sexta-feira, setembro 08, 2006

Iniciação


Era sempre depois do banho que a sua vertente lúbrica se inflamava. No quarto, ao vestir-se, inventava uma série de histórias, e personagens malucas que o impediam de vestir-se e lhe faziam coisas indecentes. E terá sido numa dessas alturas que, ao comprimir-se contra uma almofada pequena, terá sentido o prazer e a dor de ejacular pela primeira vez, ainda sem saber muito bem o que era aquilo.
E foi aos poucos ganhando a consciência de todo um mundo dominado pela tentação do sexo. Sabia mais ou menos o que era. Um primo, estranhamente até era mais novo, já lhe tinha dito para que serviam todas as coisas de que ninguém falava à sua frente, mas sempre se considerara acima de qualquer acto de nojo como aquele, admitindo para si e para os colegas de brincadeira que seria um celibtário ou lá como se dizia. Claro que não era só nojice, mas sim a ignorância de como as coisas se faziam e quando as poderia começar a fazer. E perante uns colegas tão estranhamente precoces, que afirmavam ter-se já iniciado sozinhos na descoberta de alguns prazeres proibidos, embora ainda sem a presença de uma rapariga, sempre sozinhos, no interior dos seus quartos, António achou que seria interessante experimentar, embora sem saber muito bem como o fazer. Os filmes que passavam na televisão ajudavam a imaginar, e era pela imaginação que inventava as histórias com as personagens malucas que o impediam de vestir-se e que lhe faziam coisas indecentes. Quem o ensinou a manobrar o instrumento foi um colega de escola, no balneário, depois de uma aula de Educação Física. Perante a demonstração descomplexada, António reagiu dualmente, não conseguindo imediatamente decidir-se entre a proibição de um acto tão condenável e a atenção suspensa de tentativa de aprendizagem para poder repetir mais tarde, no sossego do seu quarto.
À noite, no quarto, imitou o colega, sem grande êxito, porque uma dor imensa não lhe permitia puxar a pele como o Nuno fazia. Um pouco desiludido e envergonhado, apagou a luz e deitou-se. Escusado será dizer que acordou com a sensação estranha de alívio molhado que caracteriza os sonhos eróticos. E nessa tarde, à vinda para casa, o Nuno quis saber se já experimentara e como fora. E aconselhou-o a imaginar coisas, a lembrar-se daquelas cenas dos filmes e das novelas, das raparigas. E nem precisava de forçar, de puxar muito. Com o tempo aquilo ía ao sítio.
Não foi nessa noite nem nas seguintes, António não queria experimentar e dizia que queria ser como os padres. Mas nesse fim-de-semana uma visualização fê-lo mudar de ideias e voltar a ter os seus pensamentos lúbricos. Ouvira, no jantar, a Mãe falar dos novos vizinhos do lado, um casal que estava a tentar engravidar e que tinha vindo passar uns dias à aldeia. E agora, ao ir fechar as janelas do seu quarto, viu, na janela da casa ao lado, um homem nu por cima de uma mulher, ambos com uma expressão de dor intensa, sem conseguirem soltar-se. Sentiu subitamente o latejar do seu membro ficando erecto, ajoelhou-se, sem desfitar a janela da casa e começou devagarinho a experiência, até quase berrar perante a sensação de prazer que o invadira.
Foi assim que começou, a pouco e pouco, a explorar os mistérios do seu corpo e a sua sexualidade. E continuou o trajecto de várias formas, sempre secretamente,
Uma tarde, na altura em que os livros que tinha já tinham sido relidos, foi à estante dos livros dos pais, onde já só restavam as enciclopédias ilustradas e os livros de culinária, pretos, com pratos tão estranhos que a Mãe nunca fizera nenhuma receita por eles, e alguns livros de capas grossas e letras doiradas. Um dos livros que achou por bem ler foi Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. Com um título daqueles só poderia ter sexo. E tinha, encoberto. Copiou todas as passagens que achava excitantes para um caderninho preto que escondia atrás dos seus livros de escola, deliciado por possuir secretamente as provas da sua própria ousadia.
Mas não chegou. Sabendo que havia mais livros em casa, foi procura-los na caixa que o pai guardara debaixo da mesa do telefone, pois, como ele dizia, já eram livros velhos e a Mãe concordava, dizendo que só estavam a enfeiar a casa. Na caixa, agora aberta, estavam romances, claro. E no fundo da caixa, alguns com capas e títulos indiciadores do seu conteúdo. Fascinado, retirou apenas esses, sabendo que do risco que corria, e escondeu-os no guarda-fatos. À noite, antes de dormir, lia sempre um bocado, às escondidas, e acordava sempre transtornado com os sonhos que tais personagens e histórias. E ia copiando as passagens mais impressionantes, o que envolvia uma dificuldade enorme de selecção, pois o sexo estava página sim página sim nesses livros.
Foi também por essa altura que o pai lhe ofereceu uma televisão velha para pôr no seu quarto. Sextas-feiras à noite, aos poucos, foi vendo séries, programas, filmes que já não o elucidavam mas que o incendiavam. E começou então a sua monumental obra. Não, não escreveu um romance erótico baseado nas suas experiências platónicas de observador nem se tornou um Don Juan. Tinha já, na altura, uns catorze anos quando, num veio de inspiração, começou a fazer uma revista. No início não sabia muito o que fazer, como, mas começou por dobrar uma série de folhas A4 a meio, agrafou-as no meio e deu-lhe um nome: Sex, em inglês, sempre era mais universal (claro que essa revista era só dele, para ele, ninguém sabia da sua existência). Na capa teria de pôr uma fotografia e algumas frases, como as revistas que a Mãe comprava todas as semanas, ou a irmã mais velha, que agora tinha a mania de comprar uma certa revista que falava de todos os ídolos das raparigas na idade parvinha da adolescência. Aliás, foi a ver essas revistas teve a ideia e começou a recolher material. Todas as sextas a Mãe deitava a revista no caixote do lixo, todos os sábados, António levantava-se mais cedo e rasgava as folhas que lhe interessavam e deixava a revista como se intacta estivesse, para ninguém desconfiar. Nas revistas da irmã nunca se atreveu a tocar, até inventar um pequeno acidente com a caixa em que ela as guardava, deitando-lhe fogo, mas tendo já antes retirado tudo o que lhe interessava.
A construção das revistas foi-se tornando uma obsessão sem precedentes na sua vida. Fazia quatro por ano, com cerca de trinta páginas cada. E ao todo fez doze. A recolha feita era nas revistas, nos jornais, nos catálogos de roupa que a Mãe recebia, mas também nas revistas diferentes das da Mãe que a avó comprava, e, qual arca dos tesouros, algumas revistas para adultos que um tio guardava escondidas no guarda-fatos, mas desde que ele fora trabalhar para França, sem data para regressar, faziam as delícias de António.
Era à noite que António trabalhava nas suas revistas. À luz do candeeiro, em frente à janela onde vira o jovem casal que queria engravidar. O afinco que colocava no trabalho seria facilmente provado se pudéssemos ver qualquer um desses exemplares únicos, escritos à mão e com fotografias coladas com fita-cola nas pontas. Escolhendo uma ao acaso, a número sete, tem na capa uma foto de uma mulher sorridente com uma camisa meia transparente e um homem à sua frente, a olhar para ela, em tronco nu. Segue-se um índice e depois vários artigos: “O Beijo ao longo dos tempos” (provavelmente retirado de uma das tais revistas para donas de casa…), uma entrevista com um actor português que participou numa novela brasileira e que terá feito umas cenas quentes, outro artigo chamado “Filmes Proibidos (continuação)”, ilustrado com fotografias de O Império dos Sentidos e outros, segue-se ainda um desdobrável de roupa interior masculina e feminina encimado por uma nota: “Extra”, e depois páginas inteiras de revistas recortadas e coladas falando de “Sexo criativo”, “Sou louco por louras”. Por fim, após algumas páginas de excertos dos livros que já havia lido, ele próprio escreveu dois “Contos Eróticos”, terminando a revista com um elucidativo “Na Próxima Revista”. É interessante ler os seus contos. O primeiro chama-se “A Primeira vez” e é a história de uma mulher que passeia por um jardim e que é possuída por um desconhecido numa ponte. Mas a história evolui para uma relação matrimonial, para menáges e outras trapalhadas que acabam em bem para todos. O outro conto chama-se “A Festa de Aniversário” e conta a história de uma mulher que faz anos e que durante a festa seduz o pianista da festa, acabando por “conduzi-lo para a cozinha”, onde ele acaba por “atirar-se a ela, despindo-a e despindo-se a si próprio também” e o resto que se adivinha.
Seria inútil descrever ainda a quantidade de brindes que as revistas oferecem: livro com filmes aconselhados, cartas com fotos de artistas nus, etc.
Poder-nos-á parecer estranho tanto homem e tanta mulher. De facto, a revista não faz distinção sobre o público, que era apenas ele. Talvez lhe interessasse o sexo no seu pleno e não apenas um dos seus intervenientes…
Depois de tudo isto, resta talvez dizer que o António morreu aos vinte anos, num acidente de viação. Ao arrumarem o seu quarto, descobriram uma caixa que dizia: ao Nuno. Entregaram-ma ontem e hoje e todos os segredos de António, as revistas, o caderninho preto e o seu diário, onde estão todas as informações que aqui apresentei, acabaram por ser reveladas. Ou talvez não. Nem todas. Mas a quem interessam as verdades quando toda a gente as tenta esconder?
Maio de 2006

Tormes 2006







jantar na Casa do Lavrador
"gato psicótico" - exposição
vista sobre a casa da Lagariça - que inspirou A Ilustre Casa de Ramires
vista da janela da capela da feq (devia estar na vertical...)

Com alguma sorte consegui novamente ser bolseiro para o Curso Internacional - Seminário Queirosiano: “Eça de Quiroz: como da crónica nasce a ficção”.

Domingo – 23 de Julho

Cheguei à estação da Ermida às 7:33. na estação vazia conheci a primeira amiga tórmica deste ano: a Catarina (Leiria, Univ. de Lisboa), amiga da Sofia (do ano passado). À chegada encontrámos já algumas pessoas na quinta. Durante o jantar os primeiros contactos, que acabam por ser os mais fortes, estranhamente, arbitrariamente: Ricardo, Verónica, Tiago, Jerónimo…). Depois do momento do café, muito animado, o pessoal foi dormir. Este ano fiquei na Casa do Túnel, no andar de cima, com o Nelson (São Tomé). O quarto era enorme e tinha quarto de banho e quarto de vestir! Estávamos servidos ainda de uma sala e cozinhas enormes, com sofás e televisão, que partilhávamos com o pessoal debaixo: Edite (Cabo Verde), Leonilde (São Tomé), Jerónimo (Colômbia) e Ricardo (Porto-EUA).

Segunda – 24 de Julho

Após uma noite muito mal dormida, com o susto terrível do comboio (o 1.º a passar de madrugada), lá me preparei para a rotina matinal: 8:15 o pequeno-almoço, 9:00 no autocarro, 9:30 início do curso. O pequeno-almoço era fantástico: leite e café, sumo de laranja, croissants, pão, compotas e manteiga, queijo e fiambre, e as fantásticas cavacas de Resende. As viagens foram mais agradáveis, já não “havia o pavimento degradado”, porque o estavam a arranjar naquela semana!
Na fundação, após as primeiras vistas rápidas e fugazes, tivemos as sessões de trabalho. Começámos com o conto “Singularidades de uma rapariga loura”, com a prof.ª Isabel Margarida Duarte. Seguiu-se a prof.ª Annabela Rita, que também trabalhou connosco de tarde: a crónica e sua estrutura e definição genealógica e algumas incursões por O Primo Bazílio, que virá de algumas ideias já espalhadas por crónicas de Eça de As Farpas.
Seguiu-se uma visita à casa de Tormes: os móveis originais da casa e as coisas que vieram da casa de Paris, os livros, as fotos, as histórias em torno delas…
O jantar foi na casa do lavrador, que tenta recuperar o ambiente do século XIX através da gastronomia e do uso de objectos da época: candeias a petróleo, regadores de lata, mesas e bancadas grandes de madeira… o jantar foi broa quente, pataniscas de bacalhau, azeitonas, sopa, e - típico e queiroziano – o arroz de favas. A terminar, o leite-creme! O jantar foi animado pelas conversas, as histórias dos moçambicanos e pelo professor de música, que tocou gaita-de-foles.


Terça – 25 de Julho

Depois do banho frio, tivemos a manhã preenchida com a prof.ª Elza Miné e com a prof.ª Annabela Rita, e continuámos a ver a produção cronística e passámos por O Conde de Abranhos. De tarde ainda tivemos um curso rápido sobre os instrumentos tradicionais de Baião com o professor Vasco: bombos, caixas, tamboril, palheta, flauta, gaita-de-foles, viola braguesa, viola amarantina, rabeca chuleira, cavaquinho… Acabámos o dia em Tormes com a prof,ª Isabel Margarida Duarte a terminar o outro conto e trabalhámos o conto “O Tesouro” – e eu oficialmente passei a ser o leitor em voz alta…
Chegámos cedo à quinta, com bom tempo, e aproveitámos para dar um passeio e dar uns mergulhos na piscina. À noite, após o jantar na quinta, fui ver as Donas de Casa Desesperadas e acabei por ficar até às 3:15 no paleio com a Edite e o Nelson!

Quarta – 26 de Julho

De manhã tivemos a prof.ª Elza Mine (“Uma partida feita ao Times”) e a prof.ª Isabel M. D.: “No Moinho”. A tarde foi reservada para o passeio por Resende: visitámos o Museu Municipal de Resende – a exposição arqueológica e etnográfica da região (fantástica) e a exposição sobre Edgar Cardoso (“o engenheiro, o professor, o génio”... e o “Escritor”;) ).
Seguiu-se St.ª Maria de Cárquede onde se voltaram a contar as histórias de D. Afonso Henriques e as velas, a Nossa Senhora grávida mas e já com Jesus nos braços (branca – mas negra) e o sardão. Depois, a caminhada para a casa da Lagariça, um local fantástico, com um jardim excelente e enorme, com algum abandono e que terá inspirado o espaço de A Ilustre Casa de Ramires. Adorei profundamente.
O jantar foi em Arêgos e muito simpático (no mesmo sítio do ano passado). Vimos ainda uma exposição de pintura e escultura de artistas de Famanlicão, de onde se destacavam os delirantes “Gato psicótico” e “Gato estrábico”. Chegámos todos moídos a asa, mas ainda estive no paleio com a Joana (Lisboa), Ricardo e Elizabete (Lisboa)…
Neste dia a Visão esteve todo o passeio connosco!!!

Quinta – 27 de Julho

A prof.ª Elza Miné continuou com as crónicas e Fradique Mendes, e a prof.ª Isabel M. D. enveredou por “A Perfeição” e “José Matias”. Ao fim da tarde tivemos o passeio pela zona de Baião: Ribadouro, Pala, Gôve e parámos na abertura da feira gastronómica do anho assado, onde provámos alguns doces da Teixeira e de Resende. Em Ancede visitámos a capela da Nossa Senhora do Bom Despacho – observámos com atenção o trabalho de restauro dos altares de madeira do barroco popular que representavam a vida de Jesus (infelizmente não pudemos tirar fotos). Jantámos no Casarão, em St.ª Marinha do Zêzere (o mesmo do ano passado) e foi espectacular. O pessoal divirtiu-se com a música tradicional tipo rancho e dançaram de tudo um pouco… Brilhou a Aldinida (Brasil) e os passos do forró!
Já em casa, o pessoal reuniu-se quase todo na nossa sala e jogámos ao jogo de bater as mãos na mesa, cantámos em sânscrito, crioulo de cabo verde e de são Tomé. Foi a noite mais divertida, que só terminou com a aventura nocturna: eu, o Ricardo e a Elizabete fomos levar a Lala (Madagáscar-Bélgica), a Márcia (Porto-Famalicão) e a Eva (Porto-Famalicão) à casa dos moinhos – e afinal sempre havia um moinho! Foi giro porque estava super escuro e só tínhamos um candeeiro pequeno de jardim que pouco iluminava!
Nota: o gato amarelo e branco apareceu nessa manhã à beira da minha cama!

Sexta – 28 de Julho

A professora Elza Mine acabou o curso com a crónica interminável “Os Ingleses no Egipto”. A segunda sessão acabou por ser ao ar livre e terminou com o pessoal a cantar a canção do Nelson. Após o almoço, voltámos a cantar para a Sr.ª Dona Maria da Graça e fomos gravando tudo.
As despedidas foram rápidas – todos foram para o Porto, a Lala ainda ficou na quinta, eu vim para a Régua. E pronto, com saudades nostálgicas (passo a redundância), foi mais um curso, bastante melhor que o anterior, mas igualmente enriquecedor nas amizades e no lado humano.

Notas: as camisolas do Marcos (Galiza): “Eu nunca serei yo”, “Galiza e Portugal – a mesma língua”…

músicas

A música portuguesa vive de coisas que às vezes me fazem arrepiar. A última que o conseguiu foi “Flutuo” de Susana Félix. A simplicidade aparente, uma letra mínima, repetida e elíptica, potenciadora de sentidos mais vastos parece-me um caso bastante interessante e original. A nível musical pode não haver uma regularidade (segundo o UM), mas talvez seja isso que dá também encanto à música: suave, discreta, acompanhamento de palavras, numa inseparabilidade ou comunhão entre fundo/forma. A descontinuidade, mesmo existindo, é anulada pela sensação de evasão que nos alcança, ou de desprendimento, de deixarmo-nos ir: “o meu destino está fora de mim e eu aceito”, mas também aceitação, comunhão, como se realmente estivéssemos a flutuar num rio, mas também um certo desinteresse ou desistência, e o deixar as coisas correr (ou flutuar), até ao “amanhã”. Depois repare-se no refrão, que pela sua brevidade ou concisão acaba por nos permitir pensar em vários sentidos, já para não falar no desfecho, que parece ser uma repetição e surpreende-nos com uma subtil mudança de verbos e pronomes pessoais que transformam todo o sentido. Além disso, é de destacar a beleza do verso “fazer de mim pretérito mais-que-perfeito”, de um carácter inesperado. Mesmo as rimas e sonoridades estão originais e bastante interessantes. E depois tem um piano e violinos, tipo…

Mas há outras músicas que me fazem arrepiar, noutro sentido. Não falo da música pimba ou popular, mas da outra, daquela que surge nos tops e dá nas rádios nacionais. A última sensação, bem, já há algum tempo, é “Sei-te de Cor”, de Paulo Gonzo. Talvez o senhor tenha andado a ler “sei os teus seios/sei-os de cor” de Alexandre O’Neill, mas se calhar isso é demasiada pretensão minha. Enfim, os meus ouvidos foram (já não são, porque mal começa a música eu mudo de estação, nas raras vezes em que ouço rádio) bombardeados com uma voz terrível, sem beleza ou qualidade nenhuma. Mas nem é isso que mais me incomoda, porque ele já era assim nas outras músicas mas só esta me leva à náusea! É que a música começa e termina muito suavemente, mas só com a voz dele em destaque, é só ele que faz a melodia (ou melhor, tenta…). O resto é uma guitarrada com piano (???) e bateria, que abafam um pouco a pseudo-voz. Enfim, música foleira e banal, mas má, servida com um certo pretensiosismo a grande coisa (só se for grande pónei)… Reparemos na letra, que é o que nos diz mais, a nós amantes da literatura. As rimas, quando existem, não são más nem boas, escapam – mas isso é um pormenor. A repetição também existe – mas aqui é integral, quase toda a letra é repetida! Depois, vemos que a construção do texto é sobre a omnisciência que a voz possui do objecto do discurso: “Sei de cor”, “”sei cada capricho teu”, “sei ao pormenor o teu melhor e o pior” são exemplos dessa sabedoria, que chega a irritar: “sei de ti mais do que queria”, como é possível amar alguém que se conhece assim tão bem? Enfim, o pior é que o conhecimento, além de ser sobre o físico e sobre o psicológico, é também adivinhatório: “sei cada capricho teu e o que não dizes ou preferes calar”. A acrescentar “sei por que becos te escondes” – o que nos diz isto da mulher???? E a cereja no topo do bolo, de uma congruência e lógica matemática fascinantes: “Numa palavra diria: sei-te de cor” ??? Quantas palavras estão ali? Eu conto quatro: um verbo (sei), um pronome (-te) – pronto, esta pode contar como uma – uma preposição (de) e um nome (cor). meu Deus, eu sei que sou de letras, mas estas contas eu ainda sei fazer!!! Obviamente o senhor que escreveu tamanha barbaridade e que a canta também deve saber, mas o artifício de escrita foi mais forte e ele não lhe resistiu, já que não encontrava coisa melhor para ali pôr… O pior é que a coisa até pegou e já rendeu uns eurositos ao fulano.

No meio disto tudo, porque uma demasiado sintética e outra completamente descabida, quem se vai aguentando bem é a Floribella!!!

terça-feira, julho 18, 2006

Tormes 2006 - o futuro

pois é, como eu tenho um grande espanhol dentro de mim (=grande ego), consegui uma nova bolsa para fazer o curso internacional de verão na Fundação Eça de Queiroz. Vai ser altamente, embora a Marta desta vez não vá... o que é muito chunga, mas é a bidinha. ao menos vou fazendo coisas úteis ao meu currículo, ao meu crescimento pessoal e social. além de que acaba por ser uma semana de férias interessante (se não chover e não estiver frio, como acabou por acontecer o ano passado).

mais informações:

www.feq.pt

www.quintadaermida.planetaclix.pt

e pronto, mais uma ainda...

mais uma muito bonita... da Lúcia Moniz

sexta-feira, julho 07, 2006

Lista de Livros para as Férias

Como vem sendo uso, aqui estou eu a divulgar a lista de livros para as férias de Verão. Como já começaram (desde o famoso dia 31 de Maio…) alguns deles já foram lidos, outros esperam nas estantes e na mesinha de cabeceira (que tem sempre cinco, ao contrário do número três aconselhado pela minha Luz Inspiradora), e outros tentam imiscuir-se pelo meio, e bem gostaria, mas o tempo foge sem deixar hipótese de satisfação. No entanto, são quatro meses de muitas leituras, devem ter algum resultado, além do prazer… Assim, já li:

1- Um Estudo em Vermelho – Arthur Conan Doyle
2- O Aleph – Jorge Luís Borges (fantástico: os labiritos, os tigres, os livros… a juntar ao deserto, o infinito e o jogo de xadrez…)
3- Todos os Nomes – José Saramago (muito bom, mas não o melhor. Só para quem gosta de Saramago a sério)
4- 4 Contos de Puchkin
5- Novelas do Defunto Ivan P. Bélkin – Puchkin
6- Metade da Vida – Francisco José Viegas (é poesia, e alguns poemas são muito bonitos)
7- Satíricon – Petrónio
8- O Rapaz de Bronze – Sophia
9- Fim de Partida – Samuel Beckett
10- Três Contos de Máximo Gorki
11- O Código da Vinvi – Dan Brown (sim, li finalmente e até gostei de algumas coisas, mas tem muitos póneis, claro)
12- A Noite de Natal – Sophia
13- Anais de Pena Ventosa – Pedro Eiras (potente, fantástico, maravilhoso – com algumas partes um pouco secas – mas fala de tudo: Deus e Igreja, amor, Idade Média, Portucale e passagem a Porto, a vida, a solidão, a amizade. Cheio de intertextualidades dissimuladas ou identificadas. Realista e fantástico. Numa palavra: esmagador!)

Espero ler até ao final de Setembro:

14- O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
15- O Fantasma dos Canterville e Outros Contos – Oscar Wilde
16- Mrs. Dalloway – Virgínia Woolf
17- Gargântua. Pantagruel – Rabelais
18- O Outro Pé da Sereia – Mia Couto
19- Macandumba – Luandino Vieira
20- Felicidade – Will Fergunson
21- Confissões de Narciso -Autran Dourado
22- A Ilha do Dia Antes – Umberto Eco
23- O Senhor Ventura – Miguel Torga
24- O Monte dos Vendavais – Emily Bronte
25- Bíblia: o Novo Testamento (é mais pequeno, para começar…)
26- Alegria Breve – Vergílio Ferreira
27- Poesia – Manuel Alegre
28- Poesia I, II, III – Fernando Pessoa
29- Poesia – Álvaro de Campos
30- O Futuro em Anos Luz (antologia de poesia portuguesa do séc. XX)

Imiscuições (eu sei que a palavra não existe mas é possível):

31- A Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles
32- A Vida Verdadeira de Domingos Xavier – Luandino Vieira
33- A Casa Velha das Margens – Arnaldo Santos
34- Sinais de Fogo – Jorge de Sena
35- Dom Casmurro – Machado de Assis
36- O Outono do Patriarca – Gabriel Garcia Márquez

quinta-feira, julho 06, 2006

Flutuo



Esta é uma canção que se pode ouvir em algumas rádios e até em novelas (Dei-te Quase Tudo). E tenho gostado muito dela, apesar de não ser fã de Susana Félix. Mas é interessante e sabe bem…

de volta...

Após uma longa ausência, voltei. Pensei que o Tulisses tivesse morrido quando o estágio acabou. Mas não. Voltou, ainda mais interessante. A actividade bloguística continua, sobretudo em http://www.bandalhismo.blogspot.com/, onde se podem encontrar os melhores poemas bandalhistas de sempre. Não passa de uma brincadeira, mas bastante interessante…

As férias prolongam-se, bem como o desemprego. E o futuro é incerto. Vou dar explicações de 12.º ano na próxima semana. Regresso ao Porto. Entretanto, continua a vida de leituras compulsivas e de tentativa de escrever o meu livro, que tem o primeiro capítulo escrito e o segundo vai-se construindo gradualmente. Mas em princípio são apenas cinco capítulos, portanto não é mau de todo. E escrever tem sido uma aventura interessante que me tem levado por caminhos estranhos e inesperados. Nada do que tencionava escrever seguiu seu rumo e Inventário das Coisas Sós é totalmente diferente do que eu esperava (sonhava). Mas é melhor.

Quem ler este texto deve pensar que o meu livro deve ser uma coisa magnífica: nem sei escrever um texto correcto! São só um amontoado de frases justapostas sem nexos de ligação. Enfim, só posso dizer que o livro está melhor, ligeiramente.

quinta-feira, junho 08, 2006

terminar como comecei: Sophia

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia

quinta-feira, junho 01, 2006

e pronto, amanhã chega ao fim aquilo que já acabou terça e oficialmente acabou quarta e se calha já tinha acabado há muito mais tempo. pois é, amanhã é o último dia que vamos à escola.

e depois, férias!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!/desemprego:(

enfim,. a vida é bela e amarela e nós estamos nela.

quinta-feira, maio 25, 2006

o que faz falta (trabalho de seminário a partir de uma crónica de M L Lepecki)

O que faz falta

O que faz falta, para Maria Lúcia Lepecki, nestas questões de poesia no ensino secundário, é deixar a poesia ser poesia: “superfície e profundidade”, “mistério”, “musicalidade”, “representações e significados”.
O que faz falta é uma verdadeira metodologia do ensino da poesia. Não só no ensino secundário e obviamente. Já no ensino básico os alunos lêem uns poucos poemas, tendo ainda a ideia de que os poetas não são “umas pessoas muito normais” e que “os poemas são textos difíceis”. E os professores partilham da opinião, colocam os poetas de lado e continuam com o texto narrativo. Até que os alunos chegam ao ensino secundário e são confrontados com Sophia, Torga, Eugénio, Herberto ou Al Berto nos seus poemas ligeiramente mais difíceis e as dificuldades aumentam, bem como o desinteresse e o “desprazer”.
Interessante e necessário será motivar os alunos desde muito cedo para a fruição estética da língua, do poema na sua componente verbal: sons, ritmos, cadências, rimas, repetições, prolongando a infância onde já se contactou com trava-línguas, lenga-lengas e adivinhas. E conduzir os alunos gradualmente para o jogo que a poesia encerra em si, para a poesia visual, para os poemas tradicionais, para os grandes poetas nas suas composições mais simples (aparentemente), de sabor medieval, até. E começar também, de forma provocatória, a desmistificar a poesia: todas as palavras são permitidas, tudo é assunto para a poesia, “tudo é tempo de poesia”. E então surgem os grandes temas, acompanhados de metáforas, comparações, imagens, hipérboles: vida, amor e morte – e todos os assuntos a eles ligados.
Introduzir os alunos na “cidade da poesia” é possível recorrendo ao desafio, “ao mistério” e à “questão de superfície e de profundidade”. Mostrar que um poema pode ser interpretado de diversas formas, dependendo da leitura que se faz dele – individual ou colectiva, contextualizada ou descontextualizada, analítica ou expressiva. A poesia é para ser lida (ou comida), mas em voz alta, com todas as técnicas que se aconselham: boa colocação de voz, volume adequado, expressividade, respeito pelo ritmo, acento de determinadas palavras-chave. E reler, muitas vezes, até que o poema fique em nós, sempre pronto a ser activado em qualquer altura. E reler novamente até que a sua forma e estrutura se justifiquem por si mesmas, tudo comungue de uma unidade própria que poderá ser destruída por uma outra forma de unidade, vista por outro leitor, mas que não deixa de ser a nossa forma, com todas as virtudes e falas inerentes. E só assim o poema será dito, ou antes, passado aos alunos. Só pela técnica do jogo ou pela técnica do encantamento podemos seduzir os alunos para os mistérios da poesia.
Na prática docente, isso poderá ser difícil. Das aulas que observei no sétimo ano, as adivinhas e trava-línguas seduziram os alunos, “A Nau Catrineta” também teve os seus efeitos positivos, mas “Chuva Fina” de Cecília Meireles foi já um choque para o qual os alunos não estavam preparados. Poesia próxima deles, com as inquietações deles funciona melhor. Nas aulas de reforço, pude trabalhar com alguns o ritmo do Hip Hop de Boss AC em “Que Deus” por confronto temático com “Os Senhores da Guerra” dos Madredeus – e a sedução foi de outro género. Foi sedução efectiva.
No décimo segundo ano, em que o programa e o fantasma do exame final não permitem perdas de tempo, nota-se uma difícil abertura e compreensão da poesia de Pessoa. Ainda me lembro de tentar dar o poema “Pobre e velha música” de Pessoa, em que tentei demonstrar, entre outras coisas, a importância da escolha das palavras que, alteradas, mudam todo o sentido do texto: e era apenas o caso de uma preposição “inocente”. Ou Alberto Caeiro (anti-poeta) de que os alunos gostaram, o “senhor estranho” que vê as coisas como elas são, sem inventar para elas realidades outras. E os alunos aperceberam-se de que convivem com a poesia no dia-a-dia, que nasceram com ela, pois entendiam as refutações do “senhor estranho” e viam outra realidade: a que está diante dos seus olhos.
Mistério e jogo, sedução e encantamento: duas abordagens diferentes, auxiliadas pela fruição, que se devem complementar para atrair o maior número de alunos possível, porque se a poesia “não se diz”, ela está nas ruas, expectante.

sexta-feira, maio 19, 2006

são elas... sim, as boas!!!

AULA INAUGURAL, de Mário Quintana

É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como
na guerra do Paraguai ...
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia não há salvação.
A poesia é dança e dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança.
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança;
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante de tua cova.
Tece coroas de rimas...
Enquanto o poema não termina.
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas...)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas...)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta,
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo dos teus pés,

Deixa rugir o Caos atônito...

Luandino, Mia Couto e outros africanos


Mia Couto esteve na FLUP na terça-feira passada. foi uma tarde muito interessante, com um anfiteatro nobre repleto de gente sequiosa por ouvir e poder falar com o autor de "O Outro Pé da Sereia", o seu mais recente romance. Ainda não li o livro, mas de certeza que é fantástico, como todos os outros, sobretudo "Terra Sonâmbula" e "Chuva Pasmada" - tão diferentes mas tão fantásticos!
Hoje soube-se a notícia de que Luandino Vieira (finalmente) recebeu o Prémio Camões. Sendo o prémio de literatura em língua portuguesa mais importante, acaba por ser a maior honra que um autor lusófono pode receber. Ao lado de Luandino Vieira estão nomes como: Miguel Torga (1989), João Cabral de Melo Neto 1990), José Craveirinha (1991), Vergílio Ferreira (1992), Rachel Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), José Saramago (1995), Eduardo Lourenço (1996), Pepetela (1997), António Candido (1998), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Autran dourado (2000), Eugénio de Andrade (2001), Maria Velho da Costa (2002), Ruben Fonseca (2003), Agustina Bessa Luís (2004), Lygia Fagundes Telles (2005).
Grandes nomes aos quais se junta o maior escritor Angolano (Pepetela que tenha paciência), fantástico pela imaginação prodigiosa, pelas descrições apaixonadas da cidade de Luuanda, pelas personagens extraordinárias (Pedro Caliota e o Mau Miau, João Vêncio...), pela criatividade linguística (não só dada pelo casamento entre o português e línguas bantas a nível lexical, mas também sintáctico, mas também semântico - criando uma nova forma de ver e dar a ver a realidade, usando técnicas semelhantes às de Guimarães Rosa, e às quais Mia Couto e Ondjaki são devedores). E apesar de não ser muito fácil (ou exactamente por isso), ler a sua obra torna-se numa prática de prazer e fruição, de constante surpresa e ostranenie no sentido mais pleno do conceito...
Finalmente, notícia só de que este mês é de leituras africanas. Depois de "O Último Voo do Flamingo" de Mia Couto, estou a acabar "Quantas Madrugadas tem a Noite" de Ondjaki. Seguem-se "O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo" de Germano Almeida, "O Outro Pé da Sereia" de Mia Couto e "Makandumba" de Luandino.
Por fim (ou finalmente 2) - agradecimento à Professora Cristina Pacheco pela conferência "Da importância dos textos africanos nos Programas de Português dos ensinos Básico e Secundário e no programa de Literaturas em Língua Portuguesa", realizada no da 15 de Maio na FLUP, a pedido do meu núcleo de estágio (Boa Nova).
Mas mais do que isso, agradecimento à Prof. Cristina Paheco por me ter introduzido de uma maneira tão apaixonante ao mundo das literaturas africanas, que poderá ser a minha vida futura...

quinta-feira, maio 11, 2006

Produções artísticas

vou dar a minha última aula no dia 18 de Maio. A notícia... tenho muita coisa para fazer com eles, mas não sei se tenho tempo... de qualquer maneira. aqui fica a montagem que fiz para o último dossier.

quarta-feira, maio 10, 2006

Inventário das Coisas Sós (pequenos excertos de uma grande obra ainda por escrever)

No início era o verbo, assim dizem. Deus, sozinho no seu poder, cria o universo, as estrelas e planetas em redor delas, satélites em redor deles. Nesses planetas, ou pelo menos num deles, cria uma série vidas que culmina no homem. Há quem diga que tudo foi criado para o homem, que na altura era apenas Adão, o grande nomoteta da história. Mas na verdade, ou na minha, Deus fez tudo por um acto egoísta e um pouco louco de destruir a sua solidão infinita. Pouca sorte teve, pois logo teve de expulsar os seus novos amigos porque estes se portaram menos bem. No meio disto tudo não sei onde ficam os anjos nem as outras pessoas que são Deus: uma pessoa trina não pode sentir-se só… mas nem todas as Pessoas são compreensíveis às luzes da lógica e da matemática.




Todos os degraus da escada sentiram o seu peso e se prestaram como encosto para as costas curvadas pela avidez ainda, mas cada vez menos, cega de ler nitidamente. Por vezes rangiam como se lhes custasse ou então como se se condoessem com situação tão estranha. E também eles, todos seguidos uns aos outros, permitindo reinventar constantemente o mito de Ícaro, numa versão mais segura, se sentiam sozinhos porque nunca estavam no mesmo plano para poderem ser-se iguais. E, no fundo, o soalho de madeira era apenas uma escada cujos degraus tinham conseguido superar o estado de desigualdade e unir-se solidamente. Ou o contrário – talvez no início tudo fosse conjunto e só com o passar dos tempos as coisas se transformaram e se tornaram sós.


Naquela noite os livros pareciam respirar. Por entre as cortinas brancas, algumas esfarrapadas, os seus sussurros eram cicios mornos, estranhos, roçando as orelhas, a nuca, o pescoço. Deitado no chão, Alberto sentiu uma súbita tentação de volúpia, um desejo de ternura, de contacto, de entrega e abandono de si. As mãos, tantas vezes vazias, enchiam-se agora de desejo satisfeito, a pouco e pouco. Cá fora, as folhas agitavam-se com o vento nocturno e algumas amoras mais maduras caíam no chão.

segunda-feira, maio 08, 2006

quinta-feira, abril 27, 2006

santiago


houve quem tivesse ido. eu não. fiquei em poiares a preparar aulas que depois correram mal. mas já me ofereceram uma caneca e mandaram-me fotos. esta é uma das fotos do chão que eu não pisei, a chuva que não me molhou, dos reflexos que não presenciei. mas vejo-os, e são tão bonitos...

Dois poemas recentes


Imitação da Felicidade I

Imito-te
como as aves ao vento.

26/04/06


Imitação da Felicidade II

Imito-te
como as cúpulas ao sol.

Porém
as torres só se vêem no chão quando chove.

E a imitação
é triste porque existe a noite.

27/04/06

quarta-feira, abril 26, 2006

Reflexos


Só porque sim. e porque é bonito.

Conselho de Nicamor Parra (Chile)

JOVENS
Escrevam o que queiram.
No estilo que lhes pareça melhor.
Passou demasiado sangue sob as pontes
para continuar-se a crer
que possa seguir-se um só caminho.

Em poesia tudo é permitido.

Com a condição expressa
é evidente
de superar-se o papel em branco.

quarta-feira, abril 19, 2006

candidatura e ensino

a minha candidatura foi invalidada, que loucura!
tudo porque supostamente já tenho "qualificações próprias" e por isso tinha de concorrer já certinho, com escolas e tudo. ora, como o tipo de candidato nãos e pode mudar no melhoramento de candidaturas, estou excluído!
que pena, eu que gostava tanto de dar aulas a criancinhas!;)
tenho mesmo de rever a minha vida, e não é por causa do concurso, claro. o que fazer? não sou suficientemente bom para viver da escrita (quase inexistente, neste momento) nem há hipóteses de investigação a sério... por muito que as literaturas lusófonas chamem por mim, há o jornalismo como possível escapatória, ou não...
uma coisa é certa, ser professor de português, mesmo de secundário, está fora de questão, não é o que quero fazer na minha vida futura. repetir as mesmas coisas, muitas das quais em que nem sequer acredito, usar as estratégias de sempre que nem sempre são adequadas, eficazes ou pertinentes... e depois, ter de fechar todas as portas, aliás, só se podem abrir e fechar portas sucessivamente (e nunca abrir mais do que uma), rotular tudo, encaixotar tudo em esquemas e conceitos que só podem ser aqueles, e ser-se rigoroso na interpretação de textos, não podendo deixar abertas as hipóteses dos alunos (como, se o texto literário é a construção infinita de sentidos e possibilidades?), coitados, que nem raciocinam e só têm de desenhar um círculo no V ou no F ou escolher uma resposta entre três possíveis...
e porque de facto o ensino do português é uma treta pegada (e isso vejo da minha experiência de observador de aulas e de aprendiz de alguma coisa, de vez em quando) não quero fazer parte de uma classe estupidificante como esta. claro que há excepções, mas não as conheço nem trabalham comigo.
e mesmo que quisesse ser diferente, fazer (não no ano de estágio, claro) aquilo que acho necessário fazer, não poderia: não sei fazer como elas querem, já não sei fazer à minha maneira...
é por isso que este ano a minha vida tem de tomar um rumo orientador. vou concorrer a vários colégios privados e fazer um mestrado. de preferência, gostava de ficar no colégio de minha aldeia. para fazer a experiência de efectivamente ter turmas, alunos com quem trabalhar num projecto coerente e constante, sem cortes abruptos pela constante mudança de professores, de forma sequenciada e globalizante.
e se, no final de tudo, a coisa não resultar, a experiência tem de ser ou noutro campo ou noutro país.
dói descobrir agora que por vezes os sonhos são tão estúpidos como a vida.

inquérito

Um colega meu pediu-me para responder a este inquérito...

1 - Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Cem Anos de Solidão. Porque além de ser potente e uma verdadeira obra-prima (entre outras que já li e que se calhar até gostei mais do que deste livro), sempre durava pelo menos Cem anos ou ainda, quem sabe, por relação de homofonia, pudesse ser Sem anos (o que pode ser perto da morte mas também da eternidade). Ou A Bíblia.

2 - Já alguma vez ficaste apanhado por uma personagem de ficção?

apanhado, tipo… Georgina das Viagens (a abnegação!!!), o desejo de ter o carisma sedutor de Oblonski (Ana Karenina). E o que dizer de grandes personagens femininas como Blimunda, Madame Bovary, ou masculinas como Gonçalo Ramires (A Ilustre Casa de Ramires) ou Marc (A Identidade) Tantas… às vezes…

3 - Qual foi o último livro que compraste?

O Mundo dos Outros, José Gomes ferreira

4 - Qual o último que leste?

Férias da Páscoa abençoadas porque me permitem ler sem parar (muito): acabei de ler Enciclopédia dos Mortos de Danilo Kis, li Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira, Nação Crioula de Agualusa, Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto de Mário de Carvalho.

5 - Que livros estás a ler?

Acabei hoje de manhã A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós. vou recomeçar a Obra Completa de António Gedeão.

6 - Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?

Com a falta de tempo que marca os meus livros (ou melhor, a leitura para eles…) levava coisas ainda não lidas. E porque estaria num espaço deserto (não sei por quanto tempo, mas pronto), e só poderiam ser cinco, seriam coisas “granditas”:
(i) Ulisses, James Joyce (é preciso ter coragem);
(ii) A Bílbia (ah pois é!);
(iii) Tristan Shandy, Lawrence Sterne (primeiro é preciso comprá-lo…);
(iv) Onde Vais Drama-Poesia, Gabriela Lhansol
(v) Todos os Poemas de Ruy Belo (sei lá eu quando vou pegar nela…).

7- A que 3 pessoas vais passar este testemunho?

Su, To, Milai

quinta-feira, março 30, 2006

um ano

e depois?

De um concurso de poesia

O ano passado concorri a um concurso de poesia de Ovar. não ganhei, claro. agora, o professor Pedro Eiras disse-me que vão ser publicados dois deles numa colectânea, mas já não sabia quais. aqui ficam, em primeira mão (e um ano depois...) os três poemas...


1
O gato que a minha vizinha reclama ser seu invade a minha solidão


O gato da minha vizinha costuma vir para minha casa.
Talvez goste das almofadas espalhadas pelo chão,
dos sofás ao pé das janelas onde bate o sol todo o dia
ou do calor que está sempre na cozinha.

Eu gosto do tinir da malga do leite no azulejo.
Gosto do calor do seu corpo felpeludo,
aquecendo-me os pés nas tardes de Inverno
fazendo-me companhia enquanto leio...

O gato que a minha vizinha reclama ser seu invade a minha solidão
e aquece mais a casa com a sua presença.
O que ele gosta – nunca mo disse, mas sabe o que eu gosto...
Nada me deve, tudo preenche.



2
Levantei-me cedo e era azul toda a manhã.
A aldeia sonolenta desperta do luar.

Uma borboleta balanceia-se por entre as flores;
Parece uma criança a dar os primeiros passos.

O céu é o mar onde naufragam estrelas;
Um mundo novo se anuncia, e ainda outro.

O rumor das árvores é uma sombra fresca.
Resguardado, teço para ti o caminho dos meus sonhos.




3
As Palavras

Gosto de apanhar amoras nos dias de verão
pelas ruas ermas da aldeia
entre as vinhas e as oliveiras,
quando o sol começa ou se incendeia.

Escolho as melhores,
as podres ficam, ou as amargas.
E recolho só aquelas que trazem
O sumo mais doce...

Pudesse eu colhê-las todo o ano,
A todo o instante.
E o meu olhar seria constante e pleno
Como se fosse uma criança inocente e gulosa.

terça-feira, março 28, 2006

por que motivos...

pelos quais me apetece...
infelizmente, é só mesmo para ver...

quinta-feira, março 23, 2006

há coisas assim

geniais, fantásticas, brilhantes.
espero ao menos que os links funcionem ;)

http://84.40.3.164/ (Honda Civic)


http://www.youtube.com/w/Spin-dj-is-a-god?v=AW1jB0ey1ZE&eurl (Deus é um Dj)

Amostra sem valor

(porque ando a ler a poesia de António Gedeão e fico por vezes parvo a olhar para as letras com inveja de não ter sido eu a escrever certas coisas, aqui fica um dos poemas que mais me tocou, entre cinquenta mil outros:))

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja meu,
não pesa num total que tende para Infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
universo sou eu, com nebulosas e tudo.

(António Gedeão, Máquina de Fogo)

segunda-feira, março 20, 2006

Feira da Universidade do Porto



já acabou e foi muito engraçado estar lá. mas o melhor é este postal. e já que tenho de ir embora para o Seminário, ficamos-nos por aqui...

tu sabes que é para ti.

Silogismos

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

Ana Luisa Amaral. Imagias

quarta-feira, março 15, 2006

A peça

(apesar de não estar trabalhado, revisto, alterado ou o que for... e porque a Su e a Consti gostaram muito...)

Tinha chegado há pouco tempo a casa quando chegou embrulhado num plástico transparente com folhas desenhadas a branco. Era um vaso com uma planta, cujo nome ainda hoje desconheço, de flores cor-de-rosa claro com riscos e manchas mais escuras.
Sim, eram para mim. Não havia qualquer hipótese de confusão, de troca, engano, erro ou confusão de morada ou de identificação: lá estava a minha rua, número e o meu nome. Mas mais nada. Nenhum cartão com a assinatura de tão inesperado presente. O moço que o transportava também nada podia adiantar, que veio apenas entregar, mas podem ser de uma admiradora secreta, disse-me, com um sorriso de quem já está habituado a situações como aquela. Mas eu não estava e, aparvalhado, entrei na sala com as flores, o plástico, o meu nome, a minha morada e sem o cartão inexistente, tudo ao mesmo tempo.
Sentei-me, olhando-as. Só então devo ter de facto reparado no plástico, nas folhas brancas e numa grande fita vermelha, até exagerada e ligeiramente pirosa, que envolvia o vaso e o plástico. E nenhuma informação de destinador. Peguei nela, pu-la na varanda e fechei a porta sobre ela.
Primeira questão: quem me mandou a planta? Segunda: porquê? Era óbvio que teria sido a minha namorada, mas estando ela a quarenta quilómetros de distância… Bem, nada a impedia de a encomendar, bastava telefonar, dar a morada e pronto. E aconteceu assim, provavelmente. Mas não. Ou pelo menos ela nada confirmou quando eu lhe telefonei e agradecer e a perguntar porque não tinha assinado nem dizia nada, ela que sempre fora muito eloquente para bilhetes, cartas e postais de namoro. Era a segunda questão que eu tentava responder: não tanto o porquê, até porque o amor não necessita de justificações para as suas demonstrações, mas sobretudo por que não se tinha identificado. Grande problema: jurou afincadamente, perante a minha suspeita e insistência, que não tinha sido ela e até fez uma cena de ciúmes pelo telefone, que andava alguma interessada em mim e que eu já devia ter dado algum encorajamento para estar a receber uma planta no dia dos namorados. Eu nem me lembrava que era dia de S. Valentim, dia muito bem apanhado pelo comércio para incentivar a uma espécie de consumo em franca expansão. Foi a pedra de toque: fula comigo por eu desconfiar dela e por ela desconfiar já de mim, e eu chateado com a situação toda, cortamos a comunicação por ali, sem marcação prévia de novo contacto.
Vim novamente à varanda. A planta sorria com suas flores de pétalas soltas ao vento ligeiro de Fevereiro. É engraçada: com caules castanho-vermelho suave, muitas folhas em forma de pequenos corações, e as flores no cima, como se fossem chapéus de plumas de senhoras que olham para o chão que pisam delicadamente.
Não tendo sido a Joana, quem? Haveria alguém interessado em mim? Ou alguém que quereria destruir a nossa relação, dando motivos de desconfiança à Joana? Então só podia ser alguém que me conhecesse bem, que soubesse a minha morada e o meu nome completo! Mas logo de seguida foram as questões vitais que irromperam das pétalas trocistas: serás capaz de tomar conta de nós? E eu não respondi trocistamente, porque poderia não ter-lhes respondido sequer, ou dizer-lhes que tinha mais que fazer do que tratar de flores e plantas. Mas não. Quem mandou isto não gostaria que eu as deixasse morrer… Mas talvez por isso não mandou um animal, com receio… Preocupado, sim é o termo, pensei que pode um homem fazer sozinho num apartamento para permitir que a planta continue a viver? Recordei as plantas da minha Mãe, o trabalho esforçado por um crescimento e florescimento perfeitos, tal como tudo em que a minha Mãe punha a mão e podia controlar. Assim, pensei que esta planta era de rua. Pus um prato debaixo dela (normal, de cozinha, porque não tinha dos outros) e reguei-a. Fechei suavemente a porta da varanda, com alguns escrúpulos de a deixar sozinha ao frio de Fevereiro… Mas, caramba, é uma planta… Mas quem nos garante que as plantas não sofrem e não têm frio como os animais?

No dia seguinte a Joana telefonou. Queria saber da planta ou melhor, se já sabia alguma coisa de quem ma enviara. A resposta não lhe agradou mas notei na sua voz uma certa tranquilidade satisfeita quando lhe disse que mesmo não sabendo quem ma deu, ia tomar conta dela.
Aquela tranquilidade satisfeita fez-me suspeitar novamente que fora ela. Para me pôr à prova? Tentar saber de alguém que pudesse estar interessado em mim ou eu em alguém?
Mas foi ao fim da tarde, quando estava já a caminho de casa, ao ver um cartaz a anunciar uma peça de teatro e ao constatar que já não ia ver um espectáculo há muito tempo e que a última vez tinha sido com a Joana, que me lembrei da famosa cena final que a ela adorou: uma personagem oferece uma planta a outra, dizendo-lhe que a relação deles dependeria daquela planta: se a planta vivesse só com os seus cuidados, significava que já estaria pronta para passar para um nível mais avançado: cuidar de outra pessoa numa relação a dois. Desconfiei novamente da Joana e da sua tranquilidade satisfeita aquando da minha frase “vou tomar conta dela”.
Telefonei-lhe logo a dizer que vou ver uma peça no mesmo teatro onde fomos ver a outra, lembras-te? Aquela da planta que marcava o compasso de espera da relação amorosa entre as personagens principais? Sim, essa, que nós achámos muito interessante por não sabermos a conclusão. E mais nada. Da sua fala, tom, velocidade e palavras nada pude avaliar.
Nessa noite, conduzi até à casa da minha Mãe. Cá fora, as plantas com ou sem flores mostravam que o tempo pouco passara por ali. Beijei-a e serviu-me do seu chá, enquanto a brindava com um vaso de flores cor-de-rosa claro com riscos e manchas mais escuras, embrulhado num plástico transparente com folhas desenhadas a branco. Mas sem a grande fita vermelha, exagerada e ligeiramente pirosa, a envolver o vaso e o plástico.
26 de Fevereiro de 2006

o meu porto

já foi a minha vista, durante três anos. também já a tive.
agora eu estou na vista, ao fundinho, à direita.
mas é melhor ver do que estar...

coisas

é só para dizer, caso reparem no "contador" e no seu número pequenito, que o coloquei ontem.. ou foi anteontem? não sei, já. eu que sempre me orgulhei de dominar tão bem o tempo já nem sei a quantas ando. mas isso é temporário ;) em Maio recupero a minha vida (ou não). de qualquer maneira, até arranjo tempo para vir aqui e ler alguns livros fantásticos, ir com a MIM aos alfarrabistas, assistir a conferências de poesia francesa moderna e contemporânea, and so on.

segunda-feira, março 13, 2006

pequeno poema de Alberto Caeiro



Quem tem as flores não precisa de Deus.

Aquela Nuvem


(Na praia. O menino aprende a linguagem das nuvens.)


Aquela nuvem
parece um cavalo…

Ah! Se eu pudesse montá-lo!

Aquela?
Mas já não é um cavalo,
é uma barca à vela.

Não faz mal.
Queria embarcar nela.

Aquela?
Mas já não é um navio,
é uma Torre amarela
a vogar no frio
onde encerraram uma donzela.

Não faz mal.
Quero ter asas
para a espreitar da janela.

Vá lancem-me no mar
Donde voam as nuvens
Para ir numa delas
Tomar mil formas
Com sabor a sal
- labirinto de sombras e de cisnes
no céu de água-sol-vento-luz concreto e irreal…


José Gomes Ferreira, Poeta Militante, Publicações D. Quixote


(foto do filme O Fabuloso Destino de Amélie)

Festival RTP da Canção

Mais um festival português, muito parvo e polémico.
A música que ganhou (de uma forma muito pouco estúpida, diga-se) foi “Coisas de nada” (tipo…) das Non Stop. Uma música muito Spice ou ABBA, sei lá, simples, feita mesmo só para festival eurovisão (em que a qualidade musical nem sempre, ou muito raramente, significa vitória). A outra música que teve também 22 pontos, “sei quem sou (Portugal)” da Vânia era também bastante dançável, mais portuguesa, embora com um refrão um pouco estranho… Não admira, portanto, que a audiência gritasse durante o resto da cermónia: VÂNIA, VÂNIA… como é que as Non Stop vão representar Portugal se “democraticamente” foram escolhidas pelo júri (cinco pessoas!) e não pelo povo (que com certeza foram mais de cinco…)
As melhores músicas, pela interpretação e originalidade eram “Durmo com pedras na cama” (embora ela não tenha cantado tão bem como esperado) e “Ir mais além” (a dos transmontanos poderia fazer sucesso…) e “As minhas guitarras”, um fadinho suave (que podia mostrar Portuga)l também poderia ser uma boa opção (nós até somos conhecido por ele, tipo, Mariza...). Já se viu que quem ganha o festival é quem mistura um pouco da mdernidade com um pouco das tradições do seu país (tipo: a música da Grécia do ano passado, e a nossa melhor música foi “O meu coração não tem cor”, da Lúcia Moniz, que tinha uma letra bem nacional e uns cavaquinhos muito lusos…).
O filme vai repetir-se, só que desta vez na Grécia, e com outras personagens…
ninguém percebeu também qual o motivo para se ter ouvido a música do ano passado na íntegra, quando das outras poucas cantadas, que fizeram um determinado percurso na nossa cultura, só o foram durante trinta segundos ou coisa assim...

sexta-feira, março 10, 2006

Tradução muito livre de um passo da Ilíada (Livro IV, V-422-6)

Sobre as praias sonoras as vagas do mar
Movem-se
Umas após outras.
E logo se quebram, em terra,
Frementes.
E em torno dos promontórios
Engrossam e sobem muito alto
Cuspindo a espuma marinha.

quase um ano

quase um ano de postagens, ou de blog, ou de coisas que vão sendo aqui mostradas, às vezes.
quase um ano.
quase um ano de muitas coisas e boas ou não.
e para que isto não seja estúpido ou lamechas,
ficamos por aqui.

sexta-feira, março 03, 2006

teatro

fomos ao teatro com o 12.º ano. Felizmente Há Luar! foi a peça.
comentário sábio de uma aluna da escola: "Felizmente há luar, se não os gatos não miavam".
sempre é melhor do que fcar a dormir, como fizeram alguns alunos.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Ode aos livros que não posso comprar

Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
-- sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.
Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

40 Anos de Servidão, Jorge de Sena

Para a Susana




Parabéns, lá lá lá (já te cantamos duas vezes na aula)
E já te escrevi uma carta muito gira que até fala de coesão e coerência textual.
E já vais com sorte, não é toda a gente que tem dedicatórias escritas por um futuro prémio... Camões (para já ficamos por aqui...).
Mas como sou uma pessoa excepcional e fixe (como diriam os nossos índios), ainda te deixo uma imagem (era uma animação, mas não fica a mexer-se...) que está qualquer coisa. bjs

7.º D da Boa Nova

a nossa querida turma do 7.º D já tem um blog! Dinamizado por nós, meros professores estagiários não remunerados. tudo é escolhido por eles, nós só gerimos e ajudamos a manter o decoro... vão a:

Carnaval



Há anos que para mim Carnaval significa Veneza. Ainda mais este ano, depois de ter dado a descrição de Veneza aos miúdos (Cavaleiro da Dinamarca) e de os ter posto a escrever páginas de diário imaginadas, a partir de uma pesquisa na internet e em folhetos turísticos e após um plano de viagem registado numa agenda. E aumenta aquele gostinho amargo de ainda não lá ter ido, pelo menos fisicamente...

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

a conta mistério...

quem adivinhar o que significa ASTI recebe um prémio!

uma gargalhada...

mais uma pérola...

"só me apeteceu esbofeteá-la com o estojo..."

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

terça-feira, fevereiro 14, 2006

vão a:

http://www.t2comvaranda.blogspot.com/

a sério, e vejam a versão primeira de "hung up", agora cantada por Madonna. está demais!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

professores e nós nas notícias...

"Olhar o futuro com pessimismo

Ainda são estagiários, mas como planeiam fazer do ensino o futuro, Susana Duarte e Tiago Aires recebem esta medida com desagrado. Para Susana Duarte, alargar a validade dos concursos «não vai resolver os problemas dos professores». «Quem ficar colocado longe de casa tem que aguentar os três ou quatro anos, porque se desistir perde o lugar». Um problema grave, numa altura em que as colocações já não chegam para todos.
Tiago Aires considera que a medida «é uma faca de dois gumes». «Pode ser benéfica para as escolas e para os professores», mas «quando um professor estiver num sítio onde não quer, acaba por não dar o seu melhor, o que é prejudicial para os alunos».
Métodos de colocação que fazem os futuros professores olhar para o futuro com «pessimismo»".
in: Professores: alargar concurso é prolongar ausências
2005/12/13, Portugal Diário, IOL, por: Marta Sofia Ferreira e Sara Marques

o mar entra pela janela (relação intertextual?????) ;)

"E, às vezes, de súbito, uma gaivota atravessa, sem o quebrar, o vidro dos espelhos”

Sophia de Mello Breyner Andresen, Histórias da Terra e do Mar (p.71)

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

numa aula de 12.º ano...

o mar vasto ao vento
os marineiros num lenho leve
- é duvidoso este tempo,
não havendo quem o teve.

pónei

na estação de s. bento, à espera do comboio. doente. o dia seguinte a uma aula terrível. na véspera da apresentação de um trabalho de seminário.

e só me apetece entrar no comboio e ler sophia. ou quem sabe escrever alguma coisa com interesse...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

e pronto...

já fiz o dossier da minha aula de dia 2 de fevereiro. está impresso, aqui ao meu lado. entretanto, como não me apeteceu ir para casa, andei a ver pinturas de Klimt, Vieira da Silva, Arpad Szenes, José Malhoa e Costa Pinheiro. gostei desta em especial, por isso fica...

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Pesadelo da Su 3


palavras para quê?

Outras licenciaturas

Pois é, quem não conseguir entrar em Estudos Sexuais pode entrar numa outra licenciatura bem mais... exigente fisicamente, digamos. cliquem e vejam:

http://pisca-piscadaalma.blogspot.com/

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Pesadelo da Su 2



acho que não precisa de comentário. e a saga continua, ou não se tratasse de uma trilogia!

segunda-feira, janeiro 09, 2006

“Certuficado” de virgindade

No arquivo distrital de Viseu existe um documento cuja data não nos foi possível precisar, mas que nos parece ser do início do século XX. É um certificado passado por uma parteira da época, chamada Bárbara Emília, natural de Coira, Viseu, a pedido de uma jovem que pretendia libertar-se da difamação e provar a sua virgindade, para contrair casamento.

O documento dizia assim:

Eu Bárbara Emília, parteira que sou de Coira, atesto e certufico pela minha onra que Maria de Jesus tem as partes fudengas tal e qual como nasceu, insceto uma spequenas noisas negras junto dos montes da crica que a não serem da nascença sarão porvenientes de marradas de piça.”

Manuel Paula Maça, in Gazeta do Tejo.

;)

Licenciatura em Estudos Sexuais

Nota de Candidatura: 10 valores (mínimo)
Média do ano anterior: 17 valores
Específicas: sem indicação

1.º ano:

Introdução aos Estudos Literários Eróticos I e II
História do Género (1.º sem)
Tipologia do Palavrão (2.º sem)
Kama Sutra I e II
Psicologia do Erotismo e do Sexo I e II
História do Preservativo Masculino (1.º sem)
História do Preservativo Feminino (2.º sem)
Noções e Técnicas de Engate I e II

2.º ano:

Literatura Erótica I e II
Poesia Erótica de Bocage (1. sem)
Poesia Erótica Portuguesa (2.º sem)
Kama Sutra III e IV
A Literatura do Marquês de Sade I e II
Posições I e II
A História da Masturbação I e II

3.º ano:

Literatura Erótica II e III
Internet: pesquisas eróticas I e II
Kama Sutra V e VI
A Literatura do Marquês de Sade III e IV
Posições (e instrumentos) III e IV
Sociologia aplicada aos estudos sexuais (1.º sem)
História dos Sex Shops (2.º sem)

4.º ano:

História da Pornografia I e II
História dos Programas Eróticos na TV I e II
História do Entrar e Sair I e II
Posições (e Locais) VI e VII
Stripptease Prático I e II
O Sexo na Arte ou O Sexo na Cidade, Sexo no Campo (escolher uma)

5.º ano: Estágio “profissional”.

Vagas: 0
Professores: incógnitos
Alunos: a faculdade em peso!
Visitas guiadas todas as sextas feiras:
Sex shops
Clubes nocturnos
Passeios pela Trindade e Rua da Alegria

Nota: curso com muita saída!!!

(feito por mim e Ana verde, numa aula de Latim do primeiro ano – 2002…reformulado em 2006)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Pesadelo da Su 1

saudades?

o curso foi há pouco tempo e já tenho saudades de algumas coisas que este pónico novo curso acentua por ser tão incrivelmente mau, estúpido e desorganizado.
Portanto, saudades de coisas tão básicas como ouvir alguém a falar de coisas que têm o mínimo interesse, mesmo que não sejam abordadas da melhor maneira...
Dos cadernos de capa preta cujas últimas páginas eram azuladas com desenhos, comentários mauzinhos (ou não) sobre profs e não só... e ataques de riso incontroláveis por eles provocados... Dos conselhos sempre tão (in)úteis como "comprem a Magazine Litteraire, no aeroporto de Paris..."
ou
Ou dos "não necessariamente", das participações orais tipo maçã (redondas e escorregadias) nas aulas de Literatura Brasileira, ou da necessidade tremenda de bater com a cabeça na parede por se estar a ouvir a mesma coisa, na mesma aula, pela 567ª vez...
Ou das garrafas de água sugadas pela sabedoria assustadora (quem diria!)
E se a saudade é uma coisa tão estúpida como o ter de olhar para trás com algum sentimento de perda e de desejo de regressar... então...

sexta-feira, dezembro 16, 2005

férias....

elas estão aí, desejadas, muito necessitadas. e continuaremos a estudar e a trabalhar, mas é diferente. não ouviremos professores nem perguntas como "quem é o espaço?"....

pausa para ser. pausa para repensar a bidinha. ///////////////////////////////////
/////////////////////////////////////////(achei giro por isto aqui). e pausa para ler!!!

e tal e coisa, deixemo-nos de póneis.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Livros para as férias ou para o próximo ano...

Pois é, as férias estão aí, há mais tempo (ou não) para pôr a leitura em dia. aqui ficam algumas sugestões, que são baseadas nas minhas leituras desde Julho deste ano até o presente mês. Obviamente, a lista diz respeito apenas aos melhores, por ordem de leitura:

1. Eles Eram Muitos Cavalos - Luiz Ruffato
2. A Criança no Tempo - Ian McEwan
3. Morreste-me - José Luís Peixoto
4. Ana Karenine - Tolstoi
5. O Jovem Torless - Robert Musil
6. No Antigamente, na Vida - Luandino Vieira
7. A Terceira Rosa - Manuel Alegre
8. O Manual dos Inquisidores - António Lobo Antunes
9. O Jogador - Dostoievski
10. Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Márquez
11. O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago
12. A Guerra do Tabuleiro de Xadrez - Manuel António Pina
13. Histórias com Juízo - Mário Castrim
14. Antigas e Novas Andanças do Demónio - Jorge de Sena
15. O Físico Prodigioso - Jorge de Sena
16. O Dia dos Prodígios - Lídia Jorge
17. Ficções - almada Negreiros

Nota: os que estão a azul são mesmo imperdíveis!

terça-feira, dezembro 06, 2005

a pedido de muitas famílias, pronto...


(foto da milai, no regresso de Braga para o Porto)

texto escrito durante uma aula. chamei-lhe "Monólogo"...

As rosas viviam brancas por entre as folhas e arbustos. Uma rara brisa acariciava papoilas e passarinhos voavam tranquilamente. Havia no ar um vago som de uma flauta. Erecto, o corpo do jovem baloiçava-se ao som dessa música que nostalgiava. E as suas pernas azuis claras eram o pêndulo de um relógio calmo.
De repente, o som mágico parou. O corpo estava encostado a uma árvore, pacificado, sonolento. Não se apercebeu que, por detrás da colina, de onde provinha a melodia que cessara, uma pastora, que guardava seus rebanhos, gritava de desespero, tentando fugir à futura e terrível violação. Um homem de desejos possantes agarrou-a, roçou-se nela, forçando a sua interioridade e, satisfeito, abandonou-a dobrada sobre si, arrancando cabelos e a pele do ventre, que vem agarrada às roupas rasgadas.
Debaixo da árvore, as pernas azuis ganharam agilidade e o corpo anda. Era tão belo como uma maçã polida. Caminhou pela encosta, desce ao rio. Despiu a roupa e a sua brancura marmórea molhou-se. Nada, de costas, ainda, contemplando o mundo, como se tudo estivesse certo e o mundo fosse um lugar de coisas boas.

quarta-feira, novembro 23, 2005

vida pessoal

Pois é, grande pónei!
Eu a pensar que is recuperar alguma vida pessoal após o congresso e aulas assistidas... mas não, já chegaram os trabalhos do seminário, os testes dos miúdos (fazer, corrigir, matrizes, grelhas...), preparar visitas e actividades na escola, e coisas do género que só servem, bem no fundo, para nos dar cabo da cabeça... E quinta vou colaborar no encontro sobre Bocage, mas desta vez é apenas um apoio físico, não a apresentação de uma comunicação, como no congresso de lit. brasileira....
Ontem fui ao teatro: O Tio Vânia, no Teatro Carlos Alberto. Recomendo vivamente. E hoje vim ao blog. é esta a minha vida, que tristeza tão inútil estas mãos... Também tenho lido, as Ficções de Almada Negreiros são extradordinárias, agora ando com O Dia dos Prodígios de Lídia Jorge...

e pronto... vou fazer uma ficha sobre verbos para os meninos do 7.º ano...

sexta-feira, novembro 11, 2005

aula assistida

a primeira aula assistida até correu bem, os meninos foram queridos e colaboraram (até ao minuto 70, mais ou menos, depois começaram a dispersar...); eu estava à vontade, sabia muito sobre Caeiro, mas, claro, faltou-me um pouco a pedagogia: fazê-los chegar às coisas sem eu as dizer, manter a turma toda atenta e a seguir o raciocínio, diversificar tarefas... enfim, coisas a aprender com o tempo. o início foi fantástico: dois retroprojectores, nenhum funcionava! acho que foi por causa das tomadas, estava tudo estúpido, mas resolvi a questão mais ou menos. espero sinceramente que as vossas assistências corram como a minha (ou melhor!), que já não vão mal, acho eu! Boa sorte e bom trabalho!

terça-feira, novembro 08, 2005

gafes jornalísticas!!

os nosso broncos

Jornalista da RTP: É trágico! Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos! (trata-se de uma nova variedade de árvores...)

Um jornalista da TVI: "As chamas estavam a arder". (fantástico!!!)

Rodapé do Telejornal da Sic: O assassino matou 30 mortos. (era para ter a certeza que estavam bem>mortos...)

Jornalista da TVI: Foi assassinado, mas não se sabe se está morto. (e para se ter a certeza nada melhor que pedir ajuda ao assassino que matou 30 mortos!)

Uma jornalista da TVI: "Estão zero graus negativos." (ok)

Comentário de uma jornalista sobre o caso Aquaparque: "Os aquaparques têm feito, durante este ano, muitas vítimas, que o digam dois mortos registados este mês...". (em directo além!)

Lídia Moreno - Rádio voz de Arganil: Quatro hectares de trigo foram queimadas...Em princípio trata-se de um incêndio. (em princípio, pois até se pode tratar duma inundação...)

A meio de um relato de futebol: "Chega agora a informação...o jogador que há pouco saiu lesionado foi vítima de uma fractura craniana no joelho." (mais um caso raro na medicina!!!)

Numa notícia do jornal da noite, Manuela Moura Guedes ao dar uma notícia diz que "um morreu e outro está morto". (sem comentários...)

segunda-feira, outubro 31, 2005

dia das bruxas...


acho que não preciso de ir a festa nenhuma para as ver. tive seminário, só pensei no estágio, vi muita gente que, encobertamente, são bruxas, e verdadeiras!

Provérbios...

Quando demos os provérbios aos meninos do 7.º ano, fizemos um exercício com os provérbios desconstruídos por Mia Couto... aqui ficam alguns deles...

Provérbios – Versão Mia Couto


O arisco não petisca

Nem a água é mole nem a pedra é dura

O certo é sabido

Antes ao Sol que mal acompanhado!

Ele tinha mais freios que dentes

Pensar no nascimento da bezerra

Cão que ladra é porque tem medo de ser mordido

O prometido é de vidro

Já a formiga tem guitarra

quarta-feira, outubro 26, 2005

tão fofinho

pois é, su, tão lindo e tão fofinho... quase podia ter outro nome, tipo... ;)

segunda-feira, outubro 24, 2005

Notas de um estagiário de Português, para os outros estagiários seus colegas, amigos e simpatizantes.

Primeiro: isto não segue uma estrutra lógica ou organizada. É assim que o estágio nos deixa, às vezes. Isto é uma espécie de texto-coisa meio híbrido, sem planemamento nem revisão – ou seja, o oposto daquilo que ensinamos e defendemos como essencial nos trabalhos dos nossos alunos.


Segundo: estágio, nestes moldes actuais (2005/2006) é um grande pónei (vá, façam o gesto a acompanhar a expressão). Para já. Não há informações de parte nenhuma e cada orientador vai fazendo como quer, apalpando às escuras. E isto é como o sexo: há bons e maus guias de exploração do terreno. Só uma coisa é certa: não há remuneração nem subsídios para ninguém...

Terceiro: os colegas do núcleo foram, obviamente, escolhidos unanimamente de entre 21 candidatos ao lugar de parceiros de mim para o pseudo-trabalho...

Quarto: a escola é problemática, tem alunos difíceis, com dificuldades e necessidades óbvias. Mas há de tudo, como em todas as escolas. Mas é necessário destacar a nossa turma do sétimo ano onde todos os problemas se conjugam: não sabem ler, nem escrever, nem portar-se na sala,... de brinco na orelha, de boné – de um lado, ou umas peixeiras do outro lado, com a mania que sabem muito daquilo... e a média da idade ronda os catorze-quinze anos... (!)

Quinto: o trabalho, para já, tem sido do pior – mas já começa a ser reconhecido. Grande liberdade em relação ao sétimo ano, o que se traduz em criatividade, originalidade... mais trabalho. Sim, era muito mais fácil escolher os textos já sugeridos pelo programa e pronto...

Sexto: a gaivota entra pela janela. Mas também o gato. E as pombas. Meu Deus, parece um jardim zoológico, em que não faltam os camelos e os burros ;) Perto do mar é normal que tudo tenha uma outra vida – e o seu encanto especial.

Sétimo: reuniões estranhas, grandes palhaçadas. Mas salva-se a orientadora: tem jeito para a coisa (palavra que não deve ser usada, demasiado imprecisa e vaga, já dizia a nossa querida I.M.Du.).

Oitavo: e só não escrevo uma carta de expectativas porque há coisas mais importantes para fazer, tipo, discutir exercícios para explicar a diferença entre há e à (com acento grave, claro).

Nono: bem-vindos ao pior ano das nossas vidas. Ou talvez não...


(escrito na segunda semana de estágio...)

segunda-feira, outubro 17, 2005

carta a Alberto Caeiro (1.º trabalho de seminário)

Caro Alberto Caeiro,

Espero que a sua não-vida quase real lhe esteja a correr bem. E com isto apenas quero dizer que, apesar de toda a imaterialidade da sua existência, possa ainda andar pelos campos a ver a Natureza e conhecê-la pelo seu único lado: o de fora.
Escrevo-lhe porque preciso de dizer-lhe umas palavras de reconhecimento e, mais do que isso, de agradecimento.
Nascendo de um não-nascimento, é talvez a Pessoa que mais precisaria de ter nascido. E a sua morte de 1915, mais falsa que o seu nascimento inverdadeiro, foi uma perda irreparável para a poesia universal, que continua ainda a fazer-se de místicos que ouvem os rios terem êxtases ao luar, ou de formalistas que tentam descobrir duas árvores iguais, uma ao lado da outra, nem que para isso tenham de lhes cortar ramos, tirar alguns frutos ou tirar-lhes folhas.
Admiro-o, sobretudo, por essa visão de garça, de Atena atenta (que invejo e que às vezes finjo ter incorporada nas coisas que mal escrevo), tão patente na sua escrita. É uma escrita tão profundamente original que qualquer descuido se lhe perdoa logo. E não ligue aos comentários de um tal Fernando Pessoa, que acha que você escreve “mal o Português”. O que é o Português enquanto instrumento, quando a sua poesia é uma novidade tão fresca e saborosa? Uma língua com oitocentos anos, velha e carunchosa, não pode comportar tais versos sem a violação de algumas das suas regras…
Essa visão tão nova e especial das coisas será, talvez, fruto da sua não-vida passada numa quinta do Ribatejo – e se calhar, também, da sua instrução, que não passou da elementar. Quase dá vontade de dizer que a Natureza nunca foi apreendida por ninguém. Talvez o Alberto tenha sido o primeiro a ver o real sem a visão deturpada por medos que criaram uma série de construções filosóficas que tentam complicar a Natureza, quando, no fundo, ela é tão simples e natural como o levantar-se o vento. (Desculpe se me aproprio tanto das sua palavras, mas elas são tão exactas, apesar de tão simples, que não resisto a usá-las).
Mestre, também eu me comovo ao ler os seus versos. Uma comoção entre a nostalgia, a boa disposição e uma certa inveja: quantos poemas seus não gostaria eu de ter escrito! Fica a consolação de os ler e de serem também um pouco meus, quando os transporto na minha memória e os recordo, independentemente do lugar onde estou ou para onde vou. E por isso, por poder activar a sua visão das coisas em qualquer lugar, tenho só de lhe agradecer por esta nova perspectiva da eterna descoberta da novidade do mundo.
Deste seu imperfeito discípulo, um abraço para além da vida e da terra,

Tiago Aires

sexta-feira, outubro 14, 2005

Eva - conto

EVA

“Solidão de sozinho”
José Luandino Vieira, João Vêncio: os seus amores


Era de certeza uma árvore nova, nunca antes vista por ali. Folhas vermelhas, flores azuis. Que coisa do Diabo era aquela, nascida em ano de incertezas e estranhidades?
Era no jardim que a árvore estava. No jardim daquela mulher ainda nova, acabada de chegar, há quase um ano, à vila. Todos a adoravam por ser tão bela, tão gentil e tão generosa. Era uma abelha cheia de mel, diziam as mais novas da vila, que aprendiam com ela formas de fazer o enxoval mais perfeito – seus pontos diferentes, seus motivos inspirados e suas cores alegres e vivas nos bordados. Era uma mulher prendada, diriam; uma mulher primeira, orientadora das segundas, diria eu.
Era a Eva.
Eva gostava de neve, de flores na Primavera, do vento no fim do dia, do sol nas tardes passadas no jardim – comungava da Natureza-ela-toda, menos da chuva. A chuva era a tristeza mais triste, fazia uma pessoa sentir-se só de sozinha; nem consigo queria ficar. E dormia.
Ao fim desse recente ano de ensinanças e amizades, choveu muito. Era um ano de grossas gotas caindo sem fim, sem pausa, sem qualquer dormência ou preguiça. Eva dormia, bebia chá, andava pela casa, livro atrás de si, só. A chuva era tanta que as moças não se atreviam a percorrer o caminho para a sua casa, e mesmo que o fizessem, Eva não era a mesma para elas, porque nos seus olhos fundos azuis-esverdeados só se lia solidão… Mulher só em casa quando chove é como macaco fora do seu galho ou galinha sem grão para encher o papo. Mais valia só que a chover a potes, pensava ela. Mas isso era errado: se não chovesse, ela não estaria nunca só. Assim, a chover, não só estava só sem outros, como estava sozinha sem si.
O estar sozinha sempre suscitou sururu entre as pessoas da vila. As mais novas sabiam que ela era viúva (e todos na vila ficaram logo a saber também), daquelas viúvas de amores impossíveis e estranhos – o marido, morto, ficara perdido em Espanha, numa luta de políticos e gentes, que o apanhou desprevenido e o tornou mais um agredido-desaparecido. Morreu, lhe disseram. Mas ela nunca teve certezas claras, mas o escuro ensombrou seu destino. Por isso ela aceita a solidão de si em si, às vezes sem si, como se nada tivesse mais a esperar, a não ser que os dias de chuva passassem, porque foi num dia de chuva que Eva recebeu a notícia – “Morreu”.
Em sua casa as flores murcharam e não foram substituídas – jardim abandonado, as árvores cá fora ficaram sem flores e sem frutos. O piano foi fechado e vendido. O tempo andou e curou aos poucos a dor de uma perda por desaparecimento, sem corpo presente que confirmasse uma solidão eterna. E depois desapareceram as galinhas e os porcos, e até os cães e os gatos de raças ancestrais; as comidas luxuosas e arranjadas a preceito. Numa situação económica insustentável tudo se vende. Decide, Eva, fugir da sua terra – cortar o cordão umbilical por vezes é o melhor a ser feito. Fugir a todos que tentavam, de todas as maneiras, consolá-la da perda, perdendo-a com o desbaratamento dos seus bens, parcos já por falta de trabalho – não se tratava de mais nada. Cortara raízes e fora para sítio secreto, pequeno, onde não poderia ser encontrada facilmente por pretendentes e famílias que a quisessem (ou às suas parcas finanças que ainda poderiam fazer a felicidade de algumas pessoas).
Sim, pretendentes, porque Eva era nova, mulher que se procurava ainda para casar. Mas ela fechara-se em si e procurava apenas a sua sozinhidade, só quebrada, por vezes, pelas segundas, a que ensinava as suas coisas aprendidas antes, na sua meninice. Fugiu a pretendentes. Nova Penélope? Nem tanto, enquanto que Penélope nunca perdeu a esperança da vida de Ulisses – e da sua vinda, Eva não acreditava mais no regresso, porque também não acreditava na vida – acrente.
E nesse ano choveu tanto, tanto, tanto que nasceram culturas esquisitas. Num campo onde se plantaram feijões, nasceram os ditos cujos, mas também favas. No meio das cebolas nasceram batatas, no meio das batatas nasceram abóboras. Coisas não plantadas nesse ano surgiram, tal foi a saciedade dos campos férteis, abundantes de húmus. Campos revolvidos que deslocaram culturas de um lado para outro, tudo misturado e alterado, quase uma salada do mais natural possível.
E nasceram outras coisas, espécie de cruzamentos indisciplinados que levaram a novas coisas: morangamoras, peçãs, pessigos e tantas outras estranhezas que pareciam estrangeiras, como os frutos tropicais, aproveitadas logo para fazer saladas de frutas muito curiosas. E isto porque, culturas houve, que nasceram fora do tempo normal ou esperado.
Depois de toda aquela estranhitude frutífera, nasceu aquela estranhidade floral: uma árvore de folhas vermelhas e de flores azuis. Explicações não as havia, como as havia para as misturas de frutas. Dizia-se, primeiro, certezas nunca serão certas, que a árvore nascera das lágrimas de Eva, as folhas vermelhas do sangue derramado do seu marido, as flores azuis dos seus olhos sozinhos, porque o verde da esperança já secara. Um jovem cá da vila, que anda a estudar na cidade, explicou-nos que era coisa que podia acontecer, que as ciências podiam explicar, que era uma mistura de coisas que não percebi muito bem… Mas o povo também não percebeu e não se deixou convencer, foi juntando dois mais dois e deu a soma: tudo o que de estranho nascera só tinha aparecido depois da chegada de Eva! De filha do amor e saudade de Eva pelo marido, a nova árvore passou a ser vista como um qualquer tipo de manifestação do Diabo…
Já o Sol vigorava nas ruas da vila, mas, as moças, proibidas, já não visitavam Eva para aprender coisas úteis no lar. Eva consumia os seus dias entre as tardes no jardim ao sol, com um livro atrás de si. À noite bebia chá, dormia, ou olhava a arvora estranha. Assim, sem chuva, a solidão de Eva via-se melhor, iluminada e límpida, sozinha sem si.
Há quem diga, eu não vi nem sei, que um dia nasceu uma maçã preta na árvore, e Eva, como a outra, a das escrituras, comeu-a, sentiu-se nua e desapareceu da vila. O certo é que nada se encontrou em sua casa e a árvore foi cortada, apesar de me parecer que ela está a rebentar, de novo…

Braga


E assim foi o fim-de-semana em Braga: divertido, cansativo, com muito chocolate ("Charlie e a Fábrica de Chocolate" foi o filme que estivemos a ver até às quatro da amnhã...) e...
Valeu a pena. Celebrar o aniversário da madrinha vale sempre a pena!

(o quadro atrás de mim é uma pintura da mãe da Milai! - A Gaivota entra pela janela!)

sexta-feira, outubro 07, 2005

como se a nostalgia ou uma espécie de saudade pudessem existir...

Durius Dulcis

Depois que me senti envelhecer,
Passo horas e horas no meu lar,
De janela em janela, a espreitar
O breve mundo que me viu nascer.

Tem montes que não deixam de crescer,
Videiras que ninguém pode contar,
Oliveiras que vivem a rezar
E um rio que não para de correr.

Este pedaço de viril beleza,
Este painel de rica natureza
Irá comigo para o Além.

Sempre lhe quis e sempre o defendi,
Fui eu até que um dia o descobri...
Não o posso deixar a mais ninguém.

João de Araújo Correia

Poiares, outra vez

Para conhecerem alguma coisa da minha "santa terrinha", aqui fica o endereço da página do meu primo Nuno. Tem alguns erros, mas a intenção é o que conta.

http://sweet.ua.pt/~isca5667/aldeia.htm

segunda-feira, outubro 03, 2005

Tulisses III

Não apanhes sol.
não se devem apanhar as coisas de Deus.

(caloiro)

quarta-feira, setembro 21, 2005

estágio

e pronto, começou o estágio.
Ontem dei (demos) a primeira aula à turma do 7.º ano. até correu bem... amanhã: as duas turmas do 12.º ano (eu vou dar o Modernismo!!!!) e depois a do 7.º (teste diagnóstico e visita à biblioteca).
Deixo-vos um desenho de um dos senhores do modernismo português, Almada Negreiros (my lord, um grande mete nojo porque foi um dos artistas mais versáteis e completos...). o desenho até tem a ver com tudo: curso, estágio... ou talvez não...

quarta-feira, setembro 07, 2005

Gatos, again

Poema do Gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão

pois éééééé


esta é a campanha de publicidade mais bem bem conseguida na FLUP. é verdade! depois disto ninguém vai poder beber outra marca de água....
;)

domingo, setembro 04, 2005

frase para outros.. alguém há-de entender...

“Não lhe chamava amor, mas percebia que se virava inteiramente para ele, como há flores que se viram para o sol e mais não fazem que o acompanhar.”

Lillias Fraser, de Hélia Correia
Verdadeiro Génesis

Deus plantou um jardim
E nele colocou o Amor.

Ao vê-lo só decidiu dar-lhe
Companhia feminina: a Amora.

Estavam nus mas não tinham vergonha.
Tenho na banheira um pouco de mar.
Aqui
Posso ser estrela, alga ou peixe
Ou simples areia.