
segunda-feira, maio 07, 2007
manuscritos de eça

A estória nenhuma
Era uma vez uma vez
Ou a vez nenhuma
Nesses tempos o tempo estava de férias
E o espaço era o vazio do nada.
Os seres não existentes faziam acções inexistentes
De quem ninguém não falava.
Era uma história como nenhuma outra.
Em conto:
Era uma vez uma vez, ou a vez nenhuma. Nesse tempo, o tempo estava de férias ou tinha emigrado, se é que alguma vez existiu. E o espaço era o vazio do nada de uma aldeia comum a todas as outras de norte a sul, passando pelo centro. Nesta aldeia não houve uma mulher sonâmbula que se levantava todas as noites e, com um cântaro na cabeça, ia à fonte buscar água, regressando transbordando de vida. E uma noite, essa mulher que não existia, pegou no cântaro e saiu até à ilusória fonte. No regresso, sempre sonâmbula em si, não retirou de cabeça e ao entrar em casa partiu-se e acordou-a com o contacto com a água fria. Mas nada disto aconteceu, claro, porque os seres não existentes não praticam acções – e estas são inexistentes. E ninguém não falava delas. Era uma estória como nenhuma outra.
segunda-feira, abril 23, 2007
dia do livro
quarta-feira, março 28, 2007
despedida
Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor
O Nome das Coisas, 1977
quarta-feira, março 21, 2007
prémio camões
A lista de vencedores é a seguinte:
1989 - Miguel Torga (Portugal, 1907-1994)
1990 - João Cabral de Melo Neto (Brasil, 1920-1999)
1991 - José Craveirinha (Moçambique, 1922-2003)
1992 - Vergílio Ferreira (Portugal, 1916-1996)
1993 - Rachel de Queiroz (Brasil, 1910-2003)
1994 - Jorge Amado (Brasil, 1912-2001)
1995 - José Saramago (Portugal, 1922)
1996 - Eduardo Lourenço (Portugal, 1923)
1997 - "Pepetela" (Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, Angola, 1941)
1998 - Antonio Candido (Brasil, 1918)
1999 - Sophia de Mello Breyner (Portugal, 1919-2004)
2000 - Autran Dourado (Brasil, 1926)
2001 - Eugénio de Andrade (Portugal, 1923-2005)
2002 - Maria Velho da Costa (Portugal, 1938)
2003 - Rubem Fonseca (Brasil, 1925)
2004 - Agustina Bessa-Luís (Portugal, 1922)
2005 - Lygia Fagundes Telles (Brasil, 1923)
2006 - José Luandino Vieira (Angola, 1935) (recusou o prémio por motivos pessoais)
2007 – António Lobo Antunes (Portugal, 1942)
Enterrem-me esse deus
(com versos de Afonso Duarte)
Também eu já fiz minha humanidade
De árvores, de pedras e de rios
E os deixei porque vi que sacrifiquei o amor
Por me encontrar de mais com a paisagem.
Agora trago os olhos quebrados de tristeza,
Quando na praia não há o tambor do mar
E nele apenas a gaivota, que me enche
De saudades e lonjuras de mim.
Jogo meu corpo às nuvens que o sol abrasa
Em ti, que bem meu corpo se acomodava –
- verso que dentro em nós não cabe.
Lá, eu posso morrer. Eu, posso lá morrer!
segunda-feira, março 12, 2007
deserto de mim
A palavra gato morde
«A palavra cão não morde»
Henry James
De todos os medos, aquele que mais me aterroriza é no instante imediatamente antes de dormir. À noite, quando a casa está silenciosa e deserta de ti e sombras crescem amplificando os objectos e os móveis, há a presença apenas dos meus passos, dos meus ruídos de preparação para dormir. Temos de arranjar um gato, talvez mitigasse esta sensação de escuro e quebrasse a solidão. Os gatos não fazem companhia, dizes. Arranja antes um cão – mas para esse era preciso mais tempo, para ensinar, para brincar. O melhor era o gato. Mesmo que não me ligasse nenhuma, estaria sempre por ali…
Só ao apagar a luz me descubro acompanhada. Ao entrar na cama ainda há o teu calor, ainda. Às vezes o teu perfume. Deixas sempre o pijama no chão, do teu lado. Nunca o apanho, pois isso seria quebrar as tuas rotinas e a ordem do teu mundo. Para chegar ao quarto é preciso progressivamente ir acendendo as luzes, e depois apagá-las. E espreitar pela janela, debaixo da cama, no guarda-fatos. É um pouco paranóico, mas desde pequena se tornou um ritual antes de dormir. Só tu o quebraste quando casámos e íamos juntos dormir, quando eu me sentia segura e feliz. Agora é a pressa e o desencontro das nossas vidas que nos colocam solitariamente de nós quase todo o dia. E é no momento de dormir, após alguma oração meio apressada e de uma canção ou duas, meio cantadas, meio balbuciadas, para entorpecer os sentidos, que enfrento a escuridão das horas seguintes. Nem sempre me apercebo de sombras de fora que passam pelas frinchas da janela, mas inevitavelmente só adormecerei deitada de lado, sobre o braço esquerdo – a posição que me permite estar de frente para a porta e para a janela. É impossível conseguir adormecer de outra maneira pois o vazio incomoda e provoca arrepios na espinha. De costas só para ti, como se pudesses proteger-me sempre, mesmo quando não estás. E enfrentar o que vier sempre de frente.
Quando volto é dia e as pessoas saem à rua para o trabalho. Tu estás como sempre com um sorriso pijamoso à minha espera, com um pequeno-almoço reforçado. Às vezes não é bem o pequeno-almoço que nos interessa… Queixas-te das saudades que sentiste esta noite, e do medo. Das saudades, pouco posso fazer, os meus turnos este mês são assim e não há nada a fazer, porque não consigo arranjar outro emprego. Do medo, aconselho-te novamente o cão: Quem tem medo compra um cão. Far-te-ia companhia, mas tu recusas por causa do trabalho que teríamos com ele. E com tão pouco tempo, ambos sempre fora de casa… Depois aproveitamos melhor a hora que temos juntos antes de ires trabalhar. Vais ficando fresca durante o duche, ganhas uma suavidade inebriante. E quando sais nada me resta mais para fazer. O pijama está no sítio de sempre. Quando entro na cama, encontro-te ainda nela, com o teu perfume e os vincos nos lençóis, que me acompanham no dia de que não verei muito mais luz.
Esta noite, em que jantaria sozinha, como sempre durante um mês, de mês a mês, tenho comigo um gato. É o gato da vizinha que saiu uns dias e me pediu para ficar com ele. Está a dormir, encostado à janela que talvez tenha ainda algum calor do dia. Depois de jantar poderei ler um pouco o romance que me ofereceste no aniversário e que ainda nem a meio vai. Não é mau mas é tão violento… Não tenho temperamento para policiais.
Lá fora anda um cão a espreitar pela porta. Talvez tenha adivinhado o gato num local estranho. O gato é que o adivinhou de imediato e eriçou o pelo, algo desconfortado, mas seguro pelo vidro. Para evitar tensões, fecho a persiana e até corro a cortina. O ritual hoje mantém-se, mesmo tendo aqui um gato. Ou talvez por isso, afinal o gato não é meu e não me deve qualquer tipo de amizade… E um gato não me pode proteger de nada nem de ninguém – a não ser da solidão. Se aqui aparecesse um criminoso qualquer o gato fugiria ou, na melhor das hipóteses, morria ao esboçar o mínimo gesto de ataque. A verdade é que para chegar ao quarto não sinto a necessidade de progressivamente ir acendendo as luzes, e depois apagá-las: avanço pela escuridão do corredor tantas vezes por mim percorrido, com o gato ronronante nos braços. Mas espreito pela janela, com a desculpa de tentar ver o cão de há pouco, e debaixo da cama, no guarda-fatos, onde o cão não poderá estar de maneira nenhuma.
O pijama no chão hoje incomoda-me e apanha-o e arrumo-o no guarda-fatos. Ao apagar a luz descubro-me acompanhada. Ao entrar na cama ainda há o teu calor, mas não o teu perfume. E neste momento de dormir, após uma oração sentida e de uma canção digna de ovação, fecho os olhos. O gato aninhou-se ao fundo da cama e não perturba com a sua respiração profunda. Apesar de tantas mudanças sei que só adormecerei deitada de lado, sobre o braço esquerdo, pelas mesmas razões de sempre. Penso que começa até a ser um peso excessivo sobre o coração. Será que dormir sempre assim poderá afectá-lo? Terei de falar com alguém sobre isso.
O dia nasce para tantos. Para mim também, mas o sono domina já os meus sentidos. Estranhamente não cheira a torradas quando entro em casa. Não há nada sobre a mesa. Não corre água no chuveiro, não há vapor. No quarto estás deitada, serena. O gato salta e foge quando me vê, corre pelo corredor… Queixas-te das saudades que sentiste esta noite, mas não muito do medo. Mas sabes que o gato não é teu, tens de arranjar um, então, já que gostaste da experiência e te sentiste melhor esta noite. Mas olha que o cão… Levantaste tentando recuperar o tempo perdido. Enquanto tomas banho eu preparo teu pequeno-almoço, a minha ceia. Sais de casa e subitamente fico tão só como nunca. O gato voltou para a cama e já nãos e incomoda com a minha presença. Demoro algum tempo a encontrar o pijama, mas quando o resgato entro na cama, encontro-te ainda nela, com o teu perfume, mas sem vincos. Tiveste talvez uma boa noite de sono descansada…
Foram as melhores noites de sono em anos. O gato ajudou-me a progressivamente ir deixando alguns medos. Hoje consegui adormecer de barriga para baixo! Quebrei tanto o ritual que nem sou a mesma mulher. Esta noite janto sozinha, como sempre durante um mês, de mês a mês. Já não tenho comigo o gato da vizinha. Acabei de ler o policial. Agora tenho no sofá um outro livro, parece ser mais do meu estilo, foi o que a tua irmã me ofereceu no meu aniversário. Foram tantos os livros que me ofereceram neste aniversário… com a desculpa de que não sabiam o que me oferecer…
O pijama continua a não estar no chão, e isso incomoda-me. Tiro-o do guarda-fatos. Ao apagar a luz descubro-me acompanhada. Neste momento de dormir, após uma oração sentida e de uma canção digna de ovação, fecho os olhos. Penso na necessidade de arranjar um gato, ou talvez um cão… A palavra gato enche-me a cabeça. A tua voz dizendo-o. De repente, naquele preciso momento de dormir, em que os pensamentos e as memórias começam a transformar-se em sonhos, a palavra na tua boca morde-me, e sinto então o teu calor e o teu perfume, e um ronronar delicado entre nós.
quarta-feira, março 07, 2007
excêntrico II
sexta-feira, março 02, 2007
para quem acha que eu sou egocêntrico e tal...
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
linguagem
Selim Abou, L’identité culturelle, p.17
Sugestões de leitura (Fevereiro)
O Homem que Via Passar os Comboios – Georges Simenon (Bélgica, Público/Mil Folhas) ****
Vida & Fugas de Fanto Fantini – Álvaro Cunqueiro (Espanha, Felício & Cabral) ****
Fazes-me Falta – Inês Pedrosa (Portugal, D. Quixote) ****
Poemas – Almada Negreiros (Portugal, Assírio & Alvim) ***
Poema de Almada Negreiros
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Catorze Poemas de Amor
Na lírica portuguesa, desde o seu início até aos nossos dias, o amor tem sido tema de inúmeros poemas: os sentimentos por ele provocados, contradições, tentativas na sua definição, benefícios e malefícios, o cortejo do objecto amado, a recordação dos bons momentos passados, o sonho de um futuro juntos…, enfim, um sem-número de ambivalências e diferentes vertentes de encarar um sentimento que tem feito história literária, artística, cultural e social.
Devido a esta riqueza tão grande que representa o amor na lírica portuguesa, que vem já desde os trovadores provençais e da poesia palaciana de quinhentos, esta pequeníssima antologia, que seleccionou apenas catorze poemas, devido ao dia em que se celebra o dia dos namorados, seleccionou poemas apenas de poetas portugueses.
Sem ter qualquer grande pretensão, a antologia serve apenas para marcar um dia especial, muito especial, porque é o primeiro dia em que realmente estou englobado…
A antologia começa com um poema famosíssimo de João Ruiz de Castell-Branco, poeta de quinhentos da corte portuguesa, que num raro momento de originalidade criou aquele que é apontado como o melhor poema escrito dentro da estética cancioneiril e cortês. Reflecte o amor impossível, que é tão caro na poesia portuguesa, porque a sua senhora parte e o sujeito poético fica triste, doente, desejando a morte, mas tudo visto, sentido e interpretado através dos olhos.
Luís de Camões não poderia faltar numa antologia sobre o amor! Ele cantou-o de forma veemente, magistralmente. Em muitos dos seus textos vive polarizações entre o amor espiritual e o amor carnal, mas também entre um amor que salva e um amor que perde o ser humano, que lhe tira a sua dignidade e a liberdade. Em outros tenta definir o amor. O soneto escolhido por mim para ti vive dos efeitos provocados no sujeito poético, efeitos esses por vezes contraditórios, apenas por ter visto uma senhora, a senhora que ocupa já o seu coração.
António ferreira, se bem que não se dedicou com muita frequência ao tema do amor, é aqui apresentado com um dos seus sonetos mais belos e conhecidos. Pensa-se que será um soneto em louvor da sua mulher, após a sua morte prematura.
Até Almeida Garrett foram muitos poemas que se debruçaram sobre o tema, não se pense que houve um obscurecimento de duzentos anos, trata-se até de um período muito rico em composições barroquizantes e neoclassizantes que tratam o tema, mas como a antologia é limitada, acabaram por ficar de fora… De Almeida Garrett, introdutor do Romantismo em Portugal, escolhi A Estrella, do livro Flores Sem Fruto, por ser um poema extremamente belo, retirado de um livro menos conhecido que Folhas Caídas. Aqui a estrela é também um ser amado pelo sujeito poético que só é visto por ele, e ainda bem, senão poderia ser cobiçado por outros.
Interrogação, incluído em Clepsidra, é um exemplo muito belo da poesia amorosa em Camilo Pessanha. Talvez um dos mais belos desta antologia, retrata mais uma vez os sentimentos provocados por alguma coisa que o sujeito não tem bem a certeza se se trata de amor ou não.
Miguel Torga não tratou também muito o tema do amor, mas tem alguns poemas muito bem conseguidos a este nível. Este, aparentemente simples, como já é comum nos seus textos, parece ser um conselho para quem ama…
Jorge de Sena foi sem dúvida, uma das mais importantes figuras da cultura e literatura portuguesas no século XX. Além disso, a sua presença nesta antologia justifica-se por um poema, representativo de muitos outros, em que o mar está fortemente presente (na nossa poesia há uma grande tradição da presença do mar). Sugere um amor que leva até à confusão da identidade das duas parcelas do acto amoroso (ver última estrofe). O mar está também presente no poema escolhido de David Mourão-Ferreira, que retrata um amor difícil de concretizar.
Sophia de Mello Breyner Andresen, de forma elíptica e breve, num poema que pode ter várias linhas de interpretação, poderá retratar um amor em que o sujeito amado está ausente, mas o próprio vazio faz lembrar o sujeito poético do seu rosto, da sua perfeição… É apenas um dos muitos poemas de Sophia sobre amor, todos eles de uma beleza indescritível.
A antologia segue com um poema de Eugénio de Andrade onde se vê um sujeito criador, justificando a sua criação apenas por um ser. Possibilitando várias leituras, também a do amor poderá ser apreendida do poema.
Mário Cesariny aborda o tema da procura, do encontro e desencontro com o objecto do seu amor… Nuno Júdice aborda o amor acabado, que é recordado… Francisco José Viegas, no poema escolhido, fala de outra perspectiva, a de um amor vivido a dois, vivido já no mesmo espaço
Já António Ramos Rosa mostra-nos um amor mais universal, que não pode ser contido já no seu coração.
E agora, resta apenas ler os poemas e quem sabe, viver algum deles…
Catorze de Fevereiro de 2004
(tempo de D. João II)
Cãtygua sua partindosse
Senhora partem tam tristes
meus olhos por vos meu bem
que nunca tam tristes vistes
outros nunhũs por ninguém.
Tam tristes, tam saudosos.
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
quen nunca tam tristes vistes
outros nunhũs por ninguém.
*
Luís de Camões
(?1524-1580)
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvairo, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
Nũa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ũa hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.
*
António Ferreira
(1528-1569)
Ó alma pura, enquanto cá vivias
alma lá onde vives já mais pura,
porque me desprezaste? Quem tão dura
te tornou ao amor que devias?
Isto era o que mil vezes prometias,
em que minh’alma estava tão segura;
que ambos juntos ũa hora desta escura
noite nos soberia aos claros dias?
Como em tão triste cárcer me deixaste?
Como pude eu sem mim deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?
Ah, que o caminho tu bem mo mostraste
por que correste à gloriosa palma!
Triste de quem não mereceu seguir-te.
*
Almeida Garrett
(1799-1854)
A Estrella
Há uma estrella no céu
Que ninguém vê senão eu:
Inda bem! – que a não vê mais ninguem.
Como as outras que não reluz;
Mas dá tam serena luz,
Que, inda bem! – não vê mais ninguem.
No cantinho azul do céu
Onde ella está, não digo eu
A ninguém! – sei-o eu só: inda bem.
*
Camilo Pessanha
(1867-1926)
Interrogação
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
*
Miguel Torga
(1907-1995)
Cântico de Amor
Ama quem amas, como o vento
Ama as folhas do olmo
(Amor que lhes transmite movimento
E alegria.)
Asa que possa andar no firmamento,
Só caminha no chão por cobardia.
*
Jorge de Sena
(1919-1978)
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
*
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-)
O vazio desenhava desde sempre
O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto
Todas as coisas serviram para nos ensinar
A ardente perfeição da tua ausência
*
Eugénio de Andrade
(1923-)
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.
Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.
*
Mário Cesariny
(1923-)
Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
*
António Ramos Rosa
(1924-)
Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor
para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque
na garganta
ainda que o ódio estale
a crepite e arda
sol montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas.
Não, não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese
séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore,
não posso adiar para
outro século minha
vida
nem o meu amor
nem o meu grito de
libertação
Não posso adiar o coração
*
David Mourão-Ferreira
(1927-1996)
Soneto do amor difícil
A praia abandonada recomeça,
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso mor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo a nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
Desencanto na curva do teu céu.
*
Nuno Júdice
(1949-)
Um amor
Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
*
Francisco José Viegas
(1962-)
De novo o amor
Aí navegam os teus braços, atravessam-me de um lado
ao outro, e do outro lado do mundo uma árvore estará
erguida para me acolher no seu verde ramo. É um pássaro
erguido à altura dos teus dedos, quando brincam
dentro de mim e me perfuram o coração: e quando me rio
tu falas do perfume pegado à camisola e dos lenços
espalhados na mesa. Quando esse pássaro vier trazer-te
a manhã, não abras a porta, é apenas um voo inquieto.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
PESSOA (S)

Os Grandes Portugueses, o programa da rtp, pode ser um pouco estranho e com critérios pouco definidos ou assim... No entanto, é ónvia a minha escolha, de acordo com a minha formação literária, cultural e humanista, para além de alguma identificação (fragmentação) e gosto pessoal. Como já uma vez aqui escrevi, Pessoa pode não ter sido o maior português (apesar de ser bem alto), mas foi tantos... e tão bons... e as influências da cultura inglesa que lhe são apontadas sõ mostram o quão permeáveis somos a outras culturas, como as aceitamos e nelas nos imiscuímos sem grandes problemas. Como nenhum outro, produziu uma obra tão vasta, tão diversa, cobrindo todos os campos do saber, sendo tantas formas diversas de ser português...
(aconselho a ouvirem "Apontamento" de Margarida Pinto, e o álbum "Pessoa" dos WordSong!!)
Mas pronto, se não for ele, ao menos Camões, ou Aristides de Sousa Mendes...
Sugestões de leitura
Expedição Montaigne, Antonio Callado (Brasil, ed. Nova Fronteira) ***
O Cão e os Caluandas, Pepetela (Angola, ed. D. Quixote) ****
Poesias de Afonso Duarte (Portugal, ed. Comunicação ) ***
Parábola do Cágado Velho, Pepetela (Angola, ed. D. Quixote) *****
Pode Um Desejo Imenso, Frederico Lourenço (Portugal, ed. Ctovia – edição conjunta dos três romances) *****
Como se o mundo não tivesse leste, Ruy Duarte de Carvalho (Angola, ed. UEA) *****
Literatura Portuguesa e Brasileira, org. João Almino e Arnaldo Saraiva (Portugal, ed. CNCDP) ****
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Correntes d’escrita 2007
Quarta-feira fui com a Milai, Joana Castro, Joana Cardoso ver a sessão “Uns pelos Outros”, a 1.ª, com Fernando Lopes, Lídia Jorge, Luís Carlos Patraquim, Marco Martins, Margarida Cardoso – e um inexistente Luís Sepúlveda, que era para ser o moderador… Discutiu-se o cinema português como potencialmente literário, não só quando faz adaptações de romances. Fernando Lopes falou de O Delfim, Lídia Jorge e Margarida da criação do filme A Costa dos Murmúrios, e Marco Martins falou do sucesso de Alice e confessou (o que eu já desconfiava) a inspiração de A Criança no Tempo de Ian McEwan. Foi bastante interessante, com destaque para a presença, no público, do Luandino Vieira, e a presença e as palavras de Lídia Jorge.
Na sexta fui, com a Consti, Mário, Milai, Joana, Leandro e o Ricardo Jorge, assistir à 8.ª mesa: “Letra e Música”, com Ivo Machado, Manuel Freire, Manuel Rui, Sérgio Godinho, Vitorino e Vítor Quelhas. Menos interessante que a outra, porque se falou de coisas menos literárias, mas o Manuel Rui salvou a noite com a sua presença estrangeira (=estranha), as suas palavras africanas de ver as coisas à sua volta. A Consti interveio rematando: «poesia e música são palavras com açúcar dentro».
Mas estes dias no Porto-Póvoa-Vila do Conde foram mais do que isto: reencontros com a Su, Lena, Bruna, Mito, Daniela, Joaninha, Roberto… E os estudos da Consti para Teoria, os gatos dela, a falha de luz em casa que nos levou a ir estudar para o Bom Sucesso, o tubarão ao jantar, as conversas breves com a Malato e José Carlos Miranda, a demanda pelo livro aparentemente esgotado (Rioseco, Manuel Rui) e sei lá mais o quê…
terça-feira, fevereiro 06, 2007
último poema... ou o mais recente
Ela é sempre outra
Quanto mais uma identidade
Que não passa de
Uma outra máscara.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
muito bonita... "Rosa" de Rodrigo Leão

hoje o céu está mais azul
eu sinto
fecho os olhos,
mesmo assim
eu sinto o meu corpo estremecer
não consigo adormecer
Amor
nem o tempo vai chegar
pra dizer o quanto eu sinto
você longe de mim
é uma espécie de dor
hoje o céu está mais azul
eu sinto
olho à volta,
mesmo assim
eu sinto que este amor vai acabar
e a saudade vai voltar
Amor
nem o tempo vai chegar
pra dizer o quanto eu sinto
você longe de mim
é uma espécie de dor
já não sei o que esperar
dessa vida fugidia
não sei como explicar
mas é mesmo assim o Amor
“Rosa”, Rodrigo Leão: Cinema





