domingo, maio 18, 2008

3 poemas de Carlos de Oliveira

Canto

I

Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras
fique embora mais breve a nossa vida

II

Tu, coração, não cantes menos
que a harmonia da terra,
nem chores mais
que as lágrimas dos rios.

**

Estrelas

O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.
Chamo um astrólogo amigo:
"Então?"
"O céu parou. É o fim do mundo."
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
"Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão."
Sigo o conselho: as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.

***

Sobre o lado esquerdo

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração”.

A Poesia de Carlos de Oliveira, apresentação crítica, selecção, notas e sugestões para análise literária de Manuel Gusmão, Seara Nova/Comunicação, p. 116, 127, 131

sexta-feira, maio 09, 2008

Por Lamego

Hoje de manhã acompanhei o meu pai a Lamego. Porque ele tinha de lá ir, e eu aproveitei para ver Lamego sem ser na grande festa da Senhora dos Remédios. E confirmei a ideia que tinha: é uma cidade bonita, onde poderia viver se tivesse rio ou mar... Algumas fotos mostram-a, embora falte a escadaria da Senhora dos Remédios - que é visível da minha terrinha, ou antes, as luzes, à noite, fazendo um percurso encantatório no meio de um monte - mas ficam algumas das coisas que mais me entusiasmam.

Teatro Ribeiro Conceição

Banco de um jardim, onde há painéis de azulejos interessantes, como este que representa as cortes de Lamego

Torre do Castelo

Ele estava ali perto... mas ainda não foi desta...

Claustro da Sé

Claustro da Sé - outra pesperctiva

A Sé (1129) vista do Castelo

Edifícios bonitos abundam, com outros velhos, mas também eles interessantes, e construções muito modernas, com bastante bom gosto...

II 19. L37R45 ^ 3



Os números são letras.
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia

UM D14 R3P4R31 QU3 4O L3R 3U N4O L14 M35MO. 3R4 MU17O 357R4NHO O QU3 3U F4Z14, 3 3U P3N54V4 M35MO QU3 3574V4 4 L3R. 2 L14 MU17O5 ROM4NC35, M45 QU4NDO CH3G4V4 4O F1M, P3G4V4 NOU7RO 3 O COM3Ç4V4 4 L3R, R3P4R4V4 QU3 J4 N40 M3 L3MBR4V4 D3 N4D4 DO QU3 L3R4. 4 PR1NC1P1O P3N531 QU3 POD14 53R PORQU3 4ND4V4 C4N54DO OU PORQU3 O L1VRO N4O FOR4 4551M 74O 1N73R3554N73, M45 D3PO15 P3RC3B1 QU4L 3R4 O PROBL3M4. OU M3LHOR, S3M P3RC3B3R O PORQU3, P3RC3B1 O QU3. 3 QU3 3NT4O 3U 4O L3R F4Z14 GRUPO5, CONJUNTO5 D3 L37R45. JUN74V4-45 7R35 4 7R35, 53MPR3, M35MO QU3 71V3553 D3 1R ROUB4R L37R45 45 P4L4VR45, 45 FR4535, 4O P4R4GR4FO 53GU1N73. 53MPR3, 7R35 4 7R35. 3 45 V3Z35, PORQU3 4 CON74 N4O D4V4 C3R7O, L4 JUN74V4 O5 PON7O5, 45 V1RGUL45 3, CUMULO DO5 CUMULO5, O5 4C3N7O5. PORQU3 O NUM3RO 7R35, N4O 73NHO FORM4 D3 O 54B3R. J4 D1553 QU3 N4O 531 45 C4U545 D3574 357R4N4 FORM4 D3 N4O L3R. M45 74LV3Z PORQU3 7R35 3 4 CON74 QU3 D3U5 F3Z, O NUM3RO DO 54GR4DO, D4 P3RF31Ç4O, OU, PORQU3 N4O H4 DU45 53M 7R35, DO 4B5OLU7O. M45 N3573 C45O, 4 L317UR4 QU3 3U F4Z14 N4O 3R4 N4D4 D155O, N3M POD14 53R, J4 QU3 UM4 51MPL35 FR453 COMO: O C3U 3 GR4ND3 3 C4B3M N3L3 7OD45 45 COR35, 3U L14 OC3 U3G R4M D33 C4B 3MN 3L3 7OD 454 5CO R35, OU 53J4, N4O L14 V3RD4D31R4M3N73, PORQU3 O5 OLHO5 4P3N45 P4554V4M P3L45 L37R45 53M 45 D35COD1F1C4R COMO 3L3M3N7O5 D3 P4L4VR45, 3 35745 3L3M3N7O5 D3 UM4 FR453, D3 UM 3NUNC14DO QU4LQU3R. 4551M CORR1 L1VRO5 3 L1VRO5 53M M3 4P3RC3B3R D3 QU3 N4O O5 L14. OU 74LV3Z L3553, PORQU3 N3M 53MPR3 3573 35QU3M4 D45 7R35 L37R45 FUNC1ON4V4, 3R4 5O 45 V3Z35. M45 P4R4 UM L317OR 3R4 MU17O M4U, QU4N7O M415 P4R4 UM 35CR17OR, COMO 3U. 53 7UDO D31X4V4 D3 F4Z3R 53N71DO N45 P4G1N45 35CR1745, D3 QU3 V4L3R14 35CR3V3R? 3 D31X4R; 74O 51MPL35 QU4N7O 155O. M45 H4 M4L35 QU3 V3M POR B3M, M35MO QU4NDO V33M M4L 3 4 7R1PL1C4R. P4R4 UM 4R71574 D45 P4L4VR45 4 D357RU1Ç4O 1MPL1C4 4 5U4 MOR73, M45 53 5OUB3R R373-L45, 4D4P74-L45, MOLD4-L45, CON53GU3 M4N73R-53 V1VO 47R4V35 D3L45. 3 4551M, 3MBOR4 N4O R35OLV3NDO POR COMPL37O O M3U FR4C455O D3 L317UR4, QU3 POR V3Z35 M3 4554L74V4 M35MO QU4NDO L14 UM 51MPL35 RO7ULO D3 UM P4CO73 D3 4ÇUC4R OU O NOM3 D3 UM4 RU4 NUM M4P4 D3 C1D4D3, CONV3NC1ON31 UM4 NOV4 FORM4 D3 35CR3V3R P4R4 M1M M35MO. 3X1G14 UM C3R7O 35FORÇO D3 H4B17U4Ç4O, QU3 FO1 F4C1L D3 OB73R, 3 UM4 3X4C71D4O 4 PR1M31R4, PORQU3 R3L3R 53R14 M415 COMPL1C4DO 3 N1NGU3M M3 G4R4N714 QU3 3U N4O L3553 4O5 7R35, 4O CUBO, 4O5 CONUN7O5, 7R3VO D4 5OR73 1MP3RF317O, O QU3 POD3R14 53R 41ND4 M415 C47457ROF1CO L3R M473M471C4M3N73 UM4 35CR174 QU3 J4 3R4 3L4 CON57RU1D4 COM L37R45. FO1 4 FORM4 D3 CON71NU4R 4 35CR3V3R. O5 NUM3RO5 54O L37R45 3 P3RC3B3M-53 B3M. O5 CONJUN7O5 N4O, N4O F4Z3M 53N71DO. 3 3M BU5C4 D3573 PRO551GO 4 M1NH4 35CR174, FUNG1NDO DO BR4NCO 3 DO V4Z1O. M45 H4 M4L35 QU3 V3M POR B3M, M35MO QU4NDO V33M M4L 3 4 7R1PL1C4R. P4R4 UM 4R71574 D45 P4L4VR45 4 D357RU1Ç4O 1MPL1C4 4 5U4 MOR73, M45 53 5OUB3R R373-L45, 4D4P74-L45, MOLD4-L45, CON53GU3 M4N73R-53 V1VO 47R4V35 D3L45. 3 4551M, 3MBOR4 N4O R35OLV3NDO POR COMPL37O O M3U FR4C455O D3 L317UR4, QU3 POR V3Z35 M3 4554L74V4 M35MO QU4NDO L14 UM 51MPL35 RO7ULO D3 UM P4CO73 D3 4ÇUC4R OU O NOM3 D3 UM4 RU4 NUM M4P4 D3 C1D4D3, CONV3NC1ON31 UM4 NOV4 FORM4 D3 35CR3V3R P4R4 M1M M35MO. 3X1G14 UM C3R7O 35FORÇO D3 H4B17U4Ç4O, QU3 FO1 F4C1L D3 OB73R, 3 UM4 3X4C71D4O 4 PR1M31R4, PORQU3 R3L3R 53R14 M415 COMPL1C4DO 3 N1NGU3M M3 G4R4N714 QU3 3U N4O L3553 4O5 7R35, 4O CUBO, 4O5 CONUN7O5, 7R3VO D4 5OR73 1MP3RF317O, O QU3 POD3R14 53R 41ND4 M415 C47457ROF1CO L3R M473M471C4M3N73 UM4 35CR174 QU3 J4 3R4 3L4 CON57RU1D4 COM L37R45. FO1 4 FORM4 D3 CON71NU4R 4 35CR3V3R. O5 NUM3RO5 54O L37R45 3 P3RC3B3M-53 B3M. O5 CONJUN7O5 N4O, N4O F4Z3M 53N71DO. 3 3M BU5C4 D3573 PRO551GO 4 M1NH4 35CR174, FUNG1NDO DO BR4NCO 3 DO V4Z1O.
´
para a mancha ficar direita tive de mudar o tipo de letra e fazer uma alteração no título, que para quem não saiba, como eu não sabia, o ^ lê-se como potência, ou seja: letras ao cubo (em vez de pôr o 3 lá em cima, sozinho - porque aqui não fica!!!

quarta-feira, maio 07, 2008

II 18. A cidade



O espírito arrebatou-me e levou-me para a porta oriental do Templo de Javé, isto é, a porta que dá para Oriente.
Ez, 11, 1

Subia o íngreme caminho em direcção à entrada oriental da cidade. Levava consigo apenas a sua sombra escura, despida. Das ameias mais próximas era visível o seu esforço na caminhada, pelo passo cambaleante e o corpo meio curvado, mas não era visível a pele queimada e crestada, os pés esfolados, os olhos cobertos de rios de sangue, o rosto coberto de suor e pó que se tornavam barro modelado de figura humana. De homem. De homem sem roupa e sem alma. Mas ninguém o viu chegar à porta oriental porque toda a cidade fora convidada para o casamento do Princípe-Futuro-Rei. A cidade acordara já pronta do trabalho da véspera, limpa e embelezada pelos panos bordados e flores colhidas nos campos em redor. Servia-se então um banquete de honra a toda a população, incluindo os vigias, menos ele, vigilante mais distante que avisa dos perigos antes de todos os outros através de fumo, fogo, sons ou o que for mais conveniente. Dessa vez o mais conveniente foi a corrida que o invasor lhe concedera, após o ter privado de tanta coisa que o Homem considera dignas. A corrida era excessiva ao seu estado de irmanação com o solo. Mas o vigia dos longes não se preocupava já consigo nem com a vergonha de estar nu e nu ir aparecer em frente de toda a gente ou ter de contar o que lhe fez o invasor, mas sim em contar o que ele iria fazer à cidade toda. Subiu o íngreme caminho e chegou à porta oriental; estava fechada. Com a pouca força que ainda tinha bateu-lhe e chamou para dentro. De lá não obteve resposta, apenas o barulho normal que faz uma cidade numa festa real, aproveitando a altura para alimentar corpo e alma. Arrastou-se ainda pelo círculo das muralhas, procurando a porta seguinte, pensando que em alguma delas teria de estar alguém para dar o alerta. Mas também na outra não estava ninguém. Mas a sua força interior parecia ser maior que o estado em que se encontrava e conseguiu chegar à terceira porta, também ela encerrada na sua madeira forte e impenetrável. Na linha do horizonte, entre os arbustos despidos e a terra seca, o invasor vinha já. O seu horror dominou-o por momentos. O cansaço, os nervos, o desânimo, a impotência. Lá de dentro vinham risos, gargalhadas, falas e música ao fundo. Ouvia-se também o tinir dos talheres na louça. Sentia-se o cheiro da carne assada. Também o vigia dos longes sentiria o cheiro de carne na cidade em chamas e ouviria os gritos e o choro dos sobreviventes, se entretanto não se tivesse irmanado do chão e nele se entregasse, imperfeito.

segunda-feira, maio 05, 2008

Reitoria da Universidade do Porto

A Reitoria da Universidade do Porto, a dos leões, a que eu conheci primeiro como a Faculdade de Ciências da minha irmã (e onde ainda ontem ela cartolou - mas disso falarei a seguir), a que depois vivi como local de trabalho do EILC de Agosto e de Janeiro (a semana incial de cada mês de trabalho era lá, a preparar tudo para o bom funcionamento do curso). Adoro aquele edifício: pesado, forte, grande, austero, labiríntico. Quando saia de lá ao fim de cada dia de trabalho, cansado e mortinho por chegar a casa, não conseguia impedir-me de me sentir orgulhoso de trabalhar ali (ainda que por poucos dias, mas quem passava e me via sair às seis não sabia disso, mas também não sabia que eu trabalhava ali...).

Agora, após o dia de ontem em que os finalistas de Ciências puderam usar o espaço pela última vez para a sua festa de cartolação, no fantástico Salão Nobre (onde estive ao lado de Agustina e recebemos e nos despedimos dos alunos dos diferentes EILC), na escadaria que leva à entrada, na praça dos leões, o edifício está arder. E agora que já sei que não há vítimas, importo-me com tudo o que está lá guardado, além da sua beleza e valor - real e simbólico.


Ficam algumas fotos que tirei com o meu tlm do mês de Janeiro e de Agosto (as de ontem ainda não tenho): a clarabóia do escadario, as escadas escondidas de que tanto gosto, o interior do edifício, salão nobre, fachada...




p.s. - entretanto parece estar tudo controlado e não haver grandes danos. ao menos isso!

sexta-feira, maio 02, 2008

Calvin, Hobbes e Eu

A primeira vez que ouvi falar do Calvin & Hobbes andava no sétimo ano. A professora de então faláva-nos da banda desenhada e o exemplo que deu foi umas tiras do Bill Watterson. Lembro-me de que uma pergunta do manual partia de uma notícia sobre o cancelamento das suas aventuras. E eu respondi que não me importava muito, já que não gostava de banda desenhada. Tinha já a mania do pseudo-intelectualismo (não com estas palavras, claro) e dedicava-me a tentar ler As Viagens na Minha Terra e quase todo o Júlio Dinis (era o que havia na estante dos meus pais, além de outras coisas um pouco más). Depois foi no décimo e no décimo primeiro, com os livros de filosofia, que comecei a gostar - também, qualquer coisa era melhor do que ouvir as profs que tive. Mas aquilo não era qualquer coisa, era mesmo fixe! Seguiram-se os jornais do Público, durante toda a faculdade. Agora li finalmente um livro: Há monstros debaixo da cama, da Gradiva. Algumas das histórias já conhecia, outras não. E ri-me como um tulinho, outras vezes pensei a sério. É isso que existe de bom nesta banda desenhada: ri-se e pensa-se um bocadinho. E embora eu seja do bem (private joke) e me identifique mais com o Hobbes (afinal eu sou também um felino), não posso de deixar de achar piada à imaginação, à loucura, às dúvidas, às maldades do Calvin. E seguir-se-ão outros, qualquer dia. Deles, mas também do Astérix (que conheço melhor dos filmes), da Mafalda (de que a Consti gosta muito) e do meu herói de sempre, porque não é um herói cheio de poderes extraordinários, o Tintim. E embora continue com a mania do pseudo-intelectualismo, isto também cabe nele - pena ser já tão tarde. Mas lá diz o ditado... e eu concordo.

Uma tira do referido livro, aqui em Inglês:

quinta-feira, maio 01, 2008

Artes

Ter amigas que fazem coisas giras com a sua imaginação, as mãos, alguns materiais e muito talento dá nisto: um post em que tenho de falar de uma série de criações. E fica bem no dia de hoje, dia das maias na porta e dia do trabalhador.
Começo pela Patrícia que faz isto há mais tempo, pelo que sei. Tem dois sítios de divulgação: o blogue e o flickr. O primeiro mais dedicado às suas meninas (em fimo), acompanhadas de histórias ou poemas, e de músicas, o segundo mais abrangente: as meninas, os wip, as bonecadas e as bijuterias. Sempre com muito bom gosto e ternura (que outra palavra usar para os gatinhos ali em baixo?). Ficam aqui algumas fotos só para aliciar:




E agora a Natacha. Tem dois sítios de divulgação, também: o blogue e hi5. As criações da Natacha são mais adornos femininos que acalentam a alma, como refere no seu blogue, onde também justifica o Ropica Pnefma, de um tratado de João de Barros, cuja tradução é mercadoria da alma. Adornos como pulseiras, pregadeiras, brincos, colares... Ficam aí alguns exemplos da colecção de Primavera para as deusas que se querem embelezar mais ainda:


segunda-feira, abril 28, 2008

Sugestões de Abril

Desta vez é diferente: tentei reduzir os argumentos, em grupos que se reenviam para textos anteriores onde os referi, ou não, porque este mês abusei. Bem, não sei se pode dizer que ler muito e tal é um abuso, mas enfim… E este mês mais cedo, não sei se poderei depois fazer um post desta envergadura daqui a uns dias...


Livros:

1 – A Bíblia (Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Abdias), Paulus ***

argumentos: continua a saga, com mais ou menos sacrifício ou prazer. Daniel e a cova dos leões, ou frases brutais como: «Gostavas de receber a paga de prostituta em qualquer eira de trigo.» (Os 9, 1) ou a hilariante frase «O espírito arrebatou-me e levou-me para a porta oriental do Templo de Javé, isto é, a porta que dá para Oriente.» (Ez, 11, 1). Mais do mesmo, um pouco repetitiva a ideia…


2 – Doze Casamentos Felizes, Camilo Castelo Branco, Parceria ***

argumentos: não me entusiasma o escritor, mas lá li por sugestão da Prof.ª Annabela Rita, num curso queirosiano. São doze histórias sobre casamentos, ou o antes deles, na maioria. E felizes, pois claro. Mais: «As mulheres, se não tivessem estas adoráveis esquisitices, pouco mais valeriam que os homens», p.88. E com passagens engraçadas: «havia uma Ximena, da qual ele contava uma tragédia mais horrível que o nome»p.58, lê-se bem e pode servir de companhia numa viagem.


3 – O Prazer da Leitura, A. A. V. V., Teorema/FNAC****

argumentos: livro que celebra o dia do livro. Dez contos por €4.00. Não gostei de todos, mas em lá, dos que gostei, João Aguiar, Lídia Jorge, Nuno Júdice, Manuel Jorge Marmelo, Filipa Melo, Francisco José Viegas, Rui Zink, e ainda Maria Teresa Horta, Luísa Costa Gomes e Mário Cláudio. Alguns dos contos falam da relação das pessoas com a leitura, com os livros, com as palavras. Mais: «Um escritor deve sempre acreditar que o seu romance irá salvar o mundo. Senão para que escreve ele? Se um livro não é feito para salvar o mundo, então mais vale, se calhar, nem o começar a escrever. O mundo já está tão cheio de maus romances… E até de bons romances. O mundo não precisa de mais livros.»p.214 (Rui Zink).


4 – A Voz Fagueira de Oan Timor, Fernando Sylvan, Colibri ****
5 – A Casa, a Escuridão, José Luís Peixoto, Temas e Debates****
6 – Túmulo de Heróis Antigos, Paulo Teixeira, Caminho ***
7 – Panfleto (Poético), António Cardoso, Plátano ***
8 – Economia Política, Poético, António Cardoso, Plátano ***
9 – O Gosto Solitário do Orvalho, Bashô, Assírio & Alvim ****

argumentos: muita poesia este mês – livros pequenos, claro está. Não comento um a um, mas destaco o do Peixoto e o do Fernando Sylvan. Poemas de todos eles nos links dos títulos. Ficam aqui alguns do Bashô, que li enquanto a Denise lia a Teresa Veiga:

separados pelas nuvens
dois patos selvagens
dizem-se adeus

*

admirável aquele
cuja vida é um continuo
relâmpago


10 – Eu Vim Para Ver a Terra, Maria Ondina (Braga), Agência-Geral do Ultramar *****

argumentos: o livro sobre o qual falarei no colóquio sobre Macau, se for seleccionado. Livro de crónicas, ao estilo colonial mas sem preconceitos ou ideologias imperialistas. Muito bonitas as crónicas sobre Angola, dorida a crónica sobre Goa, muito interessantes as referentes a Macau, cinzentas e tristes, em profundo contraste com as de Angola. Uma escritora que me parece irá fazer parte das minhas leituras futuras. Mais: «De avião as viagens têm sempre aquele carácter atraiçoada de pressa que é a chaga aberta do nosso século. Chegar depressa é com certeza envelhecer cedo, é, de qualquer modo, não ter tempo para ver, em para desejar, nem para sonhar. É estragar o prazer fascinante da viagem, seja ela a viagem de Luanda a Nova Lisboa ou, simplesmente, a viagem da vida.» p.46.

11 – Doutoramento Honoris Causa de Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade, FLUP****

argumentos: pronto, só porque eu apareço lá, numa foto, ao lado da Agustina e do então Reitor. Mas tem textos muito interessantes, dos novos Doutores, mas também das elogiadoras: Fátima Marinho descreve a obra em geral de Agustina, Maria João Reynaud fala de alguns lugares de Eugénio.


12 – As Intermitências da Morte, José Saramago, Círculo de Leitores*****
13 – Deste Mundo e do Outro, José Saramago, Caminho****
14 – Manual de Pintura e Caligrafia, José Saramago, Caminho *?*

argumentos: A Consistência dos Sonhos, a exposição do Saramago onde eu sou guia (às terças e sextas, às duas horas), obrigou-me a uma séria preparação. E a preparação passa também pela leitura de outras obras do autor – uma excelente oportunidade e desculpa para os livros dele que estavam cá em casa passassem à frente de outros… O primeiro, que li em dois dias, conta a história de um país onde não se pode morrer, de repente, e depois a história da própria morte apaixonada por um músico que de alguma forma conseguiu escapar ao momento da sua morte já fixado… Muito bom, com reflexões sobre o próprio romance e conversas com o leitor - um dos meus favoritos. Mais: «falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida»p.205. Não resisto a citar ainda: «Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão»p.212.
Deste Mundo e do Outro, um conjunto de crónicas dos anos sessenta, tem textos belíssimos, outros nem tanto, mas ainda assim parece-me que muito do que ali se fala será mais tarde o húmus da sua escrita: as estátuas e os olhos, a morte, as injustiças, os sonhos e as estrelas… Mais: «A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver»p.40
Manual de Pintura e Caligrafia - ainda estou a ler, mas não estou a gostar tanto como dos outros... mas pode melhorar ainda. Ou não.



TV:
Prison Break** + Joan of Arcadia**** – RTP 1
A Guerra**** – Dois:

Prison Break (terceira temporada) acabou agora, mas parece que continua. Por mim, já tinha acabado na segunda. Não gostei desta, não me prendeu como as outras duas, que chegava a discutir com a Sandra e a Rita. Já A Missão de Joan era a minha série de sábado à tarde. E de repente desapareceu, para dar às tantas da noite durante a semana – episódios que não deram de tarde, parece-me. É uma série sem grande pretensiosismo, mas é gira por isso, pelos adolescentes e seus problemas e pela figura de Deus que aparece nas mais variadas figuras – e vai ensinando, fazendo reflectir.

Nas noites da Dois: passou a série A Guerra, que já tinha passado na RTP 1. Mais uma vez não vi na totalidade – mas vai sair em dvd com um jornal, não sei é qual. É uma excelente série documental sobre a guerra colonial – de libertação – do ultramar, de acordo com as várias perspectivas. E aparece lá o poeta que estudo na minha dissertação, Arlindo Barbeitos.


Música:

Mariah Carey: E=MC2***** o novo álbum da diva do r&b. Melhor que o anterior, parece-me, o multi-platinado e multi-premiado The Emancipation of Mimi, embora não tenho temas tão fortes como «We belong together», «It's like that» ou «Fly Like a Bird». Mas «Touch my body» já rendeu o 18.º n.º1 da Billboard (ultrapassando Elvis Presley), e «Bye Bye», o novo single, entrou para o n.º23 esta semana. E o álbum entrou directamente para o n.º 1. Sucesso garantido num disco que repete a fórmula vencedora do anterior, mas globalmente mais conseguido, com ritmos dançáveis, algumas baladas r&b, pop e soul. Destaco, das 14 canções: «I Stay in Love», «Side Effects», «I’ll be lovin’U long time», «Thanx 4 Nothnig», «For the Record», «Bye Bye», «I wish you well» (algumas estão no youtube, videos não oficiais ou actuações ao vivo). Mais topos nos tops e prémios parece-me que vêm a caminho. E gosto, porque parece que ao ouvi-la me mantenho mais jovem...


Cinema:

Sem grandes comentários, os filmes que vi este mês e que recomendo:
Melhor do que sexo**** - muito íntimo, quem o ver e souber da minha experiência actual percebe porque gosto deste filme. De Jonathan Teplitzky, com Susie Porter e David Wenham.
Astérix e Obélix nos Jogos Olímpicos**** - para rir é do melhor. Talvez não tão bom como o da Missão Cleópatra, mas ainda assim. O Brutos é que fica muito mal retratado, coitado.
Manderlay**** - a continuação de Dogville. De Lars von Trier, mas sem a Nicole Kidman. Mais uma vez para pensar porque é desconcertante e extraordinário.
Klimt*** - confesso que adormeci, estava cansado e deu muito tarde. Mas fui um dos filmes da RTP 1 de domingo à noite, que agora são dedicadas ao cinema europeu. Com John Malcovich.


Exposições:

A Consistência dos Sonhos*****

argumentos: a exposição da Fundação César Manrique sobre a vida e a obra de José Saramago, agora no Palácio da Ajuda, na Galeria de Pintura de Luís. Uma exposição com muitas pinturas (Graça Morais, David de Almeida, José Santa-Bárbara), fotografias (Carlos Relvas) documentos, jornais, epistolografia, manuscritos, edições portuguesas e estrangeiras, projecções com recurso a inteligência artificial (Charles Sandison), sistemas audiovisuais, objectos pessoais do autor e até a reconstituição do seu espaço de escrita, com a mesa e a máquina de escrever originais. É uma exposição para se demorar algum tempo - as visitas guiadas limitam-se a 45 minutos. Espero que a vejam, porque vale a pena! Ficam aqui os horários e acessos (mesmo se não for comigo, vale a pena, os meus colegas são extraordinários - alguns).

segunda-feira, abril 21, 2008

Carta aos humanos

Vi-te nascer.
Vi-te voar nos olhos das gaivotas
enquanto fazias castelos de areia
e o mar os levava como oferta ao Sol no fim do dia.
Vi-te rebolar feliz pelos campos verdes
e brincar com as pedras dos rios.
Vi-te contente e por ti sorria.

Não te verei morrer.
Vi-te pintares o céu de fumo
e puseste-te a brincar às bombas
e em vez de castelos davas a morte ao mar.
Vi-te cortar árvores sem rasgão
e nos rios os restos de má educação.
Vi-te contente e por ti e por ti eu chorava
pois nada mais farás assim que acabares de me matar.

Sou alguém que deseja o melhor para ti,
neste dia de tristeza,
a Natureza.


poema do meu primo Claúdio para um trabalho de Língua Portuguesa 7.º ano. Ajudei a escrever, a organizar e em algumas expressões... de maneira a que ele entendesse (espero eu) algumas especificidades do texto em verso e do uso de uma linguagem mais metafórica ou não...

sábado, abril 19, 2008

Aula de Cultura Portuguesa III – 13/01/04

continuo a rir após tantos anos...
Numa folha arrancada de um caderno meu, perdida no meio do mesmo oitavo volume de Pensamentos Ligeiros, as conversas escritas entre Mari. e A. V. (manter um certo anonimato porque nunca se sabe…) e eu estava no meio e ia passando o caderno ora a uma ora a outra. A não perder:

A. V.: Zé Povinho = Guerra Junqueiro – tem tudo a ver!!!

A. V.: Publicidade: Suicídio? Qual suicídio! Vem já à aula de Cultura Portuguesa e a morte é instantânea! Acredita!
Mari: Tá mto fixe! Ele estava a falar em doido… mas não sei quem será o doido. É 1 questão mto filosófica… Ele ou nós? Que ainda vimos às aulas…

(depois de um poema escrito por mim na aula)
Mari: para o Tiago! Boa Tiago! Tens de ver mais vezes a cult. Port. E até talvez marcar umas aulas extras… faz bem à tua inspiração!!! ;)

«Eu amo o Ferro Rodrigues e o Paulo Portas» - Rui
A. V.: Realmente são pessoas adoráveis. Eu amo o P. Tav. Ele põe-me fora de órbita, isto é, não sei em que planeta estou!!!

A. V.: Enciclopédias?! Não compre! Venha já a uma aula de cult. Portuguesa e passe rapidamente de Zé Povinho para Eça de Queirós! O dicionário mais completo em cultura. Garanto-lhe!! E se telefonar já, habilita-se a ganhar nada mais nada menos que um exame a 10 de Fevereiro!
Mari: Eu não quero telefonar já!!
A. V.: Não há problema! Telefone depois e ganha outro exame em Setembro!
Mari: Obrigadinha! ;) Deixa-me adivinhar… e anda há 1 bónus para quem tem estatuto. Com exame em Dez, ou dps em Set.
A. V.: Minha cara amiga, há sempre 1 bónus: pode mudar para outra cadeira e aí ainda terá a felicidade de ter muitos exames!!

Mari: eu tenho um grande anúncio: quer redimir-se da sua vida pecadora? Falta às aulas? Não trata bem a sua amiga Mari? Tem uma doença e deseja morrer imediatamente? Caros amigos daqui para o inferno é a nossa especialidade.
Em apenas uma aula de cultura portuguesa pode conseguir tudo isso… ou morre ou mata-se! Com a oportunidade de caso não seja eficaz a aula ter sempre à sua disposição 1 fantástico exame! Não perca é já dia 10 de Fevereiro!

Calinadas ou frases verídicas encontradas

– isto de ver os cadernos em que se registam estas coisas da vida dão-nos surpresas e trazem lembranças inesperadas (…). Pergunto-me se isto não será uma forma de procrastinação, mas neste momento tenho tudo pronto, excepto eu para a deslocação. E a dissertação, claro…

«o amor é verde e uma vaca comeu-o!» - eu
«É tão bom ser livre, correr pelos prados verdes, bater numa vaca e cair na relva!» - eu
«mato-me ou mato-me» - Su (um clássico que ficou para sempre)
«o estogamo» - Milai
«os filhos da mão» - eu
«Quando a li peça pela primeira vez...» - Marta (pois ééé)

João Damasceno

Corria o ano de 2004. Eu e a Patrícia estávamos numa feira do livro na FLUP. E a Celine (tenho saudades da Celine que nã vejo há muito - e do verso «as crianças são papéis ao vento» inventado numa outra feira, da UP), no meio daquilo tudo, descobriu um livro chamado Retrato do Artista Quando Jovem aos Pés da Rainha Santa Isabel de um tal de João Damasceno. Poemas. E gostei de dois, na altura, que copiei e encontrei hoje perdidos num guardanapo guardado num 8 volume dos meus Pensamentos Ligeiros… Aqui ficam:

4 ordens de fuzilamento:

2.ª
Apontem-se canhões nucleares
ao firmamento

fuzilem-se as estrelas

3.ª
Encostem-se as montanhas
e os rios
os planaltos, os vales
a um muro de tijolo
e cal

vendem-se-lhes os olhos

fuzilem-se

quinta-feira, abril 17, 2008

depois da procrastinação...

tenho andado ocupado, mas ainda assim deu para comentar um outro blog e enviar uns emails a amigos. ocupado porque ando a ler muito sobre Saramago para a exposição, porque andei a ler sobre Maria Ondina Braga para fazer o resumo para o Colóquio Macau na Escrita, Escritas de Macau (ainda falta rever artigo de Guimarães Rosa para Berlim e resumo de outro sobre ele para o colóquio sobre a memória), e ainda escrevi mais uns contos... e agora é só para dizer que vou ter de recusar o TETRA porque há um impedimento legal de estar a trabalhar noutra coisa enquanto sou bolseiro. e assim fico com a exposição, o EILC em Agosto e depois logo se vêm, ou IC ou bolsa de doutoramento (tenho mesmo de apressar a minha entrada no CLEPUL), se correr bem a coisa, ou como recurso, o voluntariado em Moçambique.


para as meninas que gostam de procrastinar, vejam lá se começam a participar em colóquios e coisas do género. é bonito e fica bem no curriculo. têm aqui alguns exemplos de actividades. e de revistas on-line onde publicar sobre literaturas em língua portuguesa: sarará e crioula. e ah, a Consti acabou o curso, já foi há umas semanas, mas lembrei-me agora. mas como é teimosa, vai fazer melhoria de teoria da literatura e de história da língua, e eu acho bem.


entretanto acabou o E=MC², vou ver se ainda faço mais alguma coisa antes do jantar...

domingo, abril 13, 2008

Paulo Teixeira e Caspar David Friedrich

Mais leituras desinteressadas que dão a ilusão de adiar problemas, decisões, partidas e chegadas. Mas desta vez quis fazer bem, ver a inspiração dos poemas - diz na última página do livro, e lá fui procurar na internet as pinturas. Já conhecia algumas, outras não. Gostei de três poemas, fica aqui um e uma parte de outro. O outro fica para a próxima Páscoa. E as outras pinturas de que gostei muito podem ser vistas neste sítio.



Mulher à janela


Ela queria tomar o partido do visível,
a visão como vela armada para a viagem,
tensa como a corda do arco
na suspensão do gesto inocente sobre a seta.
Debruçada, num ofício de corpo presente,
viu passar toda a blandícia na brisa.


Agora recolhe-se ao copo facetado
de que uma só face dá para o mundo
como a alma no azul escuro de um vitral,
o vinho quente no fundo de um cálice:
o quarto onde guarda o estojo da sua vida
com o sombreamento do dia no soalho.


Exasperada pela cintura de gelo da vidraça,
para onde declina lentamente a face,
estenderia o braço se o ser em cada coisa
lhe fosse dado tocar: o mundo
de que ela fosse mais que o alto-relevo
fixo para sempre na moldura da janela.



O Viandante sobre o mar de névoa

(...)

II

Ele subiu acima da murmuração e da bruma
e do que amadurece à flor da terra
inculta, seguindo a pista dos animais
na neve, com paixão e pavor na subida
no primeiro segundo patamar
gravou a quietação prometida;
foi acima do último cantão povoado,
por montes nimbados como ilhas,
fundear a alma nesta enseada
onde ver é tudo à transparência do ar.

(...)

Paulo Teixeira, Túmulo de Heróis Antigos, Caminho, p.9, 26

quarta-feira, abril 09, 2008

José Luís Peixoto

Ou: Procrastinação - poemas favoritas das leituras do dia de hoje III

o escritor

ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.

ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeiro
sobre as palavras escritas.

ele disse amo-te.

ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.

ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?


*****
mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome.


*****
a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.

mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.


*****
devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.


A Casa, a Escuridão, Temas e Debates, p.31, 33, 48, 66



P.S. - para a minha prima Rita, que sugeriu e insistiu, a foto do autor...

António Cardoso

Ou: Procrastinação - poemas favoritos das leituras do dia de hoje II

Necrologia

A poesia está ai, em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...

Para exemplo
de pura ocasião
a poesia está, todos os dias
na necrologia dos jornais:
é crianças e mais crianças...
Na relação dos feridos
nas catacumbas das prisões
e nos bancos dos hospitais:
"acometido de doença súbita
no Musseque Lixeira,
foi transportado na ambulância,
Domingos João, que morreu
hoje, Quinta-feira."

A poesia está ai, disfarçada em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...

E, até por ironia,
está escondida na necrologia dos jornais!...


Escola Matemática

Repressão + ódio = a
+ dia – dia, liberdade!

Economia política, poética, Plátano Editora, p.69, 65

Fernando Sylvan

Ou: Procrastinação - os poemas favoritos das leituras do dia de hoje I

Infância

as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos

a praia e o mar das crianças não têm fronteiras

e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes

mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar


Meninas e Meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?


15

As flores mudam de cor
quando lhes tocas e falas.


A Voz Fagueira de Oan Timor, Colibri, p.33, 61, 83



Houve ainda tempo para bebericar um pouco de le thé des écrivains...

Procrastinação

Há dias em que em dá para isto. Em vez de cumprir deveres - e eles são agora muitos, procrastino. Eu não era assim; é o que dá quase dois anos de muito pouco para fazer, só andar num mestrado que podia ter sido mais bem aproveitado, talvez... mas eu também gosto da pressão. Mas em vez de acabar primeiro capítulo da dissertação, ou rever livro para o concurso da Teorema/FNAC, ou preparar resumos para duas comunicações (uma sobre Macau e outra sobre a Memória...), ou ler sobre Saramago (bem, a dizer a verdade, li em dois dias e mais meia hora As Intermitências da Morte, que adorei), perdi-me na tarde a ouvir três cds de Katie Melua (finalmente consegui ouvi-los todos), a ver blogs e a ler... poesia.
E respondendo a uma dúvida da Denise: o Paulo avisou-me de que o IPLB andava à procura de uns mestrandos/mestres interessados em participar como monitores na exposição A Consistência dos Sonhos, sobre a vida e obra de José Saramago, na sala da galeria do Rei D. Luís, no Palácio Nacional da Ajuda. Fui escolhido e lá vou passar os próximos três meses na capital, a trabalhar e a ver se despacho também a dissertação...
Entretanto, fiquei em terceiro lugar (para três vagas) para o projecto TETRA. A lista definitiva ainda não saiu e não sei se fico mesmo, e tenho de rever alguns dos pontos do regulamento que me podem pôr entraves em outras coisas... É melhor ver com atenção.
Procrastino para o próximo post o resultado da leitura de uns livros de poesia...
P.S. - tenho de agradecer ao Paulo a indicação da exposição e à minha (Fada)Madrinha por me ter impelido a concorrer ao TETRA.

sexta-feira, abril 04, 2008

II 14. Geografia e ontologia



Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

Dantes o mundo era da medida do seu alcance: o que podia ver e sentir e o que podia imaginar, o que não era muito. Tudo se reduzia então à rua onde vivia toda a gente que conhecia, à escola do seu irmão, à padaria, à mercearia, à igreja e aos campos que o rodeavam. Era feliz com a sua maneira recatada de ser, enfiado em salas que lhe pareciam sem fim, entretido com a sua própria fantasia. Depois começou a questionar o mundo. Ou antes, a chatear os adultos por causa do mundo.
Por exemplo, fazia-lhe confusão as pessoas serem pequenas ao ponto de caberem na televisão ou no rádio. E como eram capazes de fazer tudo o que faziam naquele espaço tão pequeno. Depois foi percebendo que era por uma outra maneira que prendia a nossa imagem e o nosso ser completo e o dava a ver ou a ouvir através dos aparelhos ligados à corrente. E percebeu-o quando o seu pai se decidiu elucidá-lo, fazendo gravações consigo que depois pôs na televisão e no rádio. Só não percebeu depois como aquilo funcionava, a cópia ser produzida tão fielmente, e teve medo que aquilo desgastasse o seu ser verdadeiro e pediu-lhe para que não o voltasse a fazer. Enquanto ele não percebia o funcionamento das coisas eléctricas e ainda efabulava a vida das pessoas pequenas dentro delas, a sua mãe costumava dizer-lhe que não podiam ter as duas coisas ligadas ao mesmo tempo porque as pessoas não podiam fazer tudo ao mesmo tempo nem podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ele dizia que deviam ser outras e então ela dizia que era um desrespeito de umas com as outras, pois ninguém se entenderia nem daria o devido valor. E assim convenceu-o a desligar ou um ou outro, e em determinadas alturas a desligar quer um quer outro, porque também as pessoas precisavam de fazer ó-ó. Ele achava aquilo tudo muito estranho porque não eram uma família com muito dinheiro e não sabia se podiam pagar a muita gente para estar ali metida na televisão e no rádio deles. Mais tarde descobriu que os outros meninos também tinham televisão e rádio, e que até eram as mesmas pessoas e achou que de alguma maneira elas mudavam de casa para casa, o que já devia ser mais barato a dividir por todos, ou eram outras muito parecidas, o que não explicava o dinheiro mas resolvia o problema grave da simultaneidade (não com estes termos, claro).
Depois foram as línguas. Porque havia pessoas a falar de uma maneira que ele não percebia? É que não entendia nenhuma palavra. Ele achava que aquilo era só para irritar e obrigar as pessoas a ler as legendas. Mas ele não sabia ler e não percebia as palavras. Às vezes a mãe lia em voz alta para que ele pudesse seguir, outras vezes não. E isso deixava-o frustrado e fugia então para o seu recanto favorito, o vão das escadas que era suficientemente grande para ele entrar e suficientemente pequeno para que mais ninguém o conseguisse.
E essa era precisamente outra questão que o inquietava: o espaço. A relação dos corpos com a imensidão do vazio. Mas ainda mais, a própria imensidão lhe metia medo e por isso se refugiava em espaços exíguos. Não conseguia perceber a imensidão: para que tanto espaço se éramos tão poucos? A aldeia era grande de mais. Todos se concentravam numa única rua – depois eram os campos a perder de vista. Mais tarde viria a perceber que eram necessários para que pudessem viver. E o rio era também um mistério. De onde viria, já que ele não o via surgir de lado algum e sem fim, sempre longe do alcance da vista e das fronteiras a que se permitia ir? Mas no fundo nenhuma destas questões verdadeiramente o inquietava. Esquecia-se delas pouco depois, satisfeitas, ou não, pelos pais.
Um dia saiu de carro com os pais. Era necessário ir a um outro sítio que ele ainda não conhecia. Viu assim passarem a seu lado imensidades desconhecidas. Outros muitos carros, outras muitas casas, outras muitas pessoas. Os minutos no relógio de pulso que ainda não sabia ler completamente iam passando. Desfilavam no seu pensamento as dúvidas sobre o espaço e a imensidade. Mas ele não podia saber de longitudes e latitudes, da imensidade da Terra, seus cinco continentes, seus cinco mares e seus quatro cantos, e do infinito do universo em constante expansão. Era algo que não podia conceber, ainda. Mas ele lá teria as suas próprias explicações. Por fim, pararam. À sua frente abria-se um campo amarelo, e depois um campo azul em movimento.
- Mãe, o que é isto?
- Isto é a praia. É aqui que o rio tem fim. No mar.
- E o mar, onde tem fim?
Mas o mar não tinha fim. Pelo menos assim lhe disse a Mãe, enquanto esperavam pelo pai que fora estacionar o carro. A Mãe deu-lhe a mão e foram pisando a areia.
- O mar cheira bem.
- Cheira a novo – disse a Mãe.
Enquanto se enterravam a mãe disse-lhe um segredo, talvez o maior de todos: nada havia mais no mundo senão ele, tudo era construído por eles para o filho, para que ele pudesse ser feliz e haver mais coisas com que crescer. Línguas, outras pessoas, rádios e televisões, terras. Nada disso existia a sério senão eles os três. E daquela vez lembraram-se de criar o mar e por isso ele cheirava tão bem e a novo. Ele sorriu:
- Eu sei.

Explicação das árvores


Morrem sós pelos caminhos
caem na terra que as fez subir
ardem na noite sonâmbula
e gemem na dança das correntes.

Contra elas me abraço
para nelas não me enforcar.