quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Poema de Almada Negreiros
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Catorze Poemas de Amor
Na lírica portuguesa, desde o seu início até aos nossos dias, o amor tem sido tema de inúmeros poemas: os sentimentos por ele provocados, contradições, tentativas na sua definição, benefícios e malefícios, o cortejo do objecto amado, a recordação dos bons momentos passados, o sonho de um futuro juntos…, enfim, um sem-número de ambivalências e diferentes vertentes de encarar um sentimento que tem feito história literária, artística, cultural e social.
Devido a esta riqueza tão grande que representa o amor na lírica portuguesa, que vem já desde os trovadores provençais e da poesia palaciana de quinhentos, esta pequeníssima antologia, que seleccionou apenas catorze poemas, devido ao dia em que se celebra o dia dos namorados, seleccionou poemas apenas de poetas portugueses.
Sem ter qualquer grande pretensão, a antologia serve apenas para marcar um dia especial, muito especial, porque é o primeiro dia em que realmente estou englobado…
A antologia começa com um poema famosíssimo de João Ruiz de Castell-Branco, poeta de quinhentos da corte portuguesa, que num raro momento de originalidade criou aquele que é apontado como o melhor poema escrito dentro da estética cancioneiril e cortês. Reflecte o amor impossível, que é tão caro na poesia portuguesa, porque a sua senhora parte e o sujeito poético fica triste, doente, desejando a morte, mas tudo visto, sentido e interpretado através dos olhos.
Luís de Camões não poderia faltar numa antologia sobre o amor! Ele cantou-o de forma veemente, magistralmente. Em muitos dos seus textos vive polarizações entre o amor espiritual e o amor carnal, mas também entre um amor que salva e um amor que perde o ser humano, que lhe tira a sua dignidade e a liberdade. Em outros tenta definir o amor. O soneto escolhido por mim para ti vive dos efeitos provocados no sujeito poético, efeitos esses por vezes contraditórios, apenas por ter visto uma senhora, a senhora que ocupa já o seu coração.
António ferreira, se bem que não se dedicou com muita frequência ao tema do amor, é aqui apresentado com um dos seus sonetos mais belos e conhecidos. Pensa-se que será um soneto em louvor da sua mulher, após a sua morte prematura.
Até Almeida Garrett foram muitos poemas que se debruçaram sobre o tema, não se pense que houve um obscurecimento de duzentos anos, trata-se até de um período muito rico em composições barroquizantes e neoclassizantes que tratam o tema, mas como a antologia é limitada, acabaram por ficar de fora… De Almeida Garrett, introdutor do Romantismo em Portugal, escolhi A Estrella, do livro Flores Sem Fruto, por ser um poema extremamente belo, retirado de um livro menos conhecido que Folhas Caídas. Aqui a estrela é também um ser amado pelo sujeito poético que só é visto por ele, e ainda bem, senão poderia ser cobiçado por outros.
Interrogação, incluído em Clepsidra, é um exemplo muito belo da poesia amorosa em Camilo Pessanha. Talvez um dos mais belos desta antologia, retrata mais uma vez os sentimentos provocados por alguma coisa que o sujeito não tem bem a certeza se se trata de amor ou não.
Miguel Torga não tratou também muito o tema do amor, mas tem alguns poemas muito bem conseguidos a este nível. Este, aparentemente simples, como já é comum nos seus textos, parece ser um conselho para quem ama…
Jorge de Sena foi sem dúvida, uma das mais importantes figuras da cultura e literatura portuguesas no século XX. Além disso, a sua presença nesta antologia justifica-se por um poema, representativo de muitos outros, em que o mar está fortemente presente (na nossa poesia há uma grande tradição da presença do mar). Sugere um amor que leva até à confusão da identidade das duas parcelas do acto amoroso (ver última estrofe). O mar está também presente no poema escolhido de David Mourão-Ferreira, que retrata um amor difícil de concretizar.
Sophia de Mello Breyner Andresen, de forma elíptica e breve, num poema que pode ter várias linhas de interpretação, poderá retratar um amor em que o sujeito amado está ausente, mas o próprio vazio faz lembrar o sujeito poético do seu rosto, da sua perfeição… É apenas um dos muitos poemas de Sophia sobre amor, todos eles de uma beleza indescritível.
A antologia segue com um poema de Eugénio de Andrade onde se vê um sujeito criador, justificando a sua criação apenas por um ser. Possibilitando várias leituras, também a do amor poderá ser apreendida do poema.
Mário Cesariny aborda o tema da procura, do encontro e desencontro com o objecto do seu amor… Nuno Júdice aborda o amor acabado, que é recordado… Francisco José Viegas, no poema escolhido, fala de outra perspectiva, a de um amor vivido a dois, vivido já no mesmo espaço
Já António Ramos Rosa mostra-nos um amor mais universal, que não pode ser contido já no seu coração.
E agora, resta apenas ler os poemas e quem sabe, viver algum deles…
Catorze de Fevereiro de 2004
(tempo de D. João II)
Cãtygua sua partindosse
Senhora partem tam tristes
meus olhos por vos meu bem
que nunca tam tristes vistes
outros nunhũs por ninguém.
Tam tristes, tam saudosos.
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
quen nunca tam tristes vistes
outros nunhũs por ninguém.
*
Luís de Camões
(?1524-1580)
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvairo, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
Nũa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ũa hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.
*
António Ferreira
(1528-1569)
Ó alma pura, enquanto cá vivias
alma lá onde vives já mais pura,
porque me desprezaste? Quem tão dura
te tornou ao amor que devias?
Isto era o que mil vezes prometias,
em que minh’alma estava tão segura;
que ambos juntos ũa hora desta escura
noite nos soberia aos claros dias?
Como em tão triste cárcer me deixaste?
Como pude eu sem mim deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?
Ah, que o caminho tu bem mo mostraste
por que correste à gloriosa palma!
Triste de quem não mereceu seguir-te.
*
Almeida Garrett
(1799-1854)
A Estrella
Há uma estrella no céu
Que ninguém vê senão eu:
Inda bem! – que a não vê mais ninguem.
Como as outras que não reluz;
Mas dá tam serena luz,
Que, inda bem! – não vê mais ninguem.
No cantinho azul do céu
Onde ella está, não digo eu
A ninguém! – sei-o eu só: inda bem.
*
Camilo Pessanha
(1867-1926)
Interrogação
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
*
Miguel Torga
(1907-1995)
Cântico de Amor
Ama quem amas, como o vento
Ama as folhas do olmo
(Amor que lhes transmite movimento
E alegria.)
Asa que possa andar no firmamento,
Só caminha no chão por cobardia.
*
Jorge de Sena
(1919-1978)
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
*
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-)
O vazio desenhava desde sempre
O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto
Todas as coisas serviram para nos ensinar
A ardente perfeição da tua ausência
*
Eugénio de Andrade
(1923-)
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.
Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.
*
Mário Cesariny
(1923-)
Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
*
António Ramos Rosa
(1924-)
Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor
para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque
na garganta
ainda que o ódio estale
a crepite e arda
sol montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas.
Não, não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese
séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore,
não posso adiar para
outro século minha
vida
nem o meu amor
nem o meu grito de
libertação
Não posso adiar o coração
*
David Mourão-Ferreira
(1927-1996)
Soneto do amor difícil
A praia abandonada recomeça,
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso mor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo a nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
Desencanto na curva do teu céu.
*
Nuno Júdice
(1949-)
Um amor
Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
*
Francisco José Viegas
(1962-)
De novo o amor
Aí navegam os teus braços, atravessam-me de um lado
ao outro, e do outro lado do mundo uma árvore estará
erguida para me acolher no seu verde ramo. É um pássaro
erguido à altura dos teus dedos, quando brincam
dentro de mim e me perfuram o coração: e quando me rio
tu falas do perfume pegado à camisola e dos lenços
espalhados na mesa. Quando esse pássaro vier trazer-te
a manhã, não abras a porta, é apenas um voo inquieto.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
PESSOA (S)

Os Grandes Portugueses, o programa da rtp, pode ser um pouco estranho e com critérios pouco definidos ou assim... No entanto, é ónvia a minha escolha, de acordo com a minha formação literária, cultural e humanista, para além de alguma identificação (fragmentação) e gosto pessoal. Como já uma vez aqui escrevi, Pessoa pode não ter sido o maior português (apesar de ser bem alto), mas foi tantos... e tão bons... e as influências da cultura inglesa que lhe são apontadas sõ mostram o quão permeáveis somos a outras culturas, como as aceitamos e nelas nos imiscuímos sem grandes problemas. Como nenhum outro, produziu uma obra tão vasta, tão diversa, cobrindo todos os campos do saber, sendo tantas formas diversas de ser português...
(aconselho a ouvirem "Apontamento" de Margarida Pinto, e o álbum "Pessoa" dos WordSong!!)
Mas pronto, se não for ele, ao menos Camões, ou Aristides de Sousa Mendes...
Sugestões de leitura
Expedição Montaigne, Antonio Callado (Brasil, ed. Nova Fronteira) ***
O Cão e os Caluandas, Pepetela (Angola, ed. D. Quixote) ****
Poesias de Afonso Duarte (Portugal, ed. Comunicação ) ***
Parábola do Cágado Velho, Pepetela (Angola, ed. D. Quixote) *****
Pode Um Desejo Imenso, Frederico Lourenço (Portugal, ed. Ctovia – edição conjunta dos três romances) *****
Como se o mundo não tivesse leste, Ruy Duarte de Carvalho (Angola, ed. UEA) *****
Literatura Portuguesa e Brasileira, org. João Almino e Arnaldo Saraiva (Portugal, ed. CNCDP) ****
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Correntes d’escrita 2007
Quarta-feira fui com a Milai, Joana Castro, Joana Cardoso ver a sessão “Uns pelos Outros”, a 1.ª, com Fernando Lopes, Lídia Jorge, Luís Carlos Patraquim, Marco Martins, Margarida Cardoso – e um inexistente Luís Sepúlveda, que era para ser o moderador… Discutiu-se o cinema português como potencialmente literário, não só quando faz adaptações de romances. Fernando Lopes falou de O Delfim, Lídia Jorge e Margarida da criação do filme A Costa dos Murmúrios, e Marco Martins falou do sucesso de Alice e confessou (o que eu já desconfiava) a inspiração de A Criança no Tempo de Ian McEwan. Foi bastante interessante, com destaque para a presença, no público, do Luandino Vieira, e a presença e as palavras de Lídia Jorge.
Na sexta fui, com a Consti, Mário, Milai, Joana, Leandro e o Ricardo Jorge, assistir à 8.ª mesa: “Letra e Música”, com Ivo Machado, Manuel Freire, Manuel Rui, Sérgio Godinho, Vitorino e Vítor Quelhas. Menos interessante que a outra, porque se falou de coisas menos literárias, mas o Manuel Rui salvou a noite com a sua presença estrangeira (=estranha), as suas palavras africanas de ver as coisas à sua volta. A Consti interveio rematando: «poesia e música são palavras com açúcar dentro».
Mas estes dias no Porto-Póvoa-Vila do Conde foram mais do que isto: reencontros com a Su, Lena, Bruna, Mito, Daniela, Joaninha, Roberto… E os estudos da Consti para Teoria, os gatos dela, a falha de luz em casa que nos levou a ir estudar para o Bom Sucesso, o tubarão ao jantar, as conversas breves com a Malato e José Carlos Miranda, a demanda pelo livro aparentemente esgotado (Rioseco, Manuel Rui) e sei lá mais o quê…
terça-feira, fevereiro 06, 2007
último poema... ou o mais recente
Ela é sempre outra
Quanto mais uma identidade
Que não passa de
Uma outra máscara.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
muito bonita... "Rosa" de Rodrigo Leão

hoje o céu está mais azul
eu sinto
fecho os olhos,
mesmo assim
eu sinto o meu corpo estremecer
não consigo adormecer
Amor
nem o tempo vai chegar
pra dizer o quanto eu sinto
você longe de mim
é uma espécie de dor
hoje o céu está mais azul
eu sinto
olho à volta,
mesmo assim
eu sinto que este amor vai acabar
e a saudade vai voltar
Amor
nem o tempo vai chegar
pra dizer o quanto eu sinto
você longe de mim
é uma espécie de dor
já não sei o que esperar
dessa vida fugidia
não sei como explicar
mas é mesmo assim o Amor
“Rosa”, Rodrigo Leão: Cinema
Auto(r)fagia
Ao sentar-se diante da lareira, João reparou na beleza das labaredas. Estendeu as mãos e aqueceu-as, esfregando-as uma na outra. Depois retirou-as e ficou a contemplar as brasas e algumas chamas que ainda irrompiam do cavaco, por ele cortado no verão. Agora era frio e todos se juntavam à noite à lareira, na cozinha, para se aquecerem do frio do corpo e da alma.
João tinha ficado em casa todo o dia porque na véspera quase tinha ficado sem uma perna num acidente com o carro de bois, e a família achara por bem deixá-lo sarar-se antes de voltar a trabalhar. Não tardaria todos estariam ali, a comer e a conversar. Por fim, teria de cumprir a promessa feita aos filhos já há alguns dias: contar um conto dos antigos, mas novo: um que eles ainda conhecessem. Isso era difícil porque a avó sabia tantos e tão inumeráveis que mas ninguém conhecia - mas agora estava muito velha e já não dizia coisa com coisa. Por isso João não sabia o que contar porque tudo o que sabia tinha aprendido com a anciã.
Passando as mãos pela barba pensou que o melhor era contar uma história igual, mas com algumas alterações, como já lhe ocorrera ontem, antes do acidente (segundo ele, para ele próprio, tinha-se distraído a pensar na conto e por isso é que a roda que caíra em cima da perna). Bem vistas as coisas, alterados teriam de ser os sítios e os nomes das pessoas, ou as profissões… coisas usadas também, claro. Depois era fácil construir uma nova história.
- Ora então – murmurou, enquanto tentava escolher o conto que o inspiraria, comecemos por… No início tem de acontecer alguma coisa… assim como… bem, tenho de apresentar a pessoa: João… Grilo. Isso! Depois, ah, é pobre e os pais querem que ele case com uma mulher rica, claro… Bem, depois o costume, as jóias desaparecem, o rei oferece uma recompensa a quem descobrir as jóias… mas, para ser mais difícil, ele está fechado num quarto… Sim, assim é mais difícil para ele explicar o que aconteceu às jóias. Bom, depois… ele não quer ir, mas os pais convencem-no… tenho de inventar as razões… depois penso nisso… é que se não fica igual à história do José Rato… Então depois ele vai e não acreditam que ele possa descobrir por ser pobre. Na primeira noite ele… bem, aqui vai ser igual, mas em vez de guardas vão ser criados, simples, da cozinha ou assim… pronto, já está diferente… Quando acharem que estão descobertos os guard…, os criados, não me posso descuidar!, confessam, assim como palermas, com muito teatro, e João Grilo não os denuncia, só descobre, como se adivinhasse… Caramba, isto até está a ficar bom, melhor do que o original! Até vão dar pulos de alegria… Bem, agora, ele pode casar com a princesa e pronto, acaba… Sim… Ah, sim tudo se passa num reino distante há muito tempo atrás, claro…
E assim, enquanto não chegava a família, enquanto chegavam, conversavam e comiam, João pensava em pormenores que criassem uma história diferente e nunca antes ouvida, mas que fosse aceite pelos filhos e talvez fosse contada aos seus netos e às pessoas da aldeia. Quando todos se calaram, já reunidos à volta da lareira, João soube que era a altura do conto. As crianças não lho pediram, rogaram-lho com os olhos, quase cruelmente, como se duvidassem de que fosse possível o que o pai lhes prometera. João pigarreou para aclarar a voz e começou.
Enquanto ia contando a atenção ia sendo atraída para si que, de costas voltadas para o lume, adquiria um contorno esbatido, ocultando-lhe as expressões involuntárias da face que exprimia, por vezes, dúvida ou atrapalhação, o que nunca se reflectiu na sua voz. Mas os miúdos eram já peritos nestas histórias e não lhes escapou que era uma distorção do José Rato e as perguntas desarmaram-no:
- Oh pai, isso parece a história do José Rato! Porque é que esse se chama João Grilo?
- Sim, e porque casou com a princesa assim sem mais nem menos?
João corou, mas ninguém notou, já que estava perto da lareira que lhe ruborizava as faces, ainda obscurecidas pela sua sombra e pela falta de luz na cozinha.
- Ah… - começou, sem saber como avançar, mas de repente surgiram ideias vindas não sabe de onde e disse: - Bem, há quem diga que ele não chegou a casar com a princesa, porque ela tinha nojo dele. Ele teve pena dela e então pediu ao rei muito dinheiro e foi-se embora… mas… - e aqui a atenção já estava outra vez captada e foi-se adensando, porque nunca tinham ouvido nada assim – ao sair, o rei perguntou-lhe o que tinha na sua mão, e que se adivinhasse lhe daria mais ouro e terras. O João, atrapalhado, só disse «Ai Grilo, Grilo, em que mãos estás metido!» e o rei «Adivinhaste! Adivinhaste!», e deu-lhe mais dinheiro e daí vem o nome… Não querendo abusar da sorte, foi-se mesmo embora, para junto dos pais.
Os miúdos ficaram meio duvidosos, mas era uma história diferente, e o ambiente e a voz do pai dissiparam as dúvidas, ajudados já pelo sono. Todos se recolheram e João ficou e João ficou sozinho na cozinha, observando o lume, achando graça ao facto de nunca ter reparado que as chamas são azuis no fundo, só depois ficam amarelas e laranjas. Sorriu-se, satisfeito por cumprir a sua palavra. De repente, quando o sono parecia começar a dominá-lo, uma língua de fogo elevou-se da lenha e disse:
- Hoje criaste uma nova história nova, renunciando aos avisos. Ela há-de circular por muitas terras, há-de ser contada por muitos anos, todos a ouvirão, com algumas diferenças, como é natural. Quanto a ti, e porque estas histórias nunca têm autor, não terás outro fim se não este.
E perante o olhar assombrado de João, línguas de fogo saíram da lareira e circundaram-no e lamberam o seu poder criativo de Homem.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
André Sardet
«Foi Feitiço»:
Eu não sei o que me aconteceu
Foi feitiço!
O que é que me deu?
Para gostar tanto assim
De alguém como tu
Bem, a única coisa a apontar é a estranheza a roçar a loucura que o acto de amar determinada pessoa provoca no enunciador. Tudo bem, foi feitiço, e não há muito a fazer, o problema é: será o interlocutor um monstro tão grande para ele estranhar «gostar tanto assim/De alguém como tu», ou será ele um totó que nunca pensou enamorar-se de uma pessoa extraordinária?
«Quando eu te falei de amor»:
Quando eu te falei de amor
Tu sorriste para mim
E o mundo ficou bem melhor
Quando eu te falei de amor
Nós sentimos os dois
Que o amanhã vem depois
E não no fim
Bom, está bem… o amanhã vem mesmo depois do que e de quem? No fim de quê? Parece-me que andaram foi a “snifar” qualquer coisa e já andam a sentir muita coisa do foro de alucinatório… Ou talvez haja alguma coisa demasiado melosa por detrás destes versos que pragmaticamente não consigo descortinar.
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
Esta manhã
hoje
é um nome.
Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca.
Uma palavra
palavra só
a ergue.
Como um nome
amanhece
clareia.
Não do sol
mas de quem
a nomeia.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
colecções
TLEBS
Segundo palavras na lista de rodapé do Jornal Nacional da TVI corre na internet uma petição contra a implementação das “novas regras da Língua Portuguesa”. 4.000 assinaturas já levam a questão à Assembleia da República. Não sabia que havia novas regras, que a língua estava assim a mudar tanto… Ou será que se referiam à TLEBS? É que se é isso, não são bem novas regras, são “apenas” novas designações ou formas de conhecimento. Algumas até são bastante bonitas e funcionam muito bem enquanto conceitos operatórios, embora não funcionem tão bem em contexto educativo.
Muito se tem escrito sobre a TLEBS e este texto não trará grandes novidades. Alguns defendem-na com unhas e dentes (como Maria Helena Mira Mateus e Inês Duarte, o que tem lógica, porque são partes intervenientes no documento) ou criticam-na, (Helena Carvalhão Buesco, Vasco Graça Moura, Maria Alzira Seixo e até o gato fedorento Ricardo Araújo Pereira – embora de uma forma cómica e caricatural, mas que não deixa de ser válida e interessante).
A TLEBS não pode ser apenas um conjunto mais ou menos operatório de conceitos de uma ciência, a Linguística, ainda que de língua falemos. Interessa ensinar a Língua e não Linguística. E o que interessa «transmitir a uma criança uma determinada metalinguagem, se ela ainda não domina a funcionalidade dos termos que integram a linguagem que usa todos os dias?» (G. Pinto, Saber Viver a Linguagem, p.35). O problema começa com a inadequação ao público-alvo: não são os professores (por muito que custe a alguns, lá acabam por se actualizar quando é mesmo necessário e obrigatório e percebem os novos conceitos) mas sim os alunos, que não desde os seis aos dezoito – com todas as mudanças que ocorrem entre uma altura e outra, sem haver propriamente uma distinção concreta de que «termos» terão os alunos de decorar em cada ano. Porque será decorar, já que algumas das novas designações não têm uma relação muito óbvia, para o que designam, para os alunos, que poderão ser questionados sobre elas em exame nacional! Ou talvez não, mas mais vale precaver…
A verdade é que o documento está em experimentação, irá ser reformulado, mas também está dominado por uma teoria específica da ciência da Linguística, exceptuando o que a Literatura, a Filosofia ou a Lógica poderiam ter como contributos para a questão. Poderá ser benéfica para os alunos, para a qualificação educativa? Ensinará os alunos a manipular a sua língua na sua componente oral e escrita, no seu funcionamento e na sua dimensão estética e lúdica? É óbvio que um documento desta natureza é necessário para actualizar e uniformizar algumas questões, mas o trabalho está no início e começou torto. Mais uma vez serão professores e alunos as cobaias de uma experiência mal conduzida.
Só por curiosidade, num manual do 7.º ano são apontados como «Conhecimento Explícito da Língua» a explorar os seguintes termos, entre outros: coerência e coesão, modificadores, complemento preposicional e adverbial, nome epiceno, sobrecomum, comum de dois (quando eles ainda têm dúvidas sobre nomes comuns, concretos e abstractos)… Nada de muito complicado para os professores, mas quanto aos alunos, que nessa altura ainda dizem coisas como «quem é o espaço?» ou «pomar é um conjunto de mares», já será menos certo… Uma boa dose de bom-senso, muito investimento e sensibilidade terão de estar na atitude do professor de Língua Portuguesa e Português, para que não se torne num potencial professor de Linguística.
Textos dos autores referidos:
Buesco, Helena Carvalhão, «TLEBS E DISCUSSÕES», Jornal Público, 29 de Novembro de 2006
Mateus, Maria Helena Mira, «Terminologias: a Nova e a Antiga», Jornal Público, 29 de Novembro de 2006
Marques, C.; Silva, I.; Ferreira, P.; Silva, F., Oficina da Língua 7, Porto, Edições Asa, 2006
Pereira, Ricardo Araújo, «Metam os epicenos no advérbio disjunto», Revista Visão, 15 de Novembro de 2006
Seixo, Maria Alzira, «A Nova Terminologia Linguística», Revista Visão, 28 de Outubro de 2006
terça-feira, janeiro 09, 2007
Magnífico Caos
Gostei muito do livro, tinhas razão, vale mesmo a pena. Parece que tem tantas páginas que até se tem pena que acabem depois. Mas o livro tinha uma coisa a mais. Olhou para mim, de só movendo a cabeça, como que receando que essa coisa fosse algo comprometedor. O que era? Oh, era areia, mais nada, está sossegado. Ah, pois! Eu li o livro quando estava de férias na praia, em Setembro há uns anos atrás. Hum… E já na altura gostei imenso dele, andava sempre com ele, depois, com outras obrigações nunca mais lhe peguei… Mas também não lhe irias tirar a areia… Pois, provavelmente não, gosto de guardar coisas nos livros, tipo recordações dos sítios e dos tempos em que os li: papéis dos chocolates que comi ao ler alguma passagem mais quente, pétalas de rosas quando lia passagens românticas, areia quando lia na praia, folhas quando lia no jardim, cartas, poemas, escritos que escrevi a propósito de alguma coisa lida, às vezes até no próprio livro, nas margens… Enquanto ele falava olhava à minha volta, com emoção da possibilidade de encontrar um tesouro no meio de todos aqueles livros e descobrir muito mais da vida dele do que alguma vez me diria…Mas o que não quer dizer sequer que tenham essa lógica, pode estar tudo baralhado… Como assim? Sei lá, olha, uma carta que está neste livro posso tê-la recebido e lido quando estava a ler outro livro, mas esse podia estar à mão e calhou ir para lá… se calhar não guardo as coisas, perco-as… Bem, o conhecimento não seria tão profundo, mas ainda assim possível. Então, um pouco a medo e só para ver no que dava, pedi mais três livros emprestados. Quando cheguei a casa o coração descompassado centrou-se nas muitas páginas dos romances. No primeiro havia um fio azul de linha, no segundo um marcador de livros, no terceiro nada, no quarto alguns rabiscos incompreensíveis e uma folha de plátano seca. Nada mais. Para não dar demasiado nas vistas, esperei uma semana até os devolver. Quando entrei na sala dele tive a sensação de ser o centro da atenção dos livros, como se me estivessem a ler, já que eu agora recusava lê-los, a não ser o que as mãos dele tivessem escrito neles. A tentação de devassar aquele tesouro desordenado e caótico era maior que a minha prudência e não resisti a abrir uns quantos enquanto ele preparava um chá. Encontrei algumas coisas que não li no momento, preferi guardá-las na minha capa, com a firme intenção de devolver logo que as tivesse lido. Sim, amanhã já estariam nos seus sítios, ou mais ou menos, porque ao olhar para a estante fiquei sem saber de onde as tinha tirado. O chá foi rápido e corri, sem trazer mais livro nenhum, nada. O tesouro devassado, uma mínima parte jazia em cima da minha cama e não tive coragem de o possuir. Nessa mesma noite voltei e consegui deixar tudo no meio de livros que fingia interessarem-me muitíssimo. Até que um deles tinha uma fotografia de uma mulher bonita, com um vestido perto decotado, com uma cabeleira ruiva encaracolada, e no verso estava escrito um nome e um beijo. Foi como que um baque súbito e forte. Com uns ciúmes doidos, propus-lhe organizar a sua biblioteca toda, retirar as coisas perdidas e guardá-las numa caixa e talvez confrontá-lo. Recusou, como seria de esperar. Mas isso assim não tem utilidade nenhuma, quando procurares uma coisa nunca a encontrarás! Elas acabam sempre por aparecer. Mas tu emprestas livros a toda a gente, elas podem ler ou ver alguma coisa… pessoal, secreta… Não tenho segredos… Baixei os olhos, toda a gente tem segredos. E pensei em perguntar quem era aquela mulher. Que papel tinha na sua vida. Mas faltou a coragem. Se bem que ando à procura de uma foto que só pode estar num livro. Uma foto? Sim, de uma amiga, é a melhor foto dela e pediu-ma para fazer uma cópia porque perdeu a dela. Talvez fosse a verdade, não sei. Não vi nada nos livros que me emprestaste… Pois, vou então procurar, mas amanhã, queres vir ajudar-me? Aceitei, mas vinha só de tarde. À tarde, quando cheguei, era já demasiado tarde, embrenhado nos seus livros e leituras, coisas e memórias, fora engolido pelo caos.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
coisas antigas
Óscares EP – 2003
Melhor Filme – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Actor – Tiago – O Amor Aconteceu e Ninguém Soube
Melhor Actriz – Susana – Depress: a morta viva
Melhor Actor S. – Edgar – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Actriz S. – Ana Luísa – The Christmas Party
Melhor Realizador – Fardilha e Ana Paula Quintela – Os Chumbos do Ano
Melhor Argumento Original – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Argumento Adaptado – Eu Sou Uma Santa (Verde)
Melhor Canção – Serenatas a Ninguém, outra vez, em Depress: a morta-viva
Melhor Banda Sonora – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Fotografia – Il Ragazzo de Marta
Melhor Efeitos Especiais/Visuais – O Penteado do Ano (Rui)
Melhor Montagem – O Amor Aconteceu e Ninguém Soube
Melhor Montagem de Som – Cavaquinhos no Bar
Melhor Som – Joana em Tira daí as mãos
Melhor Maquilhagem – Pedro Tavares em Os Piores dentes do Mundo
Melhor Guarda-Roupa – Sameiro Araújo em Economia Psicológica
Melhor Filme Estrangeiro – Il Ragazzo de Marta
Melhor Direcção Artística – Marisona em Quinta-Feira Negra
Melhor Curta-Metragem – Os Dias Felizes da Nossa Vida
Melhor Documentário – EP em Busca dos Livros Esgotados
Melhor Filme de Animação – Cuquinha
Melhor Anúncio Comercial – Atum Cuca
Prémio Carreira – Natacha (pela sua carreira cinematográfica em EP)
Prémio Especial do Público – Susana em A Multa
Prémio Especial do Júri – Tuna Feminina em As Boazonas do Pedaço
Prémios EP
Prémio Vidas Reais – José Alves
Black Power – Marisona
Eu estou bem (mal) – Susana
Look original – Rui
Decote bombástico – Joana
Miss Estrangeira – Marta
Ciao – Diana
Faço o Curso sem aulas – Susana
Os Pacientes Intermináveis - Verde e Tiago
Este ano é que vai ser! – Ana Luísa
Há sempre Setembro (e Dezembro) – Constantina
Ponto de Encontro – Bar da FLUP
Maior Quantidade de Panfletos – Juventude Comunista
Consigo dizer isto cem vezes – Fardilha
Crentes do Ano – Tiago, Verde, Ana Luísa, Marisa
Adoro o meu instrumento – Bruna
E tudo se eclipsou – Fardilha
Aulas mais secas do ano – não atribuído devido a excesso de candidatos com muita qualidade
Eu é que visto bem e barato – Sameiro Araújo
Eu já li esse livro – Tiago
Eu tenho isso em casa – Ana Luísa
Patroa do Pedaço – Susana Alegria
Sorriso Discreto – Ana Cabral
Amiga Colorida – Ana Verde
Oh, que eu leio tão devagar – Patrícia
Vaquinha Fofinha – Patrícia
Caloira até ao Fim – Natacha
Saraivada – Sílvia
Fardilhosa – Ana Cabral
Brandão e Andrade – Lena
Mato-me ou mato-me – Susana
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Despedida
não te esqueças de me
devolver
a minha parte
dos nossos sonhos
pois nós tínhamo-
- los em
comum
sonhado
ou
Hans Georg Bulla
quarta-feira, dezembro 20, 2006
poema de natal deste ano

Natal Africano
Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou se diz… Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.
Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.
Cabral do Nascimento
poema de natal do ano passado

A estrela
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava
Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada
A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava
Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu
E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava
E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medoNos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava
E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada
Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava
E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza
Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado
Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto».
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto
terça-feira, dezembro 19, 2006
Hereto-ironia
Não te guardarei mais no peito
Nem me guardarás mais dentro de ti
Nem os meus braços te farão sombras.
Não verás os dias da minha glória
Não saberás os meus novos sonhos e medos
Projectos novos e antigos feitos ou não.
Não os partilharei contigo.
Não me farás maior do que sou
Ou menor.
Não me vais proteger de nada, não preciso.
As cartas velhas não serão mais lidas
As músicas deixam de ter sentimentos
Figuradamente a elas associados.
Nem gelo, nem amoras nem velas
Não as terás comigo, nem eu contigo
Não haverá mais partilha de vida.
Nem festas, nem cócegas, nem carícias
Nem gestos, nem livros nem casa partilhada.
E se puder, nem o dia da minha morte verás.
Mas podemos tentar ser amigos, se insistes.

