
sábado, junho 07, 2008
Geleia de Tangerina

quarta-feira, junho 04, 2008
Instituto Camões: eterno retorno?
segunda-feira, junho 02, 2008
literaturas africanas em questão
Para a Denise
As Literaturas africanas dos países que foram colonizados por Portugal são normalmente designadas por: «Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa» e/ou «Literaturas Africanas de Língua Portuguesa», de modo semelhante ao que acorre noutros países africanos então colonizados. A primeira designação foi a da «Expressão», embora ainda antes ocorressem outras como «Literatura Ultramarina» ou «Literaturas Portuguesas do Ultramar» (ao gosto de Amândio César, além de que a própria Censura não admitia o uso de «africanas» em relação à Literatura com muita facilidade), onde cabiam as ditas africanas sem qualquer distinção quanto às ideologias, cosmovisões ou pontos de vista dos seus autores, seus livros, suas matérias (ou seja, incluída a Literatura Colonial, a única realmente valorizada então, com algumas excepções).
A verdade é que dizer «Literaturas Africanas» é insuficiente porque estão englobas as cinco literaturas (de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique, de São Tomé e Príncipe e da Guiné) mais todas as outras das restantes nações africanas. Assim, embora «Expressão» seja correcta, penso que «Língua» pode evitar mal-entendidos por pessoas que não percebam que ela significa aqui enunciado, manifestação, declaração e sim conteúdo, matéria europeia.
sábado, maio 31, 2008
Sugestões de Maio
Livros:
1 – A Bíblia (Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias), Paulus ***
argumentos: acabei o Antigo Testamento. Muitos livros, mas pequenos. Repetem algumas das ideias anteriores, mas há uma maior presença nestes da universalidade da fé, do tom messiânico, da necessidade de restauração que substitui o discurso do castigo e da consolação. Surge Satanás (Zc, 3, 1) e surgem as ruínas (tema que me é tão caro) em quase todos eles.
2 – Há monstros debaixo da cama?, Bill Watterson, Gradiva *****
3 – Ensaio Sobre a Lucidez, José Saramago, Caminho*****
4 - Objecto Quase, José Saramago, Caminho****
5 – Discursos de Estocolmo, José Saramago, Caminho****
6 – A Estátua e a Pedra, Caminho****
argumentos: continua a minha saga (agradável) da leitura de livros de Saramago, por culpa da exposição, ou com a desculpa da exposição, que lá os fez subir na minha lista mental. Ensaio Sobre a Lucidez foi um dos poucos livros da minha vida que deixei por ler: há quatro anos, quando saiu, li os dois primeiros capítulos e disse para mim que não era ainda tempo de o ler. E ainda bem, porque agora dei-lhe mais valor: gostei muito do clima de consciência política dominadora, de estado de sítio, da sensação de revolta ou de ironia que provoca no leitor… e tudo a partir daquelas situações extraordinárias comuns na obra do autor. Gostei ainda bastante por ir buscar personagens de o Ensaio Sobre a Cegueira, um dos meus livros favoritos, não só do Saramago mas de todos… Mais: «os humanos são universalmente conhecidos como os únicos animais capazes de mentir, sendo certo que se às vezes o fazem porque perceberam a tempo que essa era a única maneira ao seu alcance de defenderem a verdade.»p.50. Objecto Quase é um livro de contos muito interessante, seis em que gostei muito de quatro, a saber: «Cadeira», «Refluxo», «Coisas», «Centauro». Experimentalismo, um certo tom de sobrenatural ou até ficção científica. Mais: «Nós, homens, somos frágeis, mas, em verdade, temos de ajudar a nossa própria morte.»p.21. Discursos de Estocolmo reúne os dois textos que escreveu para a aceitação do Prémio Nobel, em 1998, assim como A Estátua e a Pedra é um discurso do autor reflectindo sobre a sua obra. Muito bons para conhecer melhor o homem e o escritor.
7 – A Poesia de Carlos de Oliveira, Manuel Gusmão, Seara Nova/Comunicação****
argumentos: poeta fundamental no século XX, além de romancista, é nesta edição criteriosamente estudado por Manuel Gusmão. Apesar de ter gostado muito de alguns poemas, o que mais me seduziu nesta edição foi exactamente a apresentação crítica, as notas, as sugestões para análise literária que Manuel Gusmão propõe, com rigor e profissionalismo. Leitura tão apurada que me resolveu a cabeça e orientou para a minha própria dissertação.
8 – José Saramago. A Consistência dos Sonhos – Cronobiografia, Fernando Gómez Aguilera, Caminho****
argumentos: obra organizada para acompanhar a exposição com o mesmo nome. Um livro muito bem estruturado e documentado com fotografias, excertos de entrevistas, citações de livros, material esse que algum do que se pode apreciar na dita exposição. É, no fundo uma descrição cronológica da vida e da obra de Saramago. Inclui também uma parte dedicada à exposição e sua abertura em Espanha.
9 – Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto, Bertrand*****
argumentos: romance magistral do jovem escritor. Dorido, intenso, estranho. Muito bom. Conta a história de uma família, na voz do «patriarca» que já morreu e na voz de um dos seus filhos, Francisco Lázaro, inspirado no atleta português que em 1912 morreu na prova de Maratona, ao quilómetro trinta, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo. As suas vozes vão alternando em capítulos, mostrando curiosas semelhanças nos acontecimentos da vida de um e de outro, enquanto se conta também a vida da mãe e das irmãs da personagem Francisco, dias antes da tragédia. Destaque para a organização dos capítulos do atleta por quilómetros, que resulta numa novidade interessante, beneficiada pelo discurso propositadamente memorialístico e de pensamento no momento da corrida. Mais: «Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio.»p.135; «- Não choras. Eu vou dormir a sexta com a avó, mas volto ontem. Está bem? Volto às setenta e quarenta horas.»p.176; «perguntávamo-nos qual de nós morreria primeiro. Era uma angústia que nos atingia.»p.303.
10 – A Loja dos Suicídios – Jean Teulé, Guerra & Paz****
argumentos: Vi-o no sítio da FNAC e pensei logo: tenho de o ler. E lá o comprei na Feira do Livro. Uma pequena pérola do humor negro: «A sua vida foi um fracasso? Connosco, a sua morte será um sucesso!». Isso mesmo, uma loja que tem tudo o que é preciso para um suicídio eficaz. Um desfilar de personagens e possíveis suicídios, uns conseguidos, outros não. A loja é gerida por uma família toda ela vocacionada para o ramo macabro, menos um menino, o filho mais novo, que tenta mudar as mentalidades e o negócio da família. Surpreendente, engraçado, de leitura rápida (li na viagem de autocarro Lisboa – Porto…). Mais: «- Alan!... Quantas vezes será preciso dizer? Não se diz «Até à vista» aos fregueses que saem daqui. Diz-se «Adeus», pois nunca mais voltam. Quando é que vais perceber isso?»p.11 – já dá para ter uma ideia do que é esta loja e esta família!
11 – O Gosto Solitário do Orvalho seguido de O Caminho Estreito – Bashô, Assírio & Alvim****
argumentos: depois de ter lido o livro na edição mais antiga no mês passado, encontrei na Feira do Livro a edição actual, que além dos poemas inclui um relato de viagem do autor, que permite conhecer melhor o seu carácter e as condições/motivos para a escrita de alguns dos seus hai kai. Mais: «os meses e os dias são viajantes da eternidade. Assim como o ano que passa e o ano que vem»p.57;
Hoje o orvalho
apagará o teu nome
do meu chapéu (p.97)
12 – O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel - JRR Tolkien, Europa-América*****
13 – O Senhor dos Anéis: As Duas Torres - JRR Tolkien, Europa-América*****
argumentos: e lá comecei finalmente a saga. O primeiro volume foi lido em três dias vorazes e incansáveis: as muitas diferenças do livro e do filme compeliam-me a ler sempre mais, porque apareciam coisas que não estavam no filme e queria ver como as opções pelos responsáveis da adaptação respeitavam ou não o livro (não o livro em si, claro, acções e personagens e tal, mas o espírito, se assim quisermos). Conclui que sim, apesar de tudo. E resultam as duas com propriedade e com muito interesse. Gostei muito, portanto. Porque se a história já me era conhecida, pude aprofundar melhor os sentidos, as relações. O segundo volume levou um pouco mais de tempo, mas também gostei muito, pelos mesmos motivos. Mas neste caso o filme é mais próximo do livro, embora se desvie para outras questões e perspectivas. E uma personagem que acho muito interessante, e já aqui o disse, é Faramir, tem aqui um papel maior do que no segundo filme. Talvez um dia fale desta personagem e porque ela me interessa. E como eu adoro estes livros que constroem mundos alternativos e especiais e assim por aí fora, literatura fantástica, se quisermos, estou mortinho por ler o terceiro volume.
Música:
Katie Melua*****
Destaque breve para o regresso de Lost à RTP1. Adoro esta série e está a ficar cada vez mais empolgante com a saída futura da ilha de seis personagens - têm aparecido já momentos das suas vidas no futuro (em relação ao momento principal da história, ainda na ilha). Na Dois: tenho visto a Britcom, programa que vejo já há vários anos, com momentos de maior interesse do que outros, dependendo das séries. Agora tem o Na tua ausência, sobre uma família complicada e hilariante, o que acontece na outra série A minha família, ainda mais complicada e mais hilariante. Também na Dois: a série Chuck, estreada há pouco, que combina humor e acçãom espionagem e azelhice! Voltando à RTP1: estreou há pouco Os Contemporâneos, um programa de humor com Bruno Nogueira, Carla Vasconcelos, Dinarte Branco, Eduardo Maceira, Gonçalo Waddington, Maria Rueff, Nuno Lopes e Nuno Markl (gosto muito no Markl, da Rueff e do Nuno Lopes). Link para um momento do programa (há mais no youtube) em que se fala de póneis!!!
Cinema:
King Kong**** - a versão de Peter Jackson, com Adrien Brody, Naomi Watts e Jack Black. Muito interessante.
Desmundo** - com Simone Spoladore, Osmar Prado e Caco Cioler. Passado nos inícios da colinização do Brasil, uma história de uma mulher que tem de se casar com um colono... e enfins...
Pânico a Bordo*** - eu gosto da Jodie Foster e ela faz bem estes papéis desesperados. E gostei, pronto.
Proof, entre o génio e loucura**** - de John Madden, com Gwyneth Paltrow, Anthony Hopkins, Jake Gyllenhaal e Hope Davis. Sobre a loucura e a genialidade. Bastante interessante, e com uma Paltrow ao melhor nível.
Morte em Veneza** - não gostei muito do livro, e também não do filme. Mas pronto, são obras importantes. Ninguém morre por os conhecer, mas também o contrário é verdade.
Antes que o tempo mude** - cinema português, porque não? Má escolha, talvez. Filme de Luis Fonseca com Mónica Calle, Mónica Garnel, Manuel de Freitas, João Mota, Carlos Vieira, Albano Jerónimo. Estranho, muito parado, muito despidos... e sem verdadeiro interesse...
Exposição:
A Consistência dos Sonhos, pois claro. Está disponível até 27 de Julho. Para mais informações: ver sugestões do mês de Abril.
Outros:
Feira do Livro - Lisboa e Porto.
Destaque ainda, como forma de pequena homenagem, para a vida e morte de Sidney Pollack, aos 73 anos de idade. Actor, produtor e realizador, deixa-nos um trabalho importante em filmes como Tootsie, África Minha (com o qual recebeu o Oscar de Melhor Realizador), Sabrina, Iris, Cold Mountain, A Intérprete, Michael Clayton.
sexta-feira, maio 23, 2008
23 de Maio
Eventos históricos
1179 - O Papa Alexandre III emite a bula Manifestis Probatum em que reconhece Portugal como Reino independente.
1430 - Joana d'Arc é capturada pelos borgonheses e entregue aos ingleses.
1535 - O português Vasco Fernandes Coutinho, donatário da Capitania do Espírito Santo, funda a cidade de Vila Velha, cujo nome original era Vila do Espírito Santo.
1555 - Paulo IV eleito Papa.
1563 – Paulo III autoriza a criação do Tribunal da Inquisição do Santo Ofício.
1568 - A Holanda declara independência da Espanha.
1788 - A Carolina do Sul se torna o oitavo estado dos EUA.
1618 - A Segunda Defenestração de Praga precipita a Guerra dos Trinta Anos.
1805 - Napoleão Bonaparte é coroado Rei da Itália, com a Coroa de Ferro da Lombardia, na Catedral de Milão.
1813 - O líder Sul-Americano da independência Simón Bolívar entra em Mérida, à frente da invasão da Venezuela, e é proclamado El Libertador.
1830 - Inaugurado o primeiro ramal ferroviário para transporte de passageiros das Américas, ligando as cidades norte-americadas de Baltimore e Ohio.
1844 - Em Shiráz, Siyyid Ali Muhammad, o Báb, declara-se portador de uma Mensagem enviada por Deus, vindo a ser Precursor de Bahá'u'lláh.
1846 - O México declara guerra aos Estados Unidos. É a Guerra Mexicano-Americana.
1873 - Fundação da Polícia Montada do Canadá.
1911 - Inauguração da Biblioteca Pública de Nova Iorque.
1929 - É lançado o primeiro desenho animado falado de Mickey Mouse, The Karnival Kid.
1930 - O dirigível Graf Zeppelin faz sua primeira viagem ao Brasil.
1932 - No Brasil são mortos cinco estudantes paulistas (Miragaia, Martins, Dráusio, Camargo e Alvarenga). Surge a sigla "MMDCA" utilizada como bandeira pelos paulistas.
1945 - Heinrich Himmler, braço direito de Adolf Hitler e líder da GESTAPO comete suicídio na prisão.
1949 - Estabelecimento da República Federal da Alemanha.
1969 - A banda The Who lança Tommy, a primeira ópera rock.
1979 - Greve dos jornalistas do Estado de São Paulo, Brasil.
2003 - Fato científico: nasce o primeiro clone de um cervo, Dewey.
Nascimentos
1052 - Rei Felipe I da França (m. 1108).
1707 - Carl Lineu, botânico (m. 1778).
1741 - Andrea Luchesi, compositor italiano (m. 1801).
1810 - Margaret Fuller, jornalista e feminista norte-americana (m. 1850).
1834 - Carl Heinrich Bloch, pintor dinamarquês (m. 1890).
1865 - Epitácio Pessoa, presidente brasileiro (m. 1942).
1887 - Thoralf Skolem, matemático norueguês.
1891 - Pär Lagerkvist, escritor sueco, vencedor do Prêmio Nobel (m. 1974).
1908 - Annemarie Schwarzenbach, escritora suíça
1924 - Hilton Gomes, jornalista e locutor brasileiro, apresentador do primeiro noticiário do país.
1933 - Othon Bastos, actor brasileiro.
1945 - José Agripino Maia, político brasileiro.
1946 - Antipapa Gregório XVII, de seu nome Clemente Domínguez y Gómez (em Espanha).
1951 - Anatoly Karpov, jogador de xadrez russo.
1970 - Bryan Herta, piloto norte-americano de corridas.
1972 - Rubens Barrichello, piloto brasileiro de Fórmula 1.
1974 - Jewel, cantora norte-americana.
1980 - Theofanis Gekas, futebolista grego.
1983 – Tiago Aires, génio português, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2030 e da Paz de 2031. Recusou o da Medicina por não se sentir com ela relacionado.
Falecimentos
1125 - Henrique V da Germânia (n. 1081).
1304 - Jehan de Lescurel, poeta e compositor.
1498 - Girolamo Savonarola, frade dominicano italiano (executado) (n. 1452).
1523 - Ashikaga Yoshitane, Shogun japonês (n. 1466).
1670 - Ferdinando II de Medici, Grão Duque da Toscana (n. 1610).
1701 - Captain Kidd, pirata escocês (n. 1645).
1857 - Augustin Louis Cauchy, matemático francês (n. 1789).
1886 - Leopold von Ranke, historiador alemão.
1906 - Henrik Ibsen, dramaturgo e poeta norueguês(n. 1828).
1931 - Roque Callage, escritor brasileiro (n. 1888).
1934 - Bonnie & Clyde são mortos numa emboscada policial, em Bienville Parish, Louisiana.
1945 - Heinrich Himmler, oficial alemão e comandante das SS durante a Segunda Guerra Mundial (n. 1900).
1956 - Gustav Suits, poeta estoniano (n. 1883).
1963 - August Jakobson, escritor estoniano (n. 1904).
1966 - Manuel da Conceição Afonso, um dos presidentes do Sport Lisboa e Benfica.
1984 - Milton Corrêa Pereira, bispo católico (n. 1919).
1986 - Sterling Hayden, ator estadunidense (n. 1916).
1999 - Jerônimo Mazzarotto, bispo católico (n. 1898).
2005 - Arrelia, palhaço brasileiro.
Feriados e eventos cíclicos
Brasil - São Paulo - Dia do Soldado Constitucionalista.
Brasil - Espírito Santo - Dia da Colonização do Solo Espírito-santense.
Em wikipédia, com alguns acrescentos. Duvido de algumas datas e tal, mas tudo bem.


domingo, maio 18, 2008
Zélia Gattai 1916/2008
Obra: Anarquistas Graças a Deus, 1979 (memórias), Um Chapéu Para Viagem, 1982 (memórias), Pássaros Noturnos do Abaeté, 1983, Senhora Dona do Baile, 1984 (memórias), Reportagem Incompleta, 1987 (memórias), Jardim de Inverno, 1988 (memórias), Pipistrelo das Mil Cores, 1989 (literatura infantil), O Segredo da Rua 18, 1991 (literatura infantil), Chão de Meninos, 1992 (memórias), Crônica de Uma Namorada, 1995 (romance), A Casa do Rio Vermelho, 1999 (memórias), Cittá di Roma, 2000 (memórias), Jonas e a Sereia, 2000 (literatura infantil), Códigos de Família, 2001, Um Baiano Romântico e Sensual, 2002.
excerto:
«Um dia ouvi mamãe combinando com papai a minha ida para a escola (...). Eu estava com quase oito anos; havia aprendido todas as letras do alfabeto (...). Lia frases inteiras. – Já está na hora – mamãe dizia e repetia. – Já passou até da hora. Dona Carolina mandou um recado ontem, quer saber se vamos deixar a menina continuar analfabeta para o resto da vida (...). Realmente, ela não tinha pensado que passara o tempo de matricular sua filha na escola. A menina era tão sabida, aprendia com facilidade, sem ninguém ensinar... Quanto mais tarde fosse à escola, melhor: menos tempo de escravidão entre quatro paredes, de humilhações e castigos corporais aplicados pelas professoras, hábito da época: bolos nas mãos, puxões de orelhas, joelhos sobre grãos de milho ou de feijão atrás de uma porta (...). Havia o exemplo de Olguinha: no primeiro dia em que foi à escola assistiu ao espancamento de um colega. No dia seguinte recusou-se a voltar. Não queria arriscar, não estava disposta a suportar brutalidades. Havia um ano que dona Josefina pelejava para que a menina retornasse aos estudos, sem resultado. Olga começava a suar frio, sempre que falavam em escola, entrava em pânico. Cláudio também regressara várias vezes da aula, de orelhas vermelhas, joelhos inchados. Com Tito, acontecera chegar em casa trazido pelo servente da escola, seguro pela orelha (...). Minha professora não batia nos alunos nem os punha de joelhos sobre o milho ou feijão; tentava manter a disciplina da classe utilizando-se de réguas – mantinha sobre a mesa pelo menos uma dezena de réguas, todas enfileiradas – que atirava na cabeça da criança faltosa, com uma técnica muito especial: segurava numa das pontas da régua, fazia pontaria e... jamais errava o alvo».
Zélia Gattai, Anarquistas, graças a Deus. 30. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 300-4
informações recolhidas na wikipédia.
3 poemas de Carlos de Oliveira
CantoI
Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras
fique embora mais breve a nossa vida
II
Tu, coração, não cantes menos
que a harmonia da terra,
nem chores mais
que as lágrimas dos rios.
**
Estrelas
O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.
Chamo um astrólogo amigo:
"Então?"
"O céu parou. É o fim do mundo."
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
"Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão."
Sigo o conselho: as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.
***
A Poesia de Carlos de Oliveira, apresentação crítica, selecção, notas e sugestões para análise literária de Manuel Gusmão, Seara Nova/Comunicação, p. 116, 127, 131
sexta-feira, maio 09, 2008
Por Lamego
Banco de um jardim, onde há painéis de azulejos interessantes, como este que representa as cortes de Lamego
Torre do Castelo
Ele estava ali perto... mas ainda não foi desta...
Claustro da Sé - outra pesperctiva
A Sé (1129) vista do Castelo
Edifícios bonitos abundam, com outros velhos, mas também eles interessantes, e construções muito modernas, com bastante bom gosto...
II 19. L37R45 ^ 3
Os números são letras.
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia
UM D14 R3P4R31 QU3 4O L3R 3U N4O L14 M35MO. 3R4 MU17O 357R4NHO O QU3 3U F4Z14, 3 3U P3N54V4 M35MO QU3 3574V4 4 L3R. 2 L14 MU17O5 ROM4NC35, M45 QU4NDO CH3G4V4 4O F1M, P3G4V4 NOU7RO 3 O COM3Ç4V4 4 L3R, R3P4R4V4 QU3 J4 N40 M3 L3MBR4V4 D3 N4D4 DO QU3 L3R4. 4 PR1NC1P1O P3N531 QU3 POD14 53R PORQU3 4ND4V4 C4N54DO OU PORQU3 O L1VRO N4O FOR4 4551M 74O 1N73R3554N73, M45 D3PO15 P3RC3B1 QU4L 3R4 O PROBL3M4. OU M3LHOR, S3M P3RC3B3R O PORQU3, P3RC3B1 O QU3. 3 QU3 3NT4O 3U 4O L3R F4Z14 GRUPO5, CONJUNTO5 D3 L37R45. JUN74V4-45 7R35 4 7R35, 53MPR3, M35MO QU3 71V3553 D3 1R ROUB4R L37R45 45 P4L4VR45, 45 FR4535, 4O P4R4GR4FO 53GU1N73. 53MPR3, 7R35 4 7R35. 3 45 V3Z35, PORQU3 4 CON74 N4O D4V4 C3R7O, L4 JUN74V4 O5 PON7O5, 45 V1RGUL45 3, CUMULO DO5 CUMULO5, O5 4C3N7O5. PORQU3 O NUM3RO 7R35, N4O 73NHO FORM4 D3 O 54B3R. J4 D1553 QU3 N4O 531 45 C4U545 D3574 357R4N4 FORM4 D3 N4O L3R. M45 74LV3Z PORQU3 7R35 3 4 CON74 QU3 D3U5 F3Z, O NUM3RO DO 54GR4DO, D4 P3RF31Ç4O, OU, PORQU3 N4O H4 DU45 53M 7R35, DO 4B5OLU7O. M45 N3573 C45O, 4 L317UR4 QU3 3U F4Z14 N4O 3R4 N4D4 D155O, N3M POD14 53R, J4 QU3 UM4 51MPL35 FR453 COMO: O C3U 3 GR4ND3 3 C4B3M N3L3 7OD45 45 COR35, 3U L14 OC3 U3G R4M D33 C4B 3MN 3L3 7OD 454 5CO R35, OU 53J4, N4O L14 V3RD4D31R4M3N73, PORQU3 O5 OLHO5 4P3N45 P4554V4M P3L45 L37R45 53M 45 D35COD1F1C4R COMO 3L3M3N7O5 D3 P4L4VR45, 3 35745 3L3M3N7O5 D3 UM4 FR453, D3 UM 3NUNC14DO QU4LQU3R. 4551M CORR1 L1VRO5 3 L1VRO5 53M M3 4P3RC3B3R D3 QU3 N4O O5 L14. OU 74LV3Z L3553, PORQU3 N3M 53MPR3 3573 35QU3M4 D45 7R35 L37R45 FUNC1ON4V4, 3R4 5O 45 V3Z35. M45 P4R4 UM L317OR 3R4 MU17O M4U, QU4N7O M415 P4R4 UM 35CR17OR, COMO 3U. 53 7UDO D31X4V4 D3 F4Z3R 53N71DO N45 P4G1N45 35CR1745, D3 QU3 V4L3R14 35CR3V3R? 3 D31X4R; 74O 51MPL35 QU4N7O 155O. M45 H4 M4L35 QU3 V3M POR B3M, M35MO QU4NDO V33M M4L 3 4 7R1PL1C4R. P4R4 UM 4R71574 D45 P4L4VR45 4 D357RU1Ç4O 1MPL1C4 4 5U4 MOR73, M45 53 5OUB3R R373-L45, 4D4P74-L45, MOLD4-L45, CON53GU3 M4N73R-53 V1VO 47R4V35 D3L45. 3 4551M, 3MBOR4 N4O R35OLV3NDO POR COMPL37O O M3U FR4C455O D3 L317UR4, QU3 POR V3Z35 M3 4554L74V4 M35MO QU4NDO L14 UM 51MPL35 RO7ULO D3 UM P4CO73 D3 4ÇUC4R OU O NOM3 D3 UM4 RU4 NUM M4P4 D3 C1D4D3, CONV3NC1ON31 UM4 NOV4 FORM4 D3 35CR3V3R P4R4 M1M M35MO. 3X1G14 UM C3R7O 35FORÇO D3 H4B17U4Ç4O, QU3 FO1 F4C1L D3 OB73R, 3 UM4 3X4C71D4O 4 PR1M31R4, PORQU3 R3L3R 53R14 M415 COMPL1C4DO 3 N1NGU3M M3 G4R4N714 QU3 3U N4O L3553 4O5 7R35, 4O CUBO, 4O5 CONUN7O5, 7R3VO D4 5OR73 1MP3RF317O, O QU3 POD3R14 53R 41ND4 M415 C47457ROF1CO L3R M473M471C4M3N73 UM4 35CR174 QU3 J4 3R4 3L4 CON57RU1D4 COM L37R45. FO1 4 FORM4 D3 CON71NU4R 4 35CR3V3R. O5 NUM3RO5 54O L37R45 3 P3RC3B3M-53 B3M. O5 CONJUN7O5 N4O, N4O F4Z3M 53N71DO. 3 3M BU5C4 D3573 PRO551GO 4 M1NH4 35CR174, FUNG1NDO DO BR4NCO 3 DO V4Z1O. M45 H4 M4L35 QU3 V3M POR B3M, M35MO QU4NDO V33M M4L 3 4 7R1PL1C4R. P4R4 UM 4R71574 D45 P4L4VR45 4 D357RU1Ç4O 1MPL1C4 4 5U4 MOR73, M45 53 5OUB3R R373-L45, 4D4P74-L45, MOLD4-L45, CON53GU3 M4N73R-53 V1VO 47R4V35 D3L45. 3 4551M, 3MBOR4 N4O R35OLV3NDO POR COMPL37O O M3U FR4C455O D3 L317UR4, QU3 POR V3Z35 M3 4554L74V4 M35MO QU4NDO L14 UM 51MPL35 RO7ULO D3 UM P4CO73 D3 4ÇUC4R OU O NOM3 D3 UM4 RU4 NUM M4P4 D3 C1D4D3, CONV3NC1ON31 UM4 NOV4 FORM4 D3 35CR3V3R P4R4 M1M M35MO. 3X1G14 UM C3R7O 35FORÇO D3 H4B17U4Ç4O, QU3 FO1 F4C1L D3 OB73R, 3 UM4 3X4C71D4O 4 PR1M31R4, PORQU3 R3L3R 53R14 M415 COMPL1C4DO 3 N1NGU3M M3 G4R4N714 QU3 3U N4O L3553 4O5 7R35, 4O CUBO, 4O5 CONUN7O5, 7R3VO D4 5OR73 1MP3RF317O, O QU3 POD3R14 53R 41ND4 M415 C47457ROF1CO L3R M473M471C4M3N73 UM4 35CR174 QU3 J4 3R4 3L4 CON57RU1D4 COM L37R45. FO1 4 FORM4 D3 CON71NU4R 4 35CR3V3R. O5 NUM3RO5 54O L37R45 3 P3RC3B3M-53 B3M. O5 CONJUN7O5 N4O, N4O F4Z3M 53N71DO. 3 3M BU5C4 D3573 PRO551GO 4 M1NH4 35CR174, FUNG1NDO DO BR4NCO 3 DO V4Z1O.
quarta-feira, maio 07, 2008
II 18. A cidade
O espírito arrebatou-me e levou-me para a porta oriental do Templo de Javé, isto é, a porta que dá para Oriente.
Ez, 11, 1
segunda-feira, maio 05, 2008
Reitoria da Universidade do Porto




p.s. - entretanto parece estar tudo controlado e não haver grandes danos. ao menos isso!
sexta-feira, maio 02, 2008
Calvin, Hobbes e Eu


Uma tira do referido livro, aqui em Inglês:
quinta-feira, maio 01, 2008
Artes
Começo pela Patrícia que faz isto há mais tempo, pelo que sei. Tem dois sítios de divulgação: o blogue e o flickr. O primeiro mais dedicado às suas meninas (em fimo), acompanhadas de histórias ou poemas, e de músicas, o segundo mais abrangente: as meninas, os wip, as bonecadas e as bijuterias. Sempre com muito bom gosto e ternura (que outra palavra usar para os gatinhos ali em baixo?). Ficam aqui algumas fotos só para aliciar:


E agora a Natacha. Tem dois sítios de divulgação, também: o blogue e hi5. As criações da Natacha são mais adornos femininos que acalentam a alma, como refere no seu blogue, onde também justifica o Ropica Pnefma, de um tratado de João de Barros, cuja tradução é mercadoria da alma. Adornos como pulseiras, pregadeiras, brincos, colares... Ficam aí alguns exemplos da colecção de Primavera para as deusas que se querem embelezar mais ainda:

segunda-feira, abril 28, 2008
Sugestões de Abril
Livros:
1 – A Bíblia (Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Abdias), Paulus ***
argumentos: continua a saga, com mais ou menos sacrifício ou prazer. Daniel e a cova dos leões, ou frases brutais como: «Gostavas de receber a paga de prostituta em qualquer eira de trigo.» (Os 9, 1) ou a hilariante frase «O espírito arrebatou-me e levou-me para a porta oriental do Templo de Javé, isto é, a porta que dá para Oriente.» (Ez, 11, 1). Mais do mesmo, um pouco repetitiva a ideia…
2 – Doze Casamentos Felizes, Camilo Castelo Branco, Parceria ***
argumentos: não me entusiasma o escritor, mas lá li por sugestão da Prof.ª Annabela Rita, num curso queirosiano. São doze histórias sobre casamentos, ou o antes deles, na maioria. E felizes, pois claro. Mais: «As mulheres, se não tivessem estas adoráveis esquisitices, pouco mais valeriam que os homens», p.88. E com passagens engraçadas: «havia uma Ximena, da qual ele contava uma tragédia mais horrível que o nome»p.58, lê-se bem e pode servir de companhia numa viagem.
3 – O Prazer da Leitura, A. A. V. V., Teorema/FNAC****
argumentos: livro que celebra o dia do livro. Dez contos por €4.00. Não gostei de todos, mas em lá, dos que gostei, João Aguiar, Lídia Jorge, Nuno Júdice, Manuel Jorge Marmelo, Filipa Melo, Francisco José Viegas, Rui Zink, e ainda Maria Teresa Horta, Luísa Costa Gomes e Mário Cláudio. Alguns dos contos falam da relação das pessoas com a leitura, com os livros, com as palavras. Mais: «Um escritor deve sempre acreditar que o seu romance irá salvar o mundo. Senão para que escreve ele? Se um livro não é feito para salvar o mundo, então mais vale, se calhar, nem o começar a escrever. O mundo já está tão cheio de maus romances… E até de bons romances. O mundo não precisa de mais livros.»p.214 (Rui Zink).
4 – A Voz Fagueira de Oan Timor, Fernando Sylvan, Colibri ****
5 – A Casa, a Escuridão, José Luís Peixoto, Temas e Debates****
6 – Túmulo de Heróis Antigos, Paulo Teixeira, Caminho ***
7 – Panfleto (Poético), António Cardoso, Plátano ***
8 – Economia Política, Poético, António Cardoso, Plátano ***
9 – O Gosto Solitário do Orvalho, Bashô, Assírio & Alvim ****
argumentos: muita poesia este mês – livros pequenos, claro está. Não comento um a um, mas destaco o do Peixoto e o do Fernando Sylvan. Poemas de todos eles nos links dos títulos. Ficam aqui alguns do Bashô, que li enquanto a Denise lia a Teresa Veiga:
separados pelas nuvens
dois patos selvagens
dizem-se adeus
*
admirável aquele
cuja vida é um continuo
relâmpago
10 – Eu Vim Para Ver a Terra, Maria Ondina (Braga), Agência-Geral do Ultramar *****
argumentos: o livro sobre o qual falarei no colóquio sobre Macau, se for seleccionado. Livro de crónicas, ao estilo colonial mas sem preconceitos ou ideologias imperialistas. Muito bonitas as crónicas sobre Angola, dorida a crónica sobre Goa, muito interessantes as referentes a Macau, cinzentas e tristes, em profundo contraste com as de Angola. Uma escritora que me parece irá fazer parte das minhas leituras futuras. Mais: «De avião as viagens têm sempre aquele carácter atraiçoada de pressa que é a chaga aberta do nosso século. Chegar depressa é com certeza envelhecer cedo, é, de qualquer modo, não ter tempo para ver, em para desejar, nem para sonhar. É estragar o prazer fascinante da viagem, seja ela a viagem de Luanda a Nova Lisboa ou, simplesmente, a viagem da vida.» p.46.
11 – Doutoramento Honoris Causa de Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade, FLUP****
argumentos: pronto, só porque eu apareço lá, numa foto, ao lado da Agustina e do então Reitor. Mas tem textos muito interessantes, dos novos Doutores, mas também das elogiadoras: Fátima Marinho descreve a obra em geral de Agustina, Maria João Reynaud fala de alguns lugares de Eugénio.
12 – As Intermitências da Morte, José Saramago, Círculo de Leitores*****
13 – Deste Mundo e do Outro, José Saramago, Caminho****
14 – Manual de Pintura e Caligrafia, José Saramago, Caminho *?*
argumentos: A Consistência dos Sonhos, a exposição do Saramago onde eu sou guia (às terças e sextas, às duas horas), obrigou-me a uma séria preparação. E a preparação passa também pela leitura de outras obras do autor – uma excelente oportunidade e desculpa para os livros dele que estavam cá em casa passassem à frente de outros… O primeiro, que li em dois dias, conta a história de um país onde não se pode morrer, de repente, e depois a história da própria morte apaixonada por um músico que de alguma forma conseguiu escapar ao momento da sua morte já fixado… Muito bom, com reflexões sobre o próprio romance e conversas com o leitor - um dos meus favoritos. Mais: «falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida»p.205. Não resisto a citar ainda: «Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão»p.212.
Deste Mundo e do Outro, um conjunto de crónicas dos anos sessenta, tem textos belíssimos, outros nem tanto, mas ainda assim parece-me que muito do que ali se fala será mais tarde o húmus da sua escrita: as estátuas e os olhos, a morte, as injustiças, os sonhos e as estrelas… Mais: «A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver»p.40
Manual de Pintura e Caligrafia - ainda estou a ler, mas não estou a gostar tanto como dos outros... mas pode melhorar ainda. Ou não.
TV:
Prison Break** + Joan of Arcadia**** – RTP 1
A Guerra**** – Dois:
Prison Break (terceira temporada) acabou agora, mas parece que continua. Por mim, já tinha acabado na segunda. Não gostei desta, não me prendeu como as outras duas, que chegava a discutir com a Sandra e a Rita. Já A Missão de Joan era a minha série de sábado à tarde. E de repente desapareceu, para dar às tantas da noite durante a semana – episódios que não deram de tarde, parece-me. É uma série sem grande pretensiosismo, mas é gira por isso, pelos adolescentes e seus problemas e pela figura de Deus que aparece nas mais variadas figuras – e vai ensinando, fazendo reflectir.
Nas noites da Dois: passou a série A Guerra, que já tinha passado na RTP 1. Mais uma vez não vi na totalidade – mas vai sair em dvd com um jornal, não sei é qual. É uma excelente série documental sobre a guerra colonial – de libertação – do ultramar, de acordo com as várias perspectivas. E aparece lá o poeta que estudo na minha dissertação, Arlindo Barbeitos.
Música:
Mariah Carey: E=MC2***** o novo álbum da diva do r&b. Melhor que o anterior, parece-me, o multi-platinado e multi-premiado The Emancipation of Mimi, embora não tenho temas tão fortes como «We belong together», «It's like that» ou «Fly Like a Bird». Mas «Touch my body» já rendeu o 18.º n.º1 da Billboard (ultrapassando Elvis Presley), e «Bye Bye», o novo single, entrou para o n.º23 esta semana. E o álbum entrou directamente para o n.º 1. Sucesso garantido num disco que repete a fórmula vencedora do anterior, mas globalmente mais conseguido, com ritmos dançáveis, algumas baladas r&b, pop e soul. Destaco, das 14 canções: «I Stay in Love», «Side Effects», «I’ll be lovin’U long time», «Thanx 4 Nothnig», «For the Record», «Bye Bye», «I wish you well» (algumas estão no youtube, videos não oficiais ou actuações ao vivo). Mais topos nos tops e prémios parece-me que vêm a caminho. E gosto, porque parece que ao ouvi-la me mantenho mais jovem...
Cinema:
Sem grandes comentários, os filmes que vi este mês e que recomendo:
Melhor do que sexo**** - muito íntimo, quem o ver e souber da minha experiência actual percebe porque gosto deste filme. De Jonathan Teplitzky, com Susie Porter e David Wenham.
Astérix e Obélix nos Jogos Olímpicos**** - para rir é do melhor. Talvez não tão bom como o da Missão Cleópatra, mas ainda assim. O Brutos é que fica muito mal retratado, coitado.
Manderlay**** - a continuação de Dogville. De Lars von Trier, mas sem a Nicole Kidman. Mais uma vez para pensar porque é desconcertante e extraordinário.
Klimt*** - confesso que adormeci, estava cansado e deu muito tarde. Mas fui um dos filmes da RTP 1 de domingo à noite, que agora são dedicadas ao cinema europeu. Com John Malcovich.
Exposições:
A Consistência dos Sonhos*****
argumentos: a exposição da Fundação César Manrique sobre a vida e a obra de José Saramago, agora no Palácio da Ajuda, na Galeria de Pintura de Luís. Uma exposição com muitas pinturas (Graça Morais, David de Almeida, José Santa-Bárbara), fotografias (Carlos Relvas) documentos, jornais, epistolografia, manuscritos, edições portuguesas e estrangeiras, projecções com recurso a inteligência artificial (Charles Sandison), sistemas audiovisuais, objectos pessoais do autor e até a reconstituição do seu espaço de escrita, com a mesa e a máquina de escrever originais. É uma exposição para se demorar algum tempo - as visitas guiadas limitam-se a 45 minutos. Espero que a vejam, porque vale a pena! Ficam aqui os horários e acessos (mesmo se não for comigo, vale a pena, os meus colegas são extraordinários - alguns).
segunda-feira, abril 21, 2008
Carta aos humanos
Vi-te voar nos olhos das gaivotas
enquanto fazias castelos de areia
e o mar os levava como oferta ao Sol no fim do dia.
Vi-te rebolar feliz pelos campos verdes
e brincar com as pedras dos rios.
Vi-te contente e por ti sorria.
Não te verei morrer.
Vi-te pintares o céu de fumo
e puseste-te a brincar às bombas
e em vez de castelos davas a morte ao mar.
Vi-te cortar árvores sem rasgão
e nos rios os restos de má educação.
Vi-te contente e por ti e por ti eu chorava
pois nada mais farás assim que acabares de me matar.
Sou alguém que deseja o melhor para ti,
neste dia de tristeza,
a Natureza.
sábado, abril 19, 2008
Aula de Cultura Portuguesa III – 13/01/04
Numa folha arrancada de um caderno meu, perdida no meio do mesmo oitavo volume de Pensamentos Ligeiros, as conversas escritas entre Mari. e A. V. (manter um certo anonimato porque nunca se sabe…) e eu estava no meio e ia passando o caderno ora a uma ora a outra. A não perder:
A. V.: Zé Povinho = Guerra Junqueiro – tem tudo a ver!!!
A. V.: Publicidade: Suicídio? Qual suicídio! Vem já à aula de Cultura Portuguesa e a morte é instantânea! Acredita!
Mari: Tá mto fixe! Ele estava a falar em doido… mas não sei quem será o doido. É 1 questão mto filosófica… Ele ou nós? Que ainda vimos às aulas…
(depois de um poema escrito por mim na aula)
Mari: para o Tiago! Boa Tiago! Tens de ver mais vezes a cult. Port. E até talvez marcar umas aulas extras… faz bem à tua inspiração!!! ;)
«Eu amo o Ferro Rodrigues e o Paulo Portas» - Rui
A. V.: Realmente são pessoas adoráveis. Eu amo o P. Tav. Ele põe-me fora de órbita, isto é, não sei em que planeta estou!!!
A. V.: Enciclopédias?! Não compre! Venha já a uma aula de cult. Portuguesa e passe rapidamente de Zé Povinho para Eça de Queirós! O dicionário mais completo em cultura. Garanto-lhe!! E se telefonar já, habilita-se a ganhar nada mais nada menos que um exame a 10 de Fevereiro!
Mari: Eu não quero telefonar já!!
A. V.: Não há problema! Telefone depois e ganha outro exame em Setembro!
Mari: Obrigadinha! ;) Deixa-me adivinhar… e anda há 1 bónus para quem tem estatuto. Com exame em Dez, ou dps em Set.
A. V.: Minha cara amiga, há sempre 1 bónus: pode mudar para outra cadeira e aí ainda terá a felicidade de ter muitos exames!!
Mari: eu tenho um grande anúncio: quer redimir-se da sua vida pecadora? Falta às aulas? Não trata bem a sua amiga Mari? Tem uma doença e deseja morrer imediatamente? Caros amigos daqui para o inferno é a nossa especialidade.
Em apenas uma aula de cultura portuguesa pode conseguir tudo isso… ou morre ou mata-se! Com a oportunidade de caso não seja eficaz a aula ter sempre à sua disposição 1 fantástico exame! Não perca é já dia 10 de Fevereiro!
Calinadas ou frases verídicas encontradas
«o amor é verde e uma vaca comeu-o!» - eu
«É tão bom ser livre, correr pelos prados verdes, bater numa vaca e cair na relva!» - eu
«mato-me ou mato-me» - Su (um clássico que ficou para sempre)
«o estogamo» - Milai
«os filhos da mão» - eu
João Damasceno
4 ordens de fuzilamento:
2.ª
Apontem-se canhões nucleares
ao firmamento
fuzilem-se as estrelas
3.ª
Encostem-se as montanhas
e os rios
os planaltos, os vales
a um muro de tijolo
e cal
vendem-se-lhes os olhos
fuzilem-se
quinta-feira, abril 17, 2008
depois da procrastinação...

domingo, abril 13, 2008
Paulo Teixeira e Caspar David Friedrich

a visão como vela armada para a viagem,
tensa como a corda do arco
na suspensão do gesto inocente sobre a seta.
Debruçada, num ofício de corpo presente,
viu passar toda a blandícia na brisa.
Agora recolhe-se ao copo facetado
de que uma só face dá para o mundo
como a alma no azul escuro de um vitral,
o vinho quente no fundo de um cálice:
o quarto onde guarda o estojo da sua vida
com o sombreamento do dia no soalho.
Exasperada pela cintura de gelo da vidraça,
para onde declina lentamente a face,
estenderia o braço se o ser em cada coisa
lhe fosse dado tocar: o mundo
de que ela fosse mais que o alto-relevo
fixo para sempre na moldura da janela.

e do que amadurece à flor da terra
quarta-feira, abril 09, 2008
José Luís Peixoto
o escritor
ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escrevia o meu nome num papel. ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeiro
sobre as palavras escritas.
ele disse amo-te.
ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome. eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim. e perguntou
quem és tu?
*****
mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome.
*****
a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.
*****
devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
A Casa, a Escuridão, Temas e Debates, p.31, 33, 48, 66
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António Cardoso
Necrologia
A poesia está ai, em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...
Para exemplo
de pura ocasião
a poesia está, todos os dias
na necrologia dos jornais:
é crianças e mais crianças...
Na relação dos feridos
nas catacumbas das prisões
e nos bancos dos hospitais:
"acometido de doença súbita
no Musseque Lixeira,
foi transportado na ambulância,
Domingos João, que morreu
hoje, Quinta-feira."
A poesia está ai, disfarçada em qualquer canto
menos nos compêndios de moral
nas regras formais
e nos discursos de inauguração
de bairros oficiais que não existem...
E, até por ironia,
está escondida na necrologia dos jornais!...
Escola Matemática
Repressão + ódio = a
+ dia – dia, liberdade!
Economia política, poética, Plátano Editora, p.69, 65
Fernando Sylvan
Infância
as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos
a praia e o mar das crianças não têm fronteiras
e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes
mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar
Meninas e Meninos
Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos!
E então?
15
As flores mudam de cor
quando lhes tocas e falas.
A Voz Fagueira de Oan Timor, Colibri, p.33, 61, 83

Houve ainda tempo para bebericar um pouco de le thé des écrivains...


