Não tenho trabalho, é certo. E não ganho dinheiro (ainda gasto o dos meus pais naquelas viagens fantásticas para Lisboa). No entanto, as feiras de livros na altura de Natal ainda me renderam mais alguns livros, no Natal ganhei uns euritos, e agora surgiu uma série de “fascículos”, cujas primeiras entregas são baratas e por isso se devem aproveitar. Desde os clássicos da Literatura Portuguesa da RBA (primeiro volume: €1.95 – Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco) até aos dvd’s de jazz da Planeta de Agostini (1-Louis Armstrong, 2-Diana Krall live in Paris a €9.95). Já estão comprados! Segue-se a colecção de romances históricos à la Código Da Vinci que são uma oferta (exacto, grátis) da Revista Sábado! Mas há para outros gostos: as bonecas de porcelana das heroínas dos romances mais importantes, curso de desenho e pintura, dvd’s do Tom Saywer, perfumes… E sempre gostei destas colecções: óptimas oportunidades de adquirir produtos interessantes a preços mais reduzidos. Pena que depois o preço triplique e aquelas colecções que gostávamos mesmo de fazer ficam para trás…
quinta-feira, janeiro 18, 2007
TLEBS
Segundo palavras na lista de rodapé do Jornal Nacional da TVI corre na internet uma petição contra a implementação das “novas regras da Língua Portuguesa”. 4.000 assinaturas já levam a questão à Assembleia da República. Não sabia que havia novas regras, que a língua estava assim a mudar tanto… Ou será que se referiam à TLEBS? É que se é isso, não são bem novas regras, são “apenas” novas designações ou formas de conhecimento. Algumas até são bastante bonitas e funcionam muito bem enquanto conceitos operatórios, embora não funcionem tão bem em contexto educativo.
Muito se tem escrito sobre a TLEBS e este texto não trará grandes novidades. Alguns defendem-na com unhas e dentes (como Maria Helena Mira Mateus e Inês Duarte, o que tem lógica, porque são partes intervenientes no documento) ou criticam-na, (Helena Carvalhão Buesco, Vasco Graça Moura, Maria Alzira Seixo e até o gato fedorento Ricardo Araújo Pereira – embora de uma forma cómica e caricatural, mas que não deixa de ser válida e interessante).
A TLEBS não pode ser apenas um conjunto mais ou menos operatório de conceitos de uma ciência, a Linguística, ainda que de língua falemos. Interessa ensinar a Língua e não Linguística. E o que interessa «transmitir a uma criança uma determinada metalinguagem, se ela ainda não domina a funcionalidade dos termos que integram a linguagem que usa todos os dias?» (G. Pinto, Saber Viver a Linguagem, p.35). O problema começa com a inadequação ao público-alvo: não são os professores (por muito que custe a alguns, lá acabam por se actualizar quando é mesmo necessário e obrigatório e percebem os novos conceitos) mas sim os alunos, que não desde os seis aos dezoito – com todas as mudanças que ocorrem entre uma altura e outra, sem haver propriamente uma distinção concreta de que «termos» terão os alunos de decorar em cada ano. Porque será decorar, já que algumas das novas designações não têm uma relação muito óbvia, para o que designam, para os alunos, que poderão ser questionados sobre elas em exame nacional! Ou talvez não, mas mais vale precaver…
A verdade é que o documento está em experimentação, irá ser reformulado, mas também está dominado por uma teoria específica da ciência da Linguística, exceptuando o que a Literatura, a Filosofia ou a Lógica poderiam ter como contributos para a questão. Poderá ser benéfica para os alunos, para a qualificação educativa? Ensinará os alunos a manipular a sua língua na sua componente oral e escrita, no seu funcionamento e na sua dimensão estética e lúdica? É óbvio que um documento desta natureza é necessário para actualizar e uniformizar algumas questões, mas o trabalho está no início e começou torto. Mais uma vez serão professores e alunos as cobaias de uma experiência mal conduzida.
Só por curiosidade, num manual do 7.º ano são apontados como «Conhecimento Explícito da Língua» a explorar os seguintes termos, entre outros: coerência e coesão, modificadores, complemento preposicional e adverbial, nome epiceno, sobrecomum, comum de dois (quando eles ainda têm dúvidas sobre nomes comuns, concretos e abstractos)… Nada de muito complicado para os professores, mas quanto aos alunos, que nessa altura ainda dizem coisas como «quem é o espaço?» ou «pomar é um conjunto de mares», já será menos certo… Uma boa dose de bom-senso, muito investimento e sensibilidade terão de estar na atitude do professor de Língua Portuguesa e Português, para que não se torne num potencial professor de Linguística.
Textos dos autores referidos:
Buesco, Helena Carvalhão, «TLEBS E DISCUSSÕES», Jornal Público, 29 de Novembro de 2006
Mateus, Maria Helena Mira, «Terminologias: a Nova e a Antiga», Jornal Público, 29 de Novembro de 2006
Marques, C.; Silva, I.; Ferreira, P.; Silva, F., Oficina da Língua 7, Porto, Edições Asa, 2006
Pereira, Ricardo Araújo, «Metam os epicenos no advérbio disjunto», Revista Visão, 15 de Novembro de 2006
Seixo, Maria Alzira, «A Nova Terminologia Linguística», Revista Visão, 28 de Outubro de 2006
adenda: http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_8.html (e outras páginas que descobri agora, com uma série de textos interessantes para a discussão).
terça-feira, janeiro 09, 2007
Magnífico Caos
Um dos meus projectos este ano é escrever um conto todas as semanas, sem falhar. como tal, já escrevi dois. O primeiro é «Casa dos corações partidos», este é o segundo, e gosto muito dele. do outro também, mas não vou publicá-lo aqui, para já... como não vou publicá-los todos... enfim, depois gostava de alguma reacção... ou não...
**********************************************
Gostei muito do livro, tinhas razão, vale mesmo a pena. Parece que tem tantas páginas que até se tem pena que acabem depois. Mas o livro tinha uma coisa a mais. Olhou para mim, de só movendo a cabeça, como que receando que essa coisa fosse algo comprometedor. O que era? Oh, era areia, mais nada, está sossegado. Ah, pois! Eu li o livro quando estava de férias na praia, em Setembro há uns anos atrás. Hum… E já na altura gostei imenso dele, andava sempre com ele, depois, com outras obrigações nunca mais lhe peguei… Mas também não lhe irias tirar a areia… Pois, provavelmente não, gosto de guardar coisas nos livros, tipo recordações dos sítios e dos tempos em que os li: papéis dos chocolates que comi ao ler alguma passagem mais quente, pétalas de rosas quando lia passagens românticas, areia quando lia na praia, folhas quando lia no jardim, cartas, poemas, escritos que escrevi a propósito de alguma coisa lida, às vezes até no próprio livro, nas margens… Enquanto ele falava olhava à minha volta, com emoção da possibilidade de encontrar um tesouro no meio de todos aqueles livros e descobrir muito mais da vida dele do que alguma vez me diria…Mas o que não quer dizer sequer que tenham essa lógica, pode estar tudo baralhado… Como assim? Sei lá, olha, uma carta que está neste livro posso tê-la recebido e lido quando estava a ler outro livro, mas esse podia estar à mão e calhou ir para lá… se calhar não guardo as coisas, perco-as… Bem, o conhecimento não seria tão profundo, mas ainda assim possível. Então, um pouco a medo e só para ver no que dava, pedi mais três livros emprestados. Quando cheguei a casa o coração descompassado centrou-se nas muitas páginas dos romances. No primeiro havia um fio azul de linha, no segundo um marcador de livros, no terceiro nada, no quarto alguns rabiscos incompreensíveis e uma folha de plátano seca. Nada mais. Para não dar demasiado nas vistas, esperei uma semana até os devolver. Quando entrei na sala dele tive a sensação de ser o centro da atenção dos livros, como se me estivessem a ler, já que eu agora recusava lê-los, a não ser o que as mãos dele tivessem escrito neles. A tentação de devassar aquele tesouro desordenado e caótico era maior que a minha prudência e não resisti a abrir uns quantos enquanto ele preparava um chá. Encontrei algumas coisas que não li no momento, preferi guardá-las na minha capa, com a firme intenção de devolver logo que as tivesse lido. Sim, amanhã já estariam nos seus sítios, ou mais ou menos, porque ao olhar para a estante fiquei sem saber de onde as tinha tirado. O chá foi rápido e corri, sem trazer mais livro nenhum, nada. O tesouro devassado, uma mínima parte jazia em cima da minha cama e não tive coragem de o possuir. Nessa mesma noite voltei e consegui deixar tudo no meio de livros que fingia interessarem-me muitíssimo. Até que um deles tinha uma fotografia de uma mulher bonita, com um vestido perto decotado, com uma cabeleira ruiva encaracolada, e no verso estava escrito um nome e um beijo. Foi como que um baque súbito e forte. Com uns ciúmes doidos, propus-lhe organizar a sua biblioteca toda, retirar as coisas perdidas e guardá-las numa caixa e talvez confrontá-lo. Recusou, como seria de esperar. Mas isso assim não tem utilidade nenhuma, quando procurares uma coisa nunca a encontrarás! Elas acabam sempre por aparecer. Mas tu emprestas livros a toda a gente, elas podem ler ou ver alguma coisa… pessoal, secreta… Não tenho segredos… Baixei os olhos, toda a gente tem segredos. E pensei em perguntar quem era aquela mulher. Que papel tinha na sua vida. Mas faltou a coragem. Se bem que ando à procura de uma foto que só pode estar num livro. Uma foto? Sim, de uma amiga, é a melhor foto dela e pediu-ma para fazer uma cópia porque perdeu a dela. Talvez fosse a verdade, não sei. Não vi nada nos livros que me emprestaste… Pois, vou então procurar, mas amanhã, queres vir ajudar-me? Aceitei, mas vinha só de tarde. À tarde, quando cheguei, era já demasiado tarde, embrenhado nos seus livros e leituras, coisas e memórias, fora engolido pelo caos.
Gostei muito do livro, tinhas razão, vale mesmo a pena. Parece que tem tantas páginas que até se tem pena que acabem depois. Mas o livro tinha uma coisa a mais. Olhou para mim, de só movendo a cabeça, como que receando que essa coisa fosse algo comprometedor. O que era? Oh, era areia, mais nada, está sossegado. Ah, pois! Eu li o livro quando estava de férias na praia, em Setembro há uns anos atrás. Hum… E já na altura gostei imenso dele, andava sempre com ele, depois, com outras obrigações nunca mais lhe peguei… Mas também não lhe irias tirar a areia… Pois, provavelmente não, gosto de guardar coisas nos livros, tipo recordações dos sítios e dos tempos em que os li: papéis dos chocolates que comi ao ler alguma passagem mais quente, pétalas de rosas quando lia passagens românticas, areia quando lia na praia, folhas quando lia no jardim, cartas, poemas, escritos que escrevi a propósito de alguma coisa lida, às vezes até no próprio livro, nas margens… Enquanto ele falava olhava à minha volta, com emoção da possibilidade de encontrar um tesouro no meio de todos aqueles livros e descobrir muito mais da vida dele do que alguma vez me diria…Mas o que não quer dizer sequer que tenham essa lógica, pode estar tudo baralhado… Como assim? Sei lá, olha, uma carta que está neste livro posso tê-la recebido e lido quando estava a ler outro livro, mas esse podia estar à mão e calhou ir para lá… se calhar não guardo as coisas, perco-as… Bem, o conhecimento não seria tão profundo, mas ainda assim possível. Então, um pouco a medo e só para ver no que dava, pedi mais três livros emprestados. Quando cheguei a casa o coração descompassado centrou-se nas muitas páginas dos romances. No primeiro havia um fio azul de linha, no segundo um marcador de livros, no terceiro nada, no quarto alguns rabiscos incompreensíveis e uma folha de plátano seca. Nada mais. Para não dar demasiado nas vistas, esperei uma semana até os devolver. Quando entrei na sala dele tive a sensação de ser o centro da atenção dos livros, como se me estivessem a ler, já que eu agora recusava lê-los, a não ser o que as mãos dele tivessem escrito neles. A tentação de devassar aquele tesouro desordenado e caótico era maior que a minha prudência e não resisti a abrir uns quantos enquanto ele preparava um chá. Encontrei algumas coisas que não li no momento, preferi guardá-las na minha capa, com a firme intenção de devolver logo que as tivesse lido. Sim, amanhã já estariam nos seus sítios, ou mais ou menos, porque ao olhar para a estante fiquei sem saber de onde as tinha tirado. O chá foi rápido e corri, sem trazer mais livro nenhum, nada. O tesouro devassado, uma mínima parte jazia em cima da minha cama e não tive coragem de o possuir. Nessa mesma noite voltei e consegui deixar tudo no meio de livros que fingia interessarem-me muitíssimo. Até que um deles tinha uma fotografia de uma mulher bonita, com um vestido perto decotado, com uma cabeleira ruiva encaracolada, e no verso estava escrito um nome e um beijo. Foi como que um baque súbito e forte. Com uns ciúmes doidos, propus-lhe organizar a sua biblioteca toda, retirar as coisas perdidas e guardá-las numa caixa e talvez confrontá-lo. Recusou, como seria de esperar. Mas isso assim não tem utilidade nenhuma, quando procurares uma coisa nunca a encontrarás! Elas acabam sempre por aparecer. Mas tu emprestas livros a toda a gente, elas podem ler ou ver alguma coisa… pessoal, secreta… Não tenho segredos… Baixei os olhos, toda a gente tem segredos. E pensei em perguntar quem era aquela mulher. Que papel tinha na sua vida. Mas faltou a coragem. Se bem que ando à procura de uma foto que só pode estar num livro. Uma foto? Sim, de uma amiga, é a melhor foto dela e pediu-ma para fazer uma cópia porque perdeu a dela. Talvez fosse a verdade, não sei. Não vi nada nos livros que me emprestaste… Pois, vou então procurar, mas amanhã, queres vir ajudar-me? Aceitei, mas vinha só de tarde. À tarde, quando cheguei, era já demasiado tarde, embrenhado nos seus livros e leituras, coisas e memórias, fora engolido pelo caos.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
coisas antigas
No Diz Que É Uma Espécie de Magazine há uma parte intitulada "Arca dos Tesourinhos Deprimentes da TV Portuguesa". Eu também tenho, mas é um caderno, e se são deprimentes ou não it's up to you.
Óscares EP – 2003
Melhor Filme – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Actor – Tiago – O Amor Aconteceu e Ninguém Soube
Melhor Actriz – Susana – Depress: a morta viva
Melhor Actor S. – Edgar – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Actriz S. – Ana Luísa – The Christmas Party
Melhor Realizador – Fardilha e Ana Paula Quintela – Os Chumbos do Ano
Melhor Argumento Original – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Argumento Adaptado – Eu Sou Uma Santa (Verde)
Melhor Canção – Serenatas a Ninguém, outra vez, em Depress: a morta-viva
Melhor Banda Sonora – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Fotografia – Il Ragazzo de Marta
Melhor Efeitos Especiais/Visuais – O Penteado do Ano (Rui)
Melhor Montagem – O Amor Aconteceu e Ninguém Soube
Melhor Montagem de Som – Cavaquinhos no Bar
Melhor Som – Joana em Tira daí as mãos
Melhor Maquilhagem – Pedro Tavares em Os Piores dentes do Mundo
Melhor Guarda-Roupa – Sameiro Araújo em Economia Psicológica
Melhor Filme Estrangeiro – Il Ragazzo de Marta
Melhor Direcção Artística – Marisona em Quinta-Feira Negra
Melhor Curta-Metragem – Os Dias Felizes da Nossa Vida
Melhor Documentário – EP em Busca dos Livros Esgotados
Melhor Filme de Animação – Cuquinha
Melhor Anúncio Comercial – Atum Cuca
Prémio Carreira – Natacha (pela sua carreira cinematográfica em EP)
Prémio Especial do Público – Susana em A Multa
Prémio Especial do Júri – Tuna Feminina em As Boazonas do Pedaço
Prémios EP
Prémio Vidas Reais – José Alves
Black Power – Marisona
Eu estou bem (mal) – Susana
Look original – Rui
Decote bombástico – Joana
Miss Estrangeira – Marta
Ciao – Diana
Faço o Curso sem aulas – Susana
Os Pacientes Intermináveis - Verde e Tiago
Este ano é que vai ser! – Ana Luísa
Há sempre Setembro (e Dezembro) – Constantina
Ponto de Encontro – Bar da FLUP
Maior Quantidade de Panfletos – Juventude Comunista
Consigo dizer isto cem vezes – Fardilha
Crentes do Ano – Tiago, Verde, Ana Luísa, Marisa
Adoro o meu instrumento – Bruna
E tudo se eclipsou – Fardilha
Aulas mais secas do ano – não atribuído devido a excesso de candidatos com muita qualidade
Eu é que visto bem e barato – Sameiro Araújo
Eu já li esse livro – Tiago
Eu tenho isso em casa – Ana Luísa
Patroa do Pedaço – Susana Alegria
Sorriso Discreto – Ana Cabral
Amiga Colorida – Ana Verde
Oh, que eu leio tão devagar – Patrícia
Vaquinha Fofinha – Patrícia
Caloira até ao Fim – Natacha
Saraivada – Sílvia
Fardilhosa – Ana Cabral
Brandão e Andrade – Lena
Mato-me ou mato-me – Susana
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Despedida
de resto
não te esqueças de me
devolver
a minha parte
dos nossos sonhos
pois nós tínhamo-
- los em
comum
sonhado
ou
Hans Georg Bulla
não te esqueças de me
devolver
a minha parte
dos nossos sonhos
pois nós tínhamo-
- los em
comum
sonhado
ou
Hans Georg Bulla
quarta-feira, dezembro 20, 2006
poema de natal deste ano

Natal Africano
Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou se diz… Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.
Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.
Cabral do Nascimento
poema de natal do ano passado

A estrela
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava
Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada
A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava
Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu
E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava
E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medoNos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava
E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada
Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava
E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza
Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado
Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto».
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto
terça-feira, dezembro 19, 2006
Hereto-ironia
Não te falarei de mim e nem das minhas coisas
Não te guardarei mais no peito
Nem me guardarás mais dentro de ti
Nem os meus braços te farão sombras.
Não verás os dias da minha glória
Não saberás os meus novos sonhos e medos
Projectos novos e antigos feitos ou não.
Não os partilharei contigo.
Não me farás maior do que sou
Ou menor.
Não me vais proteger de nada, não preciso.
As cartas velhas não serão mais lidas
As músicas deixam de ter sentimentos
Figuradamente a elas associados.
Nem gelo, nem amoras nem velas
Não as terás comigo, nem eu contigo
Não haverá mais partilha de vida.
Nem festas, nem cócegas, nem carícias
Nem gestos, nem livros nem casa partilhada.
E se puder, nem o dia da minha morte verás.
Mas podemos tentar ser amigos, se insistes.
Não te guardarei mais no peito
Nem me guardarás mais dentro de ti
Nem os meus braços te farão sombras.
Não verás os dias da minha glória
Não saberás os meus novos sonhos e medos
Projectos novos e antigos feitos ou não.
Não os partilharei contigo.
Não me farás maior do que sou
Ou menor.
Não me vais proteger de nada, não preciso.
As cartas velhas não serão mais lidas
As músicas deixam de ter sentimentos
Figuradamente a elas associados.
Nem gelo, nem amoras nem velas
Não as terás comigo, nem eu contigo
Não haverá mais partilha de vida.
Nem festas, nem cócegas, nem carícias
Nem gestos, nem livros nem casa partilhada.
E se puder, nem o dia da minha morte verás.
Mas podemos tentar ser amigos, se insistes.
Momento Húmus
Um rosto disforme
Um aspecto grotesco
O people com fome
Com falta de ar fresco
(...)
refrão:
pedes-me a pistola
acertas a pontaria
pedes-me as balas
porque elas são importantes
levas a pistola
entre os teus dedos
matas a R.
porque todos to pedem
(…)
Um aspecto grotesco
O people com fome
Com falta de ar fresco
(...)
refrão:
pedes-me a pistola
acertas a pontaria
pedes-me as balas
porque elas são importantes
levas a pistola
entre os teus dedos
matas a R.
porque todos to pedem
(…)
Uma criação conjunta com a Ana Verde, em 2003. Para cantarolar com a música de Pedro Abrunhosa...
All I want for Christmas is… ME
O antigo eu, aquele que via no Natal algo mais. Este ano estou com uma descrença nas coisas tradicionais. Nos anos anteriores não era quem fazia decorações porque não estava em casa. Agora estou e também não fui eu quem os fiz, não fui convocado nem para uma única opinião. As luzes de natal em Lisboa não foram muito mais do que isso, luzes, bonitas mas não são as minhas, as das minhas raízes. Também não comprei os presentes, foi a minha irmã sozinha no Porto. Não nada. A festa vai ser me casa da minha avó, como sempre. Vinte e duas pessoas (porque já vieram quatro do Brasil em Setembro, vêm agora mais quatro, também do Brasil, definitivamente.). Mas nem a família é já a mesma, porque a agora que estou mais cá apercebo-me e contam-me coisas que me envergonham de alguns deles. Nem os cd de Natal rodam tanto, nem o a All I Want For Christmas faz grande sentido este ano. Nem a leitura da antologia de Natal traz aquele espírito de alegria… Talvez também não queira. A ceia assemelha-se-me uma coisa pesada e sensaborona, os doces já não em encantam há muito, tirando os sonhos. As prendas do costume, a missa à noite (a que só vou eu e a minha madrinha), as discussões mais ou menos amenas, o calor infernal da sala cheia de gente e com lume que me faz aparecer frieiras nos dedos. Estou um pouco cansado disto, mas também não pode ser de outra maneira.
terça-feira, dezembro 12, 2006
Natal em Lisboa
terça-feira, dezembro 05, 2006
Canção das noites e dos dias

I get along without you very well
(in: The Look Of Love, Diana Krall)
I get along without you very well
Of course I do
Except when soft rains fall
And drip from leaves, then I recall
The thrill of being sheltered in your arms
Of course, I do
But I get along without you very well
I´ve forgotten you just like I should
Of course I have
Except to hear your name
Or someone´s laugh that is the same
But I´ve forgotten you just like I should
What a guy, what a fool am I
To think my breaking heart could kid the moon
What´s in store? Should I phone once more?
No, it´s best that I stick to my tune
I get along without you very well
Of course I do
Except perhaps in spring
But I should never think of spring
For that would surely break my heart in two
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Chove
Chove lá fora e chove em mim.
Representação das coisas dadas como certas
E naturais e que incomodam
Como se andássemos nelas.
Chove como nos poemas de Pessoa.
Chove continuamente sobre malmequeres
Mas também no interior e não é natural.
«Se ao menos chovesse menos»!
Representação das coisas dadas como certas
E naturais e que incomodam
Como se andássemos nelas.
Chove como nos poemas de Pessoa.
Chove continuamente sobre malmequeres
Mas também no interior e não é natural.
«Se ao menos chovesse menos»!
Fazem-me falta

As conversas sobre tudo e nada no bar fumarento da faculdade. As aulas e as facadas no peito por ouvir a mesma coisa pela milionésima vez. As colegas de trabalhos e estudo intermináveis, sobretudo na esplanada a apanhar sol ou na biblioteca, a fingir que se lê Bakhtine, até que tem mesmo de ser ler. As cadeiras da BM Almeida Garrett, donde vi a grande paixão secreta da minha vida. As crianças sentadas à minha frente ou ao meu lado. As garrafas no cemitério do saxo da Su. As gaivotas assassinas e os gatos traiçoeiros. A minha senhoria, apesar de um pouco chata. As comidas vegetarianas da cantina, como o rolo de carne fingido. As músicas meio tocadas meio cantadas da Tuna. As chatices da secretaria. As idas a outras terras: Braga, Montalegre, Monte Clérigo, Lisboa, Sr.ª da Hora, – com o pessoal do costume, mais ou menos. As vistas fantásticas da minha varanda da residência. As árvores e os bancos do Palácio de Cristal. As ruas de Cedofeita, Miguel Bombarda, D. Pedro V, Torrinha, Boa Hora, Campo Alegre… A alegria e luz da Verde, a disciplina da Ana Luísa, a loucura especial da Consti, a loucura stressada e preguiçosa da Su, a doçura da Patrícia, a evasão sonhadora da Milai, a diplomacia da Diana, a contrariedade do Rui, a aparente soturnidade da Lena, as meninas fantásticas da Casa da Purificação, a serenidade da Dénia, a bondade da Alexandrina, a estilosidade da Ana Cabral, as obsessões da Bruna (Jostas, também conhecida como Jamila…), as músicas ternas da Bruna Mateus, as desconversas inseguras e inteligentes da Celine, o para além do visível do Edgar, a evolução da Eva, a flor que é a Alexandra, a simplicidade concreta da Helena e da Lara, a loucura alegre da Joaninha (e suas gargalhadas), as conversas com a Joana do árabe do medieval, a música da voz da Joana Patrícia, a sabedoria encoberta da Lídia, o francesismo da Natália, a estranheza do Nelson, a cumplicidade trabalhadora da Rute, as caras estranhas nas aulas de Brasileira da Síndia, as experiências teatrais com as duas Anas Catarinas, o primeiro contacto com os bifásicos com a Susana Melgaço, a determinação da Mariza (e a minha admiração por ela), a amizade amorosa e inteligente da Marta… As idas à Fundação Eugénio de Andrade. As demandas pelos livros esgotados, os alfarrabistas. As prendas colectivas que demoravam duas horas a planear, meia para executar e que saíam sempre ao lado do projecto. As sessões de cinema – a sério ou em casa de alguns – de Moulin Rouge a Asas do Desejo. As festas de aniversário no Por Amor à Arte ou com as deliciosas comidas das donas Manuelas e da avó da Marta, e das tentativas da Milai e da Mónica (estou a brincar). As descobertas de línguas, culturas e literaturas diferentes e inesperadas. As figuras risíveis na praxe. As idas ao teatro, sobretudo S. João e Carlos Alberto (quase sempre com a magia da gratuidade dos bilhetes). as professoras e o professor da minha vida. As músicas pimba no saxo (quando não eram gravações dos exercícios de acordeão…) e as eruditas na aparelhagem da Marta. As emoções da primeira vez que trajámos. As noites loucas da Queima (não, quem é que eu quero enganar? Risquem esta). A pseudo-serenata da Tuna Feminina (grandes Susana Alegria e Natacha). As risadas da Áurea. As ocasiões raras com a Liliane e a História. As viagens de audi e smart. As andanças no S. João. As dormidas a três (e mais) no quarto da Su. As coisas que a Marta é. Tanta coisa faz falta que não é possível ordenar textualmente nem na geografia do coração. Mas fazem-me ainda falta as mãos, as tuas, com que me redemoinhavas o cabelo enquanto lutava para não adormecer, para que continuasses mais tempo. As mãos de que uma vez disse: “Como falar das mãos que nos rodeiam e nos prendem para sempre? Ou dos lábios que nos beijam como se fossem palavras eternas?”.
Tu ainda me fazes falta.
Tu ainda me fazes falta.
(nota: não tentei reduzir as pessoas a uma simples característica, mas talvez seja a mais dominante ou aquela que mais falta me faz...)
quinta-feira, novembro 30, 2006
Explicação e demanda…
não é que eu acredite muito em signos e assim, sobretudo nos horóscopos feitos para o dia e semana com previsões. mas estas descrições gerais (e talvez por serem gerais) ficam-me que nem luvas nos dias de inverno. a descrição do meu signo (gémeos) não podia ser mais exacta... nem a de escorpião (antigo), e do sagitário (o compatível...)


O Erótico e o Pornográfico

Esbocemos uma distinção entre o denominado erótico e o denominado pornográfico. Trata-se de duas coisas totalmente diferentes. Podem até ter um certo objectivo comum: a elevação do ser humano para o tema do amor, do desejo e do sexo, mas usam linguagens totalmente opostas.
O termo “erótico” vem da palavra grega “erotikos”, que, por sua vez, derivou de outra palavra grega que significa amor – “eros”-, ao passo que a “pornografia” deriva de “pornographos”, palavra grega que quer dizer “escrever sobre prostitutas”.
Geralmente mais grosseira, mecânica e mais explícita do que o material erótico, a pornografia não se esforça por criar histórias credíveis ou um contexto adequado às representações sexuais. O material erótico é menos implícito, mas muito mais fantasioso, poético. Não mostra tudo, preto no branco, o que permite que a imaginação humana explore outros campos e trabalhe por si mesma, atingindo níveis ainda mais interessantes de prazer literário do que com uma linguagem mais explicita.
Em certos dicionários, erótico tem como sinónimo o “amor sensual”, o “lascivo”, enquanto que o pornográfico tem, como sinónimo a “devassidão”, “assuntos e actos obscenos”, “impúdico”.E o que se passa na literatura, passa-se, a meu ver, igualmente, nos outros campos da arte, até porque o erótico é socialmente aceite, enquanto que o pornográfico está ainda dentro de um certo tabu difícil de ultrapassar. No campo da Literatura os limites de um e outro são mais fáceis de esbater, prevalecendo uma outra distinção ténue: o que tem qualidade literária e o que não tem essa qualidade.
Hoje em dia temos uma relação bastante contraditória em relação às obras literárias eróticas. Nunca tivemos tanto acesso à pornografia, sobretudo com o aparecimento e desenvolvimento da Internet. O erotismo literário, no entanto, permanece tão marginal como sempre foi e será. Mas, numa sociedade como a nossa em que cada vez se dá maior importância à imagem, quase toda a obscenidade é convertida para as imagens. Assim, com tantas imagens explícitas à disposição, a literatura obscena deixou de ser o principal estímulo erótico das pessoas, como foi nos tempos antigos.
Entre as civilizações clássicas, foram os gregos que melhor colocaram a expressão literária ao serviço do homem, em peças, poemas e diálogos filosóficos. Na comédia Lisístrata, de Aristófanes, por exemplo, as mulheres fazem uma greve sexual contra os maridos. A poetisa Safo cantou o amor, sobretudo, ao que perece pelos poucos fragmentos que até nós chegaram, o lésbico. O filósofo Platão definiu as formas de amar em O Banquete. Os romanos continuaram o trabalho dos gregos, em obras como A Arte de Amar, de Ovídio, e Satyricon, de Petrónio, tornando-se cada vez mais escabrosos, até que a expansão do cristianismo acabasse com a farra.
A partir daí, o sensualismo clássico caiu em decadência. E, pouco a pouco, a literatura erótica entrou para a clandestinidade e, de certa forma, permanece até hoje. O que não quer dizer, porém, que ela tenha deixado de circular de mão em mão, ou de boca em boca. Histórias, versos e escritos eróticos correram a Europa durante a Idade Média e, finalmente, no Renascimento, voltaram a ter grande expressão, como nos poemas apimentados de Aretino ou em algumas histórias picantes do Decameron, de Boccaccio.
Depois da invenção da imprensa, em 1455, deixou de ser possível controlar a difusão de livros eróticos pelo mundo, pelo que a partir dos séculos XVII e XVIII, proliferaram pela Europa, provenientes sobretudo de França e de Itália. Sempre perseguidos pelo Estado e pela Igreja, os autores destes livros, às vezes célebres personalidades, escondiam-se atrás de pseudónimos. Com frequência, os livros servem ao mesmo tempo como excitante sexual e sátira aos governantes, aos costumes e aos religiosos. É desse período a obra mais polémica da literatura erótica, a do Marquês de Sade.
No final do século XIX e início do XX assiste-se à perda dos limites entre alta literatura e erotismo. Escritores já não temem misturar aos seus temas elevados algumas cenas mais quentes. E alguns chegam mesmo a fazer do próprio sexo o aspecto central das suas obras, como em O Amante de Lady Chatterley, do inglês D. H. Lawrence, ou em Lolita, do russo Vladimir Nabokov.
Por vezes, com uma linguagem chocante e histórias escabrosas, os livros eróticos abordam alegrias, angústias e dramas da nossa sexualidade. Demonstram como o sexo se relaciona com uma rede de outros sentimentos. Apontam como a sexualidade pode ser manipulada por tiranos ou por religiosos a fim de escravizarem os seres humanos. Desmontam a hipocrisia das pessoas e das instituições, e ensinam como tirar maior prazer durante o acto sexual. Dissecam o modo como a sexualidade pode levar o homem a afrontar perigosamente os seus limites morais, e esclarecem tudo o que o erotismo tem de revolucionário para as pessoas.
O termo “erótico” vem da palavra grega “erotikos”, que, por sua vez, derivou de outra palavra grega que significa amor – “eros”-, ao passo que a “pornografia” deriva de “pornographos”, palavra grega que quer dizer “escrever sobre prostitutas”.
Geralmente mais grosseira, mecânica e mais explícita do que o material erótico, a pornografia não se esforça por criar histórias credíveis ou um contexto adequado às representações sexuais. O material erótico é menos implícito, mas muito mais fantasioso, poético. Não mostra tudo, preto no branco, o que permite que a imaginação humana explore outros campos e trabalhe por si mesma, atingindo níveis ainda mais interessantes de prazer literário do que com uma linguagem mais explicita.
Em certos dicionários, erótico tem como sinónimo o “amor sensual”, o “lascivo”, enquanto que o pornográfico tem, como sinónimo a “devassidão”, “assuntos e actos obscenos”, “impúdico”.E o que se passa na literatura, passa-se, a meu ver, igualmente, nos outros campos da arte, até porque o erótico é socialmente aceite, enquanto que o pornográfico está ainda dentro de um certo tabu difícil de ultrapassar. No campo da Literatura os limites de um e outro são mais fáceis de esbater, prevalecendo uma outra distinção ténue: o que tem qualidade literária e o que não tem essa qualidade.
Hoje em dia temos uma relação bastante contraditória em relação às obras literárias eróticas. Nunca tivemos tanto acesso à pornografia, sobretudo com o aparecimento e desenvolvimento da Internet. O erotismo literário, no entanto, permanece tão marginal como sempre foi e será. Mas, numa sociedade como a nossa em que cada vez se dá maior importância à imagem, quase toda a obscenidade é convertida para as imagens. Assim, com tantas imagens explícitas à disposição, a literatura obscena deixou de ser o principal estímulo erótico das pessoas, como foi nos tempos antigos.
Entre as civilizações clássicas, foram os gregos que melhor colocaram a expressão literária ao serviço do homem, em peças, poemas e diálogos filosóficos. Na comédia Lisístrata, de Aristófanes, por exemplo, as mulheres fazem uma greve sexual contra os maridos. A poetisa Safo cantou o amor, sobretudo, ao que perece pelos poucos fragmentos que até nós chegaram, o lésbico. O filósofo Platão definiu as formas de amar em O Banquete. Os romanos continuaram o trabalho dos gregos, em obras como A Arte de Amar, de Ovídio, e Satyricon, de Petrónio, tornando-se cada vez mais escabrosos, até que a expansão do cristianismo acabasse com a farra.
A partir daí, o sensualismo clássico caiu em decadência. E, pouco a pouco, a literatura erótica entrou para a clandestinidade e, de certa forma, permanece até hoje. O que não quer dizer, porém, que ela tenha deixado de circular de mão em mão, ou de boca em boca. Histórias, versos e escritos eróticos correram a Europa durante a Idade Média e, finalmente, no Renascimento, voltaram a ter grande expressão, como nos poemas apimentados de Aretino ou em algumas histórias picantes do Decameron, de Boccaccio.
Depois da invenção da imprensa, em 1455, deixou de ser possível controlar a difusão de livros eróticos pelo mundo, pelo que a partir dos séculos XVII e XVIII, proliferaram pela Europa, provenientes sobretudo de França e de Itália. Sempre perseguidos pelo Estado e pela Igreja, os autores destes livros, às vezes célebres personalidades, escondiam-se atrás de pseudónimos. Com frequência, os livros servem ao mesmo tempo como excitante sexual e sátira aos governantes, aos costumes e aos religiosos. É desse período a obra mais polémica da literatura erótica, a do Marquês de Sade.
No final do século XIX e início do XX assiste-se à perda dos limites entre alta literatura e erotismo. Escritores já não temem misturar aos seus temas elevados algumas cenas mais quentes. E alguns chegam mesmo a fazer do próprio sexo o aspecto central das suas obras, como em O Amante de Lady Chatterley, do inglês D. H. Lawrence, ou em Lolita, do russo Vladimir Nabokov.
Por vezes, com uma linguagem chocante e histórias escabrosas, os livros eróticos abordam alegrias, angústias e dramas da nossa sexualidade. Demonstram como o sexo se relaciona com uma rede de outros sentimentos. Apontam como a sexualidade pode ser manipulada por tiranos ou por religiosos a fim de escravizarem os seres humanos. Desmontam a hipocrisia das pessoas e das instituições, e ensinam como tirar maior prazer durante o acto sexual. Dissecam o modo como a sexualidade pode levar o homem a afrontar perigosamente os seus limites morais, e esclarecem tudo o que o erotismo tem de revolucionário para as pessoas.
terça-feira, novembro 28, 2006
Mário Cesariny, Portugal, 1923-2006

Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Subscrever:
Mensagens (Atom)




