quarta-feira, abril 09, 2008

Procrastinação

Há dias em que em dá para isto. Em vez de cumprir deveres - e eles são agora muitos, procrastino. Eu não era assim; é o que dá quase dois anos de muito pouco para fazer, só andar num mestrado que podia ter sido mais bem aproveitado, talvez... mas eu também gosto da pressão. Mas em vez de acabar primeiro capítulo da dissertação, ou rever livro para o concurso da Teorema/FNAC, ou preparar resumos para duas comunicações (uma sobre Macau e outra sobre a Memória...), ou ler sobre Saramago (bem, a dizer a verdade, li em dois dias e mais meia hora As Intermitências da Morte, que adorei), perdi-me na tarde a ouvir três cds de Katie Melua (finalmente consegui ouvi-los todos), a ver blogs e a ler... poesia.
E respondendo a uma dúvida da Denise: o Paulo avisou-me de que o IPLB andava à procura de uns mestrandos/mestres interessados em participar como monitores na exposição A Consistência dos Sonhos, sobre a vida e obra de José Saramago, na sala da galeria do Rei D. Luís, no Palácio Nacional da Ajuda. Fui escolhido e lá vou passar os próximos três meses na capital, a trabalhar e a ver se despacho também a dissertação...
Entretanto, fiquei em terceiro lugar (para três vagas) para o projecto TETRA. A lista definitiva ainda não saiu e não sei se fico mesmo, e tenho de rever alguns dos pontos do regulamento que me podem pôr entraves em outras coisas... É melhor ver com atenção.
Procrastino para o próximo post o resultado da leitura de uns livros de poesia...
P.S. - tenho de agradecer ao Paulo a indicação da exposição e à minha (Fada)Madrinha por me ter impelido a concorrer ao TETRA.

sexta-feira, abril 04, 2008

II 14. Geografia e ontologia



Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

Dantes o mundo era da medida do seu alcance: o que podia ver e sentir e o que podia imaginar, o que não era muito. Tudo se reduzia então à rua onde vivia toda a gente que conhecia, à escola do seu irmão, à padaria, à mercearia, à igreja e aos campos que o rodeavam. Era feliz com a sua maneira recatada de ser, enfiado em salas que lhe pareciam sem fim, entretido com a sua própria fantasia. Depois começou a questionar o mundo. Ou antes, a chatear os adultos por causa do mundo.
Por exemplo, fazia-lhe confusão as pessoas serem pequenas ao ponto de caberem na televisão ou no rádio. E como eram capazes de fazer tudo o que faziam naquele espaço tão pequeno. Depois foi percebendo que era por uma outra maneira que prendia a nossa imagem e o nosso ser completo e o dava a ver ou a ouvir através dos aparelhos ligados à corrente. E percebeu-o quando o seu pai se decidiu elucidá-lo, fazendo gravações consigo que depois pôs na televisão e no rádio. Só não percebeu depois como aquilo funcionava, a cópia ser produzida tão fielmente, e teve medo que aquilo desgastasse o seu ser verdadeiro e pediu-lhe para que não o voltasse a fazer. Enquanto ele não percebia o funcionamento das coisas eléctricas e ainda efabulava a vida das pessoas pequenas dentro delas, a sua mãe costumava dizer-lhe que não podiam ter as duas coisas ligadas ao mesmo tempo porque as pessoas não podiam fazer tudo ao mesmo tempo nem podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ele dizia que deviam ser outras e então ela dizia que era um desrespeito de umas com as outras, pois ninguém se entenderia nem daria o devido valor. E assim convenceu-o a desligar ou um ou outro, e em determinadas alturas a desligar quer um quer outro, porque também as pessoas precisavam de fazer ó-ó. Ele achava aquilo tudo muito estranho porque não eram uma família com muito dinheiro e não sabia se podiam pagar a muita gente para estar ali metida na televisão e no rádio deles. Mais tarde descobriu que os outros meninos também tinham televisão e rádio, e que até eram as mesmas pessoas e achou que de alguma maneira elas mudavam de casa para casa, o que já devia ser mais barato a dividir por todos, ou eram outras muito parecidas, o que não explicava o dinheiro mas resolvia o problema grave da simultaneidade (não com estes termos, claro).
Depois foram as línguas. Porque havia pessoas a falar de uma maneira que ele não percebia? É que não entendia nenhuma palavra. Ele achava que aquilo era só para irritar e obrigar as pessoas a ler as legendas. Mas ele não sabia ler e não percebia as palavras. Às vezes a mãe lia em voz alta para que ele pudesse seguir, outras vezes não. E isso deixava-o frustrado e fugia então para o seu recanto favorito, o vão das escadas que era suficientemente grande para ele entrar e suficientemente pequeno para que mais ninguém o conseguisse.
E essa era precisamente outra questão que o inquietava: o espaço. A relação dos corpos com a imensidão do vazio. Mas ainda mais, a própria imensidão lhe metia medo e por isso se refugiava em espaços exíguos. Não conseguia perceber a imensidão: para que tanto espaço se éramos tão poucos? A aldeia era grande de mais. Todos se concentravam numa única rua – depois eram os campos a perder de vista. Mais tarde viria a perceber que eram necessários para que pudessem viver. E o rio era também um mistério. De onde viria, já que ele não o via surgir de lado algum e sem fim, sempre longe do alcance da vista e das fronteiras a que se permitia ir? Mas no fundo nenhuma destas questões verdadeiramente o inquietava. Esquecia-se delas pouco depois, satisfeitas, ou não, pelos pais.
Um dia saiu de carro com os pais. Era necessário ir a um outro sítio que ele ainda não conhecia. Viu assim passarem a seu lado imensidades desconhecidas. Outros muitos carros, outras muitas casas, outras muitas pessoas. Os minutos no relógio de pulso que ainda não sabia ler completamente iam passando. Desfilavam no seu pensamento as dúvidas sobre o espaço e a imensidade. Mas ele não podia saber de longitudes e latitudes, da imensidade da Terra, seus cinco continentes, seus cinco mares e seus quatro cantos, e do infinito do universo em constante expansão. Era algo que não podia conceber, ainda. Mas ele lá teria as suas próprias explicações. Por fim, pararam. À sua frente abria-se um campo amarelo, e depois um campo azul em movimento.
- Mãe, o que é isto?
- Isto é a praia. É aqui que o rio tem fim. No mar.
- E o mar, onde tem fim?
Mas o mar não tinha fim. Pelo menos assim lhe disse a Mãe, enquanto esperavam pelo pai que fora estacionar o carro. A Mãe deu-lhe a mão e foram pisando a areia.
- O mar cheira bem.
- Cheira a novo – disse a Mãe.
Enquanto se enterravam a mãe disse-lhe um segredo, talvez o maior de todos: nada havia mais no mundo senão ele, tudo era construído por eles para o filho, para que ele pudesse ser feliz e haver mais coisas com que crescer. Línguas, outras pessoas, rádios e televisões, terras. Nada disso existia a sério senão eles os três. E daquela vez lembraram-se de criar o mar e por isso ele cheirava tão bem e a novo. Ele sorriu:
- Eu sei.

Explicação das árvores


Morrem sós pelos caminhos
caem na terra que as fez subir
ardem na noite sonâmbula
e gemem na dança das correntes.

Contra elas me abraço
para nelas não me enforcar.

segunda-feira, março 31, 2008

Sugestões de Março


Nem sempre muito actualizadas, é certo. Mas o tempo é aquela coisa escorregadia que me escapa entre os dedos, sobretudo quando o deixo fugir porque me empreguiço. E para quem tem mais facilidades de livrarias, cabo, aluguer de filmes e assim as susgestões podem parecer muito atrasadas... Aceitam-se também outras sugestões.


Livros:

1 – A Bíblia (Jeremias, Lamentações, Baruc), Paulus

argumentos: Em Jeremias vi sobretudo o profeta em que não se acredita e sofre nas mãos dos incrédulos, e se tem vontade que as suas palavras ditadas por Deus aconteçam o mais rápido possível (já que não há duvida de que acontecerão). Lamentações é um conjunto de cantos fúnebres sobre a destruição de Jerusalém e vale por alguns versos como: «Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede:/ haverá dor semelhante à minha dor?» Lm 1, 12-13. Baruc, em prosa e verso, dá-nos uma ideia do sentimento de exílio dos israelitas espalhados pelo mundo. Insistência na visão horrível das pessoas que chegam «ao ponto de comer a carne de seus próprios filhos e filhas» Br 2, 3.***


2 – Palomar, Italo Calvino, Planeta DeAgostini

argumentos: o nome Italo Calvino deveria chegar, mas está bem: é um livro pequeno feito de pensamentos, observações, experiências de um peculiar Palomar que nos vai dando conta do seu modo de ver e estar no mundo, através da descrição, narração e meditação. Reflexões muito interessantes sobre o silêncio que usarei na minha dissertação. E ainda: «estar morto, significa habituar-se à desilusão de se sentir igual a si próprio, num estado definitivo que já não pode esperar modificar.»p.127****


3 – Os Achados da Noite, José Jorge Letria, Prémio Cidade de Ourense

argumentos: poesia precisa-se mas eu não sei recomendar livros de poesia… Muito menos quando são individuais (e não antologias ou a compilação da obra completa…). Por isso ficam aqui só alguns versos de que gostei: «A minha idade é a de todos os medos»p.15; «Não ouso sair/ de onde estou e estou tão só que não suporto/ o eco grave de uma voz sobreposta à minha voz»p.93***


4 – Poemas Completos, Manuel da Fonseca, Portugália

argumentos: obra que documenta, poesia com personagens, o Alentejo, insatisfação, ansiedade, vida, raiva contra o mundo… expressões que só fazem sentido lendo a sua poesia. «vinham as naus no silêncio das coisas mortas./ Os homens tinham esquecido as palavras de navegar»p.19; «Ao menos se alguém morresse/ e esse alguém fosse um de nós/ e esse um de nós fosse eu…»p.103; « - em que dia nos vamos suicidar?»p.138.***


5 – O Estrangeiro, Albert Camus, Público/Mil Folhas

argumentos: finalmente chegou a vez de Camus. E comecei logo por um que adorei. Fiquei conquistado por Mersault e sua maneira de estar no mundo e se relacionar com os outros, indiferente, indolente, apático. E a sensação de revolta pela incompreensão deste ser demonstrada em tribunal, onde tudo é deturpado, ou não fizesse ele parte do ciclo temático do absurdo. Excelente texto para se estudar as relações Literatura-Direito. «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade»p.73.*****


6 – A Peste, Albert Camus, Diário de Notícias

argumentos: e continua a leitura de Camus. E mais um grande livro, desta vez do ciclo temático da rebelião. Uma cidade assomada pela epidemia da peste e as reacções das diversas personagens à situação de perigo, isolamento e distância dos entes queridos, em que a condição humana é posta à prova. Lido como uma alegoria em relação à ocupação alemã, pode ser lido muito para além disso. Mais: «sem memória e sem esperança, instalavam-se no presente. A peste, é preciso dizê-lo, tirara a todos o poder do amor, e até o da amizade. Porque o amor exige um pouco do futuro e, para nós, já não havia senão instantes.»p.132; «Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber porquê.»p.152; «há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.»p.222.*****


7 – A Queda, Albert Camus, Livros do Brasil

argumentos: deste não gostei tanto, mas ainda assim é muito bom. Pertence ao ciclo temático da medida (estes ciclos foi o próprio autor que assim os designou). Um discurso de um homem do Direito para um interlocutor também ele desse mundo. Muitas reflexões sobre a vida e sua condição. Mais: «nós não estamos senão mais ou menos em todas as coisas»p.11; «muita gente trepa agora à cruz somente para que a vejam de mais longe, mesmo se para isso for preciso espezinhar um pouco aquele que lá se encontra há tanto tempo»p.134.****


8 – Pensamentos, Marco Aurélio, Livros RTP

argumentos: uma colecção de pensamentos, alguns em estilo aforístico, a partir dos melhores exemplos gregos próximos de uma filosofia estoicista ou da sua experiência de homem dobrado ao íntimo, em torno da morte, da brevidade da vida, da fugacidade dos prazeres e da fama, da mudança. Mais: a morte «não é somente uma obra da natureza, é uma obra útil à natureza»p.22 e «Tens uma excelente maneira de te defenderes deles: evita ser-lhes semelhante.»p.64.***


9 – O Outro Que Era Eu, Ruben A., Assírio & Alvim

argumentos: pronto, outro livro e outro escritor que me fica para recuperar um dia. A extraordinária história de um homem que é dois – não mentalmente – mas sim fisicamente, desdobrado, em que um faz tudo o que o outro não consegue fazer: «indivíduo sai de si continuando a ser ele próprio, e se forma em outro que é ele próprio»p.71. E as reacções do país que não consegue perceber (país nacionalista que se pode ver no tempo da ditadura) o alcance da sua natureza. Mais: «ainda existiam escondidas, pessoas capazes de dizer que não. A tragédia é que se desconhecia onde habitavam.»p.47 e «Eu devia matar-me por acidente!»p.79.*****


TV:

Anatomia de Grey

argumentos: uma das minhas séries favoritas já há algum tempo. Por tudo, pelas histórias (se bem que o caso amoroso Meredith e McBrasa podia resolver-se sem tanto enredo…). Começou na RTP1, dava fim-de-semana sim, fim-de-semana não ou mais ou menos. E eu achava estúpida, porque não gostava de séries de hospitais (excepção para o Dr House, de que já gostei mais…). Depois passou para a noite, às tantas, dois episódios seguidos – e eu vi tudo… tipo tolinho. Repetiram na Dois: e eu voltei a ver quase tudo. E agora aproxima-se do fim e espera-se a nova série com novos desenvolvimentos. Sim, eu não tenho cabo ou coisas do género mas vou sabendo umas coisas pela net... Só espero que não desapareça como O Amor no Alasca.
Mas há outras recomendáveis: Dexter é estranha, um pouco chata por causa dos pensamentos infinitos que preenchem a cabeça do protagonista e dos ritmos latinos à Miami que se vão ouvindo, mas tem cenas interessantes. Irmãos e Irmãs é também de se lhe tirar o chapéu, mas já vai muito adiantada e não se perceberão alguns dos antecedentes que influenciam a história de agora se não se viu do início… Mas vale a pena, e com grande elenco. A Dois: continua a ser a melhor alternativa da tv portuguesa. E as Noites da Dois: brindaram-nos esta semana com duas mini-séries extraordinárias: A Linha da Beleza (do romance homónimo de Alan Hollinghurst, de Saul Dibb, com Dan Stevens, Alex Wyndham , Oliver Coleman, Hayley Atwell, Don Gilet), e Elizabeth I ( de Tom Hooper, com Helen Mirren e Jeremy Irons). Recomendo – estejam atentos que elas voltam qualquer dia (acho que até já deram antes, eu é que na altura tinha vida…).


Música:

Ana Moura – Para Além da Saudade

argumentos: conhecia esta grande fadista de uns fados escolhidos para estarem na colecção de fado do Público: Porque Teimas Nesta Dor e Nasci Para Ser Ignorante. E já tinha ouvido também O que foi que aconteceu, algures no pc (agora resgatada). Depois ouvi-a numa novela da TVI com O Fado da Procura – e ficou na cabeça e adoro-o. Daí a ter o último cd ainda demorou, mas já o tenho e ouço-o muito, agora. Os Búzios, Águas do Sul, O Fado da Procura, Rosa Cor de Rosa, Mapa do Coração, Aguarda-te ao chegar, Até ao fim do fim, Fado das Horas Incertas, Vaga no Azul Amplo Solta (há mais vídeos no youtube de outras músicas) são os meus fados favoritos de um conjunto de quinze grandes canções… Voz quente, grave mas bonita. E com muito bom gosto.

Palavra ainda sobre o Festival da Canção. Parece-me que a escolhida tem algum potencial, a Vânia é potente. A minha canção favorita não ganhou; Magicantasticamente!, dos BláBláBlá, aqui.


Cinema:

O Labirinto do Fauno

argumentos: de Guilherme del Toro com Adriana Gil, Ivana Baquero e Sergi López. Um filme de 2006 que ganhou três Óscares: direcção artística, fotografia e caracterização – quem o viu ou ver percebe porquê. História de uma menina com uma mãe grávida e doente e de uma figura paternal comandante de uma das facções da guerra civil espanhola que encontra um mundo alternativo e do qual é a princesa. Para poder voltar à sua origem tem de cumprir três perigosas tarefas (e numa delas encolhemo-nos todos porque sabemos que a criatura sem olhos e quase mumificada que preside ao festim vai acordar e persegui-la… E pronto, mais não conto, porque vale a pena a ver. E tem um labirinto também.****


Os Irmãos Grimm

argumentos: de Terry Gilliam, com Matt Damon, Heath Ledger, Mónica Belluci, Jonathan Prye e Lena Headey. Uma história alternativa da vida dos dois irmãos alemães que vivem a vida a encenar fenómenos paranormais até ao momento em que descobrem um verdadeiro e tem de lidar com o cepticismo de um e a crença do outro (baseado no seu livro de histórias – que vão surgindo em determinados elementos e objectos). É giro para ver com amigos, sobretudo se perceberem alguma coisa das histórias…***

quinta-feira, março 20, 2008

EILC2


Tanto tempo depois, o relato prometido. O EILC2 foi em Janeiro e Fevereiro deste ano. Comecei o ano a trabalhar, numa coisa relativamente fácil e de que gosto (já em Agosto gostei). Não foi tão trabalhoso e intenso este, mas foi-o nas relações e contactos. Novos amigos, menos desta vez (só eram 30 erasmus), mas mais dos velhos amigos - e estive com muitos, desta vez. Desde a Marta e a Patrícia (um único fim de tarde no Lais), à presente constante da Su (seus stresses habituais, agora por causa da área de projecto - tema do trabalho de mestrado, e de outras coisas decorrentes das aulas que vai dando) nas últimas quatro das cinco semanas em que estive na casa da Ana, minha amiguinha que me acolheu tão bem na sua belíssima casa (e não esqueçámos a sua simpática e bonita irmã), passando pela tarde com as Anas: Luísa e Verde, pelos jantares em que surgiram a Su ;), a Lena, a Mitó e a mãe da Su, a D.ª Manuela, e o último fim-de-semana na casa da Consti e seus muitos gatos, e o primeiro a ajudar a Joana Patrícia em Literatura Medieval, a Marisa e o Herberto no metro, a Bruna numa fase complicada... e todos os outros com que me fui cruzando. E voltei a estar com pessoal da Reitoria - gosto muito da Eugénia, claro. E estive novamente com as minhas queridas formadoras do curso (bem, a Débora só apareceu no primeiro dia, desapareceu para Israel), fiquei só, com a Ana Isabel e a Ana Paula. E conheci nova guia, a Susana Barros.


Adormeci no metro muitas vezes (abusava nas horas de deitar, às vezes...). Mas consegui ler muito. Muitas conversas, planos, coisas que ninguém percebe além de nós - talvez a Mitó, que nos ia seguindo à distância do msn - Sala de chuto, SuBubu Fetuttini (que dorme com o peixe víbora), AnaPanda, TiMika (tudo junto para passar despercebido)... Armei-me em Paula Moura Pinheiro a apresentar o debate sobre adopção para as meninas da Fracinetti - os risos, os enganos, as câmaras que paravam - e ganhei chocolates! Elas a trabalhar, eu a fingir que fazia o meu artigo para o colóquio de Fevereiro, mas na verdade todos fizemos o que tínhamos a fazer e bem, enquanto íamos conversando, imagine-se, pelo msn quando estávamos todos na mesma sala, às vezes os três na mesma mesa... e depois ríamo-nos como uns tolinhos...



Umas idas aos saldos, claro. E FNAC, alfarrabistas e Feira do Livro do Mercado Ferreira Borges (foto acima), gastar o que ainda não tinha recebido. Muitos passeios pelo Porto - com o pessoal ou sozinho. Visitámos o centro histórico, a Sé, os Clérigos, a Freguesia da Vitória, Palácio da Bolsa, Caves, Riberia, Igreja de São Francisco e suas catacumbas, Igreja de São João Novo, Igreja dos Grilos... E os passeios por Braga (centro histórico, Sé Catedral, Museu de Arte Sacra e Bom Jesus) e Guimarães (centro histórico, Paço dos Duques, Castelo, Igreja de São Miguel - e as figurinhas tristes do pessoal a descer a torre de menagem)... E uma festa final com a Tuna Feminina da FLUP, entrega dos diplomas e lancharada...

Guimarães: Vista da Torre de Menagem do Castelo: Igreja de São Miguel e Paço dos Duques


Braga: os erasmus, no único dia de visita chuvoso, no Bom Jesus

Os erasmus: gostei mais dos de Agosto, no geral. Mais dados, mais aplicados. Mas também eram mais, o clima era outro e a faculdade era só para nós... Mas ficam a Dalida, o Christian, a Suzana, a Marta, a Maria, a Virág, o Viktor, o Balázs, a Sara, a Katarzyna... Depois a paixão. Devagar, devagarinho. Até me aperceber que sim, que era. E seus desenvolvimentos inesperados...
E pronto, muito pónei o texto, eu sei. Às vezes irrita-me escrever... E hoje estou irritado para escrever... Ficam algumas fotos muito relesmente tiradas com o tlm a ilustrar...



P.S. - começou hoje a Primavera, pelo menos no calendário... E as fotos que não têm legenda são do Porto, claro...

terça-feira, março 18, 2008

Anthony Minghella 1954-2008

Anthony Minghella realizou dois dos meus filmes favoritos: O Paciente Inglês (1996) e Cold Mountain (2003).


Minghella venceu em 1997 um Óscar de melhor realizador pelo filme O Paciente Inglês (vencedor de 9 óscares, do romance homónimo de Michael Ondaatje) e esteve nomeado dois anos depois pelo filme O Talentoso Mr. Ripley (1999, nomeado para cinco óscares, do romance de Patricia Highsmith). Realizou ainda Assalto e Intromissão (2006), Um Fantasma do Coração (1990), o seu primeiro filme. Terminou recentemente a produção da adaptação do romance The No. 1 Ladies' Detective Agency, de Alexander McCall Smith. Minghella produziu ainda vários filmes, entre os quais Michael Clayton - uma questão de consciência e O americano tranquilo. Em 2006 produziu a ópera Madame Butterfly, de Puccini, para a Ópera Metropolitana de Nova Iorque, que lhe valeu um prémio Olivier.


Realizador de filmes longos, criador de guiões, muitas vezes a partir de romances, gostava de passar muito tempo num mesmo projecto, daí ter feito poucos filmes. Mas os que fez são obras de arte. Filmes longos que se vêem desejando mais, filmes belos no sentido mais comum.


Escrevo essencialmente sobre Cold Mountain que descobri ao lado da pessoa que amava na altura num dia 14 de Fevereiro. Lembro-me de como uma vez mais Nicole Kidman me seduziu com a sua notável interpretação de mais uma grande mulher, Ada Monroe, de como Renée brilhou no papel de Ruby e a estonteante cena em que arranca a cabeça da galinha e Jude Law se porta muito bem em todas as cenas. E toda a beleza da paisagem, a música a ficar por dentro e o pedido cumprido: «Volta para mim»... Brilhante o modo como o romance foi adaptado (que li logo de seguida), brilhante como foi realizado e montado. É daqueles que me fica para a vida.


Cold Mountain deu o óscar de melhor actriz secundária a Renée Zellweger (o Globo de Ouro e o BAFTA) e a nomeação a Jude Law. Mas tem uma Nicole Kidman impecável, de uma extraordinária força e beleza. Uma banda sonora muito boa de Gabriel Yared (também ela nomeada mais três canções nomeadas para o óscar de canção original) e um argumento adaptado a partir do romance homónimo de Charles Frazier (O Regresso do Soldado, Asa). Muitos especialistas consideram-no um filme perfeito. Apresentação aqui.

sábado, março 15, 2008

novo jogo

Mandaram-me isto por mail (a Sandra, claro). Adorei o jogo... ainda demorei um bocadito,mas menos que os 15 minutos da média. Mas valeu a pena. Partilho.

clicar aqui.

Fado da Procura

Não é bem a mesma coisa, mas a ideia é a mesma. Tenho andado desencontrado de tudo e de todos. Quebrar as rotinas é muito bom, sempre gostei, mas agora às vezes deixa-me extenuado o incerto. Mas também me deixam extenuado os imprevistos que me forçam a voltar à rotina de que vou gostando às vezes. Pronto, nó no cérebro. Não sei se escrevi as coisas como queria. Mas não me apetece procurar outra forma de o fazer.


Primeiro foi a Denise - esperava encontrar-me em Lisboa quando eu ainda estava em Poiares, e eu pensava encontrá-la no Porto aquando da Melopeia de Afectos, mas nessa altura eu teria de estar em Lisboa. Quando ia de Lisboa para o Porto acontecia a Marcha da Indignação dos Professores, e a Denise já não estava na Invicta.


No Porto desencontrei-me da minha função principal: ajudar a Consti a estudar História da Língua II. Outras actividades mais urgentes dela impediram. E fui fazendo companhia nessas actividades comerciais. Ganho sempre quando estou com ela: não me refiro ao Chá Coração da Terra que me ofereceu, ou às bolachas fantásticas, mas sim às trocas intelectuais. E à presença dos gatos, claro (tirei muitas fotos com o telemóvel... nesta dá para ver alguns dos 28 gatos, e também o telefone lá de casa, o gato amarelo - o meu favorito).



Agora a Milai. Era suposto voltar ao Porto, mas a data do exame da Consti mudou, e surgiram outras complicações. Ia ver uma peça a partir do Mia e do Agualusa em Vila do Conde e passar a noite na casa da minha madrinha com alguns amigos dela. Mas é Páscoa, o meu pai faz parte da comissão de festas e enfim... a família faz também, claro. Poderemos estar juntos noutra altura, mas já não será bem igual.

Por fim, desencontrado até no trabalho científico. Não ando com a dissertação para a frente e baralhei datas de envio de resumos para congressos. Descobri ontem que o prazo para o Congresso Internacional sobre Narrativa e Diáspora Portuguesa (1928-2008) acabava hoje... Lá inventei uma coisa à pressa, ontem à noite e hoje de manhã... chamar-se-á: «Um longo caminho nas cores da alma: representação dos portugueses na obra de Mia Couto»... (já revi as outras datas)...

Ainda mais por fim, lá se foi a vontade de ir a Santiago de Compostela. Nem podia ser de outra maneira... (Imagem: Santiago de Compostela, imagem do claustro da Sé de Braga)

E porque gosto muito e tem tudo a ver, ou quase (como disse no início): Fado da Procura, de Ana Moura. Gosto da letra, da música, da voz... e não só... e tem-me acompanhado todos os dias, muitas vezes...

quinta-feira, março 13, 2008

Avalição de Professores: opinião sincera (e às vezes irónica) de um quase professor que pensa ser melhor fugir

Tenho andado um pouco à margem de toda a contestação (justíssima) dos professores. E de outras coisas também, como do acordo ortográfico. Mas este era necessário e já era tempo de vir e ser aplicado a sério. Provavelmente discordarei de uma outra coisa, outras muitas nos parecerão estranhas («Não há, no fundo, nenhuma ideia a que não nos habituemos» diz Camus em O Estrangeiro) mas o trabalho de unificação possível e de adequação da ortografia à pronúncia era necessário. E estou tão de acordo que a minha dissertação de mestrado, se me deixarem, será já feita com a nova ortografia. E a Texto Editores tem já material pronto para comercializar a partir de amanhã.

Quanto ao primeiro assunto, apesar da minha pouca atenção ao mundo exterior nos últimos tempos, só se estivesse morto não teria ouvido falar. Eu estava em Lisboa quando foi a manifestação, mas vim-me embora quando começou - tinha de ir para o Porto. Muitos debates na televisão, na rádio (que não vi na íntegra porque me irritam algumas atitudes que só poderei apelidar de "teimosas"). Todos os dias nas notícias se fala do assunto. E faz capas de jornais. Um problema sério, a sério. E há na blogosfera (obrigatório passar por Felizes Juntos, que possui textos interessantíssimos sobre o assunto, bem como links e uma caixa do google com selecção de alguns importantes posts pelo país fora, mas também o Rabiscos e Garatujas, com exemplos do dia-a-dia de uma professora que sabe reflectir sobre a sua profissão ou situação) um debate muito interessante, com testemunhos de professores, de alunos e pais, de toda a gente que de uma forma ou outra estão implicados no processo. Eu estudei para ser professor mas não quero (só do Ensino Superior), já disse algumas vezes. Não é só por causa disto, mas por tudo. Mas compreendo quem trabalha no sector e gosta(va) de o fazer. (va) porque agora o professor não ensina, o professor preenche papéis, é avaliado por colegas tão ou menos competentes que ele (quando por milagre são da mesma área já não é mau), e tem de passar os alunos porque sim, porque se não cai-lhe toda uma imensa burocracia por cima e uma avaliação mais fraca (Devia ter ido correr atrás dos seus alunos se eles não queriam ir à sua aula; Mas está parvo ou quê, caro colega? O aluno já sabe o Presente, os Pretéritos e o Fututo, não precisa de mais para passar para o 10.º ano!), o professor que vai avaliar dispõe de todo o tempo do mundo para preencher devidamente as burocracias - já trabalha há tanto tempo que não precisa de preparar aulas, diz a ministra (sinistra) da educação (avaliação) - é claro, estes professores ou não querem saber das aulas para nada ou então vão andar a matar-se ainda mais, se quiserem ser competentes e rigorosos em todas as actividades que têm de desenvolver. E não haverá vinganças, ajustes de contas, nada disso. E umas três aulas são suficientes para a avaliar um processo inteiro, claro - correu mal hoje, que pena! Professor, seu mandrião, trabalha umas horitas por dia e ainda se queixa! Olhe que eu sou funcionário público, trabalho das nove às seis e não me queixo (ou queixo, mas pouco, afinal ainda posso estar todo o dia sentado em frente a um computador ou a atender gente que só aturo durante cinco minutos), agora você só tem de estar umas horas na escola: esteve seis horas de pé, quase sempre a falar ou a ouvir atentamente o que os seus alunos dizem, ainda esteve a corrigir trabalhos, planificar aulas para o dia seguinte, foi chamado para uma aula de substituição, teve uma reunião, tentou organizar exercícios de recuperação na escola mas não conseguiu porque não tinha onde trabalhar porque na sala dos professores estava muita gente a conversar e na biblioteca não tinha espaço? Temos pena, a sério. É que em muitas das outras profissões o trabalho fica no trabalho, nesta vem para casa. Corrigir trabalhos e testes, desenvolver esquemas mentais enquanto se cozinha, antes de dormir preparar tudo, a ver se está lá: objectivos, material/recursos, actividades, encadeamento lógico dos assuntos da aula... E tentar arranjar forma de lidar com o filho da &#%* que arranja sempre maneira de desiquilibrar a aula. Avaliação sim, acho bem, muito bem (tal como os exames que inventaram agora, mas isso são outros assuntos). Porque há muitos energúmenos por aí (alguns infelizmente já passaram a titulares). Mas no meio do ano parece-me muito inoportuno, e em moldes de empresa de produção parece-me ridículo: não estamos a fazer camisas cujo produto final pode ser avaliado em termos de quantidade e de qualidade: fizemos quinhentas, só duas têm defeito, sabendo que o sucesso só depende da matéria usada e do nosso trabalho. Não, aqui estão envolvidos professores, pais, organização escolar e, mais importante, alunos - que não são matérias absorventes nem matérias totalmente domináveis. Deveriam, mas não são.

Deixo só, em tons de brincadeira e para aligeirar, a sugestão de leitura de uma das novas obras incluídas no Plano Nacional de Leitura (recebi por email com esta inclusão, mas é do blog we have kaos in the garden, referente ao dia do livro... e acho que vale a pena ).

«Apresentamos aqui, em primeira edição, a obra-prima de Maria de Lurdes Rodrigues, Mona Vazia, ou Como lixei a escola pública. Aplaudido pela critica mais liberal, esta obra mostra como em apenas dois anos se pode abrir o caminho à futura gestão privada das escolas e como se transformam os educa-dores dos nossos filhos, os professores, em inimigos públicos da sociedade e culpados do estado em que se encontra a educação em Portugal».

Tenho de acrescentar isto. É que me dá vontade de bater a quem escreveu isto e a quem pensa assim. Pela leitura do post e do blog percebe-se que o autor não deve ter tido grandes professores. Pelo menos de Português: acentos, regências verbais, pontuação, mas este excerto ultrapassa-me: «não cumplem a Ministra.Cumpem-se a VOCES !!!» - sem comentários, ou antes, talvez comente noutro post este magnífico post em termos de correcção linguística.

Eu sei que isto está grande (bolas, às vezes quando começo é difícil parar) mas deixo um excerto de A Peste, de Camus:

«Está certo. Mas não se felicita um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Felicitar-se-á talvez por ter escolhido essa bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois faziam quatro, e não o contrário, mas digamos também que esta boa vontade lhes era comum com a do professor, com a de todos aqueles que têm a mesma coragem que o professor e que, para honra do homem, são mais numerosos do que se julga, ou tal é, pelo menos, a convicção do narrador. Aliás, esta compreende muito bem a objecção que podem fazer-lhe, ou seja, que estes homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele homem que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe-o bem. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera este raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não são quatro. Quanto àqueles dos nossos concidadãos que então arriscavam a vida, tinham de decidir se estavam ou não na peste e se era ou não necessário lutar contra ela.» (ed. Diário de Notícias, colecção Prémio Nobel, p.96-7).

Espero que se lute contra a peste como o no livro se luta, como se pode, com a dignidade que nos define.

quarta-feira, março 12, 2008

Dois poemas de Manuel da Fonseca

Sete Canções da Vida

Quarta
Depois que nossos pés andaram toda a terra,
cruzaram caminhos, devassaram florestas, escalaram montanhas
e volveram sangrentos riscando as estradas do mundo;
depois que o mar é um murmúrio azul de águas fáceis
e se foi o mistério que havia nas distâncias,
evaporado como espuma na quilha dos navios;
depois que nossas mãos mergulharam na noite milenária,
tocaram luas mortas, revolveram estrelas
e enfim! acenaram escorrendo luz de sóis:
- por que não vamos colher os frutos que nós semeámos?
porque não vamos, irmãos, porque não vamos?!

**************

Adormecer

Vai vida na madrugada fria.

O teu amante fica,
na posse deste momento que foi teu,
amorfo e sem limites como um anjo;
a cabeça cheia de estrelas...
Fica abraçado a esta poeira que o teu pé levantou.
Fica inútil e hirto como um deus,
desfalecendo na raiva de não poder seguir-te!


Poemas Completos, Portugália Editora, p.11, 147

terça-feira, março 04, 2008

dois poemas de José Jorge Letria (com pôr-do-sol em Poiares, Set. 2007)

Outras tantas vezes morrerei no que não disse.
Esta palavra morte teima em não me sair
da boca. É antiga e grave como
um pressentimento ou uma cicatriz.
Olho-me nos retratos da distância
e tenho um nome feito de algas.
Toda a minha vida é um círculo inquieto:
os filhos no meio a brincarem com a areia,
a erguerem cidades no vento, e eu de pé,
atordoado pelo medo, a interrogar-me
sobre o amanhã das falas que me tiram
de enganos e temores. Desenho uma planície
branca ou uma casa indefesa e tudo
o que sei é um motim de sombras
à ilharga dos olhos na véspera de outras águas.





Havia as fogueiras e a dança das raparigas
e o verão era um círculo luminoso
no centro do qual o canto todo se movia
como um pássaro ou um fruto
e que ninguém se atrevesse a dizer-me
que não podia ser aquilo a felicidade
com os seus outros nomes e rostos,
com as suas corolas incendiadas
e os seus aromas quentes fugidios.
A infância enchia as casas
com a tinta fresca dos risos e dos jogos
e era como se pintasse as paredes
como o azul limpo da festa irrepetível.
E eu acocorado num canto a contar as horas
que faltavam para setembro ser outono
e para a noite, a dos perturbantes achados,
manchar o soalho com a tinta morna dos temores.


Os Achados da Noite, Prémio Cidade de Ourense 1990, p.85, 89.

segunda-feira, março 03, 2008

Maria Gabriela Llansol 1931-2008

aqui manifestei a minha relação amor-ódio com a escrita da Maria Gabriela Llansol. Por um lado a sombra da M.Ry. a dizer bem da escritora, mas felizmente não nos obrigou a lê-la.... por outro a minha leitura agónica de um beijo dado mais tarde só porque sim, queria experimentar, depois a tese de doutoramento do Pedro Eiras em que ela também foi estudada... a ainda, mais recentemente, no mês passado, a leitura de Onde Vais, Drama-Poesia?... e uma tentativa de escrever um conto à maneira dela...


Escrita densa, difícil, muito para além dos seus ________________ e espaços em branco e quebras como se fosse poesia (e não será?), mas ainda pelas lógicas próprias que não as das narrativas e esperadas, que quebra as fronteiras entre prosa e poesia, ficção, diário, romance e novela e até texto dramático. O leitor tem assim de trabalhar, e muito, para não se perder no fulgor, nas personagens, nas vozes que surgem de todos os lados. Originalidade e luta, para quem gosta.

Para saber mais, o blog dedicado a ela.


Obra:


Os Pregos na Erva (1962), Depois de os Pregos na Erva (1973), O Livro das Comunidades (1977), A Restante Vida (1983), Causa Amante (1984), Na Casa de Julho e Agosto (1984), Um Falcão no Punho (1985), Contos do Mal Errante (1985), Finita (1987), Da Sebe ao Ser (1988), Um Beijo Dado Mais Tarde (1990), Amar Um Cão (1990), Hölder, de Hölderlin (1993), Lisboaleipzig I. O Encontro Inesperado do Diverso (1994), Lisboaleipzig II. O Ensaio de Música (1994), Inquérito às Quatro Confidências (1997), Ardente Texto Joshua (1998), Onde Vais, Drama-Poesia? (2000), Amigo e amiga: curso de silêncio de 2004, (2006).



Como sempre, a palavra ao autor:

«produzi, de ouvido, este texto, para não perecer a chorar; não consigo dominar a sensibilidade nostálgica das separações, e esta é uma das separações da linguagem, e da música;

e assim partimos do sítio onde devíamos ficar para o sítio de onde devíamos regressar;

as ondulações que ouço lá fora são a reconstituição do vento que sopra sobre a terra;»

um beijo dado mais tarde, Edições Rolim, p.80


«embalava-me essa mestra da escrita
dizendo-me como era simples ____________ pega nos fios
que vês no mar,
pega em todas as vozes de animais que ouvires,
segue o fulgor que traça círculos velozes na praia

e escreve

[...]

E vou vendo o que o texto quer dizer, alterando a ordem cronológica das folhas, por vezes, escritas com muitos anos de diferença, relacionando e desrelacionando extractos e fragmentos, tentando perceber os seus diversos tons de voz porque o texto não tem um maneira única de se dizer,

está todo escrito, mas precisa ser montado.»

Onde Vais, Drama-Poesia?, Relógio D'Água, p.214, 266

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Sugestões de Fevereiro

As coisas que povoaram o meu mês de Fevereiro. Aqui a revisão e as sugestões:
********
Livros:

1 – Bíblia (Eclesiástico, Isaías), Paulus

argumentos: sem grandes argumentos… Eclesiástico é um conjunto de recomendações ou procedimentos moralizantes que no fundo repetem o que já está para trás… e a desorganização é um pouco irritante. «O orvalho abranda o calor, e a palavra é melhor que o presente» Eclo 18, 16. Isaías, o primeiro dos livros proféticos é mais interessante.***

2 – O Sonhador, Ian McEwan, Booket

argumentos: uma história de um menino sonhador que se tornará num escritor: as aventuras com as bonecas da irmã, a troca de corpo com o gato (uma das minhas passagens favoritas, claro), a forma de derrotar rufiões na escola e visões sobre o que é ser bebé ou ser adulto. Agradável para ser lido a/por crianças, jovens e adultos. «o próprio facto de nos habituarmos a viver com mistérios é em si um mistério»p.62****


3 – Onde vais Drama-Poesia?, Maria Gabriela Llansol, Relógio d’Água

argumentos: embora tenha uma relação de conflito com esta escrita que nem sempre é fácil e dentro das lógicas a que estamos habituados («ler é ser chamado a um combate, a um drama»p.18), gostei deste livro. Pelas reflexões metatextuais, pelas relações intertextuais hetero e auto-autorais. Mais: «escrever e dizer não são sinónimos _________ como qualquer pessoa, tenho opiniões sobre o processo do mundo; essas opiniões são ditos; o texto vê e não opina; nem aconselha»p.185, ou «Damos nomes ao que somos juntos, reconhecendo que o Amor é o seu único nome, mas tememos dizê-lo para não apressar a morte.»p.287****


4 – Poeta Militante II, José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores

argumentos: mais do mesmo, que é mais de outra beleza. Como ficar indiferente a «(Um dos grandes acontecimentos do século XX. Encontrei uma pedra no campo e beijei-a.)»p.22 – porque não será este um dos grandes momentos do século em que se moveu? Mas surgem outros, e fortes, até porque «o tempo soltou-se dos relógios»p.479 ou «Saudades de não poder inventar o futuro»p.301. Para se chegar às perguntas de sempre: «Vais perguntar outra vez porque existes?/ Para quê? Para ficares com os olhos do tamanho de ilhas tristes?»p.68 ou «Mas vivos que são?/ Mortos incompletos»p.306. *****


5 – Poeta Militante III, José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores

argumentos: ainda mais do mesmo, que percorre ainda outros caminhos. Forte insistência no tema/figura da morte: «o problema estava em não saber/morrer»p.82 ou «tornam a morte ridícula de tanto a esperarem ao espelho»p69. Reflexões sobre o seu século XX, sobre a vida, sobre o ofício do poeta: «ofício de tecer respirações de homem»p.176 e «digam-me lá:/ para que serviria ser poeta/ se não chorasse/ publicamente/ diante do mundo?»p.544. Muito bonitos os poemas sobre a Noruega e um em que interpela Sophia (p.422-4).*****


6 – O Livro das Igrejas Abandonadas, Tonino Guerra, Assírio & Alvim

argumentos: pequenos contos/poemas, como os de aqui já falei, mas todos em torno de uma determinada região e suas igrejas e gentes, coisas veladas, silêncios, cruzamentos de tempos, certo ar de magia e poder oculto da existência… Mais: «Mais solitário que Deus não há ninguém»p.28 e a história de «A Ovelha» - uma delícia.****


7 – Uma das últimas tardes de Carnaval, Carlo Goldoni, Colibri

argumentos: comédia da boa (também se recomenda A Estalajadeira), quase sem enredo e cujo carisma reside na linguagem pura e nos diálogos. Personagens a quem o amor parece querer sorrir, mas com alguns dos cuidados e medos típicos. Mas o texto, que teve a sua estreia a 23 de Fevereiro de 1762, ou seja, imediatamente antes de Goldoni partir para França, parece ser uma despedida do próprio dramaturgo ao seu público, pois Anzoleto faz o mesmo antes de partir para a Rússia, apresentado os seus cumprimentos e agradecimentos aos convidados da festa: «onde quer que tenha estado sempre trouxe o nome de Veneza gravado no coração»p.123.****


8 – A Baía dos Tigres, Pedro Rosa Mendes, D. Quixote (BBL)

argumentos: «Este é um livro sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte»p.13. Mas também um livro sobre a vida ou a esperança dela/nela, apesar de tudo, através das suas múltiplas facetas, em muitas histórias que relembram o prazer de ouvir contadores num cruzamento do real com a ficção em que dificilmente se percebe onde acaba um e começa outro. Relato a partir de uma viagem real por um continente minado («Minas à frente, atrás, à esquerda, à direita. Minas dentro de nós»p.81), de Angola a Moçambique (mais centrado em Angola), com uma estrutura não-cronológica, assistemática, que prende pelo humanismo que respira em cada página. «O viajante é apenas o seu relato, identifica-se com ele porque dele extrai a sua identidade; não existe fora do mapa; viajante e mapa são uma e a mesma identidade»p.221-2. *****



TV:

Câmara Clara (2:)

Argumentos: cultura da boa. Paula Moura Pinheiro conduz inteligentemente áreas tão diferentes como literatura, cinema, política, música, pintura, ou tema como cidade, felicidade, pós-colonialidade… Com sugestões de leitura, de espectáculos, de filmes, de cds, sempre com temas actuais e convidados topo de gama.*****


Música:

Susana Félix - Pulsação

argumentos: Fiquei apaixonado por «Flutuo» há uns tempos. Depois uma ou outra música agradável em novelas que o zapping apanhava na tvi. Depois a sua nova sonoridade no Gato Fedorento. Depois, finalmente, Pulsação na minha mão, nos meus ouvidos. Muito bom, do início ao fim. É uma espécie de best of, com novas roupagens para os temas antigos. Destaque para: «(bem) na minha mão», «Flutuo», «Fintar a pulsação», «Sou eu», «Luz de presença»… E ainda para uma aqui não incluída: «O mesmo olhar». Voz simpática e bonita, sem exageros, melodias simples e eficazes – directas à melancolia.*****

Cinema:

Sweeny Todd

argumentos: Tim Burton, Johnny Depp (muito bom aqui) já são razões suficientes. Juntem-se-lhes Alan Rickman e Helena Bonham Carter. Músicas de Stephen Sondheim? Mais. Depois porque um musical negro não é coisa que haja muito por aí. Está muito bom, embora chegasse a um certo momento em que pensei: «isto nunca mais acaba?». Grande trabalho de fotografia, de direcção artística e guarda-roupa, além da realização e interpretações.****

Gangster Americano

argumentos: Ridley Scott novamente a realizar com Russell Crowe e agora também Denzel Washington. E adoro Russell Crowe. Não é o meu tipo de filme, com crimes, polícias e drogas, de longe, mas gostei, no geral. Um pouco longo…***

Nota: este ano não fui ao Correntes d’Escrita, mas destaco o vencedor: Ruy Duarte de Carvalho com Desmedida, embora eu preferisse que vencesse O Outro Pé da Sereia de Mia Couto.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

da vida dos outros

Têm acontecido coisas. Muitas, tantas.

O meu professor de Latim I e II, e Cultura Clássica I esfaqueou um jovem. Há muitas narrativas sobre o assunto por aí a circular. Estou como a Marta: «Coincide tudo: a idade, Montalegre, casado, com filho pequeno, prof da uiv do Porto, a bíblia. só não estou a vê-lo a sacar da naifa e fazer um golpe à bruce lee».
Tudo se resolverá pelo melhor, tenho a certeza.

Muitas ideias para os contos de Vazio Repetido - do colóquio e não só. Mas não escrevo... talvez por preguiça.

Festas de aniv. em família, jantar em casa da Tia Cristina, ida ali e além para estar com amigos que não se vêem há muito tempo...

Algumas leituras pelos meios, quebradas e sem o fôlego que gosto de lhes dar.

A Consti fez Teoria da Literatura e já só lhe falta História da Língua II. E Ofereci-lhe 7 livros aqui há tempos, como prendas atrasadas de anos... E como vou ser milionário, agora quer a Byblos inteira, para não ter falta de espaço.

E agora à Su: Mesmo distante no espaço que nos separa e nas indisposições da vida que nos ocupa desejo-te um feliz aniversário. Festa como só tu sabes ter ano melhor que todos os outros. PARABÉNS.

E o Expiação só ganhou um Oscar - mas bem, o de melhor banda sonora.

José Gomes Ferreira - selecção pessoal e condicionada pela leitura actual...

Após a leitura dos três volumes da poesia de José Gomes Ferreira, em Poeta Militante, edição Círculo de Leitores, lá fiz a minha habitual selecção dos poemas favoritos, além dos versos que vou sublinhando. E faz já parte dos meus favoritos – na verdade, já fazia dos poucos que ia conhecendo daqui e dali. Aqui fica a selecção (era suposto ser um por volume, mas a rebeldia deu-me para isto).



I

(Enquanto os aliados a caminho de Berlim morrem, eu entretenho-me a ver a chover na Rua da Palma, espalmado num portal a cheirar a urina podre.)

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?


Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

Vol. I, p.311



Não fui eu que pintei o sol no céu,
nem as nuvens no Ar
com água de prata.


Quando nasci já tudo estava no mundo
com relvas e azuis,poentes e sombras,
pobres e cicatrizes...


Porque então estes remorsos
de andar a sofrer não sei por quem
a culpa de haver rosas e haver vida?


Palavra! não fui eu
quem atirou a lua para o céu!

Vol. I, p.340



XLIII

(Na morte de Manuela Porto)

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio."
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio."Adeus! Adeus!" E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios…depois os cabelos…) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo… tão leve…tão subtil…tão pólen…como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis…

Vol. II, p.195



XXXIX

(Regresso ao mundo das palavras.)
Dou um pontapé nestas árvores de carne e folhas.

Mas esperem!

A palavra árvore não é uma árvore,
momento de sombra,
nem a palavra sol queima a pele das mãos.
E até hoje nunca vi voar a palavra rouxinol.

Ah! Se eu pudesse colar no papel o canto dos pássaros,
o esfarrapar concreto do canto verdadeiro dos pássaros,
e esta mão de sol que cria a invenção das flores.

Mas não.

Sempre as mesmas palavras,
com alçapões de bruma.

Sempre esta resignação à Poesia
com pontes mágicas para coisa nenhuma.

Vol. II, p.237



XIX

Em certa noite de sol pando
descobri que os deuses da Grécia
vinham de quando em quando
visitar os seus parentes escandinavos
num rasto de danças,
flautas,
escravos,
sistros,
liras de acordes.

Vi-lhes tantas vezes as pegadas
no ritmo da neve fluida
dos fiordes!

Vol. III, p.324

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Sortes

Há momentos assim, de sorte, muita sorte. Segunda lá fui eu para Lisboa. Enquanto o mundo parecia destruir-se para aqueles lados, eu ia dormitando e às vezes lendo Baía dos Tigres (de Pedro Rosa Mendes), completamente ignorante. E quando cheguei não dei por nada. Está bem que chovia um pouco, mas nem trânsito, nem inundações, nem nada de nada. Melhor.

À chegada à Gare do Oriente, Feira do Livro da Caminho. Na verdade, quase nada da Caminho, mas enfim. Muito parecida com o conteúdo da feira do Mercado Ferreira Borges, no Porto. Mas ainda assim comprei três números da revista Ficções (9, 10, 11) por três euros cada, e quatro livros de Enrique Vila-Matas: Longe de Veracruz, História Abreviada da Literatura Portátil, Filhos Sem Filhos, Bartleby & Companhia – mas o melhor é que o conjunto tinha marcado o preço de 12.5€, mas quando ia pagar fui informado que na verdade os quatro, juntos, custavam 3€!!! Fiquei contente por comprar o último conjunto que lá havia (Patrícia, não sei é quando vou ler, mas Bartleby & Companhia parece-me que tem muito a ver com uma fase que passei recentemente, e Filhos Sem Filhos parece-me muito próximo de alguma da minha ideologia quanto a descendentes…).

Tive ainda sorte de a minha tia estar ainda em casa de tarde. Não me apeteceu ir para a FLUL, lá fiquei… Sorte de ficar sozinho e rever a comunicação. Apercebi-me de que estava grande (mais 5-6 minutos do que o tempo dado) e lá seleccionei umas coisas a não dizer.

Sorte no colóquio. Adorei as comunicações, e até as de língua inglesa me foram perceptíveis. Explico-me: estávamos a falar das relações entre Direito e Literatura, coisa que nunca estudei (apesar do meu ex-relacionamento amoroso com certa pessoa dessa área) a não ser de propósito para a minha comunicação – e percebi o sentido das comunicações, as relações, os problemas…

Sorte ainda porque estava lá uma pequena feira das publicações do Centro de Estudos Comparatistas. Lá comprei 7 números da revista Textos e Pretextos por apenas 8€, no total. Falta-me apenas os números sobre Herberto Hélder, Eugénio de Andrade (que cá para mim estão esgotadas) e o mais recente, sobre Manuel Gusmão. E enquanto esperava que a coisa começasse, já carregado com as revistas, programas, resumos das comunicações, canetas e pasta do Colóquio, passei os olhos pelos índices. Se do Paulo eu sabia haver um artigo na revista sobre Eugénio de Andrade, da Denise fiquei a saber que já publicou (pelo menos) no número sobre António Ramos Rosa e no outro dedicado a Chico Buarque. Ainda não li nenhuns, mas eu prometo ler o mais breve possível (podem ler-se alguns artigos aqui).

Sorte ainda pelo facto de as sessões paralelas serem três, ao mesmo tempo (como denuncia o termo «paralelas») e assim a assistência ter-se dividido, preferindo a sessão em Inglês. Na minha foram 18 pessoas, mas noutra só estavam cinco… Mas sorte porque um dos professores que ia falar na minha sessão não pode vir. Então eu e a juíza brasileira (muito simpática, descontraída e competente) Mônica Sette Lopes ficámos com mais tempo, orientado pela também muito simpática e, convenhamos, bonita, professora Cristina Nogueira da Silva. As reacções à minha comunicação foram as esperadas: risos em alguns momentos (pelas maluqueiras dos romances), e reflexões em torno do dissídio interior. Apenas uma pergunta no fim, que me deixou um pouco atrapalhado, mas que resolvi em cinco frases. No final alguns, da assistência e as senhoras que partilhavam a mesa comigo, deram-me os parabéns e disseram que queriam ler os livros - o meu principal objectivo. Houve até quem me tivesse perguntado se este era o tema da minha dissertação – e eu disse que não, que não percebia nada de direito e coisas assim... mas as senhoras da mesa e esse assistente disseram que eu até percebia do que estava a falar (graças à internet e à investigação que tive de fazer). No fundo, eu era o puto maravilha lá da zona, que falava de coisas que ninguém conhecia. As literaturas africanas realmente são o meu futuro… acho que fui seleccionado para o colóquio mesmo por causa disso: o desconhecido que ainda é a literatura africana (lembrei-me agora da festa de casamento da Joana em que um dos convivas da minha mesa em perguntou com um ar meio curioso meio escandalizado: Há literatura em África?, depois de eu ter dito que era isso que estudava no mestrado).

Sorte nos transportes todos. Uma maravilha. Sorte na biblioteca – pude requisitar um livro só de fim-de-semana numa terça-feira…
Só não tive a sorte de puder ficar até ao fim. A dentista esperava-me quinta de manhã, na Régua. E para voltar a tempo tive de apanhar o autocarro das três e quarenta e cinco em Sete Rios. Ou seja, já não assisti à tarde do segundo dia, nem à comunicação de uma das minhas professoras do Porto – Maria de Lurdes Sampaio.

Fico por aqui. Não falo em particular de comunicações ou de oradores, até porque gostei de quase todos. Mas agradeço à organização, na pessoa da Sónia Ribeiro pelo voto de confiança, pela simpatia, pela disponibilidade.

Termino com as palavras da Su em sms: «Vai correr bem. Tu és bom. O resto são coisas em que nos fizeram acreditar, que nos iludiram. Não há presságios agoirentos, não para gente iluminada como tu. Boa sorte» (momentos antes de entrar para a minha sala, vendo um pássaro aflito tentar sair do corredor da FLUL, enquanto eu tinha um momento de recuo no tempo, voltando ao momento em que um pássaro estava preso no corredor da FLUP e batia contra os vidros, no dia em que me inscrevi no estágio e escolhi a Boa Nova como escola…). A Su percebe-me melhor do que ninguém. Mas não era uma gaivota!
*************************
Dois pequenos fragmentos da minha comunicação «Os direitos e as leis: Os Dois Irmãos de Germano Almeida e Quantas Madrugadas Tem a Noite de Ondjaki»:

«Votado ao ostracismo pela comunidade, uma vez que fica invisível nela e para ela (ID, p.77, 127), a personagem tem de optar entre o amor do outro e o amor de si. Na perspectiva do direito natural, de tradição, não é um simples ajuste de contas, mas um exercício de justiça – a que o pai de ambos, vítima e réu, não recusa, antes incita, sabendo que depois fará o luto - e a que a mãe tenta fugir mantendo os dois, o que não está previsto no romance. Segundo a ordem positiva, André não podia matar o irmão, porque é um crime, mas segundo a ordem natural, André não podia não matar o irmão - por necessidade de desagravo sem outras justificações.» (p.3 do artigo)
[...]

«Ondjaki encena uma conversa entre um homem que fala e outro que vai ouvindo e, perante a noção da inverosimilhança da história que vai contar, o narrador tem a necessidade de alertar o seu ouvinte:

Uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um Carnaval? (QMN, p.16)

ao mesmo tempo que remete para a ideia de verdade para o leitor, não no plano da história contada, mas da possibilidade de tal acontecer por retratar a verdade (a sua verdade) dos vários sistemas convocados, dando já a pista de leitura de que o relato será do domínio do carnavalesco ou subversivo, embora real.» (p.8 do artigo)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Diálogo alemão-português com interferências em inglês...

- Diz-me o que vês. Na tua língua - disse em Inglês, a meu lado.

Da cama, eu via o tecto.

- Tábuas: umas para dentro, outras para fora, em relevo. Pintadas de branco. Imperfeitas, com nós, mal cortadas, com mossas. Desfilam de uma ponta à outra sem interrupções - parei, no meu Português que tentava ser claro.

Sem mais, deitou-se em cima de mim, corpo com corpo, peito com peito, faces a dois centímetros, e disse:

- O que vês agora? - em Inglês.

- O rosto com quem queria passar o resto da minha vida - em Português.

Não sei se me percebeu, mas disse-me em seguida em Inglês:

- Agora é a minha vez.

E saiu uma formulação incompreensível em Alemão. Ri-me um pouco, do discurso sem sentido para mim, da pressão que me fazia o seu corpo, numa tentativa vã de aliviar o peso do momento. Riu-se também. Ia dizer qualquer coisa, mas arrependeu-se. em vez disso, apertou as minhas mãos nas suas e beijou-me. Beijámo-nos pela primeira vez, como se fosse a última. E foi. Pelo menos para já...


em dia que seria de namorados. em que o sonho se mistura com a realidade, ou a realidade é tão boa que parece sonho. de amor que nem sempre tem de se realizar para permanecer eterno, ou que tem apenas de se realizar numa outra coisa que não a vida consciente para que se ganhe novo fôlego. ou porque.

outro prémio


PRÉMIO AMIZADE
Lugares de afectos, reais e virtuais, que visito e me visitam amiúde e me enchem o coração


A Denise, amiga que fui conhecendo melhor através do seu excelente blog, Rabiscos e Garatujas, seguiu o exemplo do Felizes Juntos e lá me deu um prémio... Do meu blog disse: «Tulisses - Do TUlinho, onde vai experimentando as suas aventuras literárias».



Obrigado!
*
Nota: a pedido/ordem da Denise, e porque realmente tem razão, aqui fica o destaque aos ícones feitos pelo Paulo. São realmente extraordinários! Por isso mesmo é que usei as imagens nestes posts!

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

II. 10. A adivinha

Ao deitar-se sozinha mais uma vez, a adivinha ouviu um cão ladrar aflito passando pela sua janela. Não pôde deixar de pensar, Hoje vou morrer. Mas o sono tomou conta dela nos seus braços e embalou-a. No dia seguinte, ao acordar, a vizinha entrou-lhe pela casa adentro com a notícia de que o seu marido morrera na guerra. Ao saber que o seu amado morrera, apercebeu-se de que não se enganara no vaticínio e sorriu como os mortos podem sorrir.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

prémio



O felizes juntos premiou o meu blog na secção Leitura Deleitável (faz pensar? ai que chatice!). Do meu Tulisses disseram: «porque vale a pena».


Talvez valha. Obrigado.