quinta-feira, maio 28, 2009
«Run», ou o «mudar-me definitivamente»
terça-feira, maio 26, 2009
da existência
E dizem, normalmente, «isso já passou». Mas estamos em Maio e eu ouço. E não poderia ser «ainda falta muito»? Ou o tradicional «o Natal é quando um homem quiser»?
Não me apetece o Natal, nem nada, mas às vezes apetece-me outro tipo de música, diferente da do dia-a-dia, que traga a nostalgia e a alegria ao mesmo tempo. Acompanhada pelos meus berros, pois claro.
segunda-feira, maio 25, 2009
excertos de «O mundo não passa de mundo»
III. 8. Borboletras
Era uma vez um homem que escrevia apenas por fragmentos. Coisas pequenas, se bem que muitas vezes profundas, concisas. Há quem ache que as duas coisas estão intimamente ligadas, mas nem sempre. De qualquer modo, os seus escritos compunham-se de fragmentos: frases breves, às vezes não sendo mesmo frases gramaticais, no sentido estrito, ou apenas letras desenhadas pelo prazer de as escrever, sem significarem nada, mas eram sempre pequenas preciosidades, fruto do acaso, da vida, se bem que muitas vezes apenas da interior; escritos a qualquer momento do dia ou do sono, interrompido a custo para a escrita que se poderia perder na manhã seguinte se não acontecesse naquele momento; sobre tudo o que lhe interessava ou causava espécie.
III. 11. Manual de sobrevivência a um coração partido
Na deslocação, revi a minha comunicação sobre um livro medieval recentemente descoberto pelo meu professor numa biblioteca privada e em cuja edição eu estava envolvido. Um livro interessantíssimo sobre a forma de sobreviver a males de amor, em espécie de manual didáctico. Após várias entradas frescas ou mais conhecidas pelo vulgo, o autor anónimo deixava bem claro, no final: «As receitas que i poderam haver, seerá frol quem no mais tender, ca a seu golpe nom pode durar arma». E era sobre este final, de uma certa desesperança na resolução dos casos com a ajuda do próprio manual, que eu ia falar no congresso. Por experiência própria, pois então.
III. 13. O exílio
Doía-lhe aquela existência e não conseguia perceber como poderia sobreviver no seu próprio espaço, voltar a ser o que era. É que estando ela no seu lugar de sempre, como se poderia sentir em exílio? O exilado é aquele que está morto para a sua terra, em parte, pelo menos, e ela sentia-se assim, morta na sua terra, como que exilada antes desta ser sua e fosse apenas um reflexo e algo que nunca poderia realmente existir – a vida.
III. 15. Deus como romancista
Cá fora, vestiu o casaco rapidamente, e circulou, para não se deixar chorar. Mas chorou, a andar, como se fosse um mendigo sem casa – e era-o, naquele momento, sem a melhor casa da vida, a casa dos verdadeiros amigos que nos abrigam o mais importante: o gosto que têm de nós. E ele via-se assim, de repente, sozinho numa rua que não costumava frequentar, com casas que lhe pareciam vazias de vida, embora fossem bonitas. E, por fim, achou a entrada de uma casa onde se sentar e perder-se durante algum tempo. Nada do que se passou a seguir interessa a ninguém. Dos seus vinte e cinco anos de pouca experiência, o professor não sabia o que era perder um amigo de forma tão voluntária. Nem nunca saberia, de facto.
aniversário
Agora tenho 26 anos e uma televisão no quarto de cá. Ontem liguei-a para ouvir falar de medos e morte, e para choramingar com a Izzy. Hoje, são quase nove horas, tenho 26 anos e estou pronto para ir dormir.
Ideias...
P.S - E não era esta a companhia de que eu precisava.
Adenda: ao menos já tenho resposta para aqueles questionários tão típicos, quando me perguntarem «Qual foi o pior presente que te ofereceram?» Escrevi coisas bem piores sobre o assunto no meu caderninho actual, mas é melhor não partilhar.
domingo, maio 10, 2009
um poema de Fernando Pinto do Amaral
Aprende o infinito, recupera
a distraída bússula da alma
pouco a pouco sonâmbula, o exausto
sabor da tua vida enquanto é mais
que um recado de lume no teu corpo,
que a promessa da febre no teu sangue,
e a prende sobretudo a suspender
o tempo quando abraça quem morreu
só pra ressuscitar dentro de ti
ao cumprir a memória incandescente
dos dias que o amor transforma em meses,
dos meses que o amor transforma em anos,
dos anos que o amor rasga e entrega
ao rosto azul do céu e destes versos.
sábado, maio 02, 2009
III. 5. Amores imperfeitos

Tinha orgulho no seu jardim. Havia nele flores de várias espécies, recolhidas por várias gerações de que se sentia a herdeira espiritual. Tratava dele como se fossem filhos que não podia ter e conversava com elas como se houvesse resposta às coisas que lhes dizia. Quando uma planta morria, sepultava-a debaixo de outras, como que a perpetuá-la nelas, de modo a que nunca se faltassem. Eram lindas e toda a gente as elogiava na variedade, nas cores, no perfume, na perfeição. Um dia, acordou e viu que a cada um dos amores-perfeitos faltava uma pétala. Sorriu de ironia, a seguir apeteceu-lhe chorar, mas não o fez. Fechou a janela para não se ver e cismou para não emurchecer.
O que é aquilo?
É bonito, possibilita reflexão, e é grego.
Visto aqui.
E é melhor vê-lo lá, porque aqui não aparece a imagem toda... :(
quinta-feira, abril 30, 2009
O livro dos dias - (breve selecção de Abril)
9. Somos nós também aquilo que somos? O que não queremos ser? O que queremos e não conseguimos? Onde começa e termina o ser e o querer? Ou o não ser e o não querer? ___________ O Sol hoje nada pode esclarecer.
14. «P´ra frente é que é caminho». Ou para trás, ou para os lados. Qual frente? Estamos a falar de espaço ou de tempo?
17. Custa-me a solidão dos dias, ao contrário do hábito. Dos dias que vivo e que tinha projectado diferentes, contigo. O que custa não é a solidão, é ver-te sem ter-te, é depois não te ver chegar a casa, e ter-te apenas na memória. Face ao vazio e à loucura: as palavras ou o silêncio da solidão.
19. Eu não preciso de saber de nada do mundo. Eu sou um mundo e já me chego!
23.
24. Já não havia estrada, apenas um muro. E para além dele era impossível ver.
domingo, abril 19, 2009
desafio em abril
Do imenso tempo inicial das férias das Páscoa ainda em Braga ao tempo curto com a família e com o regresso atarefado, foi isto que li. O João Aguiar autografado foi leve e empolgante, outros foram bons enquanto momentos de leitura, outros muito bons e intensos, como o Richard Yates e a Agustina (que mais uma vez me desconcerta, com um livro onde me seduziram sobretudo algumas construções frásicas). E depois há um chamado o remorso de baltazar serapião, que não cumpriu as minhas expectativas em relação à inovação da linguagem tão apregoada (não me pareceu muito experimental nem arrojado - mas talvez isso seja das minhas leituras rosianas, coutianas, luandinas, ondjakianas ou, no mesmo eixo temporal medieval, do Pedro Eiras), mas incomodou-me enquanto livro, história, e seduziu sobretudo pela irrupção do fantástico retratado, em alguns casos, como real habitual.
39. O Priorado do Cifrão, João Aguiar, Porto Editora, 384p****
40. O Profeta, Kahlil Gibran, Europa-América, 94p****
41. Revolutionary Road, Richard Yates, Civilização, 286p*****
42. Uma migalha na saia do universo (antologia da poesia neerlandesa do séc. XX), org. de Gerrit Komrij, Assírio & Alvim, 144p***
43. Mal por Mal, F. Scott Fitzgerald, Teorema/FNAC, 72p***
44. Contos negros para os filhos dos brancos, Blaise Cendrars, Teorema, 94p***
45. As Pequenas Memórias, José Saramago, Caminho, 150p***
46. Os Meninos de Ouro, Agustina Bessa-Luís, Focus, 316p****
47. o remorso de baltazar serapião, valter hugo mãe, Círculo de Leitores, 190p.****(*)
Outras:
Wall-E*****
Awake***
Slumdog Billionaire****
P.S. I Love You****
terça-feira, abril 14, 2009
Ada Plays - Gabriel Yared
de um dos meus filmes favoritos, uma das minhas músicas. tão bonita que faz chorar...
terça-feira, março 31, 2009
(bem) na minha mão - Susana Félix
Porque faz cada vez mais sentido. Mesmo depois do que aqui já disse. Sobretudo o refrão, impagável: «enquanto vergo, não parto/ enquanto choro, não seco/ enquanto vivo, não corro/ à procura do que é certo» (todos reparámos nos pares antitéticos e todos sabemos do que se fala no final).
sábado, março 28, 2009
O livro dos dias - (breve selecção de Março)
8. «O meu Guano desapareceu, fiquei muito triste... e o Rafa: ó Rita, não fiques triste, o Guano só morreu e depois volta.» - A sabedoria das crianças!
9. Esses botões desapertados, por esquecimento, em lugar tão crítico, bastariam para encher a minha mão. Mas não para saciar o que tu sabes que também termina em ão.
10. Deus é realmente um romancista dos ranhosos. E o resto é silêncio, pois então.
14. E não é que voltou mesmo! O meu primo Rafael afinal sabe mesmo destas coisas. E ainda comentou «Foi às meninas»!
19. E «enquanto eu não reclamo a dor dos dias» e a morte não toma conta dessa reclamação, continuarei aqui, à espera...
27. «É para dizer que em parte a minha vida está ligada à tua e tens que cuidar de ambas - agora não tens outra saída senão viver eternamente.» Marta
29. «A ouvir o silêncio que a ausência da tua voz, do teu abraço... de ti... traz até a mim...» (roubado ao Tozé - frase do msn)
30. Face ao vazio e à loucura: as palavras.
31. Pergunto-me quantas vezes te terás lembrado de mim hoje. Nenhuma, ou uma ou outra, por acidente. Pois eu apenas uma; ao acordar lembrei-me da tua ausência real... e nunca mais apaguei de mim o desejo de ti.
terça-feira, março 24, 2009
desafio em março

Do tempo apertado, sem tempo quase, entre os afazeres de final de período sem vontade, e o fantasma da dissertação, e o fantasma da minha própria vida... fez-se este conjunto de leituras. Gradual, demorado no caso do Vale Abraão (brilhante, mas denso e não me apanhou na melhor fase), enquanto que os seguintes, a partir de Um Crime no Expresso do Oriente, me apanharam na fase do tudo preparado até ao final das aulas, o matar o tempo que devia ser para a dissertação. E continuo a ler, como um maluco. E ainda bem, porque soube-me muito bem percorrer As Cidades Invisíveis, ler as histórias com bichos, ou chegar à conclusão que O Resto é Silêncio. E o que mais virá, diria o meu pai se lesse isto.
25. O Beijo da Palavrinha, Mia Couto, Caminho, 30p.*****
26. Fanny Owen, Agustina Bessa-Luís, Público/Mil Folhas, 224p.****
27. Crime no Expresso do Tempo, Luísa Ducla Soares, Lisboa Editora/Civilização, 80p.****
28. Sonetos Luxuriosos, Pietro Aretino, Guerra & Paz, 96p.***
29. Só de Amor, Maria Teresa Horta, Frente e Verso/Visão, 80p.***
30. Vale Abraão, Agustina Bessa-Luís, Planeta DeAgostini, 306p.*****
31. Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie, RBA, 240p.*****
32. Raízes do Porvir, Domingos Florentino (Marcolino Moco), Universitária, 84p.***
33. Sem Título e Bastante Breve e Outros Poemas, Al Berto, Assírio & Alvim/FNAC, 32p.***
34. O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro, 200p.*****
35. As Batalhas no Deserto, José Emílio Pacheco, Oficina do Livro, 88p.****
36. «Ficções de bichos», direcção de Luísa Costa Gomes, 160p.*****
37. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Biblioteca Sábado, 180p.*****
Recomendam-se ainda Milk e Changeling - dois filmes muito bons.
domingo, março 22, 2009
Revolutionary Road - algumas pequenas pérolas


April Wheeler: So now I'm crazy because I don't love you, right? Is that the point?
Frank Wheeler: No! Wrong! You’re not crazy, and you do love me. That’s the point, April.

John Givings: Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.
*********
sábado, março 21, 2009
Dia da poesia, ó T!

(isto não é um poema, é uma sms com versos de Fernando Assis Pacheco - o poema completo pode ser lido aqui. E esta é também a entrada do Livro dos Dias de hoje)
domingo, março 15, 2009
In Memoriam
Simples, como deveria ser, apesar de tarde. Com umas músicas dos nossos Radiohead, que me apresentaste e me fizeste apreciar. Talvez não sejam as tuas favoritas, acho que a tua era «Creep», não me lembro bem (isto da memória tem destas coisas), mas estas são as minhas. Não te preocupes que não te sigo, nem eu estou preocupado, agora, com o ter-te sugerido um caminho.
E obrigado pela caixa, pelo barco com a carta (apesar de não ter gostado de tudo o que lá escreveste), pelo livro O Resto é Silêncio que lerei o mais depressa possível. Obrigado sobretudo por teres partilhado comigo uma amizade - breve, mas a sério. E talvez um dia nos possamos ver.
As minhas favoritas, além de «No Surprises»:
«High and dry» e «Karma Police».
Ano Agustina

excerto do artigo - «As Fúrias em "sede absurda de ruína"»
«Fica antes uma sugestão de suspensão, de ruína não totalmente concretizada, como se fosse possível um ressurgimento de que é símbolo a «energia» acima referida, ou ainda a salamandra negra referida no final do romance, a salamandra cuja vida se coloca em hipótese, mas «sem ética possível e sem transcendência» (Bessa-Luís, 1977, 179). No entanto, a configuração que se apresenta não pode deixar de se considerar como disfórica e sem solução, uma vez que o espaço, agora transformado em lugar, segundo a distinção estabelecida por Michel de Certeau, não parece deixar lugar a uma nova transformação. Mas isso não se afirma como certo, pois há na sua obra, e nesta também, uma vacilação das certezas, um romper do esperado, e tudo é possível, como a contradição – um dos pactos que o leitor de estabelecer de início com a obra de Agustina, a fim de a pretender conhecer um pouco melhor, como afirma, exemplarmente, Lídia Jorge: «o contraditório é o chão do pensamento. Quem não entender essa raiz profunda terá dificuldade em compreender a obra que produziu» (Jorge, 2009, 53). Mesmo da destruição pode nascer a criação – ainda que ficcional e de papel.»
sábado, fevereiro 28, 2009
Desafio em Fevereiro
13 - O Principezinho, Joann Sfar, Presença, 110p.****
14 - A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi, Booket, 114.*****
15 - «Ficções 6», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 150p.****
16 - Livro do Português Errante, Manuel Alegre, colecção Frente e Verso - Visão, 78p.***
17 - Amor, Amor, Amor, Andy Warhol, Campo das Letras, 50p,****
18 - «Ficções de Guerra», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 182p.****
19 - Camões, Miguel Torga, Coimbra, 20p****
20 - As Fúrias, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, 180p.*****
21 - Pedro, Lembrando Inês, Nuno Júdice, colecção Frente e Verso - Visão, 60p***
22 - Os Contos de Beedle o Bardo, J. K. Rowling, Presença, 118p***
23 - O Desejo, Safo, Teorema, 88p***
24 - Dos Livros, Montaigne, Teorema, 60p***
Mais sugestões: a (polémica) Feira do Livro de Braga, apesar de pequena. E um filme, um grande filme: Revolutionary Road - com a muito grande Kate Winslet!
O Livro dos Dias - (breve selecção de Fevereiro)
2. Estou com vontade de me zangar com alguém hoje. E queria que fosses tu, para a seguir fazer as pazes…
3. Eu tenho sempre palavras, às vezes não sei é o que fazer delas…
4. Ontem foi quase. Hoje não me apetece. É preciso, portanto, ter cuidado. São estes os dias, os momentos mais perigosos. Os que são do contra, os que se seguem aos frustrados, os que subitamente nos escapam das mãos.
6. O momento da tarde, do dia, em que guardei nas minhas as tuas mãos durante o breve segundo de as sentires quentes e o longo instante de tas saber frias, e fortes e tuas, valeu por outros momentos feitos de palavras, hesitações, ironias. Admirável mundo este o do tacto. Estou em tempo de o explorar mais.
7. As mãos hoje enchem-se de livros, letras, pó – já que não te tenho para voltar a enchê-las de ti.
8. Hoje não pensei em ti… Não pensei, a sério. Hoje não. Não te imaginei comigo, não tentei ouvir o teu sorriso que não me saiu nunca dos ouvidos. Não. Não pensei em ti. Não pensei eu noutra coisa – por isso não pensei em ti. Fui em ti. E agora ao escrever isto não penso em ti, mas em nós – que ainda não somos.
13. Hoje é o dia. Escolhe entre as palavras, o objecto e o gesto. As palavras são ao que são, valem o que quisermos fazer delas. Os objectos são mais fáceis, mas menos expressivos. Os gestos dizem tudo, mas são os mais difíceis – porque não se sabe a resposta que podem suscitar. Podem ser os três, também, embora se excluam por redundância. E eu que sou sempre tão seguro e só relativizo e duvido porque tenho as minhas certezas estou sem saber o que dirás, farás ou me darás. Talvez por isso goste de ti.
15. Coloquei o tinteiro novo, comprado ontem. Peguei no saco plástico pequeno e ia arrumá-lo, para outra vez. Mas senti que havia algo mais lá dentro, que não era suposto, que não tinha comprado. Eram dois corações em forma de chupa-chupa – tal igual, porque era o dia e não sei o quê. Não foi a solidão que me impeliu, foi o desânimo – porque ela sempre me teve e me guardou, este é que é novo e invasivo. E faz-me tanto mal que os dois corações foram encarcerados na caixa das goluseimas, como quaisquer outras, à espera de vez. Como todos, afinal.
19. Trocámos mais algumas palavras, as do dia-a-dia, as normais e esperadas. Menos mal, as coisas. Mas iguais, e eu não as queria assim. Ou ainda não normais, aliás. Faltam aquelas que nos definam, definitivamente, as verdadeiras. Aquelas que não quero ouvir, as que seria quase melhor ficarem em silêncio. A verdade é que te amo – mesmo que não deva, que não possa, mesmo se não quisesse. E por isso mesmo, não insistirei. E as palavras serão silêncio entre nós.
20. «Um mar rodeia o mundo de quem está só.» Nuno Júdice, Pedro, lembrando Inês
Que nomes têm estes mares que me rodeiam, sem mundo?
25. Eu não tenho nada. A sério que não tenho nada. Não se preocupem e acreditem: eu não tenho nada. Nada, nada. Porque o nada não pode possuir-se. E eu sou isso, apenas. Nada de nada importa, portanto.
26. Fiz um barco. Dobra aqui, vinco mais forte ali – e foi ganhando a forma desejada. Depois levei-o ao ribeiro da aldeia. A água era fria e corria livre, cheia. O barco não durou muito nela: virou, não conseguiu voltar à posição inicial. Ajudei o caudal com o meu próprio, mas sem exageros. E fiquei a vê-lo afundar-se, desfazer-se, pensando que eu próprio podia estar ali e o barco ser eu e eu o barco. E nada se perderia, segundo Lavoisier. Amen.
28. Destruo-me nestas coisas que escrevo, no que imagino, naquilo que faço sem ti. Mas até a destruição é criação! Assim, vale a pena, como quase tudo. E estas coisas, só minhas, não poderão destruir mais ninguém – mas também não criam…


