sexta-feira, dezembro 07, 2007

Manuel Rui, Rioseco - dois fragmentos


O mar já mudara sua pele para uma forma agitada de se mexer, parecia vergastado pelo vento e a vaga berrava raivosa de espuma suicidada contra a areia, devassando a terra e formando, de ressaca, um pequeno lago, em braços de ir e vir, curvando, por entre as primeiras filas de árvores que compunham o coqueiral. Vaga de calemba, pelo meio da tarde, quando o vento, de chibata na cabeça dos coqueiros e casuarinas, dava a sensação de transformar cada cume de mudança de maré num sacrifício do mar e da natureza costeira. A noite começava a apetecer-se num fogo de fogueira sob o cacimbo, aumentando pela madrugada, no orvalho bom na mão das plantas onde os pássaros viajados, das margens do grande rio, vinham saciar sua secura de sal e azul encalorado.

Eu estou muito longe. Também nunca hei-de estar perto de nada, porque quando isso me acontece, sinto, por dentro, uma vontade de me afastar para longe.

Explicação do Medo

Desapareceu de sua casa era quinta-feira
E não voltou a ser visto no seu andar vistoso.
Vestia calças de ganga e camisola amarela com uma bandeira
Pouco cabelo, olhos do tamanho das varandas
De onde via o mundo em movimento.
Desapareceu de seus pais, de sua vida
Perante o olhar indiferente dos outros.
Esperou-se o tempo necessário e nada.
Rapto, fuga, acidente, morte sem aviso prévio,
Como quase todas as mortes que nos ceifam da vida
Que amamos acima da nossa própria…
Desapareceu de sua vida própria, mesmo que vivo,
Tendo talvez uma outra vida não planeada com o mesmo amor
Mas ainda assim uma vida, um outro ser.
Desapareceu e suas coisas são lembranças
Que não se podem apagar nem arrumar numa caixa.
Desapareceu e pode andar por aí.
Desapareceu.
Desapareceram com o tempo e os anos as esperanças
Nem sempre as últimas a morrerem.
Perdidos na sua casa, nas suas coisas,
Os pais falam às coisas e ensinam a lição às paredes,
Às vezes, embalam almofadas e fazem cócegas aos livros…
Quando dão por si, estão incapacitados para amar
E indisponíveis para a vida futura.
Também eles desaparecerão, gritando de raiva.

sábado, dezembro 01, 2007

um-seis-um

A Denise pôs-me numa corrente, a minha primeira. Já há algum tempo, é certo. Mas aqui vai: a quinta frase completa da página cento e sessenta e um do primeiro livro que me apareceu à frente, que quero ler há imenso tempo mas estava esgotado mas enfim, finalmente, já o consegui.
E passo-a a outras escritas de nível: Gimane, Rascunhos-Ana, Pensamentos Blogueados, Fuga de Pensamentos e É a Bidinha. Só têm de pôr a vossa citação no vosso blogue, mesmo que não faça nenhum sentido… e passar para mais cinco pessoas! Depois avisem qual a citação que lhes calhou! A minha é extraordinária, melhor seria impossível. calhou-me tal coisa que nem sei o que pode significar.

Aqui fica:

«Se, pois, se.»

«A benfazeja», Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, 4.ª reimpressão a partir da 5.ª edição/1.ª edição especial, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2005 (1962)

Casimiro de Brito, Ode & Ceia




Encosto-me ao tempo

Quando chego a casa
o deserto é outro

Abro a janela
recordo que houve sol
invento braços no corpo das sombras
e a noite me encontra
silencioso e fácil
à beira do sono.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Memorial...



Em memória de dois gatos que me morreram este ano. O primeiro, uma coisa pequenina de semanas, todo preto só com os pés brancos como se fossem sapatos, muito amistoso, mas que dois cães estúpidos não pouparam. O segundo, um gato tigrado parecido com o Guano, o da minha tia, mas muito mau. Morreu provavelmente envenenado; descobri-o na casa das maçãs, batatas e cebolas, ainda vivo… E em saúde do outro gato, aquele que há cerca de um mês ajudei a sair de um silvado. Com pena minha, a minha mãe não mo deixou trazer para casa e ficou junto aos dois restaurantes de Poiares. Quando lá passo com a minha mãe e a minha tia, à noite, quando vamos dar a volta diária, aparece às vezes, mas já não mia como antes, desesperado É preto, todo imensamente preto, até os olhos. Tal igual o gato que ontem, depois do outro gato ter morrido, no meio da nossa volta, veio ter comigo, miando e roçando-se nas minhas pernas… Podia ser ele se não estivesse tão crescido. nenhum destes gatos foi meu, mas como não me deixam ter nenhum, todos eles me pertencem


Pequena Elegia - Nelson Archer

Gatos não morrem de verdade:
eles se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de algum de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem – é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

sábado, novembro 17, 2007

espelho...

Eu-próprio o outro

Novembro, 13.

É lamentável como me erro continuamente. Em mim e entre os mais.
Eu fiquei sempre, nunca fui – mesmo quando me perdi.
Às vezes ainda me decido a partir. E parto. Mas nunca venço seguir. Se não é por culpa minha – é por culpa dos outros, que me acenaram.
É que eles, se me acenaram, foi por julgarem que eu nunca os seguiria – foi para sofrerem. E como afinal parti atrás dos seus gestos, desencantaram-se de mim, fugiram escarnecendo-me. Tombei-lhes.
Só me é permitido ser feliz, não o sendo.
É inacreditável!
Quase todos se contentam consigo próprios – bastam-se. E vivem, e progridem. Fundam lares. Há quem os beije.
Que náusea! Que náusea! Não se ter ao menos o génio de se querer ter génio!... Miseráveis!
Mário de Sá-Carneiro, Céu em Fogo, p.129-30.

47. Chá para um


Ultimamente costumava ir todas as noites à cozinha. Numa caneca punha água do garrafão, e depois de dois minutos no micro-ondas punha um saquinho de chá e duas colheres de açúcar. E saboreava então um sabor único e quente, reconfortador. Às vezes acompanhava-o com um pão ou tostas com doce de amora de queijo. No armário, junto à cevada, ao café e ao açúcar estavam as caixas do chá. Chá preto, chá verde, chá de cidreira, chá de lúcia-lima, chá de limão, chás com nomes e especiarias orientais, chá de Marrocos, chá de frutos silvestres, chá de maçã-canela, chá de tília, chá branco… Várias caixinhas que iam variando de dia para dia, dando assim a ilusão de variedade e companhia. Uma noite, sentado na cadeira, sentindo o vapor quente enublar-lhe os olhos, leu metade das instruções escritas numa das caixas:
Use sempre água acabada de ferver e espere 3-5 minutos antes de servir. 2 a 3 chávenas: use um saquinho.
Não acabou de ler as instruções sobre «no bule» e «para beber frio», porque subitamente sentiu-se muito só, numa cozinha enorme, ao olhar o seu saquinho com uma única chávena à sua frente…

últimas coisas...


Eu vejo muitas séries de televisão (Anatomia de Grey, Amor no Alaska, Sobrenatural, Jericó, Betty Feia... já para não falar de outras que segui atentamente, como Sete Palmos de Terra, Perdidos, Prison Break, Roma, Donas de Casa Desesperadas, Ally Mcbeal, Sabrina, Friends, Dharma & Greg, Dr. House…). Em nenhuma delas as personagens "perdem tempo" a ver séries. Nos filmes, em muito poucos, as personagens vão ver filmes, mas não vêem séries. Nos livros há sempre uma personagem ou outra que lê. Às vezes vão ao cinema, mas também não passam muito tempo em frente à televisão a ver séries. Mas eu também não sou personagem de romance…


Para ocupar o tempo tenho visto muitos filmes em dvd ou outros formatos que estavam lá em casa, já há alguns anos. Vi finalmente coisas tão espectaculares como Babel, Hotel Rwanda e Crash – Colisão, só para citar os melhores e mais emocionantes. Mas revi também a trilogia do Senhor dos Anéis, agora toda seguida e com os dvd dos extras e opções especiais. Uma verdadeira maratona de fazer perder a cabeça a qualquer um. Mais emocionante do que quando vi cada um deles no cinema. Talvez por já conhecer e poder atentar noutros pormenores. Seguir-se-ão os livros, um dia destes, uma vez que as bandas sonoras também já foram ouvidas. Uma história que ali aparece aflorada e que no livro deve vir mais desenvolvida é a de Faramir (desempenhado por David Wenham), que no fundo não tem grande interesse para a progressão da história, para nenhuma delas (a de Frodo e Sam, ou a das batalhas em Gondor), embora intervenha nas duas. Mas é uma preciosidade no meio de todo o valor físico e emocional da história. Ainda bem que não a eliminaram do filme…


Estar aqui no fim do mundo parece que implica o atenuar das coisas da cultura. Vou vendo o Câmara Clara, o Jornal 2, o Bastidores, mas parece que as coisas surgem sem o mesmo brilho e importância. José Luís Peixoto publicou Cal e não me chegou a mesma excitação que aquando de Cemitério de Pianos. António Lobo Antunes voltou com um pequeno O meu nome é Legião, e não me chegou o mesmo impacto de Ontem Não Te Vi em Babilónia… E até mesmo o Harry Potter e os amuletos da morte me passou um pouco despercebido… Será de mim, de estar focado em outras coisas mais técnicas, ou de andar a recuperar coisas do passado, ou será de estar aqui no desterro? Imagino então se trabalhasse, se tivesse companhia, filhos e casa para cuidar, se tentasse escrever a sério e se estivesse a trabalhar a sério na tese… Não é falta de tempo, mas talvez preguiça…


Por falar em escrita, a tese vai ponicamente. Tenho de falar com os orientadores para ver o que faço efectivamente. Tenho lido muitos artigos sobre o antes e o durante da obra e Arlindo Barbeitos e coisas de teoria literária sobre geração, convenção e inovação em sistemas literários, mas ainda falta ser a obra dele em específico (não há muitos…), sobre poesia japonesa, literaturas orais, aspectos de retórica e estilística, angolanidade e questões de identidade e nacionalismos literários, enfim… Na escrita mais artística, as coisas vão andando, sem grandes avanços. Mas re-ordenei a minha obra. Composto de Mudança, os 52 contos que estou a escrever ao ritmo de um por semana, desde a primeira semana de Janeiro até à última de Dezembro deste ano, está quase pronta: o último que escrevi está até adiantado, pois tenho tido um tempo mais livre, mas também é tão pequeno… A trilogia tem finalmente nome: As Mil e Uma Noites de Solidão e Medo (um verso de Alexandre O’Neill), composta por Inventário das Coisas Sós, Gravado na Pedra e Explicação da Luz (títulos ainda provisórios, romances ainda não escritos). A Antologia Poética Possível espera pelo último livro de poesia em que vou escrevendo alguma coisa, a Explicação das Coisas. Mas quero começar a trabalhar noutras coisas: Vazio Repetido (de um verso de Daniel Faria) será uma continuação do projecto do Composto de Mudança), e quero muito escrever finalmente um romance (mas mais fácil do que Inventário das Coisas Sós, de que cheguei ao terceiro capítulo) que tem o título provisório de Algumas tardes entre o mar e a morte (verso de Ruy Belo). Podem chamar-me maluco vá, eu deixo, mas nunca se sabe o que pode sair daqui! Está tudo gravado no pc e na pen (não vá o diabo tecê-las). Qualquer dia deixo algumas pessoas lerem alguma coisa, para além do que vai aparecendo aqui no Tulisses. E as leituras, tantas! Agora com este tempo frio em que nada se faz (sim, continuo desempregado, embora em Janeiro e Fevereiro tenha trabalho na Reitoria/FLUP para mais um EILC), leio. Recomendo, do que recentemente passou pelos meus olhos e mãos: Bom dia Camaradas de Ondjaki, Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa, A Casa Velha das Margens de Arnaldo Santos, Jornada de África de Manuel Alegre e, para não ser tudo prosa, nem tudo africano ou sobre África, mas também porque vale por si próprio, e muito, Todos os Poemas de Ruy Belo.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Desejos vãos

Se eu soubesse derramar-me na terra
Perder-me no pó pelo meio do vento
Escorrer-me com a chuva pelas pedras
Seguir em curso até ao fogo mais longo
Ou estar simples entre as coisas
Fugindo de mim e das ausências…

41. Na volta do homem



Maria das Dores estava sentada na varanda baixa, entre os seus novelos e panos de lã e de renda, tal como quando um fim de tarde de Verão o seu marido saiu para comprar tabaco e nunca mais regressou.
Ao princípio, Maria das Dores estranhou. Depois preocupou-se, a seguir saiu de casa disparada e foi ao café. Ninguém o vira, nada, nem em todo o dia. Procuraram na vila, nas hortas, em redor e não se via coisa diferente. Até que o Luís dos Fios apareceu às pessoas em volta da chorosa Maria e disse que a sua Laurinda também desaparecera. Pareceu-se ali explicar o mistério, afinal simples e de carácter amoral-amoroso: ambos se extinguiram da vila, juntos.
Passaram-se dez anos sem notícias dos fugitivos. O Luís dos Fios envelheceu como se o tempo passasse mais depressa por ele. Na sua velhice antecipada tinha dois rapazes para acabar de criar e apenas a ajuda da própria Maria das Dores, irmanada na dor comum, que lhe fazia algumas lides domésticas, uma vez que o Luís dos Fios não sabia nem estrelar um ovo nem pregar um botão – nem queria aprender, com medo e que a barba não lhe crescesse e ficasse menos homem: já bastava ser corno declarado na terra. Agora morria, rodeado pela família, com o orgulho a esganá-lo e a inquietação do abandono a apertar-lhe o coração.
Maria das Dores chorou e berrou e partiu muita coisa em casa. Só se consolou por nunca ter tido filhos. Se sozinhava na imensidão de uma casa vazia onde só os móveis projectavam sombras, recusando a companhia dos animais e das flores. Depois acalmou e seguiu a sua vida. Ganhava-a como sempre o fez, a remendar, costurar, pôr fechos, pregar botões, fazer bainhas, bordar fazer tricôt e renda. Boa de mãos, e agora menos de olhos, trabalhava ainda nas hortas do homem que a convencera a deixar a casa dos pais e a sua aldeia, transladando-se para uma terra estranha onde não conhecia ninguém. Porém, sobre ela o tempo parecia não passar, perdido por aí, entre o vento, não chegando sequer a subir às escadas para a varanda.
Mas naquele dia, em que o Luís dos Fios morria e Maria das Dores continuava na varanda entre as suas linhas infinitas que se cruzavam umas com as outras em cores e espessuras diferentes, se misturando em infinita alegria, o vento subiu as escadas, brincando com as pontas soltas. O arrepio por ele provocado fê-la levantar os olhos. Na véspera do primeiro degrau estava o marido. Mais velho, braços caídos pelo corpo com a roupa gasta e baça. Maria das Dores teve dificuldade em reconhecê-lo e ainda pensou que pudesse sem um sonho, visão ou fantasma. Ele ia falar mas ela antecipou-se-lhe:
- Se te sentares aqui, ao pé de mim, agora, e pegares nas minhas mãos, enlaçando-as com as tuas, e te chegares ao meu peito, à minha alma, não me poderás abraçar por inteira, haverá pontas e sobras. Mas será o último abraço, a última partilha de vida entre nós. Ou nem isso.
O homem ouviu-a e não compreendeu. Subiu as escadas e sentou-se a seu lado mas não chegou a abraçá-la. Do colo de Maria das Dores a mortalha que bordava inteirou-se e envolveu-o, aos poucos. As pontas e os fios perdidos ataram-se devagar, perante a placidez branca do homem. Maria das Dores levantou-se, com o sentimento de tudo cumprido e resolvido. Desceu as escadas e seguiu para casa do vizinho Luís dos Fios.
- Morte por morte, ao menos a daquele que nunca me prometeu, mas também nunca falhou...
E seguiu rua abaixo, sem olhar para trás. O homem, debaixo do mundo, sorriu pela companhia que lhe adivinhava.

a importância do livro na vinha



durante as vindimas encontrei uma máquina estranha (não sei como se chama nem para que serve, mas é para trabalho na vinha). e não resisti a tirar estas fotos. a primeira mostar a máquina em si, a segunda alguns avisos de prudência, quanto a posição, manuseio, e assim. óbvia a importância da leitura das regras (primeiro quadro) e da leitura em geral (quinto quadrado, ou segundo da fila de baixo). por mim, acho que ficava bem a leitura de um poemazito de Miguel Torga quando vi esta máquina tão sugestiva.




OUTONO


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Planta alta e trigueira


As plantas acenavam ao vento de agosto, nas suas hastes finas e verdes. E disse-me a mais faladora de todas, alta e trigueira:
- Dás-me dez anos da tua vida?
Eu só tinha cinco anos, pus-me a contar pelos dedos, vi que ia ficar com muito pouco.
- Dou – disse eu.
E ainda hoje, que nunca mais soube de mim, vou com o vento, balouçando. E agosto é todo o ano para mim.



Ruy Belo, Todos os Poemas


(o poema que a Consti me apresentou um dia e que entrego sempre aos amigos que se casam...)

Natália Correia

Canção entregue ao nada

Hoje venho oferecer esta tristeza às coisas
No gesto esquivo de não as desejar.
Pôs na minha alma como o sol nas frias lousas
A vida o gosto de esplandecer em recusar.
São-me alheias estas margens onde corre
O destino que aos dados aos deuses eu lancei.
O que me dói é ver que tudo morre
Noutras mãos em gestos que tracei.

****

Cantos de Safo para Átis
V
Lentos meus gestos desenham o seu rosto
Rasgando a escuridão da sua ausência.
E o meu cantar enleia-se no gosto
De a cantar em distância e em transparência.

***

Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave

se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo como se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.


Apesar de ter gostado de outros, estes são os mais interessantes para mim. e depois, não sobram assim tantos como isso. não gostei da necessidade estranha e permanente da rima e das imagens estrambóticas... mas quem sou eu...

um comentário ao meu blog da denise...

http://rabiscosegaratujas.blogspot.com/2007/09/tulisses.html

quinta-feira, setembro 13, 2007

agosto II - imagens verídicas


Foto da porta do meu ex-aparamento. digno de receber um professor de portuguêz dezempregado!!!



Redbull air race - coisa mais horrível e chata... estive lá uns dez minutos, depois fui para a feira do livro.



Especialidade inexplicável de um restaurante perto do meu ex-apartamento

EILC - Paço dos Duques, em Bragança.

EILC - No Palácio da Bolsa, Porto

EILC - Em Braga, em frente à Sé...


Procissão da Senhora da Saúde - Paranhos, Porto

agosto


Não é fácil escrever sobre este mês de Agosto no Porto. Mas vou tentar, como prometido à Denise. Foi muita coisa, intensa, que talvez sirva de material de base para um conto que escreverei entretanto que rouba um verso e meio a Alexandre O’Neill, o poeta que lia durante esses tempos, «As mil e uma noites de solidão e medo». Comecemos pelo início, ou seja, a Rosi e a sua tese de Linguística Portuguesa sobre A anáfora nominal (trabalhada com alunos do 7.º ano, a partir de «No Moinho» de Eça de Queirós e textos de «National Geographic»). Foi uma demanda inexplicável, contra o tempo, com imprevistos terríveis, como o «pc dar o pau» no dia de véspera da entrega da dissertação – atrasou um pouco a entrega, mas conseguimos, porque estava guardada na pen… Entretanto já foi defendida, com sucesso (ontem!!!).

Revi a Marisa, encontros imprevistos e rápidos, sempre no metro… E a Ana Cabral, pela FLUP. E a Celine, a Susana Melgaço, a Lídia, a Rute – todas cada vez mais lindas, e o Roberto… Muitas conversas pelo msn com a Sandra, Milai e Bruna… muitas e nem sempre fáceis… Café com a Marta, Patrícia e Guilherme. Almoço interessante com Constantina, Mário, Ivo, Marta, Patrícia e Guilherme. O costume, mas diferente.
Saldos: de roupa e de livros (Feira do Livro da Bertrand – fraquinha…, e Feira do Livro e do Material Escolar do Mercado Ferreira Borges, onde comprei 31 livros e um caderno por 40€…).

Depois o apartamento partilhado com amigos e não só, onde muito aconteceu, e se calhar não deveria, e se calhar até devia, para chegar a conclusões que se calhar naufragaram entretanto, ou não. Mas como não sou pessoa muito pensadora, as coisas flutuam ainda por aí, meias esquecidas. Mas serviu para escrever uma mão cheia de contos para o meu livrinho (Composto de Mudança) e para a história de fazer o funeral mental… que resultou, até que houve uma ressurreição, por assim dizer, que me estragou um pouco os planos de ontologia da palavra e da mente, mas enfim, o que está morto, morto pode voltar a ser. E foi a morte do artista, ou antes, da artista: Madonna. Para mim está bem enterrada, para já. Redescobri algumas coisas dos Madredeus, foi bem. Mas a Mariza voltou a ocupar o lugar… que nunca perdeu, realmente. Quem se perdeu foi eu, no último dia, em que me aconteceu uma… mas que eu não conto, foi daquelas de anedotas, como ir carregado no metro para ia apanhar o comboio, dar conta que falta o telemóvel e voltar para trás, sabendo que não se tem a chave de casa e se tem de esperar que algum dos colegas volte… e em vez do comboio das cinco, apanha-se o das dez… pronto, já contei…

O trabalho: no início foram três dias loucos na Reitoria, onde conheci uma menina muito interessante, física e psicologicamente, cabo-verdiana ;). Afiei imensos lápis, fiz dossiers, tirei cópias, distribui folhetos de Coimbra, Braga, Porto, Gaia, Aveiro, Guimarães… Enviei emails, fiz compras, fiz arranjos equilibristas com bandeiras de todos os países da Europa para a sessão de abertura, enfim. Tudo em prole do IELC – Intensive Erasmus Language Course, para sessenta meninos e meninas (alguns mais velhos do que eu, mas enfim) que vieram a prender Português. Durante o resto do mês, prestei apoio no que pude e o melhor que pude aos alunos (dúvidas linguísticas, localizações: procurar casa, encontrar sítios e ruas, metro, comboio, autocarros, feiras e, pasmem, casas de meninas – mas isto eu não sabia…), acompanhá-los, com a guia, a Marta Villares, nas visitas pelo Porto – baixa e monumentos como Palácio da Bolsa e Igreja de São Francisco e caves de Gaia (6 e 10 de Agosto), Guimarães – castelo, Paço dos Duques e centro histórico (17 de Agosto), Braga – Bom Jesus, Sé e centro histórico (24 de Agosto) e Serralves (31 de Agosto). E apoio às extraordinárias formadoras: Ana Isabel, Ana Paula e Débora (power point, fotocópias, acetatos e retroprojectores, impressões, entrevistas, vídeos…). Enfim, às vezes uma estafa por ter de andar de um lado para o outro, outras vezes uma calmaria arrasadora. Tinha uma sala de 40 computadores com ligação à Internet e assim ia ocupando os tempos mortos. Os miúdos eram espectaculares. E ficam na memória da ternura alguns: Greta, Sara, Giulia, Alex, Simone, Valentina (italianos), Estefânia, Pablo (espanhóis), Muhammet, Fatih, Belkis (turcos), Vera, Kate (alemãs), Tomasz, Hubert (polacos), entre outros… No fim foi difícil despedir-me de todos, alunos, formadoras e Rosi. É que os laços criam-se... e ficam…

Do meu caderno (Pensamentos Ligeiros – vol.13, que mantenho desde os catorze anos, tipo diário/registos vários/poemas meus e de outros e afins…) posso transcrever que a «A primeira noite foi estranha, claro. Choveu e água bateu forte no plástico e no vidro da marquise» - o meu quarto tinha contacto directo com a única parte da casa com janela para o exterior - «conversa até tarde, muito, sobre muitas coisas – sobre nós de vez em quando, de fugida». Mas sobre isto não vou revelar mais, só no tal conto.

Já o disse, as leituras foram poucas. Mas agora em Setembro (agora que já acabei todos os trabalhos de mestrado) posso vingar-me e é o que estou a fazer. Contos Outra Vez, de Luísa Costa Gomes é extraordinário, seguem-se Olhos Verdes, também dela, Na berma de nenhuma estrada do eterno Mia Couto, acompanhados pela Bílbia, Poesia Completa de Natália Correia, e depois se verá.

Casamento da Joana




Com o João, que ainda não conhecia. A primeira da minha geração, da fornada de 1983. Pelo menos das mais chegadas… Foi na igreja de São Miguel de Lobrigos, uma igreja pequena e bonita com uma talha dourada velha. Estava linda a nossa Joaninha. Não como sempre, mas mais especial. O padre a arrastar os rrrrrrr e os leitores a despacharem as leituras bíblicas em três tempos foram acompanhados por um brilhante coro. O copo d’água foi no Hotel Régua Douro, com uma vista extraordinário sobre o rio. Havia de tudo, como é costume nos casamentos. Destaque para o creme de legumes, o bolo gelado, a mousse de frutos silvestres, as frutas, os mini-salgadinhos, bola, crepes (bom, isto foi do que comi e mais gostei…). Com música ao vivo, quase tipo casamento à americana, mas com músicos muito bons, com muitas fotografias, leilão da gravata do noivo e enfins. Resta desejar as maiores felicidades possíveis e força para os momentos menos bons. E ela merece!!!

terça-feira, setembro 04, 2007

a importância da escrita... à mão...


3 poemas de Alexandre O’Neill


- talvez os meus favoritos, agora...


A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou numa noite qualquer.

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

*

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas e inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

*


O quarto

Aqui dormi.
Aqui sonhei.
Aqui me masturbei.

Da parede,
o mesmo azul do mapa
me convida.

Mas não fui de «longada».

De lombada em lombada,
quanta estante corrida!

segunda-feira, setembro 03, 2007

excerto de uma conversa no msn com a sandra...

tiago diz:
as minhas epígrafes do trabalho:
tiago diz:
«Poesia é bem o que dificilmente se pode descrever ou definir…»

Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, s/d, p.76

«Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.»

Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, 1998,
tiago diz:
título:
tiago diz:
Poesia, Linguagem Poética e Lírica: em torno de conceitos (in)definíveis
sandra diz:
gostei particularmente de Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.»


tiago diz:
Assim, todas as definições que se possam tecer em torno destes conceitos deverão ter em conta condicionantes extra-literárias e o próprio objecto que se pretende trabalhar, para evitar equívocos e falhas, embora sejam sempre redutoras, porque:
Definir seja o que for é criar ao definido a possibilidade de ser precisamente algo diferente do que se diz na definição. Ou seja, é criar-lhe perspectivas de não o ser, de se exceder e transgredir.
tiago diz:
e esta é a conclusão
tiago diz:
na p.17
tiago diz:
(mais três paginas de bibliografia...)
sandra diz:
q lindo
sandra diz:
tecer es aranhiço???
tiago diz:
n percebi...
tiago diz:
ah... já percebi
tiago diz:
sim, eu teço mt, como a penélope só que ela esperava o ulisses e ele voltou
tiago diz:
eu sou o próprio
tiago diz:
tulisses...
tiago diz:
espero e volto, continuamente, a mim, de mim,
tiago diz:
em mim
tiago diz:
sempre solitário a bordar a mortalha com que me envolverei ao morrer
tiago diz:
lol
tiago diz:
eu agora estava em delírio poético
sandra diz:
uauuuuuuuuuu
tiago diz:
pois ééééééé
sandra diz:
aproveita e faz uma camisola para moi
tiago diz:
está bem
tiago diz:
tens preferência no material?
tiago diz:
podem ser lágrimas ou preferes sangue das veias dos pulsos?