quinta-feira, dezembro 20, 2007

Composto de Mudança

Já está, completo e escrito, o meu pequeno livro de contos. 52 histórias, escritas ao ritmo de uma por semana, mais ou menos, durante este ano, fruto de um desejo-promessa de fim de ano de 2006 como forma de garantir alguma sanidade mental. Recuperei algumas antigas (*), mas quase todas são novas, e as que não são passaram-no a ser, de tão remodeladas que foram. Acabei mais cedo do que o previsto, porque houve algumas fases de súbita inspiração ou disponibilidade para isso, e aproveitei, para compensar alguma fase menos produtiva. Mas estão prontos. Seguir-se-á outro projecto, futuramente. A árvore já foi plantada, o livro escrito. Quase realizei o mais importante da vida de um homem… Falta... faltam mais livros!

Alguns contos aparecem aqui no blog, se bem que nem sempre no seu “estado final”:

1. Magnífico caos
2. A casa dos corações partidos
3. Estória de amor pouco comum
4. Auto(r)fagia
5. Formas de morrer-se
6. A palavra gato morde
7. Uma gaivota
8. A peça (*)
9. Sonho… ilusão… retorno
10. A estória nenhuma
11. Engatinhar-se
12. Iniciação (*)
13. Hero (*)
14. Eva (*)
15. Composto de mudança
16. Monónimo (*)
17. Maias
18. Um dia extraordinário na vida de Eduardo Afonso
19. Pais (*)
20. A eternidade
21. Caro Alberto Caeiro (*)
22. Revisitação (*)
23. O que o tempo faz (*)
24. O falso turista
25. A fotografia
26. A casa de chá
27. Pedagogia (*)
28. O deus, as escadas e o pijama
29. A meio caminho para lado nenhum
30. A casa das raposas
31. Primavera
32. Teoria das cores
33. Roteiro da perdição
34. 3g de açúcar
35. As pequenas grandes dores
36. Os finalistas
37. Pelos meus olhos
38. A ronda da noite
39. Casamento: nó e mousse de frutos silvestres
40. O prodígio de Nossa Senhora das Neves
41. Na volta do homem
42. O piolhoso
43. Sobre o mesmo barco (*)
44. Confiança e reconhecimento
45. Trazer a chuva
46. Miaugente
47. Chá para um
48. Noites de amor e de música
49. Tudo sobre os comboios
50. A luz, os olhos e o poema
51. Baixa no Natal
52. 7 vidas ou o regresso do gato

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Diversão sem fim... e nervos



Vão até:


é uma sequência de enigmas. eu ainda vou no 16... não se enervem, alguns são mais fáceis do que parecem, não compliquem como eu, no 10... o 12 é lixado, procurem na net... quem leu O Código da Vinci talvez se lembre... e o 16 deve ser parecido... Vale a pena! Se precisarem de ajuda, estou às ordens. Não consigo fazer o 19... muito mau... estou com preguiça, já pensei muito hoje, mas não sei mesmo...
comecei pela uma hora, mas parei para almoçar e arrumar a cozinha. e a sandra ajudou-me no passo 12...
Já está! Consegui! - 17:54!
Prova:

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Poema de Natal - Vinicius de Moraes



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Este ano seleccionei um poema de Vinicius de Moraes, entre os muitos que tenho em livros. Na verdade, alguém (que já significou toda a vida para mim) mo seleccionou há uns dois anos, quando o pôs a acompanhar uma prenda em forma de livro com histórias sobre gatos. Aqui fica, como importante para mim, com uma beleza própria. Recomendo a leitura de Natal... Natais - Oito séculos de Poesia sobre o Natal, antologia organizada por Vasco Graça Moura (Público, 2005), e ainda outra antologia, mas de contos, Gloria in Excelsis - Histórias Portuguesas de Natal, também organizada por Vasco Graça Moura (Público, 2003, Coleccção Mil Folhas).

Fernanda Botelho: 1926/2007

A escritora portuense, autora de poemas líricos e romances, foi uma das mais inovadoras escritoras da segunda metade do séc. XX. Publicou: As coordenadas líricas (Poesia), 1951, Ângulo raso (Romance), 1957 ; 1986, Calendário privado (Romance), 1958 ; 1986, A gata e a fábula (Romance), 1960 ; 2005, O enigma das sete alíneas (Ficção), 1963, Xerazade e os outros (Romance), 1964, Terra sem música : o livro de Pitch (Romance), 1969 ; 1991, Lourenço é nome de jogral (Romance), 1971 ; 1991, Esta noite sonhei com Brueghel (Romance), 1987 ; 1989, Festa em casa de Flores (Romance), 1990, Dramaticamente vestida de negro (Romance), 1994, As contadoras de histórias (Romance), 1998 ; 1999, Gritos da minha dança : inéditos, 2003

Dois excertos do romance Gritos da minha dança:

As meninas foram banhar-se no ribeiro, brincando e cantando com a alegria própria da idade. Dera-lhes para ali! Atrás de uma árvore de tronco grosso, viu-as refulgentes de nudez e de beleza, o jovem filho do tabelião, que por ali passava as suas férias, vindo da tabelionice da cidade do Porto, também pode ser a de Lisboa.

Eram felizes, jovens, bonitos. E ambos economistas. O Boss não gostou de os ver de mãos dadas, vinham eles dos lavabos, para onde ele, o Boss, se dirigia, já de a desabotoar a braguilha. O Boss não era feliz, nem jovem, nem bonito, simplesmente economista e outrotanto casado.


As Coordenadas Líricas

Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu

A geométrica forma de meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
— as minhas coordenadas.

sábado, dezembro 08, 2007

50. A luz, os olhos e o poema


Nos olhos do gato, iluminando a noite da escrita do poeta, podia ler-se, ouvir-se, sentir-se. A vela terminava em últimos suspiros de luz, consumida. E o poeta, via das coisas mais pequenas, vivia das basicidades elementares. Na casa escura preenchida de sombras dançantes, o silêncio era quebrado pela luz do gato, que parecia dizer ao poeta para aproveitar o resto da luz da vela, ou então a luz dos seus olhos, enquanto não adormecia. O poeta leu as horas nos seus olhos e pegou na pena. Em tempos já escrevera sobre isso, mas agora aquilo que parecia realmente real, com sentido, não o conseguia tornar em palavras. O outro já o dissera muito bem: «Ó cousas; todas vãs, todas mudaves, /Qual é tal coração qu’em vós confia? /Passam os tempos, vai dia trás dia,/ Incertos muito mais que ao vento as naves». Era tudo, um soneto que não se importava de ter escrito. E afinal tudo passa, já diziam os clássicos. Heraclito e o seu rio de constante corrida e fuga, não passante segunda vez pelo mesmo leito, e a irrecuperável vida passada, a dos montes brancos, das rosas, das rosas e do vinho do tegúrio de Horácio… E as estações, sempre volvendo, como que negando tudo…
Nos olhos atentos do gato, fitos na luz da vela ainda, o poeta lê que as coisas mudam, bem como o próprio homem que as vê e as muda ao mesmo tempo. Talvez só o gato fique igual, nas suas sete vidas imortais e transmigre para outro lado. A mãe já lhe dissera coisas, coisas que eram como pontos de partida. Às vezes, a fala de alguém é um ponto de partida para escrever - «Fez o tempo outra volta», «São voltas que o mundo dá», «uns choram pelo passado e outros pelo presente». Mas faltava alguma coisa. Ou existia alguma coisa que o impedia de escrever. E, no entanto, queria. E só agora fazia realmente sentido falar assim, disto, do perpétuo Inverno e da infindável dor, as únicas coisas não mudáveis. Enquanto a vela se extinguia sem retorno, o gato espreguiçou-se e deslocou-se para a frente do poeta, iluminando a noite. O poeta observava-o, admirando com inveja a sua agilidade e elegância estudadas. Sabia o que queria dizer, sabia como, mas não escrevia. Um ligeiro desconforto de estar mal sentado impedia-o de se abstrair.
Nos olhos do gato leu então: «Nasce o Sol, e não dura mais que um dia». E disse-lhe «Lá virá então a fresca Primavera:/Tu tornarás a ser quem eras dantes, /Eu não sei se serei quem dantes era». O gato saltou então do seu corpo de nevoeiro embrulhado e pousou no álbum que lhe dera Sá de Miranda, com poemas de língua muito parecida com a sua, que copiara em Itália. O poeta abriu-o e à sua frente deslizaram as palavras de um homem de Santiago. E apesar da certeza do amor ali expressa e da falta de angústia manifesta, a última estrofe chamou-o com força:

Todalas cousas eu vejo partir
do mund’ en como soían seer,
e vej’ as gentes partir de fazer
ben que soían, tal tempo vos ven,
mais non se pod’ o coraçon partir
do meu amigo de me querer ben

Pero que ome part’ o coraçon
das cousas que ama, per bõa fe,
e parte s’ ome da terra ond’ é
e parte s’ ome du gran prol ten,
non se pode parti-lo coraçon
de meu amigo de me querer ben

Todalas cousas eu vejo mudar,
mudan s’ os tempos e muda s’ o al,
muda s’ a gente en fazer ben ou mal,
mudan s’ os ventos e tod’ outra ren,
mais non se pod’ o coraçon mudar
de meu amigo de me querer ben

E na sua cabeça um ritmo começou a bater. As palavras foram surgindo; uma vida parecia prestes a nascer da sua mão. Olhou profundamente nos olhos do gato, agradecido. Leu ainda, antes de começar, na luz do futuro dos olhos: «Viva o Parnaso, que desde a sua fundação até hoje não se escreveu soneto igual a este. Pesa mil arrobas de majestade, de elegância e de imagens e de belezas… Só sabe dizer isto com tal limpidez e eficácia quem o tem muito bem trilhado com profundíssima ponderação. E tão comentado e apreciado será que até histórias sobre a sua génese se inventarão».
- Mas só nós dois saberemos a verdadeira – disse-lhe o poeta.
E esquecido das dores e da sua falha, inteirou-se e deu à luz dos olhos do gato a sua letra certa e segura:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
….
Lá fora despontava já o dia e o gato pôde então fechar os olhos.
(ainda precisa de revisão e tal, mas não resisti a publicá-lo. e já só faltam duas histórias para acabar o livro...)

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Manuel Rui, Rioseco - dois fragmentos


O mar já mudara sua pele para uma forma agitada de se mexer, parecia vergastado pelo vento e a vaga berrava raivosa de espuma suicidada contra a areia, devassando a terra e formando, de ressaca, um pequeno lago, em braços de ir e vir, curvando, por entre as primeiras filas de árvores que compunham o coqueiral. Vaga de calemba, pelo meio da tarde, quando o vento, de chibata na cabeça dos coqueiros e casuarinas, dava a sensação de transformar cada cume de mudança de maré num sacrifício do mar e da natureza costeira. A noite começava a apetecer-se num fogo de fogueira sob o cacimbo, aumentando pela madrugada, no orvalho bom na mão das plantas onde os pássaros viajados, das margens do grande rio, vinham saciar sua secura de sal e azul encalorado.

Eu estou muito longe. Também nunca hei-de estar perto de nada, porque quando isso me acontece, sinto, por dentro, uma vontade de me afastar para longe.

Explicação do Medo

Desapareceu de sua casa era quinta-feira
E não voltou a ser visto no seu andar vistoso.
Vestia calças de ganga e camisola amarela com uma bandeira
Pouco cabelo, olhos do tamanho das varandas
De onde via o mundo em movimento.
Desapareceu de seus pais, de sua vida
Perante o olhar indiferente dos outros.
Esperou-se o tempo necessário e nada.
Rapto, fuga, acidente, morte sem aviso prévio,
Como quase todas as mortes que nos ceifam da vida
Que amamos acima da nossa própria…
Desapareceu de sua vida própria, mesmo que vivo,
Tendo talvez uma outra vida não planeada com o mesmo amor
Mas ainda assim uma vida, um outro ser.
Desapareceu e suas coisas são lembranças
Que não se podem apagar nem arrumar numa caixa.
Desapareceu e pode andar por aí.
Desapareceu.
Desapareceram com o tempo e os anos as esperanças
Nem sempre as últimas a morrerem.
Perdidos na sua casa, nas suas coisas,
Os pais falam às coisas e ensinam a lição às paredes,
Às vezes, embalam almofadas e fazem cócegas aos livros…
Quando dão por si, estão incapacitados para amar
E indisponíveis para a vida futura.
Também eles desaparecerão, gritando de raiva.

sábado, dezembro 01, 2007

um-seis-um

A Denise pôs-me numa corrente, a minha primeira. Já há algum tempo, é certo. Mas aqui vai: a quinta frase completa da página cento e sessenta e um do primeiro livro que me apareceu à frente, que quero ler há imenso tempo mas estava esgotado mas enfim, finalmente, já o consegui.
E passo-a a outras escritas de nível: Gimane, Rascunhos-Ana, Pensamentos Blogueados, Fuga de Pensamentos e É a Bidinha. Só têm de pôr a vossa citação no vosso blogue, mesmo que não faça nenhum sentido… e passar para mais cinco pessoas! Depois avisem qual a citação que lhes calhou! A minha é extraordinária, melhor seria impossível. calhou-me tal coisa que nem sei o que pode significar.

Aqui fica:

«Se, pois, se.»

«A benfazeja», Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, 4.ª reimpressão a partir da 5.ª edição/1.ª edição especial, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2005 (1962)

Casimiro de Brito, Ode & Ceia




Encosto-me ao tempo

Quando chego a casa
o deserto é outro

Abro a janela
recordo que houve sol
invento braços no corpo das sombras
e a noite me encontra
silencioso e fácil
à beira do sono.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Memorial...



Em memória de dois gatos que me morreram este ano. O primeiro, uma coisa pequenina de semanas, todo preto só com os pés brancos como se fossem sapatos, muito amistoso, mas que dois cães estúpidos não pouparam. O segundo, um gato tigrado parecido com o Guano, o da minha tia, mas muito mau. Morreu provavelmente envenenado; descobri-o na casa das maçãs, batatas e cebolas, ainda vivo… E em saúde do outro gato, aquele que há cerca de um mês ajudei a sair de um silvado. Com pena minha, a minha mãe não mo deixou trazer para casa e ficou junto aos dois restaurantes de Poiares. Quando lá passo com a minha mãe e a minha tia, à noite, quando vamos dar a volta diária, aparece às vezes, mas já não mia como antes, desesperado É preto, todo imensamente preto, até os olhos. Tal igual o gato que ontem, depois do outro gato ter morrido, no meio da nossa volta, veio ter comigo, miando e roçando-se nas minhas pernas… Podia ser ele se não estivesse tão crescido. nenhum destes gatos foi meu, mas como não me deixam ter nenhum, todos eles me pertencem


Pequena Elegia - Nelson Archer

Gatos não morrem de verdade:
eles se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de algum de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem – é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

sábado, novembro 17, 2007

espelho...

Eu-próprio o outro

Novembro, 13.

É lamentável como me erro continuamente. Em mim e entre os mais.
Eu fiquei sempre, nunca fui – mesmo quando me perdi.
Às vezes ainda me decido a partir. E parto. Mas nunca venço seguir. Se não é por culpa minha – é por culpa dos outros, que me acenaram.
É que eles, se me acenaram, foi por julgarem que eu nunca os seguiria – foi para sofrerem. E como afinal parti atrás dos seus gestos, desencantaram-se de mim, fugiram escarnecendo-me. Tombei-lhes.
Só me é permitido ser feliz, não o sendo.
É inacreditável!
Quase todos se contentam consigo próprios – bastam-se. E vivem, e progridem. Fundam lares. Há quem os beije.
Que náusea! Que náusea! Não se ter ao menos o génio de se querer ter génio!... Miseráveis!
Mário de Sá-Carneiro, Céu em Fogo, p.129-30.

47. Chá para um


Ultimamente costumava ir todas as noites à cozinha. Numa caneca punha água do garrafão, e depois de dois minutos no micro-ondas punha um saquinho de chá e duas colheres de açúcar. E saboreava então um sabor único e quente, reconfortador. Às vezes acompanhava-o com um pão ou tostas com doce de amora de queijo. No armário, junto à cevada, ao café e ao açúcar estavam as caixas do chá. Chá preto, chá verde, chá de cidreira, chá de lúcia-lima, chá de limão, chás com nomes e especiarias orientais, chá de Marrocos, chá de frutos silvestres, chá de maçã-canela, chá de tília, chá branco… Várias caixinhas que iam variando de dia para dia, dando assim a ilusão de variedade e companhia. Uma noite, sentado na cadeira, sentindo o vapor quente enublar-lhe os olhos, leu metade das instruções escritas numa das caixas:
Use sempre água acabada de ferver e espere 3-5 minutos antes de servir. 2 a 3 chávenas: use um saquinho.
Não acabou de ler as instruções sobre «no bule» e «para beber frio», porque subitamente sentiu-se muito só, numa cozinha enorme, ao olhar o seu saquinho com uma única chávena à sua frente…

últimas coisas...


Eu vejo muitas séries de televisão (Anatomia de Grey, Amor no Alaska, Sobrenatural, Jericó, Betty Feia... já para não falar de outras que segui atentamente, como Sete Palmos de Terra, Perdidos, Prison Break, Roma, Donas de Casa Desesperadas, Ally Mcbeal, Sabrina, Friends, Dharma & Greg, Dr. House…). Em nenhuma delas as personagens "perdem tempo" a ver séries. Nos filmes, em muito poucos, as personagens vão ver filmes, mas não vêem séries. Nos livros há sempre uma personagem ou outra que lê. Às vezes vão ao cinema, mas também não passam muito tempo em frente à televisão a ver séries. Mas eu também não sou personagem de romance…


Para ocupar o tempo tenho visto muitos filmes em dvd ou outros formatos que estavam lá em casa, já há alguns anos. Vi finalmente coisas tão espectaculares como Babel, Hotel Rwanda e Crash – Colisão, só para citar os melhores e mais emocionantes. Mas revi também a trilogia do Senhor dos Anéis, agora toda seguida e com os dvd dos extras e opções especiais. Uma verdadeira maratona de fazer perder a cabeça a qualquer um. Mais emocionante do que quando vi cada um deles no cinema. Talvez por já conhecer e poder atentar noutros pormenores. Seguir-se-ão os livros, um dia destes, uma vez que as bandas sonoras também já foram ouvidas. Uma história que ali aparece aflorada e que no livro deve vir mais desenvolvida é a de Faramir (desempenhado por David Wenham), que no fundo não tem grande interesse para a progressão da história, para nenhuma delas (a de Frodo e Sam, ou a das batalhas em Gondor), embora intervenha nas duas. Mas é uma preciosidade no meio de todo o valor físico e emocional da história. Ainda bem que não a eliminaram do filme…


Estar aqui no fim do mundo parece que implica o atenuar das coisas da cultura. Vou vendo o Câmara Clara, o Jornal 2, o Bastidores, mas parece que as coisas surgem sem o mesmo brilho e importância. José Luís Peixoto publicou Cal e não me chegou a mesma excitação que aquando de Cemitério de Pianos. António Lobo Antunes voltou com um pequeno O meu nome é Legião, e não me chegou o mesmo impacto de Ontem Não Te Vi em Babilónia… E até mesmo o Harry Potter e os amuletos da morte me passou um pouco despercebido… Será de mim, de estar focado em outras coisas mais técnicas, ou de andar a recuperar coisas do passado, ou será de estar aqui no desterro? Imagino então se trabalhasse, se tivesse companhia, filhos e casa para cuidar, se tentasse escrever a sério e se estivesse a trabalhar a sério na tese… Não é falta de tempo, mas talvez preguiça…


Por falar em escrita, a tese vai ponicamente. Tenho de falar com os orientadores para ver o que faço efectivamente. Tenho lido muitos artigos sobre o antes e o durante da obra e Arlindo Barbeitos e coisas de teoria literária sobre geração, convenção e inovação em sistemas literários, mas ainda falta ser a obra dele em específico (não há muitos…), sobre poesia japonesa, literaturas orais, aspectos de retórica e estilística, angolanidade e questões de identidade e nacionalismos literários, enfim… Na escrita mais artística, as coisas vão andando, sem grandes avanços. Mas re-ordenei a minha obra. Composto de Mudança, os 52 contos que estou a escrever ao ritmo de um por semana, desde a primeira semana de Janeiro até à última de Dezembro deste ano, está quase pronta: o último que escrevi está até adiantado, pois tenho tido um tempo mais livre, mas também é tão pequeno… A trilogia tem finalmente nome: As Mil e Uma Noites de Solidão e Medo (um verso de Alexandre O’Neill), composta por Inventário das Coisas Sós, Gravado na Pedra e Explicação da Luz (títulos ainda provisórios, romances ainda não escritos). A Antologia Poética Possível espera pelo último livro de poesia em que vou escrevendo alguma coisa, a Explicação das Coisas. Mas quero começar a trabalhar noutras coisas: Vazio Repetido (de um verso de Daniel Faria) será uma continuação do projecto do Composto de Mudança), e quero muito escrever finalmente um romance (mas mais fácil do que Inventário das Coisas Sós, de que cheguei ao terceiro capítulo) que tem o título provisório de Algumas tardes entre o mar e a morte (verso de Ruy Belo). Podem chamar-me maluco vá, eu deixo, mas nunca se sabe o que pode sair daqui! Está tudo gravado no pc e na pen (não vá o diabo tecê-las). Qualquer dia deixo algumas pessoas lerem alguma coisa, para além do que vai aparecendo aqui no Tulisses. E as leituras, tantas! Agora com este tempo frio em que nada se faz (sim, continuo desempregado, embora em Janeiro e Fevereiro tenha trabalho na Reitoria/FLUP para mais um EILC), leio. Recomendo, do que recentemente passou pelos meus olhos e mãos: Bom dia Camaradas de Ondjaki, Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa, A Casa Velha das Margens de Arnaldo Santos, Jornada de África de Manuel Alegre e, para não ser tudo prosa, nem tudo africano ou sobre África, mas também porque vale por si próprio, e muito, Todos os Poemas de Ruy Belo.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Desejos vãos

Se eu soubesse derramar-me na terra
Perder-me no pó pelo meio do vento
Escorrer-me com a chuva pelas pedras
Seguir em curso até ao fogo mais longo
Ou estar simples entre as coisas
Fugindo de mim e das ausências…

41. Na volta do homem



Maria das Dores estava sentada na varanda baixa, entre os seus novelos e panos de lã e de renda, tal como quando um fim de tarde de Verão o seu marido saiu para comprar tabaco e nunca mais regressou.
Ao princípio, Maria das Dores estranhou. Depois preocupou-se, a seguir saiu de casa disparada e foi ao café. Ninguém o vira, nada, nem em todo o dia. Procuraram na vila, nas hortas, em redor e não se via coisa diferente. Até que o Luís dos Fios apareceu às pessoas em volta da chorosa Maria e disse que a sua Laurinda também desaparecera. Pareceu-se ali explicar o mistério, afinal simples e de carácter amoral-amoroso: ambos se extinguiram da vila, juntos.
Passaram-se dez anos sem notícias dos fugitivos. O Luís dos Fios envelheceu como se o tempo passasse mais depressa por ele. Na sua velhice antecipada tinha dois rapazes para acabar de criar e apenas a ajuda da própria Maria das Dores, irmanada na dor comum, que lhe fazia algumas lides domésticas, uma vez que o Luís dos Fios não sabia nem estrelar um ovo nem pregar um botão – nem queria aprender, com medo e que a barba não lhe crescesse e ficasse menos homem: já bastava ser corno declarado na terra. Agora morria, rodeado pela família, com o orgulho a esganá-lo e a inquietação do abandono a apertar-lhe o coração.
Maria das Dores chorou e berrou e partiu muita coisa em casa. Só se consolou por nunca ter tido filhos. Se sozinhava na imensidão de uma casa vazia onde só os móveis projectavam sombras, recusando a companhia dos animais e das flores. Depois acalmou e seguiu a sua vida. Ganhava-a como sempre o fez, a remendar, costurar, pôr fechos, pregar botões, fazer bainhas, bordar fazer tricôt e renda. Boa de mãos, e agora menos de olhos, trabalhava ainda nas hortas do homem que a convencera a deixar a casa dos pais e a sua aldeia, transladando-se para uma terra estranha onde não conhecia ninguém. Porém, sobre ela o tempo parecia não passar, perdido por aí, entre o vento, não chegando sequer a subir às escadas para a varanda.
Mas naquele dia, em que o Luís dos Fios morria e Maria das Dores continuava na varanda entre as suas linhas infinitas que se cruzavam umas com as outras em cores e espessuras diferentes, se misturando em infinita alegria, o vento subiu as escadas, brincando com as pontas soltas. O arrepio por ele provocado fê-la levantar os olhos. Na véspera do primeiro degrau estava o marido. Mais velho, braços caídos pelo corpo com a roupa gasta e baça. Maria das Dores teve dificuldade em reconhecê-lo e ainda pensou que pudesse sem um sonho, visão ou fantasma. Ele ia falar mas ela antecipou-se-lhe:
- Se te sentares aqui, ao pé de mim, agora, e pegares nas minhas mãos, enlaçando-as com as tuas, e te chegares ao meu peito, à minha alma, não me poderás abraçar por inteira, haverá pontas e sobras. Mas será o último abraço, a última partilha de vida entre nós. Ou nem isso.
O homem ouviu-a e não compreendeu. Subiu as escadas e sentou-se a seu lado mas não chegou a abraçá-la. Do colo de Maria das Dores a mortalha que bordava inteirou-se e envolveu-o, aos poucos. As pontas e os fios perdidos ataram-se devagar, perante a placidez branca do homem. Maria das Dores levantou-se, com o sentimento de tudo cumprido e resolvido. Desceu as escadas e seguiu para casa do vizinho Luís dos Fios.
- Morte por morte, ao menos a daquele que nunca me prometeu, mas também nunca falhou...
E seguiu rua abaixo, sem olhar para trás. O homem, debaixo do mundo, sorriu pela companhia que lhe adivinhava.

a importância do livro na vinha



durante as vindimas encontrei uma máquina estranha (não sei como se chama nem para que serve, mas é para trabalho na vinha). e não resisti a tirar estas fotos. a primeira mostar a máquina em si, a segunda alguns avisos de prudência, quanto a posição, manuseio, e assim. óbvia a importância da leitura das regras (primeiro quadro) e da leitura em geral (quinto quadrado, ou segundo da fila de baixo). por mim, acho que ficava bem a leitura de um poemazito de Miguel Torga quando vi esta máquina tão sugestiva.




OUTONO


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Planta alta e trigueira


As plantas acenavam ao vento de agosto, nas suas hastes finas e verdes. E disse-me a mais faladora de todas, alta e trigueira:
- Dás-me dez anos da tua vida?
Eu só tinha cinco anos, pus-me a contar pelos dedos, vi que ia ficar com muito pouco.
- Dou – disse eu.
E ainda hoje, que nunca mais soube de mim, vou com o vento, balouçando. E agosto é todo o ano para mim.



Ruy Belo, Todos os Poemas


(o poema que a Consti me apresentou um dia e que entrego sempre aos amigos que se casam...)

Natália Correia

Canção entregue ao nada

Hoje venho oferecer esta tristeza às coisas
No gesto esquivo de não as desejar.
Pôs na minha alma como o sol nas frias lousas
A vida o gosto de esplandecer em recusar.
São-me alheias estas margens onde corre
O destino que aos dados aos deuses eu lancei.
O que me dói é ver que tudo morre
Noutras mãos em gestos que tracei.

****

Cantos de Safo para Átis
V
Lentos meus gestos desenham o seu rosto
Rasgando a escuridão da sua ausência.
E o meu cantar enleia-se no gosto
De a cantar em distância e em transparência.

***

Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave

se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo como se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.


Apesar de ter gostado de outros, estes são os mais interessantes para mim. e depois, não sobram assim tantos como isso. não gostei da necessidade estranha e permanente da rima e das imagens estrambóticas... mas quem sou eu...

um comentário ao meu blog da denise...

http://rabiscosegaratujas.blogspot.com/2007/09/tulisses.html

quinta-feira, setembro 13, 2007

agosto II - imagens verídicas


Foto da porta do meu ex-aparamento. digno de receber um professor de portuguêz dezempregado!!!



Redbull air race - coisa mais horrível e chata... estive lá uns dez minutos, depois fui para a feira do livro.



Especialidade inexplicável de um restaurante perto do meu ex-apartamento

EILC - Paço dos Duques, em Bragança.

EILC - No Palácio da Bolsa, Porto

EILC - Em Braga, em frente à Sé...


Procissão da Senhora da Saúde - Paranhos, Porto