domingo, janeiro 31, 2010

Desafio em Janeiro


já escrevi aqui que este ano seria mais modesto nas minhas ambições de leitura este ano. 80 livros. Para poder ver mais filmes, sair mais, fazer outras coisas. Bom, não é interiamente verdade, porque o que se promete nem sempre se cumpre (de 100 previstos li 120, no ano passado), e a quantidade nem sempre é proporcional à qualidade: dos livros e da minha capacidade de os entender... já para não falar de tamanhos. e por outros motivos que não me apetece agora referir.

assim, este mês foi bom. Oito livros lidos, doze filmes vistos. Nada mais (ouvir música em casa, muito, não conta).
a saber, dos livros lidos: Lídia Jorge com um romance muito bom («esse dia glorioso de quase três meses»p.171); insatisfação e paixão crescentes que não levam a nada, no livro de Tom Perrotta («Cada vez mais, os dias da semana pareciam fundir-se como lápis de cera esquecidos ao sol»p.19); por dever escolar, Ana Saldanha, numa relação ficção/verdade muito interessante e com muitas potencialidades de exploração educativa; a brevidade de livros escolhidos para esperas em acções de formação e transportes - Sapho («Medo desse vazio tão cheio»p.7), Blaise Cendrars, Sun Tzu (As Quatro Estações/Não têm/ Estação definitiva»p.40) - ; Os Verbos Auxiliares do Coração como a desilusão de um romance com um título tão promissor (enfim, não é assim mau, mas o título é mesmo bom - «Sinto-me desenraizado, porque eu próprio sou a raiz»p.53); o exagero da vida e da morte em Apollinaire...

1. Pecados Íntimos, de Tom Perrotta, Bico de Pena, 360p.*****
2. O Romance de Rita R., de Ana Saldanha, Caminho, 200p.****
3. Sapho, de António Manuel Esquível, Colares, 32p.***
4. Poesia em Viagem, de Blaise Cendrars, Assírio & Alvim, 180p.***
5. O Vale da Paixão, de Lídia Jorge, BYS/LEYA, 190p.*****
6. Os Verbos Auxiliares do Coração, de Péter Esterházy, Caminho, 136p.***
7. As 11000 Vergas, de Guilhaume Apollinaire, Ramo de Ouro, 192p.**
8. A Arte da Guerra, de Sun Tzu, Quasi, 96p.***

E nos filmes:

1. Admitido, de Steve Pink***
2. Caramel, de Nadine Labaki****
3. A Valsa com Bashir, de Ari Folman*****
4. Letra e Música, de Marc Lawrence***
5. Elas Não Me Largam, de Mark Helrich***
6. Little Children - Pecados Íntimos, de Todd Field (com a fantástica Kate Winslet, Patrick Wilson e Jennifer Conelly)*****
7. Dorian Gray, de Olivier Parker***
8. Entre Lençóis, de Gustavo Neeto Roa****
9. Igor, de Anthony Leondis*****
10. Up, de Pete Docter e Bob Peterson*****
11. A Condessa, de Julie Deply****
12. Perfect Stranger, James Foley,***

segunda-feira, janeiro 18, 2010

dúvidas

Para que me meto nestas alhadas?

Eu, que quero ser um homem simples? Novo?


E porque tenho de comprar 27 livros de uma vez, mesmo que em saldos e tal?

segunda-feira, janeiro 11, 2010

T., ou o eu que se des/en/cobre

Por transmissão . Aqui fica. Com duplos sentidos, claro.



1. O gato não morreu, eu, eu. Ainda cá anda, a miar de manhã à tarde, às vezes parece aos outros que fala Grego ou Árabe, de tal maneira parece dizer coisas estranhas. À noite é mais a cantoria para proquios (bem, alguns vizinhos já deram sinais de ter ouvido).

2. Girassol - mas ao contrário. Ou como um girassol que, no meio dos outros, preferisse ver o espaço subitamente iluminado. Ou, mais linearmente, o girassol que rema contra a maré.

3. Trovoada. Vem poucas vezes, mas quando vem, assusta. E em algumas é devastador. Ter nascido em Maio não foi acidente.

4. Doce-chocolate, com variações: de branco a negro em cinco segundos. Com extras quando necessário, de preferência avelãs, mais pequenas mas certeiras. Não é gémeos de signo por acaso.

5. Livros - a sua vida não daria nenhum, nem nenhum filme. Tentou escrever, e quase fez três livros, entretanto praticamente perdidos pelo gosto do alheio de alguém. Lê-os desalmadamente, tendo noção de que acabarão com ele (atenção ao duplo sentido) - ou talvez se prolonguem numa outra vida. Mas ainda assim. Seus descendentes não serão para os ler.

6. The One - perfume de agora, mostra a sua personalidade egocêntrica, genial, acima da média e, sobretudo, muito modesta.

7. Bartleby - ou a mania da procrastinação, ou do «deixa para amanhã aquilo que podes fazer hoje, o atraso iluminar-te-á». Mas com tudo pronto, investigado e pensado, que depois o fazer se fará.

8. Solitário - aquela jarra para uma flor só. Às vezes dá para duas. Experimente-se o malmequer, é capaz de dar, em vez dos amores-perfeitos... ou vice-versa.

9. Compasso - de um lado marca, do outro pica. Aos círculos, é como gosta de dizer e fazer as coisas, quando elas o incomodam ou vão incomodar alguém. Outras vezes, do nada, acompanha-se de uma régua.

10. Santiago - do nome ao sítio, a marca. Da origem do meu ser: ascendentes, nomes e patronímico. E talvez esta dimensão angelical que muitos lhe atribuem hiperbolicamente. É uma mais uma vertente da sua face criativa.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Frases proibidas este ano - para ser um homem novo


Representar é diferente de apresentar;

Não sei;

Estou enamorado por ti;

Só é tarde quando não chega (a tempo);

Eu sou genial;

O mundo não passa do que já sabemos;

e outras que tais que direi, tal como estas também surgirão ocasional e inadvertidamente. Até porque todas elas são verdades inegáveis, e as verdades são para ser ditas.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

I get along without you very well

Diana Krall. Finalmente encontrei a versão no youtube.

A ironia e o sorriso amargo juntos,
como se só houvesse presente
eterno,
num banco só.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Desafio em Dezembro


Fim do ano, fim de desafio 2009, fim talvez do blogue. Ou talvez não, se verá. Deste ano levo 120 livros nos olhos, que na cabeça não me cabe tanto, e já com lugar prometido na biblioteca em construção na casa de Poiares. Neste mês, leituras para rir (111), para acompanhar programas escolares - desculpa para subirem na lista de espera (113, 114, 116), para enternecer (112), para ler o que se sabe que será bom sempre (117), para ler o que é oferecido (115, 118), para acabar com os livros de Agustina (119), este comprado porque era necessário lê-lo depois de ter lido As Fúrias (devia até ter sido antes...).
Para o ano de 2010 o desafio será mais comedido, com 80 títulos. Espero! E mais filmes, mais saídas, mais vida para além da vida das palavras, a minha favorita...


Livros:

111. Gato Fedorento. O Blog, Cotovia, 320p.*****
112. Gatos e Mais Gatos, Doris Lessing, Cotovia, 168p.*****
113. Evocação de Sophia, Alberto Vaz Silva, Assírio & Alvim, 112p.****
114. A Minha Primeira Sophia, Fernando Pinto do Amaral, D. Quixote, 46p.*****
115. O Resto da Minha Alegria, Valter Hugo Mãe, Cadernos do Campo Alegre, 64p.***
116. Textos Escolhidos, Padre António Vieira, RTP/Verbo, 190p.*****
117. Levantado do Chão, José Saramago, Caminho, 486p.*****
118. Mais Perto do Céu, Maria do Céu Nogueira, ed-AGAL Criaçom, 110p.***
119. A Crónica do Cruzado Osb, Agustina Bessa-Luís, Guimarães, 226p.***
120. Gabo. Memórias da Memória, Carlos Fuentes, Dom Quixote, 48p.****


imagens retiradas daqui


Filmes:

26. Como Sobreviver a Um Coração Despedaçado, Paul Ruven**
27. Avatar, James Cameron****
28. Surf's Up, Ash Brannon e Chris Buck***
29. Eragon, Stephen Fangmeier****
30. Stardust, Matthew Vaughn***
31. Capuchinho Vermelho. A Verdadeira História, Cory Edwards****
32. Ocean's 13, Steven Soderbergh****
Outros:

Mary Bryant, Peter Andrikidis (mini-série)****
Pushing Daisies, de que já falei algures por aqui, vi finalmente, numa noite e numa tarde, sem conseguir parar e com muita vontade de comer tartes daquelas, os 13 episódios da segunda temporada, e é sem sombra de dúvidas a minha série (que me perdoem Anatomia, Sete Palmos de Terra, entre algumas outras)*****.

domingo, dezembro 20, 2009

Poema de Natal 2009




Natal

(à avó)


Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continha engelhado, com a tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.


Noutro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um dos nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.

Maria do Rosário Pedreira
Eis a morte de um amigo: ficar sozinho mais um pouco para sempre.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

quinta-feira, dezembro 10, 2009

sem título

E assim se esgotam as palavras

as imagens

eu.





até a um dia diferente

que chegará.

sábado, dezembro 05, 2009

Desafio em Novembro


(Imagem retirada daqui)

Mudei de casa, em Braga, muitas coisas estranhas aconteceram, entre elas outras menos, como apanhar gripe (talvez A) ou apaixonar-me e voltar a desapaixonar-me e voltar a apaixonar-me sempre da mesma forma parva pela mesma pessoa. Mas enfim, as coisas parecem estar a ficar mais tranquilas, estão também a chegar as férias e tudo se vai orientar.
Mas concluí o meu desafio :)


Aqui ficam, ainda que atrasadas, as sugestões de Novembro:

Livros:

100. Astérix e Obélix - O Livro de Ouro, Uderzo e Gosciny, Asa, 58p.****
101. Os Incêndios de Roma - Cartas, Séneca e São Paulo, Íman Edições, 72p.****
102. Carta Sobre a Felicidade e Da Vida Feliz, Epicuro + Séneca, BI, 90p.****
103. Novas Crónicas da Boca do Inferno, Ricardo Araújo Pereira, Tinta da China, 224p.*****
104. O Segredo de Brokeback Mountain, Anne Proulx, Bico de Pena, 80p.***
105. Contos da Morte Eufórica, Casimiro de Brito, D. Quixote, 140p.***
106. Caim, José Saramago, Caminho, 182p.***
107. Passarinhos, Anais Nin, Bico de Pena, 152p.***
108. A Maior Flor do Mundo, José Saramago, Caminho, 28p.****
109. 90 Livros Clássicos para Pessoas com Pressa, Henrik Lange, 190p.****
110. A Mecânica do Coração, Mathias Malzieu, Contraponto, 144p.*****


Filmes:

24. Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles (outra vez, com a Sandra)*****
25. Doce Novembro (na RTP2)****

Mais:

O Luandino é realmente fantástico. Adorei ouvi-lo e conversar com ele um bocadinho na 100ª Página, uma livraria de Braga que está a comemorar o décimo aniversário.

de volta

após as atribulações das últimas três semanas.
Depois conto, ou não.

Agora vou é dormir, que preciso.

quarta-feira, novembro 11, 2009

não te sei a dormir

mas

ouve-me
como se fosse um
sonho

sem possível.

quarta-feira, novembro 04, 2009

O suficiente para a frente,


não é, Sandra?
(visto em Santiago)

terça-feira, outubro 27, 2009

Santa Margarida

Já tenho as chaves da casa nova. É na rua supracitada.

E só para mim :)

(e os meus milhentos livros e outros eus)

domingo, outubro 25, 2009

desafio em Outubro

Espacio para la lectura, Santiago de Compostela

Em tempo de trocar de casa - finalmente, embora não por ter demorado a procura, pois a única que fui ver me atraiu logo - tempo também para arrumar esta outra casa, a virtual. Não tenciono voltar cá nos próximos tempos, pelo menos para escrever: os testes acumulam-se, a preparação de aulas sobre obras integrais, a mudança e adaptação. Assim, antecipo já o desafio/sugestões, que não são muitas, concedo, porque a viagem, a Diana e o trabalho deixaram-me cansado (que já estava, da conclusão da dissertação). Mas isto vai animar e já só falta um livro para terminar o desafio :)

Livros:

96. Enciclopedia da Estória Universal, Afonso Cruz, Quetzal, 134p.*****
97. Ética Para Um Jovem, Fernando Savater, D. Quixote, 160p.****
98. Anões e Pigmeus da Pátria, Adulcino Silva, Erasmos, 94p.*
99. Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, Mário de Carvalho, Caminho, 320p.*****

Santiago de Compostela

Vista geral, a partir do jardim Carlomagno.


Tinha prometido, cumpro em parte: só imagens, sem grande relato. Há coisas ficam mais guardadas do que reveladas na memória pessoal. E para não priveligiar umas em função de outras, ficam no caderno pessoal do tempo. E as imagens, por vezes, falam por si. Algumas, das cerca de 200. Acrescento só que não me importava de morar lá, uns tempos. Mas mesmo nada.


As lojas das recordações e afins... perdição nos doces e nos típicos.


San Martín Pinario - muito interessante.




Catedral do meu Sant'Iago.


Vieira no chão... muitas por todo o lado!
P.S. - mais fotos aqui.

Diana Krall no Porto



Foi dia 11. E foi genial.


Apesar de não totalmente cheio, o Rosa Mota estava ao rubro com a sua presença sedutora e enérgica, com a sua voz inconfundível e a sua técnica ao piano. E com a ajuda de Anthony Wilson (guitarra), Ben Wolf (contrabaixo) e Karrien Riggins (bateria). Floreados, improvisos, novos arranjos em músicas tão conhecidas, do passado, como «I Love being here with you», «Cheek to cheek», «Deed I do», «I was doing alright», «Case of you», «Let´s fall in love» ou «Let's face the music and dance» e músicas tão conhecidas do novo álbum (que revisita em grande parte clássicos anglófonos mas sobretudo brasileiros), como «I've grown accustomed to his face», «So Nice», «Quiet Nights», «The boy from Ipanema» e «Este seu olhar» - em português, mesmo e já não tenho certeza do «Walk on by». Muito divertida, intensa, com confidências, tentativas de falar português, simplicidade e simpatia.




Agora o negativo: a pontualidade dos espectadores - muito fraca. Eram 22:15 e ainda havia muita gente a entrar. Fosse outro sítio e ficavam na rua. O pavilhão também não foi o local mais indicado - por vezes, com as palmas, deixava de se ouvir o que a senhora dizia, e ela notou-o, brincalhona ("Só vou falar Português quando estiverem a bater palmas"), e por isso o público conteve-se um pouco. Casa da Música ou Coliseu poderiam ter sido mais apropriados, talvez. Já para não falar das cadeiras, muito desagradáveis.


Para saber mais leia-se o Blitz. Sobre o último álbum, Quiet Nights: ideias, influências, elaboração, veja-se aqui. E muitos vídeos circulam por aí, como aqui.

Caim, perdão, cair ou afim


«Abri um dos rolos e li, ao acaso:
"... E ouviram a voz de Deus que percorria o jardim, tomando a brisa da tarde..."
Ali se relatava, em grego vulgar, um mito da criação do mundo por uma divindade que deambulava em jardins, ao refresco da brisa. A narração pareceu-me primitiva, um tanto incongruente e mal pensada, nada que se comparasse à lenda de Deucalião e Pirra. Fui tomando os rolos e rodando-os, sempre ao acaso: havia intermináveis enumerações, heróis que viviam centenas de anos, lamentações, apóstrofes, traições, guerras, extermínios, tudo exposto num estilo bárbaro, repetitivo, obscuro. Tudo me pareceu brutal, intolerante, sanguinário. Não o serão menos os nossos mitos e lendas. Mas no meio das violências e das felonias há sempre, entre nós, um exemplo de clemência e grandeza de alma que se avantaja e fica como regra da humanidade para os tempos vindouros. No entanto, alguns daqueles textos lisonjeavam a inveja, o desamor dos outros, a sede de matança, como se fossem virtudes. São assim esses deuses bárbaros. Aceitam sacrifícios humanos, apraz-lhes o sangue e o odor das carnes calcinadas. Dessa feição era aquele abominável deus de Cartago, Bel, que nunca se fartava das cinzas dos impúberes e que, em boa hora, nós, romanos, derrubámos.
Admito que a leitura breve e porventura superficial daqueles livros fosse insuficiente para formar uma ideia de todo o conjunto. Talvez estivesse a ser injusto ou preconceituoso e as partes edificantes as contivessem as folhas que não li, que foram as mais.
(...)
Mas não deixa de ser estranha uma religião que precisa de tantos textos e se funda em tantos milhões de palavras.»

Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde
, Mário de Carvalho, Editorial Caminho, 1994, p.289-290