Porque faz cada vez mais sentido. Mesmo depois do que aqui já disse. Sobretudo o refrão, impagável: «enquanto vergo, não parto/ enquanto choro, não seco/ enquanto vivo, não corro/ à procura do que é certo» (todos reparámos nos pares antitéticos e todos sabemos do que se fala no final).
terça-feira, março 31, 2009
sábado, março 28, 2009
O livro dos dias - (breve selecção de Março)
8. «O meu Guano desapareceu, fiquei muito triste... e o Rafa: ó Rita, não fiques triste, o Guano só morreu e depois volta.» - A sabedoria das crianças!
9. Esses botões desapertados, por esquecimento, em lugar tão crítico, bastariam para encher a minha mão. Mas não para saciar o que tu sabes que também termina em ão.
10. Deus é realmente um romancista dos ranhosos. E o resto é silêncio, pois então.
14. E não é que voltou mesmo! O meu primo Rafael afinal sabe mesmo destas coisas. E ainda comentou «Foi às meninas»!
19. E «enquanto eu não reclamo a dor dos dias» e a morte não toma conta dessa reclamação, continuarei aqui, à espera...
27. «É para dizer que em parte a minha vida está ligada à tua e tens que cuidar de ambas - agora não tens outra saída senão viver eternamente.» Marta
29. «A ouvir o silêncio que a ausência da tua voz, do teu abraço... de ti... traz até a mim...» (roubado ao Tozé - frase do msn)
30. Face ao vazio e à loucura: as palavras.
31. Pergunto-me quantas vezes te terás lembrado de mim hoje. Nenhuma, ou uma ou outra, por acidente. Pois eu apenas uma; ao acordar lembrei-me da tua ausência real... e nunca mais apaguei de mim o desejo de ti.
terça-feira, março 24, 2009
desafio em março

Do tempo apertado, sem tempo quase, entre os afazeres de final de período sem vontade, e o fantasma da dissertação, e o fantasma da minha própria vida... fez-se este conjunto de leituras. Gradual, demorado no caso do Vale Abraão (brilhante, mas denso e não me apanhou na melhor fase), enquanto que os seguintes, a partir de Um Crime no Expresso do Oriente, me apanharam na fase do tudo preparado até ao final das aulas, o matar o tempo que devia ser para a dissertação. E continuo a ler, como um maluco. E ainda bem, porque soube-me muito bem percorrer As Cidades Invisíveis, ler as histórias com bichos, ou chegar à conclusão que O Resto é Silêncio. E o que mais virá, diria o meu pai se lesse isto.
25. O Beijo da Palavrinha, Mia Couto, Caminho, 30p.*****
26. Fanny Owen, Agustina Bessa-Luís, Público/Mil Folhas, 224p.****
27. Crime no Expresso do Tempo, Luísa Ducla Soares, Lisboa Editora/Civilização, 80p.****
28. Sonetos Luxuriosos, Pietro Aretino, Guerra & Paz, 96p.***
29. Só de Amor, Maria Teresa Horta, Frente e Verso/Visão, 80p.***
30. Vale Abraão, Agustina Bessa-Luís, Planeta DeAgostini, 306p.*****
31. Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie, RBA, 240p.*****
32. Raízes do Porvir, Domingos Florentino (Marcolino Moco), Universitária, 84p.***
33. Sem Título e Bastante Breve e Outros Poemas, Al Berto, Assírio & Alvim/FNAC, 32p.***
34. O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro, 200p.*****
35. As Batalhas no Deserto, José Emílio Pacheco, Oficina do Livro, 88p.****
36. «Ficções de bichos», direcção de Luísa Costa Gomes, 160p.*****
37. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Biblioteca Sábado, 180p.*****
Recomendam-se ainda Milk e Changeling - dois filmes muito bons.
domingo, março 22, 2009
Revolutionary Road - algumas pequenas pérolas


April Wheeler: So now I'm crazy because I don't love you, right? Is that the point?
Frank Wheeler: No! Wrong! You’re not crazy, and you do love me. That’s the point, April.

John Givings: Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.
*********
sábado, março 21, 2009
Dia da poesia, ó T!

(isto não é um poema, é uma sms com versos de Fernando Assis Pacheco - o poema completo pode ser lido aqui. E esta é também a entrada do Livro dos Dias de hoje)
domingo, março 15, 2009
In Memoriam
Simples, como deveria ser, apesar de tarde. Com umas músicas dos nossos Radiohead, que me apresentaste e me fizeste apreciar. Talvez não sejam as tuas favoritas, acho que a tua era «Creep», não me lembro bem (isto da memória tem destas coisas), mas estas são as minhas. Não te preocupes que não te sigo, nem eu estou preocupado, agora, com o ter-te sugerido um caminho.
E obrigado pela caixa, pelo barco com a carta (apesar de não ter gostado de tudo o que lá escreveste), pelo livro O Resto é Silêncio que lerei o mais depressa possível. Obrigado sobretudo por teres partilhado comigo uma amizade - breve, mas a sério. E talvez um dia nos possamos ver.
As minhas favoritas, além de «No Surprises»:
«High and dry» e «Karma Police».
Ano Agustina

excerto do artigo - «As Fúrias em "sede absurda de ruína"»
«Fica antes uma sugestão de suspensão, de ruína não totalmente concretizada, como se fosse possível um ressurgimento de que é símbolo a «energia» acima referida, ou ainda a salamandra negra referida no final do romance, a salamandra cuja vida se coloca em hipótese, mas «sem ética possível e sem transcendência» (Bessa-Luís, 1977, 179). No entanto, a configuração que se apresenta não pode deixar de se considerar como disfórica e sem solução, uma vez que o espaço, agora transformado em lugar, segundo a distinção estabelecida por Michel de Certeau, não parece deixar lugar a uma nova transformação. Mas isso não se afirma como certo, pois há na sua obra, e nesta também, uma vacilação das certezas, um romper do esperado, e tudo é possível, como a contradição – um dos pactos que o leitor de estabelecer de início com a obra de Agustina, a fim de a pretender conhecer um pouco melhor, como afirma, exemplarmente, Lídia Jorge: «o contraditório é o chão do pensamento. Quem não entender essa raiz profunda terá dificuldade em compreender a obra que produziu» (Jorge, 2009, 53). Mesmo da destruição pode nascer a criação – ainda que ficcional e de papel.»
sábado, fevereiro 28, 2009
Desafio em Fevereiro
13 - O Principezinho, Joann Sfar, Presença, 110p.****
14 - A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi, Booket, 114.*****
15 - «Ficções 6», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 150p.****
16 - Livro do Português Errante, Manuel Alegre, colecção Frente e Verso - Visão, 78p.***
17 - Amor, Amor, Amor, Andy Warhol, Campo das Letras, 50p,****
18 - «Ficções de Guerra», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 182p.****
19 - Camões, Miguel Torga, Coimbra, 20p****
20 - As Fúrias, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, 180p.*****
21 - Pedro, Lembrando Inês, Nuno Júdice, colecção Frente e Verso - Visão, 60p***
22 - Os Contos de Beedle o Bardo, J. K. Rowling, Presença, 118p***
23 - O Desejo, Safo, Teorema, 88p***
24 - Dos Livros, Montaigne, Teorema, 60p***
Mais sugestões: a (polémica) Feira do Livro de Braga, apesar de pequena. E um filme, um grande filme: Revolutionary Road - com a muito grande Kate Winslet!
O Livro dos Dias - (breve selecção de Fevereiro)
2. Estou com vontade de me zangar com alguém hoje. E queria que fosses tu, para a seguir fazer as pazes…
3. Eu tenho sempre palavras, às vezes não sei é o que fazer delas…
4. Ontem foi quase. Hoje não me apetece. É preciso, portanto, ter cuidado. São estes os dias, os momentos mais perigosos. Os que são do contra, os que se seguem aos frustrados, os que subitamente nos escapam das mãos.
6. O momento da tarde, do dia, em que guardei nas minhas as tuas mãos durante o breve segundo de as sentires quentes e o longo instante de tas saber frias, e fortes e tuas, valeu por outros momentos feitos de palavras, hesitações, ironias. Admirável mundo este o do tacto. Estou em tempo de o explorar mais.
7. As mãos hoje enchem-se de livros, letras, pó – já que não te tenho para voltar a enchê-las de ti.
8. Hoje não pensei em ti… Não pensei, a sério. Hoje não. Não te imaginei comigo, não tentei ouvir o teu sorriso que não me saiu nunca dos ouvidos. Não. Não pensei em ti. Não pensei eu noutra coisa – por isso não pensei em ti. Fui em ti. E agora ao escrever isto não penso em ti, mas em nós – que ainda não somos.
13. Hoje é o dia. Escolhe entre as palavras, o objecto e o gesto. As palavras são ao que são, valem o que quisermos fazer delas. Os objectos são mais fáceis, mas menos expressivos. Os gestos dizem tudo, mas são os mais difíceis – porque não se sabe a resposta que podem suscitar. Podem ser os três, também, embora se excluam por redundância. E eu que sou sempre tão seguro e só relativizo e duvido porque tenho as minhas certezas estou sem saber o que dirás, farás ou me darás. Talvez por isso goste de ti.
15. Coloquei o tinteiro novo, comprado ontem. Peguei no saco plástico pequeno e ia arrumá-lo, para outra vez. Mas senti que havia algo mais lá dentro, que não era suposto, que não tinha comprado. Eram dois corações em forma de chupa-chupa – tal igual, porque era o dia e não sei o quê. Não foi a solidão que me impeliu, foi o desânimo – porque ela sempre me teve e me guardou, este é que é novo e invasivo. E faz-me tanto mal que os dois corações foram encarcerados na caixa das goluseimas, como quaisquer outras, à espera de vez. Como todos, afinal.
19. Trocámos mais algumas palavras, as do dia-a-dia, as normais e esperadas. Menos mal, as coisas. Mas iguais, e eu não as queria assim. Ou ainda não normais, aliás. Faltam aquelas que nos definam, definitivamente, as verdadeiras. Aquelas que não quero ouvir, as que seria quase melhor ficarem em silêncio. A verdade é que te amo – mesmo que não deva, que não possa, mesmo se não quisesse. E por isso mesmo, não insistirei. E as palavras serão silêncio entre nós.
20. «Um mar rodeia o mundo de quem está só.» Nuno Júdice, Pedro, lembrando Inês
Que nomes têm estes mares que me rodeiam, sem mundo?
25. Eu não tenho nada. A sério que não tenho nada. Não se preocupem e acreditem: eu não tenho nada. Nada, nada. Porque o nada não pode possuir-se. E eu sou isso, apenas. Nada de nada importa, portanto.
26. Fiz um barco. Dobra aqui, vinco mais forte ali – e foi ganhando a forma desejada. Depois levei-o ao ribeiro da aldeia. A água era fria e corria livre, cheia. O barco não durou muito nela: virou, não conseguiu voltar à posição inicial. Ajudei o caudal com o meu próprio, mas sem exageros. E fiquei a vê-lo afundar-se, desfazer-se, pensando que eu próprio podia estar ali e o barco ser eu e eu o barco. E nada se perderia, segundo Lavoisier. Amen.
28. Destruo-me nestas coisas que escrevo, no que imagino, naquilo que faço sem ti. Mas até a destruição é criação! Assim, vale a pena, como quase tudo. E estas coisas, só minhas, não poderão destruir mais ninguém – mas também não criam…
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
O mundo não passa de mundo
1. Cosmos
2. Das palavras inúteis
3. Martim e a demanda
4. Conto contando-te
5. O homem sem a sua sombra
selecciono estes excertos só porque sim (os outros contos são mais privados e inacabados, ainda)
III. 1. Cosmos: «Mas nesse dia, estando ele à beira de um rio borbulhante, nu para tomar banho, apareceram uns seres estranhos, que ele pensou serem homens, por serem feitos à imagem e semelhança deles. Estes viram-no belo e harmonioso, mas acharam-no horrível, embora não se saiba se por ser diferente se por inveja dessa diferença. E perceberam quem era, e o que tinham de fazer. Por isso, atiraram-se a ele, para o afogar. Desse deus simples, sem nome, sem rosto, ficou a flutuar no rio amansado uma luz, e dessa luz, intensa, quente, começou a libertar-se um nevoeiro cerrado, que subia e formava nuvens mais grossas e escuras. Os seres parecidos com homens tiveram medo e fugiram, sabendo que tinham atentado contra um deus. Eram eles próprios deuses, mas sem a simplicidade e sem a pureza daquele que ali andava a ocupar espaços que eles próprios ambicionavam. Mas temeram e fugiram. Mais tarde viriam, dar-se-iam a conhecer e também eles viriam a ser expulsos deste mundo, mas deles ficaram estas estátuas, estas pinturas, estes templos como memória, como habitação. »
III. 2. Das palavras inúteis: «Ela não leu as palavras dele, ele não soube dizê-las de outra forma e as coisas teriam sido perdidas como num deserto um grão de arroz, se ela não fosse diferente, se ela não precisasse de as ouvir, de saber como «Dou por mim muitas vezes ao longo do dia a pensar no teu sorriso, nas tuas palavras e fico sempre cm vontade de estar contigo, de te abraçar, de te beijar e de dizer ao teu ouvido o quanto eu gosto de ti.». Não precisava, ao contrário dele e de tantos outros, das palavras para estabelecerem certezas. Mas ela não sabia como as palavras são importantes para que as certezas não passem drasticamente a dúvidas.»
III. 3. Martim e a Demanda: «Na verdade, a torre da vitória, apesar de bem conhecida por todos, de vista, ao longe, era tida como o maior mistério das redondezas. Era uma torre muito alta, coberta de silvas até metade, negra no restante, com pedras salientes como escamas, brilhantes ao sol, assustadoras em qualquer momento do dia ou da noite, envoltas num clima que lhe parecia intrínseco e que raiava a maldade pura. Ninguém, no castelo, percebia era o objectivo de guardar o livro do Graal num sítio mau. Ninguém achava também outro lugar onde fosse possível ter guardado uma coisa tão importante, embora não pensassem que poderia não estar ali, mas num mundo tão vasto como a soma dos reinos que ainda faltavam conquistar para juntar aos já conquistados. Ninguém que se tivesse aventurado pela floresta para chegar à torre tinha voltado para contar o que vira o que lhe sucedera…»
sábado, janeiro 31, 2009
O Livro dos Dias - (breve selecção de Janeiro)
Porque a rotina da escrita interlocutiva me exige uma marca pessoal além da óbvia, da lógica, da vulgar. E porque «eu sou um outro», ou muitos, às vezes.
6. Hoje estou com preço verde FNAC: €12,95.
(pista: Expiação)
7. «Sentia-se triste como uma casa sem móveis.» Flaubert, Madame Bovary
Os móveis enchiam o espaço interior, e cada um de nós tropeçava, batia, não vivia neles, porque tomava, conta de nós de forma opressiva. Não havia vazio, nem silêncio. E cada um de nós seguiu o seu rumo. Depois, aos poucos, desbaratadas no vento as lembranças, as palavras, queimadas, que foram os gestos, ficámos sós, eu e a casa. E embora a solidão não doa, entristece. Como a casa sem ti.
10. «Olha sexto, fazemos assim, nada de promessas, nem de palavras vãs… Pois… Não sei… Sem palavras é complicado… eu sei… Mas as palavras não resultam comigo. O que faço?» Pensamentos Blogueados
Cortava os pulsos para poder escrever assim.
12. Em demanda de um novo ser. Não ser tão, mas ser. Ser implica tão. E não somos apenas uma matilha de lobos solitários que andam ao desencontro ansiando por uma alma gémea que teima em não aparecer, somos, mais a matilha que também não a quer achar. Ou a nós.
15. 14 de Janeiro. Todo o santo dia bateram à porta. Gostava que sim. Mas só estive em casa à noite, Al Berto. Estás a ver, o teu dia foi melhor do que o meu. Abriria, e verias as pessoas. Escrevo agora, apenas. Não ouço o mar nem me sobressalto, mas as tuas palavras dizendo-o desconfiam-me de o ver entrar pelos olhos, a outra janela para lado nenhum. Serei um homem privilegiado não por (não) ouvir o mar ao entardecer, mas por desejar mais. Estou tão triste e apaixonado. E escrevo sem fim. Oh!
16. Dizem que sou demasiado intenso… ou demasiado superficial… decidam-se e depois avisem-me.
17. Se fosse para comentar o teu epíteto, «o amado», seria para o transformar em forma verbal de primeira pessoa. Com pronome de segunda. E seria então ainda mais óbvio.
21. O teu nome persegue-me no que leio, no que assisto, ao acaso. Em O Mercador de Veneza, no Boa Noite Senhor Soares. Eu não acredito em sinais, mas gostava. E saber interpretá-los dava jeito.
22. Não se sabe por que gostamos de pessoas que não conhecemos, mas gostamos. Coisas estranhas. E gostamos. Não de todas as coisas estranhas, mas algumas tuas. Ou todas. Ou tu, em suma. Tudo o que não de ti está no meu gosto. E sei que gosto de ti, porque fico triste se, por qualquer motivo, me atraso a chegar à nossa sala e menos tempo estaremos juntos, a falar do trivial, enquanto me perco como se te abraçasse e estivéssemos sós. Gosto só de ti.
25. Diz Kierkegaard qualquer coisa parecida com isto: que o Homem, não ser ele próprio, é o desespero. Mas onde fica o desespero do Homem na procura de si próprio?
27. Eu também sei que nenhum de nós não será alguma coisa. Ou seja, todos nós seremos alguma coisa. Nem que seja apenas agora nesta hora em que nos deixamos acreditar podermos ser. E mais não digo, que estou baralhado (as minhas certezas são sempre tão efémeras).
29. Pode ser que te surpreendas um dia, velho amigo. De não falares abertamente, não em rodeios, às voltas, mas como se percorresses com a linguagem um labirinto do qual não consegues sair – talvez porque não o queiras. Mas não te arrependas: nesses labirintos surgem portas, janelas, bifurcações. E se as tomares, quem sabe onde irás parar, o que te reservam para além do visível indistinto. Mas talvez possas arrepiar já caminho e em vez de janelas ou portas tenhas varandas. E daí ao infinito é um passo – sem perdas, pelos menos de maior.
quinta-feira, janeiro 29, 2009
7 maravilhas de origem portuguesa no mundo
Adenda: estão também em votação as 7 Maravilhas Naturais do Mundo, ainda numa fase intermédia. Eu já escolhi as minhas sete (incluindo o Douro, pois claro). Aí fica também o link.
sem sugestões, cem livros.

2 - O Vendedor de Passados, José Eduardo Agualusa, D. Quixote/Booket, 222p.****
afinal há uma sugestão:
quarta-feira, janeiro 21, 2009
bem, talvez já seja um regresso...
continua sem ser um regresso...
Isto não é um regresso...


«ATO I
SALARINO - Vosso espírito voga em pleno oceano, onde vossos galeões de altivas velas - como burgueses ricos e senhores das ondas, ou qual vista aparatosa distendida no mar - olham por cima da multidão de humildes traficantes que os saúdam, modestos, inclinando-se, quando perpassam com tecidas asas.
SALÂNIO - Podeis crer-me, senhor: caso eu tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeições navegaria com minhas esperanças. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debruçado nos mapas, sempre, procurara portos, embarcadoiros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.
SALARINO - Meu hálito, que a sopa deixa fria, produzir-me-ia febre, ao pensamento dos desastres que um vento muito forte pode causar no mar. Não poderia ver correr a ampulheta, sem que à idéia me viessem logo bancos e mais bancos de areia e mil baixios, inclinado vendo o meu rico "André" numa coroa, mais fundo o topo do que os próprios flancos, para beijar a tumba; não iria à igreja sem que a vista do edifício majestoso de pedra me fizesse logo lembrado de aguçadas rochas, que, a um simples toque no meu gentil barco, dispersariam pelas ondas bravas suas especiarias, revestindo com minhas sedas as selvagens ondas. Em resumo: até há pouco tão valioso tudo isso; agora, sem valia alguma. Pensamento terei para sobre essa conjuntura pensar, e há de faltar-me pensamento no que respeita à idéia de que tal coisa me faria triste? Mas não precisareis dizer-me nada: sei que Antônio está triste só de tanto pensar em suas cargas.
(Entram Bassânio, Lourenço e Graciano.)
SALÂNIO - Eis que vem vindo aí Bassânio, vosso muito nobre parente, acompanhado de Lourenço e Graciano. Passai bem, que em melhor companhia vos deixamos.
SALARINO - Ficaria convosco até deixar-vos mais disposto, se amigos muito dignos não me solicitassem neste instante.
ANTÔNIO - Sei apreciar em tudo vossos méritos. Os negócios vos chamam, estou certo, e o ensejo aproveitais para deixar-nos.
SALARINO - Bom dia, caros lordes.
BASSÂNIO - Quando riremos outra vez, senhores? Dizei-nos: quando? Quase vos tornastes estranhos para nós. É concebível semelhante atitude?
ficaremos, se hoje à noite, à ceia, vos lembrardes do ponto em que devemos encontrar-nos de novo.
ANTÔNIO - O mundo, para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste.»
sexta-feira, janeiro 09, 2009
o livro dos dias
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2. Eu, de vez em quando, T. A. (...)
6. Hoje estou com preço verde FNAC: €12,95 (...)
9. É possível que nos tenhamos enganado no caminho.

adenda: debaixo das rodas de um carro, a Meia-Leca, a primeira gata da Consti e mãe da Kika, esgotou a sua sétima vida...
3 poemas de Fernando Assis Pacheco + 1

ACONSELHO-VOS O AMOR
Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor
cheio de força; os moinhos
girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).
ACONSELHO-VOS A LUTA.
***
SEM QUE SOUBESSES
Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.
Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.
Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.
****
UM CAMPO BATIDO PELA BRISA
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho um «pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.
Sete dias ao longo da semana
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
*****
COM A TUA LETRA
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.
Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Asa, p.22, 24, 28, 30
segunda-feira, janeiro 05, 2009
os dois últimos poemas (Junho/Julho 2008)
Ainda que dê várias moradas
É no teu corpo que me podem encontrar.
Explicação dos teus dois lagos
Sobre esses lagos nada direi.
Neles não me afogo
Nem mergulho.
Talvez apenas os dedos toquem a superfície
E percam o ser, satisfeitos.
Mas desses lagos azuis não falo.
Não é azul de medo, são claros
A luz reflecte-se e brilha
Como janelas viradas a nascente
Tapadas com cortinas interiores
Não se vê, não mergulho.
Mas num momento inesperado
A visão abre-se até ao fim
E são os próprios lagos que mergulham em mim.

