quinta-feira, novembro 16, 2006

Top Feira das Publicações da FLUP

após quase três semanas de trabalho árduo e fantástico, aqui fica o TOP das vendas, com grande predominância das coisas que dizem respeito à literatura, ao professor e a Estudos Portugueses, claro.


1- Terminologia Linguística: das teorias às práticas
2- Colóquio Ibérico de Geografia
3- Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen
4- A Linguística na Formação do Professor de Português
5- Meditação Heideggeriana
6- Os Reinos Ibéricos na Idade Média
7- Sartre: um filósofo na literatura
8- Estudo Cartográfico de uma Viagem à Índia
9- Cartas de um Viajante Francês
10 – África Subsariana

Revistas da Flup

1 – História
2- Filosofia
3- Sociologia
4- Línguas e Literaturas
5- Geografia
6- Ciências e Técnicas do Património

Da música



Agora que tenho estado mais tempo em casa e nas viagens de cinco horas para Lisboa e mais cinco de regresso, tenho ouvido muita música. E há muitas coisas que me surpreendem por nunca ter reparado nelas, ao ouvir coisas que estavam guardadas no pc ou em cds que se amontoam um pouco na prateleira, agora ao lado do dvds do Expresso. A menina Lúcia Moniz teve um amadurecimento notável, do primeiro para o terceiro cd. Cada vez melhor, é certo. E Leva-me p’ra casa é um cd para ouvir com alguma atenção, sobretudo para quem gosta de ver algumas construções textuais: sucedem-se as comparações e algumas figuras inusitadas, e a imagem-obsessão do “ser tudo”/”ser nada” – a totalidade e proximidade de um espaço-tempo fora deles próprios. Destaque para Chuva (I), Leva-me p’ra casa, Não podes esquecer, e Tão perto (de ser tudo).
Outra surpresa foi Back to Basics de Christina Aguilera, uma lufada de ar fresco na carreira da moça.
Uma revitalização é também The Emancipation of Mimi, de Mariah Carey. Revitalização da sua carreira e credibilidade. E bem que algumas canções tenham letras bastante inconstantes (como a Get Your Number), Mariah conseguiu um álbum bastante coeso e forte, embora não recupere a máxima glória dos anos de 1995-97, dos álbuns Day Dream e Butterfly. Curiosamente, o álbum acaba por receber três grammys que foram negados aos álbuns referidos e muitos outros prémios, graças à fórmula de sucesso que foi We belong together: Melhor Interpretação Feminina R&B: We belong together, Melhor Canção R&B: We belong together e Melhor Álbum Contemporâneo de R&B: The Emancipation of Mimi, não recebendo, no entanto, os prémios das outras categorias: Melhor Canção Soul: Fly Like a Bird, Melhor Álbum e Disco do Ano, Melhor Canção do Ano (We belong together), melhor interpretação feminina poo (It´s like that). De destacar do cd, claro We belong together, Mine Again, I Wish you knew, Your girl do lado das mais calmas, e It´s like that, Shake it off, Get your number, To the floor do lado das mexidas. A versão Ultra Platinum DeLuxe inclui ainda quarto músicas bonus, como Don’t forget about us e um dvd com os vídeos dos quatro singles extraídos e o link para o vídeo do quinto. Óbvio estratagema comercial, mas para que é fã é óptimo. Claro que Fly like a bird acaba por ser o grande monumento do álbum: uma poderosa música soul numa poderosa voz que usa e abusa espectacularmente das suas capacidades quase inesgotáveis.
E o que raio é a nova versão de Íris (dos Goo-Goo Dolls) agora cantada por Ronan Keating? É que nova versão é uma expressão mal usada: a música está praticamente igual, mas pior. A emoção desaparece, fica tudo muito melado e igual do início ao fim. O lado rock e forte da música e da voz, que arrebatavam nos momentos certos, desaparecem. É a única diferença. E o objectivo de um remake é fazer melhor, ou, pelo menos, diferente…
Volto sempre aos mesmos, que me têm acompanhado e que não me canso de ouvir: Jewel, James Blunt, Cold Play, Word Song, Diana Krall, Mariza, Mariah Carey, Keane, banda sonora da Amélie…
Por fim, e porque podia falar de muita outra coisa, de que talvez venha a falar, termino com Madonna. Mulher polémica para todas as polémicas, tem, no álbum Ray of Light o único que tenho e que vale a pena ter…) uma curiosidade: os minutos das músicas parecem ter uma qualquer significação cabalística ou coisa que o valha? Se não veja-se o jogo de correspondências entre 1-13, 2-12 e todas entre si…:

É por estas coisas que eu gosto do francês…

Si le langage laisse à désirer, il n’en est pas directement responsable. En réalité, que désignent-ils au juste, les mots ? A vrai dire, personne ne sait.

(adaptado de uns textos franceses que tive de ler...)

quinta-feira, novembro 02, 2006

ponto.

A mania que as pessoas pseudo-intelectuais têm de dizer que não se lê em Portugal é irritante, porque falsa. Se não se lê, porque surgem cada vez mais editores, livros, revistas e jornais todos os dias? Pode não se ler é o que se queria que se lesse, o cânone... Aponta-se, claro, à juventude e à infância o desinteresse pelo livro: por isso é que o Harry Potter vende mais do que a Bíblia, os livros de Sophia conhecem sucessivas edições, já para não falar em livros de aventuras: Uma Aventura, Viagens no Tempo, O Bando dos Quatro, O Clube das Chaves, Triângulo Jota, etc, e nos livros dos Morangos com Açúcar - pois é, preparem-se para os livros sa floriella! já para nã falar da leitura de blogs e sites, de filmes e séries, de uma panóplia de coisas que quem nos acusa, não tinha com tanta diversidade, oferta e acessibilidade. Tenho estudado nos últimos dezoito anos. Na Régua, no Porto e agora em Lisboa. Andei muito de comboio, metro e autocarro. Vi sempre, em cada viagem, pelo menos um jovem a ler, não necessariamente sobre a matéria de estudo, caso esse jovem fosse estudante. A semana passada, em Lisboa, vi no autocarro 45 uma mulher a ler Ensaio sobre a Lucidez, de Saramago. 1-0, ganham os adultos. No metro, vi um jovem a ler Uma Vida Imaginária, de David Malouf (que eu não conhecia…) e uma jovem a ler Cartas a Sandra, de Vergílio Ferreira. 1-2, ganham os jovens. Na estação do metro da Alameda uma rapariga lia A Cidade dos Deuses Selvagens, de Isabel Allende. 1-3. No terminal de autocarros da Rede Expresso um rapaz lia A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera, e ao lado uma rapariga lia Cortes, de Almeida Faria. 1-5. E junte-se eu, que, enquanto observava os leitores fervilhantes à minha volta, leitores do Expresso e do Público ou da Visão, e aqueles seres leitores de tão admiráveis obras, tinha pousado por momentos o Sagarana, de João Guimarães Rosa, que me andou a fazer companhia nos últimos dias.1-6.
já para não abordar aprofundadamente a actividade bloguística, o facto de haver cada vez mais gente escolarizada, de toda a gente ler as legendas nos filmes e nos jornais de tv e do crescente número de sites dedicados à poesia…
mas lisboa tem feiras do livro: na FLUL os livros da INCM a 40% de desconto, na gare do oriente e na estação do metro do jardim zoológico, livros de várias editoras de 10 a 20%. eu, claro, aproveitei.

quinta-feira, outubro 19, 2006

último post no porto...

antes de ir para o mestrado de lisboa, quero postar um poema de Pessoa (sim, eu leio Pessoa...), não por motivo nenhum em especial, mas é uma espécie de fechamento de um ciclo, ou dois. depois disto quem sabe o que aí vem e em que passagens nos vamos encontrar... por isso:

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longínquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

Fernando Pessoa, 21-11-1909

segunda-feira, outubro 16, 2006

Grandes Portugueses

o programa da rtp está a tentar eleger o maior português de sempre. há quem diga que é d. afonso henriques, embora na altura portugal ainda não existisse, outros acham que é vasco da gama, embora tenha tido a necessidade de partir daqui para a índia. pronto, agora a sério. as listas são um grande pónei, que têm nomes que valha-me Deus, sobretudo se virmos os que faltam. por exemplo, tem Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida mas não tem o Herman José, tipo... Tem Eugénio de Andrade mas não Sophia ou Ruy Belo. E Salazar no meio disto tudo? mas parece que a lista é apenas um início e que irá sendo construída aos poucos (não se admirem se aparecer o Tino de Rans (ou Rãs) ou o Claúdio Ramos).

agora mais a sério, o maior português... não é muito difícil. eu, claro que não, até porque sou muito pouco português de temperamento. não. o Pessoa, claro. se não foi o maior, pelo menos foi muitos, pelo menos 27, entre os quais: Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alexander Search, A. A. Crosse, Chevalier de Pas, Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher, António Mora, Vicente Guedes, Barão de Teive, Jean Seul, Bernardo Soares...

letras do porto

é triste deixar uma casa onde tanto cresci e vivi. cinco anos. mas mais triste é deixá-la com alguns vestígios de má impressão. primeiro, a praxe que agora nada me diz: é tarde, eu sei, mas acho-me anti-praxe, pelo menos aquela que se faz... não é necessário tanto tempo a massacrar os novatos(sim, porque o que tenho visto só por passar ao aldo são autenticos massacres intelectuais e secas descomunais. e os antigos se se dedicassem a coisas mais importantes talvez fossem um pouco melhores e um pouco mais felizes (além de acabarem os cursos mais rapidamente). depois, é ainda pior a falta de civismo das pessoas de letras ou que as frequentam: no seguinte à fantásticas festa do porco no espeto (ou qualquer coisa assim), podia ver-se: caixas de bolos sujas espalhadas pelas mesas da feira do livro, uma estante da feira totalmente desfeita, um extintor usado numa das estantes de vidro da livraria, a porta da casa de banho dos homens no piso um arrombada e... não se podia ver a caixa registadora do bar porque tinha desaparecido (assim ouvi dizer, que só vi o que podia ser visto).
enfim...

quarta-feira, outubro 11, 2006

Camões: mais do mesmo

A perfeição, a graça, o doce jeito,
A Primavera cheia de frescura
que sempre em vós florece, a que a ventura
e a razão entregaram este peito;
aquele cristalino e puro aspeito,
que em si compreende toda a fermosura,
o resplandor dos olhos e a brandura,
donde Amor a ninguém quis ter respeito;
s'isto, que em vós se vê, ver desejais,
como digno de ver-se claramente.
Por muito que de Amor vos isentais,
traduzido o vereis tão fielmente
no meio deste espírito onde estais
que, vendo-vos, sintais o que ele sente.

Embora este soneto não seja tão conhecido, quem o conhece associa-o a Camões. Pois é, também este soneto não é de Camões. foi-lhe atribuído nas edições de 1598, 1666, 1685, e nas de Juromenha e de Teófilo Braga. todos os outros editores o rejeitaram, sobretudo Aguiar e Silva (no estudo introdutório à reprodução fac-símile da edição de 1598 das Rimas). incertamente, o poema será de Dom Manuel de Portugal, segundo os cancioneiros de Luís Franco Correa e eborense (CXIV/2-2).
o soneto apresentado tem algumas diferenças, como se pode ver pela transcrição dos quatro primeiros versos:
A perfeição, a graça, o suave geito
a primavera chea de frescura
que florece em vós, que a ventura
e a rezão entregaram este peito (...)
(ver: Fardilha, Luís de Sá (1991). Poesia de D. Manoel de Portugal, Porto, FLUP)

terça-feira, outubro 10, 2006

desmistificação

A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;
o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do Sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;
enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está (se não te vejo) magoando.
sem ti, tudo me enoja e me aborrece,
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias mor tristeza.

Um soneto (sim, basta ler fazendo as pausas habituais...) sobejamente conhecido, de.... surpresa, o fantástico poeta do século XVI, Dom Manuel de Portugal!!! Pois é, Camões pode ter escrito muita coisa boa (e escreveu) mas este não é dele! pode ler-se no Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa (Ms. 8920) que é um "Soneto de dom Manoel de Portugal", e ainda há testemunhos da época da sua autoria. foi atribuído tardiamente a Camões em 1665, na edição Terceira Parte das Rimas de Camões, elaborado por Álvares da Cunha. Faria e Sousa não o incluiu nas Rimas Várias de 1685, mas nas edições oitocentistas volta a ser-lhe atribuído, bem como nas edições de J. M. Rodrigues e A. L. Vieira (1932), Hernâni Cidade, A. J. Costa Pimpão; A. Salgado Jr.
se a lírica de Camões suscita dúvidas, esta parece ter sido esclarecida por Gordon Jensen e António Cirurgião, nos quais Luís de Sá Fardilha se baseou para comprovar a autoria de Dom Manuel de Portugal.
(consultar: Fardilha, Luís de Sá (1991). Poesia de D. Manoel de Portugal, Porto, FLUP)

coisas de blog

se alguém veio cá ontem ou hoje, até esta hora, deve ter reparado em algumas mudanças. após umas experiências falhadas de colocar links, o meu blog ficou sem recent posts e sem os arquivos! pronto, tive de seleccionar novo template (que é o mesmo, claro) e tudo voltou ao normal, excepto o hit counter, que voltou ao zero por exigência do administrador, que avisou que já tinha excedido o número permitido de visitas!! (agora a sério, voltou ao zero porque eu sou um nabo nestas coisas e tive de fazer tudo de novo, logo agora que já estava perto dos oitocentos!!!).. enfim, para quem pouco percebe disto, até consegui alguma coisa...

inté

quinta-feira, outubro 05, 2006

Fernando Guimarães

Caminho

Há palavras que deixaram de nos pertencer. Alguém se refere
de novo ao seu significado, a alguns gestos que as percorreram
devagar, à proximidade de outras vozes. Mas o que persiste
há-de ser apenas o silêncio; ele vem agora ao teu encontro
para que não as esperes mais, como se fosse a tranquilidade
que encontramos no único caminho para onde agora te diriges.

Se essa sombra te acompanha é porque nela habitas

untitled


Não sei por que motivo continuamos a inventarmo-nos, todos os dias. a necessidade estranha de quereremos conhecer-nos como se disso dependesse a sobrevivência. mas ao conhecermo-nos inventamo-nos outros, diferentes, ausentes. e projectamo-nos num sonho ou mundo paralelo ou alternativo, no qual seríamos melhores, bem sucedidos, conhecidos, felizes... temos a terrível urgência de querer ser aquilo que sabemos que não seremos. e assim o mundo avança, às vezes.

terça-feira, outubro 03, 2006

desabafo

estar longe de ti implica esquecer-me nos bancos da cidade, junto ao rio, ou sentir o frio do nevoeiro sem dar conta dele. é escrever o teu ser pelas paredes sem ver o património dos outros. é andar sem direcção certa, se não a solidão. porque a morte não perece e cumpre sempre o seu papel.

domingo, outubro 01, 2006

José Régio



Improviso

Aos ventos que passavam,
Por não poder com elas
Atirei um punhado de palavras.
Se rápidas voavam,
Depressa regressavam
E tombavam
Como no céu, às vezes as estrelas
Com pétalas de flor no chão.

E o meu poema, os ventos o dirão...

dois poemas mais ou menos recentes para a mim

Antinoos I

Inventamos tantas palavras para dizermo-nos.

*

Antinoos II

Percorro as mãos
O tempo as águas
O incêndio do ser
Ténue leve sombra.

A sorte de ser novo
Eterno renascer
Justo no seu espelho
Fixo em todos os momentos.

António Botto


O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

O Professor é um segredo... (1)

O professor compra uma agenda nova, um caderno bonito, uma caneta verde. Prepara-se com expectativa (com esperança?) para o que o novo ano lhe trará.
O Professor é um aluno que não quis deixar a escola.
O professor zanga-se, "congelado", longe dafamília, horário mau, vida difícil.
Faz promessas e juras: não gasta nem mais um minuto no fim de semana, nada de projectos loucos, nem mais um tostão do bolso, nem mais um tinteiro, uma folha de papel, gota de tinta, gota de sangue, gota de suor.
Espreitem uns dias depois. O professor está, outra vez, a fazer a festa comos alunos. A festa é, quase sempre, muito maior. O Professor tem forma de coração com memória fraca. O professor não tem endereço electrónico. Não escreve textos no computador. Não quer. Diz que não, que não gosta, que não percebe. O professor insiste que prefere lápis e papel. Nunca, nunca conseguirá. Diz que não vale a pena.
E depois... O professor pede ajuda ao filho. O professor faz formação. Aceita a mão de outro professor. O professor dá mais um passo. O Professor é um caderno já muito cheio, onde encontramos sempre muitas folhas brancas. O professor fala de saúde, futuro, matemática, inglês, poesia, estudo, música, informática, livros. Sabe fazer projectos, jornais, cartazes, desenhos, receitas, teatro. Cura feridas, ampara tristezas, acalma medos. Escuta segredos, dá conselhos, conta anedotas, prepara passeios, monta exposições. Dirige a escola, dirige um grupo, escreve regulamentos, prepara oficinas, constrói materiais.
O Professor não sabe o que quer ser quando crescer.
O professor faz muitas perguntas, por dentro e por fora dele. O professor gosta que lhe façam perguntas. O professor ensina que as perguntas são a melhor maneira de aprender. O professor acha mais difícil fazer uma boa pergunta do que dar uma má resposta. O professor ensina a perguntar. O professor não sabe todas as respostas. O Professor é um ponto de interrogação com muitas respostas possíveis.
O professor tem medo. De não conseguir, de não ser capaz, de errar, de acertar, de se perder, de perder alguém. Tem medo de ter medo. Medo de não ter medo. Medo de avançar depressa, de avançar devagar. Medo de ficar parado. O professor tem medo que não aconteça nada. O Professor usa o medo como meio de transporte.
O professor chora, ri. O professor sofre, mastiga desgostos, partilha-os se forem maiores do que ele próprio. Tem sonhos, tem desejos. Às vezes pinta, às vezes canta, outras escreve. Planta flores, cria borboletas, namora, ama, tem filhos, não tem filhos, representa, dança, vai ao cinema. O professor é feliz, é menos feliz, é feliz outra vez. O professor fica parado a pensar no que sente. O professor é de todas as cores por dentro e por fora. Mais do que o arco-íris. Mais do que a maior caixa de lápis de cor do mundo. Mais do que todas as cores que se podem imaginar.
O Professor do avesso é tão colorido como do direito. O professor recomeça tantas tantas vezes, que desiste do prefixo "re". O professor caminha numa estrada que dá voltas e voltas e voltas... Não se lembra de ontem. Não sabe o amanhã. Oferece o tempo que tem. O Professor não tem princípio nem fim. O professor tem uma magia só dele. Um feitiço que lhe foi lançado, não se sabe quando nem por que fada. Ele é Bela ou Monstro, Princesa Adormecida, Gata Borralheira, Capuchinho Vermelho, Branca de Neve. As madrastas, os lobos, as bruxas, as trevas vão andar sempre por aí. Ele luta, história a história, contra todos eles. O Professor tem de ser o final feliz de todas as histórias, para que o mundo se salve. Por entre o som das palavras, o professor é cheio de silêncios que poucos conhecem. Silêncios que falam, muitas vezes, uma língua que quase ninguém se lembra de ter ouvido.
O Professor é um segredo que se deve contar em voz alta, para toda a gente ouvir.
(1)Texto publicado no Correio da Educação, CRIAP ASA, nº232, 3 deOutubro 2005.
Autora: Teresa Marques, Escola Básica 2,3 de Azeitão.
(mandaram-me este texto e não pude deixar de partilhá-lo com quem viesse aqui. até porque de professores todos temos um pouco...)

domingo, setembro 24, 2006

A Intertextualidade em actividades de leitura orientada na aula de língua materna

É amanhã que eu e a Su, a minha querida colega de estágio e amiga, sobretudo, vamos apresentar o nosso trabalho de seminário deste ano, na FLUP. fomos escolhidos para este dia especial para os novos estagiários. e aqui fica um cheirinho muito pequeno do nosso trabalho, mas só as epígrafes - que melhor maneira de falar de intertextualidade se não ir aos textos e deixá-los falar!!!



“A escrita que estava gravada naquelas tábuas era da mão de Deus, que ali tinha escrito os seus dez mandamentos, e tinha-os escrito duas vezes para marcar a sua importância, (…)”

Êxodo, XXXII-16


“is a fashionable term, but almost everybody who uses it understands it somewhat differently”

Heinrich F. Plett, Intertextuality


“a intertextualidade é entretecida pelo diálogo de vários textos, de várias vozes e consciências”.

Aguiar e Silva, Teoria da Literatura


“Mas nem assim deve entender-se que é possível e legítimo falar de intertextualidade, sempre que (e apenas porque) uma vaga semelhança eventualmente aproxima dois textos”

Carlos Reis, O Conhecimento da Literatura


“«Mas esta frase não me soa a novidade. Aliás, toda esta passagem, parece-me que já a li». É claro: são temas que se repetem, o texto é tecido por estes vaivéns, que servem para exprimir o flutuar do tempo. És um leitor sensível a estes requintes, tu, sempre pronto a captar as intenções do autor, não te escapa nada.”

Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante

sexta-feira, setembro 08, 2006

Cecília Meireles




O vento é sempre o mesmo,
mas a sua resposta
é diferente em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel
entre borboletas e pássaros.

Iniciação


Era sempre depois do banho que a sua vertente lúbrica se inflamava. No quarto, ao vestir-se, inventava uma série de histórias, e personagens malucas que o impediam de vestir-se e lhe faziam coisas indecentes. E terá sido numa dessas alturas que, ao comprimir-se contra uma almofada pequena, terá sentido o prazer e a dor de ejacular pela primeira vez, ainda sem saber muito bem o que era aquilo.
E foi aos poucos ganhando a consciência de todo um mundo dominado pela tentação do sexo. Sabia mais ou menos o que era. Um primo, estranhamente até era mais novo, já lhe tinha dito para que serviam todas as coisas de que ninguém falava à sua frente, mas sempre se considerara acima de qualquer acto de nojo como aquele, admitindo para si e para os colegas de brincadeira que seria um celibtário ou lá como se dizia. Claro que não era só nojice, mas sim a ignorância de como as coisas se faziam e quando as poderia começar a fazer. E perante uns colegas tão estranhamente precoces, que afirmavam ter-se já iniciado sozinhos na descoberta de alguns prazeres proibidos, embora ainda sem a presença de uma rapariga, sempre sozinhos, no interior dos seus quartos, António achou que seria interessante experimentar, embora sem saber muito bem como o fazer. Os filmes que passavam na televisão ajudavam a imaginar, e era pela imaginação que inventava as histórias com as personagens malucas que o impediam de vestir-se e que lhe faziam coisas indecentes. Quem o ensinou a manobrar o instrumento foi um colega de escola, no balneário, depois de uma aula de Educação Física. Perante a demonstração descomplexada, António reagiu dualmente, não conseguindo imediatamente decidir-se entre a proibição de um acto tão condenável e a atenção suspensa de tentativa de aprendizagem para poder repetir mais tarde, no sossego do seu quarto.
À noite, no quarto, imitou o colega, sem grande êxito, porque uma dor imensa não lhe permitia puxar a pele como o Nuno fazia. Um pouco desiludido e envergonhado, apagou a luz e deitou-se. Escusado será dizer que acordou com a sensação estranha de alívio molhado que caracteriza os sonhos eróticos. E nessa tarde, à vinda para casa, o Nuno quis saber se já experimentara e como fora. E aconselhou-o a imaginar coisas, a lembrar-se daquelas cenas dos filmes e das novelas, das raparigas. E nem precisava de forçar, de puxar muito. Com o tempo aquilo ía ao sítio.
Não foi nessa noite nem nas seguintes, António não queria experimentar e dizia que queria ser como os padres. Mas nesse fim-de-semana uma visualização fê-lo mudar de ideias e voltar a ter os seus pensamentos lúbricos. Ouvira, no jantar, a Mãe falar dos novos vizinhos do lado, um casal que estava a tentar engravidar e que tinha vindo passar uns dias à aldeia. E agora, ao ir fechar as janelas do seu quarto, viu, na janela da casa ao lado, um homem nu por cima de uma mulher, ambos com uma expressão de dor intensa, sem conseguirem soltar-se. Sentiu subitamente o latejar do seu membro ficando erecto, ajoelhou-se, sem desfitar a janela da casa e começou devagarinho a experiência, até quase berrar perante a sensação de prazer que o invadira.
Foi assim que começou, a pouco e pouco, a explorar os mistérios do seu corpo e a sua sexualidade. E continuou o trajecto de várias formas, sempre secretamente,
Uma tarde, na altura em que os livros que tinha já tinham sido relidos, foi à estante dos livros dos pais, onde já só restavam as enciclopédias ilustradas e os livros de culinária, pretos, com pratos tão estranhos que a Mãe nunca fizera nenhuma receita por eles, e alguns livros de capas grossas e letras doiradas. Um dos livros que achou por bem ler foi Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. Com um título daqueles só poderia ter sexo. E tinha, encoberto. Copiou todas as passagens que achava excitantes para um caderninho preto que escondia atrás dos seus livros de escola, deliciado por possuir secretamente as provas da sua própria ousadia.
Mas não chegou. Sabendo que havia mais livros em casa, foi procura-los na caixa que o pai guardara debaixo da mesa do telefone, pois, como ele dizia, já eram livros velhos e a Mãe concordava, dizendo que só estavam a enfeiar a casa. Na caixa, agora aberta, estavam romances, claro. E no fundo da caixa, alguns com capas e títulos indiciadores do seu conteúdo. Fascinado, retirou apenas esses, sabendo que do risco que corria, e escondeu-os no guarda-fatos. À noite, antes de dormir, lia sempre um bocado, às escondidas, e acordava sempre transtornado com os sonhos que tais personagens e histórias. E ia copiando as passagens mais impressionantes, o que envolvia uma dificuldade enorme de selecção, pois o sexo estava página sim página sim nesses livros.
Foi também por essa altura que o pai lhe ofereceu uma televisão velha para pôr no seu quarto. Sextas-feiras à noite, aos poucos, foi vendo séries, programas, filmes que já não o elucidavam mas que o incendiavam. E começou então a sua monumental obra. Não, não escreveu um romance erótico baseado nas suas experiências platónicas de observador nem se tornou um Don Juan. Tinha já, na altura, uns catorze anos quando, num veio de inspiração, começou a fazer uma revista. No início não sabia muito o que fazer, como, mas começou por dobrar uma série de folhas A4 a meio, agrafou-as no meio e deu-lhe um nome: Sex, em inglês, sempre era mais universal (claro que essa revista era só dele, para ele, ninguém sabia da sua existência). Na capa teria de pôr uma fotografia e algumas frases, como as revistas que a Mãe comprava todas as semanas, ou a irmã mais velha, que agora tinha a mania de comprar uma certa revista que falava de todos os ídolos das raparigas na idade parvinha da adolescência. Aliás, foi a ver essas revistas teve a ideia e começou a recolher material. Todas as sextas a Mãe deitava a revista no caixote do lixo, todos os sábados, António levantava-se mais cedo e rasgava as folhas que lhe interessavam e deixava a revista como se intacta estivesse, para ninguém desconfiar. Nas revistas da irmã nunca se atreveu a tocar, até inventar um pequeno acidente com a caixa em que ela as guardava, deitando-lhe fogo, mas tendo já antes retirado tudo o que lhe interessava.
A construção das revistas foi-se tornando uma obsessão sem precedentes na sua vida. Fazia quatro por ano, com cerca de trinta páginas cada. E ao todo fez doze. A recolha feita era nas revistas, nos jornais, nos catálogos de roupa que a Mãe recebia, mas também nas revistas diferentes das da Mãe que a avó comprava, e, qual arca dos tesouros, algumas revistas para adultos que um tio guardava escondidas no guarda-fatos, mas desde que ele fora trabalhar para França, sem data para regressar, faziam as delícias de António.
Era à noite que António trabalhava nas suas revistas. À luz do candeeiro, em frente à janela onde vira o jovem casal que queria engravidar. O afinco que colocava no trabalho seria facilmente provado se pudéssemos ver qualquer um desses exemplares únicos, escritos à mão e com fotografias coladas com fita-cola nas pontas. Escolhendo uma ao acaso, a número sete, tem na capa uma foto de uma mulher sorridente com uma camisa meia transparente e um homem à sua frente, a olhar para ela, em tronco nu. Segue-se um índice e depois vários artigos: “O Beijo ao longo dos tempos” (provavelmente retirado de uma das tais revistas para donas de casa…), uma entrevista com um actor português que participou numa novela brasileira e que terá feito umas cenas quentes, outro artigo chamado “Filmes Proibidos (continuação)”, ilustrado com fotografias de O Império dos Sentidos e outros, segue-se ainda um desdobrável de roupa interior masculina e feminina encimado por uma nota: “Extra”, e depois páginas inteiras de revistas recortadas e coladas falando de “Sexo criativo”, “Sou louco por louras”. Por fim, após algumas páginas de excertos dos livros que já havia lido, ele próprio escreveu dois “Contos Eróticos”, terminando a revista com um elucidativo “Na Próxima Revista”. É interessante ler os seus contos. O primeiro chama-se “A Primeira vez” e é a história de uma mulher que passeia por um jardim e que é possuída por um desconhecido numa ponte. Mas a história evolui para uma relação matrimonial, para menáges e outras trapalhadas que acabam em bem para todos. O outro conto chama-se “A Festa de Aniversário” e conta a história de uma mulher que faz anos e que durante a festa seduz o pianista da festa, acabando por “conduzi-lo para a cozinha”, onde ele acaba por “atirar-se a ela, despindo-a e despindo-se a si próprio também” e o resto que se adivinha.
Seria inútil descrever ainda a quantidade de brindes que as revistas oferecem: livro com filmes aconselhados, cartas com fotos de artistas nus, etc.
Poder-nos-á parecer estranho tanto homem e tanta mulher. De facto, a revista não faz distinção sobre o público, que era apenas ele. Talvez lhe interessasse o sexo no seu pleno e não apenas um dos seus intervenientes…
Depois de tudo isto, resta talvez dizer que o António morreu aos vinte anos, num acidente de viação. Ao arrumarem o seu quarto, descobriram uma caixa que dizia: ao Nuno. Entregaram-ma ontem e hoje e todos os segredos de António, as revistas, o caderninho preto e o seu diário, onde estão todas as informações que aqui apresentei, acabaram por ser reveladas. Ou talvez não. Nem todas. Mas a quem interessam as verdades quando toda a gente as tenta esconder?
Maio de 2006