segunda-feira, setembro 29, 2008

Sugestões de Setembro


Toda a gente me dizia: começas a dar aulas e acabam as tuas leituras fabulosas. Em parte é verdade: não li tanto, nem coisas tão grandes neste mês de início de carreira docente; mas li, o que não é mau, sem ser coisas para o Colégio. Aqui ficam, acompanhadas por outras sugestões:


Livros:

1 – A Bíblia (Cartas de São Paulo: Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Tessalonicenses, Timóteo, Tito, Filémon, Hebreus), Paulus***

argumentos: um conjunto de cartas potencialmente escritas todas por São Paulo onde estão muitos dos alicerces da Igreja: a resolução de casos práticos, do dia-a-dia, face à boa nova trazida por Cristo. Destaque para a misoginia. Vale a pena conhecer: «Somos amaldiçoados, e abençoamos; perseguidos, e suportamos; caluniados, e consolamos. Até hoje somos considerados como o lixo do mundo, o esterco do universo.» (1Cor 4, 12-13) ou «Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim.» (Gl 2, 20).


2 – O Cais das Merendas, Lídia Jorge, JL/Visão/D. Quixote**

argumentos: depois de livros tão bons como A Costa dos Murmúrios e O Belo Adormecido, e outros menos bons, mas ainda assim recomendáveis, como O Dia dos Prodígios e A Instrumentalina e Outros Contos, este livro surpreendeu-me pela negativa. Cansei-me de mais com as conversas e acções de um grupo de gentes que faz as suas merendas, depois serões, depois parties, depois outros nomes. Vê-se uma nítida crítica ao crescimento desmesurado do turismo algarvio, mas enquanto obra estética, e apesar das experiências e algumas ousadias, o livro não me convenceu. Mas com alguns momentos interessantes, como: «Para falar de Rosário deveríamos inventar um nome que se chamasse orassàp, se fosse possível, porque ela quis voar ao contrário dos passarinhos quando estão assustados pelo bater das palmas.» (p.71); ou «Na praia a claridade era tão intensa e tudo tão despido que qualquer santo quereria ser violado mesmo depois da colonização.»(p.127); e a terminar, uma frase que achei muito bonita: «um ar de estátua pousada no dorso da melancolia»p.24.


3 – O Circo da Onça Malhada – Iniciação à Obra de Ariano Suassuna, Carlos Newton Júnior, ArteLivro***

argumentos: um livro que a Aldinida, apaixonada por Ariano Suassuna, me emprestou para ler, para ver se eu me apressava a ler a sua obra. Este livro em específico fala da vida e obra, por vezes interligadas. E fiquei com vontade de ler Cantam as Harpas de Sião – agora com o título de O Desertor da Princesa - , o Auto da Compadecida e O Romance d’A Pedra do Reino (e companhia). Um dia será!


4 – O Retrato do Sr. W. H., Oscar Wilde, Quasi***

argumentos: um daqueles livrinhos que o DN ofereceu este verão. Pequeno, portanto, mas denso e interessante. Nele, ensaia-se a possibilidade de a dedicatória dos Sonetos de Shakespeare ser feita a um jovem e belíssimo actor. Vale a pena conhecer: «A arte, mesmo a de maior alcance e mais ampla visão, nunca nos mostra o mundo exterior. Tudo o que nos mostra é a nossa própria alma, o único mundo que realmente conhecemos. E a alma em si, a alma de cada um, é para nós próprios um mistério. Esconde-se na obscuridade, a meditar, e a consciência não é capaz de nos revelar os seus planos. A consciência, na verdade, é bastante desadequada para explicar o conteúdo da personalidade. É a arte, e apenas a arte, que nos revela a nós próprios.»(p.82).


5 – Cartas a Um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke, Quasi****

argumentos: um livro já clássico na literatura mundial, também ele grátis com o DN. As cartas que Rilke escreveu a um aspirante a poeta e que nos mostram a sua concepção de poesia, de escritor, de homem. Lê-se rápido e com interesse. Mais: «pois no fundo, e sobretudo nas coisas mais profundas e importantes, estamos indizivelmente sós.»(p.19); «não se deve ter medo quando diante de si se levanta uma tristeza tão grande como nunca viu»(p.75) e «Ser artista é não calcular e não contar, é amadurecer como a árvore, que não comanda a seiva e que enfrenta tranquila as tempestades da Primavera sem recear que o Verão chegue. O Verão chegará.»(p.28).


6 – Astérix e Cleópatra, R. Goscinny e A. Uderzo, Meribérica/Liber****

argumentos: ao dar a BD ao oitavo ano, lembrei-me que não tinha álbuns nenhuns e lá comprei este. Porque gosto de Astérix e Obélix, porque são educativos, e este em especial porque vi o filme e adorei. E a BD é também muito boa: a construção do palácio em três meses, para Cleópatra provar a César que o Egipto ainda era grande, cheia de aventuras e muito humor. Destaque para o nariz de Cleópatra que é «muito, muito belo».


7 - Histórias de coisa nenhuma – e outras pequenas insignificâncias, Augusto Baptista, Campo das Letras****

argumentos: um livro como aqueles que eu mais gosto: histórias brevíssimas, coisas entre o conto, poesia e até anedota. Com muito bom gosto, com reflexões sobre a língua. Exemplos breves: «Depois de anos de namoro, receoso, foi pedir a mão da namorada. O futuro sogro ouviu. Hesitou. Por fim, acedeu. Mas doeu-lhe, doeu-lhe muito ver a fila maneta.»(p.14); «A morte é um facto horizontal.»(p.75) e «Extraordinário como depois de já tanta gente ter morrido ainda persistam dúvidas sobre a morte.»(p.76).


TV:

Jane Eyre (Dois)****

argumentos: uma grande série de época, baseada no livro de Charlotte Brontë. A passar na Dois:, em dois episódios às segundas. Gostei muito da primeira parte, dá hoje a segunda. E o melhor: dá vontade de ir ler a seguir o livro! Sitio sobre a série aqui. Com Ruth Wilson, Toby Stephens e Francesca Annis, entre outros.


Música:

OneRepublic, Dreaming Out Loud*****

argumentos: um álbum suave, para ouvir com calma, embora também tenha os seus ritmos. Além da mundialmente conhecidíssima «Apologize» (duas versões, eu prefiro a versão sem Timbeland, mais natural e violinista), e do outro sucesso, que é das minhas favoritas, «Stop and Stare», destaque merecido ainda para «Mercy», «Say», «All fall down», «Prodigal», «Wont Stop», «All we are», «Home» entre outras, todas muito boas. Destaque ainda para «Mercy» - na versão do álbum que por aí corre (edição tour) com quatro músicas ao vivo, assim meio acústicas e muito interessantes - mas atenção, a «Mercy» da Duffy que, aqui, está muito melhor! Grandes arranjos, boas letras, boas canções, grande voz e interpretações de Ryan Tedder. Assim estão entre Keane, Snow Patrol, Coldplay ou The Fray - alguns dos meus grupos masculinos favoritos...

Cinema:

O Efeito Borboleta 2***, de John R. Leonetti – gostei bastante do primeiro, gostei do segundo. Com Eric Levely a fazer através de imagens o que fazia Ashton Kutcher no primeiro filme com os seus diários: voltar atrás num determinado ponto da vida e mudá-la, totalmente – até aos pormenores mais incríveis.
Super Heróis*, de Craig Mazin – apesar de gostar deste tipo de filmes parvos, só para rir, neste não encontrei nada digno de registo…
Antes Que o Diabo Saiba que Você Está Morto*, de Sidney Lumet – ia tendo um enfarte de tanta pasmaceira… Apesar de um elenco bom (Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Marisa Tomei), é demasiado mau…


Outros acontecimentos: um mês com muitos falecimentos (ver posts anteriores + a morte de Paul Newman. Homenagem aqui).

quinta-feira, setembro 25, 2008

Vera Vouga

Diz-me a Natacha num comentário ao post anterior que morreu uma das professoras na nossa faculdade de letras do porto, depois do Américo Santos (com minúsculas propositadamente). Investigo mais. É verdade, claro, mas para ver se há muito eco do assunto: há algum, mas eu não sabia.

Vera Vouga não foi minha professora, mas foi de colegas e amigos que falavam dela, de vez em quando. E de como ela trabalhava os textos, a poesia. E era impossível não reparar nela nos corredores. Lembro-me sobretudo de uma noite de poesia, organizada pela AEFLUP, na qual leu alguns poemas de Daniel Faria. E gostei.

Escreveu sobretudo sobre poesia: António Nobre, Rui Costa, Boémia Nova e Os Insubmissos, Eugénio de Castro, do qual publicou obras na colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. Escreveu sobre, organizou o volume da poesia completa e ajudou a divulgar a obra de Daniel Faria, de quem foi professora. Mais informações sobre a sua carreira aqui.


Sobre ela, escreveu Jorge Reis-Sá um breve, mas notável, post.

Deixo eu também, como nos comentários que vi por aí, um poema de Daniel Faria. Já o coloquei aqui uma vez, fica novamente:

Explicação da Ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Dias de Melo, 1925/2008

José Dias de Melo: açoriano, professor primário, colaborador assíduo da imprensa regional e nacional e um profundo conhecedor da temática baleeira e da emigração. Além de tudo isto, escritor, iniciado nos anos 50 do século passado, com um livro de poesia intitulado Toadas do Mar e da Terra, a que se seguiram outros, com destaque para o seu maior sucesso Pedras Negras, que foi publicado, pela primeira vez, em 1964.

"O escritor açoriano Cristóvão de Aguiar afirmou à Lusa que Dias de Melo «ficará para a posteridade como um símbolo do homem do mar». «É um escritor baleeiro que deu um retrato real da vida do baleeiro. Aliás, ele próprio tinha essa experiência, chegou a ser baleeiro», lembrou.
«Dias de Melo marca, sem dúvida, a literatura portuguesa de significação açoriana», observou Cristóvão de Aguiar, que destacou na obra do escritor agora falecido a trilogia Pedras Negras, Mar Rubro e Mar P'la Proa e o livro de contos Milhas contadas." (a partir daqui, mais informações aqui).

Dele tenho, em lista de espera, o livro Tempos Últimos, da editora Salamandra.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Gatinho à descoberta

(fotos de um dos filhos da Kika, gata da Consti, nos livros dela)

«Ah, como é triste morrer quando há tantos livros que ainda li!»

M. Menendez y Pelayo


«O livro: amigo dos seus amigos, confidente e confessor, companheiro das insónias, recreio na solidão.»

S. J. Alvarez


«Tudo no mundo é feito para acabar por converter-se num livro.»

Stéphane Mallarmé


«O universo é um imenso livro»

Mohydin Ibn-Arabi

domingo, setembro 07, 2008

Fragmentos de contos do Vazio Repetido

Já há muito tempo que ponho aqui nenhum conto. Ou porque são muito grandes para um blogue ou porque não são assim tão grande coisa... Mas tenho cumprido religiosamente o meu compromisso de escrever um conto por semana (bom, às vezes atraso-me outras adianto-me, como agora, que tenho dois a mais;) o que é muito bom). Mas agora deu-me para pôr aqui uns fragmentos de alguns, só porque sim.


II. 21. A consistência dos sonhos
:
«Pegou na carteirinha amarela que dizia: «Um dia paro de esperar. Hoje é o dia». Despediu-se até ao dia seguinte e desceu a escadaria ladeada de estátuas. Não tomou o café. Correu para o autocarro que ali vinha e que esperou um pouco por ele. Tinha decidido, entretanto, que não esperava mais. Os sonhos não se compadecem de quem só espera. Há quem alcance, há quem desespere, há quem procure. E entrou, agradecendo ao condutor, enquanto a chuva recrudescia e o palácio ia ficando para trás.»


II. 24. O dia que não amanheceu:
«Tentei pegar no telemóvel para telefonar à Maria, para ver se ela me acordava com o telemóvel, mas não consegui, porque entretanto estava a ligar de olhos fechados e foi para outro número. Não sei se desliguei, se cheguei mesmo a marcar… Tentei berrar, porque ganhei a consciência de que mais alguém estava em casa. Era a Sandra, que estava a dormir no outro quarto. Ao berrar, acordei, e ouvi a Sandra dizer, Rápido, saiam todos que ele está a acordar. Olhei para o corredor e vi umas vinte pessoas saírem pela janela do quarto, para que eu não desse conta.»


II. 26. Teias de aranha:
«Entretanto, o senhor Eugénio foi-me chamando muitas vezes, não para o ver sobre questões de saúde, mas para me mostrar outras invenções em que se entretinha. Em poucos anos mostrou-me um conjunto admirável de descobertas próprias que ele mostrava inicialmente com orgulho, depois com relutância, depois com desespero. É que ao longo do tempo que me foi mostrando as suas invenções, eu fui-lhe explicando que aquelas coisas já existiam, inventadas por outros, antes, e que muita gente as tinha em casa, a seu uso diário. Desfilaram então pelos meus olhos a torradeira, que ele apresentava como a máquina de aquecer deliciosamente o pão, obrigando-me a provar uma fatia torrada lá com manteiga, e que nada tinha de excepcional em relação ao excepcional sabor do pão torrado na mais corriqueira torradeira; a campainha para pessoas que eram enterradas vivas por engano, que felizmente não me fez experimentar, respeitando a minha claustrofobia; um modo de gravar vozes em fitas que quase todo o mundo conhecia como cassetes mas que para o senhor Eugénio era novidade sua, exclusiva e radical. Aconselhei-o então, ao ver o seu desânimo, mas também o seu talento como inventor de diversas coisas, de diversos domínios, a deixar a sua casa torre de marfim onde se fechava, e a percorrer o mundo para ver o que já existia e o que ainda faltava. E assim partiu uns dias depois.»


II. 28. Sinais/Signos:
«Os funerais aqui ainda são antecedidos pelos sinais, toques específicos do sino da igreja. Durante muito tempo, sempre que tocavam os sinais, uma grande parte das pessoas da aldeia pensavam «Lá foi o António, coitado. Deus o tenha na Sua glória.». Mas não, o António continuava a resistir à doença que o roía por dentro há anos, contra todas as expectativas dos médicos. De tal maneira era assim que, a dada altura, o próprio António pensava que chegara a sua vez quando ouvia os sinais, sem se aperceber que ainda estava vivo e que se fosse por causa dele que tocavam os sinais ele não saberia, pois não os ouviria. Ou antes, era assim que eu pensava. Mas entretanto descobriu que as coisas são bem diferentes quando morreu e ouviu os sinais e soube que eram sobre si. E ouviu os pensamentos das pessoas que foram ao seu funeral.»


II. 30. O suave milagre de Tormes:
«Ninguém tem dificuldade em encontrar, pelo menos, o espaço bíblico no conto, as referências, enfim, toda uma construção a partir de Renan e della Gatina, também presente em «A Morte de Jesus» e em A Relíquia. Mas enfim, encontrar o tom bíblico na linguagem e sua instrumentalização, como ele dizia, era um pouco mais… forçado. Mas ele lá foi demonstrando a sua ideia. Acredite, levou provas a que chamou irrefutáveis de que Eça plagiara manuscritos meio secretos, meio perdidos, que teria adquirido, talvez, na sua ida à Terra Santa, ao Egipto e afins, aquando da inauguração do canal do Suez. Era uma tese ridícula, na minha opinião. Ele explorou-a muito, perante a minha incredulidade e indiferença dos restantes cursantes, cheios de sono àquelas horas da tarde de calor após refastelado almoço. Depois, não satisfeito, comparou com «A Perfeição», claramente, obviamente – diria eu – feita a partir de A Odisseia do bom velho e sonolento Homero, mas muito diferente dela. E quem faz uma assim, faz mais. Então, «O Suave Milagre», em todas as suas versões, não era mais do que isto: uma tradução, mais ou menos literal a que se seguiram as adaptações mais ao estilo do autor. Estava lá tudo, segundo ele. Só lhe faltava encontrar o manuscrito que Eça usara.»


II. 34. Para além das amoras:
«Mas C. era perspicaz e era de facto superior a todos naquela casa. A sua formação em literatura e as leituras que fez por dedicação e por prazer tinham-lhe dado uma enciclopédia interior que fazia com que soubesse portar-se em todas as situações, observando e vivendo ao mesmo tempo, antecipando sem esquecer, lembrando sem deixar de adivinhar as reacções. E depois havia o seu ar estudadamente indiferente que com o tempo se tornou natural em si, sem esforço. Pensava muitas vezes que aquilo que somos é fruto de coisas que fazemos uma, duas, três - as vezes suficientes para que se tornem rotina, e por isso, sem esforço, sem pensamento envolvido. Duvidava por isso de quem era realmente, do que era, do quanto haveria em si de construção que ela não deveria ter escolhido para si, pensando no entanto que era impossível saber que construções eram as indicadas ou não, todas elas passíveis de ser totalmente mudadas na sua construção… bastava, por exemplo, ela ter escolhido um curso diferente, ou em vez de se deixar maravilhar pelos livros se tivesse entusiasmado por bordados e vestidos – ou só por isto, como a maior parte das amigas que lhe queriam imputar, filhas de famílias de amigas de bem, vizinhas ou não, que vinham sempre às festas que a família teimava em organizar com alguma frequência e cuja organização, desta vez, deixaram para C., que já tinha idade para isso…»


II. 35. Fragmentos do funeral:
(do fragmento 11) «O amigo admirou-se, primeiro pela fraqueza que tomara o exilado em relacionar-se novamente com o outro, depois pela força em fazer o que fez, no meio do acto sexual. Admirou-o mais por isso e pelas palavras que ele sabia que eram sérias e que funcionariam para o exilado, embora nunca pudesse ser assim com ele.
- Fiz hoje o funeral dele.
Estas cinco palavras simples, talvez todas menos «funeral», ressoaram nos ouvidos de ambos como um acto real e consumado. E estava: era a tal palavra ontológica em que ele tanto acreditava e que por isso mesmo funcionava para ele. Naquela tarde o exilado fizera o funeral mental, sentimental do não exilado. Para sempre. Imaginou todos os passos de um funeral real, mas em que quem ia a enterrar era o seu sentimento pelo outro no mais recôndito de si. Nos dias seguintes andava pela casa como se nada tivesse acontecido.»


Bem, depois dos excertos todos isto ficou muito grande... se calhar era melhor um conto inteiro, mas ficam aqui estas pérolas da minha mente literária fértil... E parece-me que vou já escrever o conto número 38...

sábado, setembro 06, 2008

Luciana Stegagno Picchio 1920/2008

Homenagem atrasada, por desconhecença do sucedido. Morreu a 28 de Agosto, em Roma. Uma mulher italiana que se dedicou também às letras portuguesas: a sua obra e o seu magistério são uma referência obrigatória para os estudiosos de áreas como: filologia, literatura medieval, história do teatro português e literatura brasileira. Publicou, por exemplo: A lição do Texto (Lisboa, 1979) La méthode philologique com prefácio de R. Jakobson (Paris, 1982), La littérature brésilienne (Paris, «Que sais-je?», 1982 e 1996, trad. portuguesa e francesa) e La letteratura brasiliana (Florença-Milão, 1972, trad. romena, Bucareste, 1986), Storia della letteratura brasiliana (Turim, 1997; ed. brasileira, História da literatura brasileira, Rio, 1997). Publicou edições críticas de obras de Martin Moya (Le poesie, 1969), João de Barros (Diálogo em louvor da nossa linguagem, 1959), Gil Vicente (Pranto de Maria Parda,1963), Murilo Mendes (Poesia completa e prosa, 1994). Escreveu diversos ensaios sobre literatura de viagens, e sobre os modernismos português e brasileiro.

adaptado daqui.


Há vários artigos disponíveis na internet. Fica a ligação para um sobre Saramago, o que escritor que mais tempo me terá "ocupado" este ano, até mais do que o Arlindo Barbeitos...

em jeito de coisa

Trabalhar tem que se lhe diga, sobretudo quando se tem de arranjar nova casa, conhecer nova cidade (que se conhece só como turista), novas gentes, novas actividades... Vou ser professor a sério, finalmente, apesar do que eu dizia há uns meses aqui... Surgiu a oportunidade de experimentar a sério, e eu aceitei interiormente e lutei pelo lugar. Braga nunca mais será a mesma!


Saiu o meu primeiro artigo impresso! É um trabalho de mestrado sobre Pepetela, o primeiro que fiz. Revi, emendei e lá enviei. Foi publicado (e apesar de estranhamente terem feito um segundo parágrafo no meu texto onde ele não existia... vou ver se ainda resolvo isso, fiquei contente). Podem vê-lo aqui, onde também está um da Carla sobre Germando Almeida. Na barra aqui do lado têm o link do artigo na secção «Onde me podem ler - se não tiverem mais nada para fazer».


E vou ver como estão os três romances (O Fiel Jardineiro, Os Versículos Satânicos e Mau Tempo no Canal) que ontem se molharam na chuvada entre o meu apartamento e a estação de comboio de Braga... porca miséria!

domingo, agosto 31, 2008

Sugestões de Agosto


Mês de fim de festa. Assim mesmo, da festa da irresponsabilidade e do protelar até à última – tem corrido sempre bem, até agora. Menos coisas este mês, pela vida exterior que tive o prazer de desenvolver. Mas ainda assim, tempo para tudo – afinal o problema não é o tempo mas aquilo que fazemos dele. E eu fiz isto, entre outras coisas:

Livros:

1 – A Bíblia (Actos dos Apóstolos), Paulus***

argumentos: o seguimento dos evangelhos, mais concretamente do de Lucas, é o relato das viagens e palavras (=actos) dos discípulos de Jesus, animados pelo Espírito Santo que os ajuda e incita a espalhar a mensagem de Jesus pelo mundo. Focos em Pedro e, depois, em Paulo.


2 – Prosas Bárbaras, Eça de Queirós, Lello & Irmão****

argumentos: continuação do amigo Eça. Desta vez um livro que resulta de uma série de textos primeiros que Eça publicou, de nítida estética romântica, sobre arte, amor, vida: «Esta história é de há seiscentos anos – e de ontem à noite…»(p.55). Alguns aproximam-se do conto, outros da crónica, outros da carta. Mais: «É na natureza que se deve procurar a religião: não é nas hóstias místicas que anda o corpo de Jesus – é nas flores das laranjeiras.»(p.104).


3 – Ariel, Sylvia Plath, Relógio D’Água***

argumentos: conjunto de poemas de uma grande escritora norte-americana, talvez mais conhecida pela sua vida com fim trágico do que pela obra – mas vale a pena! Densa, difícil – pode ser que sim, mas tudo o é, quando se aprofundam sentidos. Dela postei aqui. Esta edição tem a vantagem de ser bilingue.


4 – Cartas de Aniversário, Ted Hughes, Relógio D’Água***

argumentos: conjunto de poemas-cartas dirigidas quase exclusivamente a Sylvia Plath, com quem foi casado. Obra e vida fundem-se sem limites bem-definidos. Tem textos muito interessantes, dos quais postei um aqui. Mais: «Não nos apercebemos/que os narcisos são um/fugaz vislumbre da eternidade.»(p.217).


5 – Se Isto É um Homem, Primo Levi, Público/Mil Folhas*****

argumentos: a obra extraordinária de um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocausto. Mas não é mais um simples relato do Holocausto; é um acto de fé na natureza humana. Difícil de ler pelo choque que provoca, mas impossível de deixar. Mais: «Muitas coisas então foram ditas e feitas entre nós; mas é bom que delas não se guarde memória»(p.13); «Então pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem.»(p.24); «As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem»(p.135).


6 – O Deus das Moscas, William Golding, Público/Mil Folhas*****

argumentos: um romance do pós-guerra marcado pela actualidade dos temas. O motivo central é o mal, em estado puro, que se apodera das crianças perdidas numa ilha desconhecida - mas que também pode ser a história da condição humana. Com um tom aparentemente ligeiro, que se adensa com o evoluir da permanência da ilha e os contactos uns com os outros. Duro, enigmático, extraordinário. Mais: «Rafael chora o fim da inocência, o negrume do coração do homem e a queda pelo ar daquele verdadeiro e sensato amigo que se chamava o Bucha»(p.222).


7 - Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio, INCM****

argumentos: ainda não terminei o livro mas gosto muito. A história de várias famílias nos Açores no início do século XX, centrada sobretudo numa personagem feminina chamada Margarida, descrita pelo narrador e pelas personagens de uma forma que a enche de particularidades especiais («encheu a testa de uma reticência triste»(p.66)). Mais: «O amor não queria confissões explicadas no vão de uma janela, nem alegorias literárias de um querer-bem concebido como matéria de um mito, ligado à rocha das ilhas e às noites de mau tempo no Canal.»(p.152). Muito interessante, com um prefácio de José Martins Garcia.


TV:

Os amigos de Brian (RTP2)****

argumentos: em repetição, nas tardes da Dois. Não vi quando deu à noite, mas estou a ver agora. E gosto bastante pelas histórias cruzadas de um grupo de amigos, seus problemas quotidianos e existenciais. Não admira que haja problemas por causa de Marjorie (Sarah Lancaster)– a jovem fantástica que por lá anda e que o italiano (Raoul Bova) se tenha casado com uma mulher mais velha – extraordinária (Rosanna Arquette). Pena que o italiano tenha morrido, até porque era das minhas personagens favoritas na série… Mas recomenda-se! Ainda com Barry Watson, Matthew Davis, Rick Gomez, Amanda Detmer, entre outros.

Foi o mês de Agosto de um ano olímpico – já se imagina o que andei a ver. Daqui a quatro anos há mais!


Música:

Deolinda, A Canção Ao Lado*****

argumentos: sobre os Deolinda já falei aqui. Mais não posso dizer, se não que são muito bons e que tenho ouvido muito, sobretudo «Eu tenho um melro» e «Movimento Perpétuo Associativo». A música portuguesa em grande!


Cinema:

Os Seis Sinais da Luz, de David L. Cunningham (filmes onde o fantástico domina conquistam-me facilmente. Gostei também deste, simples e interessante)****
A Time To Kill, de Joel Schumacher (apesar do mundinho dos advogados e tal, intenso)****
A Rainha das Andorinhas (animação Japonesa com desenhos bonitos e uma historinha com moral fácil, mas tão bonito!)****
A Chave Mestra, de Iain Softley (filme de terror sem monstros e sem sangue! Assim já vale mais a pena!) ***
La messa è finita, de Nanni Moretti (ele é doido, mas bom)***
Palombella Rossa, de Nanni Moretti (idem, ibidem)***
A Múmia 3 - a tumba do imperador dragão, de Rob Cohen (sem Rachel Weisz não é a mesma coisa. Mas é mau não apenas por isso…)**
Uma Noite no Museu, de Shawn Levy (Ben Stiller e uma cambada de personagens históricas em contacto. Gostei, no geral) ***
Casino Royale, de Martin Campbell (por favor…)**
Morte num Funeral, de Frank Oz (uma comédia inteligente)****
Bee Movie, de (adoro filmes de animação bem feitos)*****
The Mist, de Frank Darabont (se não tivesse monstrinhos visíveis seria bem mais interessante, e aquele final…)****
(alguns dos filmes em dvd com tradução em Português do Brasil...)

segunda-feira, agosto 18, 2008

1 poema de Ted Hughes

Chaucer

«Quando Abril com suaves aguaceiros
sacia a sede de Março até às raízes...»
Com a tua voz no seu tom mais elevado, balançando no cimo de um escadote,
braços erguidos - para te equilibrares e
segurares as rédeas da esforçada atenção
daquela tua audiência imaginária - declamaste Chaucer
para um campo com vacas. E o céu da Primavera fez o resto,
com a roupa lavada a escoaçar, o verde-esmeralda
dos espinheiros, o espinheiro branco, o espinheiro negro,
tu com um daqueles copos de champanhe
a que tinhas deitado a mão na arrebatação do momento.
A tua voz voou pelos campos até Grantchester.
Deve ter soado a perdida. Mas as vacas
olharam, e aproximaram-se logo: elas apreciavam Chaucer.
E tu continuaste. Havia razões
para recitar Chaucer. Seguiu-se uma divertida Mulher de Bath,
a tua personagem favorita de toda a literatura.
Estavas arrebatada. E as vacas fascinadas.
Empurravam-se e roçavam-se, faziam um círculo
para contemplar o teu rosto, dando alguns bramidos ocasionais
de exclamação, para avivar a sua assombrosa capacidade de atenção,
de ouvidos à escuta para apanhar todas as inflexões,
à respeitosa distância de dois metros.
Tu simplesmente não conseguias parar. Que podia acontecer
se resolvesses parar. Seriam capazes de te atacar,
assustadas com o choque do silêncio, ou só porque queriam mais? -
E por isso tiveste de continuar. E continuaste -
vinte vacas ficaram contigo, hipotizadas.
Como é que conseguiste parar? Não me lembro
De teres parado. Imagino que se foram embora cambaleando -
a revirar os olhos, como que atraídas pelo cheiro da erva.
Imagino que as devo ter enxotado. Mas
a tua interpretação de Chaucer em sustenido
já era eterna. Aquilo que se seguiu
encontrou a minha atenção demasiado ocupada
e teve de regressar ao esquecimento.



Ted Hughes, Cartas de Aniversário, tradução de Manuel Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2000, p.111



Cena do momento em que Sylvia Plath declama Chaucer para uma audiência constituída por Ted Hughes e vacas, no filme Sylvia de Christine Jeffs, com Gwyneth Paltrow e Daniel Craig (2003).

3 poemas de Sylvia Plath


Papoilas de Julho

Pequena papolias, pequenas chamas do inferno,
Vocês não fazem mal?

E tremeluzem. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos entre as chamas. Nada queima.

E fico exausta ao olhar-vos
A tremeluzir assim, pregueadas e de um vermelho vivo, como a pele de uma boca.

Uma boca que acabou de sangrar.
Pequenas bainhas ensanguentadas!

Há fumos que não posso tocar.
Onde estão o vosso ópio, essas cápsulas que dão náuseas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue, ou dormir!
Se minha boca pudesse casar com uma ferida assim!

Ou se os vossos venenos pudessem penetrar em mim, nessa cápsula de vidro,
Para me entorpecer e inquietarem.
Mas sem cor. Sem cor alguma.

***
A chegada da gaiola das abelhas

Encomendei isto, esta gaiola de madeira limpa
Quadrada como uma cadeira e quase tão pesada para se poder levantar.
Diria que era o caixão de um anão
Ou se um bebé quadrado
Se não tivesse lá dentro tal clamor.

A caixa está fechada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela
E não me posso afastar dela.
Como não tem janelas, não posso ver o que está lá dentro.
Há só uma pequena rede, sem saída.

Encosto os olhos à rede.
Está escuro, escuro.
Dá a sensação de um formigueiro de mãos africanas
Reduzidas e apertadas para exportação,
O preto sobre o preto, a trepar furiosamente.

Como é que as vou deixar sair?
Assusta-me o barulho mais que tudo,
As sílabas ininteligíveis.
É como a plebe de Roma,
Gente pequena, vistos um a um, mas juntos, meu Deus!

Dou ouvidos a este latim em fúria.
Não sou um César.
Apenas encomendei uma caixa de doidas.
Podem ser devolvidas.
Podem morrer, não tenho de as alimentar, sou a dona.

Pergunto-me se terão muita fome.
Pergunto-me se me esqueceriam
Se eu abrisse a fechadura e ficasse parada e me transformasse em árvore.
Como o laburno, em suas colunatas de oiro,
Ou a cerejeira com seus saiotes.

Talvez me ignorassem de imediato
Vestida com o meu traje lunar e o véu de luto.
Não sou fonte de mel
Por que razão se haviam de voltar contra mim?
Amanhã vou fazer de bom Deus, vou libertá-las.

A caixa é apenas temporária.

Sylvia Plath, Ariel, tradução de Maria Fernanda Borges, Lisboa: Relógio d’Água, 1996, p.165, 127.

*****
Colher amoras

Ninguém nas veredas e nada, nada além das amoras,
Amoras de ambos os lados, embora mais à direita
Uma aléia de amoras descendo em curva e um mar
Se alçando lá no fim. Amoras
Grandes como o meu polegar e a silenciar como olhos
De ébano nas sebes, gordas
De sumo azul-vermelho. O sumo esbanjam entre meus dedos.
Eu não pedira esta fraternidade de sangue: — elas na certa me amam.
E se acomodam em meu jarro, achatando-se os lados.

No alto, as gralhas negras, revoada cacofónica
— Pedaços de papel queimado girando num céu a pleno.
É delas a única voz protestando, protestando...
Acho que o mar não aparecera.
As campinas altas e verdes resplandecem como acesas por dentro.
Chego a um arbusto cheio de amoras tão maduras que o arbusto é de moscas
Pendentes, suas barrigas verde-azuladas e os vitrais das asas numa tela chinesa.
A festa de mel das amoras alvoroçou-as. Elas acreditam no céu.
Uma curva mais: amoras e arbustos terminam.

Tudo o que vem agora é o mar.
De entre dois morros uma súbita brisa se afunila em direção a mim
E me esbofeteia a face.
Esses montes são muito verdes e doces para quem provou sal.
Entre eles, sigo a trilha das ovelhas. Numa última curva
Alcanço a face norte dos montes, cor de laranja e rocha
E a face olha para nada, nada exceto um grande espaço
De luzes brancas metálicas; nada exceto um ruído de ferramentas sobre a prata,
Os golpes e golpes contra um metal intratável.

Lido aqui. http://br.geocities.com/edterranova/sylviap3.htm

domingo, agosto 17, 2008

Deolinda e enfins

Sábado. Eu, a minha irmã e a minha priminha em direcção a Vila Real para ver e ouvir os Deolinda no teatro. Estive todo o dia a ouvir com atenção o álbum (lá conseguiu abrir excepção à banda sonora do Expiação). Muito bom, divertido, fresco, com qualidade. Original - arriscaria. E queria ouvir e ver os Deolinda cantar as minhas favoritas, «Movimento Perpétuo Associativo», «Fado Toninho» e «Fon fon fon», «Eu tenho um melro», entre outras como «Contado ninguém acredita», «Canção ao lado», «Garçonete da casa de fado» (que se pode ouvir aqui). Mas como choveu de manhã, a organização teve medo de fazer o concerto no auditório exterior e meteu tudo no interior. O teatro encheu e já não tivemos bilhete. Rumámos então à Régua para ver o fogo de artifício da festa da Senhora do Socorro (segunda noite de fogo), e conversar com a Joana. A noite acabou com duas tererés (não em mim, claro) e gelados daqueles feitos na hora de morango e baunilha...


Entretanto um artigo meu vai ser publicado - será o primeiro, sobre Pepetela, numa revista brasileira. Seguem-se outros, que isto agora ninguém me pára...
Apenas me pára a mousse de chocolate branco com pepitas de chocolate de leite que me espera daqui a pouco ;)

segunda-feira, agosto 04, 2008

Tormes 2008


Voltar a Tormes foi reencontrar os espaços de dois anos seguidos, com um de intervalo para este. e reencontrar as pesoas e as memórias - das que lá se reviram e das que se encontram noutros espaços, com outras pessoas.

20 de julho - fui cedo para a Ermida. Na estação conheci o Muamba (Angola, Univ. de Lisboa) e ao chegar ao meu quarto deste ano (piso de baixo da Casa do Túnel) conheci o Fábio (Brasil, Univ. de Évora), com quem partilhei o espaço. Um quarto com duas camas, vista para a linha de comboio e para a casa principal da Quinta. Conversei muito com o Fábio, na esplanada, sobre literatura, sobretudo, e também sobre Florbela Espanca (objecto da dissertação dele - e eu, para espicaçar e ser do contra - dizia que ela não era propriamente literatura, mas enfim). Ao jantar foram-se conhecendo mais pessoas, muitas. E no dia seguinte, outras: o Manuel, que se revelou um excelento leitor, a Tina (Madeira) mulher de força, a Helena (Porto, a ser orientada pela minha madrinha de curso) minha «esposinha», já que é a Rosinha de A Ilustre Casa de Ramires e eu sou o Gonçalo Ramires - brincadeira de atribuir nomes das personagens do Eça a alguns dos participantes, a Tânia (Porto) com quem falei de várias coisas, a Aldinida (Brasil) amigona já do ano de 2006, a fazer «doutorado» sobre Inês de Castro nos romances contemporâneos, o David (Salamanca), a Joana (Barcelona - a estudar lá...), a Flávia (Timor, Univ. Porto), a Paula (Coimbra - e conhece a minha aldeia porque tem lá família!), a Michelle (Brasil) e a sua história verídica do rato, a Andreia (Brasil), a Carolina (Brasil) com quem muito conversei sobre tudo e nada, e outros, muitos...

21 de julho - Após uma noite terrível em que não preguei olho por causa da infiltração que estava a cair em cima da minha cama, do calor e do ressonar do Fábio, tomamos o pequeno-almoço habitual e fomos para a Fundação. Início das sessões com Isabel Pires de Lima (Univ. Porto), seguida de Monica Figueiredo (Brasil, Univ. Federal do Rio de Janeiro) e Ana Luísa Vilela (Univ. Évora). Sobre o tema apelativo: «Mulheres: sedução e desejo». Cada uma com o seu estilo próprio, todas com muitas coisas interessantes a partilhar. Isabel Pires de Lima fez uma contextualização, biografia, bibliografia, a professora Monica Figueiredo falou de «O século XIX ainda não terminou» e a professora Ana Luísa Vilela falou de alguns aspectos ideológicos das mulheres n'Os Maias. Depois do curso, tempo livre na Ermida, para piscina, novas conversas, novos contactos.

22 de julho - Após nova noite sem dormir, agora por causa só da sinfonia vocal/nasal do Fábio, o dia começou com Isabel Pires de Lima a terminar questões do dia anterior, Ana Luísa Vilela falou de mulheres como Maria Monforte, Miss Sara, Raquel Cohen e afins, Monica Figueiredo explorou as mulheres de O Crime do Padre Amaro. Depois tivemos a visita à casa-museu da Fundação, tuo explicadinho pela Drª Sandra, e à noite jantámos na Fundação, com uma recriação do século XIX e o famoso arroz de favas, a canja, a galinha assada e o assombroso leite-creme. Durante o jantar houve ainda uma encenação feita pela Filandorra da chegada de Jacinto e seu amigo a Tormes, a partir de A Cidade e as Serras. A minha mesa estava muito (demasiado?) animada: histórias muito engraçadas iluminaram o jantar mais intensamente do que os candeeiros a petróleo!

23 de julho - Após uam noie curta, mas bem dormida, já que usei o «anti-fábio» (assim apelidado pela Paula), ou seja, uns tampões que a Carolina me deu para eu conseguir dormir, estudámos o Eros e a Ausência n'Os Maias com a professora Ana Luísa, o desejo no conto »Singularidades de Uma Rapariga Loura» e em O Crime do Padre Amaro e respectivas ilustrações feitas por Paula Rego, com a professora Isabel Pires de Lima, e a professora Monica falou-nos de O Primo Basílio e A Ilustre Casa de Ramires. Passeio para ver o cemitério onde estão sepultados os restos mortais de Eça de Queirós e jantar no Casarão, após muitas voltas que afectaram alguns de nós; lá houve a surpresa do costume: o trio a tocar acordeão, ferrinhos e tambor. Foi fraca a recepção. Alguns (eu incluído) ainda esboçaram um comboio, mas sem adesão dos outros. Leitura colectiva do conto «José Matias», em voz alta, ao ar livre, nos bancos da quinta, à noitinha.

24 de julho - Problemas de sono resolvidos (ou quase). Isabel Pires de Lima termina o conto e aborda um outro, «No Moinho». Ana Luísa Vilela avança e termina com Maria Eduarda e com «A Gramática Erótica d'Os Maias». Seguiu-se uma visita a Resende para ver o mosteiro de Sanat Maria de Cárquere, mas fomos também a Ancede ver um mosteiro que está a ser recuperado. À noite tivemos um beberete na eira da Fundação, seguido de um concerto com peças de Offenbach pela Orquestra do Norte, dirigida por José Ferreira Lobo e com a prticipação da soprano Delphine Doriola e do violoncelista Yoel Cantori. Foi muito bom e concorrido, apesar do frio... A deusa apareceu deslumbrante nessa noite, no seu vestido roxo... falo de uma senhora de Évora...

25 de julho - Dia chuvoso após a noitada (ou quase, já que para mim foi só até à 1h20). mais cedo, para termos tudo controlado, fomos trabalhar com a professora Monica Figueiredo as personagens d' Os Maias,e depois a professora Isabel Pires de Lima terminou «No Moinho» e trabalhou o «José Matias». Diplomas entregues, almoço desfeito, partimos para a estação de comboio, uns na direcção do Porto, eu nna direcção da Régua... Ficam novas experiências, conhecimentos, amizades, colegas... E continua a valer a pena cá voltar!

Lista de frases/provérbios e outras coisas dignas de registo:

«Onde Judas perdeu as botas» Aldinida, sabedoria popular

«Fortemente elegante» Tina, para o Fábio se auto-caracterizar

«Excessos de fofura» Aldinida, sobre banhitas que se acumulam na barriga

«Onde o vento faz a curva» Carolina, sabedoria popular

«És mesmo do contra» Fábio, sobre mim

«Da hora, mano» Carolina, com os dois polegares levantados e ostensivos

«Deixa estar, o veterinário mandou não contrariar» Aldinida, sabedoria popular

«Fazer um chá» Aldinida (não ouso traduzir esta expressão, é demasiado sexual para o conteúdo deste blogue

sexta-feira, agosto 01, 2008

Músicas (com a A. Verde)

E eis senão quando se encontram mais coisas perdidas dos saudosos tempos de EP. Três canções, escritas com a A. Verde. Uma outra já aqui foi postada. Dos mesmos tais cadernos especiais...


Underneath your Latin (Meta-se aqui a Shakira, A. P. Quin.)

Tu és uma canção
Escrita pelas mãos do tempo
És romana, alçapão
Do nosso alento
Mas tu vais-te embora
Vai-te com o vento
Só falta uma hora
P’ro fim do tormento!

Refrão:
Debaixo do latim
Está toda a fonética
Coitado de mim
Já nem tenho ética.
Prefiro ir para o jardim
Ou p’ra cadeira eléctrica.

*****

Jura (Rui Veloso, Fr. Tp.)

Jura que me vais dar positiva
Dessas que ficam bem na vitrina
E nos dão alta média
Para compensar as outras
Que, por acaso,
São fracas.

Jura se me deres negativa
Vai ser alta e bonita
Vais levar-me à oral
Vais passar-me no final
Com uma nota qualquer
Acima de treze
O sonho de nota a ter.

Jura que me vais passar
Se eu os textos estudar
Jura (…)

Mas se tiver de ser
Ao menos passa-nos em Setembro!

****

Educação e Cidadania (Rui Veloso, Fr. Eva.)


Quem vem a Educação
Sofre do coração
Leva a cidadania
Mata-nos logo a alegria.
Quem nos vê a estudar
Começa logo a chorar,
Chama o INEM depressa
Antes que o corpo arrefeça.

E é sempre um sofrimento
Estas aulas de tormento
E ver-te a falar tão baixinho
Acaba a aula mais cedinho.

quinta-feira, julho 31, 2008

Sugestões de Julho

Neste mês a A. Verde chamou-me várias vezes «viajante». Não o serei, até porque aprendi já que viajar é bem diferente de deslocar. Mas ainda assim, andei muito por aí, dividido entre Poiares, Lisboa, Tormes, Porto, Braga… A estabilidade precisa-se, urgentemente. No meio de tanta deslocação foi possível ler, foi possível fazer algumas coisas. Balanço de mês muito positivo, apesar de tudo e de tanta coisa. Aqui ficam algumas.

Livros:

1 – A Bíblia (Evangelho Segundo São Lucas e Evangelho Segundo São João), Paulus****

argumentos: novas versões sobre os mesmos factos, ou factos a mais ou a menos que surgem nos diferentes relatos. E gosto disso, de perspectivas diferentes. Mais: «Quem não está comigo, está contra Mim. E quem não recolhe comigo, espalha.» (Lc 11, 23) e «Jesus fez ainda muitas coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que os livros que seriam escritos não caberiam no mundo.» (Jo 21, 25).


2 – Os Nomes (1961-1974), Gastão Cruz, Assírio e Alvim**

argumentos: embora não me tenha agradado muito a sua poesia, que me pareceu demasiado artificial, postei aqui dois poemas.



3 – O Desenho no Tapete, Henry James, Relógio d’Água****

argumentos: uma novela interessantíssima em torno dos problemas da literatura. Misteriosa, hábil, bem construída e que vale a pena conhecer. Mais: «Lembro-me de que ele me disse que ela sentia em itálico e pensava em maiúsculas» (p.35).


4 – A Ilha de Páscoa, Pierre Loti, Teorema***

argumentos: livro de viagem à estranha, inóspita e misteriosa ilha de Páscoa, descrita com os pormenores do homem que chega ao local do exótico e se tenta aproximar o mais que pode ao outro. Tem passagens muito bonitas. Mais: «No meio do Grande Oceano, numa região por onde nunca ninguém passa, existe uma ilha misteriosa e perdida; não existe outra na terra nas duas proximidades e, a mais de oitocentas léguas em redor, apenas a circundam inquietas e vazias imensidades. Encontra-se pejada de altas estátuas monstruosas, obra de qualquer raça ignorada, hoje perdida ou desaparecida, e o seu passado é um enigma.» (p.5).


5 – As Traquínias, Sófocles, INCM***

argumentos: numa fase em que ainda se pensava no TETRA, decidi ler textos de teatro que ainda por cá andavam. Uma tragédia como deve ser, em torno de Héracles e Dejanira, que tenta manter o marido preso a si pelo amor, mas provoca antes a ruína da família. Gostei de voltar aos clássicos gregos e de recordar a minha primeira paixão cultural, quando ainda tudo para mim de bom vinha daqueles lados. Boa tradução com introdução explicativa. Mais: «Como um marinheiro que no seu barco recolhe carga em excesso, assim eu fiz, para ficar com o coração em destroços.» (p.55).


6 – O homem que se puniu a si mesmo, Terêncio, INCM**

argumentos: idem em relação ao livro anterior, mas desta vez uma comédia, latina, de que não gostei tanto, porque o enredo é uma confusão pegada e parece-me haver ali fragilidades... Mas bem traduzida, anotada, prefaciada… Mais: «Sou um homem: e nada do que é humano eu considero alheio à minha natureza.» (p.40)


7 – Antologia Poética de Carlos Nejar, prefácio, organização e selecção de António Osório, Pergaminho***

argumentos: breve conjunto da poesia de um importante poeta brasileiro, bem prefaciada e conseguida. A sua poesia tem momentos interessantes, como tentei mostrar pela minha selecção breve, aqui.


8 – Cartas de Inglaterra, Eça de Queirós, Europa-América****

argumentos: em época de Tormes, decidi ler as coisas «ecianas» que andam por casa sem terem ainda sido lidas. Esta edição é má, saiu grátis com um jornal no ano passado (já agora, as melhores edições do Eça: as dos Livros do Brasil estão já superadas pelas que vão agora saindo na INCM, edição crítica, e Presença, edição apenas do texto, sem aparato crítico, mas resultantes da mesma edição da INCM), mas os textos são muito interessantes, sobretudo pela ironia e pelos temas: literatura, colonialismos, Londres e arredores, as questões agrárias e relação com a Irlanda, o Natal e a literatura dele ou nele… Mais: «Dai a César o que é de César! Houve só um homem, Brutus, que deu a César o que a César era devido: um punhal através do coração!» (p.13), «Eu não reclamo que o país escreva livros, ou que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escritos, e que se interessasse pelas artes que já estão criadas.» (p.116).


9 – O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, Mensagem***

argumentos: idem em relação ao anterior. Novela escrita por dois amigos que decidiram escandalizar a sociedade Lisboeta da época, com uma história sobre um assassinato e uma assalto estranho e uma história que envereda para uns intrincados casos romanescos. Interessante pelo jogo de real/realidade/ficção que se tenta criar: «Ah! Como toda esta história é artificial, postiça, pobremente inventada!» (p.86). Mais: «É meu sistema admitir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquilo que me apresentem como coisa positiva. É o único meio prudente de nunca nos afastarmos muito da verdade.» (p.70); «Não sou uma mulher, sou um romance.» (p.206).


10 – Alves e Cª., Eça de Queirós, Atena****

argumentos: idem. Uma novela em que tudo corre rápido e breve, mas com tempo para tudo, como o Eça faz muito bem. O adultério centrado naquele que é traído, no homem da casa, o que dá uma perspectiva diferente do assunto na obra de Eça. Com uma boa dose de humor e ironia fina. Mais: «e parecia-lhe ver por toda a cidade esta sarabanda de amantes e de maridos, uns escapulindo-se, outros tentando apanhá-los, um chassez-cruisez de homens, perseguindo-se em torno das saias das mulheres!» (p.73).


11 – Expiação, Ian MCEwan, Gradiva*****

argumentos: ora finalmente o livro do filme de que mais gostei do ano passado. História magistral, análise de sentimentos e reacções, imagens fortes (a das duas figuras junto à fonte com a jarra a partir-se e o mergulho de Cecília na fonte, o sexo na biblioteca, contra a estante de livros – das coisas mais fantásticas que li sobre o assunto), simbólicas, estruturas inesperadas e vitalizadoras… Um romance a todos os níveis notável. Apaixonei-me obviamente por Cecília, tinha de ser. Mas também Robbie e Briony me seduzem muito, profundas e bem construídas. O livro, como o filme, também nos coloca a terrível questão do perdão perante uma coisa imperdoável, perante a expiação de uma culpa que arruína outros seres, perante a própria essência do homem. Muitas reflexões sobre a escrita, sobre a literatura, sobre as pessoas que lêem. De destacar também a relação que se cria entre autor do relato/personagem/relato e a realidade daquilo que ela, Briony, quer fazer, tantos anos depois. E a verdade bruta que irrompe no fim e que choca, mesmo a quem já conheça a história. É um dos que me ficam para a vida. Mais: «Robbie e Cecília tinham passado anos a fio a fazer amor – por carta.» (p.235), «O problema tem sido este: como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus?» (p.417).


TV:

Pushing Daisies*****

argumentos: a nova série das segundas-feiras da Dois: é extraordinária! Série de Bryan Fuller, conta a história de Ned (Lee Pace), um pasteleiro, que tem o dom extradordinário de, através do toque, pode fazer os mortos reviverem (e assim ajuda um detective a resolver alguns casos) mas também a de matar, exactamente com o mesmo toque (e por isso mantém uma relação amorosa peculiar com a sua paixão eterna, Chuck (Anna Friel), a quem deu uma segunda vida). Tudo isto narrado por Jim Dale, num tom de história de conto de fadas, com cores muito vivas, música orquestral e efusiva, num ambiente perfeito! Vale mesmo muito a pena ficar na Dois: à segunda-feira (e terça, quarta, sexta…).

Música:

ColdPlay – Viva La Vida*****

argumentos: mais um brilhante álbum dos ColdPlay, uma das minhas bandas favoritas. Neste dizem-se mais sexys, menos melancólicos, mas o que estava de bom nos outros continua aqui. Gosto muito da presença da morte por aqui, embora o álbum se inscreva sob a égide da vida. Destaco «Life in Technicolor», «Cemeteries of London», «42», «Viva la Vida», «Violet Hill», «Strawberry Swing», «Death And All His Friends» entre outras. «Violet Hill» teve uma edição especial on-line, no sítio do grupo, e grátis, assim como outra, não incluída no cd, «Death will never conquer».

Atonement OSTExpiação (Banda Sonora)*****

argumentos: a música composta para o filme Expiação de Joe Wright pelo italiano Dario Marianelli. 14 temas extraordinários, batidos pela máquina escrever, em que cada que nota transparece um sentimento trágico e imensamente triste… ou não… sei lá. Vencedor do Óscar para melhor Banda Sonora Original - sem qualquer tipo de dúvidas! Mas acompanha muito bem o filme, o livro, a vida. Muito bom! No youtube podem ouvir-se algumas das músicas.


Cinema:

A máscara de cristal*** – de Dave McKean. Fantástico interessante, com implicações lógicas demasiado lógicas, mas com pormenores muito interessantes.
10000 a.C.** – de Roland Emmerich. Épico a que falta muita coisa para o ser, mas vê-se bem…
Butterfly on a wheel** - de Mike Barker, com Gerard Butler, Maria Bello e Pierce Brosnan. De fugir, não pelas interpretações, sobretudo pela de Gerard Butler, mas pelo enredo recambulesco, angustiante sem motivo, e estúpido.
Antárctida**** – de Frank Marshall, com Paul Walker, Bruce Greenwood, Moon Bloodgood, Jason Biggs. Forçados a deixar para trás a sua amada equipa de cães de trenó devido a um acidente inesperado e a condições atmosféricas perigosas na Antárctida, os cães têm de sobreviver sozinhos ao Inverno rigoroso, durante 6 meses, até os aventureiros conseguirem montar uma missão de salvamento.
Meet the spartans*** – paródia muito paródica de 300, mas também de outros filmes e personalidades do mundo do espectáculo. E por muito que se estranhe, eu gosto deste tipo de filmes, pela parvoíce e pelo puro objectivo de fazer rir!

domingo, julho 27, 2008

Prémio Camões 2008

Em conversa com uma amiga brasileira, especialista em literatura, comentámos a distinção de 2008 a João Ubaldo Ribeiro. Ela pensava noutros, eu não pensava neste, dentro da literatura brasileira. Mas estava convencido que seria do Brasil, este ano, o escolhido. Ela sugeriu Ariano Suassuna, eu Manoel de Barros. Da literatura portuguesa não avançámos ninguém. Das africanas eu afirmei o valor de Germano Almeida (Cabo Verde), Mia Couto (Moçambique), Manuel Rui (Angola) e Ruy Duarte de Carvalho (Angola). Outras coisas aqui.


O autor está publicado em Portugal. O Sorriso do Lagarto na Caminho, e muitos outros na D. Quixote, como Miséria e Grandeza do Amor de Benedita e o polémico A Casa dos Budas Ditosos, na D. Quixote. Escrito em 1998, por encomenda da Editora Objectiva para uma série de livros sobre os sete pecados capitais, A Casa dos Budas Ditosos trata do pecado da luxúria. Tempo para o descobrir...

"E as pessoas lêem romances, biografias, confissões e memórias porque querem saber se as outras pessoas são como elas. Não somente por isso, mas muito por isso. Querem saber se aquilo de vergonhoso que sentem é também sentido por outros, querem olhar mesmo pelo buraco da fechadura e, quanto mais olham, mais precisam olhar, nunca estarão saciadas. Faz bem, é reconfortante. Porque eu tenho a convicção que a maior parte das mulheres e homens é como eu e pensa que não, cada um pensa que é único em suas maluquices. Não é, não, somos todos iguais. Vai ter muita gente que vai ler isso e vai discordar e de novo estou com preguiça de argumentar. Largue este texto, então, não perca seu tempo. Não largou? Não largou, claro, chegou até aqui."

A Casa dos Budas Ditosos
, Publicações D. Quixote, p.132

sábado, julho 19, 2008

palavras africanas

Texto que escrevi ao Luandino, no caderninho do nosso encontro...

À «hora das quatro horas» é que sabe bem a dor [que] purifica a beleza». A dor da descoberta difícil do prazer de ler, do «ser e não ser, ao mesmo tempo», das palavras que são «um búzio ressoando nos [m]eus ouvidos»…
«Para poder pôr» as palavras, «primeiro pergunta-se saber» que marca deixou Luandino em mim?
Primeiro: o nome que me acompanha sempre na boca de alguns amigos, por causa do «Pedro Caliota» (uma das minhas estórias favoritas) todos me chamam «Mau-Miau» («o gato não miava, era só gordachucho, se chamava é o Mau-Miau.»).
Segundo: a beleza das coisas vistas de forma desigual, «tal igual» a ninguém.
Minhas palavras. Se dão bonitas, se são feias, os que sabem ler é que dizem. Mas juro que é assim e não admito ninguém que duvide.

(recuperando estruturas e expressões de: João Vêncio, Luuanda, Macandumba )– 06/06/05


+


Um beijinho de parabéns à Ana Luísa, com as palavras africanas de que tanto gostamos:

«Ali defronte, abriam-se aos olhos de Ruca as vagas que rebentavam lá em baixo. "Sim, vão matar." Que mistério era aquela grandeza de espuma branca, eriçando o mar?
- Vocês não gostavam de ser onda?
- Deve ser bom. Assim por cima da água nem é preciso saber nadar. Quem me dera ser onda! - E Beto abria os braços.
- Mas Ruca - considerou Zeca -, não se pode ser onda. Ainda se uma pessoa fosse entrava com essa força do mar onde a gente queria. Onda ninguém amarra com corda.»

Manuel Rui, Quem me dera ser onda, 6.ª edição de Lisboa, Edições Cotovia, 2001, p.60

quinta-feira, julho 17, 2008

3 poemas de Carlos Nejar

LIMITE

Meus mortos, somos ligados
ao mesmo monte.
Porém, o que nos separa
é o estar adiante.

Não vos atinjo
e esta distância
é que me torna cativo.

Há um invólucro apenas
a ser quebrado.
Meus mortos,
há um invólucro apenas
e os meus sonhos vastos.
****

DEUS NÃO É A PALAVRA DEUS

Deus não é a palavra Deus
e andorinha,
a palavra andorinha.

Há um poço
que não entra
na palavra poço.

O amor, na palavra amor.
E Deus é tudo isso.
****

O Guitarrista Cego, Goya


O CEGO DA GUITARRA (GOYA)

Cego com os olhos
e morto. Cegos
os ouvidos. Cegos os olhos
de remota lembrança.
Nariz adunco e morto.
Chapéu entornado
E morto. Sob a capa,
Mortalha. Morto
morto morto.

Mas a guitarra
salta, a guitarra
letrada e casta
jorra e alegria
de um povo
em torno.

A guitarra é o cego.
A guitarra é o cego.
A guitarra tem os olhos
acesos.


Antologia Poética de Carlos Nejar, organizada por António Osório, Pergaminho, p.55, 98, 159

segunda-feira, julho 14, 2008

I'll Be Lovin' U Long Time + umas coisas

Porque tem tudo a ver. O título, e outras coisas. e porque gosto. Gostamos. Espécie de música do par ou assim... Quem sabe percebe o que quero dizer. E não é só por ser da minha Mariah...

****

Há uns tempos dizia eu à Denise que um dia eu é que iria precisar de uns miminhos. E pimba, ela escreve «Um baobá para o TUlinho». E tempos depois bem pecisava, e quem se apercebeu lá mos deu, à sua maneira. Entre a recusa da bolsa de Teatro, sem qualquer outra coisa financeira em vista, a não ser uns concursos com muito poucas probabilidades de conseguir, para Timor e Guiné, ou uma bolsa de doutoramento para a/o quais não tinha a menor preparação/disposição para concorrer, ainda com o mestrado por acabar... entre a recusa, dizia eu, e a partida no meu coração no avião (ok, um pouco foleiro, eu sei) e a minha ficada, houve momentos muito bons.

Os últimos tempos em Lisboa foram do melhor, com a presença da Patrícia e da Marta no curso livre sobre José Saramago. Os almoços, o eléctrico, as fotos (que ainda não tenho, mas terei)... Mas também a FIA, com a Inês (minha prima), onde me diverti bastante e falei muito com a Natacha que estava a fazer negócio... Mas uns dias estranhos no Porto, com encontros (Marta, Ana Verde), muitas pesquisas internéticas, passeios, compras na Springfield, e uma ida a Braga espectacular onde garanti um emprego para o próximo ano: Colégio D. Diogo de Sousa, a dar aulas de Língua Portuguesa (5.º, 7.º, 8.º e 10.º).

Mudanças súbitas que me vão alterar a vida a partir de Setembro, ou já a vão mudando hoje em dia. Segue-se Tormes, para descansar de tudo isto e encher-me de pessoas novas e mais Eça. Terceira vez lá (cf. 2005, 2006), com a Aldinida (foi também em 2006)

****

Demorei muito a escrever isto porque... sei lá...

domingo, julho 06, 2008

Diz que é uma espécie de nostalgia

ou então não. Mas deu-me para rever os meus cadernos dos Pensamentos Ligeiros, do número 1 ao número 7 (entre 1998 e 2003), à procura de alguma coisa que pudesse aproveitar para estórias do meu livro de contos deste ano, Vazio Repetido. Surgiram algumas, sim. Mas lá encontrei algumas coisas fantásticas dos tempos de EP que não partilhei ainda. Aqui ficam:


"os pobres vestem sarapilheira, os ricos vestem seda." Ar. Sar.


Numa reunião da AEFLUP, discutindo uma proposta que nos tinham feito, muito estúpida, mas que não podíamos recusar:

Bel: "Mas isso é uma punheta..."
Que: "Que nós temos de engolir..."


A estudarmos para Literatura Portuguesa I:

Su: "BAudelaire, p#$% que o pariu!"


E, finalmente, a minha versão daquela música que eu adorava (ui ui), a Menina Azul:

Viagra Azul
.
Senhor doutor
dê-me comprimidos para pinar
desde que eu a comi
que eu não consigo mais brocar

Viagra Azul, Viagra Azul...

Estou tão deprimido
sem saber que fazer
pobre e mal vestido
sem conseguir mais f...er

Viagra Azul, Viagra Azul...

E penso em ti a toda a hora
penso em ti pela noite fora
Viagra Azul, Viagra Azul...

E sexo e sexo, todas as posições e sexo,
Passear contigo na farmácia, pinar é tão bom
E a mão lá no coisa,
E a boca também,
ai é, não é, pois é...


Nota:
Milai, ainda está num desses cadernos uma alça do teu soutien, em silicone, que se estragou quando estavas na residência, no meu quarto, a preparar-te para ir para a queima, na mesma noite em que a Bruna apanhou com o isqueiro na testa e teve de ir para o INEM... Só nós...

quarta-feira, julho 02, 2008

2 poemas de Gastão Cruz


A solidão estava
aqui sobre esta praia
a solidão ainda
usa estar e nascer

na areia e na água
nestes dias de agosto
na rotina de outubro
de setembro no choro

que pode vir do sol
demasiado quente
de toda a alegria
que a luz tem neste tempo

A solidão ardia
nas páginas dos livros
e arde com um fogo
demasiado vivo

Assim se espera sobre
a areia da praia
um fogo diferente
da rotina e da água

Assim se espera um fogo
diferente da prosa
assim se espera um fogo
assim se espera a morte

Assim se espera o fogo
com a vida aprendido
assim se espera um fogo
assim se espera a vida

****

As vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos


Gastão Cruz, Os Nomes (1961-1974), p.105-6, 190

segunda-feira, junho 30, 2008

Sugestões de Junho


No meio de tanta coisa para fazer e tanta outra que ficou por fazer, ficam aqui as coisas boas materiais que posso partilhar convosco. Sim, porque morangos, cerejas, framboesas, rio e certas intimidades não posso partilhá-las com a maior parte de quem me vai lendo… Mas o costume está aí: livros, filmes, séries, músicas… E que cada um faça delas o melhor proveito, ou não.


Livros:

1 – A Bíblia (Evangelho Segundo São Mateus e Evangelho Segundo São Marcos), Paulus****

argumentos: início da segunda parte da Bíblia, do Novo Testamento. Gosto de várias versões sobre os mesmos acontecimentos, sobre uma mesma história. E estas são apenas duas delas. E é obrigatório pela quantidade de frases, actos, parábolas e sei lá mais o quê que saíram daqui para o comum dos dias. Só alguns exemplos: «Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4, 4); «se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda» (Mt 5, 39); «Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.» (Mt 6, 24); «Não deis aos cães o que é santo, nem atireis pérolas aos porcos» (Mt 7, 6): «Pois dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21), etc. etc.


2 – O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei, JRR Tolkien, Europa-América*****

argumentos: fim da trilogia que me empolgou, primeiro no cinema, depois nos dvds em casa, e agora, finalmente, nos livros. Dos outros dois volumes já falei aqui. Não sei o que mais dizer disto, do mundo alternativo construído, do valor da amizade, da coragem, da inteligência, de tudo, mas é o volume em que tudo se consuma e termina (e com bastantes diferenças em relação ao filme). Ficam só algumas frases: «O Destino dos homens, quer queira quer não: a perda e o silêncio.» (p.368); «O mundo está a mudar: sinto-o na água, sinto-o na terra, cheiro-o no ar. Não creio que nos voltemos a ver.» (p.279).


3 – No Reino de Caliban II, Manuel Ferreira, Plátano Editora*****

argumentos: uma antologia da poesia africana de língua portuguesa muito bem construída, com bibliografia dos autores, organizados por gerações, revistas, núcleos. Este volume em concreto apresenta a poesia angolana e a poesia são-tomense até meados dos anos setenta. Cada conjunto de poetas é apresentado por textos introdutores que ajudam a localização e contextualização dos autores e suas produções. Fundamental para perceber a evolução da poesia destes países de língua portuguesa. Da poesia de São Tomé e Príncipe – ver aqui.


4 – História do Cerco de Lisboa, José Saramago, Caminho*****

argumentos: eu já sabia que este romance se arriscava a ser um dos meus favoritos, pelas poucas coisas que lera dele para me preparar para a exposição. E não me desiludiu a leitura da história de um revisor que revê as provas de uma História do Cerco de Lisboa que decide mudar o relato, introduzindo um «Não», alterando a história da conquista de Lisboa aos mouros pelos portugueses em formação. Além desta reformulação de que tanto gosto nas histórias, é muito interessante ler a vida deste homem Raimundo, a sua relação com os outros, com o espaço, com as palavras («assim mesmo foi o mundo feito e feito o homem, com palavras» p.50). E a história de amor é das coisas mais bonitas que tenho lido («Ninguém deveria poder dar menos do que deu alguma vez, não se dão rosas hoje para dar um deserto amanhã, Não haverá deserto,» p.245). Cruzamento de planos temporais narrativos distintos, muitas intertextualidades (Eça, Balzac, Garrett, Pessoa, Dante, Camões, Camilo, Salomão…), meta-reflexões («o mistério da escrita está em não haver nele mistério nenhum» p.181), desvarios, enfim, Saramago no seu melhor. Para despertar o apetite: «Enquanto não vier o poeta D. Dinis a ser rei, contentemo-nos com o que há.» p.288 – há que se refere? Descubram, lendo!!!


5 – O Rio, Estórias de Regresso, Arlindo Barbeitos, INCM****

argumentos: um conjunto breve de histórias breves – como a poesia dele, concisa. E histórias interessantes que valem pelo insólito, pelo desfecho inesperado, mas também pela construção do texto e suas belezas íntimas. Gostei em especial de «A Bruxa», «O Carro», «O Camião de Cerveja» e «A Música». Mais: «Amaram-se, julgo que sofregamente, enquanto seres que o carácter e a geografia traziam solitários e um amor serôdio fez encontrar. Quiçá o álcool ajudou.» p.12.


6 – As Passagens do Tempo, Nuno Artur Silva, Cotovia****

argumentos: ficções breves, muito breves. Mas muito interessantes, com uma lógica própria, diferente da comum. Mais: «Os diferentes lugares do mundo estão a ser ocupados por lugares sempre iguais. Lugares sem nomes, lugares nenhuns […] esses não são os lugares no espaço, mas lugares no tempo.» p.17 ou «De pessoa para pessoa também há uma diferença horária, de minutos, segundos, menos de um segundo, quase imperceptível. Uma diferença não assinalada pelos relógios. Impossível de medir, a não ser pelo amor, sempre tão desacertado.»p.18. O livro inclui ainda uma série de fotografias de Raquel Porto.


7 – O Capote, Nikolai Gógol, Assírio & Alvim****

argumentos: um texto inovador e incontornável da literatura mundial. A história de um homem, Akáki Akákievitch, e do seu mundo cinzento, grotesco, sufocador, e do seu capote, o velho substituído pelo novo. E de um tom a lembrar-me de um certo Albert Camus. E um final surpreendente, de natureza fantástica, que rompe com toda a acção anterior… Muito bom, tão bem feito!


8 - Cães Pretos, Ian McEwan, Gradiva*****

argumentos: depois de A Criança no Tempo (um dos meus livros de eleição) e de O Sonhador (ainda não li Expiação), este Cães Pretos veio mostrar-me mais uma obra extraordinária de Ian McEwan, que se arrisca assim a entrar para a lista dos meus autores favoritos (se é que tal lista existe). História em vários compassos de um homem que perde os pais aos oito anos e adopta todos os outros como seus, incluindo os sogros, com quem vai tendo uma relação muito especial, sobretudo com a sogra, dominada pela recordação do momento que lhe mudou a vida, o encontro com os «cães pretos». Muito bom, com pormenores amorosos belíssimos. Mais: «Quando aprendemos a dar um nome a uma parte do mundo, aprendemos a amá-la.» p.68 ou «Olho para uma rapariga e avalio-a pela quantidade de June que há nela.» p.73.


TV:

Destaque para dois regressos, de séries de que já falei outras vezes e por isso fico-me por aqui. O regresso sem pausa de Anatomia de Grey***** e o regresso de O Amor no Alasca***** (apesar de Irmãos e Irmãs ter de ir embora…).


Música:

Gil do Carmo, Sisal*****

argumentos: uma voz interessante e talentosa, uma fusão entre a pop e o fado, letras poéticas e com pormenores risíveis, um trabalho pouco comum e inovador, de qualidade. Gil do Carmo, que já conhecia como letrista de Mariza e outros, com uma ou outra música por aí, em novelas, surpreendeu-me há uns tempos com uma música numa telenovela da TVI que a minha Mãe via: Ilha dos Amores. E a música era «Na Maré de Ti». E noutro sítio qualquer ouvi outra, «E se esta noite». Agora que já tenho o álbum e o ouvi inteiro, e já me tem feito companhia, destaco também: «A2», «A roda da rosa», «Chegada a casa», «Renea», «Quem me dera ser o fado»…


Cinema:

Tropa de Elite****

argumentos: um filme brasileiro de elevada qualidade, com uma filmagem turbulenta que acompanha o ritmo alucinante da vida nas favelas e dos policiais que nelas têm de intervir. Violência, idealismo, choque de visões. Um filme bastante bom, a fazer lembrar outros filmes brasileiros como Cidade de Deus, numa linha moderna sobre a violência urbana, a droga e as armas. Com Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, entre outros. Só me aborreceu a música… «O rap das armas» é uma seca…


Exposições:

A Consistência dos Sonhos – ver informações aqui.

Colecção Berardo – no Centro Cultural de Belém, com entrada gratuita. Pode ainda ver-se outras exposições, como Utopia e Le Corbusier. Eu só vi a parte da Colecção Berardo, desta vez, porque hei-de voltar, com mais tempo... E ainda hei-de falar à frente desta visita, a outros sítios de Lisboa. Mas tem coisas muito interessantes!

quinta-feira, junho 26, 2008

violetas e outras flores para a Denise

Num atalho da montanha
Sorrindo
uma violeta

Bashô

Colhê-la, que pena!
Deixá-la, que pena!
Ah, esta violeta!

Naojo

Penetrando até ao meu quarto,
o perfume das flores
em noites de primavera
entra pela janela
com o velado luar.

Imperatriz Eifuku Mon'in

sexta-feira, junho 20, 2008

Instituto Camões - fim do eterno retorno

Por maus motivos. E pelo menos para já. Explico-me: não passei nos psicotécnicos, outra vez. E a Susana, a minha amiga destas coisas, não conseguiu também, outra vez. Não fui derrotado por uma equipa alemã, antes fosse, era bom sinal. Mas como a coisa não se deu, é preciso agora ver o que falta fazer: continuar as visitas na Exposição, andar com a dissertação para a frente, e concorrer ao doutoramento e à bolsa, concorrer a Tormes... E não volto a concorrer, pelo menos nos próximos tempos. Estou farto, a sério. E assim poderei continuar estudos, participar nas conferências em que me inscrevi e que me aceitaram/aceitarão - mas não é bem a mesma coisa...
Entretanto, andando por Lisboa e tal, vi finalmente o Palácio da Ajuda, que é muito interessante e apelativo. Estava cheio de crianças que seguiam atentamente as monitoras - o palácio tem um excelente serviço educativo, e recomenda-se a visita.

terça-feira, junho 17, 2008

Instituto Camões - eterno retorno?

Surpreendentemente passei na prova escrita e passo à segunda fase. Mas contando comigo, para as 16 vagas, estão 57 pessoas, que também conseguiram, de 161 candidatos iniciais. No ano passado os números eram mais favoráveis: 19 vagas, 165 candidatos, 36 passaram na prova escrita - mas a estatística não é tudo, diz a Sandra. E ela é a minha consultora para coisas matemáticas, por isso concordo!

segunda-feira, junho 16, 2008

Uma noite de televisão

(Fernando Pessoa)

Ontem a televisão parecia estar em consonância comigo. Ou eu com ela. Um programa espectacular de Os Contemporâneos (ou deverei escrever espetacular??? não me vão aparecer aqui dois membros da ASAE do Acordo Ortográfico e levarem-me o pc), que tiveram tempo, no meio dos directos sobre a selecção (em quatro partes), para falar da greve dos camionistas, encenar uma visita do papa a um país muito pobre, contar a sua versão dos factos sobre Amy Whinehouse no Rock in Rio (em quatro partes) e até para criar a Seleccção Nacional de Escritores (em duas partes). E a canção, também. Muito bom.

Depois foi o Câmara Clara, com uma convidada especial, Germana Tânger, que dedicou mais de 50 dos seus 88 anos a dizer poesia portuguesa pelos quatro cantos do mundo. No programa falou da sua relação com poesia e com os poetas, os que conheceu e os que não, e ainda disse «Aniversário» de cor. Dedicado mais a Fernando Pessoa, 120 anos depois do seu nascimento, mas também se falou de Almada Negreiros, Vitorino Nemésio, Sá-Carneiro, José Régio... A vantagem é que todo o programa estará disponível na internet, no sítio do programa. E vale a pena, até porque se inclui uma série de indicações bibliográficas sobre Pessoa (da sua obra, ou sobre ela - ver programa do dia 15 de Junho).

Depois foi a vez da Britcom (Na Tua Ausência e A Minha Família), foi muito muito boa. E o Onda Curta, que apresentou mais três curtas, as três bastante interessantes...


Pergunto-me se estaria muito benevolente ou se a coisa ontem me correu mesmo de feição...

domingo, junho 15, 2008

Poetas de São Tomé e Príncipe

A literatura santomense possui já uma série interessante e considerável de poetas e prosadores. Fiz uma pequena seleccção pessoal dos poetas que conheço, baseado sobretudo em No Reino de Caliban II, de Manuel Ferreira, e em alguns livros soltos. Poderia acrescentar outros, como Alda do Espírito Santo ou Maria Manuela Margarido, ou Albertino Bragança na prosa, mas estes são já um começo. E para compreender melhor a evolução desta poesia, seus temas e motivos, suas aspirações e ideologias, fica aqui um sítio que o faz bem melhor do que eu o poderia fazer.


Eu e os passeantes

Passa um inglesa,
E logo acode,
Toda supresa:
What black my God!

Se é espanhola,
A que me viu,
Diz como rola:
Que alto, Dios mio!

E, se é francesa:
Ó quel beau negre!
Rindo para mim.

Se é portuguesa,
Ó Costa Alegre!
Tens um atchim!

Costa Alegre, Versos (1916)


1619

Da terra negra à terra vermelha
por noites e dias fundos e escuros,
como os teus olhos de dor embaciados,
atravessaste esse manto de água verde
- estrada de escravatura
comércio de holandeses

Por noites e dias para ti tão longos
e tantos como as estrelas no céu,
tombava o teu corpo ao peso de grilhetas e chicote
e só ritmo de chape-chape da água
acordava no teu coração a saudade
da última réstia de areia quente
e da última palhota que ficou para trás.

E já os teus olhos estavam cegos de negrume
já os teus braços arroxeavam de prisão
já não havia deuses nem batuques
para alegrarem a cadência do sangue nas tuas veias
quando ela, a terra vermelha e longínqua
se abriu para ti
- e foste 40'L esterlinas
em qualquer estado do SUL -

Francisco José Tenreiro, Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967


Nova Lira – Canção

Quem embarcou no porão
Fechado a sete chaves,
Apertado entre traves,
Sem ver sol sem ver a lua?
Foi o preto!

Quem deixou a terra,
-filho ingrato que fugiu
ao pai e à mãe que não mais viu,
p’ra ir acabar como um cão?
Foi o preto!

Quem a mata derrubou,
E cavou e semeou
E co’a sua mão de bruto
Cuidou, recolheu o fruto?
Foi o preto!

Quem fez o ‘senhor ’– o patrão;
Lhe tirou da vida aflita
Lhe deu senhora bonita
E importância e situação?
Foi o preto!

Marcelo Veiga, in: Poetas de São Tomé e Príncipe (1963)


Caminhos

Amanhã,
Quando as chuvas caírem,
As folhas gritarem d’esperança
Nos braços das árvores,
Os homens se esquecerem de seus passos incertos,
A força do Sol e da Lua vergastarem,
Implacavelmente,
O resto da terra,

Amanhã,
Quando a força dos rios
Derramar o seu sangue na lonjura dos campos,
O ventre faz flores amadurecerem de filhos,
As pedras do caminho se calarem de dor,
As faces dos homens sorrirem de novo,
As mãos dos homens se apertarem de novo,
Amanhã,
Irei de passadas longas
Pelos caminhos largos e certos,
Irei de passadas longas
Sem coração de conóbia
Ou cintas de panos com bênçãos de Deus,
Irei pelos tenebrosos caminhos da vida,
Irei,
De tam-tam
em
tam-tam,
Irei
Desafiar os mais trágicos destinos,
À campa de Nhana, ressuscitar o meu amor.
Irei.

Tomaz Medeiros, in: Cultura (II – 1959)

Descoberta

Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos.
E na dura travessia do deserto
Aprendemos que a terra prometida
era aqui.
Ainda aqui e sempre aqui.
Duas ilhas indómitas a desbravar.
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.

Conceição Lima, in: Vozes Poéticas da Lusofonia

sábado, junho 07, 2008

Exposição de Macarena Acharán

Está na FLUL, de 5 a 12 de Junho, na Galeria de Exposições da Biblioteca, uma exposição de pintura da chilena Macarena Acharán. Gostei muito do que vi, e como sei que nem todos podem lá ir, ficam aqui algumas fotos dos quadros expostos.




Geleia de Tangerina

Isto tem sido de loucos. Algumas visitas na exposição, muitas leituras, passeios por Lisboa, exame do IC, e coisas outras....

Mas o interessante foi participar numa feira de doçaria. Pois é, e não como visitante, mas como vendedor. Foi em Caldas de São Jorge, concelho de Santa Maria da Feira. Fui ajudar a Consti na sua primeira exposição como Companhia do Açúcar - e com a minha simpatia e charme natural ;)lá vendi uma quantidade significativa de pastéis de Tentúgal, queijadas de Tentúgal, barquinhos, broas doces, broas de chila e amêndoa, barrigas de freiras, pinhas de Montemor, esspigas de Montemor, e sei lá mais bem o quê. O sítio é muito bonito, com as termas, o rio, as árvores - mas o rio está poluído e nem tudo funcionou às mil maravilhas... Predominaram as barracas de doces, claro, mas também de algum artesanato (tapetes como os que eu faço, e coisas ao estilo da Patrícia e da Natacha, que podem ver um pouco aqui, entre outras). Por lá provei algumas coisitas, e como ia para Lisboa e não para casa não comprei nada, excepto um frasco de geleia de tangerina (ainda havia espaço na mochila que levei para o pôr, ao lado dos chás que a Consti me ofereceu como prenda de aniversário e do meu exemplar de Expiação, que lhe tinha emprestado há uns meses). Tangerina porque sim. Experimentei vários (a barraca deles era mesmo ao lado), mas foi o que mais me agradou: com a casca e tudo, come-se e parece que estamos mesmo a comer uma tangerina! Fresco, com um contraste entre o doce e o amargo da casca - fantástico. E vem lá debaixo, ó Denise, de Loulé. De uma tal A Farrobinha. Ainda pudemos assistir aos fantásticos concertos de Ricardo Azevedo, animações dos dias da criança, música sempre repetida de Trovante, Avó Cantigas e Mafalda Veiga e, para melhorar, uma actuação celta (não vi as tunas, sexta-feira eu não fui)... Tudo organizado por um grupo de jovens chamado Juventude Inquieta.
~