sexta-feira, julho 17, 2009

Hoje, Mia Couto

Mia Couto, na Centésima Página, para falar do novo livro, Jesusalém. Ok, admito, durante muito tempo pensei que era Jerusalém - e achei estranho, porque Gonçalo M. Tavares teve muito sucesso com um livro com este título e assim, tão próximo, parecia-me excessivo... e até pensei que por causa disso o romance tivesse recebido o título de Antes de Nascer o Mundo, no Brasil, mas não foi por isto, então... Sei que comecei a lê-lo, enquanto esperava que me dissessem se continuava ou não no colégio (e sim, continuo), e estou a adorar (só não adorei a ideia de continuar com a minha turma no secundário e de, por razões técnicas, não continuar com a minha turma de segundo ciclo...); não era para ler já, queria esperar pelas férias para apreciar melhor e ler antes tudo o que me falta ler do antes. Mas o Mia vem cá falar hoje e apetece-me ouvi-lo sabendo um bocadinho do que se trata. É muito bom, a fazer lembrar o Terra Sonâmbula e O Outro Pé da Sereia, e a fugir ao anterior, Remédios de Deus e do Diabo - pelo menos para já, o que é bom (e vou ter Estudo Acompanhado...).

segunda-feira, julho 06, 2009

III. 29. E pur si muove


Sentia-se triste como uma casa sem móveis.

Flaubert, Madame Bovary

Os móveis enchiam o espaço interior, e cada um de nós tropeçava, batia, não vivia nele, porque tomavam conta de nós de forma opressiva. Não havia vazio, nem silêncio. E cada um de nós seguiu o seu rumo. Depois, aos poucos, desbaratadas no vento as lembranças e as palavras, queimados que foram os gestos, ficámos sós, eu e a casa. E embora a solidão não doa, entristece. Como a casa sem ti. E perante a minha imobilidade, a minha descrença do vazio que nos tornámos, ela age por mim: de cada vez que olho pelas janelas apercebo-me da mudança como se estivesse num comboio, do que vem e do que ficou para trás, e sempre que me sento no alpendre tenho novas paisagens para apreciar. É a sua forma de ser mais do que uma casa e de me ajudar. Mas alguns sentimentos não se mudam ao mudar-se uma casa, em todos os sentidos.

Mimarte - Festival de Teatro de Braga

Sozinho, com a Virgínia, no Rossio da Sé ou no Museu D. Diogo de Sousa, tenho andado a ver teatro. Já tinha saudades... Depois de ter perdido as três primeiras, comecei a ir ver tudo, excepto a oitava, pois estava exausto... E tem sido muito bom, desde clássicos gregos a abordagens infantis, muito bom.

30 de Junho, As Justiceiras, de Aristófanes, por Teatro ao Largo (Vila Nova de Mil Fontes), encenação de Steve Jonhston - a encenação da comédia parece roçar um pouco, talvez, a revista portuguesa. O texto clássico foi adaptado aos tempos actuais (qual Ágora, a Junta de Freguesia é que é importante, ou o problema dos brasileiros e dos romenos ou ucranianos...), com música e interacção com o público, com alguma coisa que me fez duvidar um pouco do bom gosto, mas isso sou eu, porque toda a gente gostou muito e deu para rir também com qualidade. ***(*)

1 de Julho, Paisagens em Trânsito, de Patrick Murys, por Circolando (Porto), encenação de Patrick Murys - uma peça estranha, sem falas (algumas onoamtopeias e outros sons), repesentada por um único actor e, por vezes, fantoches - um real, um outro encarnado pelo actor, num cenário que recria linhas de comboio, mas também estábulos e tudo o que quisermos imaginar, e malas, muitas malas. Diz o programa é que é sobre o exílio, memórias, e muitas interrogações - é o que o espectador faz, muitas interrogações! ****

2 de Julho, Afonso Henriques, de António José Saraiva, por O Bando (Palmela), encenação de João Brites - uma peça mais direccionada para o público infantil, mas que agradou a todos. A história do primeiro rei português, suas guerras, dúvidas, paixões, num ritmo marcado pelo divertimento, pela música... Muito bom!****(*)

4 de Julho, Agamémnon, de Ésquilo, por Grupo Thíasos do IEC - Fac. Letras (Coimbra), encenação de Lia Nunes - peça do XI Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, recupera a primeira parte da Oresteia, centrada no regresso de Agamémnon depois da guerra de Tróia, e a recepção que dele é feita por sua mulher infiel, Clitemnestra, que aqui é representada por duas actrizes, para transmitir melhor o carácter dúbio da mulher enganadora. Gostei bastante, em especial do Corifeu. ****(*)

5 de Julho, Édipo Rei, de Sófocles, por Grupo de Teatro Clássico ESAD (Málaga, Espanha), encenação de Andreu - não tinha lido o texto (ao contrário do anterior, mas já li, entretanto) mas sabia a história, o qu enão sabia é que ia ver uma representação tão extraordinária: a intensidade trágica da dúvida que pode aniquilar um homem é levada ao extremo: suor, lágrimas, baba (e tenho dúvidas quanto ao ranho) surgem não muito depois da pela ter começado e mantêm-se... e o coro ajuda. Grande desempenho de Chico García como Édipo, mas todos estiveram bem. Destaque ainda para o Coro - excepcional. *****

6 de Julho, Teatroclip, Tin.bra (Braga), encenação de Sónia Sousa, - a pior crítica é não haver crítica... pronto, eu quase cortei os pulsos com o representação de pequenos quadros da vida de uma vila separados por músicas de Amália, mas até gostei da actriz alcoólica, e de uma ou outra saída mas, no geral, foi de bradar aos céus... comédia fácil, com trocadilhos e tiradas demasiado previsíveis, e as entradas e saídas quebravam o que quer que fosse possível existir de interessante. E pareceu-me tãooooo longooooo. **

7 de Julho, Ibéria, a louca história de uma península, por Peripécia Teatro (Vila Real), direcção de José Carlos Garcia - depois de adiado por causa da chuva (no dia 27 de Junho), voltaram e ainda bem. Uma comédia a sério sobre episódios da Península Ibérica, desde as guerras entre os dois países e com os mouros, aos pastorinhos de Fátima, passando pos Inês de Castro (muito bem contada a história), Camões e Cervantes, Aljubarrota (os actores eram pães que relatavam o que acontecia aos espanhóis), Tordesilhas (fantástica a ideia da marcação de território como os animais)... Dois actores e uma actriz fazem de tudo, do início ao fim: reis, rainhas, guerreiros, pães, pastorinhos, papa... tudo centrado neles, sem grandes artifícios técnicos além do excelente trabalho corporal em cena. Destaque ainda para a cena do anel em D. Constança - fantástico! Muito bom, a encerrar. ***** (com Virgínia, Marta e Rui Pedro)

P.S. - para mais informação, fotos, vídeos, ver o links em cada um dos títulos.

sexta-feira, julho 03, 2009

Para a Marta e para a Virgínia - Parabéns!

«E então conto o do que ri, que se riu: uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi levantavam; assim repicava o espairar, o vôo de reticências, não achasse o que achasse - e era uma borboleta dessas de cor azul-esverdeada, afora as pintas, e de asas de andor. - "Ara, viva, maria boa-sorte!" - o Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz.»

João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (Editora Nova Fronteira, 2005)



borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen.
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
descola por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
usa com afinidades
o palco da natureza.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raíz, cinzento-nuvem.
borboleta dispõe de intimidades
com arco-íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas ela usa olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

Ondjaki, Há Prendisajens com o Xão (Caminho, 2004)

sexta-feira, junho 26, 2009

desafio em junho


Vieira da Silva, mais uma Bibliotèque


Continua o desafio, em fase de abrandamento, pois a dissertação tem de estar feita no próximo mês, e quatro artigos me aguardam... De Luísa Dacosta, agora descoberta e ainda à espera que leia os outros livros que tenho (edições muito bonitas da Asa), ao meu já muito conhecido (e genial) Saramago, passando pelo inevitável (depois do filme) O Leitor, poesia (a do Eugénio, finalmente, mas que confirmou a minha não muita adesão ao seu mundo) e contos e micro-narrativas (Augusto Monterroso é muito bom) e até literatura infantil.



56. A Maresia e o Sargaço dos Dias, Luísa Dacosta, Asa, 78p.*****
57. Luísa Dacosta - entre Sílabas de Luz, Asa, 78p.****
58. Natal com Aleluia, Luísa Dacosta, Asa, 78p.*****
59. O Leitor, Bernhard Schlink, Asa, 144p.*****
60. A Jangada de Pedra, José Saramago, Caminho, 350p.*****
61. À noite as estrelas descem do céu, João Pedro Mésseder, Campo das Letras, 60p.****
62. Versões - Mundos (d)escritos em Português, vários autores, CIC - Portugal/autonomia 27, 166p.***
63. A Ovelha Negra e outras fábulas, Augusto Monterroso, Angelus Novus, 120p.*****
64. «Ficções 9», direcção Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 148p.***
65. Uma Aventura na Amazónia, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Caminho, 240p.***(*)
66. O menino que não gostava de ler, Susanna Tamaro, Presença, 40p.****
67. Poesia, Eugénio de Andrade, Fundação Eugénio de Andrade, 660p.****(*)


Filmes:
You don't mess with Zohan*** (pelo ridículo, pelo Adam Sandler, pela Mariah Carey...)
RocknRolla**** (pelo déjà vu - pessoal - não total...)
Sobreviventes***(*)
Happy Feet****(*)

segunda-feira, junho 22, 2009

III. 19. Conto levemente erótico


Olharem-se era apenas o início, pois o olhar ensinava-os sobre as mãos e sobre a pele. E as mãos ensinavam-nos a ver melhor. E depois do olhar, as bocas percorriam-se com uma falta de algo que só os corpos pudessem mitigar. As mãos procuravam-se, exactas de tempo, exactas na procura do improviso, no imprevisto dos corpos reagentes. Procuravam-se e encontravam-se nas planícies, nas florestas. Perdiam-se e achavam-se, cheias, para novamente se perderem e, cheias de saudade, voltarem a encontrar-se. E depois das mãos e das bocas, todo o restante corpo, um contra o outro, explorando-se na pele, nos pêlos, no sangue latejante, como se o tempo não chegasse, como se a vida pudesse ser sempre aquilo, como se as coisas se reduzissem a ambos tornados unos, perdidos nas palavras sussurradas, gemidas, balbuciadas, até os corpos se soltarem novamente e apenas se abraçarem, enquanto entram num outro mundo, sem consciência.
Acordar-se era tarefa do sol na janela ou do despertador. E era nascer para a consciência da individualidade e da solidão. A cama estava desfeita, ele talvez um pouco molhado ainda, mas só. Porque nada do que se passava era real, apenas fruto do desejo presente e das memórias do passado – viventes ambas nesses tempos, funcionantes de modo imperfeito no presente, mas sem esperança de projecção no futuro. E era certo que depois, no banho, haveria de chorar, mas só no banho, para que as lágrimas não se notassem, nem para ele. E que, em outras noites, olhar-se era apenas o início, pois o olhar ensinava-o sobre a mão e sobre a pele e a mão ensinava-o a ver melhor. E depois do olhar a boca ficava expectante do momento em que tivesse de soltar-se em prazer. Sem tempo, sem espaço de vida a mitigar, a inexactidão do mecânico, ainda assim cheio de saudades da pele, dos pêlos, do sangue latejante, do tempo em que a vida podia ser apenas aquilo, as coisas fossem unas de ambos, em que as palavras tinham o poder de trazer um ao outro em segundos de ser.
Até ao dia em que desaprendesse de amar: os olhos recusassem a ver, as mãos a descobrir, a pele a sentir, as palavras a criar. Ou talvez não fosse ainda tarde nesse dia, se os sonhos e a solidão pudessem funcionar como reservatório de emoções. E um dia, ao acordar com o sol a dourar-lhe o corpo extenuado, talvez não precisasse de chorar, pois teria aprendido alguma coisa que o levaria a ser diferente, mesmo sendo o mesmo.

Deolinda, enfim!

Já aqui falei dos Deolinda, por diversas vezes. E aqui em específico contei a primeira das oito tentativas de ver os Deolinda ao vivo. A primeira foi em Vila Real, a segunda foi em Braga (FNAC), mas estava com uma otite, novamente em Braga (Teatro-Circo) não consegui bilhete, tal como não conseguiram para mim em Vila do Conde. Depois foram a Barcelos, e o convite meio estranho e em cima da hora foi posto de parte por vontade alheia, de que dependia, mas a verdade é que não me apetecia muito vê-los por lá. As queimas: Porto (no dia seguinte tinha aulas ou coisa parecida), Bragança (idem, longe), Braga (a companhia/boleia sentiu-se mal, já não deu). A Sandra viu em São João da Madeira e, não conhecendo muito, gostou muito. A minha irmã e o meu primo Marcelo nem chegaram a ver, de tão tarde chegaram ao Queimódramo. A minha prima Rita delirou em Bragança. Mas chegou o dia. Em Vila do Conde, ao ar livre. Muito bom, com a Milai e companhia, e também com a Filipa e o marido. Valeu a pena a espera - e não terá sido o último... O concerto foi muito bom, com todas as músicas, duas novas e uma da Amália. Grande presença em palco da Ana Bacalhau, a cantar as músicas quase sempre introduzidas por uma pequena história, onde «há sempre um problema». E não deixo nenhuma música - há muitas no disco e no youtube...

quarta-feira, junho 10, 2009

Dois poemas de Luísa Dacosta

Entretenimento

Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.


Apelo

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.


A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto: Edições Asa, 2002

dois poemas de Saúl Dias

Lidos no mês passado, e a fazer antevisão do futuro. Além dos dois poemas, dois outros versos.
«Eras uma flor inventada
com milhões de sóis em cada pétala.»

1.
Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
dias e dias,
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste...)

2.
Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma...

Sofro
de te perder.
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos...

Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?

Tarde Azul, poemas de amor de Saúl dias e desenhos de Julio, Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2008.
(edição muito bonita, sobretudo pelos desenhos)

terça-feira, junho 09, 2009

Adeus (+ poema, só porque sim)


Entre nós não há apertos de mão. Isso é para os outros. Ou só nos dias de cerimónia: aniversários, primeiras saudações formais, despedidas e regressos para/de férias. E agora não será diferente, apesar das quebras. Estenderemos as mãos e as palavras serão as mesmas, puídas, gastas, apesar do pouco uso entre nós. Ainda não sei se para sempre, se apenas até Setembro, dir-nos-emos adeus. Não como o do poema, embora tu desses um poema que nunca escrevi e que nunca te daria num cartão. Entre nós não há mãos que cheguem - o artifício não me cai. Não esquecerei o momento breve em que tas guardei nas minhas, só para vermos temperaturas. E quem diz mãos diz olhos, risos, palavras. Chega o momento do adeus a passos largos - adeus simbólico, porque já o dissemos há muito. E pois que terminamos. O que se diz a quem se ama sem se poder falar do amor por proibição?


09-06-09


*****

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, Poesia

terça-feira, junho 02, 2009

Forma Breve 6

Acabo de receber o meu exemplar da revista. E uma carrada de separatas. O meu artigo é pequeno, fofinho, sobre o Mia. Um trabalho de seminário do mestrado para o professor Alberto Carvalho. Pode ler-se lá: «"O Embondeiro que sonhava pássaros", de Mia Couto: descrição de uma poeticidade». Não é o meu primeiro artigo divulgado (a minha carreira longa e extensa inclui congressos, colóquios e artigos on-line - sim, claro, pode ver-se a lista ao lado), mas é o primeiro impresso, para já, e isso faz a diferença.

sábado, maio 30, 2009

desafio em maio


E continua o desafio, que, apesar do ritmo ter abrandado, não parece, ainda, comprometido. 55 livros em 5 meses, é bom. Cedi finalmente a ler o Equador, segui para crónicas, por causa da vinda do Ricardo Araújo Pereira ao colégio e por causa de outros à espera, poesia porque não pode faltar, sendo o Saúl Dias um presente de aniversário, e o Sem Sangue porque tinha de ler alguma coisa no autocarro, esquecera-me de trazer um livro e aquele saía com a revista «Sábado» nesse fim-de-semana. Seguem-se Saramago e Luísa Dacosta, entre outros.

48. Equador, Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, 528p.****
49. Poemas Escolhidos (1990-2007), Fernando Pinto do Amaral, Visão, 112p.***
50. «Ficções 8», dir. de Luísa Costa Gomes, 166p.*****
51. Pif-Paf, Millôr Fernandes, O Independente, 190p.*****
52. Coração Acordeão, Alexandre O'Neill, O Independente, 190p.****
53. Boca do Inferno, Ricardo Araújo Pereira, Tinta da China, 296p.*****
54. Sem Sangue, Alessandro Baricco, Sábado, 158p.***
55. Tarde Azul, Júlio Saúl Dias, Bonecos Rebeldes, 186p.****

Outras sugestões:

Filmes:
O Leitor, de Stephen Daldry, com Kate Winslet, David Kross, Ralph Fiennes*****
Mamma Mia!, de Phyllida Lloyd, com Meryl Streep, Colin Firth****
Frost/Nixon, de Ron Howard, com Frank Langella, Michael Sheen, Kevin Bacon*****
Número 23, de Joel Schumacher, com Jim Carrey**

Festas para o último fim-de-semana de Maio:
Mercado Romano em Braga
Festa de Serralves
Feira do Livro do Porto
Feira dos Minerais na FCUP

quinta-feira, maio 28, 2009

O livro dos dias (breve selecção de Maio - e final)

Desisti do projecto. Por falta de ser. Enfim...

1. Sabemos quase sempre que somos melhores do que os outros e piores do que gostaríamos de ser. Ou é ao contrário? Mas o que interessa ser, se não somos reconhecidos nisso pelos outros? Desisto - sou a desistência em consciência - mas só daqui a meses. Há que sobreviver até à data limite.
Depois virão tempos
ainda
piores.

2. É Ma É La é Ri é A: Malária! Viva a Malária! Vamos! Private jock sem piada nenhuma. Mas que nos fez rir como se fôssemos tolos. A desgraça da vida leva-nos a desejar Moçambique. Para acordar, para fugir, para viver. Ou morrer - pois ela está por lá!

5. Preciso que a minha cama seja mais do que eu.

6. Pequena visão da floresta
peito onde dorme a fera
coração (que vai dar no mesmo).

7. Propostas indecentes
RE: um pouco tarde para propostas indecentes. Talvez noutra altura. (eram já 23:50:16)

10. O coração é aquilo que queremos fazer dele, disse um aluno. E o meu coração apertado alargou-se de espanto. E achou-se sozinho, mas a pulsar. Tem dias.

A nossa música, Borboletras!



para além dos segredos que também os jardins são, sobre o amor e outros, e do amor que a amizade também é. o resto está escrito no caderno que podes ler amanhã. e nos gestos e nas palavras do quotidiano.

Obrigado. Sem ti, o jardim já seria apenas ruína...

«Run», ou o «mudar-me definitivamente»

Ouvi na rádio a versão nova. E lembrei-me da versão antiga. São diferentes, concedo. Mas ambas têm as suas virtudes. E tenho-as ouvido ultimamente, muito. Uma a seguir à outra. Só porque o fim se aproxima, a passos largos. Gosto em especial de «To think I might not see those eyes/Makes it so hard not to cry/And as we say our long goodbye/I nearly do».




terça-feira, maio 26, 2009

da existência

Ainda gostava de saber a razão de toda a gente me falar no msn só quando estou a ouvir músicas de Natal.

E dizem, normalmente, «isso já passou». Mas estamos em Maio e eu ouço. E não poderia ser «ainda falta muito»? Ou o tradicional «o Natal é quando um homem quiser»?

Não me apetece o Natal, nem nada, mas às vezes apetece-me outro tipo de música, diferente da do dia-a-dia, que traga a nostalgia e a alegria ao mesmo tempo. Acompanhada pelos meus berros, pois claro.

segunda-feira, maio 25, 2009

excertos de «O mundo não passa de mundo»

III. 7. O Grito

A poetisa veio ter connosco, convidando-nos para nos juntarmos ao grupo que lá dentro se ia formando no sofá e nas cadeiras dispostas em círculo para a ouvir. Foi nesse momento, de repente, que o grito ecoou pela praia e ressoou pela casa, como se estivéssemos a ouvir um búzio. Todos ouviram e traduziram em silêncio a espera por alguma reacção que se seguisse. Ao fundo da praia, perto do mar, a mulher que tinha passado por nós, vinha a correr, desvairada, chorando. Eu e a mulher do piano acordámos da letargia e descemos as escadas.

III. 8. Borboletras

Era uma vez um homem que escrevia apenas por fragmentos. Coisas pequenas, se bem que muitas vezes profundas, concisas. Há quem ache que as duas coisas estão intimamente ligadas, mas nem sempre. De qualquer modo, os seus escritos compunham-se de fragmentos: frases breves, às vezes não sendo mesmo frases gramaticais, no sentido estrito, ou apenas letras desenhadas pelo prazer de as escrever, sem significarem nada, mas eram sempre pequenas preciosidades, fruto do acaso, da vida, se bem que muitas vezes apenas da interior; escritos a qualquer momento do dia ou do sono, interrompido a custo para a escrita que se poderia perder na manhã seguinte se não acontecesse naquele momento; sobre tudo o que lhe interessava ou causava espécie.

III. 11. Manual de sobrevivência a um coração partido

Na deslocação, revi a minha comunicação sobre um livro medieval recentemente descoberto pelo meu professor numa biblioteca privada e em cuja edição eu estava envolvido. Um livro interessantíssimo sobre a forma de sobreviver a males de amor, em espécie de manual didáctico. Após várias entradas frescas ou mais conhecidas pelo vulgo, o autor anónimo deixava bem claro, no final: «As receitas que i poderam haver, seerá frol quem no mais tender, ca a seu golpe nom pode durar arma». E era sobre este final, de uma certa desesperança na resolução dos casos com a ajuda do próprio manual, que eu ia falar no congresso. Por experiência própria, pois então.

III. 13. O exílio

Doía-lhe aquela existência e não conseguia perceber como poderia sobreviver no seu próprio espaço, voltar a ser o que era. É que estando ela no seu lugar de sempre, como se poderia sentir em exílio? O exilado é aquele que está morto para a sua terra, em parte, pelo menos, e ela sentia-se assim, morta na sua terra, como que exilada antes desta ser sua e fosse apenas um reflexo e algo que nunca poderia realmente existir – a vida.

III. 15. Deus como romancista

Cá fora, vestiu o casaco rapidamente, e circulou, para não se deixar chorar. Mas chorou, a andar, como se fosse um mendigo sem casa – e era-o, naquele momento, sem a melhor casa da vida, a casa dos verdadeiros amigos que nos abrigam o mais importante: o gosto que têm de nós. E ele via-se assim, de repente, sozinho numa rua que não costumava frequentar, com casas que lhe pareciam vazias de vida, embora fossem bonitas. E, por fim, achou a entrada de uma casa onde se sentar e perder-se durante algum tempo. Nada do que se passou a seguir interessa a ninguém. Dos seus vinte e cinco anos de pouca experiência, o professor não sabia o que era perder um amigo de forma tão voluntária. Nem nunca saberia, de facto.

aniversário

Cansado.

Ofereceram-me uma televisão para eu não me deitar tão cedo, para me fazer companhia. Foi uma prenda de anos. Resmunguei, pois claro. E além dos boxers (tamanho acima, enfim), de um livro (poesia de Saúl Dias), de uma carta, um postal, dinheiro, bolos, Expiação com primos, mensagens e chamadas e beijos (que aproveito para agradecer), recebi, um pouco por todo o lado, um número novo na minha conta pessoal.

Agora tenho 26 anos e uma televisão no quarto de cá. Ontem liguei-a para ouvir falar de medos e morte, e para choramingar com a Izzy. Hoje, são quase nove horas, tenho 26 anos e estou pronto para ir dormir.

Ideias...

P.S - E não era esta a companhia de que eu precisava.

Adenda: ao menos já tenho resposta para aqueles questionários tão típicos, quando me perguntarem «Qual foi o pior presente que te ofereceram?» Escrevi coisas bem piores sobre o assunto no meu caderninho actual, mas é melhor não partilhar.

domingo, maio 10, 2009

um poema de Fernando Pinto do Amaral

para a Inês

Aprende o infinito, recupera
a distraída bússula da alma
pouco a pouco sonâmbula, o exausto
sabor da tua vida enquanto é mais
que um recado de lume no teu corpo,
que a promessa da febre no teu sangue,
e a prende sobretudo a suspender
o tempo quando abraça quem morreu
só pra ressuscitar dentro de ti
ao cumprir a memória incandescente
dos dias que o amor transforma em meses,
dos meses que o amor transforma em anos,
dos anos que o amor rasga e entrega
ao rosto azul do céu e destes versos.