segunda-feira, março 12, 2007

A palavra gato morde



«A palavra cão não morde»
Henry James

De todos os medos, aquele que mais me aterroriza é no instante imediatamente antes de dormir. À noite, quando a casa está silenciosa e deserta de ti e sombras crescem amplificando os objectos e os móveis, há a presença apenas dos meus passos, dos meus ruídos de preparação para dormir. Temos de arranjar um gato, talvez mitigasse esta sensação de escuro e quebrasse a solidão. Os gatos não fazem companhia, dizes. Arranja antes um cão – mas para esse era preciso mais tempo, para ensinar, para brincar. O melhor era o gato. Mesmo que não me ligasse nenhuma, estaria sempre por ali…
Só ao apagar a luz me descubro acompanhada. Ao entrar na cama ainda há o teu calor, ainda. Às vezes o teu perfume. Deixas sempre o pijama no chão, do teu lado. Nunca o apanho, pois isso seria quebrar as tuas rotinas e a ordem do teu mundo. Para chegar ao quarto é preciso progressivamente ir acendendo as luzes, e depois apagá-las. E espreitar pela janela, debaixo da cama, no guarda-fatos. É um pouco paranóico, mas desde pequena se tornou um ritual antes de dormir. Só tu o quebraste quando casámos e íamos juntos dormir, quando eu me sentia segura e feliz. Agora é a pressa e o desencontro das nossas vidas que nos colocam solitariamente de nós quase todo o dia. E é no momento de dormir, após alguma oração meio apressada e de uma canção ou duas, meio cantadas, meio balbuciadas, para entorpecer os sentidos, que enfrento a escuridão das horas seguintes. Nem sempre me apercebo de sombras de fora que passam pelas frinchas da janela, mas inevitavelmente só adormecerei deitada de lado, sobre o braço esquerdo – a posição que me permite estar de frente para a porta e para a janela. É impossível conseguir adormecer de outra maneira pois o vazio incomoda e provoca arrepios na espinha. De costas só para ti, como se pudesses proteger-me sempre, mesmo quando não estás. E enfrentar o que vier sempre de frente.

Quando volto é dia e as pessoas saem à rua para o trabalho. Tu estás como sempre com um sorriso pijamoso à minha espera, com um pequeno-almoço reforçado. Às vezes não é bem o pequeno-almoço que nos interessa… Queixas-te das saudades que sentiste esta noite, e do medo. Das saudades, pouco posso fazer, os meus turnos este mês são assim e não há nada a fazer, porque não consigo arranjar outro emprego. Do medo, aconselho-te novamente o cão: Quem tem medo compra um cão. Far-te-ia companhia, mas tu recusas por causa do trabalho que teríamos com ele. E com tão pouco tempo, ambos sempre fora de casa… Depois aproveitamos melhor a hora que temos juntos antes de ires trabalhar. Vais ficando fresca durante o duche, ganhas uma suavidade inebriante. E quando sais nada me resta mais para fazer. O pijama está no sítio de sempre. Quando entro na cama, encontro-te ainda nela, com o teu perfume e os vincos nos lençóis, que me acompanham no dia de que não verei muito mais luz.

Esta noite, em que jantaria sozinha, como sempre durante um mês, de mês a mês, tenho comigo um gato. É o gato da vizinha que saiu uns dias e me pediu para ficar com ele. Está a dormir, encostado à janela que talvez tenha ainda algum calor do dia. Depois de jantar poderei ler um pouco o romance que me ofereceste no aniversário e que ainda nem a meio vai. Não é mau mas é tão violento… Não tenho temperamento para policiais.
Lá fora anda um cão a espreitar pela porta. Talvez tenha adivinhado o gato num local estranho. O gato é que o adivinhou de imediato e eriçou o pelo, algo desconfortado, mas seguro pelo vidro. Para evitar tensões, fecho a persiana e até corro a cortina. O ritual hoje mantém-se, mesmo tendo aqui um gato. Ou talvez por isso, afinal o gato não é meu e não me deve qualquer tipo de amizade… E um gato não me pode proteger de nada nem de ninguém – a não ser da solidão. Se aqui aparecesse um criminoso qualquer o gato fugiria ou, na melhor das hipóteses, morria ao esboçar o mínimo gesto de ataque. A verdade é que para chegar ao quarto não sinto a necessidade de progressivamente ir acendendo as luzes, e depois apagá-las: avanço pela escuridão do corredor tantas vezes por mim percorrido, com o gato ronronante nos braços. Mas espreito pela janela, com a desculpa de tentar ver o cão de há pouco, e debaixo da cama, no guarda-fatos, onde o cão não poderá estar de maneira nenhuma.
O pijama no chão hoje incomoda-me e apanha-o e arrumo-o no guarda-fatos. Ao apagar a luz descubro-me acompanhada. Ao entrar na cama ainda há o teu calor, mas não o teu perfume. E neste momento de dormir, após uma oração sentida e de uma canção digna de ovação, fecho os olhos. O gato aninhou-se ao fundo da cama e não perturba com a sua respiração profunda. Apesar de tantas mudanças sei que só adormecerei deitada de lado, sobre o braço esquerdo, pelas mesmas razões de sempre. Penso que começa até a ser um peso excessivo sobre o coração. Será que dormir sempre assim poderá afectá-lo? Terei de falar com alguém sobre isso.

O dia nasce para tantos. Para mim também, mas o sono domina já os meus sentidos. Estranhamente não cheira a torradas quando entro em casa. Não há nada sobre a mesa. Não corre água no chuveiro, não há vapor. No quarto estás deitada, serena. O gato salta e foge quando me vê, corre pelo corredor… Queixas-te das saudades que sentiste esta noite, mas não muito do medo. Mas sabes que o gato não é teu, tens de arranjar um, então, já que gostaste da experiência e te sentiste melhor esta noite. Mas olha que o cão… Levantaste tentando recuperar o tempo perdido. Enquanto tomas banho eu preparo teu pequeno-almoço, a minha ceia. Sais de casa e subitamente fico tão só como nunca. O gato voltou para a cama e já nãos e incomoda com a minha presença. Demoro algum tempo a encontrar o pijama, mas quando o resgato entro na cama, encontro-te ainda nela, com o teu perfume, mas sem vincos. Tiveste talvez uma boa noite de sono descansada…

Foram as melhores noites de sono em anos. O gato ajudou-me a progressivamente ir deixando alguns medos. Hoje consegui adormecer de barriga para baixo! Quebrei tanto o ritual que nem sou a mesma mulher. Esta noite janto sozinha, como sempre durante um mês, de mês a mês. Já não tenho comigo o gato da vizinha. Acabei de ler o policial. Agora tenho no sofá um outro livro, parece ser mais do meu estilo, foi o que a tua irmã me ofereceu no meu aniversário. Foram tantos os livros que me ofereceram neste aniversário… com a desculpa de que não sabiam o que me oferecer…
O pijama continua a não estar no chão, e isso incomoda-me. Tiro-o do guarda-fatos. Ao apagar a luz descubro-me acompanhada. Neste momento de dormir, após uma oração sentida e de uma canção digna de ovação, fecho os olhos. Penso na necessidade de arranjar um gato, ou talvez um cão… A palavra gato enche-me a cabeça. A tua voz dizendo-o. De repente, naquele preciso momento de dormir, em que os pensamentos e as memórias começam a transformar-se em sonhos, a palavra na tua boca morde-me, e sinto então o teu calor e o teu perfume, e um ronronar delicado entre nós.

quarta-feira, março 07, 2007

excêntrico II





como prometido ;), em latim (de onde vem a forma do meu nome em português) e em grego (obviamente por similitude fonética, tal como no árabe e no indiano...)

sexta-feira, março 02, 2007

para quem acha que eu sou egocêntrico e tal...


afinal também sou excêntrico...
(o meu nome em indiano e em árabe, futuramente verm aí em latim e em grego... ou não)

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

linguagem

«Le langage est a qui exprime la visée du désir et du pouvoir et assigne à la reconnaissance sa finalité dernière: celle d’être, à tout moment de l’existence et même au terme de celle-ci, un triomphe de la vie sur la mort, du sens sur le non-sens».

Selim Abou, L’identité culturelle, p.17

Sugestões de leitura (Fevereiro)

O Feitiço da Rama de Abóbora – Tchikakata Balundu (Angola, Campo das Letras) ****
O Homem que Via Passar os Comboios – Georges Simenon (Bélgica, Público/Mil Folhas) ****
Vida & Fugas de Fanto Fantini – Álvaro Cunqueiro (Espanha, Felício & Cabral) ****
Fazes-me Falta – Inês Pedrosa (Portugal, D. Quixote) ****
Poemas – Almada Negreiros (Portugal, Assírio & Alvim) ***

Poema de Almada Negreiros

Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Catorze Poemas de Amor



Na lírica portuguesa, desde o seu início até aos nossos dias, o amor tem sido tema de inúmeros poemas: os sentimentos por ele provocados, contradições, tentativas na sua definição, benefícios e malefícios, o cortejo do objecto amado, a recordação dos bons momentos passados, o sonho de um futuro juntos…, enfim, um sem-número de ambivalências e diferentes vertentes de encarar um sentimento que tem feito história literária, artística, cultural e social.
Devido a esta riqueza tão grande que representa o amor na lírica portuguesa, que vem já desde os trovadores provençais e da poesia palaciana de quinhentos, esta pequeníssima antologia, que seleccionou apenas catorze poemas, devido ao dia em que se celebra o dia dos namorados, seleccionou poemas apenas de poetas portugueses.
Sem ter qualquer grande pretensão, a antologia serve apenas para marcar um dia especial, muito especial, porque é o primeiro dia em que realmente estou englobado…
A antologia começa com um poema famosíssimo de João Ruiz de Castell-Branco, poeta de quinhentos da corte portuguesa, que num raro momento de originalidade criou aquele que é apontado como o melhor poema escrito dentro da estética cancioneiril e cortês. Reflecte o amor impossível, que é tão caro na poesia portuguesa, porque a sua senhora parte e o sujeito poético fica triste, doente, desejando a morte, mas tudo visto, sentido e interpretado através dos olhos.
Luís de Camões não poderia faltar numa antologia sobre o amor! Ele cantou-o de forma veemente, magistralmente. Em muitos dos seus textos vive polarizações entre o amor espiritual e o amor carnal, mas também entre um amor que salva e um amor que perde o ser humano, que lhe tira a sua dignidade e a liberdade. Em outros tenta definir o amor. O soneto escolhido por mim para ti vive dos efeitos provocados no sujeito poético, efeitos esses por vezes contraditórios, apenas por ter visto uma senhora, a senhora que ocupa já o seu coração.
António ferreira, se bem que não se dedicou com muita frequência ao tema do amor, é aqui apresentado com um dos seus sonetos mais belos e conhecidos. Pensa-se que será um soneto em louvor da sua mulher, após a sua morte prematura.
Até Almeida Garrett foram muitos poemas que se debruçaram sobre o tema, não se pense que houve um obscurecimento de duzentos anos, trata-se até de um período muito rico em composições barroquizantes e neoclassizantes que tratam o tema, mas como a antologia é limitada, acabaram por ficar de fora… De Almeida Garrett, introdutor do Romantismo em Portugal, escolhi A Estrella, do livro Flores Sem Fruto, por ser um poema extremamente belo, retirado de um livro menos conhecido que Folhas Caídas. Aqui a estrela é também um ser amado pelo sujeito poético que só é visto por ele, e ainda bem, senão poderia ser cobiçado por outros.
Interrogação, incluído em Clepsidra, é um exemplo muito belo da poesia amorosa em Camilo Pessanha. Talvez um dos mais belos desta antologia, retrata mais uma vez os sentimentos provocados por alguma coisa que o sujeito não tem bem a certeza se se trata de amor ou não.
Miguel Torga não tratou também muito o tema do amor, mas tem alguns poemas muito bem conseguidos a este nível. Este, aparentemente simples, como já é comum nos seus textos, parece ser um conselho para quem ama…
Jorge de Sena foi sem dúvida, uma das mais importantes figuras da cultura e literatura portuguesas no século XX. Além disso, a sua presença nesta antologia justifica-se por um poema, representativo de muitos outros, em que o mar está fortemente presente (na nossa poesia há uma grande tradição da presença do mar). Sugere um amor que leva até à confusão da identidade das duas parcelas do acto amoroso (ver última estrofe). O mar está também presente no poema escolhido de David Mourão-Ferreira, que retrata um amor difícil de concretizar.
Sophia de Mello Breyner Andresen, de forma elíptica e breve, num poema que pode ter várias linhas de interpretação, poderá retratar um amor em que o sujeito amado está ausente, mas o próprio vazio faz lembrar o sujeito poético do seu rosto, da sua perfeição… É apenas um dos muitos poemas de Sophia sobre amor, todos eles de uma beleza indescritível.
A antologia segue com um poema de Eugénio de Andrade onde se vê um sujeito criador, justificando a sua criação apenas por um ser. Possibilitando várias leituras, também a do amor poderá ser apreendida do poema.
Mário Cesariny aborda o tema da procura, do encontro e desencontro com o objecto do seu amor… Nuno Júdice aborda o amor acabado, que é recordado… Francisco José Viegas, no poema escolhido, fala de outra perspectiva, a de um amor vivido a dois, vivido já no mesmo espaço
Já António Ramos Rosa mostra-nos um amor mais universal, que não pode ser contido já no seu coração.
E agora, resta apenas ler os poemas e quem sabe, viver algum deles…

Catorze de Fevereiro de 2004
*
João Ruiz de Castell-Branco
(tempo de D. João II)

Cãtygua sua partindosse

Senhora partem tam tristes
meus olhos por vos meu bem
que nunca tam tristes vistes
outros nunhũs por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos.
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
quen nunca tam tristes vistes
outros nunhũs por ninguém.

*

Luís de Camões
(?1524-1580)

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvairo, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Nũa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ũa hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.

*

António Ferreira
(1528-1569)

Ó alma pura, enquanto cá vivias
alma lá onde vives já mais pura,
porque me desprezaste? Quem tão dura
te tornou ao amor que devias?

Isto era o que mil vezes prometias,
em que minh’alma estava tão segura;
que ambos juntos ũa hora desta escura
noite nos soberia aos claros dias?

Como em tão triste cárcer me deixaste?
Como pude eu sem mim deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?

Ah, que o caminho tu bem mo mostraste
por que correste à gloriosa palma!
Triste de quem não mereceu seguir-te.

*

Almeida Garrett
(1799-1854)

A Estrella


Há uma estrella no céu
Que ninguém vê senão eu:
Inda bem! – que a não vê mais ninguem.

Como as outras que não reluz;
Mas dá tam serena luz,
Que, inda bem! – não vê mais ninguem.

No cantinho azul do céu
Onde ella está, não digo eu
A ninguém! – sei-o eu só: inda bem.

*

Camilo Pessanha
(1867-1926)

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

*

Miguel Torga
(1907-1995)

Cântico de Amor

Ama quem amas, como o vento
Ama as folhas do olmo
(Amor que lhes transmite movimento
E alegria.)
Asa que possa andar no firmamento,
Só caminha no chão por cobardia.

*

Jorge de Sena
(1919-1978)

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

*

Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-)

O vazio desenhava desde sempre

O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto
Todas as coisas serviram para nos ensinar
A ardente perfeição da tua ausência

*

Eugénio de Andrade
(1923-)

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

*

Mário Cesariny
(1923-)

Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

*

António Ramos Rosa
(1924-)

Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor
para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque
na garganta
ainda que o ódio estale
a crepite e arda
sol montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas.

Não, não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese
séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore,
não posso adiar para
outro século minha
vida
nem o meu amor
nem o meu grito de
libertação
Não posso adiar o coração

*

David Mourão-Ferreira
(1927-1996)

Soneto do amor difícil

A praia abandonada recomeça,
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso mor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo a nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
Desencanto na curva do teu céu.

*

Nuno Júdice
(1949-)

Um amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

*

Francisco José Viegas
(1962-)

De novo o amor

Aí navegam os teus braços, atravessam-me de um lado
ao outro, e do outro lado do mundo uma árvore estará
erguida para me acolher no seu verde ramo. É um pássaro

erguido à altura dos teus dedos, quando brincam
dentro de mim e me perfuram o coração: e quando me rio
tu falas do perfume pegado à camisola e dos lenços

espalhados na mesa. Quando esse pássaro vier trazer-te
a manhã, não abras a porta, é apenas um voo inquieto.
*
(Nota: se fosse feita a antologia hoje, os poemas seriam bem outros...)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

PESSOA (S)



Os Grandes Portugueses, o programa da rtp, pode ser um pouco estranho e com critérios pouco definidos ou assim... No entanto, é ónvia a minha escolha, de acordo com a minha formação literária, cultural e humanista, para além de alguma identificação (fragmentação) e gosto pessoal. Como já uma vez aqui escrevi, Pessoa pode não ter sido o maior português (apesar de ser bem alto), mas foi tantos... e tão bons... e as influências da cultura inglesa que lhe são apontadas sõ mostram o quão permeáveis somos a outras culturas, como as aceitamos e nelas nos imiscuímos sem grandes problemas. Como nenhum outro, produziu uma obra tão vasta, tão diversa, cobrindo todos os campos do saber, sendo tantas formas diversas de ser português...

(aconselho a ouvirem "Apontamento" de Margarida Pinto, e o álbum "Pessoa" dos WordSong!!)

Mas pronto, se não for ele, ao menos Camões, ou Aristides de Sousa Mendes...

Sugestões de leitura

Dos dez livros lidos em Janeiro, sugiro:

Expedição Montaigne, Antonio Callado (Brasil, ed. Nova Fronteira) ***
O Cão e os Caluandas, Pepetela (Angola, ed. D. Quixote) ****
Poesias de Afonso Duarte (Portugal, ed. Comunicação ) ***
Parábola do Cágado Velho, Pepetela (Angola, ed. D. Quixote) *****
Pode Um Desejo Imenso, Frederico Lourenço (Portugal, ed. Ctovia – edição conjunta dos três romances) *****
Como se o mundo não tivesse leste, Ruy Duarte de Carvalho (Angola, ed. UEA) *****
Literatura Portuguesa e Brasileira, org. João Almino e Arnaldo Saraiva (Portugal, ed. CNCDP) ****

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Correntes d’escrita 2007

Na Póvoa de Varzim, de 7 a 10 de Fevereiro, encontraram-se vários escritores, mas também músicos, cineastas, fotógrafos, para discutirem questões em torno da literatura de expressão ibérica (sendo as línguas, portuguesa e espanhola, o núcleo agregador das obras e escritores em destaque). Apesar das várias sessões, bastante interessantes. Só pude assistir a duas.
Quarta-feira fui com a Milai, Joana Castro, Joana Cardoso ver a sessão “Uns pelos Outros”, a 1.ª, com Fernando Lopes, Lídia Jorge, Luís Carlos Patraquim, Marco Martins, Margarida Cardoso – e um inexistente Luís Sepúlveda, que era para ser o moderador… Discutiu-se o cinema português como potencialmente literário, não só quando faz adaptações de romances. Fernando Lopes falou de O Delfim, Lídia Jorge e Margarida da criação do filme A Costa dos Murmúrios, e Marco Martins falou do sucesso de Alice e confessou (o que eu já desconfiava) a inspiração de A Criança no Tempo de Ian McEwan. Foi bastante interessante, com destaque para a presença, no público, do Luandino Vieira, e a presença e as palavras de Lídia Jorge.
Na sexta fui, com a Consti, Mário, Milai, Joana, Leandro e o Ricardo Jorge, assistir à 8.ª mesa: “Letra e Música”, com Ivo Machado, Manuel Freire, Manuel Rui, Sérgio Godinho, Vitorino e Vítor Quelhas. Menos interessante que a outra, porque se falou de coisas menos literárias, mas o Manuel Rui salvou a noite com a sua presença estrangeira (=estranha), as suas palavras africanas de ver as coisas à sua volta. A Consti interveio rematando: «poesia e música são palavras com açúcar dentro».
Destaque para o livro A Génese do Amor de Ana Luísa Amaral (professora na FLUP), vencedora do concurso. (ver: http://www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas/)

Mas estes dias no Porto-Póvoa-Vila do Conde foram mais do que isto: reencontros com a Su, Lena, Bruna, Mito, Daniela, Joaninha, Roberto… E os estudos da Consti para Teoria, os gatos dela, a falha de luz em casa que nos levou a ir estudar para o Bom Sucesso, o tubarão ao jantar, as conversas breves com a Malato e José Carlos Miranda, a demanda pelo livro aparentemente esgotado (Rioseco, Manuel Rui) e sei lá mais o quê…

terça-feira, fevereiro 06, 2007

poema brandoniano - a partir de frases de Os Pescadores

último poema... ou o mais recente

Nunca dês um nome a uma pessoa
Ela é sempre outra

Quanto mais uma identidade
Que não passa de

Uma outra máscara.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

muito bonita... "Rosa" de Rodrigo Leão



hoje o céu está mais azul
eu sinto

fecho os olhos,
mesmo assim
eu sinto o meu corpo estremecer
não consigo adormecer

Amor
nem o tempo vai chegar
pra dizer o quanto eu sinto
você longe de mim

é uma espécie de dor

hoje o céu está mais azul
eu sinto
olho à volta,
mesmo assim
eu sinto que este amor vai acabar
e a saudade vai voltar

Amor
nem o tempo vai chegar
pra dizer o quanto eu sinto
você longe de mim

é uma espécie de dor

já não sei o que esperar
dessa vida fugidia
não sei como explicar
mas é mesmo assim o Amor

“Rosa”, Rodrigo Leão: Cinema

Auto(r)fagia



Ao sentar-se diante da lareira, João reparou na beleza das labaredas. Estendeu as mãos e aqueceu-as, esfregando-as uma na outra. Depois retirou-as e ficou a contemplar as brasas e algumas chamas que ainda irrompiam do cavaco, por ele cortado no verão. Agora era frio e todos se juntavam à noite à lareira, na cozinha, para se aquecerem do frio do corpo e da alma.
João tinha ficado em casa todo o dia porque na véspera quase tinha ficado sem uma perna num acidente com o carro de bois, e a família achara por bem deixá-lo sarar-se antes de voltar a trabalhar. Não tardaria todos estariam ali, a comer e a conversar. Por fim, teria de cumprir a promessa feita aos filhos já há alguns dias: contar um conto dos antigos, mas novo: um que eles ainda conhecessem. Isso era difícil porque a avó sabia tantos e tão inumeráveis que mas ninguém conhecia - mas agora estava muito velha e já não dizia coisa com coisa. Por isso João não sabia o que contar porque tudo o que sabia tinha aprendido com a anciã.
Passando as mãos pela barba pensou que o melhor era contar uma história igual, mas com algumas alterações, como já lhe ocorrera ontem, antes do acidente (segundo ele, para ele próprio, tinha-se distraído a pensar na conto e por isso é que a roda que caíra em cima da perna). Bem vistas as coisas, alterados teriam de ser os sítios e os nomes das pessoas, ou as profissões… coisas usadas também, claro. Depois era fácil construir uma nova história.
- Ora então – murmurou, enquanto tentava escolher o conto que o inspiraria, comecemos por… No início tem de acontecer alguma coisa… assim como… bem, tenho de apresentar a pessoa: João… Grilo. Isso! Depois, ah, é pobre e os pais querem que ele case com uma mulher rica, claro… Bem, depois o costume, as jóias desaparecem, o rei oferece uma recompensa a quem descobrir as jóias… mas, para ser mais difícil, ele está fechado num quarto… Sim, assim é mais difícil para ele explicar o que aconteceu às jóias. Bom, depois… ele não quer ir, mas os pais convencem-no… tenho de inventar as razões… depois penso nisso… é que se não fica igual à história do José Rato… Então depois ele vai e não acreditam que ele possa descobrir por ser pobre. Na primeira noite ele… bem, aqui vai ser igual, mas em vez de guardas vão ser criados, simples, da cozinha ou assim… pronto, já está diferente… Quando acharem que estão descobertos os guard…, os criados, não me posso descuidar!, confessam, assim como palermas, com muito teatro, e João Grilo não os denuncia, só descobre, como se adivinhasse… Caramba, isto até está a ficar bom, melhor do que o original! Até vão dar pulos de alegria… Bem, agora, ele pode casar com a princesa e pronto, acaba… Sim… Ah, sim tudo se passa num reino distante há muito tempo atrás, claro…
E assim, enquanto não chegava a família, enquanto chegavam, conversavam e comiam, João pensava em pormenores que criassem uma história diferente e nunca antes ouvida, mas que fosse aceite pelos filhos e talvez fosse contada aos seus netos e às pessoas da aldeia. Quando todos se calaram, já reunidos à volta da lareira, João soube que era a altura do conto. As crianças não lho pediram, rogaram-lho com os olhos, quase cruelmente, como se duvidassem de que fosse possível o que o pai lhes prometera. João pigarreou para aclarar a voz e começou.
Enquanto ia contando a atenção ia sendo atraída para si que, de costas voltadas para o lume, adquiria um contorno esbatido, ocultando-lhe as expressões involuntárias da face que exprimia, por vezes, dúvida ou atrapalhação, o que nunca se reflectiu na sua voz. Mas os miúdos eram já peritos nestas histórias e não lhes escapou que era uma distorção do José Rato e as perguntas desarmaram-no:
- Oh pai, isso parece a história do José Rato! Porque é que esse se chama João Grilo?
- Sim, e porque casou com a princesa assim sem mais nem menos?
João corou, mas ninguém notou, já que estava perto da lareira que lhe ruborizava as faces, ainda obscurecidas pela sua sombra e pela falta de luz na cozinha.
- Ah… - começou, sem saber como avançar, mas de repente surgiram ideias vindas não sabe de onde e disse: - Bem, há quem diga que ele não chegou a casar com a princesa, porque ela tinha nojo dele. Ele teve pena dela e então pediu ao rei muito dinheiro e foi-se embora… mas… - e aqui a atenção já estava outra vez captada e foi-se adensando, porque nunca tinham ouvido nada assim – ao sair, o rei perguntou-lhe o que tinha na sua mão, e que se adivinhasse lhe daria mais ouro e terras. O João, atrapalhado, só disse «Ai Grilo, Grilo, em que mãos estás metido!» e o rei «Adivinhaste! Adivinhaste!», e deu-lhe mais dinheiro e daí vem o nome… Não querendo abusar da sorte, foi-se mesmo embora, para junto dos pais.
Os miúdos ficaram meio duvidosos, mas era uma história diferente, e o ambiente e a voz do pai dissiparam as dúvidas, ajudados já pelo sono. Todos se recolheram e João ficou e João ficou sozinho na cozinha, observando o lume, achando graça ao facto de nunca ter reparado que as chamas são azuis no fundo, só depois ficam amarelas e laranjas. Sorriu-se, satisfeito por cumprir a sua palavra. De repente, quando o sono parecia começar a dominá-lo, uma língua de fogo elevou-se da lenha e disse:
- Hoje criaste uma nova história nova, renunciando aos avisos. Ela há-de circular por muitas terras, há-de ser contada por muitos anos, todos a ouvirão, com algumas diferenças, como é natural. Quanto a ti, e porque estas histórias nunca têm autor, não terás outro fim se não este.
E perante o olhar assombrado de João, línguas de fogo saíram da lareira e circundaram-no e lamberam o seu poder criativo de Homem.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

André Sardet

Irrita-me profundamente o sucesso actual do André Sardet. Não que eu não goste do moço, nada disso, e antes ele que Floribella, D’ZRT e coisas assim… A verdade é que eu já fui fã dele, quando cantava «Perto, mais perto» do peculiar álbum Agitar antes de usar, na altura em que quase ninguém lhe ligava nenhuma… Seis platinas por um disco em que nem sequer está no seu melhor, enquanto voz: sim, ele canta um bocadinho melhor no estúdio… Está provado cientificamente que os portugueses gostam das músicas que menos qualidade literária têm. As duas músicas mais badaladas de André Sardet, neste momento (e em quase toda a carreira, excepção feita a «Perto, Mais Perto» e «O Azul do Céu»), tem defeitos de escrita, ou antes, alguns pontos fracos… Curiosamente é o refrão, tanto num como noutro exemplo, que deixa a desejar uma construção de um sentido viável.

«Foi Feitiço»:

Eu não sei o que me aconteceu
Foi feitiço!
O que é que me deu?
Para gostar tanto assim
De alguém como tu

Bem, a única coisa a apontar é a estranheza a roçar a loucura que o acto de amar determinada pessoa provoca no enunciador. Tudo bem, foi feitiço, e não há muito a fazer, o problema é: será o interlocutor um monstro tão grande para ele estranhar «gostar tanto assim/De alguém como tu», ou será ele um totó que nunca pensou enamorar-se de uma pessoa extraordinária?

«Quando eu te falei de amor»:

Quando eu te falei de amor
Tu sorriste para mim
E o mundo ficou bem melhor
Quando eu te falei de amor
Nós sentimos os dois
Que o amanhã vem depois
E não no fim

Bom, está bem… o amanhã vem mesmo depois do que e de quem? No fim de quê? Parece-me que andaram foi a “snifar” qualquer coisa e já andam a sentir muita coisa do foro de alucinatório… Ou talvez haja alguma coisa demasiado melosa por detrás destes versos que pragmaticamente não consigo descortinar.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

O Nome Lírico

Esta manhã
hoje
é um nome.

Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca.

Uma palavra
palavra só
a ergue.

Como um nome
amanhece
clareia.

Não do sol
mas de quem
a nomeia.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

colecções

Não tenho trabalho, é certo. E não ganho dinheiro (ainda gasto o dos meus pais naquelas viagens fantásticas para Lisboa). No entanto, as feiras de livros na altura de Natal ainda me renderam mais alguns livros, no Natal ganhei uns euritos, e agora surgiu uma série de “fascículos”, cujas primeiras entregas são baratas e por isso se devem aproveitar. Desde os clássicos da Literatura Portuguesa da RBA (primeiro volume: €1.95 – Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco) até aos dvd’s de jazz da Planeta de Agostini (1-Louis Armstrong, 2-Diana Krall live in Paris a €9.95). Já estão comprados! Segue-se a colecção de romances históricos à la Código Da Vinci que são uma oferta (exacto, grátis) da Revista Sábado! Mas há para outros gostos: as bonecas de porcelana das heroínas dos romances mais importantes, curso de desenho e pintura, dvd’s do Tom Saywer, perfumes… E sempre gostei destas colecções: óptimas oportunidades de adquirir produtos interessantes a preços mais reduzidos. Pena que depois o preço triplique e aquelas colecções que gostávamos mesmo de fazer ficam para trás…

TLEBS


Segundo palavras na lista de rodapé do Jornal Nacional da TVI corre na internet uma petição contra a implementação das “novas regras da Língua Portuguesa”. 4.000 assinaturas já levam a questão à Assembleia da República. Não sabia que havia novas regras, que a língua estava assim a mudar tanto… Ou será que se referiam à TLEBS? É que se é isso, não são bem novas regras, são “apenas” novas designações ou formas de conhecimento. Algumas até são bastante bonitas e funcionam muito bem enquanto conceitos operatórios, embora não funcionem tão bem em contexto educativo.

Muito se tem escrito sobre a TLEBS e este texto não trará grandes novidades. Alguns defendem-na com unhas e dentes (como Maria Helena Mira Mateus e Inês Duarte, o que tem lógica, porque são partes intervenientes no documento) ou criticam-na, (Helena Carvalhão Buesco, Vasco Graça Moura, Maria Alzira Seixo e até o gato fedorento Ricardo Araújo Pereira – embora de uma forma cómica e caricatural, mas que não deixa de ser válida e interessante).

A TLEBS não pode ser apenas um conjunto mais ou menos operatório de conceitos de uma ciência, a Linguística, ainda que de língua falemos. Interessa ensinar a Língua e não Linguística. E o que interessa «transmitir a uma criança uma determinada metalinguagem, se ela ainda não domina a funcionalidade dos termos que integram a linguagem que usa todos os dias?» (G. Pinto, Saber Viver a Linguagem, p.35). O problema começa com a inadequação ao público-alvo: não são os professores (por muito que custe a alguns, lá acabam por se actualizar quando é mesmo necessário e obrigatório e percebem os novos conceitos) mas sim os alunos, que não desde os seis aos dezoito – com todas as mudanças que ocorrem entre uma altura e outra, sem haver propriamente uma distinção concreta de que «termos» terão os alunos de decorar em cada ano. Porque será decorar, já que algumas das novas designações não têm uma relação muito óbvia, para o que designam, para os alunos, que poderão ser questionados sobre elas em exame nacional! Ou talvez não, mas mais vale precaver…

A verdade é que o documento está em experimentação, irá ser reformulado, mas também está dominado por uma teoria específica da ciência da Linguística, exceptuando o que a Literatura, a Filosofia ou a Lógica poderiam ter como contributos para a questão. Poderá ser benéfica para os alunos, para a qualificação educativa? Ensinará os alunos a manipular a sua língua na sua componente oral e escrita, no seu funcionamento e na sua dimensão estética e lúdica? É óbvio que um documento desta natureza é necessário para actualizar e uniformizar algumas questões, mas o trabalho está no início e começou torto. Mais uma vez serão professores e alunos as cobaias de uma experiência mal conduzida.

Só por curiosidade, num manual do 7.º ano são apontados como «Conhecimento Explícito da Língua» a explorar os seguintes termos, entre outros: coerência e coesão, modificadores, complemento preposicional e adverbial, nome epiceno, sobrecomum, comum de dois (quando eles ainda têm dúvidas sobre nomes comuns, concretos e abstractos)… Nada de muito complicado para os professores, mas quanto aos alunos, que nessa altura ainda dizem coisas como «quem é o espaço?» ou «pomar é um conjunto de mares», já será menos certo… Uma boa dose de bom-senso, muito investimento e sensibilidade terão de estar na atitude do professor de Língua Portuguesa e Português, para que não se torne num potencial professor de Linguística.
Textos dos autores referidos:

Buesco, Helena Carvalhão, «TLEBS E DISCUSSÕES», Jornal Público, 29 de Novembro de 2006
Mateus, Maria Helena Mira, «Terminologias: a Nova e a Antiga», Jornal Público, 29 de Novembro de 2006
Marques, C.; Silva, I.; Ferreira, P.; Silva, F., Oficina da Língua 7, Porto, Edições Asa, 2006
Pereira, Ricardo Araújo, «Metam os epicenos no advérbio disjunto», Revista Visão, 15 de Novembro de 2006
Seixo, Maria Alzira, «A Nova Terminologia Linguística», Revista Visão, 28 de Outubro de 2006
adenda: http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_8.html (e outras páginas que descobri agora, com uma série de textos interessantes para a discussão).

terça-feira, janeiro 09, 2007

Magnífico Caos

Um dos meus projectos este ano é escrever um conto todas as semanas, sem falhar. como tal, já escrevi dois. O primeiro é «Casa dos corações partidos», este é o segundo, e gosto muito dele. do outro também, mas não vou publicá-lo aqui, para já... como não vou publicá-los todos... enfim, depois gostava de alguma reacção... ou não...
**********************************************
Gostei muito do livro, tinhas razão, vale mesmo a pena. Parece que tem tantas páginas que até se tem pena que acabem depois. Mas o livro tinha uma coisa a mais. Olhou para mim, de só movendo a cabeça, como que receando que essa coisa fosse algo comprometedor. O que era? Oh, era areia, mais nada, está sossegado. Ah, pois! Eu li o livro quando estava de férias na praia, em Setembro há uns anos atrás. Hum… E já na altura gostei imenso dele, andava sempre com ele, depois, com outras obrigações nunca mais lhe peguei… Mas também não lhe irias tirar a areia… Pois, provavelmente não, gosto de guardar coisas nos livros, tipo recordações dos sítios e dos tempos em que os li: papéis dos chocolates que comi ao ler alguma passagem mais quente, pétalas de rosas quando lia passagens românticas, areia quando lia na praia, folhas quando lia no jardim, cartas, poemas, escritos que escrevi a propósito de alguma coisa lida, às vezes até no próprio livro, nas margens… Enquanto ele falava olhava à minha volta, com emoção da possibilidade de encontrar um tesouro no meio de todos aqueles livros e descobrir muito mais da vida dele do que alguma vez me diria…Mas o que não quer dizer sequer que tenham essa lógica, pode estar tudo baralhado… Como assim? Sei lá, olha, uma carta que está neste livro posso tê-la recebido e lido quando estava a ler outro livro, mas esse podia estar à mão e calhou ir para lá… se calhar não guardo as coisas, perco-as… Bem, o conhecimento não seria tão profundo, mas ainda assim possível. Então, um pouco a medo e só para ver no que dava, pedi mais três livros emprestados. Quando cheguei a casa o coração descompassado centrou-se nas muitas páginas dos romances. No primeiro havia um fio azul de linha, no segundo um marcador de livros, no terceiro nada, no quarto alguns rabiscos incompreensíveis e uma folha de plátano seca. Nada mais. Para não dar demasiado nas vistas, esperei uma semana até os devolver. Quando entrei na sala dele tive a sensação de ser o centro da atenção dos livros, como se me estivessem a ler, já que eu agora recusava lê-los, a não ser o que as mãos dele tivessem escrito neles. A tentação de devassar aquele tesouro desordenado e caótico era maior que a minha prudência e não resisti a abrir uns quantos enquanto ele preparava um chá. Encontrei algumas coisas que não li no momento, preferi guardá-las na minha capa, com a firme intenção de devolver logo que as tivesse lido. Sim, amanhã já estariam nos seus sítios, ou mais ou menos, porque ao olhar para a estante fiquei sem saber de onde as tinha tirado. O chá foi rápido e corri, sem trazer mais livro nenhum, nada. O tesouro devassado, uma mínima parte jazia em cima da minha cama e não tive coragem de o possuir. Nessa mesma noite voltei e consegui deixar tudo no meio de livros que fingia interessarem-me muitíssimo. Até que um deles tinha uma fotografia de uma mulher bonita, com um vestido perto decotado, com uma cabeleira ruiva encaracolada, e no verso estava escrito um nome e um beijo. Foi como que um baque súbito e forte. Com uns ciúmes doidos, propus-lhe organizar a sua biblioteca toda, retirar as coisas perdidas e guardá-las numa caixa e talvez confrontá-lo. Recusou, como seria de esperar. Mas isso assim não tem utilidade nenhuma, quando procurares uma coisa nunca a encontrarás! Elas acabam sempre por aparecer. Mas tu emprestas livros a toda a gente, elas podem ler ou ver alguma coisa… pessoal, secreta… Não tenho segredos… Baixei os olhos, toda a gente tem segredos. E pensei em perguntar quem era aquela mulher. Que papel tinha na sua vida. Mas faltou a coragem. Se bem que ando à procura de uma foto que só pode estar num livro. Uma foto? Sim, de uma amiga, é a melhor foto dela e pediu-ma para fazer uma cópia porque perdeu a dela. Talvez fosse a verdade, não sei. Não vi nada nos livros que me emprestaste… Pois, vou então procurar, mas amanhã, queres vir ajudar-me? Aceitei, mas vinha só de tarde. À tarde, quando cheguei, era já demasiado tarde, embrenhado nos seus livros e leituras, coisas e memórias, fora engolido pelo caos.

A eternidade

Quem nunca cheirou um cravo não merece a eternidade.
Mas quem sorriu às flores sabe até o que ela é.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

coisas antigas

No Diz Que É Uma Espécie de Magazine há uma parte intitulada "Arca dos Tesourinhos Deprimentes da TV Portuguesa". Eu também tenho, mas é um caderno, e se são deprimentes ou não it's up to you.

Óscares EP – 2003

Melhor Filme – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Actor – Tiago – O Amor Aconteceu e Ninguém Soube
Melhor Actriz – Susana – Depress: a morta viva
Melhor Actor S. – Edgar – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Actriz S. – Ana Luísa – The Christmas Party
Melhor Realizador – Fardilha e Ana Paula Quintela – Os Chumbos do Ano
Melhor Argumento Original – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Argumento Adaptado – Eu Sou Uma Santa (Verde)
Melhor Canção – Serenatas a Ninguém, outra vez, em Depress: a morta-viva
Melhor Banda Sonora – Jantar de EP sem caloiros
Melhor Fotografia – Il Ragazzo de Marta
Melhor Efeitos Especiais/Visuais – O Penteado do Ano (Rui)
Melhor Montagem – O Amor Aconteceu e Ninguém Soube
Melhor Montagem de Som – Cavaquinhos no Bar
Melhor Som – Joana em Tira daí as mãos
Melhor Maquilhagem – Pedro Tavares em Os Piores dentes do Mundo
Melhor Guarda-Roupa – Sameiro Araújo em Economia Psicológica
Melhor Filme Estrangeiro – Il Ragazzo de Marta
Melhor Direcção Artística – Marisona em Quinta-Feira Negra
Melhor Curta-Metragem – Os Dias Felizes da Nossa Vida
Melhor Documentário – EP em Busca dos Livros Esgotados
Melhor Filme de Animação – Cuquinha
Melhor Anúncio Comercial – Atum Cuca
Prémio Carreira – Natacha (pela sua carreira cinematográfica em EP)
Prémio Especial do Público – Susana em A Multa
Prémio Especial do Júri – Tuna Feminina em As Boazonas do Pedaço


Prémios EP

Prémio Vidas Reais – José Alves
Black Power – Marisona
Eu estou bem (mal) – Susana
Look original – Rui
Decote bombástico – Joana
Miss Estrangeira – Marta
Ciao – Diana
Faço o Curso sem aulas – Susana
Os Pacientes Intermináveis - Verde e Tiago
Este ano é que vai ser! – Ana Luísa
Há sempre Setembro (e Dezembro) – Constantina
Ponto de Encontro – Bar da FLUP
Maior Quantidade de Panfletos – Juventude Comunista
Consigo dizer isto cem vezes – Fardilha
Crentes do Ano – Tiago, Verde, Ana Luísa, Marisa
Adoro o meu instrumento – Bruna
E tudo se eclipsou – Fardilha
Aulas mais secas do ano – não atribuído devido a excesso de candidatos com muita qualidade
Eu é que visto bem e barato – Sameiro Araújo
Eu já li esse livro – Tiago
Eu tenho isso em casa – Ana Luísa
Patroa do Pedaço – Susana Alegria
Sorriso Discreto – Ana Cabral
Amiga Colorida – Ana Verde
Oh, que eu leio tão devagar – Patrícia
Vaquinha Fofinha – Patrícia
Caloira até ao Fim – Natacha
Saraivada – Sílvia
Fardilhosa – Ana Cabral
Brandão e Andrade – Lena
Mato-me ou mato-me – Susana

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Despedida

de resto
não te esqueças de me
devolver
a minha parte
dos nossos sonhos

pois nós tínhamo-
- los em
comum

sonhado
ou

Hans Georg Bulla

quarta-feira, dezembro 20, 2006

poema de natal deste ano


Natal Africano

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou se diz… Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

Cabral do Nascimento

poema de natal do ano passado


A estrela

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medoNos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto».

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto

terça-feira, dezembro 19, 2006

Hereto-ironia

Não te falarei de mim e nem das minhas coisas
Não te guardarei mais no peito
Nem me guardarás mais dentro de ti
Nem os meus braços te farão sombras.

Não verás os dias da minha glória
Não saberás os meus novos sonhos e medos
Projectos novos e antigos feitos ou não.
Não os partilharei contigo.

Não me farás maior do que sou
Ou menor.
Não me vais proteger de nada, não preciso.

As cartas velhas não serão mais lidas
As músicas deixam de ter sentimentos
Figuradamente a elas associados.

Nem gelo, nem amoras nem velas
Não as terás comigo, nem eu contigo
Não haverá mais partilha de vida.

Nem festas, nem cócegas, nem carícias
Nem gestos, nem livros nem casa partilhada.
E se puder, nem o dia da minha morte verás.

Mas podemos tentar ser amigos, se insistes.

Momento Húmus

Um rosto disforme
Um aspecto grotesco
O people com fome
Com falta de ar fresco
(...)

refrão:
pedes-me a pistola
acertas a pontaria
pedes-me as balas
porque elas são importantes
levas a pistola
entre os teus dedos
matas a R.
porque todos to pedem
(…)


Uma criação conjunta com a Ana Verde, em 2003. Para cantarolar com a música de Pedro Abrunhosa...

All I want for Christmas is… ME

O antigo eu, aquele que via no Natal algo mais. Este ano estou com uma descrença nas coisas tradicionais. Nos anos anteriores não era quem fazia decorações porque não estava em casa. Agora estou e também não fui eu quem os fiz, não fui convocado nem para uma única opinião. As luzes de natal em Lisboa não foram muito mais do que isso, luzes, bonitas mas não são as minhas, as das minhas raízes. Também não comprei os presentes, foi a minha irmã sozinha no Porto. Não nada. A festa vai ser me casa da minha avó, como sempre. Vinte e duas pessoas (porque já vieram quatro do Brasil em Setembro, vêm agora mais quatro, também do Brasil, definitivamente.). Mas nem a família é já a mesma, porque a agora que estou mais cá apercebo-me e contam-me coisas que me envergonham de alguns deles. Nem os cd de Natal rodam tanto, nem o a All I Want For Christmas faz grande sentido este ano. Nem a leitura da antologia de Natal traz aquele espírito de alegria… Talvez também não queira. A ceia assemelha-se-me uma coisa pesada e sensaborona, os doces já não em encantam há muito, tirando os sonhos. As prendas do costume, a missa à noite (a que só vou eu e a minha madrinha), as discussões mais ou menos amenas, o calor infernal da sala cheia de gente e com lume que me faz aparecer frieiras nos dedos. Estou um pouco cansado disto, mas também não pode ser de outra maneira.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Natal em Lisboa

A semana passada fui mais cedo para Lisboa (tive aulas de recuperação por causa dos feriados). Aproveitei para passear e ver as famosas iluminações e a árvore de Natal. Diga-se que o Porto não fica nada a dever a estas iluminações.



as sete maravilhas de portugal e do mundo

vão lá votar, não custa nada...

http://www.7maravilhas.pt/index.html

http://www.new7wonders.com/

terça-feira, dezembro 05, 2006

Canção das noites e dos dias


I get along without you very well
(in: The Look Of Love, Diana Krall)

I get along without you very well
Of course I do
Except when soft rains fall
And drip from leaves, then I recall
The thrill of being sheltered in your arms
Of course, I do
But I get along without you very well

I´ve forgotten you just like I should
Of course I have
Except to hear your name
Or someone´s laugh that is the same
But I´ve forgotten you just like I should

What a guy, what a fool am I
To think my breaking heart could kid the moon
What´s in store? Should I phone once more?
No, it´s best that I stick to my tune

I get along without you very well
Of course I do
Except perhaps in spring
But I should never think of spring
For that would surely break my heart in two

segunda-feira, dezembro 04, 2006

A palavra felicidade é excessiva, e excessivamente abstracta.

Chove

Chove lá fora e chove em mim.
Representação das coisas dadas como certas
E naturais e que incomodam
Como se andássemos nelas.
Chove como nos poemas de Pessoa.
Chove continuamente sobre malmequeres
Mas também no interior e não é natural.
«Se ao menos chovesse menos»!

Fazem-me falta


As conversas sobre tudo e nada no bar fumarento da faculdade. As aulas e as facadas no peito por ouvir a mesma coisa pela milionésima vez. As colegas de trabalhos e estudo intermináveis, sobretudo na esplanada a apanhar sol ou na biblioteca, a fingir que se lê Bakhtine, até que tem mesmo de ser ler. As cadeiras da BM Almeida Garrett, donde vi a grande paixão secreta da minha vida. As crianças sentadas à minha frente ou ao meu lado. As garrafas no cemitério do saxo da Su. As gaivotas assassinas e os gatos traiçoeiros. A minha senhoria, apesar de um pouco chata. As comidas vegetarianas da cantina, como o rolo de carne fingido. As músicas meio tocadas meio cantadas da Tuna. As chatices da secretaria. As idas a outras terras: Braga, Montalegre, Monte Clérigo, Lisboa, Sr.ª da Hora, – com o pessoal do costume, mais ou menos. As vistas fantásticas da minha varanda da residência. As árvores e os bancos do Palácio de Cristal. As ruas de Cedofeita, Miguel Bombarda, D. Pedro V, Torrinha, Boa Hora, Campo Alegre… A alegria e luz da Verde, a disciplina da Ana Luísa, a loucura especial da Consti, a loucura stressada e preguiçosa da Su, a doçura da Patrícia, a evasão sonhadora da Milai, a diplomacia da Diana, a contrariedade do Rui, a aparente soturnidade da Lena, as meninas fantásticas da Casa da Purificação, a serenidade da Dénia, a bondade da Alexandrina, a estilosidade da Ana Cabral, as obsessões da Bruna (Jostas, também conhecida como Jamila…), as músicas ternas da Bruna Mateus, as desconversas inseguras e inteligentes da Celine, o para além do visível do Edgar, a evolução da Eva, a flor que é a Alexandra, a simplicidade concreta da Helena e da Lara, a loucura alegre da Joaninha (e suas gargalhadas), as conversas com a Joana do árabe do medieval, a música da voz da Joana Patrícia, a sabedoria encoberta da Lídia, o francesismo da Natália, a estranheza do Nelson, a cumplicidade trabalhadora da Rute, as caras estranhas nas aulas de Brasileira da Síndia, as experiências teatrais com as duas Anas Catarinas, o primeiro contacto com os bifásicos com a Susana Melgaço, a determinação da Mariza (e a minha admiração por ela), a amizade amorosa e inteligente da Marta… As idas à Fundação Eugénio de Andrade. As demandas pelos livros esgotados, os alfarrabistas. As prendas colectivas que demoravam duas horas a planear, meia para executar e que saíam sempre ao lado do projecto. As sessões de cinema – a sério ou em casa de alguns – de Moulin Rouge a Asas do Desejo. As festas de aniversário no Por Amor à Arte ou com as deliciosas comidas das donas Manuelas e da avó da Marta, e das tentativas da Milai e da Mónica (estou a brincar). As descobertas de línguas, culturas e literaturas diferentes e inesperadas. As figuras risíveis na praxe. As idas ao teatro, sobretudo S. João e Carlos Alberto (quase sempre com a magia da gratuidade dos bilhetes). as professoras e o professor da minha vida. As músicas pimba no saxo (quando não eram gravações dos exercícios de acordeão…) e as eruditas na aparelhagem da Marta. As emoções da primeira vez que trajámos. As noites loucas da Queima (não, quem é que eu quero enganar? Risquem esta). A pseudo-serenata da Tuna Feminina (grandes Susana Alegria e Natacha). As risadas da Áurea. As ocasiões raras com a Liliane e a História. As viagens de audi e smart. As andanças no S. João. As dormidas a três (e mais) no quarto da Su. As coisas que a Marta é. Tanta coisa faz falta que não é possível ordenar textualmente nem na geografia do coração. Mas fazem-me ainda falta as mãos, as tuas, com que me redemoinhavas o cabelo enquanto lutava para não adormecer, para que continuasses mais tempo. As mãos de que uma vez disse: “Como falar das mãos que nos rodeiam e nos prendem para sempre? Ou dos lábios que nos beijam como se fossem palavras eternas?”.

Tu ainda me fazes falta.
(nota: não tentei reduzir as pessoas a uma simples característica, mas talvez seja a mais dominante ou aquela que mais falta me faz...)

quinta-feira, novembro 30, 2006

Explicação e demanda…

não é que eu acredite muito em signos e assim, sobretudo nos horóscopos feitos para o dia e semana com previsões. mas estas descrições gerais (e talvez por serem gerais) ficam-me que nem luvas nos dias de inverno. a descrição do meu signo (gémeos) não podia ser mais exacta... nem a de escorpião (antigo), e do sagitário (o compatível...)



O Erótico e o Pornográfico


Esbocemos uma distinção entre o denominado erótico e o denominado pornográfico. Trata-se de duas coisas totalmente diferentes. Podem até ter um certo objectivo comum: a elevação do ser humano para o tema do amor, do desejo e do sexo, mas usam linguagens totalmente opostas.
O termo “erótico” vem da palavra grega “erotikos”, que, por sua vez, derivou de outra palavra grega que significa amor – “eros”-, ao passo que a “pornografia” deriva de “pornographos”, palavra grega que quer dizer “escrever sobre prostitutas”.
Geralmente mais grosseira, mecânica e mais explícita do que o material erótico, a pornografia não se esforça por criar histórias credíveis ou um contexto adequado às representações sexuais. O material erótico é menos implícito, mas muito mais fantasioso, poético. Não mostra tudo, preto no branco, o que permite que a imaginação humana explore outros campos e trabalhe por si mesma, atingindo níveis ainda mais interessantes de prazer literário do que com uma linguagem mais explicita.
Em certos dicionários, erótico tem como sinónimo o “amor sensual”, o “lascivo”, enquanto que o pornográfico tem, como sinónimo a “devassidão”, “assuntos e actos obscenos”, “impúdico”.E o que se passa na literatura, passa-se, a meu ver, igualmente, nos outros campos da arte, até porque o erótico é socialmente aceite, enquanto que o pornográfico está ainda dentro de um certo tabu difícil de ultrapassar. No campo da Literatura os limites de um e outro são mais fáceis de esbater, prevalecendo uma outra distinção ténue: o que tem qualidade literária e o que não tem essa qualidade.
Hoje em dia temos uma relação bastante contraditória em relação às obras literárias eróticas. Nunca tivemos tanto acesso à pornografia, sobretudo com o aparecimento e desenvolvimento da Internet. O erotismo literário, no entanto, permanece tão marginal como sempre foi e será. Mas, numa sociedade como a nossa em que cada vez se dá maior importância à imagem, quase toda a obscenidade é convertida para as imagens. Assim, com tantas imagens explícitas à disposição, a literatura obscena deixou de ser o principal estímulo erótico das pessoas, como foi nos tempos antigos.
Entre as civilizações clássicas, foram os gregos que melhor colocaram a expressão literária ao serviço do homem, em peças, poemas e diálogos filosóficos. Na comédia Lisístrata, de Aristófanes, por exemplo, as mulheres fazem uma greve sexual contra os maridos. A poetisa Safo cantou o amor, sobretudo, ao que perece pelos poucos fragmentos que até nós chegaram, o lésbico. O filósofo Platão definiu as formas de amar em O Banquete. Os romanos continuaram o trabalho dos gregos, em obras como A Arte de Amar, de Ovídio, e Satyricon, de Petrónio, tornando-se cada vez mais escabrosos, até que a expansão do cristianismo acabasse com a farra.
A partir daí, o sensualismo clássico caiu em decadência. E, pouco a pouco, a literatura erótica entrou para a clandestinidade e, de certa forma, permanece até hoje. O que não quer dizer, porém, que ela tenha deixado de circular de mão em mão, ou de boca em boca. Histórias, versos e escritos eróticos correram a Europa durante a Idade Média e, finalmente, no Renascimento, voltaram a ter grande expressão, como nos poemas apimentados de Aretino ou em algumas histórias picantes do Decameron, de Boccaccio.
Depois da invenção da imprensa, em 1455, deixou de ser possível controlar a difusão de livros eróticos pelo mundo, pelo que a partir dos séculos XVII e XVIII, proliferaram pela Europa, provenientes sobretudo de França e de Itália. Sempre perseguidos pelo Estado e pela Igreja, os autores destes livros, às vezes célebres personalidades, escondiam-se atrás de pseudónimos. Com frequência, os livros servem ao mesmo tempo como excitante sexual e sátira aos governantes, aos costumes e aos religiosos. É desse período a obra mais polémica da literatura erótica, a do Marquês de Sade.
No final do século XIX e início do XX assiste-se à perda dos limites entre alta literatura e erotismo. Escritores já não temem misturar aos seus temas elevados algumas cenas mais quentes. E alguns chegam mesmo a fazer do próprio sexo o aspecto central das suas obras, como em O Amante de Lady Chatterley, do inglês D. H. Lawrence, ou em Lolita, do russo Vladimir Nabokov.
Por vezes, com uma linguagem chocante e histórias escabrosas, os livros eróticos abordam alegrias, angústias e dramas da nossa sexualidade. Demonstram como o sexo se relaciona com uma rede de outros sentimentos. Apontam como a sexualidade pode ser manipulada por tiranos ou por religiosos a fim de escravizarem os seres humanos. Desmontam a hipocrisia das pessoas e das instituições, e ensinam como tirar maior prazer durante o acto sexual. Dissecam o modo como a sexualidade pode levar o homem a afrontar perigosamente os seus limites morais, e esclarecem tudo o que o erotismo tem de revolucionário para as pessoas.

terça-feira, novembro 28, 2006

Mário Cesariny, Portugal, 1923-2006


Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

novo poema

Entrar em casa
Ver-me nos espelhos
Nos vidros das janelas
Nas fotos

Ver-me nos livros que comprei
Nas flores que trouxe do jardim
Nas coisas por mim espalhadas
Ver-me a mim, apenas

E ao gato
Que dorme a aproveitar o resto do sol.

quinta-feira, novembro 23, 2006

coisas que têm de ser partilhadas

língua e linguagem

pois é, tenho lido muitas coisas. Algumas referem aspectos interessantes sobre a língua e a linguagem. Já postei uma, agora posto mais, devidamente identificadas:

« Dans un monde où le langage est encore doté d’un pouvoir magique, ce qui n’est pas nommé n’existe pas, seul ce qui est nommé a droit à l’existence.
(…)
La langue n’est pas seulement un élément de la culture, mais la condition même de son exercise. »

Sélim Abou, L’Identité Culturelle

« a língua não é só instrumento da vida de relação, de comunicação do pensamento mas também um quadro lógico e emocional de organização da experiência específica decorrente de determinada ambiência física e cultural.”

Onésimo Silveira, Consciencialização da Literatura Caboverdiana

As obras-primas da literatura

Numa aula de teoria da literatura II, teórica, trabalhámos um bocadinho este texto. foi engraçado perceber a visão completamente utilitarista e economicista de um homem sobre a literatura. mas também foi interessante tentar adivinhar os livros que fazem parte da tal lista de obras-primas... eu consegui decifrar nove dos onze livros, embora não os tenha lido todos...
aqui fica o texto, e vamos ver como andam de leituras!

Necessitei para certos assuntos que me dizem respeito, de conhecer o que os professores dos collèges chamam as «obras primas da literatura». Dei a um consagrado bibliotecário, que me asseguraram ser perfeito conhecedor delas, ordem para me organizar uma lista de obras, o mais restrita possível, e procurar-mas nas melhores edições. Assim que me vi de posse delas, não permiti a entrada de quem quer que fosse, e já não me levantei da cama.
As primeiras afiguram-se-me más e pareceu-me incrível que tais humbugs fossem realmente produtos de primeira qualidade do espírito humano. Aquilo que eu não compreendia parecia-me inútil; o que compreendia, não me agradava ou irritava-me. Género absurdo, aborrecido; talvez insignificante ou nauseabundo. Narrativas que, a serem verdadeiras, me pareciam inverosímeis, e, se inventadas, insulsas. Escrevi a um professor célebre da Universidade de W. a perguntar se aquela lista estava bem feita. Respondeu-me afirmativamente e deu-me algumas indicações. Tive coragem para ler aqueles livros todos, menos três ou quatro, que, logo às primeiras páginas, não pude suportar.
Hostes de homens, chamados heróis, que se estripavam durante dez anos a fio, sob as muralhas de uma pequena cidade, por culpa de uma velha seduzida; a viagem de um vivo à fossa dos mortos, com o fim de falar mal dos mortos e dos vivos; um doido héctico e um doido gordo que vão Mundo fora em busca de sovas; um guerreiro que perde o juízo por uma mulher e se diverte a arrancar azinheiros pelas selvas; um pulha cujo pai foi assassinado e que, para o vingar, faz morrer uma rapariga que o ama e outras personagens diversas; um diabo coxo que levanta os telhados de todas as casas para exibir as suas misérias; as aventuras de um homem de estatura média que faz de gigante entre os pigmeus e de anão entre os gigantes, sempre de modo inoportuno e ridículo; a odisseia de um idiota que, através de ridículas desventuras, sustenta que este Mundo é o melhor dos mundos possíveis; as peripécias de um professor demoníaco servido por um demónio profissional; a aborrecida história de uma adúltera provinciana que se enfastia e, por fim, se envenena; as surtidas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado de uma águia e de uma serpente; um rapaz pobre e febril que assassina uma velha e que depois – imbecil – nem sequer sabe aproveitar um álibi e acaba por cair nas mãos da polícia.
Pareceu-me compreender, com o meu cérebro virgem, que essa literatura tão elogiada está ainda na idade da pedra – o que desiludiu até ao desespero. Escrevi a um especialista em poesia, que tentou humilhar-me, dizendo-me que aquelas obras valiam pelo estilo, pela forma, pela linguagem, pelas imagens e pelos pensamentos, e que um espírito educado podia experimentar com elas satisfações imensas. Respondi-lhe que, pela minha parte, obrigado a ler quase todos aqueles livros em traduções, a forma pouco me importava e que o conteúdo se me afigurava, como realmente é, antiquado, insensato, estúpido e extravagante. Gastei, sem o menor resultado, cem dólares com esta consulta.
Felizmente, conheci mais tarde alguns escritores novos que me confirmaram o meu juízo sobre aquelas velhas obras e deram-me a ler os seus livros, onde encontrei, entre muitas coisas obscuras, um alimento mais adequado aos meus gostos. Ficou-me, apesar de tudo, a dúvida de que a literatura talvez seja incapaz de decisivos aperfeiçoamentos. É muito provável que ninguém, dentro de um século, se dedique a uma indústria tão atrasada e pouco remuneradora.

G. Papini, Gog, ed. Livros do Brasil.
Sim, eu sei que o texto também levanta questões do desfasamento gosto/qualidade, da antiguidade/permanência e actualidade dos clássicos, etc e tal...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Senhores que podem morrer

Andam na noite da escrita
Como monges foragidos
Em silêncio.

Não os servirei.
Enquanto a morte vem e escolhe
Posso fugir

ou morrer com eles.

Top Feira das Publicações da FLUP

após quase três semanas de trabalho árduo e fantástico, aqui fica o TOP das vendas, com grande predominância das coisas que dizem respeito à literatura, ao professor e a Estudos Portugueses, claro.


1- Terminologia Linguística: das teorias às práticas
2- Colóquio Ibérico de Geografia
3- Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen
4- A Linguística na Formação do Professor de Português
5- Meditação Heideggeriana
6- Os Reinos Ibéricos na Idade Média
7- Sartre: um filósofo na literatura
8- Estudo Cartográfico de uma Viagem à Índia
9- Cartas de um Viajante Francês
10 – África Subsariana

Revistas da Flup

1 – História
2- Filosofia
3- Sociologia
4- Línguas e Literaturas
5- Geografia
6- Ciências e Técnicas do Património

Da música



Agora que tenho estado mais tempo em casa e nas viagens de cinco horas para Lisboa e mais cinco de regresso, tenho ouvido muita música. E há muitas coisas que me surpreendem por nunca ter reparado nelas, ao ouvir coisas que estavam guardadas no pc ou em cds que se amontoam um pouco na prateleira, agora ao lado do dvds do Expresso. A menina Lúcia Moniz teve um amadurecimento notável, do primeiro para o terceiro cd. Cada vez melhor, é certo. E Leva-me p’ra casa é um cd para ouvir com alguma atenção, sobretudo para quem gosta de ver algumas construções textuais: sucedem-se as comparações e algumas figuras inusitadas, e a imagem-obsessão do “ser tudo”/”ser nada” – a totalidade e proximidade de um espaço-tempo fora deles próprios. Destaque para Chuva (I), Leva-me p’ra casa, Não podes esquecer, e Tão perto (de ser tudo).
Outra surpresa foi Back to Basics de Christina Aguilera, uma lufada de ar fresco na carreira da moça.
Uma revitalização é também The Emancipation of Mimi, de Mariah Carey. Revitalização da sua carreira e credibilidade. E bem que algumas canções tenham letras bastante inconstantes (como a Get Your Number), Mariah conseguiu um álbum bastante coeso e forte, embora não recupere a máxima glória dos anos de 1995-97, dos álbuns Day Dream e Butterfly. Curiosamente, o álbum acaba por receber três grammys que foram negados aos álbuns referidos e muitos outros prémios, graças à fórmula de sucesso que foi We belong together: Melhor Interpretação Feminina R&B: We belong together, Melhor Canção R&B: We belong together e Melhor Álbum Contemporâneo de R&B: The Emancipation of Mimi, não recebendo, no entanto, os prémios das outras categorias: Melhor Canção Soul: Fly Like a Bird, Melhor Álbum e Disco do Ano, Melhor Canção do Ano (We belong together), melhor interpretação feminina poo (It´s like that). De destacar do cd, claro We belong together, Mine Again, I Wish you knew, Your girl do lado das mais calmas, e It´s like that, Shake it off, Get your number, To the floor do lado das mexidas. A versão Ultra Platinum DeLuxe inclui ainda quarto músicas bonus, como Don’t forget about us e um dvd com os vídeos dos quatro singles extraídos e o link para o vídeo do quinto. Óbvio estratagema comercial, mas para que é fã é óptimo. Claro que Fly like a bird acaba por ser o grande monumento do álbum: uma poderosa música soul numa poderosa voz que usa e abusa espectacularmente das suas capacidades quase inesgotáveis.
E o que raio é a nova versão de Íris (dos Goo-Goo Dolls) agora cantada por Ronan Keating? É que nova versão é uma expressão mal usada: a música está praticamente igual, mas pior. A emoção desaparece, fica tudo muito melado e igual do início ao fim. O lado rock e forte da música e da voz, que arrebatavam nos momentos certos, desaparecem. É a única diferença. E o objectivo de um remake é fazer melhor, ou, pelo menos, diferente…
Volto sempre aos mesmos, que me têm acompanhado e que não me canso de ouvir: Jewel, James Blunt, Cold Play, Word Song, Diana Krall, Mariza, Mariah Carey, Keane, banda sonora da Amélie…
Por fim, e porque podia falar de muita outra coisa, de que talvez venha a falar, termino com Madonna. Mulher polémica para todas as polémicas, tem, no álbum Ray of Light o único que tenho e que vale a pena ter…) uma curiosidade: os minutos das músicas parecem ter uma qualquer significação cabalística ou coisa que o valha? Se não veja-se o jogo de correspondências entre 1-13, 2-12 e todas entre si…:

É por estas coisas que eu gosto do francês…

Si le langage laisse à désirer, il n’en est pas directement responsable. En réalité, que désignent-ils au juste, les mots ? A vrai dire, personne ne sait.

(adaptado de uns textos franceses que tive de ler...)

quinta-feira, novembro 02, 2006

ponto.

A mania que as pessoas pseudo-intelectuais têm de dizer que não se lê em Portugal é irritante, porque falsa. Se não se lê, porque surgem cada vez mais editores, livros, revistas e jornais todos os dias? Pode não se ler é o que se queria que se lesse, o cânone... Aponta-se, claro, à juventude e à infância o desinteresse pelo livro: por isso é que o Harry Potter vende mais do que a Bíblia, os livros de Sophia conhecem sucessivas edições, já para não falar em livros de aventuras: Uma Aventura, Viagens no Tempo, O Bando dos Quatro, O Clube das Chaves, Triângulo Jota, etc, e nos livros dos Morangos com Açúcar - pois é, preparem-se para os livros sa floriella! já para nã falar da leitura de blogs e sites, de filmes e séries, de uma panóplia de coisas que quem nos acusa, não tinha com tanta diversidade, oferta e acessibilidade. Tenho estudado nos últimos dezoito anos. Na Régua, no Porto e agora em Lisboa. Andei muito de comboio, metro e autocarro. Vi sempre, em cada viagem, pelo menos um jovem a ler, não necessariamente sobre a matéria de estudo, caso esse jovem fosse estudante. A semana passada, em Lisboa, vi no autocarro 45 uma mulher a ler Ensaio sobre a Lucidez, de Saramago. 1-0, ganham os adultos. No metro, vi um jovem a ler Uma Vida Imaginária, de David Malouf (que eu não conhecia…) e uma jovem a ler Cartas a Sandra, de Vergílio Ferreira. 1-2, ganham os jovens. Na estação do metro da Alameda uma rapariga lia A Cidade dos Deuses Selvagens, de Isabel Allende. 1-3. No terminal de autocarros da Rede Expresso um rapaz lia A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera, e ao lado uma rapariga lia Cortes, de Almeida Faria. 1-5. E junte-se eu, que, enquanto observava os leitores fervilhantes à minha volta, leitores do Expresso e do Público ou da Visão, e aqueles seres leitores de tão admiráveis obras, tinha pousado por momentos o Sagarana, de João Guimarães Rosa, que me andou a fazer companhia nos últimos dias.1-6.
já para não abordar aprofundadamente a actividade bloguística, o facto de haver cada vez mais gente escolarizada, de toda a gente ler as legendas nos filmes e nos jornais de tv e do crescente número de sites dedicados à poesia…
mas lisboa tem feiras do livro: na FLUL os livros da INCM a 40% de desconto, na gare do oriente e na estação do metro do jardim zoológico, livros de várias editoras de 10 a 20%. eu, claro, aproveitei.

quinta-feira, outubro 19, 2006

último post no porto...

antes de ir para o mestrado de lisboa, quero postar um poema de Pessoa (sim, eu leio Pessoa...), não por motivo nenhum em especial, mas é uma espécie de fechamento de um ciclo, ou dois. depois disto quem sabe o que aí vem e em que passagens nos vamos encontrar... por isso:

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longínquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

Fernando Pessoa, 21-11-1909

segunda-feira, outubro 16, 2006

Grandes Portugueses

o programa da rtp está a tentar eleger o maior português de sempre. há quem diga que é d. afonso henriques, embora na altura portugal ainda não existisse, outros acham que é vasco da gama, embora tenha tido a necessidade de partir daqui para a índia. pronto, agora a sério. as listas são um grande pónei, que têm nomes que valha-me Deus, sobretudo se virmos os que faltam. por exemplo, tem Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida mas não tem o Herman José, tipo... Tem Eugénio de Andrade mas não Sophia ou Ruy Belo. E Salazar no meio disto tudo? mas parece que a lista é apenas um início e que irá sendo construída aos poucos (não se admirem se aparecer o Tino de Rans (ou Rãs) ou o Claúdio Ramos).

agora mais a sério, o maior português... não é muito difícil. eu, claro que não, até porque sou muito pouco português de temperamento. não. o Pessoa, claro. se não foi o maior, pelo menos foi muitos, pelo menos 27, entre os quais: Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alexander Search, A. A. Crosse, Chevalier de Pas, Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher, António Mora, Vicente Guedes, Barão de Teive, Jean Seul, Bernardo Soares...

letras do porto

é triste deixar uma casa onde tanto cresci e vivi. cinco anos. mas mais triste é deixá-la com alguns vestígios de má impressão. primeiro, a praxe que agora nada me diz: é tarde, eu sei, mas acho-me anti-praxe, pelo menos aquela que se faz... não é necessário tanto tempo a massacrar os novatos(sim, porque o que tenho visto só por passar ao aldo são autenticos massacres intelectuais e secas descomunais. e os antigos se se dedicassem a coisas mais importantes talvez fossem um pouco melhores e um pouco mais felizes (além de acabarem os cursos mais rapidamente). depois, é ainda pior a falta de civismo das pessoas de letras ou que as frequentam: no seguinte à fantásticas festa do porco no espeto (ou qualquer coisa assim), podia ver-se: caixas de bolos sujas espalhadas pelas mesas da feira do livro, uma estante da feira totalmente desfeita, um extintor usado numa das estantes de vidro da livraria, a porta da casa de banho dos homens no piso um arrombada e... não se podia ver a caixa registadora do bar porque tinha desaparecido (assim ouvi dizer, que só vi o que podia ser visto).
enfim...

quarta-feira, outubro 11, 2006

Camões: mais do mesmo

A perfeição, a graça, o doce jeito,
A Primavera cheia de frescura
que sempre em vós florece, a que a ventura
e a razão entregaram este peito;
aquele cristalino e puro aspeito,
que em si compreende toda a fermosura,
o resplandor dos olhos e a brandura,
donde Amor a ninguém quis ter respeito;
s'isto, que em vós se vê, ver desejais,
como digno de ver-se claramente.
Por muito que de Amor vos isentais,
traduzido o vereis tão fielmente
no meio deste espírito onde estais
que, vendo-vos, sintais o que ele sente.

Embora este soneto não seja tão conhecido, quem o conhece associa-o a Camões. Pois é, também este soneto não é de Camões. foi-lhe atribuído nas edições de 1598, 1666, 1685, e nas de Juromenha e de Teófilo Braga. todos os outros editores o rejeitaram, sobretudo Aguiar e Silva (no estudo introdutório à reprodução fac-símile da edição de 1598 das Rimas). incertamente, o poema será de Dom Manuel de Portugal, segundo os cancioneiros de Luís Franco Correa e eborense (CXIV/2-2).
o soneto apresentado tem algumas diferenças, como se pode ver pela transcrição dos quatro primeiros versos:
A perfeição, a graça, o suave geito
a primavera chea de frescura
que florece em vós, que a ventura
e a rezão entregaram este peito (...)
(ver: Fardilha, Luís de Sá (1991). Poesia de D. Manoel de Portugal, Porto, FLUP)

terça-feira, outubro 10, 2006

desmistificação

A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;
o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do Sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;
enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está (se não te vejo) magoando.
sem ti, tudo me enoja e me aborrece,
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias mor tristeza.

Um soneto (sim, basta ler fazendo as pausas habituais...) sobejamente conhecido, de.... surpresa, o fantástico poeta do século XVI, Dom Manuel de Portugal!!! Pois é, Camões pode ter escrito muita coisa boa (e escreveu) mas este não é dele! pode ler-se no Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa (Ms. 8920) que é um "Soneto de dom Manoel de Portugal", e ainda há testemunhos da época da sua autoria. foi atribuído tardiamente a Camões em 1665, na edição Terceira Parte das Rimas de Camões, elaborado por Álvares da Cunha. Faria e Sousa não o incluiu nas Rimas Várias de 1685, mas nas edições oitocentistas volta a ser-lhe atribuído, bem como nas edições de J. M. Rodrigues e A. L. Vieira (1932), Hernâni Cidade, A. J. Costa Pimpão; A. Salgado Jr.
se a lírica de Camões suscita dúvidas, esta parece ter sido esclarecida por Gordon Jensen e António Cirurgião, nos quais Luís de Sá Fardilha se baseou para comprovar a autoria de Dom Manuel de Portugal.
(consultar: Fardilha, Luís de Sá (1991). Poesia de D. Manoel de Portugal, Porto, FLUP)

coisas de blog

se alguém veio cá ontem ou hoje, até esta hora, deve ter reparado em algumas mudanças. após umas experiências falhadas de colocar links, o meu blog ficou sem recent posts e sem os arquivos! pronto, tive de seleccionar novo template (que é o mesmo, claro) e tudo voltou ao normal, excepto o hit counter, que voltou ao zero por exigência do administrador, que avisou que já tinha excedido o número permitido de visitas!! (agora a sério, voltou ao zero porque eu sou um nabo nestas coisas e tive de fazer tudo de novo, logo agora que já estava perto dos oitocentos!!!).. enfim, para quem pouco percebe disto, até consegui alguma coisa...

inté

quinta-feira, outubro 05, 2006

Fernando Guimarães

Caminho

Há palavras que deixaram de nos pertencer. Alguém se refere
de novo ao seu significado, a alguns gestos que as percorreram
devagar, à proximidade de outras vozes. Mas o que persiste
há-de ser apenas o silêncio; ele vem agora ao teu encontro
para que não as esperes mais, como se fosse a tranquilidade
que encontramos no único caminho para onde agora te diriges.

Se essa sombra te acompanha é porque nela habitas

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Não sei por que motivo continuamos a inventarmo-nos, todos os dias. a necessidade estranha de quereremos conhecer-nos como se disso dependesse a sobrevivência. mas ao conhecermo-nos inventamo-nos outros, diferentes, ausentes. e projectamo-nos num sonho ou mundo paralelo ou alternativo, no qual seríamos melhores, bem sucedidos, conhecidos, felizes... temos a terrível urgência de querer ser aquilo que sabemos que não seremos. e assim o mundo avança, às vezes.

terça-feira, outubro 03, 2006

desabafo

estar longe de ti implica esquecer-me nos bancos da cidade, junto ao rio, ou sentir o frio do nevoeiro sem dar conta dele. é escrever o teu ser pelas paredes sem ver o património dos outros. é andar sem direcção certa, se não a solidão. porque a morte não perece e cumpre sempre o seu papel.

domingo, outubro 01, 2006

José Régio



Improviso

Aos ventos que passavam,
Por não poder com elas
Atirei um punhado de palavras.
Se rápidas voavam,
Depressa regressavam
E tombavam
Como no céu, às vezes as estrelas
Com pétalas de flor no chão.

E o meu poema, os ventos o dirão...

dois poemas mais ou menos recentes para a mim

Antinoos I

Inventamos tantas palavras para dizermo-nos.

*

Antinoos II

Percorro as mãos
O tempo as águas
O incêndio do ser
Ténue leve sombra.

A sorte de ser novo
Eterno renascer
Justo no seu espelho
Fixo em todos os momentos.

António Botto


O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

O Professor é um segredo... (1)

O professor compra uma agenda nova, um caderno bonito, uma caneta verde. Prepara-se com expectativa (com esperança?) para o que o novo ano lhe trará.
O Professor é um aluno que não quis deixar a escola.
O professor zanga-se, "congelado", longe dafamília, horário mau, vida difícil.
Faz promessas e juras: não gasta nem mais um minuto no fim de semana, nada de projectos loucos, nem mais um tostão do bolso, nem mais um tinteiro, uma folha de papel, gota de tinta, gota de sangue, gota de suor.
Espreitem uns dias depois. O professor está, outra vez, a fazer a festa comos alunos. A festa é, quase sempre, muito maior. O Professor tem forma de coração com memória fraca. O professor não tem endereço electrónico. Não escreve textos no computador. Não quer. Diz que não, que não gosta, que não percebe. O professor insiste que prefere lápis e papel. Nunca, nunca conseguirá. Diz que não vale a pena.
E depois... O professor pede ajuda ao filho. O professor faz formação. Aceita a mão de outro professor. O professor dá mais um passo. O Professor é um caderno já muito cheio, onde encontramos sempre muitas folhas brancas. O professor fala de saúde, futuro, matemática, inglês, poesia, estudo, música, informática, livros. Sabe fazer projectos, jornais, cartazes, desenhos, receitas, teatro. Cura feridas, ampara tristezas, acalma medos. Escuta segredos, dá conselhos, conta anedotas, prepara passeios, monta exposições. Dirige a escola, dirige um grupo, escreve regulamentos, prepara oficinas, constrói materiais.
O Professor não sabe o que quer ser quando crescer.
O professor faz muitas perguntas, por dentro e por fora dele. O professor gosta que lhe façam perguntas. O professor ensina que as perguntas são a melhor maneira de aprender. O professor acha mais difícil fazer uma boa pergunta do que dar uma má resposta. O professor ensina a perguntar. O professor não sabe todas as respostas. O Professor é um ponto de interrogação com muitas respostas possíveis.
O professor tem medo. De não conseguir, de não ser capaz, de errar, de acertar, de se perder, de perder alguém. Tem medo de ter medo. Medo de não ter medo. Medo de avançar depressa, de avançar devagar. Medo de ficar parado. O professor tem medo que não aconteça nada. O Professor usa o medo como meio de transporte.
O professor chora, ri. O professor sofre, mastiga desgostos, partilha-os se forem maiores do que ele próprio. Tem sonhos, tem desejos. Às vezes pinta, às vezes canta, outras escreve. Planta flores, cria borboletas, namora, ama, tem filhos, não tem filhos, representa, dança, vai ao cinema. O professor é feliz, é menos feliz, é feliz outra vez. O professor fica parado a pensar no que sente. O professor é de todas as cores por dentro e por fora. Mais do que o arco-íris. Mais do que a maior caixa de lápis de cor do mundo. Mais do que todas as cores que se podem imaginar.
O Professor do avesso é tão colorido como do direito. O professor recomeça tantas tantas vezes, que desiste do prefixo "re". O professor caminha numa estrada que dá voltas e voltas e voltas... Não se lembra de ontem. Não sabe o amanhã. Oferece o tempo que tem. O Professor não tem princípio nem fim. O professor tem uma magia só dele. Um feitiço que lhe foi lançado, não se sabe quando nem por que fada. Ele é Bela ou Monstro, Princesa Adormecida, Gata Borralheira, Capuchinho Vermelho, Branca de Neve. As madrastas, os lobos, as bruxas, as trevas vão andar sempre por aí. Ele luta, história a história, contra todos eles. O Professor tem de ser o final feliz de todas as histórias, para que o mundo se salve. Por entre o som das palavras, o professor é cheio de silêncios que poucos conhecem. Silêncios que falam, muitas vezes, uma língua que quase ninguém se lembra de ter ouvido.
O Professor é um segredo que se deve contar em voz alta, para toda a gente ouvir.
(1)Texto publicado no Correio da Educação, CRIAP ASA, nº232, 3 deOutubro 2005.
Autora: Teresa Marques, Escola Básica 2,3 de Azeitão.
(mandaram-me este texto e não pude deixar de partilhá-lo com quem viesse aqui. até porque de professores todos temos um pouco...)

domingo, setembro 24, 2006

A Intertextualidade em actividades de leitura orientada na aula de língua materna

É amanhã que eu e a Su, a minha querida colega de estágio e amiga, sobretudo, vamos apresentar o nosso trabalho de seminário deste ano, na FLUP. fomos escolhidos para este dia especial para os novos estagiários. e aqui fica um cheirinho muito pequeno do nosso trabalho, mas só as epígrafes - que melhor maneira de falar de intertextualidade se não ir aos textos e deixá-los falar!!!



“A escrita que estava gravada naquelas tábuas era da mão de Deus, que ali tinha escrito os seus dez mandamentos, e tinha-os escrito duas vezes para marcar a sua importância, (…)”

Êxodo, XXXII-16


“is a fashionable term, but almost everybody who uses it understands it somewhat differently”

Heinrich F. Plett, Intertextuality


“a intertextualidade é entretecida pelo diálogo de vários textos, de várias vozes e consciências”.

Aguiar e Silva, Teoria da Literatura


“Mas nem assim deve entender-se que é possível e legítimo falar de intertextualidade, sempre que (e apenas porque) uma vaga semelhança eventualmente aproxima dois textos”

Carlos Reis, O Conhecimento da Literatura


“«Mas esta frase não me soa a novidade. Aliás, toda esta passagem, parece-me que já a li». É claro: são temas que se repetem, o texto é tecido por estes vaivéns, que servem para exprimir o flutuar do tempo. És um leitor sensível a estes requintes, tu, sempre pronto a captar as intenções do autor, não te escapa nada.”

Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante