segunda-feira, julho 02, 2007

FIA


Do jantar de mestrandos com o professor Alberto Carvalho não falo – fica no segredo dos deuses chineses. Mas foi bom, muito bom, logo a seguir à última aula do professor, da sua vida de professor!
Com o David, a Esmeralda e o André fui à FIA, na FIL. Três pavilhões cheios de tudo e mais alguma coisa: desde roupa e calçado a jóias, passando por móveis, estátuas, pinturas, rendas e bordados, instrumentos musicais, colchas e chapéus, bonecos, cadernos… E claro, as máscaras. Adorei algumas do Senegal e de Trás-os-Montes. Ultimamente ando muito virado para as máscaras. Pessoa, Brandão, mas também Brecht e Leopardi…
Entretanto, de volta a Poiares, estive com a Sandra e a Alcina. Fomos ao cinema a Vila Real – Ruptura (grande pónei, mas pronto…) – e caminhámos até ao Monte Raso. Uma loucura.

Última noite em Lisboa


Última noite em Lisboa, a cidade que me acolheu este ano, algumas noites por semana. Acolheu-me mais a mim do que eu a ela, é a verdade. E tanta coisa passada, aprendida, vivida. Idas ao oriente e à baixa, o aeroporto, a cidade universitária, o world trade center, sete rios/jardim zoológico, parque Eduardo VII. O natal de Lisboa, a Primavera quente, o Verão chuvoso… O professor Alberto Carvalho: o susto da sageza e do rigor com a humaníssima figura (revelada ainda mais no jantar de final de ano, num chinês), a professora Vânia Chaves: a disponibilidade de ritmos alucinantes e a iniciadora na leitura efectiva (afectiva) de Guimarães Rosa, a professora Isabel Rocheta: a tranquilidade confiante de uma grande senhora, a professora Margarida Braga Neves: a discursividade apaixonada pela literatura de uma pessoa extraordinária, a professora Ana Mafalda Leite: pós-colonialismos e assim… A família de Lisboa que fui conhecendo melhor: Tia Maria Alice, David, Inês, Manela, João Pedro, em especial: André e Esmeralda (e o Jimmy, o único cão de que gosto porque percebeu que eu não gosto de cães). Muita coisa levo daqui, e muito mais poderia levar se tivesse ficado cá sempre. Mas o melhor de tudo: os amigos que eram primeiro colegas: João, António, Tatiana, Sónia, Rita, António Jorge, e do seminário do Ensino da Literatura: a Denise, a Vera, a Dora, e em especial a Conceição. Mas mais ainda, a Blanca e as minhas duas meninas de stresses e conquistas em comum: Manuela e Carla. Agora que chegaram finalmente as férias, e ao despedirmo-nos, já sentímos a falta de saber estarmos juntos dali a uma semana, em mais um seminário, a discutir trabalhos e a falta de tempo para os fazer como devia ser, ou a dificuldade de escrever com mais rigor, ou tudo. Um fim-de-semana em Pombal ficou mais ou menos alinhavado, pode ser que sim. Agora, que as férias estão presentes (embora ainda tenha trabalhos para fazer e entregar) é tempo de recuperar de muitas coisas, viagens longas, noites mal dormidas, leituras outras que foram sendo relegadas para esta altura, mas também é tempo de começar a pesquisar para a dissertação, arrumar ideias e textos, fazer algumas etiquetas e rótulos.

Desilusão

Pois é, a aventura no Instituto Camões acabou para mim. Fiz os psicotécnicos com pessoal fantástico, muitos deles já leitores há vários anos (em Angola, Moçambique, Bélgica, Polónia, Marrocos): destaque, desculpem os outros, para a Conceição (Moçambique) e o José (Polónia), mas também a aspirante a Marrocos. Acabei por não passar à segunda parte da entrevista, talvez porque na prova de grupo tenha falado muito pouco; preferi ouvir a voz da experiência e fazer algumas achegas quando achava necessário… Enfim, há que procurar outra coisa, entretanto, e rápido, e no próximo ano tentar outra vez! Assim sempre posso fazer melhor o mestrado, mas eu queria mesmo muito ir e trabalhar e estar fora daqui e de alguns pesos que me esmagam aqui em Portugal. Longe da vista, longe do coração: talvez fosse verdade, mas não era só por isso, claro.

Enfim, nem IC nem Universidade Júnior, já que segunda-feira tive de desistir por haver coincidência com o IC… enfim, vai chegar o momento em que todos me querem e eu já estou noutra!

Entretanto, afoga-se a tristeza em coisas tão bonitas como o álbum do Mika (life in cartoon motion - Any other world, Love today, Happy ending, Stuck in middle, além das mais conhecidas, Grace Kelly e Relax, take it easy) e o último dos Keane (Under the iron sea: Nothing in my way, A Bad dream, Crystal Ball, Is it any wonder?…). Destaques positivos: o futuro casamento da Joana Petinha (Setembro), ou a possibilidade da Sandra conseguir o seu primeiro emprego já na próxima semana!

quarta-feira, junho 20, 2007

coisas

acabei de sair de uma formação da universidade junior, na fac de psicologia. foi pónei, claro, mas formandas esforçaram-se muitoe até eram giras. mas gostei mais do pessoal, sobretudo a menina de arquitectura (mais uma)... e fui seleccionado para a segunda fase do instituto camões!!!!! 165 sobraram 36, eu sou um deles que vai lutar por uma das 19 vagas... e o porto está lindo...

terça-feira, junho 12, 2007

Geografia do Acaso

(com versos de Nzoji de Arlindo Barbeitos)


Não me fizeram adormecer
Os mercadores de cacos de cacos de coisa nenhuma.

Vejo estrelas que são bombas
Gentes que o esperar mata
Quatro árvores paradas em fuga
Um pássaro que nem asas tem
Uma borboleta desbotada
Cacos de arco-íris
Um tempo grande como o céu.

O homem tatuado caiu no feitiço das coisas de longe
Alegria breve que cabe inteira na minha mão
Para além do encanto e desencanto.
Questões para exames de literatura portuguesa VI

1.A funcionalidade dos motivos comestíveis na Demanda (o Graal, a corte, a penitência, os eremitas e as emparedadas)
2.Os eremitas e as emparedadas: que função na Demanda? Justificação para a sua elevada presença e existência.
3.Comente a seguinte afirmação de um eremita: “Ca bem sabedes que em esta demanda há já muitos mortos e ainda i morrerám mais”.
4.As cenas de cariz sexual na Demanda: as donzelas, Galaaz, Lancelot e Genebra, a emparedada, concepções estranhas, Modret…
5.Comente a frase: “Se não queredes comigo jazer, esta espada entrará em mim” (Marta)
(quando eu e a marta formos profs da cadeira... ;)...)

Lisboa nos últimos dias…


4 de Junho – Foi o dia maravilhoso em que eu, euzinho no meio de 165 pessoas, fiz o exame do Instituto Camões para uma das 19 vagas previstas de leitor de Português. Até que correu bem a primeira parte, a de análise e comentário gramatical de um texto de um aluno em aprendizagem da Língua Portuguesa. Valeu-me a leitura das suas teses de Isabel Leiria (A Aquisição dos Aspectos Verbais, e A aquisição do Léxico – títulos abreviados ao seu essencial disponíveis na biblioteca da FLUL – e um artigo encontrado na Internet: «Português língua segunda e língua estrangeira: investigação e ensino», que também deu uma ajuda importante, porque os desvios e falhas são comentados tendo em conta a aprendizagem dos estrangeiros e suas condicionantes não só gramaticais tradicionais mas sobretudo contextuais, pragmáticas, sociolinguísticas…). A segunda parte era composta por duas questões para escolher uma: ou a aquisição do léxico (Isabel Leiria outra vez – ela até era a presidente do júri de correcção e tal…) ou a relação literatura e outros textos na aprendizagem da língua. Escolhi esta última sobretudo porque umas semanas antes fiz uma recensão crítica ao artigo de Fernanda Irene Fonseca «Da Inseparabilidade do Ensino da Língua e o Ensino da Literatura», tendo para isso reflectido em textos de outros autores, nomeadamente Margarida Vieira Mendes, Manuel Gusmão, Aguiar e Silva – que me deram uma base teórica considerável para resolver esta questão que estava, obviamente, direccionada para o ensino-aprendizagem do Português como língua estrangeira/segunda. A terceira parte, aquela que em princípio seria a mais acessível por ser a de cultura, sobretudo a partir dos anos setenta, foi a mais complicada. Duas questões para escolher uma: ou a revisão da história recente de Portugal (nomeadamente colonial e pós-colonial – e eu a fazer um seminário chamado Diálogos Pós-Coloniais entre Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas) ou a relação entre as artes e a tecnologia. Respondi a esta última, porque numa nota impertinente dizia qualquer coisa como «Não se pedem exemplos da literatura» - logo eu não podia ir para o colonial pós-colonial porque não me lembrava de nada das outras artes que fizessem essa revisão, a não ser A Costa dos Murmúrios de Margarida Cardoso que, lá está, vem do livro homónimo de Lídia Jorge. Lá inventei como pude, falando de arquitectura, dança e cinema de fugida, de música focando Madredeus e o seu Electrónico, de artes plásticas e suas instalações e de teatro e do caso específico das encenações de Ricardo Pais, para terminar com umas considerações um pouco estranhas sobre o repensar da arte e da sua relação com os públicos. Enfim, três horas, onze páginas de escrita rigorosa (pois é) e tal.

(para quem está interessado, aqui ficam mais algumas referências breves de textos que consultei: «A Propósito De Uma Política De Língua» e «Uma Política de Língua para o Português» de Maria Helena Mira Mateus, disponíveis na Internet, uma tese de Valéria Verónica Quiroga sobre a aprendizagem do Espanhol, mas com introdução teórica relevante, também disponível on-line: A autonomia no processo de ensino-aprendizagem para a formação de professores de língua estrangeira: Espanhol, o site da Associação de Professores de Português, e outras pequenas coisas mais ou menos discutíveis que se vão encontrando, e para exercícios, veja-se ainda: http://www.prof2000.pt/users/anamartins/FLUP/LPE/Aula1.html, e as outras aulas).

Feira do Livro

Lisboa representa este ano também uma nova vertente da feira do livro. Ao ar livre, no Parque Eduardo VII. Desculpem-me o saudosismo, mas gosto mais da do Porto, a organização é mais sequenciada e nunca ninguém lá me apalpou como aqui. Mas esta tem a vantagem de aparecerem mais escritores para dar autógrafos. No dia 2, lá estavam, entre outros, Saramago, José Luís Peixoto, Pepetela, José Eduardo Agualusa, Alice Vieira, José Rodrigues dos Santos… Comprei algumas coisitas, claro, aproveitando o dinheiro recebido no meu aniversário: O Barão de Lavos de Abel Botelho, Histórias de cronópios e de famas de Júlio Cortázar, As Meninas de Lygia Fagundes Telles, Na Leveza do Luar Crescente de Arlindo Berbeitos, Contos Outra Vez de Luísa Costa Gomes, 2 filmes e algo de algodão de Jacinto Lucas Pires, Perseguição e Cerco de Juvêncio Gutierrez de Tabajara Ruas e os seis últimos volumes do Dicionário Ilustrado de Literatura Portuguesa… Obrigado à Carla por me ter aturado por lá em duas das três vezes em que fui!

sexta-feira, junho 01, 2007

o mundo

não, não vou falar do último álbum de rodrigo leão, embora esse seja um dos trunfos que espero me faça voar de portugal. esta segunda-feira vai ser a loucura: o exame eliminatório para encontrar os novos leitores do instituto camãoes no estrangeiro. eu concorri, como me competia. França, Reino Unido, Moçambique, Marrocos e Egipto são as prioridades. agora até estou mais virado para Marrocos, mas enfim, primeiro é preciso passar na prova. estudei afincadamente os madredeus e rodrigo leão para a parte da cultura. o mundo e deles também - entre os portugueses mais conhecidos estão eles. e tal... como eu também irei para o mundo, se me dexarem.
e a minha tese africana contém agora uma componente asiática muito interessante e inusitada...
e talvez seja este o ano do tão desejado interrail...
e o computador onde estou a escrever é tão lento e tão irritante que por agora chega.
à bien tout

quarta-feira, maio 09, 2007

Tonino Guerra - três histórias-poemas

Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria, tradução de Mário Rui de Oliveira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

11.
O Despertador

Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma bebuína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se este desaparecer deixarei de ter trabalho.»
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vê que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que, na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.

43.
Amou tanto

Agora era velha e não conseguia sentir-se tomada de qualquer sentimento em relação a coisa alguma, mas tinha amado muito. Esperava ainda encontrar-se com algum ser que se movesse sobre a crosta da terra.
Até que se enamorou pela fachada de uma igreja de Assis, decidindo mudar-se para aquela cidade. Era Inverno, e durante os temporais nocturnos, saía com o guarda-chuva para fazer companhia à igreja, plena de uma luz amedrontada.
Depois, chegou a Primavera, e todas as manhãs e todas as tardes, com as mãos, tocava as pedras quentes e enxutas. Foi um amor sereno e sem traições que durou até à sua morte.

62.
A cor do tempo

O convento tinha a forma de uma margarida. Desprendendo-se de um torre cilíndrica, cada cela formava uma pétala. Entre uma e outra cela, no pouco espaço de muro da torre que permanecia descoberto, havia uma fenda, fechada por um vitral colorido. Conforme a deslocação do sol em redor do convento, no interior do quarto cilíndrico, havia uma luz com a cor que jorrava do vitral que protegia a fenda atingida pelos raios de sol. Se a luz era azul era meio-dia, cor de laranja era já hora da ceia e assim para todas as outras horas do dia. De noite, a lua substituía o sol. No Inverno, com o céu encoberto, os monges passavam dias e dias sem saber a hora exacta e eram felizes, porque as suas vidas caminhavam de modo desordenado, especialmente no momento do encontro para o canto nocturno. Ou o levantar era demasiado cedo ou demasiado tarde e cada um acabava, assim, por cantar sozinho e os outros depois ou antes dele. Os cânticos solitários inundavam o céu até ao amanhecer.

dizem-me muito as três. a última é simplesmente perfeita. a segunda é triste, a primeira é desoladora.

embalo

Ontem à tarde adormeci pela primeira vez um bebé, o meu primo Rafael, de dois anos. Ficou em minha casa e a minha Mãe ia adormecê-lo, mas ele quis-me a mim. Claro que estava à espera de escapar, mas não lhe dei hipótese: li um bocadinho do Carocho-Pirilampo, embalei-o, brincou com o meu miau que tem patas de íman e, após algumas resmungadelas, lá ficou a dormir. Mas o acto de o adormecer lembrou-me uma outra pessoa, com quem dormi algumas vezes, porque me surpreendi a fazer coisas que lhe fazia. Cócegas leves no pescoço (com a mesma reacção: «Não» retumbante e aflito, mas engraçado, e um encolher rápido e coberto pela cabeça). E quando me fazem festas na cara atiro-me para morder, na brincadeira, felinamente (ou será mais serpentesmente?). Surgiu-me então a dúvida de saber se estas coisas eram minhas, se as aprendi com essa pessoa. Mas depois descobri que eram minhas porque as descobrira em mim com essa pessoa e agora podia repeti-las com outras, mesmo que noutras situações e graus.

segunda-feira, maio 07, 2007

manuscritos de eça


verdadeiras preciosidades, manuscritos de eça, que estavam guardados num cofre no Millenum BCP, foram encontrados e já estão disponíveis para download e, qualquer dia, disponíveis para visita na Biblioteca Nacional. para consultar e guardar.

aqui ficam os links e a primeira página de A Ilustre Casa de Ramires, o meu romance favorito do Eça.



A estória nenhuma

Em poema:

Era uma vez uma vez
Ou a vez nenhuma
Nesses tempos o tempo estava de férias
E o espaço era o vazio do nada.
Os seres não existentes faziam acções inexistentes
De quem ninguém não falava.

Era uma história como nenhuma outra.


Em conto:

Era uma vez uma vez, ou a vez nenhuma. Nesse tempo, o tempo estava de férias ou tinha emigrado, se é que alguma vez existiu. E o espaço era o vazio do nada de uma aldeia comum a todas as outras de norte a sul, passando pelo centro. Nesta aldeia não houve uma mulher sonâmbula que se levantava todas as noites e, com um cântaro na cabeça, ia à fonte buscar água, regressando transbordando de vida. E uma noite, essa mulher que não existia, pegou no cântaro e saiu até à ilusória fonte. No regresso, sempre sonâmbula em si, não retirou de cabeça e ao entrar em casa partiu-se e acordou-a com o contacto com a água fria. Mas nada disto aconteceu, claro, porque os seres não existentes não praticam acções – e estas são inexistentes. E ninguém não falava delas. Era uma estória como nenhuma outra.

segunda-feira, abril 23, 2007

dia do livro

O "Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor" é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril, dia de São Jorge.Esta data foi escolhida para honrar a velha tradição catalã segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas UMA ROSA VERMELHA DE SÃO JORGE (Saint Jordi) e recebem em troca, UM LIVRO.Em simultâneo, é prestada homenagem à obra de grandes escritores, como Shakespeare e Cervantes, falecidos em 1616, exactamente a 23 de Abril.Partilhar livros e flores, nesta primavera, é prolongar uma longa cadeia de alegria e cultura, de saber e paixão. (http://www.iplb.pt/pls/diplb/!main_page?levelid=234)
uma boa desculpa para voltar ao blog... e s eme permitem, uma sugestão: Pensatempos, de Mia Couto (http://comumonline.net/noticia.asp?id=1816), vencedor do Prémio da união Latina deste ano. Um livro com reflexões muito sérias, vista de um modo muito sério... e muito divertido.E, já agora, Rioseco, de Manuel Rui, embora esteja esgotado... mas existem as bibliotecas...

quarta-feira, março 28, 2007

despedida

já há algum tempo que isto deixou de fazer sentido, escrever neste blog. eu já não sou o mesmo, recentes acontecimentos e estradas percorridas levaram-me a reconsiderar muitas coisa. muitas delas nem fazem grande sentido. às vezes nem eu faço sentido para mim próprio, quanto mais para os outros. já morri no porto, não cheguei a renascer em lisboa, em poiares sou um sonâmbulo. a pouco tempo de fazer dois anos, este blog encerra as suas «tulisses», para melhores dias. também me encerro um pouco mais, mas é um percurso inevitável que só em fará crescer ainda mais. a todos os que por aqui passaram, comentando ou não, obrigado pela amizade. ficam sempre na geografia do meu coração. por fim, a ti que tantas coisas me ensinaste e fizeste ver de maneira diferente (ou não), também tu me mataste e matas todos os dias, mas a vida é também feita de mortes. termino como comecei, com um poema de sophia:

SOROR MARIANA - BEJA

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor


O Nome das Coisas, 1977

quarta-feira, março 21, 2007

prémio camões

O Prémio Camões é o mais importante galardão literário de língua portuguesa, atribuído anualmente pela Fundação Biblioteca Nacional (de Portugal) e pelo Departamento Nacional do Livro (do Brasil) a um escritor que tenha desenvolvido um conjunto de obra relevante em língua portuguesa. E este ano foi, finalmente, entregue a António Lobo Antunes!

A lista de vencedores é a seguinte:
1989 - Miguel Torga (Portugal, 1907-1994)
1990 - João Cabral de Melo Neto (Brasil, 1920-1999)
1991 - José Craveirinha (Moçambique, 1922-2003)
1992 - Vergílio Ferreira (Portugal, 1916-1996)
1993 - Rachel de Queiroz (Brasil, 1910-2003)
1994 - Jorge Amado (Brasil, 1912-2001)
1995 - José Saramago (Portugal, 1922)
1996 - Eduardo Lourenço (Portugal, 1923)
1997 - "Pepetela" (Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, Angola, 1941)
1998 - Antonio Candido (Brasil, 1918)
1999 - Sophia de Mello Breyner (Portugal, 1919-2004)
2000 - Autran Dourado (Brasil, 1926)
2001 - Eugénio de Andrade (Portugal, 1923-2005)
2002 - Maria Velho da Costa (Portugal, 1938)
2003 - Rubem Fonseca (Brasil, 1925)
2004 - Agustina Bessa-Luís (Portugal, 1922)
2005 - Lygia Fagundes Telles (Brasil, 1923)
2006 - José Luandino Vieira (Angola, 1935) (recusou o prémio por motivos pessoais)
2007 – António Lobo Antunes (Portugal, 1942)

Enterrem-me esse deus

(porque hoje é Primavera, mas também o dia da poesia)

(com versos de Afonso Duarte)

Também eu já fiz minha humanidade
De árvores, de pedras e de rios
E os deixei porque vi que sacrifiquei o amor
Por me encontrar de mais com a paisagem.

Agora trago os olhos quebrados de tristeza,
Quando na praia não há o tambor do mar
E nele apenas a gaivota, que me enche
De saudades e lonjuras de mim.

Jogo meu corpo às nuvens que o sol abrasa
Em ti, que bem meu corpo se acomodava –
- verso que dentro em nós não cabe.
Lá, eu posso morrer. Eu, posso lá morrer!

segunda-feira, março 12, 2007

deserto de mim


Primeira desilusão

Quebraram os vasos
Antes de eu nascer

Como pegar-lhes
Se não existimos mais?



Última desilusão

Plantaram as árvores
Antes de eu morrer

Como senti-las
Se não as chegarei a ver?

A palavra gato morde



«A palavra cão não morde»
Henry James

De todos os medos, aquele que mais me aterroriza é no instante imediatamente antes de dormir. À noite, quando a casa está silenciosa e deserta de ti e sombras crescem amplificando os objectos e os móveis, há a presença apenas dos meus passos, dos meus ruídos de preparação para dormir. Temos de arranjar um gato, talvez mitigasse esta sensação de escuro e quebrasse a solidão. Os gatos não fazem companhia, dizes. Arranja antes um cão – mas para esse era preciso mais tempo, para ensinar, para brincar. O melhor era o gato. Mesmo que não me ligasse nenhuma, estaria sempre por ali…
Só ao apagar a luz me descubro acompanhada. Ao entrar na cama ainda há o teu calor, ainda. Às vezes o teu perfume. Deixas sempre o pijama no chão, do teu lado. Nunca o apanho, pois isso seria quebrar as tuas rotinas e a ordem do teu mundo. Para chegar ao quarto é preciso progressivamente ir acendendo as luzes, e depois apagá-las. E espreitar pela janela, debaixo da cama, no guarda-fatos. É um pouco paranóico, mas desde pequena se tornou um ritual antes de dormir. Só tu o quebraste quando casámos e íamos juntos dormir, quando eu me sentia segura e feliz. Agora é a pressa e o desencontro das nossas vidas que nos colocam solitariamente de nós quase todo o dia. E é no momento de dormir, após alguma oração meio apressada e de uma canção ou duas, meio cantadas, meio balbuciadas, para entorpecer os sentidos, que enfrento a escuridão das horas seguintes. Nem sempre me apercebo de sombras de fora que passam pelas frinchas da janela, mas inevitavelmente só adormecerei deitada de lado, sobre o braço esquerdo – a posição que me permite estar de frente para a porta e para a janela. É impossível conseguir adormecer de outra maneira pois o vazio incomoda e provoca arrepios na espinha. De costas só para ti, como se pudesses proteger-me sempre, mesmo quando não estás. E enfrentar o que vier sempre de frente.

Quando volto é dia e as pessoas saem à rua para o trabalho. Tu estás como sempre com um sorriso pijamoso à minha espera, com um pequeno-almoço reforçado. Às vezes não é bem o pequeno-almoço que nos interessa… Queixas-te das saudades que sentiste esta noite, e do medo. Das saudades, pouco posso fazer, os meus turnos este mês são assim e não há nada a fazer, porque não consigo arranjar outro emprego. Do medo, aconselho-te novamente o cão: Quem tem medo compra um cão. Far-te-ia companhia, mas tu recusas por causa do trabalho que teríamos com ele. E com tão pouco tempo, ambos sempre fora de casa… Depois aproveitamos melhor a hora que temos juntos antes de ires trabalhar. Vais ficando fresca durante o duche, ganhas uma suavidade inebriante. E quando sais nada me resta mais para fazer. O pijama está no sítio de sempre. Quando entro na cama, encontro-te ainda nela, com o teu perfume e os vincos nos lençóis, que me acompanham no dia de que não verei muito mais luz.

Esta noite, em que jantaria sozinha, como sempre durante um mês, de mês a mês, tenho comigo um gato. É o gato da vizinha que saiu uns dias e me pediu para ficar com ele. Está a dormir, encostado à janela que talvez tenha ainda algum calor do dia. Depois de jantar poderei ler um pouco o romance que me ofereceste no aniversário e que ainda nem a meio vai. Não é mau mas é tão violento… Não tenho temperamento para policiais.
Lá fora anda um cão a espreitar pela porta. Talvez tenha adivinhado o gato num local estranho. O gato é que o adivinhou de imediato e eriçou o pelo, algo desconfortado, mas seguro pelo vidro. Para evitar tensões, fecho a persiana e até corro a cortina. O ritual hoje mantém-se, mesmo tendo aqui um gato. Ou talvez por isso, afinal o gato não é meu e não me deve qualquer tipo de amizade… E um gato não me pode proteger de nada nem de ninguém – a não ser da solidão. Se aqui aparecesse um criminoso qualquer o gato fugiria ou, na melhor das hipóteses, morria ao esboçar o mínimo gesto de ataque. A verdade é que para chegar ao quarto não sinto a necessidade de progressivamente ir acendendo as luzes, e depois apagá-las: avanço pela escuridão do corredor tantas vezes por mim percorrido, com o gato ronronante nos braços. Mas espreito pela janela, com a desculpa de tentar ver o cão de há pouco, e debaixo da cama, no guarda-fatos, onde o cão não poderá estar de maneira nenhuma.
O pijama no chão hoje incomoda-me e apanha-o e arrumo-o no guarda-fatos. Ao apagar a luz descubro-me acompanhada. Ao entrar na cama ainda há o teu calor, mas não o teu perfume. E neste momento de dormir, após uma oração sentida e de uma canção digna de ovação, fecho os olhos. O gato aninhou-se ao fundo da cama e não perturba com a sua respiração profunda. Apesar de tantas mudanças sei que só adormecerei deitada de lado, sobre o braço esquerdo, pelas mesmas razões de sempre. Penso que começa até a ser um peso excessivo sobre o coração. Será que dormir sempre assim poderá afectá-lo? Terei de falar com alguém sobre isso.

O dia nasce para tantos. Para mim também, mas o sono domina já os meus sentidos. Estranhamente não cheira a torradas quando entro em casa. Não há nada sobre a mesa. Não corre água no chuveiro, não há vapor. No quarto estás deitada, serena. O gato salta e foge quando me vê, corre pelo corredor… Queixas-te das saudades que sentiste esta noite, mas não muito do medo. Mas sabes que o gato não é teu, tens de arranjar um, então, já que gostaste da experiência e te sentiste melhor esta noite. Mas olha que o cão… Levantaste tentando recuperar o tempo perdido. Enquanto tomas banho eu preparo teu pequeno-almoço, a minha ceia. Sais de casa e subitamente fico tão só como nunca. O gato voltou para a cama e já nãos e incomoda com a minha presença. Demoro algum tempo a encontrar o pijama, mas quando o resgato entro na cama, encontro-te ainda nela, com o teu perfume, mas sem vincos. Tiveste talvez uma boa noite de sono descansada…

Foram as melhores noites de sono em anos. O gato ajudou-me a progressivamente ir deixando alguns medos. Hoje consegui adormecer de barriga para baixo! Quebrei tanto o ritual que nem sou a mesma mulher. Esta noite janto sozinha, como sempre durante um mês, de mês a mês. Já não tenho comigo o gato da vizinha. Acabei de ler o policial. Agora tenho no sofá um outro livro, parece ser mais do meu estilo, foi o que a tua irmã me ofereceu no meu aniversário. Foram tantos os livros que me ofereceram neste aniversário… com a desculpa de que não sabiam o que me oferecer…
O pijama continua a não estar no chão, e isso incomoda-me. Tiro-o do guarda-fatos. Ao apagar a luz descubro-me acompanhada. Neste momento de dormir, após uma oração sentida e de uma canção digna de ovação, fecho os olhos. Penso na necessidade de arranjar um gato, ou talvez um cão… A palavra gato enche-me a cabeça. A tua voz dizendo-o. De repente, naquele preciso momento de dormir, em que os pensamentos e as memórias começam a transformar-se em sonhos, a palavra na tua boca morde-me, e sinto então o teu calor e o teu perfume, e um ronronar delicado entre nós.

quarta-feira, março 07, 2007

excêntrico II





como prometido ;), em latim (de onde vem a forma do meu nome em português) e em grego (obviamente por similitude fonética, tal como no árabe e no indiano...)

sexta-feira, março 02, 2007

para quem acha que eu sou egocêntrico e tal...


afinal também sou excêntrico...
(o meu nome em indiano e em árabe, futuramente verm aí em latim e em grego... ou não)