sábado, fevereiro 28, 2009

Desafio em Fevereiro

Young Girl Reading - Jean Honor Fragonard


O Desafio continua, ainda de forma um pouco trapaceira, parece-me. A maior parte ainda é constituída por livros pequenos, o que não significa que não sejam bons e profundos. Contos, sobretudo. Mas lá está a Agustina, que me acompanhará nos próximos tempos. E avizinham-se leituras mais substanciais. Estes dois primeiros meses, no fundo, foram a rampa de lançamento desta missão: deram-me alguma margem de segurança.


13 - O Principezinho, Joann Sfar, Presença, 110p.****
14 - A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi, Booket, 114.*****
15 - «Ficções 6», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 150p.****
16 - Livro do Português Errante, Manuel Alegre, colecção Frente e Verso - Visão, 78p.***
17 - Amor, Amor, Amor, Andy Warhol, Campo das Letras, 50p,****
18 - «Ficções de Guerra», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 182p.****
19 - Camões, Miguel Torga, Coimbra, 20p****
20 - As Fúrias, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, 180p.*****
21 - Pedro, Lembrando Inês, Nuno Júdice, colecção Frente e Verso - Visão, 60p***
22 - Os Contos de Beedle o Bardo, J. K. Rowling, Presença, 118p***
23 - O Desejo, Safo, Teorema, 88p***
24 - Dos Livros, Montaigne, Teorema, 60p***


Mais sugestões: a (polémica) Feira do Livro de Braga, apesar de pequena. E um filme, um grande filme: Revolutionary Road - com a muito grande Kate Winslet!

O Livro dos Dias - (breve selecção de Fevereiro)


2. Estou com vontade de me zangar com alguém hoje. E queria que fosses tu, para a seguir fazer as pazes…

3. Eu tenho sempre palavras, às vezes não sei é o que fazer delas…

4. Ontem foi quase. Hoje não me apetece. É preciso, portanto, ter cuidado. São estes os dias, os momentos mais perigosos. Os que são do contra, os que se seguem aos frustrados, os que subitamente nos escapam das mãos.

6. O momento da tarde, do dia, em que guardei nas minhas as tuas mãos durante o breve segundo de as sentires quentes e o longo instante de tas saber frias, e fortes e tuas, valeu por outros momentos feitos de palavras, hesitações, ironias. Admirável mundo este o do tacto. Estou em tempo de o explorar mais.

7. As mãos hoje enchem-se de livros, letras, pó – já que não te tenho para voltar a enchê-las de ti.

8. Hoje não pensei em ti… Não pensei, a sério. Hoje não. Não te imaginei comigo, não tentei ouvir o teu sorriso que não me saiu nunca dos ouvidos. Não. Não pensei em ti. Não pensei eu noutra coisa – por isso não pensei em ti. Fui em ti. E agora ao escrever isto não penso em ti, mas em nós – que ainda não somos.

13. Hoje é o dia. Escolhe entre as palavras, o objecto e o gesto. As palavras são ao que são, valem o que quisermos fazer delas. Os objectos são mais fáceis, mas menos expressivos. Os gestos dizem tudo, mas são os mais difíceis – porque não se sabe a resposta que podem suscitar. Podem ser os três, também, embora se excluam por redundância. E eu que sou sempre tão seguro e só relativizo e duvido porque tenho as minhas certezas estou sem saber o que dirás, farás ou me darás. Talvez por isso goste de ti.

15. Coloquei o tinteiro novo, comprado ontem. Peguei no saco plástico pequeno e ia arrumá-lo, para outra vez. Mas senti que havia algo mais lá dentro, que não era suposto, que não tinha comprado. Eram dois corações em forma de chupa-chupa – tal igual, porque era o dia e não sei o quê. Não foi a solidão que me impeliu, foi o desânimo – porque ela sempre me teve e me guardou, este é que é novo e invasivo. E faz-me tanto mal que os dois corações foram encarcerados na caixa das goluseimas, como quaisquer outras, à espera de vez. Como todos, afinal.

19. Trocámos mais algumas palavras, as do dia-a-dia, as normais e esperadas. Menos mal, as coisas. Mas iguais, e eu não as queria assim. Ou ainda não normais, aliás. Faltam aquelas que nos definam, definitivamente, as verdadeiras. Aquelas que não quero ouvir, as que seria quase melhor ficarem em silêncio. A verdade é que te amo – mesmo que não deva, que não possa, mesmo se não quisesse. E por isso mesmo, não insistirei. E as palavras serão silêncio entre nós.

20. «Um mar rodeia o mundo de quem está só.» Nuno Júdice, Pedro, lembrando Inês

Que nomes têm estes mares que me rodeiam, sem mundo?

25. Eu não tenho nada. A sério que não tenho nada. Não se preocupem e acreditem: eu não tenho nada. Nada, nada. Porque o nada não pode possuir-se. E eu sou isso, apenas. Nada de nada importa, portanto.

26. Fiz um barco. Dobra aqui, vinco mais forte ali – e foi ganhando a forma desejada. Depois levei-o ao ribeiro da aldeia. A água era fria e corria livre, cheia. O barco não durou muito nela: virou, não conseguiu voltar à posição inicial. Ajudei o caudal com o meu próprio, mas sem exageros. E fiquei a vê-lo afundar-se, desfazer-se, pensando que eu próprio podia estar ali e o barco ser eu e eu o barco. E nada se perderia, segundo Lavoisier. Amen.

28. Destruo-me nestas coisas que escrevo, no que imagino, naquilo que faço sem ti. Mas até a destruição é criação! Assim, vale a pena, como quase tudo. E estas coisas, só minhas, não poderão destruir mais ninguém – mas também não criam…

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

O mundo não passa de mundo

É o título do terceiro livro de contos. Substitui o antigo e provisório título Já deste corda ao Pardal?. Este de agora é menos concreto, mas mais meu, depois do espectáculo do Shakespeare e de acontecimentos recentes. Assim mesmo: O mundo não passa de mundo. E dos cinco primeiros contos:

1. Cosmos
2. Das palavras inúteis
3. Martim e a demanda
4. Conto contando-te
5. O homem sem a sua sombra

selecciono estes excertos só porque sim (os outros contos são mais privados e inacabados, ainda)

III. 1. Cosmos: «Mas nesse dia, estando ele à beira de um rio borbulhante, nu para tomar banho, apareceram uns seres estranhos, que ele pensou serem homens, por serem feitos à imagem e semelhança deles. Estes viram-no belo e harmonioso, mas acharam-no horrível, embora não se saiba se por ser diferente se por inveja dessa diferença. E perceberam quem era, e o que tinham de fazer. Por isso, atiraram-se a ele, para o afogar. Desse deus simples, sem nome, sem rosto, ficou a flutuar no rio amansado uma luz, e dessa luz, intensa, quente, começou a libertar-se um nevoeiro cerrado, que subia e formava nuvens mais grossas e escuras. Os seres parecidos com homens tiveram medo e fugiram, sabendo que tinham atentado contra um deus. Eram eles próprios deuses, mas sem a simplicidade e sem a pureza daquele que ali andava a ocupar espaços que eles próprios ambicionavam. Mas temeram e fugiram. Mais tarde viriam, dar-se-iam a conhecer e também eles viriam a ser expulsos deste mundo, mas deles ficaram estas estátuas, estas pinturas, estes templos como memória, como habitação. »

III. 2. Das palavras inúteis: «Ela não leu as palavras dele, ele não soube dizê-las de outra forma e as coisas teriam sido perdidas como num deserto um grão de arroz, se ela não fosse diferente, se ela não precisasse de as ouvir, de saber como «Dou por mim muitas vezes ao longo do dia a pensar no teu sorriso, nas tuas palavras e fico sempre cm vontade de estar contigo, de te abraçar, de te beijar e de dizer ao teu ouvido o quanto eu gosto de ti.». Não precisava, ao contrário dele e de tantos outros, das palavras para estabelecerem certezas. Mas ela não sabia como as palavras são importantes para que as certezas não passem drasticamente a dúvidas.»

III. 3. Martim e a Demanda: «Na verdade, a torre da vitória, apesar de bem conhecida por todos, de vista, ao longe, era tida como o maior mistério das redondezas. Era uma torre muito alta, coberta de silvas até metade, negra no restante, com pedras salientes como escamas, brilhantes ao sol, assustadoras em qualquer momento do dia ou da noite, envoltas num clima que lhe parecia intrínseco e que raiava a maldade pura. Ninguém, no castelo, percebia era o objectivo de guardar o livro do Graal num sítio mau. Ninguém achava também outro lugar onde fosse possível ter guardado uma coisa tão importante, embora não pensassem que poderia não estar ali, mas num mundo tão vasto como a soma dos reinos que ainda faltavam conquistar para juntar aos já conquistados. Ninguém que se tivesse aventurado pela floresta para chegar à torre tinha voltado para contar o que vira o que lhe sucedera…»

sábado, janeiro 31, 2009

O Livro dos Dias - (breve selecção de Janeiro)

2. Eu, de vez em quando, T.
Porque a rotina da escrita interlocutiva me exige uma marca pessoal além da óbvia, da lógica, da vulgar. E porque «eu sou um outro», ou muitos, às vezes.

6. Hoje estou com preço verde FNAC: €12,95.

(pista: Expiação)

7. «Sentia-se triste como uma casa sem móveis.» Flaubert, Madame Bovary
Os móveis enchiam o espaço interior, e cada um de nós tropeçava, batia, não vivia neles, porque tomava, conta de nós de forma opressiva. Não havia vazio, nem silêncio. E cada um de nós seguiu o seu rumo. Depois, aos poucos, desbaratadas no vento as lembranças, as palavras, queimadas, que foram os gestos, ficámos sós, eu e a casa. E embora a solidão não doa, entristece. Como a casa sem ti.

10. «Olha sexto, fazemos assim, nada de promessas, nem de palavras vãs… Pois… Não sei… Sem palavras é complicado… eu sei… Mas as palavras não resultam comigo. O que faço?» Pensamentos Blogueados

Cortava os pulsos para poder escrever assim.

12. Em demanda de um novo ser. Não ser tão, mas ser. Ser implica tão. E não somos apenas uma matilha de lobos solitários que andam ao desencontro ansiando por uma alma gémea que teima em não aparecer, somos, mais a matilha que também não a quer achar. Ou a nós.

15. 14 de Janeiro. Todo o santo dia bateram à porta. Gostava que sim. Mas só estive em casa à noite, Al Berto. Estás a ver, o teu dia foi melhor do que o meu. Abriria, e verias as pessoas. Escrevo agora, apenas. Não ouço o mar nem me sobressalto, mas as tuas palavras dizendo-o desconfiam-me de o ver entrar pelos olhos, a outra janela para lado nenhum. Serei um homem privilegiado não por (não) ouvir o mar ao entardecer, mas por desejar mais. Estou tão triste e apaixonado. E escrevo sem fim. Oh!

16. Dizem que sou demasiado intenso… ou demasiado superficial… decidam-se e depois avisem-me.

17. Se fosse para comentar o teu epíteto, «o amado», seria para o transformar em forma verbal de primeira pessoa. Com pronome de segunda. E seria então ainda mais óbvio.

21. O teu nome persegue-me no que leio, no que assisto, ao acaso. Em O Mercador de Veneza, no Boa Noite Senhor Soares. Eu não acredito em sinais, mas gostava. E saber interpretá-los dava jeito.

22. Não se sabe por que gostamos de pessoas que não conhecemos, mas gostamos. Coisas estranhas. E gostamos. Não de todas as coisas estranhas, mas algumas tuas. Ou todas. Ou tu, em suma. Tudo o que não de ti está no meu gosto. E sei que gosto de ti, porque fico triste se, por qualquer motivo, me atraso a chegar à nossa sala e menos tempo estaremos juntos, a falar do trivial, enquanto me perco como se te abraçasse e estivéssemos sós. Gosto só de ti.

25. Diz Kierkegaard qualquer coisa parecida com isto: que o Homem, não ser ele próprio, é o desespero. Mas onde fica o desespero do Homem na procura de si próprio?

27. Eu também sei que nenhum de nós não será alguma coisa. Ou seja, todos nós seremos alguma coisa. Nem que seja apenas agora nesta hora em que nos deixamos acreditar podermos ser. E mais não digo, que estou baralhado (as minhas certezas são sempre tão efémeras).

29. Pode ser que te surpreendas um dia, velho amigo. De não falares abertamente, não em rodeios, às voltas, mas como se percorresses com a linguagem um labirinto do qual não consegues sair – talvez porque não o queiras. Mas não te arrependas: nesses labirintos surgem portas, janelas, bifurcações. E se as tomares, quem sabe onde irás parar, o que te reservam para além do visível indistinto. Mas talvez possas arrepiar já caminho e em vez de janelas ou portas tenhas varandas. E daí ao infinito é um passo – sem perdas, pelos menos de maior.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

7 maravilhas de origem portuguesa no mundo

É só fazer o registo e escolher. E algumas valem bem a pena a nossa atenção. Aí fica o link. De Marrocos a Angola, do Brasil à Índia, vários monumentos que mostram um pouco dos portugueses espalhados pelo mundo. Eu já votei!

Adenda: estão também em votação as 7 Maravilhas Naturais do Mundo, ainda numa fase intermédia. Eu já escolhi as minhas sete (incluindo o Douro, pois claro). Aí fica também o link.

sem sugestões, cem livros.


Rembrandt, «Monge a ler»


Imitando o modelo do Estante de Livros, mudo as minhas sugestões de leitura aqui no blogue. Deixam de ser sugestões (tenho medo de sugerir, nem sempre traz bons resultados), para ser apenas o registo das leituras lidas, mês a mês, num ano em que me comprometo comigo próprio a ler 100 livros. 100 mesmo. Maiores ou menores, mais ou menos fáceis, densos, eruditos, etc. 100.


o desafio começa este mês muitos livros, ainda que pequenos:


1 - «365» #27 - «Histórias à boca cheia», direcção Fernando Alvim, 48p.***
2 - O Vendedor de Passados, José Eduardo Agualusa, D. Quixote/Booket, 222p.****
3 - Contos de José Rodrigues Miguéis, Margarida Barahona, Comunicação, 196p.***
4 - Instante, Wislawa Szymborska, Relógio d'Água, 92p.*****
5 - Villa Celeste, Hélia Correia, Ulmeiro, 50p.*****
6 - A Poesia da Presença, Maria Teresa Arsénio Nunes, Comunicação, 172p.**
7 - Cartas Portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado, tradução de Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, 112p.****
8 - O Estranho Caso de Benjamim Button, F. Scott Fitzgerald, Presença, 80p.***
9 - Medeia, Mário Cláudio, D. Quixote, 52p.***
10 - Boa Noite, Senhor Soares, Mário Cláudio, D. Quixote, 96p.****
11 - Poesia Completa, Florbela Espanca, Bertrand, 422p.**
12 - Contos Completos, Florbela Espanca, Bertrand, 256p.***


afinal há uma sugestão:
Festa do Livro no Porto. Não no Mercado Ferreira Borges, mas no Pavilhão Rosa Mota. De 30 de Janeiro a 28 de Fevereiro. Mais informações aqui.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

bem, talvez já seja um regresso...

Talvez saibas que é para ti. E não só. Até porque, como já te disse, «o mundo não passa de mundo».

continua sem ser um regresso...

só por companhia, motivado por este post. E apesar de gostar mais da versão estúdio, fica esta (é que as de estúdio têm uns vídeos amadores que valha-me Deus).

Isto não é um regresso...

Fui ver O Mercador de Veneza, no São João, encenação de Ricardo Pais. Tudo de bom, desde a encenação ao texto (e suas opções), passando pelo elenco extraordinário e palco e tudo mais. Nada de novo, portanto. Gosto muito do que costumo ver lá - mas não é disso que quero escrever. Esta peça em especial marcou-me de forma estranha, impressa na alma... No trabalho (já pareço gente crescida) ninguém pode já ouvir-me falar da peça, do texto, em especial de duas frases, ambas ditas por António (Albano Jerónimo), a personagem ambígua da qual pouco se sabe e da qual realmente se gostaria de saber, com uma relação um pouco dúbia com Bassânio (Pedro Almendra). Essas frases são «Na verdade, não sei por que ando tão triste» e «o mundo não passa de mundo». Logo a abrir, como que escolhidas de propósito para mim. Mas há mais... Fica aí o início do texto (não a versão do Daniel Jonas, mais interessante, mas ainda assim dá para seguir a ideia; azuis destacantes...), mas não conto. Ficam também imagens dessa sequência do espectáculo. E realmente não sei os motivos...



«ATO I

Cena I
Veneza. Uma rua. Entram Antônio. Salarino e Salânio.

ANTÓNIO - Não sei, realmente, porque estou tão triste. Isso me enfara; e a vós também, dissestes. Mas como começou essa tristeza, de que modo a adquiri, como me veio, onde nasceu, de que matéria é feita, ainda estou por saber. E de tal modo obtuso ela me deixa, que mui dificilmente me conheço.

SALARINO - Vosso espírito voga em pleno oceano, onde vossos galeões de altivas velas - como burgueses ricos e senhores das ondas, ou qual vista aparatosa distendida no mar - olham por cima da multidão de humildes traficantes que os saúdam, modestos, inclinando-se, quando perpassam com tecidas asas.

SALÂNIO - Podeis crer-me, senhor: caso eu tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeições navegaria com minhas esperanças. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debruçado nos mapas, sempre, procurara portos, embarcadoiros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.

SALARINO - Meu hálito, que a sopa deixa fria, produzir-me-ia febre, ao pensamento dos desastres que um vento muito forte pode causar no mar. Não poderia ver correr a ampulheta, sem que à idéia me viessem logo bancos e mais bancos de areia e mil baixios, inclinado vendo o meu rico "André" numa coroa, mais fundo o topo do que os próprios flancos, para beijar a tumba; não iria à igreja sem que a vista do edifício majestoso de pedra me fizesse logo lembrado de aguçadas rochas, que, a um simples toque no meu gentil barco, dispersariam pelas ondas bravas suas especiarias, revestindo com minhas sedas as selvagens ondas. Em resumo: até há pouco tão valioso tudo isso; agora, sem valia alguma. Pensamento terei para sobre essa conjuntura pensar, e há de faltar-me pensamento no que respeita à idéia de que tal coisa me faria triste? Mas não precisareis dizer-me nada: sei que Antônio está triste só de tanto pensar em suas cargas.

ANTÔNIO - Podeis crer-me, não é assim. Sou grato à minha sorte; mas não confio nunca os meus haveres a um só lugar e a um barco, simplesmente nem depende o que tenho dos azares do corrente ano, apenas. Não me deixam triste, por conseguinte, as minhas cargas.

SALARINO - Então estais amando.

ANTÔNIO - Ora! Que idéia!

SALARINO - Não é paixão, também? Então digamos que triste estais por não estardes ledo, e que saltar e rir vos fora fácil e acrescentar, depois, que estais alegre porque triste não estais. Pelo deus Jano de dupla face, a natureza, agora, confecciona uns sujeitos bem curiosos: uns, de olhos apertados, riem como papagaio trepado numa gaita de foles; outros andam com tal cara de vinagre, que nunca os dentes mostram à guisa de sorriso, muito embora Nestor jurasse que a pilhéria é boa.

(Entram Bassânio, Lourenço e Graciano.)

SALÂNIO - Eis que vem vindo aí Bassânio, vosso muito nobre parente, acompanhado de Lourenço e Graciano. Passai bem, que em melhor companhia vos deixamos.

SALARINO - Ficaria convosco até deixar-vos mais disposto, se amigos muito dignos não me solicitassem neste instante.

ANTÔNIO - Sei apreciar em tudo vossos méritos. Os negócios vos chamam, estou certo, e o ensejo aproveitais para deixar-nos.

SALARINO - Bom dia, caros lordes.

BASSÂNIO - Quando riremos outra vez, senhores? Dizei-nos: quando? Quase vos tornastes estranhos para nós. É concebível semelhante atitude?

SALARINO -Nossas folgas irão ficar só ao dispor das vossas.

(Saem Salarino e Salânio.)

LOURENÇO - Caro senhor Bassânio, já que achastes Antônio, vos deixamos. Mas mui gratos vos
ficaremos, se hoje à noite, à ceia, vos lembrardes do ponto em que devemos encontrar-nos de novo.

BASSÂNIO -Combinado.

GRACIANO - Signior Antônio, pareceis doente. Preocupai-vos demais com este mundo. Perda de vulto é tudo o que nos custa tantos cuidados. Podeis dar-me crédito: mudastes por maneira extraordinária.

ANTÔNIO - O mundo, para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste

O Mercador de Veneza, William Shakespeare, excerto retirado daqui.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

o livro dos dias


os dias correm, ou demoram-se em mim. ficam fragmentos, frases, pequenas coisas, escritas apressadamente, entre o pouco tempo de um intervalo, como a vida. ficam num caderno. o caderno tem o título «a maior parte do tempo passa-se a passar o tempo». e depois abre-se e lê-se algo que o dia foi ou podia ter sido.
como:
2. Eu, de vez em quando, T. A. (...)

6. Hoje estou com preço verde FNAC: €12,95 (...)

7. «Sentia-se triste como uma casa sem móveis» Flaubert (...)

9. É possível que nos tenhamos enganado no caminho.

(...)

os outros dias ficam para outra altura, outra vinda (sem metafísica ou espiritualidade, falo). é possível que seja erro, mas é certo agora. e tantas voltas dadas para chegar aqui, espaço físico em que quase coexistimos. frente a frente, sem o toque final. o tempo e nós o diremos.

O tulisses vai, eufemisticamente, de férias por uns tempos. quem disse que os mau-miaus não podem descansar também? ou dedicar-se finalmente ao que importa?


adenda: debaixo das rodas de um carro, a Meia-Leca, a primeira gata da Consti e mãe da Kika, esgotou a sua sétima vida...

3 poemas de Fernando Assis Pacheco + 1


Selecção tardia (já li há quase um mês) e muito tendenciosa. Há mais do que isto, e que estes temas, e que estas páginas. Mas deu-me para aqui... O último é um recado que deixo a quem nunca o verá, em princípio, e se vir não perceberá que é para si. Mas pode ser que qualquer dia lho diga, de outras maneiras...

ACONSELHO-VOS O AMOR

Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor
cheio de força; os moinhos
girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).

ACONSELHO-VOS A LUTA.


***
SEM QUE SOUBESSES

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.

****
UM CAMPO BATIDO PELA BRISA

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho um «pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

*****
COM A TUA LETRA

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Asa, p.22, 24, 28, 30

segunda-feira, janeiro 05, 2009

os dois últimos poemas (Junho/Julho 2008)

Sem Explicação

Ainda que dê várias moradas
É no teu corpo que me podem encontrar.


Explicação dos teus dois lagos

Sobre esses lagos nada direi.
Neles não me afogo
Nem mergulho.
Talvez apenas os dedos toquem a superfície
E percam o ser, satisfeitos.
Mas desses lagos azuis não falo.
Não é azul de medo, são claros
A luz reflecte-se e brilha
Como janelas viradas a nascente
Tapadas com cortinas interiores
Não se vê, não mergulho.

Mas num momento inesperado
A visão abre-se até ao fim
E são os próprios lagos que mergulham em mim.

domingo, dezembro 21, 2008

Sugestões de Dezembro

Algumas das coisas que preencheram este mês:

1 – A História de Van Gogh e o Rapaz dos Girassóis, Laurence Anholt, Círculo de Leitores****

argumentos: um livro muito bonito visualmente, com ilustrações (do próprio Laurence Anholt) que partem dos quadros de Van Gogh para recriar um tempo da vida do pintor: a da sua estadia numa aldeia e o relacionamento desenvolvido com o rapaz os girassóis. Revela a importância da arte e a incompreensão a que as novidades são votadas, ou seja, o problema da aceitação da diferença. Ver mais em: http://www.anholt.co.uk/

2 – «Ficções 3», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente****
3 – «Ficções 4», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente****

argumentos: gosto muito destas revistas/livros que apresentam contos inéditos, contos traduzidos pela primeira vez ou melhor traduzidos do que nas versões já existentes, contos recuperados das colectâneas de diversos autores. Destes dois volumes destaco os contos de Maupassant, Dino Buzatti, Mário de Carvalho e Ambrose Bierce, Henry James, Marcel Aymé, Margaret Atwood e Hélia Correia. Mais: «Tirando o moscardo, a única vez que vi um bicho a voar sem ter com quê, foi uma cobra num livro de Lídia Jorge. Mas isso era ficção, a mesma autora não o nega.» (Mário de Carvalho, 3, p.96); «Na altura, ainda não sabia que quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre a falta de algo onde quer que esteja.» (José Luís Peixoto, 3, p.127) e «Aquilo a que chama morrer é apenas a última dor na realidade, não existe “morrer”» (Ambrose Bierce, 4, p.10).


4 – Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto, Caminho****

argumentos: mais um interessante livro de Mia Couto, mas pareceu-me um pouco inferior aos anteriores. Mas ainda assim um excelente livro: leitura facilitada pela predominância do diálogo e pelo tom de mistério da trama, já que começam a surgir dúvidas sobre a verdade da realidade enfrentada por um médico que se deslocou a Moçambique para recuperar o amor de uma moçambicana que conheceu em Lisboa, e que espera que ela regresse de um estágio, ao mesmo tempo que vai conhecendo os mistérios de Vila Cacimba. As personagens são muito interessantes, existe humor e profundidade – a leitura rápida pode deixar alguns pormenores não revelados – e frases daquelas que se recortam para álbuns e diários: «Eu só melhoro quando deixo de ser eu.» (p.13), «agora sofro de rugas até na alma» (p.29), «Todos sabem: a casa só é nossa quando é maior que o mundo» (p.50), «o meu medo não é de morrer. o meu medo é ter de nascer de novo.» (p.135) e «Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que e sempre tardio e pouco.» (p.155).


5 – Dacoli e Dacolá, Miguel Horta, Pé de Página***
6 – O Afinador de Palavras, Rui Grácio e Catarina Fernandes, Pé de Página***
7 – Os livros que gostam de contar histórias, Fátima Éffe & Zé-Luís, Pé de Página****

argumentos: uma série de livros de leitura encomendada pela coordenadora de Português do segundo ciclo para escolher qual destes para o quinto e para o sexto – para uma actividade de leitura na sala de aula seguida de conversa com o autor ou assistência de uma pequena representação teatral. Apesar de o primeiro ter histórias bonitas, e o segundo umas imagens belíssimas (tristonhas), eu optei nitidamente pelo terceiro, sobre os livros (de bolso, em branco, as letras e as palavras, etc. etc…) Mas o terceiro fica para o sexto, porque é um pouco mais extenso e exigente. Mais: «A nossa terra é onde está o nosso coração e o nosso coração sabe sempre o seu lugar» (Miguel Horta, p.5), «Na realidade, as palavras, tendo o mesmo som e as mesmas letras, nem sempre significam o mesmo. Podem ter muitos significados, consoante as companhias com que andam…» (Rui Grácio e Catarina Fernandes, p.10) e «O livro não é apenas um livro» (Fátima Éffe & Zé-Luís, p.8).


8 – A Viagem do Elefante, José Saramago, Caminho*****

argumentos: um grande romance, mais um. Este conta a longa e difícil viagem do elefante salomão (letra minúscula de propósito), mais tarde dito o solimão, através de portugal, espanha, itália, até à Áustria, que é enviado a maximilano da áustria como presente do rei d. joão III. Obviamente a viagem do elefante é apenas o pretexto para uma série de meditações sobre o ser humano, espelhado ou não no comportamento e natureza do elefante, mas também críticas ao poder político e religioso, onde prepondera, a meu ver, o humor de uma ironia distanciada mas também compadecida. Um excelente romance de um dos nossos melhores escritores. Mais: «Nem tudo são letras no mundo, meu senhor, ir visitar o elefante salomão neste dia é, como talvez se venha a dizer no futuro, um acto poético, Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu,» (p.19); «costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas.» (p.75); «Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades.» (p.147) e, entra muitas outras, «Ter de pagar pelos próprios sonhos deve ser o pior dos desesperos.» (p.97).


9 – Trabalhos e Paixões de Benito Prada, Fernando Assis Pacheco, Asa****

argumentos: um romance de tom picaresco, muito bem construído, sobre a família Prada, centrada no filho mais velho, Benito, que segue as pisadas do pai e deixa a Galiza para trabalhar em Portugal, mas de modo permanente. Mais do que os amores, temos a sua vida de trabalho, os sofrimentos e as conquistas, o valor da família, tudo num contexto histórico que ganha algum relevo, por vezes: Primeira República, emigração massiva dos galegos, Sidónio Pais, o Estado Novo, Franco… Com aspectos curiosíssimos, como «mas era apenas sonho, e os sonhos doem como não doem as picadas das vespas» (p.47), «Gasta-se muita literatura a falar do medo.» (p.168) e «Tristeza tão triste nunca saiu nos livros.» (p.224).


10 – A Musa Irregular, Fernando Assis Pacheco, Asa***

argumentos: poesia reunida de Fernando Assis Pacheco. Poesia de amor, de medos, de paz e de guerra, de dor, de vida e morte. Poesia sobre tudo, em sumo. E vale a pena conhecê-la, de resto. De resto, alguns poemas ainda virão para este blogue.

Cinema:

O Empregado do Mês***
Uma Série de Desgraças****

Música no Coração*****
O Feiticeiro de Oz****
A Minha Super Ex****


TV:

Clara e Francisco****
Robin Hood****
O Triângulo Jota***

Poema de Natal 2008

Continuo a tradição: poema de Natal a fim de vos desejar boas festas. Este ano, depois de Sophia, Cabral do Nascimento e Vinicius de Morais, vem um poema de António Rebordão Navarro.

Numa noite em que nasciam
crianças aos milhares
e outras morriam sem assistência médica
e outras morriam brincando com bombas
e outras morriam esmagadas
por fugitivos automóveis;
numa noite de Inverno,
numa noite de névoa
sobre os barcos sem equipagem junto ao rio;
numa noite de ruas desertas e casas fechadas
aos que andavam perdidos e sozinhos,
três poetas sentaram-se a uma mesa
e decretaram a paz e a alegria.

E decretaram a paz
para os que, cabelos soltos nas mãos das noites frias,
viviam na cidade onde agora estavam,
respiravam o mesmo ar
e liam as mesmas notícias dos jornais.
E decretaram a paz
para os que tinhamos olhos riscados pelos dedos do medo.
E decretaram a paz
para os que traziam
a angústia dos dias misturada no sangue.
E decretaram a alegria
para as crianças que estavam nascendo em todo o mundo.
E decretaram a alegria
para as jovens que sentiam os seios despontar.
E decretaram a alegria
para as mulheres que eram mães.
E decretaram a alegria
para todos os seres.

Foi então que Jesus Cristo
nascido há quase mil
novecentos e sessenta anos,
sorriu no céu que cobria a mesa
onde três poetas se tinham sentado
para decretar a paz e a alegria.

in: Natal... Natais... (Antologia organizada por Vasco Graça Moura)

Vazio Repetido (contos II - 2008)

Contos, ou coisas mais crónicas, aqui fica a lista do trabalho feito este ano, seguindo o modelo do ano passado. Com links para outros posts onde se podem ler excertos ou o texto na íntegra, em alguns casos, se bem que não na sua versão final. Falta apenas terminar o conto «50. Em forma de coisa». Mais uma vez me adiantei e ainda bem. As histórias marcadas com * são recuperações de textos mais antigos, adaptadas, reescritas, alteradas. Segue-se Já deste corda ao pardal? (III - 2009)

1. O vazio
2. O caminhar do solitário
3. Dicionário destas palavras
4. O Mergulho
5. Le thé des écrivains
6. O retiro dos passarinhos
7. O rapaz que não sabia como fazer uma redacção*
8. A prisão mental
9. Gestos que ainda não chovem
10. A adivinha
11. Colares: contas de ida, contas de estada
12. A excepção ou As cartas de Cabo Verde
13. A fuga
14. Geografia e ontologia
15. All men are lonely now
16. Casa: mudar de, mudar a
17. D. Mirra
18. A cidade
19. LE7R45^3
20. Flutuo
21. A consistência dos sonhos
22. O serial killer das francesinhas
23. Através das terras
24. O dia que não amanheceu
25. Omni
26. Teias de aranha
27. As casas com cortinas*
28. Sinais/Signos*
29. O deserto*
30. O suave milagre de Tormes
31. Trocando fronteiras
32. Os amigos perdidos
33. As duas mãos
34. Para além das amoras
35. Fragmentos do funeral *
36. Post das mais belas palavras
37. As palavras no vento
38. No espelho
39. Monte Clérigo
40. Um homem como os outros
41. O abismo
42. Homenagem a Dionisos
43. Exp
44. Os dias
45. O viciado em chocolate
46. Miausente
47. Das coisas
48. O silêncio
49. Debelação
50. Em forma de coisa
51. Um estranho Natal*
52. História corrida da procura trágica do amor

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Estante de livros

em maré de sorte...

apesar do trabalho infinito, das reuniões que aí vêm, não me posso queixar quando olho para os meus colegas e comparo o trabalho e os alunos deles com o meu/meus. sorte, enfim. e mais sorte noutras coisas: tudo tem corrido pelo melhor, embora por mais de uma vez, nestas últimas semanas, me tenha apetecido mandar tudo para onde Judas perdeu as botas... ou ir eu para lá.

mas isto não é sobre mim, ou antes, sim, mas em relação a um outro blogue. Estante de Livros foi descoberto por mim há um par de meses e tenho-o seguido com fidelidade: notícias sobre livros, sinopses e comentários, sugestões de estantes, um ou outro passatempo, coisas curiosas sobre livros ou com eles relacionados. Concorri um dia destes (não sei qual, ando meio perdido) a um passatempo e ganhei um dos prémios sorteados!

E no mesmo blogue descobri a estante da minha vida. Podem vê-la abaixo e imaginar-me a fazer uma com o meu pai, nas férias de Verão... é que o original é bem puxadito e o meu ordenado não dá para tanto. Mas, além disso, uma só não deve chegar... nem duas...

domingo, dezembro 07, 2008

Alçada Baptista, 1927/2008

Descobrem-se assim as coisas. Estava a abrir o email e aparece a notícia. Reconheço que nunca me disse nada nem nunca li nada do senhor, mas quando escritor morre, mesmo ficando o que de mais importante escreveu (em princípio), fica sempre o lamento por aquilo que não chegou a ser escrito.
Advogado e escritor, publicou ensaios, crónicas, romances e ficção, cujas características princípiais estão as narrativas imaginárias e as memórias pessoais, o interior do Homem, o afecto, a mulher...

Obra:

Documentos Políticos (crónicas e ensaios) (1970)
Peregrinação Interior I - Reflexões sobre Deus (1971)
O Tempo das Palavras (1973)
Conversas com Marcello Caetano (1973)
Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança (1982)
Os Nós e os Laços (romance) (1985)
Catarina ou a Sabor a Maçã (1988)
Tia Suzana, Meu Amor (romance) (1989)
O Riso de Deus (romance) (1994)
A Pesca À Linha, Algumas Memórias (1998)
A Cor dos Dias (2003)

O segundo, o terceiro, o quinto e o último parecem interessantes, só pelo título. Informação recolhida aqui e aqui.

Palavras do autor:

«- Essa é uma das minhas dúvidas: um homem e uma mulher não podem viver na dialéctica e muito menos nesta pedagogia doméstica de se ensinarem como é que um quer o outro. O futuro não vai conhecer a dialéctica e o amor entre duas pessoas tem que ser o nosso ensaio de futuro, pelo menos aquele que nos é mais acessível. Amar é uma atitude de compreender e aceitar: é reconhecer os outros e respeitar a sua liberdade. Não pode ser outra coisa, se quisermos acabar com este espectáculo triste em que todos andamos metidos. Eu só aceito catástrofes naturais: os tremores de terra, as inundações, as secas, os ciclones, a morte. Não posso aceitar esta destruição domiciliária dos sentimentos e da vida pela vontade deliberada dum homem e duma mulher que é o que se anda pr'aí a viver com o nome de amor...»

de Os Nós e os Laços

sábado, dezembro 06, 2008

Nem só de póneis

Porque nem só de póneis vive um professor de Português: após muitas calinadas, distracções e desconhecimentos gritantes, muitas vezes resolvidos com prodigiosas imaginações, li um texto de um aluno do décimo que me arrepiou todo. Um aluno não muito bom, mas esforçado, muito educado, simpático. Que me escreve no portfolio, entre outras coisas: «somos todos artistas de outros palcos» e «quero saber contornar-me, como se faz com o lápis no papel, ou o final da tela». E mais não digo, que as coisas melhores, ou texto todo, era só para eu ler, e talvez alguém mais especial do que um simples professor.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Sugestões de Novembro

Livros:

1 – O Poeta Nu, Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim*****

argumentos: é-me impossível falar deste livro sem usar certos adjectivos valorativos, alguns fora de moda. Mas vou tentar. Adorei quase tudo, a simplicidade aparente, os poemas breves a seguir a tradição japonesa, os outros menos orientais mas também eles ligados à natueza, ou a cidades (Braga, Porto) ou ao corpo ou ao sexo, também tudo isto coisas da natureza. Esta recolha da poesia de Jorge Sousa Braga mostra-se um poeta com uma voz própria e interessante. Muitíssimo recomendável. Podem ler alguns poemas dele aqui, e fica ainda aí: «Por último, um lamento: que estes poemas não possam chegar ao leitor da forma mais apropriada, ou seja, em folhas de trevo» (p.169).

2 – Antes de Começar, Almada Negreiros, Asa*****

argumentos: claro que já conhecia, até porque foi o texto dramático que estudei quando andava no oitavo ano. Mas reler este texto é um prazer sempre renovado. Dele publiquei aqui um excerto, com uma imagem retirada desta edição que acompanha o manual de Língua Portuguesa Ponto por Ponto. Quem não conhece, por favor, leia. É muito bonito, desde a ideia dos brinquedos terem vida quando os adultos não estão a olhar até à força do amor.

3 – Ardem as Perdas, Antonio Gamoneda, Quasi***

argumentos: e porque não ler poesia espanhola? Lá fui eu, e não me arrependi muito. Nada de especial, entusiasmaram-me alguns poemas, alguns dos quais disponíveis aqui. A edição é bilingue, para quem preferir ler no original. Mais: «Eu vi a sua pele trabalhada por relâmpagos.» (p.49).

4 – O Gueto, Tamara Kamenszain, Moby-Dick*

argumentos: vinha junto com a revista «Inimigo Rumor» n.º14. Este sim não me disse nada de especial, talvez por não perceber alguns dos referentes da cultura judaica, ou sei lá. Ainda assim, colhi dele o poema que está aqui.

5 – Contos de Sempre, coordenação e selecção de José António Gomes e Isabel Ramalhete, Porto Editora***

argumentos: um conjunto de contos de Maria Amélia Vaz de Carvalho e Gonçalves Crespo, Perrault, Irmãos Grimm e Oscar Wilde. Contos interessantes, bons para ler ao quinto ano (acompanham os manuais do quinto ano de Língua Portuguesa da Porto Editora), embora a selecção possa ser discutível e etc. Mas dá para passar uns momentos agradáveis e, se o objectivo é motivar para a leitura, está no bom caminho.

6 – Makas da Banda, Xacolo Monangumba, Campo das Letras***

argumentos: uma história de Angola. Mais uma. Faz lembrar Luandino em alguns momentos, e sobretudo Pepetela, sem ter o génio do primeiro nem o aborrecimento de alguns livros do segundo. Mas é mais do mesmo: a guerra, a luta pela independência, muito semelhante, em parte ao que já se leu, sobretudo em A Geração da Utopia, ou outros, sei lá. Mas tudo aqui é contado de uma forma bastante pessoal, com argumentos próprios que valorizam este pequeno livro que vale a pena ler. Mais: «Não há razão alguma, Nguma, por mais pura que seja, para servir os porquês» (p.29), «Os cadávares completamente mortos voavam no ar, cada um para seu lado onde a terra lhes engolia.» (p.41) e «A vida corria e nas suas asas iam muitos a reboque.» (p.79).

7 – A Árvore, Sophia, Figueirinhas*****
8 – A Fada Oriana, Sophia, Figueirinhas*****
9 – A Menina do Mar, Sophia, Figueirinhas*****
10 - A Floresta, Sophia, Figuerinhas*****

argumentos: se bem que já os conehecesse, de ouvir falar, de reminiscências da infância, soube-me muito bem mergulhar no universo da escrita para crianças da minha Sophia. Juntam-se estes então a A Menina do Mar, O Rapaz de Bronze e O Cavaleiro da Dinamarca, ainda e sempre o meu favorito. Falta ainda O Anjo de Timor. Histórias bem construídas, com momentos de descrição extraordinários, com uma forte atenção à Natureza (mar, floresta, árvores, animais, jardins...) e ao Homem (seus valores, crenças, capacidades). Imprescindível ler e conhecer a melhor escritora de língua portuguesa (não tenho dúvidas disso). Mais: «Eu sou um espelho; passei a minha v ida a ver. As imagens entraram todas dentro de mim.» (AFO p.20) e «chorar até que a minha solidão se desfaça» (AFO, p.51).

11 – O Carteiro de Pablo Neruda, António Skármeta, Sábado****

argumentos: a leitura está em volta em coincidências. Primeiro dei um excerto numa aula do décimo ano, porque vinha no manual e os alunos acharam piada. Depois saiu na colecção da Sábado. Depois, uma aluna escolheu-o para o contrato de leitura. E li-o: porque vi o filme e gostei, porque queria conhecê-lo para avaliar melhor, porque é literatura sul-americana e quero conhecê-la melhor... Mario Jimenez, pescador tornado carteiro de Pablo Neruda, desperta para as metáforas e para o amor, com a ajuda do poeta e da poesia. Um livro belíssimo sobre a amizade, o amor, a poesia, mas também o contexto político chileno. Mais: «Pensa que o mundo inteiro é a metáfora de qualquer coisa?» (p.29); »Todos os homens que primeiro tocam a palavra, depois chegam mais longe com as mãos.» (p.64).

12 – A Salvação de Wang-Fô e outros contos orientais, Marguerite Yourcenar, Leya*****

argumentos: vai-se por este livro de contos com cuidado, com prazer demorado, pois todo ele é surpreendente e de extremo bom gosto. Uma série de contos orientais ou nem tanto, de que se destacam... todos. Claro que o primeiro, «A Salvação de Wang-Fô» se destaca por toda a importância que se lhe tem atribuído, mas todos têm alguma coisa de tocante no meio de toda a beleza, dada muito pelo uso do maravilhoso. Mais uns pontos a favor de Marguerite da minha parte. Mais: «Esta gente não foi feita para se perder no interior de uma pintura.» (p.22); «Todos somos divisão, fragmentos, sombras, fantasmas sem consistência. Todos julgámos chorar e exultar desde há séculos e séculos.» (p.105).

Música:
Perfect Simetry - Keane*****

argumentos: um excelente regresso de um dos meus grupos favoritos. Um álbum que me parece mais mexido, mais alegre, mais positivo que as tendências dos anteriores, um pouco anos 80, parece-me, às vezes também a lembrar Mika... E gosto muito, tal como dos anteriores. Não há ainda uma música que iguale algumas dos anteriores, mas é uma questão de tempo... Para já, não destaco nenhuma, pois gosto muito de todas!

Cinema:

Non ou a Vã Glória de Mandar**** - do «mestre» Manoel de Oliveira, que foi durante este mês objecto de homenagem na RTP2. Já o tinha visto, mas era muito pequeno. E desta vez vi com a alma pequena: gostei muito do filme, melhor do que outros posteriores que vi dele, e adorei a cena inicial, longa, em que se filma uma árvore (embondeiro?) e se houve uma música com sonoridade algo africana. Um filme em que se revisita ironicamente a história nacional, nos seus grandes momentos: batalhas, conquistas, Camões, guerra colonial - o tempo presente da acção principal do filme. E a figura enigmática e obsessiva de D. Sebastião a ter mais um grande enfoque.

Ensaio Sobre a Cegueira***** - fui ao cinema, finalmente. E para ver a adaptação de um grand eromance. Adorei, como já tinha gostado da adaptação em teatro pelo Bando (em 2004, se não erro). De Fernando Meirelles, com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Branco, Danny Glover, Don McKeller, Gael García Bernal. Apesar das diferenças de linguagens, o filme é bastante fiel, não faltando os belíssimos momentos da igreja e suas imagens vendadas, o cão que lambe as lágrimas, ou o final, arrebatador. E mesmo as cenas mais violentas, como as orgias/violações e o assassinato com a tesoura foram filmadas com muito bom gosto. Muito interessante a banda sonora, a fotografia, as relações com a pintura, o branco e o preto...

TV:

Lipstick Jungle*** - só porque sim, porque não vi nada neste mês excepto isto, nas sextas à noite, única altura em que posso aparvalhar em frente à televisão. Três mulheres fantásticas de que vivem numa grande cidade e têm vidas aparentemente perfeitas mas com problemas próprios (onde é que eu já vi uma coisa do género?), como toda a gente. Mas é engraçado, dá para passar bem o tempo e até faz rir às vezes. Gosto especialmente da fulana da moda...