segunda-feira, novembro 17, 2008

Selecção sofrida e demorada, mas breve, da poesia reunida de Jorge Sousa Braga


*
Alguns enxames de abelhas invadiram o Museu do Louvre e exploraram cuidadosamente todas as naturezas mortas com flores, não tendo deixado um único grão de pólen.

**
Era quase tão bela como a Vénus de Milo. Um dia cortou os braços a sangue frio.

***
Na tarde em que ia morrer estava Sócrates com os seus discípulos quando um pássaro com um ramo de ervas no bico irrompeu na cela. Depois de ter bebido a cicuta, Sócrates continuou discorrendo durante algum tempo ainda, sobre a imponderabilidade do pensamento. Morreu com um sorriso na boca. Os discípulos repartiram entre si os objectos de uso pessoal. O pássaro que até aí se mantivera na penumbra apoderou-se do sorriso e desapareceu no céu de Atenas.

****
Cabril

Esta noite sonhei que era um rio. Um rio pequenino, é certo, que nada mais conhecia além das montanhas onde nascia, dos amieiros e dos juncos que nele se debruçavam. Como todos os rios, o que eu mais ardentemente desejava era desaguar. Comecei a perguntar onde ficava o mar, mas ninguém me sabia responder. Apontavam-me com um gesto vago ora o este ora o oeste. Escolhera já a forma de desaguar – em delta, claro – mas não recolhera ainda o menor indício da proximidade do mar. Uma noite em que estava acampado ente as dunas cheguei finalmente a uma conclusão (a mesma a que todos os rios chegaram talvez antes de mim): o mar não existia.

(E essa conclusão era salgada.)

*****
A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
a vontade de voar

******
Vou ao céu
E venho-
-me

*******
Qual é a minha
ou a tua
língua?

********
O Velho Poeta

O seu desejo era que plantassem
um espinheiro numa nesga de

terra frente ao mar e ao rio
e que ele florisse nem

que fosse uma única vez
Este espinheiro protegê-lo-ia

mais do frio que um edredão
A nesga de terra continua lá

e o mar e o rio e a manhã
Só o espinheiro e o poeta

é que não

*********
A Religião da Cor

A paleta está cheia de cores: azul-celeste, laranja, rosa, cinábrio, amarelo vivo, violeta, borra de vinho.

Falta-me uma cor ainda. Para pintar a inexistência de Deus.

**********
Van Gogh por ele próprio

Vivo numa cela. O universo é uma cela com três metros de comprimento por dois de largura. Fecharam-se nesta cela e disseram-me: Bem, Vincent, agora podes correr à vontade.


Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu, Assírio & Alvim, p.30, 36, 37, 99, 178, 179, 184, 277, 296, 299.

quinta-feira, novembro 13, 2008

um poema de Tamara Kamenszain

Gentios

Deus escreve a diferença
no espelho da desordem genética
se me olho desconto meu duplo
se te vejo acrescento tua metade.
Diferença idêntica
faz rir de tanto nos parecermos
área à semita judia o ário
loucos soltos fechados juntos
protegidos sob a intempérie sem fio
como animais ante seu próprio enterro
pelos restos do campo.
Nesse lugar descampado
nesse perímetro que nos concentrava
eu sou aquela que morreu por ti
e por tua gentileza ainda sou
a que te deixou
---------------morrer.
Deus nos arquivará distintos
sem seu livro dos parentescos
no velho eu você no novo
dois testamentos na fossa comum
e depois
--------que nos identifiquem.

sábado, novembro 08, 2008

3 poemas de Antonio Gamoneda


Uma paixão fria endurece as minhas lágrimas.

Pesam as pedras nos meus olhos: alguém

me destroi ou me ama.

***

Pousei as minhas mãos num rosto e retirei-as feridas pelo amor.

Agora,

o esquecimento acaricia as minhas mãos.

***

Atrás da obscuridade estão os rostos que me abandonaram.

Eu vi a sua pele trabalhada por relâmpagos. Agora

já só vejo, no instante amarelo,

o esplendor das suas longínquas pálpebras.


Antonio Gamoneda, Ardem As Perdas, Quasi, p.19, 23, 49

quarta-feira, novembro 05, 2008

Mens et corpore

ora pois que a beleza e a inteligência podem conviver numa só imagem. não, não estou a falar de mim, embora pudesse, mas isso era demasiado óbvio e ficava mal estar a elogiar-me e pôr fotos minhas no blogue por dá cá aquela palha (cof cof), estou só a falar desta imagem que me enviaram por email e que fica aí (afastar-se do ecrã e voltar ao mesmo sítio até ver as duas faces...):

sexta-feira, outubro 31, 2008

Sugestões de Outubro

Terminada A Bíblia, de volta à poesia (após um mês de ausência), com surpresas pelo meio. E o regresso ao fado. Um mês com muitas aventuras, mas com balanço positivo. Segue-se mais. Ficam aí as sugestões para os vossos meses:

Livros:

1 – A Bíblia (Epístola de S. Tiago, Epístolas de S. Pedro, Epístolas de S. João, Epístola de São Judas, Apocalipse), Paulus****

argumentos: já é recomendável só por serem os últimos livros, mas além disso recomenda-se porque dão mais (do mesmo ou não) sobre a formação da Igreja, de modo pessoal, individual, com linguagens próprias. Destaque maior para Apocalipse, atribuído a São João e um dos textos mais conhecidos, citados, parodiados do conjunto completo. Mais: «aquele que duvida é como a onda do mar que o vento leva de um lado para o outro.» (Tg 1, 6) e «No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor.» (I JO 4, 18).


2 – O Ingénuo, Voltaire, Quasi/DN****

argumentos: não é de agora a minha paixão pelos contos/novelas de Voltaire. Zadig e Cândido já fizeram as minhas delícias no passado. Desta vez, embora com um final trágico, a história tem alguns dos mesmos ingredientes: humor, crítica (política, social, religiosa) e uma série de situações bizarras que se encadeiam logicamente com uma coerência notável (falo de acasos, coincidências, mal-entendidos, ingenuidades...). Gostei muito e recomendo, juntamente com os outros títulos. Mais: «discutiu mas acabou por reconhecer o seu erro (caso bastante raro na Europa entre as pessoas que discutem)» p.19, «Leu histórias, entristeceram-no. O mundo pareceu-lhe preverso e miserável. Realmente, que é a história senão um quadro de crimes e infortúnios?» p.48, «Para alguma coisa serve a infelicidade.» p.93.


3 – O Jardim Sem Limites, Lídia Jorge, Planeta de Agostini****

argumentos: fiz as pazes com Lidia Jorge ao ler este livro. Uma casa devoluta em Lisboa (a Lisboa que já conheço melhor e que se me afigura agora evocativamente) onde co-habitam várias personagens, cada uma com as suas frustrações e desejos, observadas e contadas por uma voz que nunca ganha realmente corpo ou identidade e por uma máquina Remington. Gostei especialmente do Static Man (que acaba por ocupar grande parte da história) e da dona da casa e suas deambulações. Mais: «Tens a certeza de que estás a escrever sobre factos que podiam ter acontecido? Se não podiam, então rasga, é porque não presta...» p.16, «Deve-se pedir às pessoas que ainda se lembram, precisamente, que não se lembrem mais, para não nos atrapalharem a vida.» p.56 e «É uma coincidência. Isto é, não existe Deus, mas para nos confundir existe a coincidência.» p.387.


4 – O Ano de 1993, José Saramago, Caminho****

argumentos: mais uma obra do escritor que mais me ocupou este ano. Desta vez um livro que está classificado como poesia, em prosa, é certo, nuam espécie de versículos. Uma história corre estes versículos, a da destruição do mundo tal como o vemos. Algo apocalíptico com passagens avassaladoras: o interrogatório, a violação, o fogo, a árvore, a fertilidade e a menstruação... Recomendo vivamente. Mais: «Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos» p.42, «Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada» p.72 e «E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade.» p.87.


5 – Obra Quase Incompleta, Alberto Pimenta, Fenda****

argumentos: nesta recolha da obra (até 1990) há de tudo: os poemas (das mais diversas direcções que o poeta seguiu), os textos de reflexão sobre a poesia e a sua poesia, as fotos dos momentos em que fez sessões de poesia ao vivo. Irónico, provocador, humorístico, insólito, perturbador... Podem ver/ler aqui alguns poemas escolhidos. Mais: «se o poema é tudo, como dizer seja o que for sobre ele? e se por outro lado é fragmento (coisa nunca verdadeiramente começada nem verdadeiramente acabada) como dizer também seja o que for sobre ele?»p.255.


6 – O Sonho dum Homem Ridículo, Dostoievski, Quasi/DN***

argumentos: dois contos aqui publicados, diferentes, mas ambos interessantes. Embora predomine o onírico utópico, há um forte realismo com incidência nos males da natureza e da vida humana que vale a pena ler antes dos grandes romances do senhor. Mais: «Naquele momento era para mim absolutamente evidente que a vida e o mundo dependiam quase unicamente de mim. posso dizer ainda mais: que o mundo, agora, parecia quase criado para mim apenas... pois, quando tivesse dado o tiro, o mundo deixaria de existir, pelo menos para mim.»p.21.


7 – O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Mr. Hyde, R. L. Stevenson, Quasi/DN*****

argumentos: gostei muito desta história que já conhecia de alguns sítios, talvez filmes, talvez animações, talvez de resumos, com certeza da cultura geral. Um interessante jogo/estudo (o que quiserem) sobre a dualidade do ser humano e da coexistência do bem e do mal em cada um de nós. Com uma nota de suspense e mistério, o livro só peca por ser tão pequeno... ou talvez não. Mais: «Tenho alguma simpatia pela heresia de Caim (...). Deixo o meu irmão ir para o inferno da forma que melhor lhe aprouver.» p.7 e«O homem será, um dia, conhecido como uma mera comunidade de habitantes multifacetados, incongruentes e independentes.»p.80.

8 – História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luís Sepúlveda, Asa*****

argumentos: ora mais um livro daqueles de que toda a gente fala e diz quão fantástico é e coisa e tal, que me deixou sempre de pé atrás. Mas é um gato, e convenhamos, uma gaivota, e ambos fazem parte da minha vida (a gaivota de uma fase que já ficou lá a atrás). E adorei o livro! Gato Zorbas, podes vir cá para casa que eu deixo. Tudo muito simples, muito eficaz, muito bonito. ai a inveja a certos textos... E entra-se nele já com a ideia: como é que um gato vai ensinar uma gaivota a voar? Mas afinal é bem mais do que isso! Mais: «gostava especialmente de observar as bandeiras de barcos, pois sabia que cada uma delas representava uma forma de falar, de dar nome às mesmas coisas com palavras diferentes.» p.12 e «Ouvi-o ler o que escreve. São palavras belas que alegram ou entristecem, mas que produzem sempre prazer e suscitam o desejo de continuar a ouvir.»p.107.

9 – Quatro Contos Dispersos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Figueirinhas****

argumentos: quatro contos publicados em revista e um numa edição da EXPO'98, agora reunidos num único volume. «Era uma vez uma praia atlêntica» tem a força das narrativas marítimas de Sophia e uma preocupação com a justiça, com uma belíssima descrição de um homem que se aproxima à de«Homero» dos Contos Exemplares. Outros dois, publicados na Colóquio Letras, intitulam-se «Leitura no Comboio» e «O Cego». Mas queria destacar sobretudo o outro conto, projecto de um maior que não teve término, com o título «O Carrasco». Gosto imenso de toda a descrição dos efeitos físicos e psicológicos do carrascos sobre as pessoas e as coisas com quem contacta, muito bom! E vale a pena ler Sophia, sempre! Mais: «Mesmo envelhecido era um homem belo, alto, de ombroa largos e costas direitas. Tinha os olhos de um cinzento nebuloso como o mar de Inverno mas, às vezes, um sorriso os azulava e então pareciam muito claros na pele quimada. A sua estatura, o seu porte de mastro, as suas veias grossas como cabos e os anéis da barba e do cabelo, a aura marítima que o rodeava, davam-lhe um certo ar de monumento manuelino mas, simultaneamente, tinha a beleza tosca e tocante de um barco de pescadores, cosntruído com as mãos, pintado com as mãos e deslavado por muito mar e muitos sóis.»p.40.

10 – Leitão Ciclista em busca do paraíso, Arsénio Mota, Pé de Página***

argumentos: a pedido da direcção do colégio, para ver se convidávamos o escritor a vir à escola. O meu parecer foi positivo, porque o livro é muito bem feito, engraçado, e coloca o problema da relação da pessoa com a sua terra natal: um leitão que gosta de andar de bicicleta decide ir em busca da terra da mãe, um pequeno paraíso terrestre, mas descobre uma realidade bem diferente... Mais: «queiramos ou não, ficamos a pertencer pelo nascimento à nossa pátria, à nossa língua e cultura. E mais, ficamos a pertencer ao nosso tempo, pois outro não temos!» p.36.

Música:

Mariza - Terra*****

argumentos: ora finalmente cá tenho o novo cd de Mariza. Estranhei ao início: demasiados ritmos alternativos incorporados por aqui: mornas de Cabo Verde, o jazz, o flamengo, eu sei lá mais o quê. Mas a voz dela une tudo com uma harmonia que enlaça e não permite escapar. Gosto, em especial, de «Minh'alma» e «Se eu mandasse nas palavras», mas também de «Já me deixou», «Rosa Branca», «Tasco da Mouraria», «Alfama», «Alma de Vento» entre outras. A grande senhora está de volta, e bem!


Cinema:

Uma estranha passagem por Veneza***, de Paul Schnader, com Rupert Everett, Natasha Richardson, Helen Mirren e Christopher Walken (1990 - muito estranho, mas interessante, com belas paisagens de Veneza. Com argumento de Ian McEwan e Harold Painter).
O Amante de Lady Chatterley***, de Pascale Ferran, com Marina Hands, Jean-Louis Coullo'ch, Hippolyte Girardot (2006, uma de várias versões do romance de D. W. Lawrence - um pouco estranho, sobretudo o final e a primeira cena de sexo...).

Poemas de Alberto Pimenta

Uma série de poemas de Obra Quase Incompleta, seleccionados porque sim, e aqui em formato de imagem, para ser mais fácil representá-los visualmente, como foram criados, e outros em letras, onde o visual não é tão importante:




**
porco trágico I

conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.

a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muitode si
e pouco ou nada dos outros.

o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.

***
Civilidade
não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima o espirro

não soluce madame
reprima o soluço

não cante madame
reprima o canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.


Alberto Pimenta, Obra Quase Incompleta, Fenda, 1990, p. 69, 44, 113, 175, 232

quinta-feira, outubro 23, 2008

O meu outro eu (o armado em intelectual ou assim)

Convido-vos para me ouvirem falar de personagens santas e prostitutas, ao mesmo tempo ou quase. Para quem estiver interessado, é já ali, São Paulo - Brasil, na USP, no dia 31 deste mês. Apareçam ;) Espero por vocês. Se não tiverem possibilidades, podem vir ter comigo a Braga, que eu também cá estarei, a dar aulinhas e teste ao 10.º ano. Depois digam que não avisei.

Obrigado Carol por tornares isto possível!

Fica aqui um pedacinho - o início, pois claro:
«Quando se lê, incorporamos textos ou lembranças logicamente anteriores, surgindo pontes que podem ser de relações intertextuais, semelhanças temáticas, formais, de estilo ou outras. É de experiências de leitura de três textos, que se atraíram neste artigo, de que falarei, tendo como ponto de contacto a dicotomia santa/prostituta. Os santos estão em todo o lado: na piedade popular, na devoção, no culto litúrgico, nos nomes de pessoas e lugares, nas tradições, no folclore, nas lendas, nos provérbios, na Arte e, obviamente, na Literatura. Também as prostitutas vivem nas páginas de vários livros e em outras formas de expressão artística. Ou santas ou prostitutas. Mas santas e prostitutas, ao mesmo tempo, ambas as condições na mesma pessoa, já não é tão frequente, mas existem.
Proponho-me analisar três personagens fictícias que possuem características de beatitude e de prostituição em diferentes graus. São santas do corpo: prostitutas e santas, pelo menos numa primeira leitura. São elas: D. Maria da Piedade, personagem principal do conto «No Moinho» de Eça de Queiroz; Santa Eponina, a personagem capital de um conto homónimo de Raul Brandão, incluído em A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore; e Santa Melânia, a protagonista de A Pécora, de Natália Correia.»

terça-feira, outubro 21, 2008

«Mala Entendida»

Este fim-de-semana, Helena Laranja mais alguns amigos fizeram um filme para concorrer num festival de curtas metragens. Ganharam o Prémio do Público e mais uma menção honrosa pela coerência narrativa. O argumento foi baseado numa história de Helena Laranja e depois trabalhado em conjunto. Podem ser aqui o resultado, que é bom e me surpreendeu (a além disso, passa-se aqui em Braga). Resta dizer que Helena Laranja é irmã da minha madrinha e grande amiga Milai.

http://www.youtube.com/watch?v=N10L5hOR9r8

terça-feira, outubro 14, 2008

Em branco

é
como
sinto

a
minha
vida
.


dentro
.

até
ao
dia
...

segunda-feira, setembro 29, 2008

Sugestões de Setembro


Toda a gente me dizia: começas a dar aulas e acabam as tuas leituras fabulosas. Em parte é verdade: não li tanto, nem coisas tão grandes neste mês de início de carreira docente; mas li, o que não é mau, sem ser coisas para o Colégio. Aqui ficam, acompanhadas por outras sugestões:


Livros:

1 – A Bíblia (Cartas de São Paulo: Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Tessalonicenses, Timóteo, Tito, Filémon, Hebreus), Paulus***

argumentos: um conjunto de cartas potencialmente escritas todas por São Paulo onde estão muitos dos alicerces da Igreja: a resolução de casos práticos, do dia-a-dia, face à boa nova trazida por Cristo. Destaque para a misoginia. Vale a pena conhecer: «Somos amaldiçoados, e abençoamos; perseguidos, e suportamos; caluniados, e consolamos. Até hoje somos considerados como o lixo do mundo, o esterco do universo.» (1Cor 4, 12-13) ou «Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim.» (Gl 2, 20).


2 – O Cais das Merendas, Lídia Jorge, JL/Visão/D. Quixote**

argumentos: depois de livros tão bons como A Costa dos Murmúrios e O Belo Adormecido, e outros menos bons, mas ainda assim recomendáveis, como O Dia dos Prodígios e A Instrumentalina e Outros Contos, este livro surpreendeu-me pela negativa. Cansei-me de mais com as conversas e acções de um grupo de gentes que faz as suas merendas, depois serões, depois parties, depois outros nomes. Vê-se uma nítida crítica ao crescimento desmesurado do turismo algarvio, mas enquanto obra estética, e apesar das experiências e algumas ousadias, o livro não me convenceu. Mas com alguns momentos interessantes, como: «Para falar de Rosário deveríamos inventar um nome que se chamasse orassàp, se fosse possível, porque ela quis voar ao contrário dos passarinhos quando estão assustados pelo bater das palmas.» (p.71); ou «Na praia a claridade era tão intensa e tudo tão despido que qualquer santo quereria ser violado mesmo depois da colonização.»(p.127); e a terminar, uma frase que achei muito bonita: «um ar de estátua pousada no dorso da melancolia»p.24.


3 – O Circo da Onça Malhada – Iniciação à Obra de Ariano Suassuna, Carlos Newton Júnior, ArteLivro***

argumentos: um livro que a Aldinida, apaixonada por Ariano Suassuna, me emprestou para ler, para ver se eu me apressava a ler a sua obra. Este livro em específico fala da vida e obra, por vezes interligadas. E fiquei com vontade de ler Cantam as Harpas de Sião – agora com o título de O Desertor da Princesa - , o Auto da Compadecida e O Romance d’A Pedra do Reino (e companhia). Um dia será!


4 – O Retrato do Sr. W. H., Oscar Wilde, Quasi***

argumentos: um daqueles livrinhos que o DN ofereceu este verão. Pequeno, portanto, mas denso e interessante. Nele, ensaia-se a possibilidade de a dedicatória dos Sonetos de Shakespeare ser feita a um jovem e belíssimo actor. Vale a pena conhecer: «A arte, mesmo a de maior alcance e mais ampla visão, nunca nos mostra o mundo exterior. Tudo o que nos mostra é a nossa própria alma, o único mundo que realmente conhecemos. E a alma em si, a alma de cada um, é para nós próprios um mistério. Esconde-se na obscuridade, a meditar, e a consciência não é capaz de nos revelar os seus planos. A consciência, na verdade, é bastante desadequada para explicar o conteúdo da personalidade. É a arte, e apenas a arte, que nos revela a nós próprios.»(p.82).


5 – Cartas a Um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke, Quasi****

argumentos: um livro já clássico na literatura mundial, também ele grátis com o DN. As cartas que Rilke escreveu a um aspirante a poeta e que nos mostram a sua concepção de poesia, de escritor, de homem. Lê-se rápido e com interesse. Mais: «pois no fundo, e sobretudo nas coisas mais profundas e importantes, estamos indizivelmente sós.»(p.19); «não se deve ter medo quando diante de si se levanta uma tristeza tão grande como nunca viu»(p.75) e «Ser artista é não calcular e não contar, é amadurecer como a árvore, que não comanda a seiva e que enfrenta tranquila as tempestades da Primavera sem recear que o Verão chegue. O Verão chegará.»(p.28).


6 – Astérix e Cleópatra, R. Goscinny e A. Uderzo, Meribérica/Liber****

argumentos: ao dar a BD ao oitavo ano, lembrei-me que não tinha álbuns nenhuns e lá comprei este. Porque gosto de Astérix e Obélix, porque são educativos, e este em especial porque vi o filme e adorei. E a BD é também muito boa: a construção do palácio em três meses, para Cleópatra provar a César que o Egipto ainda era grande, cheia de aventuras e muito humor. Destaque para o nariz de Cleópatra que é «muito, muito belo».


7 - Histórias de coisa nenhuma – e outras pequenas insignificâncias, Augusto Baptista, Campo das Letras****

argumentos: um livro como aqueles que eu mais gosto: histórias brevíssimas, coisas entre o conto, poesia e até anedota. Com muito bom gosto, com reflexões sobre a língua. Exemplos breves: «Depois de anos de namoro, receoso, foi pedir a mão da namorada. O futuro sogro ouviu. Hesitou. Por fim, acedeu. Mas doeu-lhe, doeu-lhe muito ver a fila maneta.»(p.14); «A morte é um facto horizontal.»(p.75) e «Extraordinário como depois de já tanta gente ter morrido ainda persistam dúvidas sobre a morte.»(p.76).


TV:

Jane Eyre (Dois)****

argumentos: uma grande série de época, baseada no livro de Charlotte Brontë. A passar na Dois:, em dois episódios às segundas. Gostei muito da primeira parte, dá hoje a segunda. E o melhor: dá vontade de ir ler a seguir o livro! Sitio sobre a série aqui. Com Ruth Wilson, Toby Stephens e Francesca Annis, entre outros.


Música:

OneRepublic, Dreaming Out Loud*****

argumentos: um álbum suave, para ouvir com calma, embora também tenha os seus ritmos. Além da mundialmente conhecidíssima «Apologize» (duas versões, eu prefiro a versão sem Timbeland, mais natural e violinista), e do outro sucesso, que é das minhas favoritas, «Stop and Stare», destaque merecido ainda para «Mercy», «Say», «All fall down», «Prodigal», «Wont Stop», «All we are», «Home» entre outras, todas muito boas. Destaque ainda para «Mercy» - na versão do álbum que por aí corre (edição tour) com quatro músicas ao vivo, assim meio acústicas e muito interessantes - mas atenção, a «Mercy» da Duffy que, aqui, está muito melhor! Grandes arranjos, boas letras, boas canções, grande voz e interpretações de Ryan Tedder. Assim estão entre Keane, Snow Patrol, Coldplay ou The Fray - alguns dos meus grupos masculinos favoritos...

Cinema:

O Efeito Borboleta 2***, de John R. Leonetti – gostei bastante do primeiro, gostei do segundo. Com Eric Levely a fazer através de imagens o que fazia Ashton Kutcher no primeiro filme com os seus diários: voltar atrás num determinado ponto da vida e mudá-la, totalmente – até aos pormenores mais incríveis.
Super Heróis*, de Craig Mazin – apesar de gostar deste tipo de filmes parvos, só para rir, neste não encontrei nada digno de registo…
Antes Que o Diabo Saiba que Você Está Morto*, de Sidney Lumet – ia tendo um enfarte de tanta pasmaceira… Apesar de um elenco bom (Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Marisa Tomei), é demasiado mau…


Outros acontecimentos: um mês com muitos falecimentos (ver posts anteriores + a morte de Paul Newman. Homenagem aqui).

quinta-feira, setembro 25, 2008

Vera Vouga

Diz-me a Natacha num comentário ao post anterior que morreu uma das professoras na nossa faculdade de letras do porto, depois do Américo Santos (com minúsculas propositadamente). Investigo mais. É verdade, claro, mas para ver se há muito eco do assunto: há algum, mas eu não sabia.

Vera Vouga não foi minha professora, mas foi de colegas e amigos que falavam dela, de vez em quando. E de como ela trabalhava os textos, a poesia. E era impossível não reparar nela nos corredores. Lembro-me sobretudo de uma noite de poesia, organizada pela AEFLUP, na qual leu alguns poemas de Daniel Faria. E gostei.

Escreveu sobretudo sobre poesia: António Nobre, Rui Costa, Boémia Nova e Os Insubmissos, Eugénio de Castro, do qual publicou obras na colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. Escreveu sobre, organizou o volume da poesia completa e ajudou a divulgar a obra de Daniel Faria, de quem foi professora. Mais informações sobre a sua carreira aqui.


Sobre ela, escreveu Jorge Reis-Sá um breve, mas notável, post.

Deixo eu também, como nos comentários que vi por aí, um poema de Daniel Faria. Já o coloquei aqui uma vez, fica novamente:

Explicação da Ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Dias de Melo, 1925/2008

José Dias de Melo: açoriano, professor primário, colaborador assíduo da imprensa regional e nacional e um profundo conhecedor da temática baleeira e da emigração. Além de tudo isto, escritor, iniciado nos anos 50 do século passado, com um livro de poesia intitulado Toadas do Mar e da Terra, a que se seguiram outros, com destaque para o seu maior sucesso Pedras Negras, que foi publicado, pela primeira vez, em 1964.

"O escritor açoriano Cristóvão de Aguiar afirmou à Lusa que Dias de Melo «ficará para a posteridade como um símbolo do homem do mar». «É um escritor baleeiro que deu um retrato real da vida do baleeiro. Aliás, ele próprio tinha essa experiência, chegou a ser baleeiro», lembrou.
«Dias de Melo marca, sem dúvida, a literatura portuguesa de significação açoriana», observou Cristóvão de Aguiar, que destacou na obra do escritor agora falecido a trilogia Pedras Negras, Mar Rubro e Mar P'la Proa e o livro de contos Milhas contadas." (a partir daqui, mais informações aqui).

Dele tenho, em lista de espera, o livro Tempos Últimos, da editora Salamandra.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Gatinho à descoberta

(fotos de um dos filhos da Kika, gata da Consti, nos livros dela)

«Ah, como é triste morrer quando há tantos livros que ainda li!»

M. Menendez y Pelayo


«O livro: amigo dos seus amigos, confidente e confessor, companheiro das insónias, recreio na solidão.»

S. J. Alvarez


«Tudo no mundo é feito para acabar por converter-se num livro.»

Stéphane Mallarmé


«O universo é um imenso livro»

Mohydin Ibn-Arabi

domingo, setembro 07, 2008

Fragmentos de contos do Vazio Repetido

Já há muito tempo que ponho aqui nenhum conto. Ou porque são muito grandes para um blogue ou porque não são assim tão grande coisa... Mas tenho cumprido religiosamente o meu compromisso de escrever um conto por semana (bom, às vezes atraso-me outras adianto-me, como agora, que tenho dois a mais;) o que é muito bom). Mas agora deu-me para pôr aqui uns fragmentos de alguns, só porque sim.


II. 21. A consistência dos sonhos
:
«Pegou na carteirinha amarela que dizia: «Um dia paro de esperar. Hoje é o dia». Despediu-se até ao dia seguinte e desceu a escadaria ladeada de estátuas. Não tomou o café. Correu para o autocarro que ali vinha e que esperou um pouco por ele. Tinha decidido, entretanto, que não esperava mais. Os sonhos não se compadecem de quem só espera. Há quem alcance, há quem desespere, há quem procure. E entrou, agradecendo ao condutor, enquanto a chuva recrudescia e o palácio ia ficando para trás.»


II. 24. O dia que não amanheceu:
«Tentei pegar no telemóvel para telefonar à Maria, para ver se ela me acordava com o telemóvel, mas não consegui, porque entretanto estava a ligar de olhos fechados e foi para outro número. Não sei se desliguei, se cheguei mesmo a marcar… Tentei berrar, porque ganhei a consciência de que mais alguém estava em casa. Era a Sandra, que estava a dormir no outro quarto. Ao berrar, acordei, e ouvi a Sandra dizer, Rápido, saiam todos que ele está a acordar. Olhei para o corredor e vi umas vinte pessoas saírem pela janela do quarto, para que eu não desse conta.»


II. 26. Teias de aranha:
«Entretanto, o senhor Eugénio foi-me chamando muitas vezes, não para o ver sobre questões de saúde, mas para me mostrar outras invenções em que se entretinha. Em poucos anos mostrou-me um conjunto admirável de descobertas próprias que ele mostrava inicialmente com orgulho, depois com relutância, depois com desespero. É que ao longo do tempo que me foi mostrando as suas invenções, eu fui-lhe explicando que aquelas coisas já existiam, inventadas por outros, antes, e que muita gente as tinha em casa, a seu uso diário. Desfilaram então pelos meus olhos a torradeira, que ele apresentava como a máquina de aquecer deliciosamente o pão, obrigando-me a provar uma fatia torrada lá com manteiga, e que nada tinha de excepcional em relação ao excepcional sabor do pão torrado na mais corriqueira torradeira; a campainha para pessoas que eram enterradas vivas por engano, que felizmente não me fez experimentar, respeitando a minha claustrofobia; um modo de gravar vozes em fitas que quase todo o mundo conhecia como cassetes mas que para o senhor Eugénio era novidade sua, exclusiva e radical. Aconselhei-o então, ao ver o seu desânimo, mas também o seu talento como inventor de diversas coisas, de diversos domínios, a deixar a sua casa torre de marfim onde se fechava, e a percorrer o mundo para ver o que já existia e o que ainda faltava. E assim partiu uns dias depois.»


II. 28. Sinais/Signos:
«Os funerais aqui ainda são antecedidos pelos sinais, toques específicos do sino da igreja. Durante muito tempo, sempre que tocavam os sinais, uma grande parte das pessoas da aldeia pensavam «Lá foi o António, coitado. Deus o tenha na Sua glória.». Mas não, o António continuava a resistir à doença que o roía por dentro há anos, contra todas as expectativas dos médicos. De tal maneira era assim que, a dada altura, o próprio António pensava que chegara a sua vez quando ouvia os sinais, sem se aperceber que ainda estava vivo e que se fosse por causa dele que tocavam os sinais ele não saberia, pois não os ouviria. Ou antes, era assim que eu pensava. Mas entretanto descobriu que as coisas são bem diferentes quando morreu e ouviu os sinais e soube que eram sobre si. E ouviu os pensamentos das pessoas que foram ao seu funeral.»


II. 30. O suave milagre de Tormes:
«Ninguém tem dificuldade em encontrar, pelo menos, o espaço bíblico no conto, as referências, enfim, toda uma construção a partir de Renan e della Gatina, também presente em «A Morte de Jesus» e em A Relíquia. Mas enfim, encontrar o tom bíblico na linguagem e sua instrumentalização, como ele dizia, era um pouco mais… forçado. Mas ele lá foi demonstrando a sua ideia. Acredite, levou provas a que chamou irrefutáveis de que Eça plagiara manuscritos meio secretos, meio perdidos, que teria adquirido, talvez, na sua ida à Terra Santa, ao Egipto e afins, aquando da inauguração do canal do Suez. Era uma tese ridícula, na minha opinião. Ele explorou-a muito, perante a minha incredulidade e indiferença dos restantes cursantes, cheios de sono àquelas horas da tarde de calor após refastelado almoço. Depois, não satisfeito, comparou com «A Perfeição», claramente, obviamente – diria eu – feita a partir de A Odisseia do bom velho e sonolento Homero, mas muito diferente dela. E quem faz uma assim, faz mais. Então, «O Suave Milagre», em todas as suas versões, não era mais do que isto: uma tradução, mais ou menos literal a que se seguiram as adaptações mais ao estilo do autor. Estava lá tudo, segundo ele. Só lhe faltava encontrar o manuscrito que Eça usara.»


II. 34. Para além das amoras:
«Mas C. era perspicaz e era de facto superior a todos naquela casa. A sua formação em literatura e as leituras que fez por dedicação e por prazer tinham-lhe dado uma enciclopédia interior que fazia com que soubesse portar-se em todas as situações, observando e vivendo ao mesmo tempo, antecipando sem esquecer, lembrando sem deixar de adivinhar as reacções. E depois havia o seu ar estudadamente indiferente que com o tempo se tornou natural em si, sem esforço. Pensava muitas vezes que aquilo que somos é fruto de coisas que fazemos uma, duas, três - as vezes suficientes para que se tornem rotina, e por isso, sem esforço, sem pensamento envolvido. Duvidava por isso de quem era realmente, do que era, do quanto haveria em si de construção que ela não deveria ter escolhido para si, pensando no entanto que era impossível saber que construções eram as indicadas ou não, todas elas passíveis de ser totalmente mudadas na sua construção… bastava, por exemplo, ela ter escolhido um curso diferente, ou em vez de se deixar maravilhar pelos livros se tivesse entusiasmado por bordados e vestidos – ou só por isto, como a maior parte das amigas que lhe queriam imputar, filhas de famílias de amigas de bem, vizinhas ou não, que vinham sempre às festas que a família teimava em organizar com alguma frequência e cuja organização, desta vez, deixaram para C., que já tinha idade para isso…»


II. 35. Fragmentos do funeral:
(do fragmento 11) «O amigo admirou-se, primeiro pela fraqueza que tomara o exilado em relacionar-se novamente com o outro, depois pela força em fazer o que fez, no meio do acto sexual. Admirou-o mais por isso e pelas palavras que ele sabia que eram sérias e que funcionariam para o exilado, embora nunca pudesse ser assim com ele.
- Fiz hoje o funeral dele.
Estas cinco palavras simples, talvez todas menos «funeral», ressoaram nos ouvidos de ambos como um acto real e consumado. E estava: era a tal palavra ontológica em que ele tanto acreditava e que por isso mesmo funcionava para ele. Naquela tarde o exilado fizera o funeral mental, sentimental do não exilado. Para sempre. Imaginou todos os passos de um funeral real, mas em que quem ia a enterrar era o seu sentimento pelo outro no mais recôndito de si. Nos dias seguintes andava pela casa como se nada tivesse acontecido.»


Bem, depois dos excertos todos isto ficou muito grande... se calhar era melhor um conto inteiro, mas ficam aqui estas pérolas da minha mente literária fértil... E parece-me que vou já escrever o conto número 38...

sábado, setembro 06, 2008

Luciana Stegagno Picchio 1920/2008

Homenagem atrasada, por desconhecença do sucedido. Morreu a 28 de Agosto, em Roma. Uma mulher italiana que se dedicou também às letras portuguesas: a sua obra e o seu magistério são uma referência obrigatória para os estudiosos de áreas como: filologia, literatura medieval, história do teatro português e literatura brasileira. Publicou, por exemplo: A lição do Texto (Lisboa, 1979) La méthode philologique com prefácio de R. Jakobson (Paris, 1982), La littérature brésilienne (Paris, «Que sais-je?», 1982 e 1996, trad. portuguesa e francesa) e La letteratura brasiliana (Florença-Milão, 1972, trad. romena, Bucareste, 1986), Storia della letteratura brasiliana (Turim, 1997; ed. brasileira, História da literatura brasileira, Rio, 1997). Publicou edições críticas de obras de Martin Moya (Le poesie, 1969), João de Barros (Diálogo em louvor da nossa linguagem, 1959), Gil Vicente (Pranto de Maria Parda,1963), Murilo Mendes (Poesia completa e prosa, 1994). Escreveu diversos ensaios sobre literatura de viagens, e sobre os modernismos português e brasileiro.

adaptado daqui.


Há vários artigos disponíveis na internet. Fica a ligação para um sobre Saramago, o que escritor que mais tempo me terá "ocupado" este ano, até mais do que o Arlindo Barbeitos...

em jeito de coisa

Trabalhar tem que se lhe diga, sobretudo quando se tem de arranjar nova casa, conhecer nova cidade (que se conhece só como turista), novas gentes, novas actividades... Vou ser professor a sério, finalmente, apesar do que eu dizia há uns meses aqui... Surgiu a oportunidade de experimentar a sério, e eu aceitei interiormente e lutei pelo lugar. Braga nunca mais será a mesma!


Saiu o meu primeiro artigo impresso! É um trabalho de mestrado sobre Pepetela, o primeiro que fiz. Revi, emendei e lá enviei. Foi publicado (e apesar de estranhamente terem feito um segundo parágrafo no meu texto onde ele não existia... vou ver se ainda resolvo isso, fiquei contente). Podem vê-lo aqui, onde também está um da Carla sobre Germando Almeida. Na barra aqui do lado têm o link do artigo na secção «Onde me podem ler - se não tiverem mais nada para fazer».


E vou ver como estão os três romances (O Fiel Jardineiro, Os Versículos Satânicos e Mau Tempo no Canal) que ontem se molharam na chuvada entre o meu apartamento e a estação de comboio de Braga... porca miséria!

domingo, agosto 31, 2008

Sugestões de Agosto


Mês de fim de festa. Assim mesmo, da festa da irresponsabilidade e do protelar até à última – tem corrido sempre bem, até agora. Menos coisas este mês, pela vida exterior que tive o prazer de desenvolver. Mas ainda assim, tempo para tudo – afinal o problema não é o tempo mas aquilo que fazemos dele. E eu fiz isto, entre outras coisas:

Livros:

1 – A Bíblia (Actos dos Apóstolos), Paulus***

argumentos: o seguimento dos evangelhos, mais concretamente do de Lucas, é o relato das viagens e palavras (=actos) dos discípulos de Jesus, animados pelo Espírito Santo que os ajuda e incita a espalhar a mensagem de Jesus pelo mundo. Focos em Pedro e, depois, em Paulo.


2 – Prosas Bárbaras, Eça de Queirós, Lello & Irmão****

argumentos: continuação do amigo Eça. Desta vez um livro que resulta de uma série de textos primeiros que Eça publicou, de nítida estética romântica, sobre arte, amor, vida: «Esta história é de há seiscentos anos – e de ontem à noite…»(p.55). Alguns aproximam-se do conto, outros da crónica, outros da carta. Mais: «É na natureza que se deve procurar a religião: não é nas hóstias místicas que anda o corpo de Jesus – é nas flores das laranjeiras.»(p.104).


3 – Ariel, Sylvia Plath, Relógio D’Água***

argumentos: conjunto de poemas de uma grande escritora norte-americana, talvez mais conhecida pela sua vida com fim trágico do que pela obra – mas vale a pena! Densa, difícil – pode ser que sim, mas tudo o é, quando se aprofundam sentidos. Dela postei aqui. Esta edição tem a vantagem de ser bilingue.


4 – Cartas de Aniversário, Ted Hughes, Relógio D’Água***

argumentos: conjunto de poemas-cartas dirigidas quase exclusivamente a Sylvia Plath, com quem foi casado. Obra e vida fundem-se sem limites bem-definidos. Tem textos muito interessantes, dos quais postei um aqui. Mais: «Não nos apercebemos/que os narcisos são um/fugaz vislumbre da eternidade.»(p.217).


5 – Se Isto É um Homem, Primo Levi, Público/Mil Folhas*****

argumentos: a obra extraordinária de um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocausto. Mas não é mais um simples relato do Holocausto; é um acto de fé na natureza humana. Difícil de ler pelo choque que provoca, mas impossível de deixar. Mais: «Muitas coisas então foram ditas e feitas entre nós; mas é bom que delas não se guarde memória»(p.13); «Então pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem.»(p.24); «As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem»(p.135).


6 – O Deus das Moscas, William Golding, Público/Mil Folhas*****

argumentos: um romance do pós-guerra marcado pela actualidade dos temas. O motivo central é o mal, em estado puro, que se apodera das crianças perdidas numa ilha desconhecida - mas que também pode ser a história da condição humana. Com um tom aparentemente ligeiro, que se adensa com o evoluir da permanência da ilha e os contactos uns com os outros. Duro, enigmático, extraordinário. Mais: «Rafael chora o fim da inocência, o negrume do coração do homem e a queda pelo ar daquele verdadeiro e sensato amigo que se chamava o Bucha»(p.222).


7 - Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio, INCM****

argumentos: ainda não terminei o livro mas gosto muito. A história de várias famílias nos Açores no início do século XX, centrada sobretudo numa personagem feminina chamada Margarida, descrita pelo narrador e pelas personagens de uma forma que a enche de particularidades especiais («encheu a testa de uma reticência triste»(p.66)). Mais: «O amor não queria confissões explicadas no vão de uma janela, nem alegorias literárias de um querer-bem concebido como matéria de um mito, ligado à rocha das ilhas e às noites de mau tempo no Canal.»(p.152). Muito interessante, com um prefácio de José Martins Garcia.


TV:

Os amigos de Brian (RTP2)****

argumentos: em repetição, nas tardes da Dois. Não vi quando deu à noite, mas estou a ver agora. E gosto bastante pelas histórias cruzadas de um grupo de amigos, seus problemas quotidianos e existenciais. Não admira que haja problemas por causa de Marjorie (Sarah Lancaster)– a jovem fantástica que por lá anda e que o italiano (Raoul Bova) se tenha casado com uma mulher mais velha – extraordinária (Rosanna Arquette). Pena que o italiano tenha morrido, até porque era das minhas personagens favoritas na série… Mas recomenda-se! Ainda com Barry Watson, Matthew Davis, Rick Gomez, Amanda Detmer, entre outros.

Foi o mês de Agosto de um ano olímpico – já se imagina o que andei a ver. Daqui a quatro anos há mais!


Música:

Deolinda, A Canção Ao Lado*****

argumentos: sobre os Deolinda já falei aqui. Mais não posso dizer, se não que são muito bons e que tenho ouvido muito, sobretudo «Eu tenho um melro» e «Movimento Perpétuo Associativo». A música portuguesa em grande!


Cinema:

Os Seis Sinais da Luz, de David L. Cunningham (filmes onde o fantástico domina conquistam-me facilmente. Gostei também deste, simples e interessante)****
A Time To Kill, de Joel Schumacher (apesar do mundinho dos advogados e tal, intenso)****
A Rainha das Andorinhas (animação Japonesa com desenhos bonitos e uma historinha com moral fácil, mas tão bonito!)****
A Chave Mestra, de Iain Softley (filme de terror sem monstros e sem sangue! Assim já vale mais a pena!) ***
La messa è finita, de Nanni Moretti (ele é doido, mas bom)***
Palombella Rossa, de Nanni Moretti (idem, ibidem)***
A Múmia 3 - a tumba do imperador dragão, de Rob Cohen (sem Rachel Weisz não é a mesma coisa. Mas é mau não apenas por isso…)**
Uma Noite no Museu, de Shawn Levy (Ben Stiller e uma cambada de personagens históricas em contacto. Gostei, no geral) ***
Casino Royale, de Martin Campbell (por favor…)**
Morte num Funeral, de Frank Oz (uma comédia inteligente)****
Bee Movie, de (adoro filmes de animação bem feitos)*****
The Mist, de Frank Darabont (se não tivesse monstrinhos visíveis seria bem mais interessante, e aquele final…)****
(alguns dos filmes em dvd com tradução em Português do Brasil...)

segunda-feira, agosto 18, 2008

1 poema de Ted Hughes

Chaucer

«Quando Abril com suaves aguaceiros
sacia a sede de Março até às raízes...»
Com a tua voz no seu tom mais elevado, balançando no cimo de um escadote,
braços erguidos - para te equilibrares e
segurares as rédeas da esforçada atenção
daquela tua audiência imaginária - declamaste Chaucer
para um campo com vacas. E o céu da Primavera fez o resto,
com a roupa lavada a escoaçar, o verde-esmeralda
dos espinheiros, o espinheiro branco, o espinheiro negro,
tu com um daqueles copos de champanhe
a que tinhas deitado a mão na arrebatação do momento.
A tua voz voou pelos campos até Grantchester.
Deve ter soado a perdida. Mas as vacas
olharam, e aproximaram-se logo: elas apreciavam Chaucer.
E tu continuaste. Havia razões
para recitar Chaucer. Seguiu-se uma divertida Mulher de Bath,
a tua personagem favorita de toda a literatura.
Estavas arrebatada. E as vacas fascinadas.
Empurravam-se e roçavam-se, faziam um círculo
para contemplar o teu rosto, dando alguns bramidos ocasionais
de exclamação, para avivar a sua assombrosa capacidade de atenção,
de ouvidos à escuta para apanhar todas as inflexões,
à respeitosa distância de dois metros.
Tu simplesmente não conseguias parar. Que podia acontecer
se resolvesses parar. Seriam capazes de te atacar,
assustadas com o choque do silêncio, ou só porque queriam mais? -
E por isso tiveste de continuar. E continuaste -
vinte vacas ficaram contigo, hipotizadas.
Como é que conseguiste parar? Não me lembro
De teres parado. Imagino que se foram embora cambaleando -
a revirar os olhos, como que atraídas pelo cheiro da erva.
Imagino que as devo ter enxotado. Mas
a tua interpretação de Chaucer em sustenido
já era eterna. Aquilo que se seguiu
encontrou a minha atenção demasiado ocupada
e teve de regressar ao esquecimento.



Ted Hughes, Cartas de Aniversário, tradução de Manuel Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2000, p.111



Cena do momento em que Sylvia Plath declama Chaucer para uma audiência constituída por Ted Hughes e vacas, no filme Sylvia de Christine Jeffs, com Gwyneth Paltrow e Daniel Craig (2003).

3 poemas de Sylvia Plath


Papoilas de Julho

Pequena papolias, pequenas chamas do inferno,
Vocês não fazem mal?

E tremeluzem. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos entre as chamas. Nada queima.

E fico exausta ao olhar-vos
A tremeluzir assim, pregueadas e de um vermelho vivo, como a pele de uma boca.

Uma boca que acabou de sangrar.
Pequenas bainhas ensanguentadas!

Há fumos que não posso tocar.
Onde estão o vosso ópio, essas cápsulas que dão náuseas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue, ou dormir!
Se minha boca pudesse casar com uma ferida assim!

Ou se os vossos venenos pudessem penetrar em mim, nessa cápsula de vidro,
Para me entorpecer e inquietarem.
Mas sem cor. Sem cor alguma.

***
A chegada da gaiola das abelhas

Encomendei isto, esta gaiola de madeira limpa
Quadrada como uma cadeira e quase tão pesada para se poder levantar.
Diria que era o caixão de um anão
Ou se um bebé quadrado
Se não tivesse lá dentro tal clamor.

A caixa está fechada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela
E não me posso afastar dela.
Como não tem janelas, não posso ver o que está lá dentro.
Há só uma pequena rede, sem saída.

Encosto os olhos à rede.
Está escuro, escuro.
Dá a sensação de um formigueiro de mãos africanas
Reduzidas e apertadas para exportação,
O preto sobre o preto, a trepar furiosamente.

Como é que as vou deixar sair?
Assusta-me o barulho mais que tudo,
As sílabas ininteligíveis.
É como a plebe de Roma,
Gente pequena, vistos um a um, mas juntos, meu Deus!

Dou ouvidos a este latim em fúria.
Não sou um César.
Apenas encomendei uma caixa de doidas.
Podem ser devolvidas.
Podem morrer, não tenho de as alimentar, sou a dona.

Pergunto-me se terão muita fome.
Pergunto-me se me esqueceriam
Se eu abrisse a fechadura e ficasse parada e me transformasse em árvore.
Como o laburno, em suas colunatas de oiro,
Ou a cerejeira com seus saiotes.

Talvez me ignorassem de imediato
Vestida com o meu traje lunar e o véu de luto.
Não sou fonte de mel
Por que razão se haviam de voltar contra mim?
Amanhã vou fazer de bom Deus, vou libertá-las.

A caixa é apenas temporária.

Sylvia Plath, Ariel, tradução de Maria Fernanda Borges, Lisboa: Relógio d’Água, 1996, p.165, 127.

*****
Colher amoras

Ninguém nas veredas e nada, nada além das amoras,
Amoras de ambos os lados, embora mais à direita
Uma aléia de amoras descendo em curva e um mar
Se alçando lá no fim. Amoras
Grandes como o meu polegar e a silenciar como olhos
De ébano nas sebes, gordas
De sumo azul-vermelho. O sumo esbanjam entre meus dedos.
Eu não pedira esta fraternidade de sangue: — elas na certa me amam.
E se acomodam em meu jarro, achatando-se os lados.

No alto, as gralhas negras, revoada cacofónica
— Pedaços de papel queimado girando num céu a pleno.
É delas a única voz protestando, protestando...
Acho que o mar não aparecera.
As campinas altas e verdes resplandecem como acesas por dentro.
Chego a um arbusto cheio de amoras tão maduras que o arbusto é de moscas
Pendentes, suas barrigas verde-azuladas e os vitrais das asas numa tela chinesa.
A festa de mel das amoras alvoroçou-as. Elas acreditam no céu.
Uma curva mais: amoras e arbustos terminam.

Tudo o que vem agora é o mar.
De entre dois morros uma súbita brisa se afunila em direção a mim
E me esbofeteia a face.
Esses montes são muito verdes e doces para quem provou sal.
Entre eles, sigo a trilha das ovelhas. Numa última curva
Alcanço a face norte dos montes, cor de laranja e rocha
E a face olha para nada, nada exceto um grande espaço
De luzes brancas metálicas; nada exceto um ruído de ferramentas sobre a prata,
Os golpes e golpes contra um metal intratável.

Lido aqui. http://br.geocities.com/edterranova/sylviap3.htm

domingo, agosto 17, 2008

Deolinda e enfins

Sábado. Eu, a minha irmã e a minha priminha em direcção a Vila Real para ver e ouvir os Deolinda no teatro. Estive todo o dia a ouvir com atenção o álbum (lá conseguiu abrir excepção à banda sonora do Expiação). Muito bom, divertido, fresco, com qualidade. Original - arriscaria. E queria ouvir e ver os Deolinda cantar as minhas favoritas, «Movimento Perpétuo Associativo», «Fado Toninho» e «Fon fon fon», «Eu tenho um melro», entre outras como «Contado ninguém acredita», «Canção ao lado», «Garçonete da casa de fado» (que se pode ouvir aqui). Mas como choveu de manhã, a organização teve medo de fazer o concerto no auditório exterior e meteu tudo no interior. O teatro encheu e já não tivemos bilhete. Rumámos então à Régua para ver o fogo de artifício da festa da Senhora do Socorro (segunda noite de fogo), e conversar com a Joana. A noite acabou com duas tererés (não em mim, claro) e gelados daqueles feitos na hora de morango e baunilha...


Entretanto um artigo meu vai ser publicado - será o primeiro, sobre Pepetela, numa revista brasileira. Seguem-se outros, que isto agora ninguém me pára...
Apenas me pára a mousse de chocolate branco com pepitas de chocolate de leite que me espera daqui a pouco ;)

segunda-feira, agosto 04, 2008

Tormes 2008


Voltar a Tormes foi reencontrar os espaços de dois anos seguidos, com um de intervalo para este. e reencontrar as pesoas e as memórias - das que lá se reviram e das que se encontram noutros espaços, com outras pessoas.

20 de julho - fui cedo para a Ermida. Na estação conheci o Muamba (Angola, Univ. de Lisboa) e ao chegar ao meu quarto deste ano (piso de baixo da Casa do Túnel) conheci o Fábio (Brasil, Univ. de Évora), com quem partilhei o espaço. Um quarto com duas camas, vista para a linha de comboio e para a casa principal da Quinta. Conversei muito com o Fábio, na esplanada, sobre literatura, sobretudo, e também sobre Florbela Espanca (objecto da dissertação dele - e eu, para espicaçar e ser do contra - dizia que ela não era propriamente literatura, mas enfim). Ao jantar foram-se conhecendo mais pessoas, muitas. E no dia seguinte, outras: o Manuel, que se revelou um excelento leitor, a Tina (Madeira) mulher de força, a Helena (Porto, a ser orientada pela minha madrinha de curso) minha «esposinha», já que é a Rosinha de A Ilustre Casa de Ramires e eu sou o Gonçalo Ramires - brincadeira de atribuir nomes das personagens do Eça a alguns dos participantes, a Tânia (Porto) com quem falei de várias coisas, a Aldinida (Brasil) amigona já do ano de 2006, a fazer «doutorado» sobre Inês de Castro nos romances contemporâneos, o David (Salamanca), a Joana (Barcelona - a estudar lá...), a Flávia (Timor, Univ. Porto), a Paula (Coimbra - e conhece a minha aldeia porque tem lá família!), a Michelle (Brasil) e a sua história verídica do rato, a Andreia (Brasil), a Carolina (Brasil) com quem muito conversei sobre tudo e nada, e outros, muitos...

21 de julho - Após uma noite terrível em que não preguei olho por causa da infiltração que estava a cair em cima da minha cama, do calor e do ressonar do Fábio, tomamos o pequeno-almoço habitual e fomos para a Fundação. Início das sessões com Isabel Pires de Lima (Univ. Porto), seguida de Monica Figueiredo (Brasil, Univ. Federal do Rio de Janeiro) e Ana Luísa Vilela (Univ. Évora). Sobre o tema apelativo: «Mulheres: sedução e desejo». Cada uma com o seu estilo próprio, todas com muitas coisas interessantes a partilhar. Isabel Pires de Lima fez uma contextualização, biografia, bibliografia, a professora Monica Figueiredo falou de «O século XIX ainda não terminou» e a professora Ana Luísa Vilela falou de alguns aspectos ideológicos das mulheres n'Os Maias. Depois do curso, tempo livre na Ermida, para piscina, novas conversas, novos contactos.

22 de julho - Após nova noite sem dormir, agora por causa só da sinfonia vocal/nasal do Fábio, o dia começou com Isabel Pires de Lima a terminar questões do dia anterior, Ana Luísa Vilela falou de mulheres como Maria Monforte, Miss Sara, Raquel Cohen e afins, Monica Figueiredo explorou as mulheres de O Crime do Padre Amaro. Depois tivemos a visita à casa-museu da Fundação, tuo explicadinho pela Drª Sandra, e à noite jantámos na Fundação, com uma recriação do século XIX e o famoso arroz de favas, a canja, a galinha assada e o assombroso leite-creme. Durante o jantar houve ainda uma encenação feita pela Filandorra da chegada de Jacinto e seu amigo a Tormes, a partir de A Cidade e as Serras. A minha mesa estava muito (demasiado?) animada: histórias muito engraçadas iluminaram o jantar mais intensamente do que os candeeiros a petróleo!

23 de julho - Após uam noie curta, mas bem dormida, já que usei o «anti-fábio» (assim apelidado pela Paula), ou seja, uns tampões que a Carolina me deu para eu conseguir dormir, estudámos o Eros e a Ausência n'Os Maias com a professora Ana Luísa, o desejo no conto »Singularidades de Uma Rapariga Loura» e em O Crime do Padre Amaro e respectivas ilustrações feitas por Paula Rego, com a professora Isabel Pires de Lima, e a professora Monica falou-nos de O Primo Basílio e A Ilustre Casa de Ramires. Passeio para ver o cemitério onde estão sepultados os restos mortais de Eça de Queirós e jantar no Casarão, após muitas voltas que afectaram alguns de nós; lá houve a surpresa do costume: o trio a tocar acordeão, ferrinhos e tambor. Foi fraca a recepção. Alguns (eu incluído) ainda esboçaram um comboio, mas sem adesão dos outros. Leitura colectiva do conto «José Matias», em voz alta, ao ar livre, nos bancos da quinta, à noitinha.

24 de julho - Problemas de sono resolvidos (ou quase). Isabel Pires de Lima termina o conto e aborda um outro, «No Moinho». Ana Luísa Vilela avança e termina com Maria Eduarda e com «A Gramática Erótica d'Os Maias». Seguiu-se uma visita a Resende para ver o mosteiro de Sanat Maria de Cárquere, mas fomos também a Ancede ver um mosteiro que está a ser recuperado. À noite tivemos um beberete na eira da Fundação, seguido de um concerto com peças de Offenbach pela Orquestra do Norte, dirigida por José Ferreira Lobo e com a prticipação da soprano Delphine Doriola e do violoncelista Yoel Cantori. Foi muito bom e concorrido, apesar do frio... A deusa apareceu deslumbrante nessa noite, no seu vestido roxo... falo de uma senhora de Évora...

25 de julho - Dia chuvoso após a noitada (ou quase, já que para mim foi só até à 1h20). mais cedo, para termos tudo controlado, fomos trabalhar com a professora Monica Figueiredo as personagens d' Os Maias,e depois a professora Isabel Pires de Lima terminou «No Moinho» e trabalhou o «José Matias». Diplomas entregues, almoço desfeito, partimos para a estação de comboio, uns na direcção do Porto, eu nna direcção da Régua... Ficam novas experiências, conhecimentos, amizades, colegas... E continua a valer a pena cá voltar!

Lista de frases/provérbios e outras coisas dignas de registo:

«Onde Judas perdeu as botas» Aldinida, sabedoria popular

«Fortemente elegante» Tina, para o Fábio se auto-caracterizar

«Excessos de fofura» Aldinida, sobre banhitas que se acumulam na barriga

«Onde o vento faz a curva» Carolina, sabedoria popular

«És mesmo do contra» Fábio, sobre mim

«Da hora, mano» Carolina, com os dois polegares levantados e ostensivos

«Deixa estar, o veterinário mandou não contrariar» Aldinida, sabedoria popular

«Fazer um chá» Aldinida (não ouso traduzir esta expressão, é demasiado sexual para o conteúdo deste blogue

sexta-feira, agosto 01, 2008

Músicas (com a A. Verde)

E eis senão quando se encontram mais coisas perdidas dos saudosos tempos de EP. Três canções, escritas com a A. Verde. Uma outra já aqui foi postada. Dos mesmos tais cadernos especiais...


Underneath your Latin (Meta-se aqui a Shakira, A. P. Quin.)

Tu és uma canção
Escrita pelas mãos do tempo
És romana, alçapão
Do nosso alento
Mas tu vais-te embora
Vai-te com o vento
Só falta uma hora
P’ro fim do tormento!

Refrão:
Debaixo do latim
Está toda a fonética
Coitado de mim
Já nem tenho ética.
Prefiro ir para o jardim
Ou p’ra cadeira eléctrica.

*****

Jura (Rui Veloso, Fr. Tp.)

Jura que me vais dar positiva
Dessas que ficam bem na vitrina
E nos dão alta média
Para compensar as outras
Que, por acaso,
São fracas.

Jura se me deres negativa
Vai ser alta e bonita
Vais levar-me à oral
Vais passar-me no final
Com uma nota qualquer
Acima de treze
O sonho de nota a ter.

Jura que me vais passar
Se eu os textos estudar
Jura (…)

Mas se tiver de ser
Ao menos passa-nos em Setembro!

****

Educação e Cidadania (Rui Veloso, Fr. Eva.)


Quem vem a Educação
Sofre do coração
Leva a cidadania
Mata-nos logo a alegria.
Quem nos vê a estudar
Começa logo a chorar,
Chama o INEM depressa
Antes que o corpo arrefeça.

E é sempre um sofrimento
Estas aulas de tormento
E ver-te a falar tão baixinho
Acaba a aula mais cedinho.

quinta-feira, julho 31, 2008

Sugestões de Julho

Neste mês a A. Verde chamou-me várias vezes «viajante». Não o serei, até porque aprendi já que viajar é bem diferente de deslocar. Mas ainda assim, andei muito por aí, dividido entre Poiares, Lisboa, Tormes, Porto, Braga… A estabilidade precisa-se, urgentemente. No meio de tanta deslocação foi possível ler, foi possível fazer algumas coisas. Balanço de mês muito positivo, apesar de tudo e de tanta coisa. Aqui ficam algumas.

Livros:

1 – A Bíblia (Evangelho Segundo São Lucas e Evangelho Segundo São João), Paulus****

argumentos: novas versões sobre os mesmos factos, ou factos a mais ou a menos que surgem nos diferentes relatos. E gosto disso, de perspectivas diferentes. Mais: «Quem não está comigo, está contra Mim. E quem não recolhe comigo, espalha.» (Lc 11, 23) e «Jesus fez ainda muitas coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que os livros que seriam escritos não caberiam no mundo.» (Jo 21, 25).


2 – Os Nomes (1961-1974), Gastão Cruz, Assírio e Alvim**

argumentos: embora não me tenha agradado muito a sua poesia, que me pareceu demasiado artificial, postei aqui dois poemas.



3 – O Desenho no Tapete, Henry James, Relógio d’Água****

argumentos: uma novela interessantíssima em torno dos problemas da literatura. Misteriosa, hábil, bem construída e que vale a pena conhecer. Mais: «Lembro-me de que ele me disse que ela sentia em itálico e pensava em maiúsculas» (p.35).


4 – A Ilha de Páscoa, Pierre Loti, Teorema***

argumentos: livro de viagem à estranha, inóspita e misteriosa ilha de Páscoa, descrita com os pormenores do homem que chega ao local do exótico e se tenta aproximar o mais que pode ao outro. Tem passagens muito bonitas. Mais: «No meio do Grande Oceano, numa região por onde nunca ninguém passa, existe uma ilha misteriosa e perdida; não existe outra na terra nas duas proximidades e, a mais de oitocentas léguas em redor, apenas a circundam inquietas e vazias imensidades. Encontra-se pejada de altas estátuas monstruosas, obra de qualquer raça ignorada, hoje perdida ou desaparecida, e o seu passado é um enigma.» (p.5).


5 – As Traquínias, Sófocles, INCM***

argumentos: numa fase em que ainda se pensava no TETRA, decidi ler textos de teatro que ainda por cá andavam. Uma tragédia como deve ser, em torno de Héracles e Dejanira, que tenta manter o marido preso a si pelo amor, mas provoca antes a ruína da família. Gostei de voltar aos clássicos gregos e de recordar a minha primeira paixão cultural, quando ainda tudo para mim de bom vinha daqueles lados. Boa tradução com introdução explicativa. Mais: «Como um marinheiro que no seu barco recolhe carga em excesso, assim eu fiz, para ficar com o coração em destroços.» (p.55).


6 – O homem que se puniu a si mesmo, Terêncio, INCM**

argumentos: idem em relação ao livro anterior, mas desta vez uma comédia, latina, de que não gostei tanto, porque o enredo é uma confusão pegada e parece-me haver ali fragilidades... Mas bem traduzida, anotada, prefaciada… Mais: «Sou um homem: e nada do que é humano eu considero alheio à minha natureza.» (p.40)


7 – Antologia Poética de Carlos Nejar, prefácio, organização e selecção de António Osório, Pergaminho***

argumentos: breve conjunto da poesia de um importante poeta brasileiro, bem prefaciada e conseguida. A sua poesia tem momentos interessantes, como tentei mostrar pela minha selecção breve, aqui.


8 – Cartas de Inglaterra, Eça de Queirós, Europa-América****

argumentos: em época de Tormes, decidi ler as coisas «ecianas» que andam por casa sem terem ainda sido lidas. Esta edição é má, saiu grátis com um jornal no ano passado (já agora, as melhores edições do Eça: as dos Livros do Brasil estão já superadas pelas que vão agora saindo na INCM, edição crítica, e Presença, edição apenas do texto, sem aparato crítico, mas resultantes da mesma edição da INCM), mas os textos são muito interessantes, sobretudo pela ironia e pelos temas: literatura, colonialismos, Londres e arredores, as questões agrárias e relação com a Irlanda, o Natal e a literatura dele ou nele… Mais: «Dai a César o que é de César! Houve só um homem, Brutus, que deu a César o que a César era devido: um punhal através do coração!» (p.13), «Eu não reclamo que o país escreva livros, ou que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão escritos, e que se interessasse pelas artes que já estão criadas.» (p.116).


9 – O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, Mensagem***

argumentos: idem em relação ao anterior. Novela escrita por dois amigos que decidiram escandalizar a sociedade Lisboeta da época, com uma história sobre um assassinato e uma assalto estranho e uma história que envereda para uns intrincados casos romanescos. Interessante pelo jogo de real/realidade/ficção que se tenta criar: «Ah! Como toda esta história é artificial, postiça, pobremente inventada!» (p.86). Mais: «É meu sistema admitir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquilo que me apresentem como coisa positiva. É o único meio prudente de nunca nos afastarmos muito da verdade.» (p.70); «Não sou uma mulher, sou um romance.» (p.206).


10 – Alves e Cª., Eça de Queirós, Atena****

argumentos: idem. Uma novela em que tudo corre rápido e breve, mas com tempo para tudo, como o Eça faz muito bem. O adultério centrado naquele que é traído, no homem da casa, o que dá uma perspectiva diferente do assunto na obra de Eça. Com uma boa dose de humor e ironia fina. Mais: «e parecia-lhe ver por toda a cidade esta sarabanda de amantes e de maridos, uns escapulindo-se, outros tentando apanhá-los, um chassez-cruisez de homens, perseguindo-se em torno das saias das mulheres!» (p.73).


11 – Expiação, Ian MCEwan, Gradiva*****

argumentos: ora finalmente o livro do filme de que mais gostei do ano passado. História magistral, análise de sentimentos e reacções, imagens fortes (a das duas figuras junto à fonte com a jarra a partir-se e o mergulho de Cecília na fonte, o sexo na biblioteca, contra a estante de livros – das coisas mais fantásticas que li sobre o assunto), simbólicas, estruturas inesperadas e vitalizadoras… Um romance a todos os níveis notável. Apaixonei-me obviamente por Cecília, tinha de ser. Mas também Robbie e Briony me seduzem muito, profundas e bem construídas. O livro, como o filme, também nos coloca a terrível questão do perdão perante uma coisa imperdoável, perante a expiação de uma culpa que arruína outros seres, perante a própria essência do homem. Muitas reflexões sobre a escrita, sobre a literatura, sobre as pessoas que lêem. De destacar também a relação que se cria entre autor do relato/personagem/relato e a realidade daquilo que ela, Briony, quer fazer, tantos anos depois. E a verdade bruta que irrompe no fim e que choca, mesmo a quem já conheça a história. É um dos que me ficam para a vida. Mais: «Robbie e Cecília tinham passado anos a fio a fazer amor – por carta.» (p.235), «O problema tem sido este: como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus?» (p.417).


TV:

Pushing Daisies*****

argumentos: a nova série das segundas-feiras da Dois: é extraordinária! Série de Bryan Fuller, conta a história de Ned (Lee Pace), um pasteleiro, que tem o dom extradordinário de, através do toque, pode fazer os mortos reviverem (e assim ajuda um detective a resolver alguns casos) mas também a de matar, exactamente com o mesmo toque (e por isso mantém uma relação amorosa peculiar com a sua paixão eterna, Chuck (Anna Friel), a quem deu uma segunda vida). Tudo isto narrado por Jim Dale, num tom de história de conto de fadas, com cores muito vivas, música orquestral e efusiva, num ambiente perfeito! Vale mesmo muito a pena ficar na Dois: à segunda-feira (e terça, quarta, sexta…).

Música:

ColdPlay – Viva La Vida*****

argumentos: mais um brilhante álbum dos ColdPlay, uma das minhas bandas favoritas. Neste dizem-se mais sexys, menos melancólicos, mas o que estava de bom nos outros continua aqui. Gosto muito da presença da morte por aqui, embora o álbum se inscreva sob a égide da vida. Destaco «Life in Technicolor», «Cemeteries of London», «42», «Viva la Vida», «Violet Hill», «Strawberry Swing», «Death And All His Friends» entre outras. «Violet Hill» teve uma edição especial on-line, no sítio do grupo, e grátis, assim como outra, não incluída no cd, «Death will never conquer».

Atonement OSTExpiação (Banda Sonora)*****

argumentos: a música composta para o filme Expiação de Joe Wright pelo italiano Dario Marianelli. 14 temas extraordinários, batidos pela máquina escrever, em que cada que nota transparece um sentimento trágico e imensamente triste… ou não… sei lá. Vencedor do Óscar para melhor Banda Sonora Original - sem qualquer tipo de dúvidas! Mas acompanha muito bem o filme, o livro, a vida. Muito bom! No youtube podem ouvir-se algumas das músicas.


Cinema:

A máscara de cristal*** – de Dave McKean. Fantástico interessante, com implicações lógicas demasiado lógicas, mas com pormenores muito interessantes.
10000 a.C.** – de Roland Emmerich. Épico a que falta muita coisa para o ser, mas vê-se bem…
Butterfly on a wheel** - de Mike Barker, com Gerard Butler, Maria Bello e Pierce Brosnan. De fugir, não pelas interpretações, sobretudo pela de Gerard Butler, mas pelo enredo recambulesco, angustiante sem motivo, e estúpido.
Antárctida**** – de Frank Marshall, com Paul Walker, Bruce Greenwood, Moon Bloodgood, Jason Biggs. Forçados a deixar para trás a sua amada equipa de cães de trenó devido a um acidente inesperado e a condições atmosféricas perigosas na Antárctida, os cães têm de sobreviver sozinhos ao Inverno rigoroso, durante 6 meses, até os aventureiros conseguirem montar uma missão de salvamento.
Meet the spartans*** – paródia muito paródica de 300, mas também de outros filmes e personalidades do mundo do espectáculo. E por muito que se estranhe, eu gosto deste tipo de filmes, pela parvoíce e pelo puro objectivo de fazer rir!

domingo, julho 27, 2008

Prémio Camões 2008

Em conversa com uma amiga brasileira, especialista em literatura, comentámos a distinção de 2008 a João Ubaldo Ribeiro. Ela pensava noutros, eu não pensava neste, dentro da literatura brasileira. Mas estava convencido que seria do Brasil, este ano, o escolhido. Ela sugeriu Ariano Suassuna, eu Manoel de Barros. Da literatura portuguesa não avançámos ninguém. Das africanas eu afirmei o valor de Germano Almeida (Cabo Verde), Mia Couto (Moçambique), Manuel Rui (Angola) e Ruy Duarte de Carvalho (Angola). Outras coisas aqui.


O autor está publicado em Portugal. O Sorriso do Lagarto na Caminho, e muitos outros na D. Quixote, como Miséria e Grandeza do Amor de Benedita e o polémico A Casa dos Budas Ditosos, na D. Quixote. Escrito em 1998, por encomenda da Editora Objectiva para uma série de livros sobre os sete pecados capitais, A Casa dos Budas Ditosos trata do pecado da luxúria. Tempo para o descobrir...

"E as pessoas lêem romances, biografias, confissões e memórias porque querem saber se as outras pessoas são como elas. Não somente por isso, mas muito por isso. Querem saber se aquilo de vergonhoso que sentem é também sentido por outros, querem olhar mesmo pelo buraco da fechadura e, quanto mais olham, mais precisam olhar, nunca estarão saciadas. Faz bem, é reconfortante. Porque eu tenho a convicção que a maior parte das mulheres e homens é como eu e pensa que não, cada um pensa que é único em suas maluquices. Não é, não, somos todos iguais. Vai ter muita gente que vai ler isso e vai discordar e de novo estou com preguiça de argumentar. Largue este texto, então, não perca seu tempo. Não largou? Não largou, claro, chegou até aqui."

A Casa dos Budas Ditosos
, Publicações D. Quixote, p.132

sábado, julho 19, 2008

palavras africanas

Texto que escrevi ao Luandino, no caderninho do nosso encontro...

À «hora das quatro horas» é que sabe bem a dor [que] purifica a beleza». A dor da descoberta difícil do prazer de ler, do «ser e não ser, ao mesmo tempo», das palavras que são «um búzio ressoando nos [m]eus ouvidos»…
«Para poder pôr» as palavras, «primeiro pergunta-se saber» que marca deixou Luandino em mim?
Primeiro: o nome que me acompanha sempre na boca de alguns amigos, por causa do «Pedro Caliota» (uma das minhas estórias favoritas) todos me chamam «Mau-Miau» («o gato não miava, era só gordachucho, se chamava é o Mau-Miau.»).
Segundo: a beleza das coisas vistas de forma desigual, «tal igual» a ninguém.
Minhas palavras. Se dão bonitas, se são feias, os que sabem ler é que dizem. Mas juro que é assim e não admito ninguém que duvide.

(recuperando estruturas e expressões de: João Vêncio, Luuanda, Macandumba )– 06/06/05


+


Um beijinho de parabéns à Ana Luísa, com as palavras africanas de que tanto gostamos:

«Ali defronte, abriam-se aos olhos de Ruca as vagas que rebentavam lá em baixo. "Sim, vão matar." Que mistério era aquela grandeza de espuma branca, eriçando o mar?
- Vocês não gostavam de ser onda?
- Deve ser bom. Assim por cima da água nem é preciso saber nadar. Quem me dera ser onda! - E Beto abria os braços.
- Mas Ruca - considerou Zeca -, não se pode ser onda. Ainda se uma pessoa fosse entrava com essa força do mar onde a gente queria. Onda ninguém amarra com corda.»

Manuel Rui, Quem me dera ser onda, 6.ª edição de Lisboa, Edições Cotovia, 2001, p.60

quinta-feira, julho 17, 2008

3 poemas de Carlos Nejar

LIMITE

Meus mortos, somos ligados
ao mesmo monte.
Porém, o que nos separa
é o estar adiante.

Não vos atinjo
e esta distância
é que me torna cativo.

Há um invólucro apenas
a ser quebrado.
Meus mortos,
há um invólucro apenas
e os meus sonhos vastos.
****

DEUS NÃO É A PALAVRA DEUS

Deus não é a palavra Deus
e andorinha,
a palavra andorinha.

Há um poço
que não entra
na palavra poço.

O amor, na palavra amor.
E Deus é tudo isso.
****

O Guitarrista Cego, Goya


O CEGO DA GUITARRA (GOYA)

Cego com os olhos
e morto. Cegos
os ouvidos. Cegos os olhos
de remota lembrança.
Nariz adunco e morto.
Chapéu entornado
E morto. Sob a capa,
Mortalha. Morto
morto morto.

Mas a guitarra
salta, a guitarra
letrada e casta
jorra e alegria
de um povo
em torno.

A guitarra é o cego.
A guitarra é o cego.
A guitarra tem os olhos
acesos.


Antologia Poética de Carlos Nejar, organizada por António Osório, Pergaminho, p.55, 98, 159

segunda-feira, julho 14, 2008

I'll Be Lovin' U Long Time + umas coisas

Porque tem tudo a ver. O título, e outras coisas. e porque gosto. Gostamos. Espécie de música do par ou assim... Quem sabe percebe o que quero dizer. E não é só por ser da minha Mariah...

****

Há uns tempos dizia eu à Denise que um dia eu é que iria precisar de uns miminhos. E pimba, ela escreve «Um baobá para o TUlinho». E tempos depois bem pecisava, e quem se apercebeu lá mos deu, à sua maneira. Entre a recusa da bolsa de Teatro, sem qualquer outra coisa financeira em vista, a não ser uns concursos com muito poucas probabilidades de conseguir, para Timor e Guiné, ou uma bolsa de doutoramento para a/o quais não tinha a menor preparação/disposição para concorrer, ainda com o mestrado por acabar... entre a recusa, dizia eu, e a partida no meu coração no avião (ok, um pouco foleiro, eu sei) e a minha ficada, houve momentos muito bons.

Os últimos tempos em Lisboa foram do melhor, com a presença da Patrícia e da Marta no curso livre sobre José Saramago. Os almoços, o eléctrico, as fotos (que ainda não tenho, mas terei)... Mas também a FIA, com a Inês (minha prima), onde me diverti bastante e falei muito com a Natacha que estava a fazer negócio... Mas uns dias estranhos no Porto, com encontros (Marta, Ana Verde), muitas pesquisas internéticas, passeios, compras na Springfield, e uma ida a Braga espectacular onde garanti um emprego para o próximo ano: Colégio D. Diogo de Sousa, a dar aulas de Língua Portuguesa (5.º, 7.º, 8.º e 10.º).

Mudanças súbitas que me vão alterar a vida a partir de Setembro, ou já a vão mudando hoje em dia. Segue-se Tormes, para descansar de tudo isto e encher-me de pessoas novas e mais Eça. Terceira vez lá (cf. 2005, 2006), com a Aldinida (foi também em 2006)

****

Demorei muito a escrever isto porque... sei lá...

domingo, julho 06, 2008

Diz que é uma espécie de nostalgia

ou então não. Mas deu-me para rever os meus cadernos dos Pensamentos Ligeiros, do número 1 ao número 7 (entre 1998 e 2003), à procura de alguma coisa que pudesse aproveitar para estórias do meu livro de contos deste ano, Vazio Repetido. Surgiram algumas, sim. Mas lá encontrei algumas coisas fantásticas dos tempos de EP que não partilhei ainda. Aqui ficam:


"os pobres vestem sarapilheira, os ricos vestem seda." Ar. Sar.


Numa reunião da AEFLUP, discutindo uma proposta que nos tinham feito, muito estúpida, mas que não podíamos recusar:

Bel: "Mas isso é uma punheta..."
Que: "Que nós temos de engolir..."


A estudarmos para Literatura Portuguesa I:

Su: "BAudelaire, p#$% que o pariu!"


E, finalmente, a minha versão daquela música que eu adorava (ui ui), a Menina Azul:

Viagra Azul
.
Senhor doutor
dê-me comprimidos para pinar
desde que eu a comi
que eu não consigo mais brocar

Viagra Azul, Viagra Azul...

Estou tão deprimido
sem saber que fazer
pobre e mal vestido
sem conseguir mais f...er

Viagra Azul, Viagra Azul...

E penso em ti a toda a hora
penso em ti pela noite fora
Viagra Azul, Viagra Azul...

E sexo e sexo, todas as posições e sexo,
Passear contigo na farmácia, pinar é tão bom
E a mão lá no coisa,
E a boca também,
ai é, não é, pois é...


Nota:
Milai, ainda está num desses cadernos uma alça do teu soutien, em silicone, que se estragou quando estavas na residência, no meu quarto, a preparar-te para ir para a queima, na mesma noite em que a Bruna apanhou com o isqueiro na testa e teve de ir para o INEM... Só nós...

quarta-feira, julho 02, 2008

2 poemas de Gastão Cruz


A solidão estava
aqui sobre esta praia
a solidão ainda
usa estar e nascer

na areia e na água
nestes dias de agosto
na rotina de outubro
de setembro no choro

que pode vir do sol
demasiado quente
de toda a alegria
que a luz tem neste tempo

A solidão ardia
nas páginas dos livros
e arde com um fogo
demasiado vivo

Assim se espera sobre
a areia da praia
um fogo diferente
da rotina e da água

Assim se espera um fogo
diferente da prosa
assim se espera um fogo
assim se espera a morte

Assim se espera o fogo
com a vida aprendido
assim se espera um fogo
assim se espera a vida

****

As vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos


Gastão Cruz, Os Nomes (1961-1974), p.105-6, 190