quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Sortes

Há momentos assim, de sorte, muita sorte. Segunda lá fui eu para Lisboa. Enquanto o mundo parecia destruir-se para aqueles lados, eu ia dormitando e às vezes lendo Baía dos Tigres (de Pedro Rosa Mendes), completamente ignorante. E quando cheguei não dei por nada. Está bem que chovia um pouco, mas nem trânsito, nem inundações, nem nada de nada. Melhor.

À chegada à Gare do Oriente, Feira do Livro da Caminho. Na verdade, quase nada da Caminho, mas enfim. Muito parecida com o conteúdo da feira do Mercado Ferreira Borges, no Porto. Mas ainda assim comprei três números da revista Ficções (9, 10, 11) por três euros cada, e quatro livros de Enrique Vila-Matas: Longe de Veracruz, História Abreviada da Literatura Portátil, Filhos Sem Filhos, Bartleby & Companhia – mas o melhor é que o conjunto tinha marcado o preço de 12.5€, mas quando ia pagar fui informado que na verdade os quatro, juntos, custavam 3€!!! Fiquei contente por comprar o último conjunto que lá havia (Patrícia, não sei é quando vou ler, mas Bartleby & Companhia parece-me que tem muito a ver com uma fase que passei recentemente, e Filhos Sem Filhos parece-me muito próximo de alguma da minha ideologia quanto a descendentes…).

Tive ainda sorte de a minha tia estar ainda em casa de tarde. Não me apeteceu ir para a FLUL, lá fiquei… Sorte de ficar sozinho e rever a comunicação. Apercebi-me de que estava grande (mais 5-6 minutos do que o tempo dado) e lá seleccionei umas coisas a não dizer.

Sorte no colóquio. Adorei as comunicações, e até as de língua inglesa me foram perceptíveis. Explico-me: estávamos a falar das relações entre Direito e Literatura, coisa que nunca estudei (apesar do meu ex-relacionamento amoroso com certa pessoa dessa área) a não ser de propósito para a minha comunicação – e percebi o sentido das comunicações, as relações, os problemas…

Sorte ainda porque estava lá uma pequena feira das publicações do Centro de Estudos Comparatistas. Lá comprei 7 números da revista Textos e Pretextos por apenas 8€, no total. Falta-me apenas os números sobre Herberto Hélder, Eugénio de Andrade (que cá para mim estão esgotadas) e o mais recente, sobre Manuel Gusmão. E enquanto esperava que a coisa começasse, já carregado com as revistas, programas, resumos das comunicações, canetas e pasta do Colóquio, passei os olhos pelos índices. Se do Paulo eu sabia haver um artigo na revista sobre Eugénio de Andrade, da Denise fiquei a saber que já publicou (pelo menos) no número sobre António Ramos Rosa e no outro dedicado a Chico Buarque. Ainda não li nenhuns, mas eu prometo ler o mais breve possível (podem ler-se alguns artigos aqui).

Sorte ainda pelo facto de as sessões paralelas serem três, ao mesmo tempo (como denuncia o termo «paralelas») e assim a assistência ter-se dividido, preferindo a sessão em Inglês. Na minha foram 18 pessoas, mas noutra só estavam cinco… Mas sorte porque um dos professores que ia falar na minha sessão não pode vir. Então eu e a juíza brasileira (muito simpática, descontraída e competente) Mônica Sette Lopes ficámos com mais tempo, orientado pela também muito simpática e, convenhamos, bonita, professora Cristina Nogueira da Silva. As reacções à minha comunicação foram as esperadas: risos em alguns momentos (pelas maluqueiras dos romances), e reflexões em torno do dissídio interior. Apenas uma pergunta no fim, que me deixou um pouco atrapalhado, mas que resolvi em cinco frases. No final alguns, da assistência e as senhoras que partilhavam a mesa comigo, deram-me os parabéns e disseram que queriam ler os livros - o meu principal objectivo. Houve até quem me tivesse perguntado se este era o tema da minha dissertação – e eu disse que não, que não percebia nada de direito e coisas assim... mas as senhoras da mesa e esse assistente disseram que eu até percebia do que estava a falar (graças à internet e à investigação que tive de fazer). No fundo, eu era o puto maravilha lá da zona, que falava de coisas que ninguém conhecia. As literaturas africanas realmente são o meu futuro… acho que fui seleccionado para o colóquio mesmo por causa disso: o desconhecido que ainda é a literatura africana (lembrei-me agora da festa de casamento da Joana em que um dos convivas da minha mesa em perguntou com um ar meio curioso meio escandalizado: Há literatura em África?, depois de eu ter dito que era isso que estudava no mestrado).

Sorte nos transportes todos. Uma maravilha. Sorte na biblioteca – pude requisitar um livro só de fim-de-semana numa terça-feira…
Só não tive a sorte de puder ficar até ao fim. A dentista esperava-me quinta de manhã, na Régua. E para voltar a tempo tive de apanhar o autocarro das três e quarenta e cinco em Sete Rios. Ou seja, já não assisti à tarde do segundo dia, nem à comunicação de uma das minhas professoras do Porto – Maria de Lurdes Sampaio.

Fico por aqui. Não falo em particular de comunicações ou de oradores, até porque gostei de quase todos. Mas agradeço à organização, na pessoa da Sónia Ribeiro pelo voto de confiança, pela simpatia, pela disponibilidade.

Termino com as palavras da Su em sms: «Vai correr bem. Tu és bom. O resto são coisas em que nos fizeram acreditar, que nos iludiram. Não há presságios agoirentos, não para gente iluminada como tu. Boa sorte» (momentos antes de entrar para a minha sala, vendo um pássaro aflito tentar sair do corredor da FLUL, enquanto eu tinha um momento de recuo no tempo, voltando ao momento em que um pássaro estava preso no corredor da FLUP e batia contra os vidros, no dia em que me inscrevi no estágio e escolhi a Boa Nova como escola…). A Su percebe-me melhor do que ninguém. Mas não era uma gaivota!
*************************
Dois pequenos fragmentos da minha comunicação «Os direitos e as leis: Os Dois Irmãos de Germano Almeida e Quantas Madrugadas Tem a Noite de Ondjaki»:

«Votado ao ostracismo pela comunidade, uma vez que fica invisível nela e para ela (ID, p.77, 127), a personagem tem de optar entre o amor do outro e o amor de si. Na perspectiva do direito natural, de tradição, não é um simples ajuste de contas, mas um exercício de justiça – a que o pai de ambos, vítima e réu, não recusa, antes incita, sabendo que depois fará o luto - e a que a mãe tenta fugir mantendo os dois, o que não está previsto no romance. Segundo a ordem positiva, André não podia matar o irmão, porque é um crime, mas segundo a ordem natural, André não podia não matar o irmão - por necessidade de desagravo sem outras justificações.» (p.3 do artigo)
[...]

«Ondjaki encena uma conversa entre um homem que fala e outro que vai ouvindo e, perante a noção da inverosimilhança da história que vai contar, o narrador tem a necessidade de alertar o seu ouvinte:

Uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um Carnaval? (QMN, p.16)

ao mesmo tempo que remete para a ideia de verdade para o leitor, não no plano da história contada, mas da possibilidade de tal acontecer por retratar a verdade (a sua verdade) dos vários sistemas convocados, dando já a pista de leitura de que o relato será do domínio do carnavalesco ou subversivo, embora real.» (p.8 do artigo)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Diálogo alemão-português com interferências em inglês...

- Diz-me o que vês. Na tua língua - disse em Inglês, a meu lado.

Da cama, eu via o tecto.

- Tábuas: umas para dentro, outras para fora, em relevo. Pintadas de branco. Imperfeitas, com nós, mal cortadas, com mossas. Desfilam de uma ponta à outra sem interrupções - parei, no meu Português que tentava ser claro.

Sem mais, deitou-se em cima de mim, corpo com corpo, peito com peito, faces a dois centímetros, e disse:

- O que vês agora? - em Inglês.

- O rosto com quem queria passar o resto da minha vida - em Português.

Não sei se me percebeu, mas disse-me em seguida em Inglês:

- Agora é a minha vez.

E saiu uma formulação incompreensível em Alemão. Ri-me um pouco, do discurso sem sentido para mim, da pressão que me fazia o seu corpo, numa tentativa vã de aliviar o peso do momento. Riu-se também. Ia dizer qualquer coisa, mas arrependeu-se. em vez disso, apertou as minhas mãos nas suas e beijou-me. Beijámo-nos pela primeira vez, como se fosse a última. E foi. Pelo menos para já...


em dia que seria de namorados. em que o sonho se mistura com a realidade, ou a realidade é tão boa que parece sonho. de amor que nem sempre tem de se realizar para permanecer eterno, ou que tem apenas de se realizar numa outra coisa que não a vida consciente para que se ganhe novo fôlego. ou porque.

outro prémio


PRÉMIO AMIZADE
Lugares de afectos, reais e virtuais, que visito e me visitam amiúde e me enchem o coração


A Denise, amiga que fui conhecendo melhor através do seu excelente blog, Rabiscos e Garatujas, seguiu o exemplo do Felizes Juntos e lá me deu um prémio... Do meu blog disse: «Tulisses - Do TUlinho, onde vai experimentando as suas aventuras literárias».



Obrigado!
*
Nota: a pedido/ordem da Denise, e porque realmente tem razão, aqui fica o destaque aos ícones feitos pelo Paulo. São realmente extraordinários! Por isso mesmo é que usei as imagens nestes posts!

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

II. 10. A adivinha

Ao deitar-se sozinha mais uma vez, a adivinha ouviu um cão ladrar aflito passando pela sua janela. Não pôde deixar de pensar, Hoje vou morrer. Mas o sono tomou conta dela nos seus braços e embalou-a. No dia seguinte, ao acordar, a vizinha entrou-lhe pela casa adentro com a notícia de que o seu marido morrera na guerra. Ao saber que o seu amado morrera, apercebeu-se de que não se enganara no vaticínio e sorriu como os mortos podem sorrir.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

prémio



O felizes juntos premiou o meu blog na secção Leitura Deleitável (faz pensar? ai que chatice!). Do meu Tulisses disseram: «porque vale a pena».


Talvez valha. Obrigado.


Mudanças

De volta a casa. É bom voltar às minhas pessoas e coisas. Os meus livros todos à minha volta. Sei que daqui a uns tempos já vou estar outra vez a desejar estar no Porto. Mas o que eu quero agora é exilar-me em Lisboa... Por causa do mestrado, claro. Entretanto, vou mudar o meu quarto de cá: a disposição dos móveis não (fiz isso há meio ano, ou coisa que o valha), mas pelo menos alguns objectos, organizar os livros (entretanto comprei tantos no Porto que ainda não os consegui encaixar em lado nenhum, a não ser numa caixa debaixo da cama (horror dos horrores).
*
Concorri a uma bolsa da FLUL.
*
E mudei o meu modelo do blog. Após quase três anos de Scribe (criado por Todd Dominey), alterei-me para o Minima Lefty (criado por Douglas Bowman), porque acho que o branco e sua luz me dizem mais (dizem-me mais, ou melhor, dizem mais de mim) do que o castanho mais clássico.

sábado, fevereiro 09, 2008

da minha vida



Em breve, relatos deste mês de EILC, de Porto, de presença física de amizades, de trabalho (ou nem por isso), de muitas gargalhadas e algumas lágrimas... Como o de Agosto, também recheado de imagens, um relato exaustivo... porque eu sou breve em tudo o que escrevo, menos na vida (ah ah, era para rir).

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Explicação do Sexo

há nas costas um movimento
inquieto
de ritmo sempre quebrado e refeito

tão longe quanto posso ir
percorro o corpo
num gesto imperfeito
de saber o mapa do ponto
de não retorno

mãos e bocas em regresso
até onde consigo ir
para que seja perfeito o momento?

(embora não tenha a certeza de que este poema deva aqui figurar, foi o primeiro em muito tempo)

II. 8. A prisão mental



Estou aqui, preso.
Da vontade, do sonho _________________ do sangue. A fulguração persegue os meus limites.

Quem dirá o estertor dos fins?

A mão que pulsa é também a mão que bate e procura fender o espaço. Os ruídos que saltam esvaziam-se de encontro a mim. O saber que me invadia não sonha o sangue que se derramará.

As noites em que te procuro são círculos cujo centro sou ainda eu. E os círculos fecham-se no meu eixo, sem rotação alternativa. Os dias são triângulos, quadrados, hexágonos, figuras em que me perco de encontro aos espelhos, onde me vejo de _________.

Quem dirá o estertor do fim?

Preso em figuras como se fossem reais. E são grades mais grossas do que cordas, em que a luz se derrama sem entrar. Espaço fendido como sexo que não se abre, que não se dá ao desconhecido. Assim a mente
fechada
sem limite
demarcando o meu corpo sitiado.

Os fins de mim nos fins das figuras mentais. Para daqui sair o que é possível. Quem auxilia a fuga morre __________ menos a solidão. Só há império do vazio. Bate a mão sangrenta em busca do sexo fendido, de uma , de um vazio que lhe dê ar novo, luz, que lhe permita transferir-se, átomo a átomo para o exterior.

O círculo que é fechado não abre, não tem lados nem ângulos. No escuro, perco-me e ando quilómetros em torno dele, procurando uma fresta. O corpo que choca é também o que pulsa, cada vez menos, preso no escuro do vazio que cega.

Quem dirá o estertor
quando os meus limites forem o fim
e eu daqui apenas sair quando não existir mais?

A cegueira prolonga-se à mão que bate, ao corpo que choca. Sentado no meio – ao que me parece o meio do vazio – encolho-me para me desaperceber
e me esquecer que existo dentro de mim
desfulguro-me de saber se é já hexágono, se os espelhos reflectem o meu corpo feito chagas e silêncios.

Não é círculo, é como uma laranja. Ganha volume, fecha-se sobre o cima e o fundo. Cilíndrica morte por clausura. Laranja forrada a vidros que vêem e dão a ver ao cego que lá mora _________ ou morre.

No meio ou quase
fulgura a luz de uma brecha.
É o momento de cerzir. Se a mente criou uma laranja,
essa laranja terá
de
cair
ser aberta, ser comida
apodrecer.

Os limites da laranja são os meus limites escritos num texto como se dito ele existisse. O fim da laranja é o meu início, o meu sangue é o sumo da laranja. A pele da laranja é os espelhos que quebrei à procura de brechas. E a casca da laranja é onde me aprisiono

do medo?
dos outros?
de mim?

Quando a laranja cair de madura, serei um sexo fendido, sangrando ___________ serei o outro que em mim vive. O corpo na mente varrerá o vazio para debaixo de um tapete e nele restará.

No momento em que durmo e o sonho não chega ainda, encontro a brecha da laranja que caiu e se rasgou numa pedra. Na fenda que fez, vejo a luz que cega e um frio fresco. É agora ______ que o vazio espera do outro lado também.

A morte terá de esperar.

Deixo-me sair, são as regras da laranja imaginada.
Mas quero sair?
Quero entrar no novo que me cega e me dobra?

Quem dirá o fim?


Depois de ter lido Onde Vais, Drama-Poesia?, de Maria Gabriela Llansol. Tentativa de experiência a partir de alguma coisa parecida com o que ela faz. Afinal este conjunto de contos é isso, experiências… Resultou estranho, é certo. O aspecto gráfico-visual tem toda a importância, mas aqui não ficou muito bem, nem todos os parágrafos e espaço são assumidos…

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Sugestões de Janeiro

Janeiro foi um mês atípico. A viver no Porto por causa do EILC, o tempo não foi muito. Mas aproveitei o comboio aos fins-de-semana e o metro todos os dias para ir lendo. Coisas pequenas (os dois primeiros li na semana antes de começar a trabalhar) para não quebrar muito as leituras... Quanto à música e filmes, ouvi e vi mais, mas estes foram os mais marcantes. Eu sei que não sou muito actualizado, mas no meio de tanta coisa que vai surgindo, como é possível? De qualquer modo, ficam aí sugestões para quem quiser aproveitar, para o bem e para o mal...


Livros:
1 – Bíblia (Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria)

Argumentos: é a Bíblia, não são necessários argumentos. Mas estes livros são dos mais interessantes... *****


2 - Harry Potter e os Talismãs da Morte, J. K. Rowling, Ed. Presença

Argumentos: a imaginação de um mundo alternativo não desilude. É necessário responder a todas as questões pendentes, e criar novas, e responder a estas. O final pode ser estranho, mas se calhar era mesmo necessário. A interligação de todas as coisas está muito interessante, e tem passagens de raciocínio muito interessantes. *****


3 - Porto-Sudão, Olivier Rolin, Asa

Argumentos: «e escrever seria então tentar orquestrar esse puro rumor do caos»p.41 ou «escrever teria sido compor música entre a desordem e o silêncio eterno»p.41. É um livro pequeno de uma grandeza avassaladora. Reflexões sobre a escrita, o amor, África... Dificilmente a ausência e o abandono terão sido escritos com tal força. *****


4 – Platero e Eu, Juan Ramón Jimenéz, Ed. Livros do Brasil

Argumentos: de leitura fácil para dias complicados de metro e autocarros, pequenos textos descritivos ou narrativos, com impressões e aventuras mais ou menos imaginadas. Predomina a tranquilidade e a ternura. «se um dia eu me deitar a este poço, não será para me matar, acredita, mas para agarrar mais depressa as estrelas»p.77. ****


5 – Os Funerais da Mamã Grande, Gabriel García Márquez, Quetzal

Argumentos: «olhou de imediato à sua volta, como para se reconciliar com a solidão»p.122. Sete contos e uma novela curta, passadas em Macondo e na sua região, com personagens e episódios reconhecíveis de uns contos para outros e para outros livros do autor. Muito interessantes, no geral. ****


6 – O que Diz Molero, Dinis Machado, Círculo de Leitores, ed. especial

Argumentos: história fragmentada de um rapaz, suas aventuras e desventuras, viagens e conquistas, dadas por dois discursos a partir de um relatório. Além de uma organização textual inovadora, uma história bem humorada. «quem sou eu para saber qual o peso de sombra necessário para construir a claridade de um verso?»p.104 *****


7 – Poeta Militante I, José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores

Argumentos: poesia aparentemente fácil, insatisfeita com a realidade objectiva e com a radizalização interiorizada das suas próprias observações subjectivas, com uma visão muito particular das temáticas abordadas, impõe uma irracionalidade poética única. Destaque ainda para os parêntesis: «(Homens: porque não nasci apenas no espelho,/sem alma deste lado?)»p.53; «E andamos nós, há tantos séculos,/ a iludir a nossa solidão/ com vozes de estrelas»p.290; «A realidade/ não é o que vejo/ mas o que imagino/ para ser verdade»p.321... *****



8 – Balzac e a Costureirinha Chinesa, Dai Sijie, Terramar

Argumentos: história de dois amigos burgueses que têm de ser reeducados e são enviados para um campo numa montanha. Mas descobrem o fascínio dos livros, o amor, o sexo... Não só Balzac, mas a literatura como forma de evasão, formação, libertação, reconstrução de vidas. Também adaptado ao cinema, numa realização do próprio escritor. «Os meus livros preferidos eram os de contos, que nos relatam uma história bem encadeada, com ideias brilhantes e às vezes divertidas, que que nos deixavam sem fôlego, histórias que nos acompanhavam durante toda a vida»p.94 *****


9 – Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez, Tabajara Ruas, Ambar

O narrador/personagem criança vive um Sábado que muda a sua vida e o inicia na idade adulta: «Quando o coração da gente se despedaça em um montão de pedacinhos»p.44, através das responsabilidades do futebol, da descoberta do corpo feminino, da morte do tio perseguido pela justiça... ****


Argumentos: uma série despretenciosa sobre a procura do amor nos lugares mais inesperados. Liderada por Anne Heche e com um elenco bastante interessante, a série alterna os momentos cómicos com momentos de ternura. Uma maneira interessante de começar a noite de sexta, mas, pelos vistos, está a acabar. *****

Música:
Rodrigo Leão.

Argumentos: por tudo - beleza, qualidade, harmonia, capacidade de despertar facilmente sentimentos de paz, melancolia, inquietude. Destaque para, claro, Alma Mater, Cinema e «Voltar» de O Mundo. *****


Cinema:
Expiação

Argumentos: realizado por Joe Wright, com Keira Knightley, James McAvoy, Romola Garai, Brenda Blethyn, Vanessa Redgrave... Adaptação do romance homónimo de Ian McEwan (de quem gosto muito), com uma banda sonora muito interessante, marcada pelas batidas da máquina de escrever, com uma estrutura pouco habitual e relações densas (embora o livro, claro...). Com argumentos para reconhecimento e premiações. *****

domingo, janeiro 27, 2008

II. 4. O Mergulho

«se um dia me deitar a este poço, não será para me matar, acredita, mas para agarrar mais depressa as estrelas»

Juan Jamón Jiménez, Platero e Eu


Da maneira como as pálpebras teimavam em cair, como que puxadas por algo invisível, firmadas por um peso crescente e irresistível, ele deveria estar próximo de os fechar a sério. Ainda assim, ele tentava evitar que isso acontecesse a todo o custo: com, a mão livre, dava pequenos estalos na cara, esfregava os olhos, primeiro um, depois o outro, e arregalava-os, mas ainda assim, estes teimavam em fechar-se sedutora, irremediavelmente. O frio entorpecia os gestos e as bofetadas eram menos violentas com o tempo, e o esfregar os olhos era quase uma carícia desconexa, distraída, vacilante. As pernas entorpeciam e deixavam aos poucos de obedecer à sua vontade de as pendular para as aquecer. Por um breve momento, os olhos fixaram-se no mar. A luz da lua coava-se nele, reflectida. Era a única luz que impedia o avanço total das trevas, mas nos olhos dele nem sempre distinguiam já a luz da sombra e do medo. Os gestos pararam, os olhos foram-se fechando e reparou então, no momento exacto da transição de mundos, que não ouvia nada, nem sequer os ramos das árvores. Nem sentia o vento que via nas folhas. Nem cheirava nada, como se o mundo estivesse limpo de tudo. Mas de um momento para o outro, tudo voltou ao mesmo tempo, recordações do imediatamente anterior, da vida passada, do presente momento no meio de uma batalha estúpida em que se metera por desgosto amoroso e que agora lhe custava a vida, pois tinha consciência agora, agora que também os sentidos lhe voltavam com a dor imensa que dividia o seu corpo em dois, que não poderia nunca resistir ao ferimento que lhe desfizera a perna direita contra a fachada da igreja gótica que se erguia abruptamente sobre o desfiladeiro. E não pendulava as pernas porque não as tinha, pelo menos as duas. E sentiu de repente o odor dos suores, do mijo, dos corpos mortos, do fim da vida que sabia estar algures por ali, à sua volta. A Morte saciava-se das vidas que ia recolhendo, sem fim. A noite erguia-se do fim do mundo e avançava para o outro lado. Mas havia lua e estrelas. Havia uma luz que impedia a escuridão. Para ele era bom, sempre via por onde podia andar ou não, quando conseguisse ganhar algumas forças, embora assim pudesse ver também os cadáveres de amigos e companheiros. A lua começava a esconder-se atrás da igreja, que era agora uma ruína, feita de destroços de pedras, madeiras, corpos... As estátuas austeras espalhavam-se grotescas pelo que restava do corredor, parcialmente destruído, com os granitos decompostos nos seus elementos misturados com sangue. Um dos braços da cruz já não existia, enquanto a outra, ironicamente, se mantinha intacta, embora coberta de pó. Dessa parte da igreja vinha alguém agarrado ao um braço. Os olhos do primeiro, molhados de lágrimas, fitavam o céu e a sua escrita brilhante. Os sentidos tinham-se fechado novamente, concentrados na vida passada. Não vás. Não precisas de ir. Esta guerra não tem nada a ver connosco. Bem sei que tens um coração do tamanho do mundo a dobrar, mas não precisas de ir. Ouve-me, meu filho, não vou conseguir perder-te por uma coisa que não nos diz respeito. Esta não é a tua guerra, esse não é o teu país. Nos olhos dele brilham agora as lágrimas da mãe, escorrendo agora pela sua face. Tinha noção de que tudo não passar de uma forma heróica de suicídio, sem que ninguém percebesse a atitude como uma desistência da vida. Lutar, lutar pelos oprimidos, pela liberdade! Grande disfarce para a cobardia de lutar pela vida. O segundo atravessou a igreja com o cuidado de não pisar mortos nem feridos, embora não o tenha conseguido sempre, e não tenha encontrado feridos até chegar às portas, escancaradas mas ainda no sítio, como se demarcando uma posição de impenetrabilidade a quem quisesse passar. Mas acima delas apenas um resto da fachada de pedra e um buraco enorme onde antes estaria uma rosa de vidros coloridos. Repara então no companheiro que olha o céu e tem lágrimas nos olhos. Emocionado por não ser o único sobrevivente, esquecido do seu braço estropiado, tenta ajudar o primeiro a erguer-se, como a afugentar a Morte dos seus olhos. Caramba, que combate, hã companheiro! Mataram toda a gente, os cabrões. E destruíram a igreja, os filhos da puta. E olha que era uma igreja bem antiga… Um amigo meu, professor de história e que morreu noutra emboscada, dizia que esta igreja era das mais importantes de há uns séculos atrás… Agora não é nada, nada sobrou a não ser aquela capela ali, vês? Falava à toa, empurrando as palavras e as frases como ia empurrando o tronco do companheiro lívido e a tremer de frio ou de febre, como se ao falar assustasse a Morte que por ali rondava. Nós somos aquela capela, colega. Connosco a Morte não quer nada, ainda não é a nossa vez, ouviste? Caramba, que medo tive durante o ataque! Até me borrei todo, não sentes o cheiro? Não faz mal ter medo, todos temos, não é verdade? Pois… Mas olha para mi, deixa lá o céu estar sossegado, ainda não é a nossa altura, ouviste companheiro? Possa, nem o teu nome sei… Eu sou o Pablo, e tu como te chamas? Breve silêncio, entrecortado por risadas nervosas de Pablo e gemidos do primeiro. Deixa lá, isso não é importante, quando estiveres bem lá nos falámos e depois agradeces-me… Vá, não é para aí, anda para dentro, caramba… Não tens uma perna, pois não, mas isso não faz mal nenhum, apoias-te a mim, mas deixa-me primeiro atar aqui qualquer coisa… Se quiseres arrasto-te, mas só com um braço também é complicado. Já está, bem, anda. Lá para dentro, colega, sempre está mais quente e podemos esperar que nasça o dia para ver se pudemos fugir, se os cabrões não estão por aí a vigiar para ver se fizeram bem o serviço… Chiu, está calado, que se estiverem aí dão conta de nós… E calou-se ele próprio, ao aperceber-se de que era o único que realmente estava a falar. Começou a arrastar o primeiro, que tentava reagir e parecia insistir na direcção oposta. O cheiro nauseabundo ia aumentando à medida que conseguiam percorrer a igreja. Subitamente, ruídos de carros lá fora ecoaram pela igreja. Foda-se, são eles! Depressa, deita-te para aí, finge-te morto Atirou-se para o monte de corpos, escondendo-se entre um companheiro morto e um banco. O outro deixou-se cair entre os cadáveres, mais por estar sem forças do que por temer a Morte. Uma luz varreu então a igreja. E uma voz disse que uma das capelas ficara ilesa. Entraram cinco ou seis soldados, pisando o inimigo, por vezes certificando-se de que estavam mesmo mortos. Tudo certo, tudo como planeámos. Agora é só encontrar a entrada para o túnel. Quando o encontrarem, avisem o coronel para ele dar início aos trabalhos de remoção do ouro. Os outros assentiram e dispersaram pela capela coberta de pó. No altar, um S. Miguel Arcanjo olhava com seus olhos azuis de estátua fria um diabo retorcido nas chamas a seus pés que demonstrava mais receio da espada cravejada de pedras do que o fogo eterno. Se o tal amigo de Pablo ali estivesse, explicaria que aquela estátua e a espada eram posteriores em muitos séculos à construção da igreja, mas não estava, e ninguém pareceu reparar na riqueza da espada coberta de pó. Pablo não respirava, tentando sobreviver ao cheiro e fazer não notada a sua vida. O primeiro já não ouviu a correria dos outros, a sua descida ao túnel. Mas Pablo estava atento, e mal viu que todos desapareciam inadvertidamente no túnel, correu como pode, já sem se incomodar muito com o pisar dos corpos, e tentou trancar a entrada do túnel, o que só conseguiu por, num momento de desespero, se ter virado para S. Miguel a pedir auxílio, que surgiu em forma de espada, que serviu de tranca na perfeição. Quando os inimigos se aperceberam que estavam presos e barafustavam atrás da pedra e da espada cheia de marcas brilhantes nos sítios em que as mãos tinham tocado, já Pablo e o primeiro estavam a chegar às portas. Pablo tê-las ia fechado simbolicamente, não tivesse de largar o companheiro e afastar os corpos de outros companheiros. Ajudou o outro a entrar num dos carros e tentou ligá-lo. A noite ia acabando. Pelo buraco da antiga rosa da igreja podia ver-se ainda a lua e algumas estrelas polvilhavam ainda o céu. Queria ir ter com elas. Disse o primeiro, numa voz débil. Quê? Nem brinques, não vais ter com estrelas nenhumas, ouviste? O carro há-de pegar e vamos fugir daqui… e aqueles cabrões que morram ali fechados! Vieram buscar ouro! Ouro, que ouro? O meu amigo professor de história realmente falou-me disso, mas disse que já tinha sido levado para um sítio, um museu, acho eu, por isso lá não devia estar nada… Raios partam a filha da puta da vida! E ria, da ironia, do nervoso, da tragédia, do seu corpo coberto de fluidos estranhos, da dificuldade de manobrar um carro só com uma mão, de ter escapado com um companheiro. O primeiro tinha o olhar fixo no céu que via pelo vidro da frente. O outro falava sempre, era a sua maneira de espantar o medo e a Morte. Subitamente, reparando no seu companheiro, apercebeu-se que estava no fim. Ó caralho, não me morras agora! Então, vá lá! Já escapámos, vamos direitos para o hospital, denunciamos estes cabrões e são fuzilados… Até podemos ser nós a matá-los, imagina o gozo… Não é gozo nenhum, é verdade. Acrescentou ao ver o rosto do companheiro mais sereno e ausente. Os seus olhos foram-se fechando com uma força sedutora e irresistível. Não feches os olhos, não agora, companheiro! Não agora! É só mais um bocado. E largou o volante para, com o único braço que lhe sobrava, agitar o companheiro e trazê-lo à vida. Foram uns segundos apenas, mas foi o suficiente para que o carro se despenhasse pelo desfiladeiro num mergulho perfeito de encontro às estrelas que também habitavam o mar. Estava a ver que não, sorriu a Morte.

sábado, janeiro 26, 2008

mais quatro grandes mulheres do cinema

aqui postei a minha admiração por três grandes actrizes. Aqui fica a lista de mais quatro grandes senhoras do cinema que também muito admiro. Com toda a propriedade. E também alguma arbitrariedade que os afectos implicam.








Juliette Binoche

Audrey Tautou

quarta-feira, janeiro 23, 2008

A terceira mais bela do mundo


A livraria Lello & Irmão foi fundada na Rua dos Clérigos, em 1869, na altura com o nome de Livraria Internacional de Ernesto Chardron. O actual edifício foi inaugurado em 1906, com a presença no dia de abertura de, entre outros, Guerra Junqueiro, José Leite de Vasconcelos e Afonso Costa.



Agora, o jornal inglês The Guardian considerou-a a terceira mais bela do mundo, e como muita justiça. Embora não conheça as outras, conheço muitas, mas nenhuma como esta. Ainda na semana passada, segunda-feira, dizíamos aos nossos alunos erasmus que era uma das mais bonitas de Portugal e da Península Ibérica. Já rectificámos. A reacção à notícia não podia ser melhor, claro. Aproveitem para passear por lá, mesmo que seja apenas vitualmente e não possam comprar nenhum livro...


domingo, janeiro 20, 2008

Apaixonado...


Será possível apaixonarmo-nos por uma pessoa que conhecemos há cinco dias? Com quem falámos umas três vezes sobre orientalções de transportes, cidade do Porto, e muito pouco da vida privada ou estudantil? É provável. Mas eu apaixonei-me, sem saber ainda naquele momento, assim que lhe pus os olhos em cima, assim que trocámos um primeiro olhar e se dirigiu a mim com um inglês perfeito. E quando se perdeu do grupo na baixa do Porto não foi um sentimento de perda gerado pela responsabilidade, mas sim uma dor de perda da sua presença e o desejo de que nada perdesse do passeio e que eu nada perdesse de si. E a alegria do encontro mútuo foi também mútua... É a primeira vez, em um ano e alguns meses, que alguém parece poder preencher o meu coração, não estivesse no meio a cidade de Lisboa e a Alemanha... Mesmo que impossível, mesmo que apenas uma coisa forte e passageira, mesmo que nada se realize, estou apaixonado outra vez e isso mostra-me que finalmente estou pronto para ser o outro que em mim habita.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

testes rádio comercial



A Denise seria a Abelha Maia caso fosse um desenho-animado. Eu optei por fazer o teste de saber com quem deveria fazer um dueto. Há vários testes em Rádio Comercial, bem engraçados. Extrovertido não me parece muito, depende das situações e do tempo com que estou com as pessoas... Original, talvez já tenha sido mais. Quanto ao resto, acho que deve ser verdade. Tenho muita gente a dizer «Tu és estranho» ultimamente... E eu gosto...

terça-feira, janeiro 15, 2008

a minha palavra favorita

Numa sessão do Seminário de Ensino da Literatura, a professora Margarida Braga Neves perguntou-nos qual era a nossa palavra favorita da língua portuguesa. As respostas foram diversas e surpreendentes. A da professora é madrugada, uma belíssima palavra, a da Carla crepúsculo, a do António amor, a da Denise alguidar (muito curioso), a minha mergulhar. Depois disto, de explicarmos que se tratava nem sempre de associar ao referente e ser mais pela sonoridade da palavra (evito conscientemente termos como significado/significante e assim...), andei a perguntar a outras pessoas, quando me lembrava. A Sandra disse que era rato... (sem comentários), a Patrícia gosta de lambarices, a Milai divide-se entre fado e saudade (mais portuguesa impossível) e muitas outras, mas de que já não tenho a certeza... Mas agora há outras que podia referir: azul, manhã...
Se fosse de outras línguas, diria talvez: (al)shamsu - sol, em árabe. mais pela grafia (ﺸﻤﺲ), ou indeed - efectivamente, em inglês, nzoji - sonho, em kimbundo, ostranenie - estranhamento em russo... De certeza que haverá outras interessantes, muito bonitas de todos os pontos de... realização.
Saiu recentemente um livro chamado A minha palavra favorita. Reúne vários escritores ou quase em torno de diversas palavras. Mais informações, um excerto e um debate sobre o assunto em:
http://www.centroatl.pt/titulos/solucoes/imagens/excerto-livro-ca-palavra.pdf
http://aminhapalavrafavorita.com/

Mas também há as outras, as que nos causam repulsa só de as formularmos. No seminário todos estivemos de acordo em relação a carrasco, escarro...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

apaixonado...

A música de Rodrigo Leão instalou-se na minha alma de forma total e amacia o coração. Não tenho os cds todos (só tenho Ave Mundi Luminar (1993), Alma Mater (2000) e Cinema (2004)), embora já tenha umas músicas de O Mundo (2006), gentilmente oferecidas por outrem. Eu já gostava há muito tempo de músicas como Passion, Rosa, Deep Blue, Casa, A Tragédia ou outras, mas agora há uma que não em sai da cabeça e da boca: Voltar. É belíssima. Comprei ontem o álbum Cinema (finalmente), segue-se Portugal, um retrato social, que me parece extraordinário.
pode ver-se em:

e ouvir-se em:
http://www.rodrigoleao.pt/

e ler-se aqui:
Manhã cinzenta
Faz-me chorar
A chuva lembra
O teu olhar
As folhas mortas
Caem no chão
A dor aperta
O coração
Quanto eu não daria
Para poder voltar atrás
Volta p’ro meu peito
Daqui não saias mais
Perdi-me amor
P’ra te encontrar
Na solidão
Do teu olhar
No teu olhar
Se perde o meu
Também no mar
Se perde o céu
Quanto eu não daria
Para poder voltar atrás
Volta pro meu peito
Daqui não saias mais

terça-feira, janeiro 08, 2008

Mundos em diálogo

«A sua proposta foi considerada com grande interesse e foi seleccionada para integrar um dos painéis de sessões paralelas do Colóquio Mundos em Diálogo.» e-mail da comissão

a sério? fiquei para a minha vida... e agora tenho mesmo de preparar a conferência em torno disto... deste meu resumo:

Os direitos e as leis em dois romances africanos de língua portuguesa:
Os Dois Irmãos de Germano Almeida e Quantas Madrugadas Tem a Noite de Ondjaki

Pretende-se explorar as relações de representação do Direito, numa perspectiva de índole comparatista e dos legal studies, na medida em que ambos os romances colocam questões éticas, morais e de ordem prática de uma forma problematizadora, porque mais importante do que dar respostas é a formular questões importantes que se pode chegar a uma prática por parte dos estudiosos do Direito. Em Os Dois Irmãos (Cabo Verde), de um escritor que é também um advogado, reflecte, a partir de um caso verídico da sua prática profissional, sobre a tensão entre o direito positivo e o direito consuetudinário, decorrente de práticas relacionadas com heranças coloniais e permanência de costumes e valores, que colocam a personagem principal num conflito que o parece transcender, bem como as dificuldades da prática do direito em determinadas comunidades por desadequação, desrespeito, falta de credibilidade, também presentes em Quantas Madrugadas Tem a Noite, de Ondjaki (Angola). Estes dois romances problematizam, recorrendo ao humor e à ironia, a existência de leis de estado adoptadas do colonizador sem haver uma adaptação, que se pretende discutida e cuidada, à realidade em que se inserem. Assim, e não deixando de ter inegáveis qualidades artístico-literárias que os colocam como marcos importantes no contexto de cada uma das literaturas nacionais correspondentes, estes romances podem e devem ser lidos também como reflexão mais ou menos sistematizada sobre o papel do Direito através da ficção literária.
mais info:

domingo, janeiro 06, 2008

Luíz Pacheco - 1925-2008

Luíz Pacheco: escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime de Salazar. A sua obra literária tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista". Nunca li nada dele, excepto uns fragmentos no livro Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, e pelas coisas que se dizem dele parece-me interessante a descobrir... (e neste livro pode ler-se uma nota bibliográfica humorada e descobrir que ele queria falecer no ano 2000...).


mais em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Pacheco


excerto:
«Domingo de manhã fui com a Amada para a praia nos rochedos junto do mar vi pela primeira vez o seu corpo nu feito espuma e onda. Ficamos calados (como quem esta só) escondidos de todos à beira-água (como quem a ama, apetecendo-a como os suicidas), o seu corpo cheirava a maresia (cheiraria?). Numa grande doidice de beijos e carícias leves beijei seus pés de espuma macia... em lírica, diria: pés de sereia; em realística, diria: pés de virgem (feia); em novelística, da antiga, diria: pés de deusa brinca-brincando na areia; em novelística, novíssima: patitas catitas de centopeia..., beijei seus pés; por ali mesmo a comecei a beijar. Caprichos de libertino: o corpo da Amada ficou lá nos rochedos à beira-água onda infatigável desfeito liquefeito brisa de maresia pairando no bafo quente do ar e eu guardo no meu quarto na minha colecção mais um sexo de donzela conservado em álcool e memória, numa mistura fácil de três por dois, tintos.»
Luiz Pacheco, excerto de “Os Namorados”, in: Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, p.432-3

quarta-feira, janeiro 02, 2008

2008: desejos e compromissos

1. fazer bem o mestrado (empenhando-me mais)
2. ler mais, ou melhor
3. arranjar emprego (no Porto ou no IC)
4. fazer o interrail
5. saúde e felicidades para os meus familiares e amigos
6. escrever o livro de contos e o romance
7. fazer exercício físico todos os dias
8. publicar alguns artigos de literatura
9. preencher o coração
10. passar mais tempo com os amigos
11. mimar mais o meu físico
12. estar mais atento (a tudo e nada)

segunda-feira, dezembro 31, 2007

dual

Na sexta não gostei de Memória das Minhas Putas Tristes, mas delirei com O amor no Alaska.

No sábado não vi o documentário sobre Sophia na 2, mas comprei um casaco fixe na Springfield.

Na OT não gostei que tivesse saído a Denisa, mas adorei Vânia e Ricardo, os melhores.

No domingo não gostei do bolo da festa de aniv., mas inspirei-me com o Câmara Clara (Beatriz Batarda ao poder...).

Hoje não vou à festa de passagem de ano da ana no Porto, mas fico com os meus primos a ver o Gato Fedorento.





tenho à minha espera o batido de frutas...

quinta-feira, dezembro 27, 2007

T-ARTE

As minhas duas primeiras criações artísticas vulgo "tapetes". O primeiro, para experiência e aprendizagem, é grande, azul e preto e fica a matar no chão do meu quarto, entre a cama e a escrivaninha. O segundo, mais pequeno um bocado, foi mais uma brincadeira com as cores e os trapos que me arranjaram: roxo, branco e preto. Já foi para a minha prima Rita, que se tomou de amores por ele. É viciante, terapêutico e ao menos faz-se alguma coisa útil ou bonita. Um dia destes volto a outro. Como a Particia, também eu dou nome às minhas criações. O primeiro, apesar de não ser propriamente teia (o processo é o uso de uma tela e de pedaços de pano que se vão atando sucessivamente, com nós...), chama-se Penélope, obviamente. Pela ideia de texto e pelas relações afectivas para com a figura (já que eu sou o Tulisses..., mas não só). O segundo é de outra região e, não sei se pela sugestão da cor roxa da capa do livro e do tapete, se da pureza e do oculto, pareceu-me correcto chamar-se Diadorim. E pronto, talvez ainda surjam por aí algumas Noíto, Ariadne, Ana Karenina, Lueji ou as fiandeiras de Wyrd...

Excêntrico III


Tiago, em caracteres egípcios...

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Composto de Mudança

Já está, completo e escrito, o meu pequeno livro de contos. 52 histórias, escritas ao ritmo de uma por semana, mais ou menos, durante este ano, fruto de um desejo-promessa de fim de ano de 2006 como forma de garantir alguma sanidade mental. Recuperei algumas antigas (*), mas quase todas são novas, e as que não são passaram-no a ser, de tão remodeladas que foram. Acabei mais cedo do que o previsto, porque houve algumas fases de súbita inspiração ou disponibilidade para isso, e aproveitei, para compensar alguma fase menos produtiva. Mas estão prontos. Seguir-se-á outro projecto, futuramente. A árvore já foi plantada, o livro escrito. Quase realizei o mais importante da vida de um homem… Falta... faltam mais livros!

Alguns contos aparecem aqui no blog, se bem que nem sempre no seu “estado final”:

1. Magnífico caos
2. A casa dos corações partidos
3. Estória de amor pouco comum
4. Auto(r)fagia
5. Formas de morrer-se
6. A palavra gato morde
7. Uma gaivota
8. A peça (*)
9. Sonho… ilusão… retorno
10. A estória nenhuma
11. Engatinhar-se
12. Iniciação (*)
13. Hero (*)
14. Eva (*)
15. Composto de mudança
16. Monónimo (*)
17. Maias
18. Um dia extraordinário na vida de Eduardo Afonso
19. Pais (*)
20. A eternidade
21. Caro Alberto Caeiro (*)
22. Revisitação (*)
23. O que o tempo faz (*)
24. O falso turista
25. A fotografia
26. A casa de chá
27. Pedagogia (*)
28. O deus, as escadas e o pijama
29. A meio caminho para lado nenhum
30. A casa das raposas
31. Primavera
32. Teoria das cores
33. Roteiro da perdição
34. 3g de açúcar
35. As pequenas grandes dores
36. Os finalistas
37. Pelos meus olhos
38. A ronda da noite
39. Casamento: nó e mousse de frutos silvestres
40. O prodígio de Nossa Senhora das Neves
41. Na volta do homem
42. O piolhoso
43. Sobre o mesmo barco (*)
44. Confiança e reconhecimento
45. Trazer a chuva
46. Miaugente
47. Chá para um
48. Noites de amor e de música
49. Tudo sobre os comboios
50. A luz, os olhos e o poema
51. Baixa no Natal
52. 7 vidas ou o regresso do gato

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Diversão sem fim... e nervos



Vão até:


é uma sequência de enigmas. eu ainda vou no 16... não se enervem, alguns são mais fáceis do que parecem, não compliquem como eu, no 10... o 12 é lixado, procurem na net... quem leu O Código da Vinci talvez se lembre... e o 16 deve ser parecido... Vale a pena! Se precisarem de ajuda, estou às ordens. Não consigo fazer o 19... muito mau... estou com preguiça, já pensei muito hoje, mas não sei mesmo...
comecei pela uma hora, mas parei para almoçar e arrumar a cozinha. e a sandra ajudou-me no passo 12...
Já está! Consegui! - 17:54!
Prova:

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Poema de Natal - Vinicius de Moraes



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Este ano seleccionei um poema de Vinicius de Moraes, entre os muitos que tenho em livros. Na verdade, alguém (que já significou toda a vida para mim) mo seleccionou há uns dois anos, quando o pôs a acompanhar uma prenda em forma de livro com histórias sobre gatos. Aqui fica, como importante para mim, com uma beleza própria. Recomendo a leitura de Natal... Natais - Oito séculos de Poesia sobre o Natal, antologia organizada por Vasco Graça Moura (Público, 2005), e ainda outra antologia, mas de contos, Gloria in Excelsis - Histórias Portuguesas de Natal, também organizada por Vasco Graça Moura (Público, 2003, Coleccção Mil Folhas).

Fernanda Botelho: 1926/2007

A escritora portuense, autora de poemas líricos e romances, foi uma das mais inovadoras escritoras da segunda metade do séc. XX. Publicou: As coordenadas líricas (Poesia), 1951, Ângulo raso (Romance), 1957 ; 1986, Calendário privado (Romance), 1958 ; 1986, A gata e a fábula (Romance), 1960 ; 2005, O enigma das sete alíneas (Ficção), 1963, Xerazade e os outros (Romance), 1964, Terra sem música : o livro de Pitch (Romance), 1969 ; 1991, Lourenço é nome de jogral (Romance), 1971 ; 1991, Esta noite sonhei com Brueghel (Romance), 1987 ; 1989, Festa em casa de Flores (Romance), 1990, Dramaticamente vestida de negro (Romance), 1994, As contadoras de histórias (Romance), 1998 ; 1999, Gritos da minha dança : inéditos, 2003

Dois excertos do romance Gritos da minha dança:

As meninas foram banhar-se no ribeiro, brincando e cantando com a alegria própria da idade. Dera-lhes para ali! Atrás de uma árvore de tronco grosso, viu-as refulgentes de nudez e de beleza, o jovem filho do tabelião, que por ali passava as suas férias, vindo da tabelionice da cidade do Porto, também pode ser a de Lisboa.

Eram felizes, jovens, bonitos. E ambos economistas. O Boss não gostou de os ver de mãos dadas, vinham eles dos lavabos, para onde ele, o Boss, se dirigia, já de a desabotoar a braguilha. O Boss não era feliz, nem jovem, nem bonito, simplesmente economista e outrotanto casado.


As Coordenadas Líricas

Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu

A geométrica forma de meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
— as minhas coordenadas.

sábado, dezembro 08, 2007

50. A luz, os olhos e o poema


Nos olhos do gato, iluminando a noite da escrita do poeta, podia ler-se, ouvir-se, sentir-se. A vela terminava em últimos suspiros de luz, consumida. E o poeta, via das coisas mais pequenas, vivia das basicidades elementares. Na casa escura preenchida de sombras dançantes, o silêncio era quebrado pela luz do gato, que parecia dizer ao poeta para aproveitar o resto da luz da vela, ou então a luz dos seus olhos, enquanto não adormecia. O poeta leu as horas nos seus olhos e pegou na pena. Em tempos já escrevera sobre isso, mas agora aquilo que parecia realmente real, com sentido, não o conseguia tornar em palavras. O outro já o dissera muito bem: «Ó cousas; todas vãs, todas mudaves, /Qual é tal coração qu’em vós confia? /Passam os tempos, vai dia trás dia,/ Incertos muito mais que ao vento as naves». Era tudo, um soneto que não se importava de ter escrito. E afinal tudo passa, já diziam os clássicos. Heraclito e o seu rio de constante corrida e fuga, não passante segunda vez pelo mesmo leito, e a irrecuperável vida passada, a dos montes brancos, das rosas, das rosas e do vinho do tegúrio de Horácio… E as estações, sempre volvendo, como que negando tudo…
Nos olhos atentos do gato, fitos na luz da vela ainda, o poeta lê que as coisas mudam, bem como o próprio homem que as vê e as muda ao mesmo tempo. Talvez só o gato fique igual, nas suas sete vidas imortais e transmigre para outro lado. A mãe já lhe dissera coisas, coisas que eram como pontos de partida. Às vezes, a fala de alguém é um ponto de partida para escrever - «Fez o tempo outra volta», «São voltas que o mundo dá», «uns choram pelo passado e outros pelo presente». Mas faltava alguma coisa. Ou existia alguma coisa que o impedia de escrever. E, no entanto, queria. E só agora fazia realmente sentido falar assim, disto, do perpétuo Inverno e da infindável dor, as únicas coisas não mudáveis. Enquanto a vela se extinguia sem retorno, o gato espreguiçou-se e deslocou-se para a frente do poeta, iluminando a noite. O poeta observava-o, admirando com inveja a sua agilidade e elegância estudadas. Sabia o que queria dizer, sabia como, mas não escrevia. Um ligeiro desconforto de estar mal sentado impedia-o de se abstrair.
Nos olhos do gato leu então: «Nasce o Sol, e não dura mais que um dia». E disse-lhe «Lá virá então a fresca Primavera:/Tu tornarás a ser quem eras dantes, /Eu não sei se serei quem dantes era». O gato saltou então do seu corpo de nevoeiro embrulhado e pousou no álbum que lhe dera Sá de Miranda, com poemas de língua muito parecida com a sua, que copiara em Itália. O poeta abriu-o e à sua frente deslizaram as palavras de um homem de Santiago. E apesar da certeza do amor ali expressa e da falta de angústia manifesta, a última estrofe chamou-o com força:

Todalas cousas eu vejo partir
do mund’ en como soían seer,
e vej’ as gentes partir de fazer
ben que soían, tal tempo vos ven,
mais non se pod’ o coraçon partir
do meu amigo de me querer ben

Pero que ome part’ o coraçon
das cousas que ama, per bõa fe,
e parte s’ ome da terra ond’ é
e parte s’ ome du gran prol ten,
non se pode parti-lo coraçon
de meu amigo de me querer ben

Todalas cousas eu vejo mudar,
mudan s’ os tempos e muda s’ o al,
muda s’ a gente en fazer ben ou mal,
mudan s’ os ventos e tod’ outra ren,
mais non se pod’ o coraçon mudar
de meu amigo de me querer ben

E na sua cabeça um ritmo começou a bater. As palavras foram surgindo; uma vida parecia prestes a nascer da sua mão. Olhou profundamente nos olhos do gato, agradecido. Leu ainda, antes de começar, na luz do futuro dos olhos: «Viva o Parnaso, que desde a sua fundação até hoje não se escreveu soneto igual a este. Pesa mil arrobas de majestade, de elegância e de imagens e de belezas… Só sabe dizer isto com tal limpidez e eficácia quem o tem muito bem trilhado com profundíssima ponderação. E tão comentado e apreciado será que até histórias sobre a sua génese se inventarão».
- Mas só nós dois saberemos a verdadeira – disse-lhe o poeta.
E esquecido das dores e da sua falha, inteirou-se e deu à luz dos olhos do gato a sua letra certa e segura:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
….
Lá fora despontava já o dia e o gato pôde então fechar os olhos.
(ainda precisa de revisão e tal, mas não resisti a publicá-lo. e já só faltam duas histórias para acabar o livro...)

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Manuel Rui, Rioseco - dois fragmentos


O mar já mudara sua pele para uma forma agitada de se mexer, parecia vergastado pelo vento e a vaga berrava raivosa de espuma suicidada contra a areia, devassando a terra e formando, de ressaca, um pequeno lago, em braços de ir e vir, curvando, por entre as primeiras filas de árvores que compunham o coqueiral. Vaga de calemba, pelo meio da tarde, quando o vento, de chibata na cabeça dos coqueiros e casuarinas, dava a sensação de transformar cada cume de mudança de maré num sacrifício do mar e da natureza costeira. A noite começava a apetecer-se num fogo de fogueira sob o cacimbo, aumentando pela madrugada, no orvalho bom na mão das plantas onde os pássaros viajados, das margens do grande rio, vinham saciar sua secura de sal e azul encalorado.

Eu estou muito longe. Também nunca hei-de estar perto de nada, porque quando isso me acontece, sinto, por dentro, uma vontade de me afastar para longe.

Explicação do Medo

Desapareceu de sua casa era quinta-feira
E não voltou a ser visto no seu andar vistoso.
Vestia calças de ganga e camisola amarela com uma bandeira
Pouco cabelo, olhos do tamanho das varandas
De onde via o mundo em movimento.
Desapareceu de seus pais, de sua vida
Perante o olhar indiferente dos outros.
Esperou-se o tempo necessário e nada.
Rapto, fuga, acidente, morte sem aviso prévio,
Como quase todas as mortes que nos ceifam da vida
Que amamos acima da nossa própria…
Desapareceu de sua vida própria, mesmo que vivo,
Tendo talvez uma outra vida não planeada com o mesmo amor
Mas ainda assim uma vida, um outro ser.
Desapareceu e suas coisas são lembranças
Que não se podem apagar nem arrumar numa caixa.
Desapareceu e pode andar por aí.
Desapareceu.
Desapareceram com o tempo e os anos as esperanças
Nem sempre as últimas a morrerem.
Perdidos na sua casa, nas suas coisas,
Os pais falam às coisas e ensinam a lição às paredes,
Às vezes, embalam almofadas e fazem cócegas aos livros…
Quando dão por si, estão incapacitados para amar
E indisponíveis para a vida futura.
Também eles desaparecerão, gritando de raiva.

sábado, dezembro 01, 2007

um-seis-um

A Denise pôs-me numa corrente, a minha primeira. Já há algum tempo, é certo. Mas aqui vai: a quinta frase completa da página cento e sessenta e um do primeiro livro que me apareceu à frente, que quero ler há imenso tempo mas estava esgotado mas enfim, finalmente, já o consegui.
E passo-a a outras escritas de nível: Gimane, Rascunhos-Ana, Pensamentos Blogueados, Fuga de Pensamentos e É a Bidinha. Só têm de pôr a vossa citação no vosso blogue, mesmo que não faça nenhum sentido… e passar para mais cinco pessoas! Depois avisem qual a citação que lhes calhou! A minha é extraordinária, melhor seria impossível. calhou-me tal coisa que nem sei o que pode significar.

Aqui fica:

«Se, pois, se.»

«A benfazeja», Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa, 4.ª reimpressão a partir da 5.ª edição/1.ª edição especial, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2005 (1962)

Casimiro de Brito, Ode & Ceia




Encosto-me ao tempo

Quando chego a casa
o deserto é outro

Abro a janela
recordo que houve sol
invento braços no corpo das sombras
e a noite me encontra
silencioso e fácil
à beira do sono.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Memorial...



Em memória de dois gatos que me morreram este ano. O primeiro, uma coisa pequenina de semanas, todo preto só com os pés brancos como se fossem sapatos, muito amistoso, mas que dois cães estúpidos não pouparam. O segundo, um gato tigrado parecido com o Guano, o da minha tia, mas muito mau. Morreu provavelmente envenenado; descobri-o na casa das maçãs, batatas e cebolas, ainda vivo… E em saúde do outro gato, aquele que há cerca de um mês ajudei a sair de um silvado. Com pena minha, a minha mãe não mo deixou trazer para casa e ficou junto aos dois restaurantes de Poiares. Quando lá passo com a minha mãe e a minha tia, à noite, quando vamos dar a volta diária, aparece às vezes, mas já não mia como antes, desesperado É preto, todo imensamente preto, até os olhos. Tal igual o gato que ontem, depois do outro gato ter morrido, no meio da nossa volta, veio ter comigo, miando e roçando-se nas minhas pernas… Podia ser ele se não estivesse tão crescido. nenhum destes gatos foi meu, mas como não me deixam ter nenhum, todos eles me pertencem


Pequena Elegia - Nelson Archer

Gatos não morrem de verdade:
eles se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de algum de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem – é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

sábado, novembro 17, 2007

espelho...

Eu-próprio o outro

Novembro, 13.

É lamentável como me erro continuamente. Em mim e entre os mais.
Eu fiquei sempre, nunca fui – mesmo quando me perdi.
Às vezes ainda me decido a partir. E parto. Mas nunca venço seguir. Se não é por culpa minha – é por culpa dos outros, que me acenaram.
É que eles, se me acenaram, foi por julgarem que eu nunca os seguiria – foi para sofrerem. E como afinal parti atrás dos seus gestos, desencantaram-se de mim, fugiram escarnecendo-me. Tombei-lhes.
Só me é permitido ser feliz, não o sendo.
É inacreditável!
Quase todos se contentam consigo próprios – bastam-se. E vivem, e progridem. Fundam lares. Há quem os beije.
Que náusea! Que náusea! Não se ter ao menos o génio de se querer ter génio!... Miseráveis!
Mário de Sá-Carneiro, Céu em Fogo, p.129-30.

47. Chá para um


Ultimamente costumava ir todas as noites à cozinha. Numa caneca punha água do garrafão, e depois de dois minutos no micro-ondas punha um saquinho de chá e duas colheres de açúcar. E saboreava então um sabor único e quente, reconfortador. Às vezes acompanhava-o com um pão ou tostas com doce de amora de queijo. No armário, junto à cevada, ao café e ao açúcar estavam as caixas do chá. Chá preto, chá verde, chá de cidreira, chá de lúcia-lima, chá de limão, chás com nomes e especiarias orientais, chá de Marrocos, chá de frutos silvestres, chá de maçã-canela, chá de tília, chá branco… Várias caixinhas que iam variando de dia para dia, dando assim a ilusão de variedade e companhia. Uma noite, sentado na cadeira, sentindo o vapor quente enublar-lhe os olhos, leu metade das instruções escritas numa das caixas:
Use sempre água acabada de ferver e espere 3-5 minutos antes de servir. 2 a 3 chávenas: use um saquinho.
Não acabou de ler as instruções sobre «no bule» e «para beber frio», porque subitamente sentiu-se muito só, numa cozinha enorme, ao olhar o seu saquinho com uma única chávena à sua frente…

últimas coisas...


Eu vejo muitas séries de televisão (Anatomia de Grey, Amor no Alaska, Sobrenatural, Jericó, Betty Feia... já para não falar de outras que segui atentamente, como Sete Palmos de Terra, Perdidos, Prison Break, Roma, Donas de Casa Desesperadas, Ally Mcbeal, Sabrina, Friends, Dharma & Greg, Dr. House…). Em nenhuma delas as personagens "perdem tempo" a ver séries. Nos filmes, em muito poucos, as personagens vão ver filmes, mas não vêem séries. Nos livros há sempre uma personagem ou outra que lê. Às vezes vão ao cinema, mas também não passam muito tempo em frente à televisão a ver séries. Mas eu também não sou personagem de romance…


Para ocupar o tempo tenho visto muitos filmes em dvd ou outros formatos que estavam lá em casa, já há alguns anos. Vi finalmente coisas tão espectaculares como Babel, Hotel Rwanda e Crash – Colisão, só para citar os melhores e mais emocionantes. Mas revi também a trilogia do Senhor dos Anéis, agora toda seguida e com os dvd dos extras e opções especiais. Uma verdadeira maratona de fazer perder a cabeça a qualquer um. Mais emocionante do que quando vi cada um deles no cinema. Talvez por já conhecer e poder atentar noutros pormenores. Seguir-se-ão os livros, um dia destes, uma vez que as bandas sonoras também já foram ouvidas. Uma história que ali aparece aflorada e que no livro deve vir mais desenvolvida é a de Faramir (desempenhado por David Wenham), que no fundo não tem grande interesse para a progressão da história, para nenhuma delas (a de Frodo e Sam, ou a das batalhas em Gondor), embora intervenha nas duas. Mas é uma preciosidade no meio de todo o valor físico e emocional da história. Ainda bem que não a eliminaram do filme…


Estar aqui no fim do mundo parece que implica o atenuar das coisas da cultura. Vou vendo o Câmara Clara, o Jornal 2, o Bastidores, mas parece que as coisas surgem sem o mesmo brilho e importância. José Luís Peixoto publicou Cal e não me chegou a mesma excitação que aquando de Cemitério de Pianos. António Lobo Antunes voltou com um pequeno O meu nome é Legião, e não me chegou o mesmo impacto de Ontem Não Te Vi em Babilónia… E até mesmo o Harry Potter e os amuletos da morte me passou um pouco despercebido… Será de mim, de estar focado em outras coisas mais técnicas, ou de andar a recuperar coisas do passado, ou será de estar aqui no desterro? Imagino então se trabalhasse, se tivesse companhia, filhos e casa para cuidar, se tentasse escrever a sério e se estivesse a trabalhar a sério na tese… Não é falta de tempo, mas talvez preguiça…


Por falar em escrita, a tese vai ponicamente. Tenho de falar com os orientadores para ver o que faço efectivamente. Tenho lido muitos artigos sobre o antes e o durante da obra e Arlindo Barbeitos e coisas de teoria literária sobre geração, convenção e inovação em sistemas literários, mas ainda falta ser a obra dele em específico (não há muitos…), sobre poesia japonesa, literaturas orais, aspectos de retórica e estilística, angolanidade e questões de identidade e nacionalismos literários, enfim… Na escrita mais artística, as coisas vão andando, sem grandes avanços. Mas re-ordenei a minha obra. Composto de Mudança, os 52 contos que estou a escrever ao ritmo de um por semana, desde a primeira semana de Janeiro até à última de Dezembro deste ano, está quase pronta: o último que escrevi está até adiantado, pois tenho tido um tempo mais livre, mas também é tão pequeno… A trilogia tem finalmente nome: As Mil e Uma Noites de Solidão e Medo (um verso de Alexandre O’Neill), composta por Inventário das Coisas Sós, Gravado na Pedra e Explicação da Luz (títulos ainda provisórios, romances ainda não escritos). A Antologia Poética Possível espera pelo último livro de poesia em que vou escrevendo alguma coisa, a Explicação das Coisas. Mas quero começar a trabalhar noutras coisas: Vazio Repetido (de um verso de Daniel Faria) será uma continuação do projecto do Composto de Mudança), e quero muito escrever finalmente um romance (mas mais fácil do que Inventário das Coisas Sós, de que cheguei ao terceiro capítulo) que tem o título provisório de Algumas tardes entre o mar e a morte (verso de Ruy Belo). Podem chamar-me maluco vá, eu deixo, mas nunca se sabe o que pode sair daqui! Está tudo gravado no pc e na pen (não vá o diabo tecê-las). Qualquer dia deixo algumas pessoas lerem alguma coisa, para além do que vai aparecendo aqui no Tulisses. E as leituras, tantas! Agora com este tempo frio em que nada se faz (sim, continuo desempregado, embora em Janeiro e Fevereiro tenha trabalho na Reitoria/FLUP para mais um EILC), leio. Recomendo, do que recentemente passou pelos meus olhos e mãos: Bom dia Camaradas de Ondjaki, Estação das Chuvas de José Eduardo Agualusa, A Casa Velha das Margens de Arnaldo Santos, Jornada de África de Manuel Alegre e, para não ser tudo prosa, nem tudo africano ou sobre África, mas também porque vale por si próprio, e muito, Todos os Poemas de Ruy Belo.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Desejos vãos

Se eu soubesse derramar-me na terra
Perder-me no pó pelo meio do vento
Escorrer-me com a chuva pelas pedras
Seguir em curso até ao fogo mais longo
Ou estar simples entre as coisas
Fugindo de mim e das ausências…

41. Na volta do homem



Maria das Dores estava sentada na varanda baixa, entre os seus novelos e panos de lã e de renda, tal como quando um fim de tarde de Verão o seu marido saiu para comprar tabaco e nunca mais regressou.
Ao princípio, Maria das Dores estranhou. Depois preocupou-se, a seguir saiu de casa disparada e foi ao café. Ninguém o vira, nada, nem em todo o dia. Procuraram na vila, nas hortas, em redor e não se via coisa diferente. Até que o Luís dos Fios apareceu às pessoas em volta da chorosa Maria e disse que a sua Laurinda também desaparecera. Pareceu-se ali explicar o mistério, afinal simples e de carácter amoral-amoroso: ambos se extinguiram da vila, juntos.
Passaram-se dez anos sem notícias dos fugitivos. O Luís dos Fios envelheceu como se o tempo passasse mais depressa por ele. Na sua velhice antecipada tinha dois rapazes para acabar de criar e apenas a ajuda da própria Maria das Dores, irmanada na dor comum, que lhe fazia algumas lides domésticas, uma vez que o Luís dos Fios não sabia nem estrelar um ovo nem pregar um botão – nem queria aprender, com medo e que a barba não lhe crescesse e ficasse menos homem: já bastava ser corno declarado na terra. Agora morria, rodeado pela família, com o orgulho a esganá-lo e a inquietação do abandono a apertar-lhe o coração.
Maria das Dores chorou e berrou e partiu muita coisa em casa. Só se consolou por nunca ter tido filhos. Se sozinhava na imensidão de uma casa vazia onde só os móveis projectavam sombras, recusando a companhia dos animais e das flores. Depois acalmou e seguiu a sua vida. Ganhava-a como sempre o fez, a remendar, costurar, pôr fechos, pregar botões, fazer bainhas, bordar fazer tricôt e renda. Boa de mãos, e agora menos de olhos, trabalhava ainda nas hortas do homem que a convencera a deixar a casa dos pais e a sua aldeia, transladando-se para uma terra estranha onde não conhecia ninguém. Porém, sobre ela o tempo parecia não passar, perdido por aí, entre o vento, não chegando sequer a subir às escadas para a varanda.
Mas naquele dia, em que o Luís dos Fios morria e Maria das Dores continuava na varanda entre as suas linhas infinitas que se cruzavam umas com as outras em cores e espessuras diferentes, se misturando em infinita alegria, o vento subiu as escadas, brincando com as pontas soltas. O arrepio por ele provocado fê-la levantar os olhos. Na véspera do primeiro degrau estava o marido. Mais velho, braços caídos pelo corpo com a roupa gasta e baça. Maria das Dores teve dificuldade em reconhecê-lo e ainda pensou que pudesse sem um sonho, visão ou fantasma. Ele ia falar mas ela antecipou-se-lhe:
- Se te sentares aqui, ao pé de mim, agora, e pegares nas minhas mãos, enlaçando-as com as tuas, e te chegares ao meu peito, à minha alma, não me poderás abraçar por inteira, haverá pontas e sobras. Mas será o último abraço, a última partilha de vida entre nós. Ou nem isso.
O homem ouviu-a e não compreendeu. Subiu as escadas e sentou-se a seu lado mas não chegou a abraçá-la. Do colo de Maria das Dores a mortalha que bordava inteirou-se e envolveu-o, aos poucos. As pontas e os fios perdidos ataram-se devagar, perante a placidez branca do homem. Maria das Dores levantou-se, com o sentimento de tudo cumprido e resolvido. Desceu as escadas e seguiu para casa do vizinho Luís dos Fios.
- Morte por morte, ao menos a daquele que nunca me prometeu, mas também nunca falhou...
E seguiu rua abaixo, sem olhar para trás. O homem, debaixo do mundo, sorriu pela companhia que lhe adivinhava.

a importância do livro na vinha



durante as vindimas encontrei uma máquina estranha (não sei como se chama nem para que serve, mas é para trabalho na vinha). e não resisti a tirar estas fotos. a primeira mostar a máquina em si, a segunda alguns avisos de prudência, quanto a posição, manuseio, e assim. óbvia a importância da leitura das regras (primeiro quadro) e da leitura em geral (quinto quadrado, ou segundo da fila de baixo). por mim, acho que ficava bem a leitura de um poemazito de Miguel Torga quando vi esta máquina tão sugestiva.




OUTONO


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Planta alta e trigueira


As plantas acenavam ao vento de agosto, nas suas hastes finas e verdes. E disse-me a mais faladora de todas, alta e trigueira:
- Dás-me dez anos da tua vida?
Eu só tinha cinco anos, pus-me a contar pelos dedos, vi que ia ficar com muito pouco.
- Dou – disse eu.
E ainda hoje, que nunca mais soube de mim, vou com o vento, balouçando. E agosto é todo o ano para mim.



Ruy Belo, Todos os Poemas


(o poema que a Consti me apresentou um dia e que entrego sempre aos amigos que se casam...)

Natália Correia

Canção entregue ao nada

Hoje venho oferecer esta tristeza às coisas
No gesto esquivo de não as desejar.
Pôs na minha alma como o sol nas frias lousas
A vida o gosto de esplandecer em recusar.
São-me alheias estas margens onde corre
O destino que aos dados aos deuses eu lancei.
O que me dói é ver que tudo morre
Noutras mãos em gestos que tracei.

****

Cantos de Safo para Átis
V
Lentos meus gestos desenham o seu rosto
Rasgando a escuridão da sua ausência.
E o meu cantar enleia-se no gosto
De a cantar em distância e em transparência.

***

Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave

se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo como se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.


Apesar de ter gostado de outros, estes são os mais interessantes para mim. e depois, não sobram assim tantos como isso. não gostei da necessidade estranha e permanente da rima e das imagens estrambóticas... mas quem sou eu...

um comentário ao meu blog da denise...

http://rabiscosegaratujas.blogspot.com/2007/09/tulisses.html

quinta-feira, setembro 13, 2007

agosto II - imagens verídicas


Foto da porta do meu ex-aparamento. digno de receber um professor de portuguêz dezempregado!!!



Redbull air race - coisa mais horrível e chata... estive lá uns dez minutos, depois fui para a feira do livro.



Especialidade inexplicável de um restaurante perto do meu ex-apartamento

EILC - Paço dos Duques, em Bragança.

EILC - No Palácio da Bolsa, Porto

EILC - Em Braga, em frente à Sé...


Procissão da Senhora da Saúde - Paranhos, Porto

agosto


Não é fácil escrever sobre este mês de Agosto no Porto. Mas vou tentar, como prometido à Denise. Foi muita coisa, intensa, que talvez sirva de material de base para um conto que escreverei entretanto que rouba um verso e meio a Alexandre O’Neill, o poeta que lia durante esses tempos, «As mil e uma noites de solidão e medo». Comecemos pelo início, ou seja, a Rosi e a sua tese de Linguística Portuguesa sobre A anáfora nominal (trabalhada com alunos do 7.º ano, a partir de «No Moinho» de Eça de Queirós e textos de «National Geographic»). Foi uma demanda inexplicável, contra o tempo, com imprevistos terríveis, como o «pc dar o pau» no dia de véspera da entrega da dissertação – atrasou um pouco a entrega, mas conseguimos, porque estava guardada na pen… Entretanto já foi defendida, com sucesso (ontem!!!).

Revi a Marisa, encontros imprevistos e rápidos, sempre no metro… E a Ana Cabral, pela FLUP. E a Celine, a Susana Melgaço, a Lídia, a Rute – todas cada vez mais lindas, e o Roberto… Muitas conversas pelo msn com a Sandra, Milai e Bruna… muitas e nem sempre fáceis… Café com a Marta, Patrícia e Guilherme. Almoço interessante com Constantina, Mário, Ivo, Marta, Patrícia e Guilherme. O costume, mas diferente.
Saldos: de roupa e de livros (Feira do Livro da Bertrand – fraquinha…, e Feira do Livro e do Material Escolar do Mercado Ferreira Borges, onde comprei 31 livros e um caderno por 40€…).

Depois o apartamento partilhado com amigos e não só, onde muito aconteceu, e se calhar não deveria, e se calhar até devia, para chegar a conclusões que se calhar naufragaram entretanto, ou não. Mas como não sou pessoa muito pensadora, as coisas flutuam ainda por aí, meias esquecidas. Mas serviu para escrever uma mão cheia de contos para o meu livrinho (Composto de Mudança) e para a história de fazer o funeral mental… que resultou, até que houve uma ressurreição, por assim dizer, que me estragou um pouco os planos de ontologia da palavra e da mente, mas enfim, o que está morto, morto pode voltar a ser. E foi a morte do artista, ou antes, da artista: Madonna. Para mim está bem enterrada, para já. Redescobri algumas coisas dos Madredeus, foi bem. Mas a Mariza voltou a ocupar o lugar… que nunca perdeu, realmente. Quem se perdeu foi eu, no último dia, em que me aconteceu uma… mas que eu não conto, foi daquelas de anedotas, como ir carregado no metro para ia apanhar o comboio, dar conta que falta o telemóvel e voltar para trás, sabendo que não se tem a chave de casa e se tem de esperar que algum dos colegas volte… e em vez do comboio das cinco, apanha-se o das dez… pronto, já contei…

O trabalho: no início foram três dias loucos na Reitoria, onde conheci uma menina muito interessante, física e psicologicamente, cabo-verdiana ;). Afiei imensos lápis, fiz dossiers, tirei cópias, distribui folhetos de Coimbra, Braga, Porto, Gaia, Aveiro, Guimarães… Enviei emails, fiz compras, fiz arranjos equilibristas com bandeiras de todos os países da Europa para a sessão de abertura, enfim. Tudo em prole do IELC – Intensive Erasmus Language Course, para sessenta meninos e meninas (alguns mais velhos do que eu, mas enfim) que vieram a prender Português. Durante o resto do mês, prestei apoio no que pude e o melhor que pude aos alunos (dúvidas linguísticas, localizações: procurar casa, encontrar sítios e ruas, metro, comboio, autocarros, feiras e, pasmem, casas de meninas – mas isto eu não sabia…), acompanhá-los, com a guia, a Marta Villares, nas visitas pelo Porto – baixa e monumentos como Palácio da Bolsa e Igreja de São Francisco e caves de Gaia (6 e 10 de Agosto), Guimarães – castelo, Paço dos Duques e centro histórico (17 de Agosto), Braga – Bom Jesus, Sé e centro histórico (24 de Agosto) e Serralves (31 de Agosto). E apoio às extraordinárias formadoras: Ana Isabel, Ana Paula e Débora (power point, fotocópias, acetatos e retroprojectores, impressões, entrevistas, vídeos…). Enfim, às vezes uma estafa por ter de andar de um lado para o outro, outras vezes uma calmaria arrasadora. Tinha uma sala de 40 computadores com ligação à Internet e assim ia ocupando os tempos mortos. Os miúdos eram espectaculares. E ficam na memória da ternura alguns: Greta, Sara, Giulia, Alex, Simone, Valentina (italianos), Estefânia, Pablo (espanhóis), Muhammet, Fatih, Belkis (turcos), Vera, Kate (alemãs), Tomasz, Hubert (polacos), entre outros… No fim foi difícil despedir-me de todos, alunos, formadoras e Rosi. É que os laços criam-se... e ficam…

Do meu caderno (Pensamentos Ligeiros – vol.13, que mantenho desde os catorze anos, tipo diário/registos vários/poemas meus e de outros e afins…) posso transcrever que a «A primeira noite foi estranha, claro. Choveu e água bateu forte no plástico e no vidro da marquise» - o meu quarto tinha contacto directo com a única parte da casa com janela para o exterior - «conversa até tarde, muito, sobre muitas coisas – sobre nós de vez em quando, de fugida». Mas sobre isto não vou revelar mais, só no tal conto.

Já o disse, as leituras foram poucas. Mas agora em Setembro (agora que já acabei todos os trabalhos de mestrado) posso vingar-me e é o que estou a fazer. Contos Outra Vez, de Luísa Costa Gomes é extraordinário, seguem-se Olhos Verdes, também dela, Na berma de nenhuma estrada do eterno Mia Couto, acompanhados pela Bílbia, Poesia Completa de Natália Correia, e depois se verá.