal e coisa, deixemo-nos de póneis.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Livros para as férias ou para o próximo ano...

Pois é, as férias estão aí, há mais tempo (ou não) para pôr a leitura em dia. aqui ficam algumas sugestões, que são baseadas nas minhas leituras desde Julho deste ano até o presente mês. Obviamente, a lista diz respeito apenas aos melhores, por ordem de leitura:

1. Eles Eram Muitos Cavalos - Luiz Ruffato
2. A Criança no Tempo - Ian McEwan
3. Morreste-me - José Luís Peixoto
4. Ana Karenine - Tolstoi
5. O Jovem Torless - Robert Musil
6. No Antigamente, na Vida - Luandino Vieira
7. A Terceira Rosa - Manuel Alegre
8. O Manual dos Inquisidores - António Lobo Antunes
9. O Jogador - Dostoievski
10. Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Márquez
11. O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago
12. A Guerra do Tabuleiro de Xadrez - Manuel António Pina
13. Histórias com Juízo - Mário Castrim
14. Antigas e Novas Andanças do Demónio - Jorge de Sena
15. O Físico Prodigioso - Jorge de Sena
16. O Dia dos Prodígios - Lídia Jorge
17. Ficções - almada Negreiros

Nota: os que estão a azul são mesmo imperdíveis!

terça-feira, dezembro 06, 2005

a pedido de muitas famílias, pronto...


(foto da milai, no regresso de Braga para o Porto)

texto escrito durante uma aula. chamei-lhe "Monólogo"...

As rosas viviam brancas por entre as folhas e arbustos. Uma rara brisa acariciava papoilas e passarinhos voavam tranquilamente. Havia no ar um vago som de uma flauta. Erecto, o corpo do jovem baloiçava-se ao som dessa música que nostalgiava. E as suas pernas azuis claras eram o pêndulo de um relógio calmo.
De repente, o som mágico parou. O corpo estava encostado a uma árvore, pacificado, sonolento. Não se apercebeu que, por detrás da colina, de onde provinha a melodia que cessara, uma pastora, que guardava seus rebanhos, gritava de desespero, tentando fugir à futura e terrível violação. Um homem de desejos possantes agarrou-a, roçou-se nela, forçando a sua interioridade e, satisfeito, abandonou-a dobrada sobre si, arrancando cabelos e a pele do ventre, que vem agarrada às roupas rasgadas.
Debaixo da árvore, as pernas azuis ganharam agilidade e o corpo anda. Era tão belo como uma maçã polida. Caminhou pela encosta, desce ao rio. Despiu a roupa e a sua brancura marmórea molhou-se. Nada, de costas, ainda, contemplando o mundo, como se tudo estivesse certo e o mundo fosse um lugar de coisas boas.

quarta-feira, novembro 23, 2005

vida pessoal

Pois é, grande pónei!
Eu a pensar que is recuperar alguma vida pessoal após o congresso e aulas assistidas... mas não, já chegaram os trabalhos do seminário, os testes dos miúdos (fazer, corrigir, matrizes, grelhas...), preparar visitas e actividades na escola, e coisas do género que só servem, bem no fundo, para nos dar cabo da cabeça... E quinta vou colaborar no encontro sobre Bocage, mas desta vez é apenas um apoio físico, não a apresentação de uma comunicação, como no congresso de lit. brasileira....
Ontem fui ao teatro: O Tio Vânia, no Teatro Carlos Alberto. Recomendo vivamente. E hoje vim ao blog. é esta a minha vida, que tristeza tão inútil estas mãos... Também tenho lido, as Ficções de Almada Negreiros são extradordinárias, agora ando com O Dia dos Prodígios de Lídia Jorge...

e pronto... vou fazer uma ficha sobre verbos para os meninos do 7.º ano...

sexta-feira, novembro 11, 2005

aula assistida

a primeira aula assistida até correu bem, os meninos foram queridos e colaboraram (até ao minuto 70, mais ou menos, depois começaram a dispersar...); eu estava à vontade, sabia muito sobre Caeiro, mas, claro, faltou-me um pouco a pedagogia: fazê-los chegar às coisas sem eu as dizer, manter a turma toda atenta e a seguir o raciocínio, diversificar tarefas... enfim, coisas a aprender com o tempo. o início foi fantástico: dois retroprojectores, nenhum funcionava! acho que foi por causa das tomadas, estava tudo estúpido, mas resolvi a questão mais ou menos. espero sinceramente que as vossas assistências corram como a minha (ou melhor!), que já não vão mal, acho eu! Boa sorte e bom trabalho!

terça-feira, novembro 08, 2005

gafes jornalísticas!!

os nosso broncos

Jornalista da RTP: É trágico! Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos! (trata-se de uma nova variedade de árvores...)

Um jornalista da TVI: "As chamas estavam a arder". (fantástico!!!)

Rodapé do Telejornal da Sic: O assassino matou 30 mortos. (era para ter a certeza que estavam bem>mortos...)

Jornalista da TVI: Foi assassinado, mas não se sabe se está morto. (e para se ter a certeza nada melhor que pedir ajuda ao assassino que matou 30 mortos!)

Uma jornalista da TVI: "Estão zero graus negativos." (ok)

Comentário de uma jornalista sobre o caso Aquaparque: "Os aquaparques têm feito, durante este ano, muitas vítimas, que o digam dois mortos registados este mês...". (em directo além!)

Lídia Moreno - Rádio voz de Arganil: Quatro hectares de trigo foram queimadas...Em princípio trata-se de um incêndio. (em princípio, pois até se pode tratar duma inundação...)

A meio de um relato de futebol: "Chega agora a informação...o jogador que há pouco saiu lesionado foi vítima de uma fractura craniana no joelho." (mais um caso raro na medicina!!!)

Numa notícia do jornal da noite, Manuela Moura Guedes ao dar uma notícia diz que "um morreu e outro está morto". (sem comentários...)

segunda-feira, outubro 31, 2005

dia das bruxas...


acho que não preciso de ir a festa nenhuma para as ver. tive seminário, só pensei no estágio, vi muita gente que, encobertamente, são bruxas, e verdadeiras!

Provérbios...

Quando demos os provérbios aos meninos do 7.º ano, fizemos um exercício com os provérbios desconstruídos por Mia Couto... aqui ficam alguns deles...

Provérbios – Versão Mia Couto


O arisco não petisca

Nem a água é mole nem a pedra é dura

O certo é sabido

Antes ao Sol que mal acompanhado!

Ele tinha mais freios que dentes

Pensar no nascimento da bezerra

Cão que ladra é porque tem medo de ser mordido

O prometido é de vidro

Já a formiga tem guitarra

quarta-feira, outubro 26, 2005

tão fofinho

pois é, su, tão lindo e tão fofinho... quase podia ter outro nome, tipo... ;)

segunda-feira, outubro 24, 2005

Notas de um estagiário de Português, para os outros estagiários seus colegas, amigos e simpatizantes.

Primeiro: isto não segue uma estrutra lógica ou organizada. É assim que o estágio nos deixa, às vezes. Isto é uma espécie de texto-coisa meio híbrido, sem planemamento nem revisão – ou seja, o oposto daquilo que ensinamos e defendemos como essencial nos trabalhos dos nossos alunos.


Segundo: estágio, nestes moldes actuais (2005/2006) é um grande pónei (vá, façam o gesto a acompanhar a expressão). Para já. Não há informações de parte nenhuma e cada orientador vai fazendo como quer, apalpando às escuras. E isto é como o sexo: há bons e maus guias de exploração do terreno. Só uma coisa é certa: não há remuneração nem subsídios para ninguém...

Terceiro: os colegas do núcleo foram, obviamente, escolhidos unanimamente de entre 21 candidatos ao lugar de parceiros de mim para o pseudo-trabalho...

Quarto: a escola é problemática, tem alunos difíceis, com dificuldades e necessidades óbvias. Mas há de tudo, como em todas as escolas. Mas é necessário destacar a nossa turma do sétimo ano onde todos os problemas se conjugam: não sabem ler, nem escrever, nem portar-se na sala,... de brinco na orelha, de boné – de um lado, ou umas peixeiras do outro lado, com a mania que sabem muito daquilo... e a média da idade ronda os catorze-quinze anos... (!)

Quinto: o trabalho, para já, tem sido do pior – mas já começa a ser reconhecido. Grande liberdade em relação ao sétimo ano, o que se traduz em criatividade, originalidade... mais trabalho. Sim, era muito mais fácil escolher os textos já sugeridos pelo programa e pronto...

Sexto: a gaivota entra pela janela. Mas também o gato. E as pombas. Meu Deus, parece um jardim zoológico, em que não faltam os camelos e os burros ;) Perto do mar é normal que tudo tenha uma outra vida – e o seu encanto especial.

Sétimo: reuniões estranhas, grandes palhaçadas. Mas salva-se a orientadora: tem jeito para a coisa (palavra que não deve ser usada, demasiado imprecisa e vaga, já dizia a nossa querida I.M.Du.).

Oitavo: e só não escrevo uma carta de expectativas porque há coisas mais importantes para fazer, tipo, discutir exercícios para explicar a diferença entre há e à (com acento grave, claro).

Nono: bem-vindos ao pior ano das nossas vidas. Ou talvez não...


(escrito na segunda semana de estágio...)

segunda-feira, outubro 17, 2005

carta a Alberto Caeiro (1.º trabalho de seminário)

Caro Alberto Caeiro,

Espero que a sua não-vida quase real lhe esteja a correr bem. E com isto apenas quero dizer que, apesar de toda a imaterialidade da sua existência, possa ainda andar pelos campos a ver a Natureza e conhecê-la pelo seu único lado: o de fora.
Escrevo-lhe porque preciso de dizer-lhe umas palavras de reconhecimento e, mais do que isso, de agradecimento.
Nascendo de um não-nascimento, é talvez a Pessoa que mais precisaria de ter nascido. E a sua morte de 1915, mais falsa que o seu nascimento inverdadeiro, foi uma perda irreparável para a poesia universal, que continua ainda a fazer-se de místicos que ouvem os rios terem êxtases ao luar, ou de formalistas que tentam descobrir duas árvores iguais, uma ao lado da outra, nem que para isso tenham de lhes cortar ramos, tirar alguns frutos ou tirar-lhes folhas.
Admiro-o, sobretudo, por essa visão de garça, de Atena atenta (que invejo e que às vezes finjo ter incorporada nas coisas que mal escrevo), tão patente na sua escrita. É uma escrita tão profundamente original que qualquer descuido se lhe perdoa logo. E não ligue aos comentários de um tal Fernando Pessoa, que acha que você escreve “mal o Português”. O que é o Português enquanto instrumento, quando a sua poesia é uma novidade tão fresca e saborosa? Uma língua com oitocentos anos, velha e carunchosa, não pode comportar tais versos sem a violação de algumas das suas regras…
Essa visão tão nova e especial das coisas será, talvez, fruto da sua não-vida passada numa quinta do Ribatejo – e se calhar, também, da sua instrução, que não passou da elementar. Quase dá vontade de dizer que a Natureza nunca foi apreendida por ninguém. Talvez o Alberto tenha sido o primeiro a ver o real sem a visão deturpada por medos que criaram uma série de construções filosóficas que tentam complicar a Natureza, quando, no fundo, ela é tão simples e natural como o levantar-se o vento. (Desculpe se me aproprio tanto das sua palavras, mas elas são tão exactas, apesar de tão simples, que não resisto a usá-las).
Mestre, também eu me comovo ao ler os seus versos. Uma comoção entre a nostalgia, a boa disposição e uma certa inveja: quantos poemas seus não gostaria eu de ter escrito! Fica a consolação de os ler e de serem também um pouco meus, quando os transporto na minha memória e os recordo, independentemente do lugar onde estou ou para onde vou. E por isso, por poder activar a sua visão das coisas em qualquer lugar, tenho só de lhe agradecer por esta nova perspectiva da eterna descoberta da novidade do mundo.
Deste seu imperfeito discípulo, um abraço para além da vida e da terra,

Tiago Aires

sexta-feira, outubro 14, 2005

Eva - conto

EVA

“Solidão de sozinho”
José Luandino Vieira, João Vêncio: os seus amores


Era de certeza uma árvore nova, nunca antes vista por ali. Folhas vermelhas, flores azuis. Que coisa do Diabo era aquela, nascida em ano de incertezas e estranhidades?
Era no jardim que a árvore estava. No jardim daquela mulher ainda nova, acabada de chegar, há quase um ano, à vila. Todos a adoravam por ser tão bela, tão gentil e tão generosa. Era uma abelha cheia de mel, diziam as mais novas da vila, que aprendiam com ela formas de fazer o enxoval mais perfeito – seus pontos diferentes, seus motivos inspirados e suas cores alegres e vivas nos bordados. Era uma mulher prendada, diriam; uma mulher primeira, orientadora das segundas, diria eu.
Era a Eva.
Eva gostava de neve, de flores na Primavera, do vento no fim do dia, do sol nas tardes passadas no jardim – comungava da Natureza-ela-toda, menos da chuva. A chuva era a tristeza mais triste, fazia uma pessoa sentir-se só de sozinha; nem consigo queria ficar. E dormia.
Ao fim desse recente ano de ensinanças e amizades, choveu muito. Era um ano de grossas gotas caindo sem fim, sem pausa, sem qualquer dormência ou preguiça. Eva dormia, bebia chá, andava pela casa, livro atrás de si, só. A chuva era tanta que as moças não se atreviam a percorrer o caminho para a sua casa, e mesmo que o fizessem, Eva não era a mesma para elas, porque nos seus olhos fundos azuis-esverdeados só se lia solidão… Mulher só em casa quando chove é como macaco fora do seu galho ou galinha sem grão para encher o papo. Mais valia só que a chover a potes, pensava ela. Mas isso era errado: se não chovesse, ela não estaria nunca só. Assim, a chover, não só estava só sem outros, como estava sozinha sem si.
O estar sozinha sempre suscitou sururu entre as pessoas da vila. As mais novas sabiam que ela era viúva (e todos na vila ficaram logo a saber também), daquelas viúvas de amores impossíveis e estranhos – o marido, morto, ficara perdido em Espanha, numa luta de políticos e gentes, que o apanhou desprevenido e o tornou mais um agredido-desaparecido. Morreu, lhe disseram. Mas ela nunca teve certezas claras, mas o escuro ensombrou seu destino. Por isso ela aceita a solidão de si em si, às vezes sem si, como se nada tivesse mais a esperar, a não ser que os dias de chuva passassem, porque foi num dia de chuva que Eva recebeu a notícia – “Morreu”.
Em sua casa as flores murcharam e não foram substituídas – jardim abandonado, as árvores cá fora ficaram sem flores e sem frutos. O piano foi fechado e vendido. O tempo andou e curou aos poucos a dor de uma perda por desaparecimento, sem corpo presente que confirmasse uma solidão eterna. E depois desapareceram as galinhas e os porcos, e até os cães e os gatos de raças ancestrais; as comidas luxuosas e arranjadas a preceito. Numa situação económica insustentável tudo se vende. Decide, Eva, fugir da sua terra – cortar o cordão umbilical por vezes é o melhor a ser feito. Fugir a todos que tentavam, de todas as maneiras, consolá-la da perda, perdendo-a com o desbaratamento dos seus bens, parcos já por falta de trabalho – não se tratava de mais nada. Cortara raízes e fora para sítio secreto, pequeno, onde não poderia ser encontrada facilmente por pretendentes e famílias que a quisessem (ou às suas parcas finanças que ainda poderiam fazer a felicidade de algumas pessoas).
Sim, pretendentes, porque Eva era nova, mulher que se procurava ainda para casar. Mas ela fechara-se em si e procurava apenas a sua sozinhidade, só quebrada, por vezes, pelas segundas, a que ensinava as suas coisas aprendidas antes, na sua meninice. Fugiu a pretendentes. Nova Penélope? Nem tanto, enquanto que Penélope nunca perdeu a esperança da vida de Ulisses – e da sua vinda, Eva não acreditava mais no regresso, porque também não acreditava na vida – acrente.
E nesse ano choveu tanto, tanto, tanto que nasceram culturas esquisitas. Num campo onde se plantaram feijões, nasceram os ditos cujos, mas também favas. No meio das cebolas nasceram batatas, no meio das batatas nasceram abóboras. Coisas não plantadas nesse ano surgiram, tal foi a saciedade dos campos férteis, abundantes de húmus. Campos revolvidos que deslocaram culturas de um lado para outro, tudo misturado e alterado, quase uma salada do mais natural possível.
E nasceram outras coisas, espécie de cruzamentos indisciplinados que levaram a novas coisas: morangamoras, peçãs, pessigos e tantas outras estranhezas que pareciam estrangeiras, como os frutos tropicais, aproveitadas logo para fazer saladas de frutas muito curiosas. E isto porque, culturas houve, que nasceram fora do tempo normal ou esperado.
Depois de toda aquela estranhitude frutífera, nasceu aquela estranhidade floral: uma árvore de folhas vermelhas e de flores azuis. Explicações não as havia, como as havia para as misturas de frutas. Dizia-se, primeiro, certezas nunca serão certas, que a árvore nascera das lágrimas de Eva, as folhas vermelhas do sangue derramado do seu marido, as flores azuis dos seus olhos sozinhos, porque o verde da esperança já secara. Um jovem cá da vila, que anda a estudar na cidade, explicou-nos que era coisa que podia acontecer, que as ciências podiam explicar, que era uma mistura de coisas que não percebi muito bem… Mas o povo também não percebeu e não se deixou convencer, foi juntando dois mais dois e deu a soma: tudo o que de estranho nascera só tinha aparecido depois da chegada de Eva! De filha do amor e saudade de Eva pelo marido, a nova árvore passou a ser vista como um qualquer tipo de manifestação do Diabo…
Já o Sol vigorava nas ruas da vila, mas, as moças, proibidas, já não visitavam Eva para aprender coisas úteis no lar. Eva consumia os seus dias entre as tardes no jardim ao sol, com um livro atrás de si. À noite bebia chá, dormia, ou olhava a arvora estranha. Assim, sem chuva, a solidão de Eva via-se melhor, iluminada e límpida, sozinha sem si.
Há quem diga, eu não vi nem sei, que um dia nasceu uma maçã preta na árvore, e Eva, como a outra, a das escrituras, comeu-a, sentiu-se nua e desapareceu da vila. O certo é que nada se encontrou em sua casa e a árvore foi cortada, apesar de me parecer que ela está a rebentar, de novo…

Braga


E assim foi o fim-de-semana em Braga: divertido, cansativo, com muito chocolate ("Charlie e a Fábrica de Chocolate" foi o filme que estivemos a ver até às quatro da amnhã...) e...
Valeu a pena. Celebrar o aniversário da madrinha vale sempre a pena!

(o quadro atrás de mim é uma pintura da mãe da Milai! - A Gaivota entra pela janela!)

sexta-feira, outubro 07, 2005

como se a nostalgia ou uma espécie de saudade pudessem existir...

Durius Dulcis

Depois que me senti envelhecer,
Passo horas e horas no meu lar,
De janela em janela, a espreitar
O breve mundo que me viu nascer.

Tem montes que não deixam de crescer,
Videiras que ninguém pode contar,
Oliveiras que vivem a rezar
E um rio que não para de correr.

Este pedaço de viril beleza,
Este painel de rica natureza
Irá comigo para o Além.

Sempre lhe quis e sempre o defendi,
Fui eu até que um dia o descobri...
Não o posso deixar a mais ninguém.

João de Araújo Correia

Poiares, outra vez

Para conhecerem alguma coisa da minha "santa terrinha", aqui fica o endereço da página do meu primo Nuno. Tem alguns erros, mas a intenção é o que conta.

http://sweet.ua.pt/~isca5667/aldeia.htm

segunda-feira, outubro 03, 2005

Tulisses III

Não apanhes sol.
não se devem apanhar as coisas de Deus.

(caloiro)

quarta-feira, setembro 21, 2005

estágio

e pronto, começou o estágio.
Ontem dei (demos) a primeira aula à turma do 7.º ano. até correu bem... amanhã: as duas turmas do 12.º ano (eu vou dar o Modernismo!!!!) e depois a do 7.º (teste diagnóstico e visita à biblioteca).
Deixo-vos um desenho de um dos senhores do modernismo português, Almada Negreiros (my lord, um grande mete nojo porque foi um dos artistas mais versáteis e completos...). o desenho até tem a ver com tudo: curso, estágio... ou talvez não...

quarta-feira, setembro 07, 2005

Gatos, again

Poema do Gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão

pois éééééé


esta é a campanha de publicidade mais bem bem conseguida na FLUP. é verdade! depois disto ninguém vai poder beber outra marca de água....
;)

domingo, setembro 04, 2005

frase para outros.. alguém há-de entender...

“Não lhe chamava amor, mas percebia que se virava inteiramente para ele, como há flores que se viram para o sol e mais não fazem que o acompanhar.”

Lillias Fraser, de Hélia Correia
Verdadeiro Génesis

Deus plantou um jardim
E nele colocou o Amor.

Ao vê-lo só decidiu dar-lhe
Companhia feminina: a Amora.

Estavam nus mas não tinham vergonha.
Tenho na banheira um pouco de mar.
Aqui
Posso ser estrela, alga ou peixe
Ou simples areia.

tormes 2005




(fotos:
1-feq
2-piscina da quinta
3-vista da casa da ermida)

Tormes 2005

Pois aqui fica o comentário a uma semana muito boa… podia ter sido melhor… ao lerem percebem porquê…

Domingo: cheguei à Ermida às 9:42, vindo da Régua. A Marta chegou um minuto depois, vinda do Porto. Com ela vinha a Filipa, de Setúbal (Uni Évora). Conhecemos algum do pessoal e não deu para ver quase nada da quinta… O meu colega de quarto era o Manuel, professor-estudante caboverdeano, muito divertido. O meu quarto era bastante grande, ao contrário de outros…
A quinta é muito gira! Grande jardim, piscina, o rio de um lado, as linhas do comboio do outro, a casa dos moinhos do rio Teixeira :), a casa do Túnel,…

Segunda-feira: o pequeno almoço era servido às 8:15, às 9h estávamos no autocarro, às 9h30 estávamos na Fundação, após um agitado percurso pelo “pavimento degradado” (assim rezavam as placas da estrada).
A Fundação está sediada na antiga casa que a mulher de Eça recebeu de herança. Eça não chegou a viver lá, só passou por lá algum tempo, a ver o estado da quinta (que era muito mau…). Agora está fantástica: a quinta produz o Vinho de Tormes, os lagares: de um lado foram transformados na loja de recordações, do outro foram transformados num pequeno auditório e na fundação em si. A casa foi mobilada com coisas vindas da casa de Eça em Paris, pouco do lá estava era da própria casa.
Sessões de trabalho: das 9h30-11h00, 11h30-13h00; 15h00-17h00.
No primeiro dia a Professora Beatriz Berrini (Brasil) falou-nos de A Relíquia e deu-nos uma panorâmica geral sobre a obra de Eça. De tarde a Dª Maria do Carmo, a mulher do falecido filho de Eça, e presidente da fundação, leu um artigo de Helena Cidade Moura sobre a cidadania na obra do autor; vimos um filme sobre ele (o pessoal quase todo a dormir), visitámos a casa.
À noite fomos jantar à Casa do Lavrador: jantar à século XIX: arroz de feijão com pataniscas de bacalhau e leite-creme de sobremesa. Todos adoraram o menu e o sítio, que tinha uma espécie de pequeno museu, e candelabros (não havia electricidade, nem lavatório – tinha de ser um com um jarro, e as casa de banho é melhor nem comentar…).
Altas conversas com a Marta, Manuel, Ana (Covilhã, Uni Lisboa) Paula e Cláudia (as manas dos Açores)…

Terça-feira: De manhã: Beatriz Berrini a falar de A Relíquia (o pessoal desesperou um bocado…). Fizemos um trabalho de grupo sobre o primeiro capítulo da obra. De tarde foi a Professora Fátima Outeirinho (Univ. Porto), que nos falou do Eça cronista – muito bom!
Na quinta, alguns foram à piscina – mas esteve um tempo ranhoso durante o curso! Eu, a Marta e o Robert (EUA) fomos em demanda :) dos moinhos do rio Teixeira e só encontramos franceses… Grande noite de cantorias dos brasileiros e dos caboverdeanos. Altas conversas até tarde: eu, Marta, Ana.

Quarta-feira: a manhã foi de… Beatriz Berrini! O Quixotesco e o Pícaro em… A Relíquia! De tarde concluímos o Eça Cronista.
Tivemos também um passeio por St.ª Maria de Cárquede e por Resende, onde jantamos (o vinho, meu Deus, era da Quinta do Carqueijal, produzido e embalado na Quinta da Seara d’Ordens – Poiares!); vimos também uma exposição de fotografia. Choveu bastante. Altas conversas, agora mesmo a sério, até altas horas, no quarto da Marta, entre nós, o Manuel, a Cláudia e a Paula.

Quinta-feira: a recepção de A Relíquia, pela professora Beatriz Berrini e ainda um pouco de A Ilustre Casa de Ramires. De tarde, Maria João Reynaud falou sobre “No Moinho”. (r. b. pelo menos seis vezes…). Falou muito comigo antes da sessão… Adormecidos: dez pessoas, incluindo a Dª Maria da Graça; foi hilariante!!!
Tivemos depois uma visita a Baião. Fomos a uma Feira de Artesanato onde praticamente só havia comida e vinho… Vi o Ricardo, um colega meu da Residência e da FLUP… Jantámos lá, e fomos surpreendidos por um trio popular: acordeão, ferrinhos: o delírio ver caboverdeanos, brasileiros e a indiana a dançar aquilo…
Já na quinta, grande loucura a última noite: invasão dos quartos do pessoal, cantorias cá fora, agora também em Português Europeu.

Sexta-feira: A Professora Fátima Marinho falou-nos de A Ilustre Casa de Ramires, sobre o dandismo e um pouquinho sobre o conto “A Perfeição”. A Prof. Reynaud e a Prof. Marinho foram substituir a Professora Isabel Margarida Duarte, que ficou doente:(
Fomos levar o pessoal ao comboio das três e meia para o Porto, alguns deles ainda tiveram coragem para comprar cavacas de Resende (comíamos aquilo todos os dias ao pequeno-almoço!). Às quatro e meia fui eu apanhar o comboio para a Régua. As açoreanas foram comigo, mais a Rita (Univ. do Algarve) e a Manju (Índia – a fazer uma tese sobre Saramago!)…

Tenho ainda de referir as pessoas do curso, que me ensinaram coisas e me marcaram: Ana Varela (S. Tomé), Rebecca (EUA), Lúcia (Brasil, a estudar agora na Uni Porto), a Da Luz (Cabo Verde), Fátima (Brasil), Sara (Braga), Manuel (Cabo Verde), Manju (Índia), Robert (EUA), Telma (Coimbra)… enfim…

em especial: Filipa, Paula, Ana Sofia e a minha Martinha…

Marisa, numa aula de teoria

Um operário está a construir um muro em Angola. Tem quatro tijolos, 2 partiram-se. Quantas pauladas vai apanhar do patrão?

(numa aula de teoria, a partir de um exemplo matemático pouco feliz de uma das docentes, abrilhantado pela marisa)

Doutoramentos honoris causa...um dia também vou ter!!!!


Eu, entre os grandes…

Foi dia 22 de Março que eu tive a honra de… estar três horas com um livro, uma medalha, um canudo com diploma, um anel… que serviram de insígnias para Agustina Bessa-Luís… Foi muito interessante ver a sessão dentro dela, ou seja, no palco em que tudo se passou, e mais do que isso, participar nela!

A Universidade do Porto (UP) procedeu ontem, dia do seu 94.º aniversário, ao doutoramento honoris causa de Eugénio de Andrade e Agustina Bessa-Luís, duas das mais importantes figuras da literatura portuguesa. Por motivos de saúde, nem o autor de As Mãos e os Frutos nem Eduardo Lourenço, designado para seu padrinho, puderam comparecer à cerimónia, no Salão Nobre da Faculdade de Ciências do Porto.
Mais importante ainda, estavam lá: J. C. Mir, I.M.Dr., Mlt, M.L.Smp… E Constantina, Marta, Diana, Nelson, Helena, Natália, Bárbara,… Foto de: Hêrnani Pereira

montalegre 2005 (foi tarde, mas veio)







(Fotos - da marta:
1- a lojinha favorita...
2- pitões das júnias
3- mosteiro em pitões das júnias
4- o castelo de montalegre)

Eu, Su, Marta, Marisa e Herberto em direcção ao norte extremo do país, à terra do Manelinho – Montalegre. Uma espécie de viagem de finalistas…

De tudo o que se viveu por lá, há a recordar:
.o Saxo a perder-se na Senhora da Hora;
.as técnicas de desenjoo da Marisa (batatas fritas de presunto com coca-cola);
.a mala que quase não fechava…
.a cozinha com a lareira que nos pôs pior que presuntos;
.a dentadura, os enfeites de natal…
.o café do castelo completamente vazio à meia-noite;
.Pictionary, Trivial e coisas do género até às tantas da madrugada;
.as lojas, sobretudo: Padaria-Talho-Supermercado Nova Era e o café simpático cheio de pinturas (e do qual saímos às dez horas da noite, já cansados!)
.o castelo, as vistas, a junta de bois, a fonte da mijreta ( e a aventura para lá chegar…);
.a terrível feira do cabrito, e o interessante Licor Levanta o Pau;
.Pitões das Júnias, a chuva a bater em cima de nós durante horas, enquanto a Su dormia no saxo, em frente a um cemitério… Muito bonito o mosteiro!
.a fantástica estação: Rádio Montalegreeeeeeeeeeeeeeeeeeee;
.o pic-nic no saxo, a chuva ali ao lado, o Manelinho parado a olhar para as plantinhas…
.os poemas e as leituras interessantes;

.Pois ééééééé…

segunda-feira, agosto 22, 2005

hoje é o dia do mar

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

olá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

pois, sou eu de volta ,mas por pouco tempo.
tenho imensa coisa para escrever aqui, mas não consegui ainda.
além disso, as férias não dão para nada: ler (muito), nadar, apanhar algum sol, cantar mariza, andar com os primos de uma lado para o outro,...

........................namorar......................
ou não...
e pronto.

até um dia destes

sexta-feira, julho 22, 2005

livros para as férias

0-A Criança no Tempo, Ian McEwan
1-Um Verão Assim, Mário Cláudio
2-Morreste-me, José Luís Peixoto
3-Anne Karenine, Tolstoi
4-O Jovem Torless, Robert Musil
5-No Antigamente, na Vida, José Luandino Vieira
6-A Terceira Rosa, Manuel Alegre
7-Cem Anos de Solidão, G. G. Márquez
8-O Manual dos Inquisidores, A. L. Antunes
9-O Jogador, Dostoievski
10-Antigas e Novas Andanças do Demónio, Jorge de Sena
11-O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
12-Ulisses, James Joyce
13-Rosa do Mundo (continuar...)

quarta-feira, julho 20, 2005

Tormes

e pronto! eu e a martinha vamos para Tormes!!! cinco dias de grande animação, de muito douro, de gente interessante, de reflexões sobre Eça de Queiroz, de.... enfim, uma semana de férias que se avizinha prometedoramente interessante.

quem organiza o evento, este ano, é a nossa professora de MEP, por isso vai ser engraçado, de certeza absoluta. o programa não aparece ainda na net, só surge o do ano passado (no qual colaborou o Pedro Eiras!), e ainda não temos muitas indicações, a não ser que os livros em foco serão A Relíquia e Os Contos.

roam-se de inveja e vão ver o site: www.feq.pt

como gastar 150euros na fnac??????????

Pois é, foi premiado no concurso literário da associação da faculdade de letras da univ. porto. segundo lugar (e único, já que não atribuíram primeiro nem terceiro) na categoria de ensaio! o meu "As Santas do Corpo", escrito em cinco dias a correr e aos tombos, põe em confronto Raul Brandão e Natália Correia (bem, na verdade põe em confronto duas personagens: Santa Eponina e Santa Melânia, uma de cada um dos escritores, respectivamente). rendeu-me uma interessante quantia... na verdade só vou receber o prémio no início do próximo ano lectivo, mas as dúvidas já começam: em que gastar o dinheiro? o que comprar? claro que há imensos livros que eu quero comprar, mas muitos deles encontro-os mais baratos noutros sítios, tipo feiras e, e os livros da ASA ainda se encontram muito baratos naquela famosa livraria na trinta e um de janeiro, perto de s. bento. um livro obrigatório é a "Obra Completa"de António Gedeão (29,70euros)... mas ainda temos a Sophia (faltam-me os contos), o Mia Couto, a poesia da Natália Correia, do Alexandre O'Neill, do Al Berto... e alguns livros pedagógicos ou coisas parecidas que podem ser pedidos e (que até podem ser úteis) durante o estágio... o problema não é tanto como gastar, mas como ter dinheiro para tudo isto? vai ser uma luta extraordinária decidir o que comprar e o que deixar nas prateleiras até um outro dia mais tarde... é um dilema interessante, mas porque raio não fiquei logo em primeiro, davam-me o computador e eu não tinha de pensar de mais???

segunda-feira, julho 18, 2005

e pronto. as listas ainda não passaram a definitivas e cinquenta mil coisas podem acontecer mas... Eu, a Marta e a Susana estamos juntos num núcleo de estágio fantástico, na escola Es/3 Boa Nova, em Leça da Palmeira. uma escola muito boa, a melhor para Estudos Portugueses, segundo gente informada diz... é ao pé da praia e tudo. e pronto.

Diana Krall - as letras de duas músicas muito... ;)



"Maybe You'll Be There"
(in: The Look Of Love)

Each time I see a crowd of people
Just like a fool I stop and stare
It's really not the proper thing to do
But maybe you'll be there
I go out walking after midnight
Along the lonely thoroughfare
It's not the time or place
To look for you
But maybe you'll be there
You said your arms would always hold me
You said you lips were mine alone to kiss
Now after all those things you told me
How can it end like this
Someday if all my prayers are answered
I'll hear a footstep on the stair
With anxious heart
I'll hurry to the door
And maybe you'll
Be there


Narrow daylight
(in: The Girl In The Other Room)

Narrow daylight entered my room
Shining hours were brief
Winter is over
Summer is near
Are we stronger than we believe?

I walked through halls of reputation
Among the infamous too
As the camera clings to the common thread
Beyond all vanity
Into a gaze to shoot you through

Is the kindness we count upon
Hidden in everyone?

I stepped out in a sunlit grove
Although deep down I wished it would rain
Washing away all the sadness and tears
That will never fall so heavily again

Is the kindness we count upon
Is hidden in everyone

I stood there in the salt spray air
Felt wind sweeping over my face
I ran up through the rocks to the old
Wooden cross
It´s a place where I can find some peace

Narrow daylight entered my room
Shining hours were brief
Winter is over
Summer is near
Are we stronger than we believe?

segunda-feira, julho 11, 2005


(imagem retirada de uma site chamado "rasganço", de uma tal Raquel Lima...)

Pois é, as "minhas meninas lindas" prepararam-me a maior surpresa da minha vida! foi lindo vê-las a cantar à minha varanda numa actuação privada (também lá estava a consti e a marta. e lá ao fundo o tozé e o rafa...) e fantástica, como sempre. Cantaram "Filhas da Madrugada", "Ai Faculdade" e "Serenata ao Douro" (a minha favorita, que elas me dedicaram quando fui ver a primeira actuação delas, no sarau da Faculdade de Psicologia).

Pela surpresa fantástica, muito obrigado! Vocês são as melhores, a melhor tuna que conheço! E não é só por serem da Faculdade de Letras, é também por serem muito divertidas, terem uma presença original em palco, e por inovarem (coreografias, músicas...) e por comporem as vossas próprias músicas, e por se divertirem o máximo que podem, e por tudo!

Muito obrigado por estes quatro anos de boas (MT BOAS) actuações! Desejo o melhor do mundo e que o lema das "Serenatas a ninguém" continue a marcar inegualavelmente o vosso percurso ad aeternum.

Obrigado também à consti e à marta por me terem convencido a ficar até mais tarde... tolas... e pela noite interessante de passeio de carro, a falar sobre vinhos, que acabou com os gelados no Capa Negra II...

Bjs a todas!

sexta-feira, julho 08, 2005

frases inspiradoras, ou não, dos nossos mestres

"aquilo que escrevemos é uma imaginação daquilo que somos"
Mlt.

"A literatura é como um elástico"
Ma. Ra.

"A literatura é um encontro entre duas almas"
Ar. Sar.

"só rotulamos bem quando conhecemos mal"
Mlt.

Calinadas, again... enjoy;)

quão mau é eu estar de férias :) e continuar agarrado à net, ao blog? é mesmo de quem não tem vida própria...

descobri umas coisas que queria partilhar... São uns apanhados das aulas da minha professora de História do 12.º ano, que era uma querida mas que dava muitas calinadas... Isto só prova que a minha actividade de registo de calinadas não é assim tão recnete...


"1840 - a Europa é o país mais povoado"
"reivindicam direitos a que têm direito"
"Petrogado"
"passam a trabalhar 40 horas de trabalho"
"ambos os três mais um"
"um homem não tem na mão cinco dedos, só se for deficiente" (sobre Guernica, Picasso)
"aqui têm de dizer também quem foram as primeiras mulhertes do mundo" (sobre uma questão de um exame acerca das sufragistas)
"as perspectivas parecem avenças ao mesmo tempo que parecem avançar" (sobre a pintura Atelier de Vieira da Silva)
"U.R.R.S.S."
"vejam, pro exemplo, o caso daquele caso"
"vemos no mapa os países da NATO e os países da OTAN"
"a chamada questão da... ou melhor, a questã alemã"
"vou-vos perguntar uma pergunta sobre como começou a guerra-fria"
"é necessário planear um plano"
"os EUA benificiaram com a guera"
"o Estrado-Providência"
"como vocês vimos..."
"Na Angola, os animais que estão no governo são uns autênticos animais"
"clima de guerra frio"
"Berlim é um país independente"
"o continente americano continua a ser um país"
"Pretendendo que o CHIFRE fosse confiado à Grécia"
"isto é já depois da segunda guerra mundial" (acerca de uma questão de exame em que os anos em questão eram 1920-1928)
"colónias - ex-colónias - paises independentes" (escrito no quadro)
"o comunismo acaba quando se vai acabar o muro de Berlim"
"iam para África, para fugirem à rega"
"o petróleo é o resultado do plástico"
"a reforma agrarária"

"os EUA fecharam a torneirinha"
"vamos acabar com a matéria e falar do Zé Cabra"
"algum dia a U.R.S.S. andou à batada com os EUA?"
"penetrar é a palavra-chave"
"quem faz parte desta seca?" (C.E.C.A.)
"é tudo uma questão de p...." (acerca da situação de tiroteio na Régua)

férias, finalmente

depois de um humorístico exame de Literatura Brasileira IV (que mais poderei chamar à palhaçada de questões que saíram?), posso finalmente dizer: estou de férias!!!!
ou talvez não, até porque ainda não saiu o raio da lista das escolas para o estágio e enquanto não saírem vamos ter de continuar a encontrar-nos por cá, de vez enquando (leia-se: todos os dias), sequiosos por saber que edifício vai ter a honra de nos acolher (e mais à nossa sabedoria) durante o próximo ano... Entretanto, vamos tendo uma visão do que nos espera lá, já que a nossa faculdade sofre todos os dias o arrastão chamado "universidade júnior"...

o sol brilha (estranho, por causa do fogo), o mar ondeia (mas com um cheiro grotesco), e até os autocarros avançam (com suas greves frequentes) e todos nos convidam às férias... em casa!
Anne Karenine vai ser uma óptima companhia para os próximos dias, logo depois de Antes do Baile Verde.

e por aí afora, pássaros voam, enquanto algumas pessoas bordam ;)!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quinta-feira, julho 07, 2005

Poiares







a minha linda aldeia já está na net. aqui ficam algumas fotos de algumas coisas que podem encontrar por lá, se algum dia lá quiserem ir visitar-me...
1.ª foto: as nossas armas
2.ª foto: vista sobre o Colégio Salesiano de Poiares
3.ª foto: umas casas da rua principal (perto da minha)
4.ª foto: vista lá da zona...

"o mar entra pela janela"




ora aí está uma coisa parecida:

"De manhã, deitado, ouvi o mar por detrás da porta. as ondas
rebentavam contra o primeiro andar, as algas acumulavam-se
no patamar e no quarto."

excerto de um poema de Nuno Júdice

poema de aniversário para a MIM

desejo que os teus dias tenham espuma
e que as tardes, uma a uma,
te tragam sempre como pela primeira vez,
e que as ondas brancas tombem
sobre o teu corpo vestido de nudez.

talvez...


"Sentia-se triste como uma casa sem móveis."

Flaubert, Madame Bovary

terça-feira, julho 05, 2005

3 Poemas de Mia Couto

(Escre)ver-me
Nunca escrevi
sou
Apenas um tradutor de silêncios

A vida
Tatuou-me nos olhos
Janelas

Sou
Um soldado
Que se apaixona
Pelo inimigo que vai matar!

Fevereiro de 1985 – in Raiz de Orvalho

*

Tinha tanto...

Tinha tanto medo de solidão
que nem espantava as moscas

(inédito)
*

a cidade...

A cidade emagrece no osso da criança.
A fome nos deixa a boca deserta
Tudo está morto,
falta morrer o cemitério.

(inédito)

quinta-feira, junho 30, 2005

imagens, imagens, imagens.


e pronto, é só para dizer que já sei por imagens no blog, por isso, preparem-se!

Estudos Portugueses: Comunicado!



Pois ééééééé! É real! Acabei o curso, e com duas grandes notas finais: Teoria da Literatura II - 17, Literaturas Africanas em Língua Portuguesa IV - 18.

a todos os meninos e meninas que estiveram comigo nestes quatro anos de curso (do CURSO), o meu muito obrigado por tudo, além do desejo de muitas felicidades e sucesso, pois fomos (e somos) uma turma espectacular que merece tudo do melhor.

aos que vão para estágio: boa sorte e bom trabalho.
aos que ficam mais um tempinho: está quase, força!
aos indecisos: decidam-se com cabecinha
aos que não cabem nestas categorias: get a life!

Bjinhos e abraços e até sempre!

O logoteta

(Foto de Milai Laranja)

A prenda tão esperada. Uma tarde inesquecível em que as estórias se confundiram com as vidas de cada um de nós, porque José Luandino Vieira já faz parte das nossas vidas (pelo menos, das nossas estantes).

E porque as palavras não chegam, e não saem tão perfeitas como as dele, ficam apenas as lembranças desta tarde, que, só por acaso, não começou à "hora das quatro horas"... Quem lá esteve sabe do que não falo, quem não esteve é capaz de imaginar...

Tributo



















"parece-me por vezes ver o mundo às avessas, esperando que, ainda assim, ele permaneça com a possibilidade de nele encontrar beleza."
Mlt.

e foi ela quem nos ensinou a ver o mundo de outra maneira, não através dos olhos dos poetas, mas através dos nossos próprios olhos, poetizados.