segunda-feira, dezembro 04, 2006

Fazem-me falta


As conversas sobre tudo e nada no bar fumarento da faculdade. As aulas e as facadas no peito por ouvir a mesma coisa pela milionésima vez. As colegas de trabalhos e estudo intermináveis, sobretudo na esplanada a apanhar sol ou na biblioteca, a fingir que se lê Bakhtine, até que tem mesmo de ser ler. As cadeiras da BM Almeida Garrett, donde vi a grande paixão secreta da minha vida. As crianças sentadas à minha frente ou ao meu lado. As garrafas no cemitério do saxo da Su. As gaivotas assassinas e os gatos traiçoeiros. A minha senhoria, apesar de um pouco chata. As comidas vegetarianas da cantina, como o rolo de carne fingido. As músicas meio tocadas meio cantadas da Tuna. As chatices da secretaria. As idas a outras terras: Braga, Montalegre, Monte Clérigo, Lisboa, Sr.ª da Hora, – com o pessoal do costume, mais ou menos. As vistas fantásticas da minha varanda da residência. As árvores e os bancos do Palácio de Cristal. As ruas de Cedofeita, Miguel Bombarda, D. Pedro V, Torrinha, Boa Hora, Campo Alegre… A alegria e luz da Verde, a disciplina da Ana Luísa, a loucura especial da Consti, a loucura stressada e preguiçosa da Su, a doçura da Patrícia, a evasão sonhadora da Milai, a diplomacia da Diana, a contrariedade do Rui, a aparente soturnidade da Lena, as meninas fantásticas da Casa da Purificação, a serenidade da Dénia, a bondade da Alexandrina, a estilosidade da Ana Cabral, as obsessões da Bruna (Jostas, também conhecida como Jamila…), as músicas ternas da Bruna Mateus, as desconversas inseguras e inteligentes da Celine, o para além do visível do Edgar, a evolução da Eva, a flor que é a Alexandra, a simplicidade concreta da Helena e da Lara, a loucura alegre da Joaninha (e suas gargalhadas), as conversas com a Joana do árabe do medieval, a música da voz da Joana Patrícia, a sabedoria encoberta da Lídia, o francesismo da Natália, a estranheza do Nelson, a cumplicidade trabalhadora da Rute, as caras estranhas nas aulas de Brasileira da Síndia, as experiências teatrais com as duas Anas Catarinas, o primeiro contacto com os bifásicos com a Susana Melgaço, a determinação da Mariza (e a minha admiração por ela), a amizade amorosa e inteligente da Marta… As idas à Fundação Eugénio de Andrade. As demandas pelos livros esgotados, os alfarrabistas. As prendas colectivas que demoravam duas horas a planear, meia para executar e que saíam sempre ao lado do projecto. As sessões de cinema – a sério ou em casa de alguns – de Moulin Rouge a Asas do Desejo. As festas de aniversário no Por Amor à Arte ou com as deliciosas comidas das donas Manuelas e da avó da Marta, e das tentativas da Milai e da Mónica (estou a brincar). As descobertas de línguas, culturas e literaturas diferentes e inesperadas. As figuras risíveis na praxe. As idas ao teatro, sobretudo S. João e Carlos Alberto (quase sempre com a magia da gratuidade dos bilhetes). as professoras e o professor da minha vida. As músicas pimba no saxo (quando não eram gravações dos exercícios de acordeão…) e as eruditas na aparelhagem da Marta. As emoções da primeira vez que trajámos. As noites loucas da Queima (não, quem é que eu quero enganar? Risquem esta). A pseudo-serenata da Tuna Feminina (grandes Susana Alegria e Natacha). As risadas da Áurea. As ocasiões raras com a Liliane e a História. As viagens de audi e smart. As andanças no S. João. As dormidas a três (e mais) no quarto da Su. As coisas que a Marta é. Tanta coisa faz falta que não é possível ordenar textualmente nem na geografia do coração. Mas fazem-me ainda falta as mãos, as tuas, com que me redemoinhavas o cabelo enquanto lutava para não adormecer, para que continuasses mais tempo. As mãos de que uma vez disse: “Como falar das mãos que nos rodeiam e nos prendem para sempre? Ou dos lábios que nos beijam como se fossem palavras eternas?”.

Tu ainda me fazes falta.
(nota: não tentei reduzir as pessoas a uma simples característica, mas talvez seja a mais dominante ou aquela que mais falta me faz...)

quinta-feira, novembro 30, 2006

Explicação e demanda…

não é que eu acredite muito em signos e assim, sobretudo nos horóscopos feitos para o dia e semana com previsões. mas estas descrições gerais (e talvez por serem gerais) ficam-me que nem luvas nos dias de inverno. a descrição do meu signo (gémeos) não podia ser mais exacta... nem a de escorpião (antigo), e do sagitário (o compatível...)



O Erótico e o Pornográfico


Esbocemos uma distinção entre o denominado erótico e o denominado pornográfico. Trata-se de duas coisas totalmente diferentes. Podem até ter um certo objectivo comum: a elevação do ser humano para o tema do amor, do desejo e do sexo, mas usam linguagens totalmente opostas.
O termo “erótico” vem da palavra grega “erotikos”, que, por sua vez, derivou de outra palavra grega que significa amor – “eros”-, ao passo que a “pornografia” deriva de “pornographos”, palavra grega que quer dizer “escrever sobre prostitutas”.
Geralmente mais grosseira, mecânica e mais explícita do que o material erótico, a pornografia não se esforça por criar histórias credíveis ou um contexto adequado às representações sexuais. O material erótico é menos implícito, mas muito mais fantasioso, poético. Não mostra tudo, preto no branco, o que permite que a imaginação humana explore outros campos e trabalhe por si mesma, atingindo níveis ainda mais interessantes de prazer literário do que com uma linguagem mais explicita.
Em certos dicionários, erótico tem como sinónimo o “amor sensual”, o “lascivo”, enquanto que o pornográfico tem, como sinónimo a “devassidão”, “assuntos e actos obscenos”, “impúdico”.E o que se passa na literatura, passa-se, a meu ver, igualmente, nos outros campos da arte, até porque o erótico é socialmente aceite, enquanto que o pornográfico está ainda dentro de um certo tabu difícil de ultrapassar. No campo da Literatura os limites de um e outro são mais fáceis de esbater, prevalecendo uma outra distinção ténue: o que tem qualidade literária e o que não tem essa qualidade.
Hoje em dia temos uma relação bastante contraditória em relação às obras literárias eróticas. Nunca tivemos tanto acesso à pornografia, sobretudo com o aparecimento e desenvolvimento da Internet. O erotismo literário, no entanto, permanece tão marginal como sempre foi e será. Mas, numa sociedade como a nossa em que cada vez se dá maior importância à imagem, quase toda a obscenidade é convertida para as imagens. Assim, com tantas imagens explícitas à disposição, a literatura obscena deixou de ser o principal estímulo erótico das pessoas, como foi nos tempos antigos.
Entre as civilizações clássicas, foram os gregos que melhor colocaram a expressão literária ao serviço do homem, em peças, poemas e diálogos filosóficos. Na comédia Lisístrata, de Aristófanes, por exemplo, as mulheres fazem uma greve sexual contra os maridos. A poetisa Safo cantou o amor, sobretudo, ao que perece pelos poucos fragmentos que até nós chegaram, o lésbico. O filósofo Platão definiu as formas de amar em O Banquete. Os romanos continuaram o trabalho dos gregos, em obras como A Arte de Amar, de Ovídio, e Satyricon, de Petrónio, tornando-se cada vez mais escabrosos, até que a expansão do cristianismo acabasse com a farra.
A partir daí, o sensualismo clássico caiu em decadência. E, pouco a pouco, a literatura erótica entrou para a clandestinidade e, de certa forma, permanece até hoje. O que não quer dizer, porém, que ela tenha deixado de circular de mão em mão, ou de boca em boca. Histórias, versos e escritos eróticos correram a Europa durante a Idade Média e, finalmente, no Renascimento, voltaram a ter grande expressão, como nos poemas apimentados de Aretino ou em algumas histórias picantes do Decameron, de Boccaccio.
Depois da invenção da imprensa, em 1455, deixou de ser possível controlar a difusão de livros eróticos pelo mundo, pelo que a partir dos séculos XVII e XVIII, proliferaram pela Europa, provenientes sobretudo de França e de Itália. Sempre perseguidos pelo Estado e pela Igreja, os autores destes livros, às vezes célebres personalidades, escondiam-se atrás de pseudónimos. Com frequência, os livros servem ao mesmo tempo como excitante sexual e sátira aos governantes, aos costumes e aos religiosos. É desse período a obra mais polémica da literatura erótica, a do Marquês de Sade.
No final do século XIX e início do XX assiste-se à perda dos limites entre alta literatura e erotismo. Escritores já não temem misturar aos seus temas elevados algumas cenas mais quentes. E alguns chegam mesmo a fazer do próprio sexo o aspecto central das suas obras, como em O Amante de Lady Chatterley, do inglês D. H. Lawrence, ou em Lolita, do russo Vladimir Nabokov.
Por vezes, com uma linguagem chocante e histórias escabrosas, os livros eróticos abordam alegrias, angústias e dramas da nossa sexualidade. Demonstram como o sexo se relaciona com uma rede de outros sentimentos. Apontam como a sexualidade pode ser manipulada por tiranos ou por religiosos a fim de escravizarem os seres humanos. Desmontam a hipocrisia das pessoas e das instituições, e ensinam como tirar maior prazer durante o acto sexual. Dissecam o modo como a sexualidade pode levar o homem a afrontar perigosamente os seus limites morais, e esclarecem tudo o que o erotismo tem de revolucionário para as pessoas.

terça-feira, novembro 28, 2006

Mário Cesariny, Portugal, 1923-2006


Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

novo poema

Entrar em casa
Ver-me nos espelhos
Nos vidros das janelas
Nas fotos

Ver-me nos livros que comprei
Nas flores que trouxe do jardim
Nas coisas por mim espalhadas
Ver-me a mim, apenas

E ao gato
Que dorme a aproveitar o resto do sol.

quinta-feira, novembro 23, 2006

coisas que têm de ser partilhadas

língua e linguagem

pois é, tenho lido muitas coisas. Algumas referem aspectos interessantes sobre a língua e a linguagem. Já postei uma, agora posto mais, devidamente identificadas:

« Dans un monde où le langage est encore doté d’un pouvoir magique, ce qui n’est pas nommé n’existe pas, seul ce qui est nommé a droit à l’existence.
(…)
La langue n’est pas seulement un élément de la culture, mais la condition même de son exercise. »

Sélim Abou, L’Identité Culturelle

« a língua não é só instrumento da vida de relação, de comunicação do pensamento mas também um quadro lógico e emocional de organização da experiência específica decorrente de determinada ambiência física e cultural.”

Onésimo Silveira, Consciencialização da Literatura Caboverdiana

As obras-primas da literatura

Numa aula de teoria da literatura II, teórica, trabalhámos um bocadinho este texto. foi engraçado perceber a visão completamente utilitarista e economicista de um homem sobre a literatura. mas também foi interessante tentar adivinhar os livros que fazem parte da tal lista de obras-primas... eu consegui decifrar nove dos onze livros, embora não os tenha lido todos...
aqui fica o texto, e vamos ver como andam de leituras!

Necessitei para certos assuntos que me dizem respeito, de conhecer o que os professores dos collèges chamam as «obras primas da literatura». Dei a um consagrado bibliotecário, que me asseguraram ser perfeito conhecedor delas, ordem para me organizar uma lista de obras, o mais restrita possível, e procurar-mas nas melhores edições. Assim que me vi de posse delas, não permiti a entrada de quem quer que fosse, e já não me levantei da cama.
As primeiras afiguram-se-me más e pareceu-me incrível que tais humbugs fossem realmente produtos de primeira qualidade do espírito humano. Aquilo que eu não compreendia parecia-me inútil; o que compreendia, não me agradava ou irritava-me. Género absurdo, aborrecido; talvez insignificante ou nauseabundo. Narrativas que, a serem verdadeiras, me pareciam inverosímeis, e, se inventadas, insulsas. Escrevi a um professor célebre da Universidade de W. a perguntar se aquela lista estava bem feita. Respondeu-me afirmativamente e deu-me algumas indicações. Tive coragem para ler aqueles livros todos, menos três ou quatro, que, logo às primeiras páginas, não pude suportar.
Hostes de homens, chamados heróis, que se estripavam durante dez anos a fio, sob as muralhas de uma pequena cidade, por culpa de uma velha seduzida; a viagem de um vivo à fossa dos mortos, com o fim de falar mal dos mortos e dos vivos; um doido héctico e um doido gordo que vão Mundo fora em busca de sovas; um guerreiro que perde o juízo por uma mulher e se diverte a arrancar azinheiros pelas selvas; um pulha cujo pai foi assassinado e que, para o vingar, faz morrer uma rapariga que o ama e outras personagens diversas; um diabo coxo que levanta os telhados de todas as casas para exibir as suas misérias; as aventuras de um homem de estatura média que faz de gigante entre os pigmeus e de anão entre os gigantes, sempre de modo inoportuno e ridículo; a odisseia de um idiota que, através de ridículas desventuras, sustenta que este Mundo é o melhor dos mundos possíveis; as peripécias de um professor demoníaco servido por um demónio profissional; a aborrecida história de uma adúltera provinciana que se enfastia e, por fim, se envenena; as surtidas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado de uma águia e de uma serpente; um rapaz pobre e febril que assassina uma velha e que depois – imbecil – nem sequer sabe aproveitar um álibi e acaba por cair nas mãos da polícia.
Pareceu-me compreender, com o meu cérebro virgem, que essa literatura tão elogiada está ainda na idade da pedra – o que desiludiu até ao desespero. Escrevi a um especialista em poesia, que tentou humilhar-me, dizendo-me que aquelas obras valiam pelo estilo, pela forma, pela linguagem, pelas imagens e pelos pensamentos, e que um espírito educado podia experimentar com elas satisfações imensas. Respondi-lhe que, pela minha parte, obrigado a ler quase todos aqueles livros em traduções, a forma pouco me importava e que o conteúdo se me afigurava, como realmente é, antiquado, insensato, estúpido e extravagante. Gastei, sem o menor resultado, cem dólares com esta consulta.
Felizmente, conheci mais tarde alguns escritores novos que me confirmaram o meu juízo sobre aquelas velhas obras e deram-me a ler os seus livros, onde encontrei, entre muitas coisas obscuras, um alimento mais adequado aos meus gostos. Ficou-me, apesar de tudo, a dúvida de que a literatura talvez seja incapaz de decisivos aperfeiçoamentos. É muito provável que ninguém, dentro de um século, se dedique a uma indústria tão atrasada e pouco remuneradora.

G. Papini, Gog, ed. Livros do Brasil.
Sim, eu sei que o texto também levanta questões do desfasamento gosto/qualidade, da antiguidade/permanência e actualidade dos clássicos, etc e tal...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Senhores que podem morrer

Andam na noite da escrita
Como monges foragidos
Em silêncio.

Não os servirei.
Enquanto a morte vem e escolhe
Posso fugir

ou morrer com eles.

Top Feira das Publicações da FLUP

após quase três semanas de trabalho árduo e fantástico, aqui fica o TOP das vendas, com grande predominância das coisas que dizem respeito à literatura, ao professor e a Estudos Portugueses, claro.


1- Terminologia Linguística: das teorias às práticas
2- Colóquio Ibérico de Geografia
3- Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen
4- A Linguística na Formação do Professor de Português
5- Meditação Heideggeriana
6- Os Reinos Ibéricos na Idade Média
7- Sartre: um filósofo na literatura
8- Estudo Cartográfico de uma Viagem à Índia
9- Cartas de um Viajante Francês
10 – África Subsariana

Revistas da Flup

1 – História
2- Filosofia
3- Sociologia
4- Línguas e Literaturas
5- Geografia
6- Ciências e Técnicas do Património

Da música



Agora que tenho estado mais tempo em casa e nas viagens de cinco horas para Lisboa e mais cinco de regresso, tenho ouvido muita música. E há muitas coisas que me surpreendem por nunca ter reparado nelas, ao ouvir coisas que estavam guardadas no pc ou em cds que se amontoam um pouco na prateleira, agora ao lado do dvds do Expresso. A menina Lúcia Moniz teve um amadurecimento notável, do primeiro para o terceiro cd. Cada vez melhor, é certo. E Leva-me p’ra casa é um cd para ouvir com alguma atenção, sobretudo para quem gosta de ver algumas construções textuais: sucedem-se as comparações e algumas figuras inusitadas, e a imagem-obsessão do “ser tudo”/”ser nada” – a totalidade e proximidade de um espaço-tempo fora deles próprios. Destaque para Chuva (I), Leva-me p’ra casa, Não podes esquecer, e Tão perto (de ser tudo).
Outra surpresa foi Back to Basics de Christina Aguilera, uma lufada de ar fresco na carreira da moça.
Uma revitalização é também The Emancipation of Mimi, de Mariah Carey. Revitalização da sua carreira e credibilidade. E bem que algumas canções tenham letras bastante inconstantes (como a Get Your Number), Mariah conseguiu um álbum bastante coeso e forte, embora não recupere a máxima glória dos anos de 1995-97, dos álbuns Day Dream e Butterfly. Curiosamente, o álbum acaba por receber três grammys que foram negados aos álbuns referidos e muitos outros prémios, graças à fórmula de sucesso que foi We belong together: Melhor Interpretação Feminina R&B: We belong together, Melhor Canção R&B: We belong together e Melhor Álbum Contemporâneo de R&B: The Emancipation of Mimi, não recebendo, no entanto, os prémios das outras categorias: Melhor Canção Soul: Fly Like a Bird, Melhor Álbum e Disco do Ano, Melhor Canção do Ano (We belong together), melhor interpretação feminina poo (It´s like that). De destacar do cd, claro We belong together, Mine Again, I Wish you knew, Your girl do lado das mais calmas, e It´s like that, Shake it off, Get your number, To the floor do lado das mexidas. A versão Ultra Platinum DeLuxe inclui ainda quarto músicas bonus, como Don’t forget about us e um dvd com os vídeos dos quatro singles extraídos e o link para o vídeo do quinto. Óbvio estratagema comercial, mas para que é fã é óptimo. Claro que Fly like a bird acaba por ser o grande monumento do álbum: uma poderosa música soul numa poderosa voz que usa e abusa espectacularmente das suas capacidades quase inesgotáveis.
E o que raio é a nova versão de Íris (dos Goo-Goo Dolls) agora cantada por Ronan Keating? É que nova versão é uma expressão mal usada: a música está praticamente igual, mas pior. A emoção desaparece, fica tudo muito melado e igual do início ao fim. O lado rock e forte da música e da voz, que arrebatavam nos momentos certos, desaparecem. É a única diferença. E o objectivo de um remake é fazer melhor, ou, pelo menos, diferente…
Volto sempre aos mesmos, que me têm acompanhado e que não me canso de ouvir: Jewel, James Blunt, Cold Play, Word Song, Diana Krall, Mariza, Mariah Carey, Keane, banda sonora da Amélie…
Por fim, e porque podia falar de muita outra coisa, de que talvez venha a falar, termino com Madonna. Mulher polémica para todas as polémicas, tem, no álbum Ray of Light o único que tenho e que vale a pena ter…) uma curiosidade: os minutos das músicas parecem ter uma qualquer significação cabalística ou coisa que o valha? Se não veja-se o jogo de correspondências entre 1-13, 2-12 e todas entre si…:

É por estas coisas que eu gosto do francês…

Si le langage laisse à désirer, il n’en est pas directement responsable. En réalité, que désignent-ils au juste, les mots ? A vrai dire, personne ne sait.

(adaptado de uns textos franceses que tive de ler...)

quinta-feira, novembro 02, 2006

ponto.

A mania que as pessoas pseudo-intelectuais têm de dizer que não se lê em Portugal é irritante, porque falsa. Se não se lê, porque surgem cada vez mais editores, livros, revistas e jornais todos os dias? Pode não se ler é o que se queria que se lesse, o cânone... Aponta-se, claro, à juventude e à infância o desinteresse pelo livro: por isso é que o Harry Potter vende mais do que a Bíblia, os livros de Sophia conhecem sucessivas edições, já para não falar em livros de aventuras: Uma Aventura, Viagens no Tempo, O Bando dos Quatro, O Clube das Chaves, Triângulo Jota, etc, e nos livros dos Morangos com Açúcar - pois é, preparem-se para os livros sa floriella! já para nã falar da leitura de blogs e sites, de filmes e séries, de uma panóplia de coisas que quem nos acusa, não tinha com tanta diversidade, oferta e acessibilidade. Tenho estudado nos últimos dezoito anos. Na Régua, no Porto e agora em Lisboa. Andei muito de comboio, metro e autocarro. Vi sempre, em cada viagem, pelo menos um jovem a ler, não necessariamente sobre a matéria de estudo, caso esse jovem fosse estudante. A semana passada, em Lisboa, vi no autocarro 45 uma mulher a ler Ensaio sobre a Lucidez, de Saramago. 1-0, ganham os adultos. No metro, vi um jovem a ler Uma Vida Imaginária, de David Malouf (que eu não conhecia…) e uma jovem a ler Cartas a Sandra, de Vergílio Ferreira. 1-2, ganham os jovens. Na estação do metro da Alameda uma rapariga lia A Cidade dos Deuses Selvagens, de Isabel Allende. 1-3. No terminal de autocarros da Rede Expresso um rapaz lia A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera, e ao lado uma rapariga lia Cortes, de Almeida Faria. 1-5. E junte-se eu, que, enquanto observava os leitores fervilhantes à minha volta, leitores do Expresso e do Público ou da Visão, e aqueles seres leitores de tão admiráveis obras, tinha pousado por momentos o Sagarana, de João Guimarães Rosa, que me andou a fazer companhia nos últimos dias.1-6.
já para não abordar aprofundadamente a actividade bloguística, o facto de haver cada vez mais gente escolarizada, de toda a gente ler as legendas nos filmes e nos jornais de tv e do crescente número de sites dedicados à poesia…
mas lisboa tem feiras do livro: na FLUL os livros da INCM a 40% de desconto, na gare do oriente e na estação do metro do jardim zoológico, livros de várias editoras de 10 a 20%. eu, claro, aproveitei.

quinta-feira, outubro 19, 2006

último post no porto...

antes de ir para o mestrado de lisboa, quero postar um poema de Pessoa (sim, eu leio Pessoa...), não por motivo nenhum em especial, mas é uma espécie de fechamento de um ciclo, ou dois. depois disto quem sabe o que aí vem e em que passagens nos vamos encontrar... por isso:

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longínquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

Fernando Pessoa, 21-11-1909

segunda-feira, outubro 16, 2006

Grandes Portugueses

o programa da rtp está a tentar eleger o maior português de sempre. há quem diga que é d. afonso henriques, embora na altura portugal ainda não existisse, outros acham que é vasco da gama, embora tenha tido a necessidade de partir daqui para a índia. pronto, agora a sério. as listas são um grande pónei, que têm nomes que valha-me Deus, sobretudo se virmos os que faltam. por exemplo, tem Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida mas não tem o Herman José, tipo... Tem Eugénio de Andrade mas não Sophia ou Ruy Belo. E Salazar no meio disto tudo? mas parece que a lista é apenas um início e que irá sendo construída aos poucos (não se admirem se aparecer o Tino de Rans (ou Rãs) ou o Claúdio Ramos).

agora mais a sério, o maior português... não é muito difícil. eu, claro que não, até porque sou muito pouco português de temperamento. não. o Pessoa, claro. se não foi o maior, pelo menos foi muitos, pelo menos 27, entre os quais: Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alexander Search, A. A. Crosse, Chevalier de Pas, Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher, António Mora, Vicente Guedes, Barão de Teive, Jean Seul, Bernardo Soares...

letras do porto

é triste deixar uma casa onde tanto cresci e vivi. cinco anos. mas mais triste é deixá-la com alguns vestígios de má impressão. primeiro, a praxe que agora nada me diz: é tarde, eu sei, mas acho-me anti-praxe, pelo menos aquela que se faz... não é necessário tanto tempo a massacrar os novatos(sim, porque o que tenho visto só por passar ao aldo são autenticos massacres intelectuais e secas descomunais. e os antigos se se dedicassem a coisas mais importantes talvez fossem um pouco melhores e um pouco mais felizes (além de acabarem os cursos mais rapidamente). depois, é ainda pior a falta de civismo das pessoas de letras ou que as frequentam: no seguinte à fantásticas festa do porco no espeto (ou qualquer coisa assim), podia ver-se: caixas de bolos sujas espalhadas pelas mesas da feira do livro, uma estante da feira totalmente desfeita, um extintor usado numa das estantes de vidro da livraria, a porta da casa de banho dos homens no piso um arrombada e... não se podia ver a caixa registadora do bar porque tinha desaparecido (assim ouvi dizer, que só vi o que podia ser visto).
enfim...

quarta-feira, outubro 11, 2006

Camões: mais do mesmo

A perfeição, a graça, o doce jeito,
A Primavera cheia de frescura
que sempre em vós florece, a que a ventura
e a razão entregaram este peito;
aquele cristalino e puro aspeito,
que em si compreende toda a fermosura,
o resplandor dos olhos e a brandura,
donde Amor a ninguém quis ter respeito;
s'isto, que em vós se vê, ver desejais,
como digno de ver-se claramente.
Por muito que de Amor vos isentais,
traduzido o vereis tão fielmente
no meio deste espírito onde estais
que, vendo-vos, sintais o que ele sente.

Embora este soneto não seja tão conhecido, quem o conhece associa-o a Camões. Pois é, também este soneto não é de Camões. foi-lhe atribuído nas edições de 1598, 1666, 1685, e nas de Juromenha e de Teófilo Braga. todos os outros editores o rejeitaram, sobretudo Aguiar e Silva (no estudo introdutório à reprodução fac-símile da edição de 1598 das Rimas). incertamente, o poema será de Dom Manuel de Portugal, segundo os cancioneiros de Luís Franco Correa e eborense (CXIV/2-2).
o soneto apresentado tem algumas diferenças, como se pode ver pela transcrição dos quatro primeiros versos:
A perfeição, a graça, o suave geito
a primavera chea de frescura
que florece em vós, que a ventura
e a rezão entregaram este peito (...)
(ver: Fardilha, Luís de Sá (1991). Poesia de D. Manoel de Portugal, Porto, FLUP)

terça-feira, outubro 10, 2006

desmistificação

A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;
o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do Sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;
enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está (se não te vejo) magoando.
sem ti, tudo me enoja e me aborrece,
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias mor tristeza.

Um soneto (sim, basta ler fazendo as pausas habituais...) sobejamente conhecido, de.... surpresa, o fantástico poeta do século XVI, Dom Manuel de Portugal!!! Pois é, Camões pode ter escrito muita coisa boa (e escreveu) mas este não é dele! pode ler-se no Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa (Ms. 8920) que é um "Soneto de dom Manoel de Portugal", e ainda há testemunhos da época da sua autoria. foi atribuído tardiamente a Camões em 1665, na edição Terceira Parte das Rimas de Camões, elaborado por Álvares da Cunha. Faria e Sousa não o incluiu nas Rimas Várias de 1685, mas nas edições oitocentistas volta a ser-lhe atribuído, bem como nas edições de J. M. Rodrigues e A. L. Vieira (1932), Hernâni Cidade, A. J. Costa Pimpão; A. Salgado Jr.
se a lírica de Camões suscita dúvidas, esta parece ter sido esclarecida por Gordon Jensen e António Cirurgião, nos quais Luís de Sá Fardilha se baseou para comprovar a autoria de Dom Manuel de Portugal.
(consultar: Fardilha, Luís de Sá (1991). Poesia de D. Manoel de Portugal, Porto, FLUP)

coisas de blog

se alguém veio cá ontem ou hoje, até esta hora, deve ter reparado em algumas mudanças. após umas experiências falhadas de colocar links, o meu blog ficou sem recent posts e sem os arquivos! pronto, tive de seleccionar novo template (que é o mesmo, claro) e tudo voltou ao normal, excepto o hit counter, que voltou ao zero por exigência do administrador, que avisou que já tinha excedido o número permitido de visitas!! (agora a sério, voltou ao zero porque eu sou um nabo nestas coisas e tive de fazer tudo de novo, logo agora que já estava perto dos oitocentos!!!).. enfim, para quem pouco percebe disto, até consegui alguma coisa...

inté

quinta-feira, outubro 05, 2006

Fernando Guimarães

Caminho

Há palavras que deixaram de nos pertencer. Alguém se refere
de novo ao seu significado, a alguns gestos que as percorreram
devagar, à proximidade de outras vozes. Mas o que persiste
há-de ser apenas o silêncio; ele vem agora ao teu encontro
para que não as esperes mais, como se fosse a tranquilidade
que encontramos no único caminho para onde agora te diriges.

Se essa sombra te acompanha é porque nela habitas