terça-feira, março 31, 2009

(bem) na minha mão - Susana Félix

Porque faz cada vez mais sentido. Mesmo depois do que aqui já disse. Sobretudo o refrão, impagável: «enquanto vergo, não parto/ enquanto choro, não seco/ enquanto vivo, não corro/ à procura do que é certo» (todos reparámos nos pares antitéticos e todos sabemos do que se fala no final).

sábado, março 28, 2009

O livro dos dias - (breve selecção de Março)

5. Primeira frase, em muitas das últimas, que não é sobre ti, ou para ti. Ou então não...

6. O comprazimento da dor. O gostar de sofrer. Não é isso que quero mas às vezes parece que sim. É como se nada valesse realmente a pena e o melhor seria fugir e ler, apenas, até a morte chegar e levar-me para uma biblioteca eterna. Mas não é de livros que preciso, T., é de ti. do teu assoar discreto, do riso tão próprio, dos olhos inquietos. É por eles, pela falta deles e de tudo que sofro. Não podes ser da amizade, tens de ser também do amor, do meu amor - isso já és, falta o resto...

8. «O meu Guano desapareceu, fiquei muito triste... e o Rafa: ó Rita, não fiques triste, o Guano só morreu e depois volta.» - A sabedoria das crianças!

9. Esses botões desapertados, por esquecimento, em lugar tão crítico, bastariam para encher a minha mão. Mas não para saciar o que tu sabes que também termina em ão.

10. Deus é realmente um romancista dos ranhosos. E o resto é silêncio, pois então.

14. E não é que voltou mesmo! O meu primo Rafael afinal sabe mesmo destas coisas. E ainda comentou «Foi às meninas»!

19. E «enquanto eu não reclamo a dor dos dias» e a morte não toma conta dessa reclamação, continuarei aqui, à espera...

27. «É para dizer que em parte a minha vida está ligada à tua e tens que cuidar de ambas - agora não tens outra saída senão viver eternamente.» Marta
embora "eternamente" seja demasiado para mim...

29. «A ouvir o silêncio que a ausência da tua voz, do teu abraço... de ti... traz até a mim...» (roubado ao Tozé - frase do msn)

30. Face ao vazio e à loucura: as palavras.

31. Pergunto-me quantas vezes te terás lembrado de mim hoje. Nenhuma, ou uma ou outra, por acidente. Pois eu apenas uma; ao acordar lembrei-me da tua ausência real... e nunca mais apaguei de mim o desejo de ti.

terça-feira, março 24, 2009

desafio em março


Do tempo apertado, sem tempo quase, entre os afazeres de final de período sem vontade, e o fantasma da dissertação, e o fantasma da minha própria vida... fez-se este conjunto de leituras. Gradual, demorado no caso do Vale Abraão (brilhante, mas denso e não me apanhou na melhor fase), enquanto que os seguintes, a partir de Um Crime no Expresso do Oriente, me apanharam na fase do tudo preparado até ao final das aulas, o matar o tempo que devia ser para a dissertação. E continuo a ler, como um maluco. E ainda bem, porque soube-me muito bem percorrer As Cidades Invisíveis, ler as histórias com bichos, ou chegar à conclusão que O Resto é Silêncio. E o que mais virá, diria o meu pai se lesse isto.

25. O Beijo da Palavrinha, Mia Couto, Caminho, 30p.*****
26. Fanny Owen, Agustina Bessa-Luís, Público/Mil Folhas, 224p.****
27. Crime no Expresso do Tempo, Luísa Ducla Soares, Lisboa Editora/Civilização, 80p.****
28. Sonetos Luxuriosos, Pietro Aretino, Guerra & Paz, 96p.***
29. Só de Amor, Maria Teresa Horta, Frente e Verso/Visão, 80p.***
30. Vale Abraão, Agustina Bessa-Luís, Planeta DeAgostini, 306p.*****
31. Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie, RBA, 240p.*****
32. Raízes do Porvir, Domingos Florentino (Marcolino Moco), Universitária, 84p.***
33. Sem Título e Bastante Breve e Outros Poemas, Al Berto, Assírio & Alvim/FNAC, 32p.***
34. O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro, 200p.*****
35. As Batalhas no Deserto, José Emílio Pacheco, Oficina do Livro, 88p.****
36. «Ficções de bichos», direcção de Luísa Costa Gomes, 160p.*****
37. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Biblioteca Sábado, 180p.*****
38. Falar Verdade a Mentir, Almeida Garrett (ilustrações de João Caetano), Porto Editora, 60p.****


Recomendam-se ainda Milk e Changeling - dois filmes muito bons.

domingo, março 22, 2009

Revolutionary Road - algumas pequenas pérolas


April Wheeler: Come on, tell me the truth, Frank. Remember that? We used to live by it. You know what's so good about the truth? Everyone knows what it is, however long they've lived without it. No one forgets the truth, Frank, they just get better at lying.



April Wheeler: So now I'm crazy because I don't love you, right? Is that the point?

Frank Wheeler: No! Wrong! You’re not crazy, and you do love me. That’s the point, April.

April Wheeler: But I don’t. I hate you. You were just some boy who made me laugh at a party once, and now I loathe the sight of you. In fact, if you come any closer, if you touch me or anything, I think I’ll scream.

Frank Wheeler: Oh, come on, stop this April. [He touches her for an instant and she screams at the top of her lungs before walking away. He chases after her] Fuck you, April! Fuck you and all your hateful, goddamn - [He breaks a chair against a wall]

April Wheeler: What are you going to do now? Are you going to hit me? To show me how much you love me?

Frank Wheeler: Don’t worry, I can’t be bothered! You’re not worth the trouble it would take to hit you! You’re not worth the powder it would take to blow you up. You are an empty, empty, hollow shell of a woman. I mean, what the hell are you doing in my house if you hate me so much? Why the hell are you married to me? What the hell are you doing carrying my child? I mean, why didn’t you just get rid of it when you had the chance? Because listen to me, listen to me, I got news for you - I wish to God that you had!


John Givings: Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.

*********
Não transcrevo um dos melhores momentos do diálogo: a revelação da infidelidade dele e a reacção dela. Fica para ser visto, que é bem melhor. Um grande filme, sobre tudo o que já se disse por aí sobre ele, sobre a inutilidade, a futilidade, o sentir-se preso a um quotidiano que oprime e não permite ser-se maior, vivo, do desejo da mudança e da realização, do ser-se especial e não sentir-se desse modo... Eu próprio já devo ter dito da banda sonora (que ouço amiudadamente), das interpretações (e de uma grande Kate Winslet), da fotografia, do guarda-roupa, da direcção artística, do guião...
O que vai abaixo é só para quem viu:
No final, o desfecho inevitável de April foi acidente ou suicídio? Quando vi no cinema fiquei mais convencido pela primeira hipótese, mas agora, ao ver novamente em casa, parece-me que há uma certa tendência para a segunda. E ainda gosto mais do filme assim, ambíguo...

sábado, março 21, 2009

Dia da poesia, ó T!


Porque é dia de poesia (supostamente):
«andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada»
e «falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior»,
como diz Fernando Assis Pacheco, acrescentando:
«hoje os versos são para entenderes».
Se é que me faço entender pelas palavras dos outros.

(isto não é um poema, é uma sms com versos de Fernando Assis Pacheco - o poema completo pode ser lido aqui. E esta é também a entrada do Livro dos Dias de hoje)

domingo, março 15, 2009

In Memoriam

Simples, como deveria ser, apesar de tarde. Com umas músicas dos nossos Radiohead, que me apresentaste e me fizeste apreciar. Talvez não sejam as tuas favoritas, acho que a tua era «Creep», não me lembro bem (isto da memória tem destas coisas), mas estas são as minhas. Não te preocupes que não te sigo, nem eu estou preocupado, agora, com o ter-te sugerido um caminho.


E obrigado pela caixa, pelo barco com a carta (apesar de não ter gostado de tudo o que lá escreveste), pelo livro O Resto é Silêncio que lerei o mais depressa possível. Obrigado sobretudo por teres partilhado comigo uma amizade - breve, mas a sério. E talvez um dia nos possamos ver.

As minhas favoritas, além de «No Surprises»:

«High and dry» e «Karma Police».

Ano Agustina


Parece que escolhi bem o ano para ler, finalmente, os livros de Agustina que estavam nas estantes. Não foi bem escolher, aliás. Era para ter sido já no ano passado, mas passou e não foi. E era para ter sido aquando do Honoris Causa em que tive o provilégio de ser o transportador das suas insígnias. E a presença frequente dela na minha faculdade, e o facto de viver perto da minha residência (nos tempos do Porto), sempre me despertaram para a sua leitura...

No início deste ano, a Denise disse-me que era giro eu escrever um artigo para a «Textos E Pretextos», para o número dedicado à escritora. Pois até era, mas eu só tinha lido A Sibila há muitos anos e não compreendera; Dentes de Rato e não era a minha praia; Aquário e Sagitário e não saberia o que dizer dele. Então, a Flora, muito amavelmente, ofereceu-me O Comum dos Mortais e emprestou-me As Fúrias. E deixei os que tinha em casa por ler. Escolhi ler As Fúrias, por ser mais pequeno (em tempo de trabalho e com prazos...) e adorei. Pensei: que andei a fazer para adiar a leitura de Agustina? Escrevi o artigo, veremos se é publicado.

Entretanto já li Fanny Owen, que é também muito bom, e ando perdido pelo Vale Abrãao (mas vai lentamente, não é uma boa altura). Seguir-se-ão O Comum dos Mortais e Os Meninos de Ouro. Mas mais poderão fazer parte da minha biblioteca em breve.

Disse que era um bom ano para estas leituras porque este é o Ano Agustina. Assim mesmo, segundo o JL ou IC. A «Ler» já lhe dedicou um número, que a Flora também me ofereceu, e vêm aí exposições, um filme de João Botelho, a reedição da obra e disponibilização para leitura no IC, conferências, colóquios, ciclos de cinema... Uma excelente oportunidade para conhecer a obra de um dos melhores escritores portugueses vivos.

excerto do artigo - «As Fúrias em "sede absurda de ruína"»

«Fica antes uma sugestão de suspensão, de ruína não totalmente concretizada, como se fosse possível um ressurgimento de que é símbolo a «energia» acima referida, ou ainda a salamandra negra referida no final do romance, a salamandra cuja vida se coloca em hipótese, mas «sem ética possível e sem transcendência» (Bessa-Luís, 1977, 179). No entanto, a configuração que se apresenta não pode deixar de se considerar como disfórica e sem solução, uma vez que o espaço, agora transformado em lugar, segundo a distinção estabelecida por Michel de Certeau, não parece deixar lugar a uma nova transformação. Mas isso não se afirma como certo, pois há na sua obra, e nesta também, uma vacilação das certezas, um romper do esperado, e tudo é possível, como a contradição – um dos pactos que o leitor de estabelecer de início com a obra de Agustina, a fim de a pretender conhecer um pouco melhor, como afirma, exemplarmente, Lídia Jorge: «o contraditório é o chão do pensamento. Quem não entender essa raiz profunda terá dificuldade em compreender a obra que produziu» (Jorge, 2009, 53). Mesmo da destruição pode nascer a criação – ainda que ficcional e de papel.»

sábado, fevereiro 28, 2009

Desafio em Fevereiro

Young Girl Reading - Jean Honor Fragonard


O Desafio continua, ainda de forma um pouco trapaceira, parece-me. A maior parte ainda é constituída por livros pequenos, o que não significa que não sejam bons e profundos. Contos, sobretudo. Mas lá está a Agustina, que me acompanhará nos próximos tempos. E avizinham-se leituras mais substanciais. Estes dois primeiros meses, no fundo, foram a rampa de lançamento desta missão: deram-me alguma margem de segurança.


13 - O Principezinho, Joann Sfar, Presença, 110p.****
14 - A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi, Booket, 114.*****
15 - «Ficções 6», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 150p.****
16 - Livro do Português Errante, Manuel Alegre, colecção Frente e Verso - Visão, 78p.***
17 - Amor, Amor, Amor, Andy Warhol, Campo das Letras, 50p,****
18 - «Ficções de Guerra», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 182p.****
19 - Camões, Miguel Torga, Coimbra, 20p****
20 - As Fúrias, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, 180p.*****
21 - Pedro, Lembrando Inês, Nuno Júdice, colecção Frente e Verso - Visão, 60p***
22 - Os Contos de Beedle o Bardo, J. K. Rowling, Presença, 118p***
23 - O Desejo, Safo, Teorema, 88p***
24 - Dos Livros, Montaigne, Teorema, 60p***


Mais sugestões: a (polémica) Feira do Livro de Braga, apesar de pequena. E um filme, um grande filme: Revolutionary Road - com a muito grande Kate Winslet!

O Livro dos Dias - (breve selecção de Fevereiro)


2. Estou com vontade de me zangar com alguém hoje. E queria que fosses tu, para a seguir fazer as pazes…

3. Eu tenho sempre palavras, às vezes não sei é o que fazer delas…

4. Ontem foi quase. Hoje não me apetece. É preciso, portanto, ter cuidado. São estes os dias, os momentos mais perigosos. Os que são do contra, os que se seguem aos frustrados, os que subitamente nos escapam das mãos.

6. O momento da tarde, do dia, em que guardei nas minhas as tuas mãos durante o breve segundo de as sentires quentes e o longo instante de tas saber frias, e fortes e tuas, valeu por outros momentos feitos de palavras, hesitações, ironias. Admirável mundo este o do tacto. Estou em tempo de o explorar mais.

7. As mãos hoje enchem-se de livros, letras, pó – já que não te tenho para voltar a enchê-las de ti.

8. Hoje não pensei em ti… Não pensei, a sério. Hoje não. Não te imaginei comigo, não tentei ouvir o teu sorriso que não me saiu nunca dos ouvidos. Não. Não pensei em ti. Não pensei eu noutra coisa – por isso não pensei em ti. Fui em ti. E agora ao escrever isto não penso em ti, mas em nós – que ainda não somos.

13. Hoje é o dia. Escolhe entre as palavras, o objecto e o gesto. As palavras são ao que são, valem o que quisermos fazer delas. Os objectos são mais fáceis, mas menos expressivos. Os gestos dizem tudo, mas são os mais difíceis – porque não se sabe a resposta que podem suscitar. Podem ser os três, também, embora se excluam por redundância. E eu que sou sempre tão seguro e só relativizo e duvido porque tenho as minhas certezas estou sem saber o que dirás, farás ou me darás. Talvez por isso goste de ti.

15. Coloquei o tinteiro novo, comprado ontem. Peguei no saco plástico pequeno e ia arrumá-lo, para outra vez. Mas senti que havia algo mais lá dentro, que não era suposto, que não tinha comprado. Eram dois corações em forma de chupa-chupa – tal igual, porque era o dia e não sei o quê. Não foi a solidão que me impeliu, foi o desânimo – porque ela sempre me teve e me guardou, este é que é novo e invasivo. E faz-me tanto mal que os dois corações foram encarcerados na caixa das goluseimas, como quaisquer outras, à espera de vez. Como todos, afinal.

19. Trocámos mais algumas palavras, as do dia-a-dia, as normais e esperadas. Menos mal, as coisas. Mas iguais, e eu não as queria assim. Ou ainda não normais, aliás. Faltam aquelas que nos definam, definitivamente, as verdadeiras. Aquelas que não quero ouvir, as que seria quase melhor ficarem em silêncio. A verdade é que te amo – mesmo que não deva, que não possa, mesmo se não quisesse. E por isso mesmo, não insistirei. E as palavras serão silêncio entre nós.

20. «Um mar rodeia o mundo de quem está só.» Nuno Júdice, Pedro, lembrando Inês

Que nomes têm estes mares que me rodeiam, sem mundo?

25. Eu não tenho nada. A sério que não tenho nada. Não se preocupem e acreditem: eu não tenho nada. Nada, nada. Porque o nada não pode possuir-se. E eu sou isso, apenas. Nada de nada importa, portanto.

26. Fiz um barco. Dobra aqui, vinco mais forte ali – e foi ganhando a forma desejada. Depois levei-o ao ribeiro da aldeia. A água era fria e corria livre, cheia. O barco não durou muito nela: virou, não conseguiu voltar à posição inicial. Ajudei o caudal com o meu próprio, mas sem exageros. E fiquei a vê-lo afundar-se, desfazer-se, pensando que eu próprio podia estar ali e o barco ser eu e eu o barco. E nada se perderia, segundo Lavoisier. Amen.

28. Destruo-me nestas coisas que escrevo, no que imagino, naquilo que faço sem ti. Mas até a destruição é criação! Assim, vale a pena, como quase tudo. E estas coisas, só minhas, não poderão destruir mais ninguém – mas também não criam…

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

O mundo não passa de mundo

É o título do terceiro livro de contos. Substitui o antigo e provisório título Já deste corda ao Pardal?. Este de agora é menos concreto, mas mais meu, depois do espectáculo do Shakespeare e de acontecimentos recentes. Assim mesmo: O mundo não passa de mundo. E dos cinco primeiros contos:

1. Cosmos
2. Das palavras inúteis
3. Martim e a demanda
4. Conto contando-te
5. O homem sem a sua sombra

selecciono estes excertos só porque sim (os outros contos são mais privados e inacabados, ainda)

III. 1. Cosmos: «Mas nesse dia, estando ele à beira de um rio borbulhante, nu para tomar banho, apareceram uns seres estranhos, que ele pensou serem homens, por serem feitos à imagem e semelhança deles. Estes viram-no belo e harmonioso, mas acharam-no horrível, embora não se saiba se por ser diferente se por inveja dessa diferença. E perceberam quem era, e o que tinham de fazer. Por isso, atiraram-se a ele, para o afogar. Desse deus simples, sem nome, sem rosto, ficou a flutuar no rio amansado uma luz, e dessa luz, intensa, quente, começou a libertar-se um nevoeiro cerrado, que subia e formava nuvens mais grossas e escuras. Os seres parecidos com homens tiveram medo e fugiram, sabendo que tinham atentado contra um deus. Eram eles próprios deuses, mas sem a simplicidade e sem a pureza daquele que ali andava a ocupar espaços que eles próprios ambicionavam. Mas temeram e fugiram. Mais tarde viriam, dar-se-iam a conhecer e também eles viriam a ser expulsos deste mundo, mas deles ficaram estas estátuas, estas pinturas, estes templos como memória, como habitação. »

III. 2. Das palavras inúteis: «Ela não leu as palavras dele, ele não soube dizê-las de outra forma e as coisas teriam sido perdidas como num deserto um grão de arroz, se ela não fosse diferente, se ela não precisasse de as ouvir, de saber como «Dou por mim muitas vezes ao longo do dia a pensar no teu sorriso, nas tuas palavras e fico sempre cm vontade de estar contigo, de te abraçar, de te beijar e de dizer ao teu ouvido o quanto eu gosto de ti.». Não precisava, ao contrário dele e de tantos outros, das palavras para estabelecerem certezas. Mas ela não sabia como as palavras são importantes para que as certezas não passem drasticamente a dúvidas.»

III. 3. Martim e a Demanda: «Na verdade, a torre da vitória, apesar de bem conhecida por todos, de vista, ao longe, era tida como o maior mistério das redondezas. Era uma torre muito alta, coberta de silvas até metade, negra no restante, com pedras salientes como escamas, brilhantes ao sol, assustadoras em qualquer momento do dia ou da noite, envoltas num clima que lhe parecia intrínseco e que raiava a maldade pura. Ninguém, no castelo, percebia era o objectivo de guardar o livro do Graal num sítio mau. Ninguém achava também outro lugar onde fosse possível ter guardado uma coisa tão importante, embora não pensassem que poderia não estar ali, mas num mundo tão vasto como a soma dos reinos que ainda faltavam conquistar para juntar aos já conquistados. Ninguém que se tivesse aventurado pela floresta para chegar à torre tinha voltado para contar o que vira o que lhe sucedera…»

sábado, janeiro 31, 2009

O Livro dos Dias - (breve selecção de Janeiro)

2. Eu, de vez em quando, T.
Porque a rotina da escrita interlocutiva me exige uma marca pessoal além da óbvia, da lógica, da vulgar. E porque «eu sou um outro», ou muitos, às vezes.

6. Hoje estou com preço verde FNAC: €12,95.

(pista: Expiação)

7. «Sentia-se triste como uma casa sem móveis.» Flaubert, Madame Bovary
Os móveis enchiam o espaço interior, e cada um de nós tropeçava, batia, não vivia neles, porque tomava, conta de nós de forma opressiva. Não havia vazio, nem silêncio. E cada um de nós seguiu o seu rumo. Depois, aos poucos, desbaratadas no vento as lembranças, as palavras, queimadas, que foram os gestos, ficámos sós, eu e a casa. E embora a solidão não doa, entristece. Como a casa sem ti.

10. «Olha sexto, fazemos assim, nada de promessas, nem de palavras vãs… Pois… Não sei… Sem palavras é complicado… eu sei… Mas as palavras não resultam comigo. O que faço?» Pensamentos Blogueados

Cortava os pulsos para poder escrever assim.

12. Em demanda de um novo ser. Não ser tão, mas ser. Ser implica tão. E não somos apenas uma matilha de lobos solitários que andam ao desencontro ansiando por uma alma gémea que teima em não aparecer, somos, mais a matilha que também não a quer achar. Ou a nós.

15. 14 de Janeiro. Todo o santo dia bateram à porta. Gostava que sim. Mas só estive em casa à noite, Al Berto. Estás a ver, o teu dia foi melhor do que o meu. Abriria, e verias as pessoas. Escrevo agora, apenas. Não ouço o mar nem me sobressalto, mas as tuas palavras dizendo-o desconfiam-me de o ver entrar pelos olhos, a outra janela para lado nenhum. Serei um homem privilegiado não por (não) ouvir o mar ao entardecer, mas por desejar mais. Estou tão triste e apaixonado. E escrevo sem fim. Oh!

16. Dizem que sou demasiado intenso… ou demasiado superficial… decidam-se e depois avisem-me.

17. Se fosse para comentar o teu epíteto, «o amado», seria para o transformar em forma verbal de primeira pessoa. Com pronome de segunda. E seria então ainda mais óbvio.

21. O teu nome persegue-me no que leio, no que assisto, ao acaso. Em O Mercador de Veneza, no Boa Noite Senhor Soares. Eu não acredito em sinais, mas gostava. E saber interpretá-los dava jeito.

22. Não se sabe por que gostamos de pessoas que não conhecemos, mas gostamos. Coisas estranhas. E gostamos. Não de todas as coisas estranhas, mas algumas tuas. Ou todas. Ou tu, em suma. Tudo o que não de ti está no meu gosto. E sei que gosto de ti, porque fico triste se, por qualquer motivo, me atraso a chegar à nossa sala e menos tempo estaremos juntos, a falar do trivial, enquanto me perco como se te abraçasse e estivéssemos sós. Gosto só de ti.

25. Diz Kierkegaard qualquer coisa parecida com isto: que o Homem, não ser ele próprio, é o desespero. Mas onde fica o desespero do Homem na procura de si próprio?

27. Eu também sei que nenhum de nós não será alguma coisa. Ou seja, todos nós seremos alguma coisa. Nem que seja apenas agora nesta hora em que nos deixamos acreditar podermos ser. E mais não digo, que estou baralhado (as minhas certezas são sempre tão efémeras).

29. Pode ser que te surpreendas um dia, velho amigo. De não falares abertamente, não em rodeios, às voltas, mas como se percorresses com a linguagem um labirinto do qual não consegues sair – talvez porque não o queiras. Mas não te arrependas: nesses labirintos surgem portas, janelas, bifurcações. E se as tomares, quem sabe onde irás parar, o que te reservam para além do visível indistinto. Mas talvez possas arrepiar já caminho e em vez de janelas ou portas tenhas varandas. E daí ao infinito é um passo – sem perdas, pelos menos de maior.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

7 maravilhas de origem portuguesa no mundo

É só fazer o registo e escolher. E algumas valem bem a pena a nossa atenção. Aí fica o link. De Marrocos a Angola, do Brasil à Índia, vários monumentos que mostram um pouco dos portugueses espalhados pelo mundo. Eu já votei!

Adenda: estão também em votação as 7 Maravilhas Naturais do Mundo, ainda numa fase intermédia. Eu já escolhi as minhas sete (incluindo o Douro, pois claro). Aí fica também o link.

sem sugestões, cem livros.


Rembrandt, «Monge a ler»


Imitando o modelo do Estante de Livros, mudo as minhas sugestões de leitura aqui no blogue. Deixam de ser sugestões (tenho medo de sugerir, nem sempre traz bons resultados), para ser apenas o registo das leituras lidas, mês a mês, num ano em que me comprometo comigo próprio a ler 100 livros. 100 mesmo. Maiores ou menores, mais ou menos fáceis, densos, eruditos, etc. 100.


o desafio começa este mês muitos livros, ainda que pequenos:


1 - «365» #27 - «Histórias à boca cheia», direcção Fernando Alvim, 48p.***
2 - O Vendedor de Passados, José Eduardo Agualusa, D. Quixote/Booket, 222p.****
3 - Contos de José Rodrigues Miguéis, Margarida Barahona, Comunicação, 196p.***
4 - Instante, Wislawa Szymborska, Relógio d'Água, 92p.*****
5 - Villa Celeste, Hélia Correia, Ulmeiro, 50p.*****
6 - A Poesia da Presença, Maria Teresa Arsénio Nunes, Comunicação, 172p.**
7 - Cartas Portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado, tradução de Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, 112p.****
8 - O Estranho Caso de Benjamim Button, F. Scott Fitzgerald, Presença, 80p.***
9 - Medeia, Mário Cláudio, D. Quixote, 52p.***
10 - Boa Noite, Senhor Soares, Mário Cláudio, D. Quixote, 96p.****
11 - Poesia Completa, Florbela Espanca, Bertrand, 422p.**
12 - Contos Completos, Florbela Espanca, Bertrand, 256p.***


afinal há uma sugestão:
Festa do Livro no Porto. Não no Mercado Ferreira Borges, mas no Pavilhão Rosa Mota. De 30 de Janeiro a 28 de Fevereiro. Mais informações aqui.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

bem, talvez já seja um regresso...

Talvez saibas que é para ti. E não só. Até porque, como já te disse, «o mundo não passa de mundo».

continua sem ser um regresso...

só por companhia, motivado por este post. E apesar de gostar mais da versão estúdio, fica esta (é que as de estúdio têm uns vídeos amadores que valha-me Deus).

Isto não é um regresso...

Fui ver O Mercador de Veneza, no São João, encenação de Ricardo Pais. Tudo de bom, desde a encenação ao texto (e suas opções), passando pelo elenco extraordinário e palco e tudo mais. Nada de novo, portanto. Gosto muito do que costumo ver lá - mas não é disso que quero escrever. Esta peça em especial marcou-me de forma estranha, impressa na alma... No trabalho (já pareço gente crescida) ninguém pode já ouvir-me falar da peça, do texto, em especial de duas frases, ambas ditas por António (Albano Jerónimo), a personagem ambígua da qual pouco se sabe e da qual realmente se gostaria de saber, com uma relação um pouco dúbia com Bassânio (Pedro Almendra). Essas frases são «Na verdade, não sei por que ando tão triste» e «o mundo não passa de mundo». Logo a abrir, como que escolhidas de propósito para mim. Mas há mais... Fica aí o início do texto (não a versão do Daniel Jonas, mais interessante, mas ainda assim dá para seguir a ideia; azuis destacantes...), mas não conto. Ficam também imagens dessa sequência do espectáculo. E realmente não sei os motivos...



«ATO I

Cena I
Veneza. Uma rua. Entram Antônio. Salarino e Salânio.

ANTÓNIO - Não sei, realmente, porque estou tão triste. Isso me enfara; e a vós também, dissestes. Mas como começou essa tristeza, de que modo a adquiri, como me veio, onde nasceu, de que matéria é feita, ainda estou por saber. E de tal modo obtuso ela me deixa, que mui dificilmente me conheço.

SALARINO - Vosso espírito voga em pleno oceano, onde vossos galeões de altivas velas - como burgueses ricos e senhores das ondas, ou qual vista aparatosa distendida no mar - olham por cima da multidão de humildes traficantes que os saúdam, modestos, inclinando-se, quando perpassam com tecidas asas.

SALÂNIO - Podeis crer-me, senhor: caso eu tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeições navegaria com minhas esperanças. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debruçado nos mapas, sempre, procurara portos, embarcadoiros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.

SALARINO - Meu hálito, que a sopa deixa fria, produzir-me-ia febre, ao pensamento dos desastres que um vento muito forte pode causar no mar. Não poderia ver correr a ampulheta, sem que à idéia me viessem logo bancos e mais bancos de areia e mil baixios, inclinado vendo o meu rico "André" numa coroa, mais fundo o topo do que os próprios flancos, para beijar a tumba; não iria à igreja sem que a vista do edifício majestoso de pedra me fizesse logo lembrado de aguçadas rochas, que, a um simples toque no meu gentil barco, dispersariam pelas ondas bravas suas especiarias, revestindo com minhas sedas as selvagens ondas. Em resumo: até há pouco tão valioso tudo isso; agora, sem valia alguma. Pensamento terei para sobre essa conjuntura pensar, e há de faltar-me pensamento no que respeita à idéia de que tal coisa me faria triste? Mas não precisareis dizer-me nada: sei que Antônio está triste só de tanto pensar em suas cargas.

ANTÔNIO - Podeis crer-me, não é assim. Sou grato à minha sorte; mas não confio nunca os meus haveres a um só lugar e a um barco, simplesmente nem depende o que tenho dos azares do corrente ano, apenas. Não me deixam triste, por conseguinte, as minhas cargas.

SALARINO - Então estais amando.

ANTÔNIO - Ora! Que idéia!

SALARINO - Não é paixão, também? Então digamos que triste estais por não estardes ledo, e que saltar e rir vos fora fácil e acrescentar, depois, que estais alegre porque triste não estais. Pelo deus Jano de dupla face, a natureza, agora, confecciona uns sujeitos bem curiosos: uns, de olhos apertados, riem como papagaio trepado numa gaita de foles; outros andam com tal cara de vinagre, que nunca os dentes mostram à guisa de sorriso, muito embora Nestor jurasse que a pilhéria é boa.

(Entram Bassânio, Lourenço e Graciano.)

SALÂNIO - Eis que vem vindo aí Bassânio, vosso muito nobre parente, acompanhado de Lourenço e Graciano. Passai bem, que em melhor companhia vos deixamos.

SALARINO - Ficaria convosco até deixar-vos mais disposto, se amigos muito dignos não me solicitassem neste instante.

ANTÔNIO - Sei apreciar em tudo vossos méritos. Os negócios vos chamam, estou certo, e o ensejo aproveitais para deixar-nos.

SALARINO - Bom dia, caros lordes.

BASSÂNIO - Quando riremos outra vez, senhores? Dizei-nos: quando? Quase vos tornastes estranhos para nós. É concebível semelhante atitude?

SALARINO -Nossas folgas irão ficar só ao dispor das vossas.

(Saem Salarino e Salânio.)

LOURENÇO - Caro senhor Bassânio, já que achastes Antônio, vos deixamos. Mas mui gratos vos
ficaremos, se hoje à noite, à ceia, vos lembrardes do ponto em que devemos encontrar-nos de novo.

BASSÂNIO -Combinado.

GRACIANO - Signior Antônio, pareceis doente. Preocupai-vos demais com este mundo. Perda de vulto é tudo o que nos custa tantos cuidados. Podeis dar-me crédito: mudastes por maneira extraordinária.

ANTÔNIO - O mundo, para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste

O Mercador de Veneza, William Shakespeare, excerto retirado daqui.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

o livro dos dias


os dias correm, ou demoram-se em mim. ficam fragmentos, frases, pequenas coisas, escritas apressadamente, entre o pouco tempo de um intervalo, como a vida. ficam num caderno. o caderno tem o título «a maior parte do tempo passa-se a passar o tempo». e depois abre-se e lê-se algo que o dia foi ou podia ter sido.
como:
2. Eu, de vez em quando, T. A. (...)

6. Hoje estou com preço verde FNAC: €12,95 (...)

7. «Sentia-se triste como uma casa sem móveis» Flaubert (...)

9. É possível que nos tenhamos enganado no caminho.

(...)

os outros dias ficam para outra altura, outra vinda (sem metafísica ou espiritualidade, falo). é possível que seja erro, mas é certo agora. e tantas voltas dadas para chegar aqui, espaço físico em que quase coexistimos. frente a frente, sem o toque final. o tempo e nós o diremos.

O tulisses vai, eufemisticamente, de férias por uns tempos. quem disse que os mau-miaus não podem descansar também? ou dedicar-se finalmente ao que importa?


adenda: debaixo das rodas de um carro, a Meia-Leca, a primeira gata da Consti e mãe da Kika, esgotou a sua sétima vida...

3 poemas de Fernando Assis Pacheco + 1


Selecção tardia (já li há quase um mês) e muito tendenciosa. Há mais do que isto, e que estes temas, e que estas páginas. Mas deu-me para aqui... O último é um recado que deixo a quem nunca o verá, em princípio, e se vir não perceberá que é para si. Mas pode ser que qualquer dia lho diga, de outras maneiras...

ACONSELHO-VOS O AMOR

Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor
cheio de força; os moinhos
girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).

ACONSELHO-VOS A LUTA.


***
SEM QUE SOUBESSES

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.

****
UM CAMPO BATIDO PELA BRISA

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho um «pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

*****
COM A TUA LETRA

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Asa, p.22, 24, 28, 30

segunda-feira, janeiro 05, 2009

os dois últimos poemas (Junho/Julho 2008)

Sem Explicação

Ainda que dê várias moradas
É no teu corpo que me podem encontrar.


Explicação dos teus dois lagos

Sobre esses lagos nada direi.
Neles não me afogo
Nem mergulho.
Talvez apenas os dedos toquem a superfície
E percam o ser, satisfeitos.
Mas desses lagos azuis não falo.
Não é azul de medo, são claros
A luz reflecte-se e brilha
Como janelas viradas a nascente
Tapadas com cortinas interiores
Não se vê, não mergulho.

Mas num momento inesperado
A visão abre-se até ao fim
E são os próprios lagos que mergulham em mim.