segunda-feira, setembro 28, 2009

All My Little Words, by The Magnetic Fields




You are a splendid butterfly
It is your wings that make you beautiful
And I could make you fly away
But I could never make you stay
You said you were in love with me
Both of us know that that's impossible
And I could make you rue the day
But I could never make you stay

Not for all the tea in China
Not if I could sing like a bird
Not for all North Carolina
Not for all my little words
Not if I could write for you
The sweetest song you ever heard
It doesn't matter what I'll do
Not for all my little words

Now that you've made me want to die
You tell me that you're unboyfriendable
And I could make you pay and pay
But I could never make you stay

Arlindo Barbeitos: poética da concisão

E pronto, finalmente foi... bem ou mal, melhor ou pior...
27 de Setembro: o peso sai das costas, ou não...

voltarei para partilhar alguns poemas dele.
É que apesar da trabalheira, o gosto pela poesia ficou.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Desafio em Setembro

(Irisz Agocs, visto aqui)


Bem, nem vou comentar muito a pequenez deste mês culturalmente, absorto que ando ainda em dissertação, artigos e início de aulas. E como no fim-de-semana vou morrer para o mundo (excepto o almoço no Porto, com as minhas três meninas a caminho de senhoras, e do musical do Colégio) pois vou ultimar a dissertação para segunda ir para a gráfica e até ao fim do mês vou andar um pouco menos calmo que o costume, ficam já aqui as sugestões...


Livros:
91. Trabalho Poético, Carlos de Oliveira, Assírio & Alvim, 400p.****
92. O Passeio e Outras Histórias, Robert Walser, Granito, 118p.***
93. «Inimigo Rumor n.º14», vários - revista sobre poesia, 7 livros, Cotovia, Angelus Novus, Cosac & Naify, 248p.****
94. O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago, Caminho, 40p.*****
Adenda:
95. Histórias ao Telefone, Gianni Rodari, Teorema, 96p.****

mais:
nada ou quase - a Comunidade de Leitores sobre Poesia Contemporânea Portuguesa com Jorge Reis-Sá está adiada; o cinema é uma miragem; as séries o que já falei... e o musical do Colégio, que é sábado.

Já agora, há feira na Assírio & Alvim.

muito fraquinho, mesmo...

quinta-feira, setembro 17, 2009

Um ano depois, novamente a poesia...


... me visita. Um ano e tal, sem escrever um verso. Não sei se isto vale grande coisa, mas tem o valor do regresso. Regressemos, pois.


Quero ser como a luz
em ti

Raio que não quebra
as fibras

Chegar-te, estar-te,
ser-te
em cada forma

Aquecer-te.

(imagem vista algures....)

quinta-feira, setembro 10, 2009

Quase alea iacta est

Acabei agora o segundo e longo capítulo da minha dissertação. Já devia ter sido há um ano, mas a procrastinação está-me no sangue no que toca a escrever as coisas - porque ler e procurar e pensar é logo, mal surja o desafio. E como sempre, o atraso pode iluminar. Numa semana, quase, fiz grande parte do capítulo, mas talvez ficasse melhor com mais tempo de reflexão durante a escrita. Mas está lindo, assim mesmo.
Falta terminar o terceiro capítulo, que é breve. Se fiz tanto em tão pouco tempo, incluindo um artigo sobre Antínoo, que não tem nada a ver com isto, para a revista «Forma Breve», também vou conseguir fazer o terceiro capítulo, a introdução, a conclusão, o resumo, as palavras-chave... rever bibliografia e notas de rodapé. Parece muito, mas há aqui coisas que são muito mecânicas, acho que as faço rápido.
Até dia 30 tem de estar tudo pronto, se a tendinite no dedo indicador direito me deixar e os meus poucos neurónios não fundirem, mas há-de ser antes, porque segunda começam-me as aulas... e acaba o tempo mais ou menos livre que ainda vou tendo...
No final da semana volto para dizer: alea iacta est

terça-feira, setembro 08, 2009

Supernatural/Sobrenatural: do urso ao gato

Não, não estou a insultar as personagens nem os actores. Nem seria insulto, ser um gato.
A sério, esta série tem-me conquistado, ultimamente. Esta última temporada tem sido uma loucura. Como o Dexter, que também tem sido boa. Duas a juntar às outras: Anatomia de Grey, Pushing Daises, Irmãos e Irmãs, Rockefeller 30...
Das muitas cenas hilariantes (e estou a lembrar-me do karaoke coreografado "The eye of the Tiger"), destaco duas:

1.º O ursinho suicida do «why», o nosso ídolo ;) - que não quer tomar cházinho

2.º nós, gatos, somos mais carinhosos, mas também podemos ser assustadores ;)

sexta-feira, agosto 28, 2009

I want to know what love is



Também eu, MC.
Adoro esta versão. E quando ouvir a versão completa do álbum...
(não há vídeo ainda, apareceu hoje na net)

«In my life there is been heartache and pain, I don't know if I can face it again»

quinta-feira, agosto 27, 2009

Desafio em Agosto


Picasso, Girl reading on beach, 1937

Que raio de mês. Preguiça, festas parvas, obras cá em casa. Muitas voltas depois do jantar. Amoras e muita fruta. Muita net e séries. E muita escrita - não a literária, mas a científica. Parece que nem sei escrever. Nota-se.
Mas O Velho e o Mar em curta apaixonou-me, e vi algumas coisas não recomendadas a menores. E apanhei sol e noites de insónia à custa de livros empolgantes, curtinhos, pois então, porque o tempo tinha de ser canalizado.

Livros:

81. A Vida Sexual das Palavras, Julían Ríos, Quetzal, 232p.****
82. Werther, Goethe, Visão, 126p.****
83. O Conde d'Abranhos seguido de A Catástrofe, Eça de Queirós, Porto Editora, 190p.****
84. Contos, Edgar Allan Poe, Jornal de Notícias, 414p.****(*)
85. Praça de Londres, Lídia Jorge, D. Quixote, 98p.****
86. As Afrodites (2 vols), Andrea de Nerciat, Périplo, 256+272p.**(*)
87. A Honra Perdida de Katharina Blum, Heinrich Boll, Visão, 96p.****
88. Haldred, Patrick Besson, Teorema, 116p.****
89. Todas as Estrelas do Mundo/O Amor Tem Tantos Nomes, Carlos Lopes Pires/Maria Rosa Colaço, Editorial Diferença, 168p.****
90. O Anjo de Timor, Sophia de Mello Breyner Andresen (com ilustrações de Graça Morais), Marco de Canaveses: Cenateca, 36p.*****

Filmes:

18. Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, com Elizabeth Taylor, Richard Burton, Rex Harrison,...****
19. Demasiada Carne, de Jean-Marc Barr e Pascal Arwold, com Jean-Marc Barr, Rosanna Arquette, Elodie Bouchez***
20. Van Wilder, de Walter Becker, com Ryan Reynolds, Tara Reid**
21. O Velho e o Mar, de Aleksandr Petrov (curta-metragem animada)*****
22. All About Anna, de Jessica Nilson, com Gry Bay, Adrian Bouchet, Ovidie, Eillen Daly**
23. Something New, de Sanaa Hamri, com Simon Baker, Sanaa Lathan***

quarta-feira, agosto 19, 2009

Quem se lembra de Sophia?

Encontrei este sítio por puro acaso e gostei. Muita informação, bem "arranjada", útil em contexto educativo - os alunos gostam de coisas com ar informático.

Organizado por décadas, contém ainda depoimentos dos filhos, muitas fotografias, textos de estudiosos sobre a obra, sobre a intervenção cívica...

Só me pareceu um pouco lento...


Eu lembro! E faço questão de a mostrar/lembrar aos meus alunos...

terça-feira, agosto 18, 2009

Sabores

A taste it é um projecto interessante sobre o significado do Sabor. E para isso, pedem a cada um uma palavra que o defina. Bora lá preencher aquela «nuvem» e dar vida ao «coração». Além disso, tem um design engraçado.

É até oferece prémios! Confiram:
Link: http://www.yourtaste.is/



sábado, agosto 15, 2009

to build a home



Porque todos somos casas. Uns mais do que outros. Uns para uns ou outros - ou quase.

E há casas que não entram em ruínas. E jardins.

«A minha casa tem uma varanda: é dela que vejo o mundo. Eu acho que toda a gente tem uma janela, e talvez até uma varanda. Só não estou certo sobre se toda a gente tem uma casa.»

Todas as estrelas do mundo, Carlos Lopes Pires

quarta-feira, agosto 12, 2009

excertos de «O mundo não passa de mundo» - 2.ª parte

Porque o projecto está adiantado, milagrosamente, porque esteve atrasado - e muito, e antes ainda do conto mais exigente, título homónimo do conjunto todo, pausa para seleccionar pequenos momentos de alguns contos.


III. 27. Endymion

Percebes agora porque digo que hoje, ao ver esta lua extraordinária, algures na Grécia, deve estar um rapaz que dorme de olhos abertos, fitando-a e sonhando-a? E quem diz Grécia diz aqui, neste momento, em que estamos sozinhos frente a frente e o mundo pode ser só nosso, por agora, sem inveja dos deuses… Vamos juntos envelhecer mais ao longe?


III. 30. O gato a tinta-da-china

O seu autor reparou em tudo isto e achou que era um bom desenho, um entre muitos que tinha feito, guardado, vendido, ou à espera de comprador. Foi o caso deste. Cansado de tantos desenhos, de tantos traços a preto sobre o branco, não entendeu a maravilha que era aquele gato e a sua vontade de um afago. Não reparou, cheio de sono, que o gato mudava de posição, rebolando-se no espaço mínimo branco da página, quase com perigo de vida pelas margens abruptas da folha para o abismo. E ao ver-se ignorado, não tentou outras abordagens: talvez pudesse ter miado ou arranhado o papel, mas deixou-se ficar, ferido no seu orgulho de gato e tornou-se indiferente.


III. 33. História de uma viagem indecisa

A minha atenção era a mesma da do sol: brincava com os ramos das árvores, penetrando nas frinchas que elas deixavam. E eu seguia esses raios como uma escapatória para as palavras pausadas do meu interlocutor, tão diferentes de outras («O que foi?», «Caiu-me alguma coisa na cabeça vinda da árvore… ou das tuas mãos», o meu sorriso confirmou a segunda hipótese).


III. 34. A missiva inexistente de Antínoos

Não te prendas às memórias, Adriano, que tiveres de nós. Mas não te esqueças, também. Tudo em perfeita harmonia, na devida proporção. Eu recordar-te-ei enquanto o tempo permitir a memória. Afinal somos mortais, dependentes dele, sempre. Não sei o que se erguerá para mim dentro destas águas, depois de me perder nelas, mas só poderá ser o prémio de uma vida breve, mas certa, desde que me escolheste para teu lado. Oh, Adriano, eu também te escolho, escolho-te para que continues, para que continuemos juntos no resto do tempo que existe, em que será possível sermos entendidos, como agora eu mesmo nos entendo e imploro que me entendas. Não me lamentes, é de livre vontade que sigo a vontade dos deuses. E só a eles pertence a nossa vida. Somos mortais, mesmo que me deifiques, mesmo que sejas o imperador, e todos os mortais morrem, tal como os deuses parecem não escapar, também… Mesmo que dês o meu nome que te é tão querido e que murmuras nas noites de calor de Roma como se ele te matasse a sede, a uma estrela, por influência do teu avô Marulino, de uma constelação boreal, ela será variável, com um período que durará sete dias, quatro horas e catorze minutos, como se mostrasse que eu pouco mais durei que ela, mas que retorno, de cada vez que alguém pronuncia o meu nome, o nosso amor.


III. 35. O apanhador de conchas

Por fim, sentei-me na areia, em frente ao mar, como se lhe dissesse adeus. Ao longe deveriam estar os meus colegas, em tarefas de bom acolhimento, imaginei depois. Disseram-lhe por onde eu estaria, indicaram-lhe o caminho e encontrou-me. Eu estava a olhar o mar onde lavava algumas conchas que traziam algas com elas. E soube, de repente, que estava ali, por alguma razão que desconhecia. Não era promessa de que nos viria ver. Não era o seu perfume, porque o mar dominava tudo, nem os seus passos, porque o mar abafava-os e a areia não os permite iguais ao costume, nem a sua voz, porque não falou. Ou antes, quem falou primeiro fui eu, talvez querendo surpreender e provocar:

quarta-feira, agosto 05, 2009

Prémio para o Tulisses, em Rabiscos e Garatujas

Novamente a Deniblog decide dar uns miminhos ao Tulisses, desta vez em forma de prémio. Como já o havia feito. Agradeço, citando:

Tulisses - Do menino TUlinho que tem um sorriso traquina e a calma da lua no olhar. Cheio de auto-desafios, promessas cumpridas, incansáveis tentativas literárias, sólidas, convincentes, promissoras. Troca de mimos e autenticidades no texto dedicado ao seu blogue, no seu aniversário, no baobá que lhe ofereci, na valsa que com ele dancei.

terça-feira, julho 28, 2009

Desafio em Julho

E. Hopper, Compartment C, Car 193 [1938]

E o desafio continua. E muito bem, do ponto de vista numérico - é esse o desafio. Do ponto de vista qualitativo também, mas fazem-me falta certos livros que queria ler e não posso... Por tudo, porque penso que me vão roubar tempo à escrita da maldita dissertação, mas enfim... Os livros mais pequenos vão sendo lidos um pouco por todo o lado, como sempre. Os maiores só os inevitáveis: o Mia por quem é, a Agustina porque queria acabar de ler tudo o que tenho dela. Muitos contos (e a grande descoberta do livro de Helena Malheiro), como sempre, alguma poesia, teatro (por influência do Mimarte) e coisas que são necessárias para a escola ou para artigos... Vou de férias, agora. Até ao meu regresso!

68 - O Prazer da Leitura II, vários, FNAC/Teorema, 168p.***
69 - Rei Édipo, Sófocles, FLUC, 82p.*****
70 - Antígona, Sófocles, Fundação Calouste Gulbenkian, 140p*****
71 - A Dança das Borboletas, Wenscelau de Moraes, Independente, 158p.****
72 - O Comum dos Mortais, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, 368p.****
73 - Cinco Tempos, Quatro Intervalos, Ana Saldanha, 54p.***
74 - Bestiário, Fábulas e Outros Escritos, Leonado da Vinci, BI, 96p.***
75 - «Ficções 10», direcção de Luísa da Costa, Tinta Permanente, 200p.***
76 - Jesusalém, Mia Couto, Caminho, 296p.*****
77 - «Ficções 11», direcção de Luísa da Costa, Tinta Permanente, 144p.***
78 - O Tamanho do Mundo, Helena Malheiro, 192p.*****
79 - Pederastia na Idade Imperial, Royston Lambert, Assírio & Alvim, 64p.***
80 - A Religião do Girassol, org. de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, 68p.****

Filmes:
Idade do Gelo 3*****
Harry Potter e o Princípe Misterioso****(*)

Signs

Não, não encontrei um novo amor com uma história semelhante. Um antigo talvez. E não, não tenho nenhum amor novo. Antigos sim, que ficam sempre. Mas o filme é bom, é bonito. E vale muito a pena. Talvez haja mais coisas que valham a pena.

domingo, julho 19, 2009

A lua


E hoje, mais logo, na RTP2, Luísa Malato no Câmara Clara. A não perder!

********


Foi interessante, e a minha (Fada)Madrinha foi fantástica.
E o objecto artístico mais bonito sobre a lua são duas, parece-me, na música:






E podia ser a Diana Krall, ou Sinatra... Ou literatura - tantos...
Mas eu não sou lunar, pelo contrário ;)

sexta-feira, julho 17, 2009

Hoje, Mia Couto

Mia Couto, na Centésima Página, para falar do novo livro, Jesusalém. Ok, admito, durante muito tempo pensei que era Jerusalém - e achei estranho, porque Gonçalo M. Tavares teve muito sucesso com um livro com este título e assim, tão próximo, parecia-me excessivo... e até pensei que por causa disso o romance tivesse recebido o título de Antes de Nascer o Mundo, no Brasil, mas não foi por isto, então... Sei que comecei a lê-lo, enquanto esperava que me dissessem se continuava ou não no colégio (e sim, continuo), e estou a adorar (só não adorei a ideia de continuar com a minha turma no secundário e de, por razões técnicas, não continuar com a minha turma de segundo ciclo...); não era para ler já, queria esperar pelas férias para apreciar melhor e ler antes tudo o que me falta ler do antes. Mas o Mia vem cá falar hoje e apetece-me ouvi-lo sabendo um bocadinho do que se trata. É muito bom, a fazer lembrar o Terra Sonâmbula e O Outro Pé da Sereia, e a fugir ao anterior, Remédios de Deus e do Diabo - pelo menos para já, o que é bom (e vou ter Estudo Acompanhado...).

segunda-feira, julho 06, 2009

III. 29. E pur si muove


Sentia-se triste como uma casa sem móveis.

Flaubert, Madame Bovary

Os móveis enchiam o espaço interior, e cada um de nós tropeçava, batia, não vivia nele, porque tomavam conta de nós de forma opressiva. Não havia vazio, nem silêncio. E cada um de nós seguiu o seu rumo. Depois, aos poucos, desbaratadas no vento as lembranças e as palavras, queimados que foram os gestos, ficámos sós, eu e a casa. E embora a solidão não doa, entristece. Como a casa sem ti. E perante a minha imobilidade, a minha descrença do vazio que nos tornámos, ela age por mim: de cada vez que olho pelas janelas apercebo-me da mudança como se estivesse num comboio, do que vem e do que ficou para trás, e sempre que me sento no alpendre tenho novas paisagens para apreciar. É a sua forma de ser mais do que uma casa e de me ajudar. Mas alguns sentimentos não se mudam ao mudar-se uma casa, em todos os sentidos.

Mimarte - Festival de Teatro de Braga

Sozinho, com a Virgínia, no Rossio da Sé ou no Museu D. Diogo de Sousa, tenho andado a ver teatro. Já tinha saudades... Depois de ter perdido as três primeiras, comecei a ir ver tudo, excepto a oitava, pois estava exausto... E tem sido muito bom, desde clássicos gregos a abordagens infantis, muito bom.

30 de Junho, As Justiceiras, de Aristófanes, por Teatro ao Largo (Vila Nova de Mil Fontes), encenação de Steve Jonhston - a encenação da comédia parece roçar um pouco, talvez, a revista portuguesa. O texto clássico foi adaptado aos tempos actuais (qual Ágora, a Junta de Freguesia é que é importante, ou o problema dos brasileiros e dos romenos ou ucranianos...), com música e interacção com o público, com alguma coisa que me fez duvidar um pouco do bom gosto, mas isso sou eu, porque toda a gente gostou muito e deu para rir também com qualidade. ***(*)

1 de Julho, Paisagens em Trânsito, de Patrick Murys, por Circolando (Porto), encenação de Patrick Murys - uma peça estranha, sem falas (algumas onoamtopeias e outros sons), repesentada por um único actor e, por vezes, fantoches - um real, um outro encarnado pelo actor, num cenário que recria linhas de comboio, mas também estábulos e tudo o que quisermos imaginar, e malas, muitas malas. Diz o programa é que é sobre o exílio, memórias, e muitas interrogações - é o que o espectador faz, muitas interrogações! ****

2 de Julho, Afonso Henriques, de António José Saraiva, por O Bando (Palmela), encenação de João Brites - uma peça mais direccionada para o público infantil, mas que agradou a todos. A história do primeiro rei português, suas guerras, dúvidas, paixões, num ritmo marcado pelo divertimento, pela música... Muito bom!****(*)

4 de Julho, Agamémnon, de Ésquilo, por Grupo Thíasos do IEC - Fac. Letras (Coimbra), encenação de Lia Nunes - peça do XI Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, recupera a primeira parte da Oresteia, centrada no regresso de Agamémnon depois da guerra de Tróia, e a recepção que dele é feita por sua mulher infiel, Clitemnestra, que aqui é representada por duas actrizes, para transmitir melhor o carácter dúbio da mulher enganadora. Gostei bastante, em especial do Corifeu. ****(*)

5 de Julho, Édipo Rei, de Sófocles, por Grupo de Teatro Clássico ESAD (Málaga, Espanha), encenação de Andreu - não tinha lido o texto (ao contrário do anterior, mas já li, entretanto) mas sabia a história, o qu enão sabia é que ia ver uma representação tão extraordinária: a intensidade trágica da dúvida que pode aniquilar um homem é levada ao extremo: suor, lágrimas, baba (e tenho dúvidas quanto ao ranho) surgem não muito depois da pela ter começado e mantêm-se... e o coro ajuda. Grande desempenho de Chico García como Édipo, mas todos estiveram bem. Destaque ainda para o Coro - excepcional. *****

6 de Julho, Teatroclip, Tin.bra (Braga), encenação de Sónia Sousa, - a pior crítica é não haver crítica... pronto, eu quase cortei os pulsos com o representação de pequenos quadros da vida de uma vila separados por músicas de Amália, mas até gostei da actriz alcoólica, e de uma ou outra saída mas, no geral, foi de bradar aos céus... comédia fácil, com trocadilhos e tiradas demasiado previsíveis, e as entradas e saídas quebravam o que quer que fosse possível existir de interessante. E pareceu-me tãooooo longooooo. **

7 de Julho, Ibéria, a louca história de uma península, por Peripécia Teatro (Vila Real), direcção de José Carlos Garcia - depois de adiado por causa da chuva (no dia 27 de Junho), voltaram e ainda bem. Uma comédia a sério sobre episódios da Península Ibérica, desde as guerras entre os dois países e com os mouros, aos pastorinhos de Fátima, passando pos Inês de Castro (muito bem contada a história), Camões e Cervantes, Aljubarrota (os actores eram pães que relatavam o que acontecia aos espanhóis), Tordesilhas (fantástica a ideia da marcação de território como os animais)... Dois actores e uma actriz fazem de tudo, do início ao fim: reis, rainhas, guerreiros, pães, pastorinhos, papa... tudo centrado neles, sem grandes artifícios técnicos além do excelente trabalho corporal em cena. Destaque ainda para a cena do anel em D. Constança - fantástico! Muito bom, a encerrar. ***** (com Virgínia, Marta e Rui Pedro)

P.S. - para mais informação, fotos, vídeos, ver o links em cada um dos títulos.

sexta-feira, julho 03, 2009

Para a Marta e para a Virgínia - Parabéns!

«E então conto o do que ri, que se riu: uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi levantavam; assim repicava o espairar, o vôo de reticências, não achasse o que achasse - e era uma borboleta dessas de cor azul-esverdeada, afora as pintas, e de asas de andor. - "Ara, viva, maria boa-sorte!" - o Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz.»

João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (Editora Nova Fronteira, 2005)



borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen.
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
descola por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
usa com afinidades
o palco da natureza.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raíz, cinzento-nuvem.
borboleta dispõe de intimidades
com arco-íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas ela usa olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

Ondjaki, Há Prendisajens com o Xão (Caminho, 2004)

sexta-feira, junho 26, 2009

desafio em junho


Vieira da Silva, mais uma Bibliotèque


Continua o desafio, em fase de abrandamento, pois a dissertação tem de estar feita no próximo mês, e quatro artigos me aguardam... De Luísa Dacosta, agora descoberta e ainda à espera que leia os outros livros que tenho (edições muito bonitas da Asa), ao meu já muito conhecido (e genial) Saramago, passando pelo inevitável (depois do filme) O Leitor, poesia (a do Eugénio, finalmente, mas que confirmou a minha não muita adesão ao seu mundo) e contos e micro-narrativas (Augusto Monterroso é muito bom) e até literatura infantil.



56. A Maresia e o Sargaço dos Dias, Luísa Dacosta, Asa, 78p.*****
57. Luísa Dacosta - entre Sílabas de Luz, Asa, 78p.****
58. Natal com Aleluia, Luísa Dacosta, Asa, 78p.*****
59. O Leitor, Bernhard Schlink, Asa, 144p.*****
60. A Jangada de Pedra, José Saramago, Caminho, 350p.*****
61. À noite as estrelas descem do céu, João Pedro Mésseder, Campo das Letras, 60p.****
62. Versões - Mundos (d)escritos em Português, vários autores, CIC - Portugal/autonomia 27, 166p.***
63. A Ovelha Negra e outras fábulas, Augusto Monterroso, Angelus Novus, 120p.*****
64. «Ficções 9», direcção Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 148p.***
65. Uma Aventura na Amazónia, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Caminho, 240p.***(*)
66. O menino que não gostava de ler, Susanna Tamaro, Presença, 40p.****
67. Poesia, Eugénio de Andrade, Fundação Eugénio de Andrade, 660p.****(*)


Filmes:
You don't mess with Zohan*** (pelo ridículo, pelo Adam Sandler, pela Mariah Carey...)
RocknRolla**** (pelo déjà vu - pessoal - não total...)
Sobreviventes***(*)
Happy Feet****(*)

segunda-feira, junho 22, 2009

III. 19. Conto levemente erótico


Olharem-se era apenas o início, pois o olhar ensinava-os sobre as mãos e sobre a pele. E as mãos ensinavam-nos a ver melhor. E depois do olhar, as bocas percorriam-se com uma falta de algo que só os corpos pudessem mitigar. As mãos procuravam-se, exactas de tempo, exactas na procura do improviso, no imprevisto dos corpos reagentes. Procuravam-se e encontravam-se nas planícies, nas florestas. Perdiam-se e achavam-se, cheias, para novamente se perderem e, cheias de saudade, voltarem a encontrar-se. E depois das mãos e das bocas, todo o restante corpo, um contra o outro, explorando-se na pele, nos pêlos, no sangue latejante, como se o tempo não chegasse, como se a vida pudesse ser sempre aquilo, como se as coisas se reduzissem a ambos tornados unos, perdidos nas palavras sussurradas, gemidas, balbuciadas, até os corpos se soltarem novamente e apenas se abraçarem, enquanto entram num outro mundo, sem consciência.
Acordar-se era tarefa do sol na janela ou do despertador. E era nascer para a consciência da individualidade e da solidão. A cama estava desfeita, ele talvez um pouco molhado ainda, mas só. Porque nada do que se passava era real, apenas fruto do desejo presente e das memórias do passado – viventes ambas nesses tempos, funcionantes de modo imperfeito no presente, mas sem esperança de projecção no futuro. E era certo que depois, no banho, haveria de chorar, mas só no banho, para que as lágrimas não se notassem, nem para ele. E que, em outras noites, olhar-se era apenas o início, pois o olhar ensinava-o sobre a mão e sobre a pele e a mão ensinava-o a ver melhor. E depois do olhar a boca ficava expectante do momento em que tivesse de soltar-se em prazer. Sem tempo, sem espaço de vida a mitigar, a inexactidão do mecânico, ainda assim cheio de saudades da pele, dos pêlos, do sangue latejante, do tempo em que a vida podia ser apenas aquilo, as coisas fossem unas de ambos, em que as palavras tinham o poder de trazer um ao outro em segundos de ser.
Até ao dia em que desaprendesse de amar: os olhos recusassem a ver, as mãos a descobrir, a pele a sentir, as palavras a criar. Ou talvez não fosse ainda tarde nesse dia, se os sonhos e a solidão pudessem funcionar como reservatório de emoções. E um dia, ao acordar com o sol a dourar-lhe o corpo extenuado, talvez não precisasse de chorar, pois teria aprendido alguma coisa que o levaria a ser diferente, mesmo sendo o mesmo.

Deolinda, enfim!

Já aqui falei dos Deolinda, por diversas vezes. E aqui em específico contei a primeira das oito tentativas de ver os Deolinda ao vivo. A primeira foi em Vila Real, a segunda foi em Braga (FNAC), mas estava com uma otite, novamente em Braga (Teatro-Circo) não consegui bilhete, tal como não conseguiram para mim em Vila do Conde. Depois foram a Barcelos, e o convite meio estranho e em cima da hora foi posto de parte por vontade alheia, de que dependia, mas a verdade é que não me apetecia muito vê-los por lá. As queimas: Porto (no dia seguinte tinha aulas ou coisa parecida), Bragança (idem, longe), Braga (a companhia/boleia sentiu-se mal, já não deu). A Sandra viu em São João da Madeira e, não conhecendo muito, gostou muito. A minha irmã e o meu primo Marcelo nem chegaram a ver, de tão tarde chegaram ao Queimódramo. A minha prima Rita delirou em Bragança. Mas chegou o dia. Em Vila do Conde, ao ar livre. Muito bom, com a Milai e companhia, e também com a Filipa e o marido. Valeu a pena a espera - e não terá sido o último... O concerto foi muito bom, com todas as músicas, duas novas e uma da Amália. Grande presença em palco da Ana Bacalhau, a cantar as músicas quase sempre introduzidas por uma pequena história, onde «há sempre um problema». E não deixo nenhuma música - há muitas no disco e no youtube...

quarta-feira, junho 10, 2009

Dois poemas de Luísa Dacosta

Entretenimento

Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.


Apelo

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.


A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto: Edições Asa, 2002

dois poemas de Saúl Dias

Lidos no mês passado, e a fazer antevisão do futuro. Além dos dois poemas, dois outros versos.
«Eras uma flor inventada
com milhões de sóis em cada pétala.»

1.
Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
dias e dias,
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste...)

2.
Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma...

Sofro
de te perder.
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos...

Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?

Tarde Azul, poemas de amor de Saúl dias e desenhos de Julio, Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2008.
(edição muito bonita, sobretudo pelos desenhos)

terça-feira, junho 09, 2009

Adeus (+ poema, só porque sim)


Entre nós não há apertos de mão. Isso é para os outros. Ou só nos dias de cerimónia: aniversários, primeiras saudações formais, despedidas e regressos para/de férias. E agora não será diferente, apesar das quebras. Estenderemos as mãos e as palavras serão as mesmas, puídas, gastas, apesar do pouco uso entre nós. Ainda não sei se para sempre, se apenas até Setembro, dir-nos-emos adeus. Não como o do poema, embora tu desses um poema que nunca escrevi e que nunca te daria num cartão. Entre nós não há mãos que cheguem - o artifício não me cai. Não esquecerei o momento breve em que tas guardei nas minhas, só para vermos temperaturas. E quem diz mãos diz olhos, risos, palavras. Chega o momento do adeus a passos largos - adeus simbólico, porque já o dissemos há muito. E pois que terminamos. O que se diz a quem se ama sem se poder falar do amor por proibição?


09-06-09


*****

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, Poesia

terça-feira, junho 02, 2009

Forma Breve 6

Acabo de receber o meu exemplar da revista. E uma carrada de separatas. O meu artigo é pequeno, fofinho, sobre o Mia. Um trabalho de seminário do mestrado para o professor Alberto Carvalho. Pode ler-se lá: «"O Embondeiro que sonhava pássaros", de Mia Couto: descrição de uma poeticidade». Não é o meu primeiro artigo divulgado (a minha carreira longa e extensa inclui congressos, colóquios e artigos on-line - sim, claro, pode ver-se a lista ao lado), mas é o primeiro impresso, para já, e isso faz a diferença.

sábado, maio 30, 2009

desafio em maio


E continua o desafio, que, apesar do ritmo ter abrandado, não parece, ainda, comprometido. 55 livros em 5 meses, é bom. Cedi finalmente a ler o Equador, segui para crónicas, por causa da vinda do Ricardo Araújo Pereira ao colégio e por causa de outros à espera, poesia porque não pode faltar, sendo o Saúl Dias um presente de aniversário, e o Sem Sangue porque tinha de ler alguma coisa no autocarro, esquecera-me de trazer um livro e aquele saía com a revista «Sábado» nesse fim-de-semana. Seguem-se Saramago e Luísa Dacosta, entre outros.

48. Equador, Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, 528p.****
49. Poemas Escolhidos (1990-2007), Fernando Pinto do Amaral, Visão, 112p.***
50. «Ficções 8», dir. de Luísa Costa Gomes, 166p.*****
51. Pif-Paf, Millôr Fernandes, O Independente, 190p.*****
52. Coração Acordeão, Alexandre O'Neill, O Independente, 190p.****
53. Boca do Inferno, Ricardo Araújo Pereira, Tinta da China, 296p.*****
54. Sem Sangue, Alessandro Baricco, Sábado, 158p.***
55. Tarde Azul, Júlio Saúl Dias, Bonecos Rebeldes, 186p.****

Outras sugestões:

Filmes:
O Leitor, de Stephen Daldry, com Kate Winslet, David Kross, Ralph Fiennes*****
Mamma Mia!, de Phyllida Lloyd, com Meryl Streep, Colin Firth****
Frost/Nixon, de Ron Howard, com Frank Langella, Michael Sheen, Kevin Bacon*****
Número 23, de Joel Schumacher, com Jim Carrey**

Festas para o último fim-de-semana de Maio:
Mercado Romano em Braga
Festa de Serralves
Feira do Livro do Porto
Feira dos Minerais na FCUP

quinta-feira, maio 28, 2009

O livro dos dias (breve selecção de Maio - e final)

Desisti do projecto. Por falta de ser. Enfim...

1. Sabemos quase sempre que somos melhores do que os outros e piores do que gostaríamos de ser. Ou é ao contrário? Mas o que interessa ser, se não somos reconhecidos nisso pelos outros? Desisto - sou a desistência em consciência - mas só daqui a meses. Há que sobreviver até à data limite.
Depois virão tempos
ainda
piores.

2. É Ma É La é Ri é A: Malária! Viva a Malária! Vamos! Private jock sem piada nenhuma. Mas que nos fez rir como se fôssemos tolos. A desgraça da vida leva-nos a desejar Moçambique. Para acordar, para fugir, para viver. Ou morrer - pois ela está por lá!

5. Preciso que a minha cama seja mais do que eu.

6. Pequena visão da floresta
peito onde dorme a fera
coração (que vai dar no mesmo).

7. Propostas indecentes
RE: um pouco tarde para propostas indecentes. Talvez noutra altura. (eram já 23:50:16)

10. O coração é aquilo que queremos fazer dele, disse um aluno. E o meu coração apertado alargou-se de espanto. E achou-se sozinho, mas a pulsar. Tem dias.

A nossa música, Borboletras!



para além dos segredos que também os jardins são, sobre o amor e outros, e do amor que a amizade também é. o resto está escrito no caderno que podes ler amanhã. e nos gestos e nas palavras do quotidiano.

Obrigado. Sem ti, o jardim já seria apenas ruína...

«Run», ou o «mudar-me definitivamente»

Ouvi na rádio a versão nova. E lembrei-me da versão antiga. São diferentes, concedo. Mas ambas têm as suas virtudes. E tenho-as ouvido ultimamente, muito. Uma a seguir à outra. Só porque o fim se aproxima, a passos largos. Gosto em especial de «To think I might not see those eyes/Makes it so hard not to cry/And as we say our long goodbye/I nearly do».




terça-feira, maio 26, 2009

da existência

Ainda gostava de saber a razão de toda a gente me falar no msn só quando estou a ouvir músicas de Natal.

E dizem, normalmente, «isso já passou». Mas estamos em Maio e eu ouço. E não poderia ser «ainda falta muito»? Ou o tradicional «o Natal é quando um homem quiser»?

Não me apetece o Natal, nem nada, mas às vezes apetece-me outro tipo de música, diferente da do dia-a-dia, que traga a nostalgia e a alegria ao mesmo tempo. Acompanhada pelos meus berros, pois claro.

segunda-feira, maio 25, 2009

excertos de «O mundo não passa de mundo»

III. 7. O Grito

A poetisa veio ter connosco, convidando-nos para nos juntarmos ao grupo que lá dentro se ia formando no sofá e nas cadeiras dispostas em círculo para a ouvir. Foi nesse momento, de repente, que o grito ecoou pela praia e ressoou pela casa, como se estivéssemos a ouvir um búzio. Todos ouviram e traduziram em silêncio a espera por alguma reacção que se seguisse. Ao fundo da praia, perto do mar, a mulher que tinha passado por nós, vinha a correr, desvairada, chorando. Eu e a mulher do piano acordámos da letargia e descemos as escadas.

III. 8. Borboletras

Era uma vez um homem que escrevia apenas por fragmentos. Coisas pequenas, se bem que muitas vezes profundas, concisas. Há quem ache que as duas coisas estão intimamente ligadas, mas nem sempre. De qualquer modo, os seus escritos compunham-se de fragmentos: frases breves, às vezes não sendo mesmo frases gramaticais, no sentido estrito, ou apenas letras desenhadas pelo prazer de as escrever, sem significarem nada, mas eram sempre pequenas preciosidades, fruto do acaso, da vida, se bem que muitas vezes apenas da interior; escritos a qualquer momento do dia ou do sono, interrompido a custo para a escrita que se poderia perder na manhã seguinte se não acontecesse naquele momento; sobre tudo o que lhe interessava ou causava espécie.

III. 11. Manual de sobrevivência a um coração partido

Na deslocação, revi a minha comunicação sobre um livro medieval recentemente descoberto pelo meu professor numa biblioteca privada e em cuja edição eu estava envolvido. Um livro interessantíssimo sobre a forma de sobreviver a males de amor, em espécie de manual didáctico. Após várias entradas frescas ou mais conhecidas pelo vulgo, o autor anónimo deixava bem claro, no final: «As receitas que i poderam haver, seerá frol quem no mais tender, ca a seu golpe nom pode durar arma». E era sobre este final, de uma certa desesperança na resolução dos casos com a ajuda do próprio manual, que eu ia falar no congresso. Por experiência própria, pois então.

III. 13. O exílio

Doía-lhe aquela existência e não conseguia perceber como poderia sobreviver no seu próprio espaço, voltar a ser o que era. É que estando ela no seu lugar de sempre, como se poderia sentir em exílio? O exilado é aquele que está morto para a sua terra, em parte, pelo menos, e ela sentia-se assim, morta na sua terra, como que exilada antes desta ser sua e fosse apenas um reflexo e algo que nunca poderia realmente existir – a vida.

III. 15. Deus como romancista

Cá fora, vestiu o casaco rapidamente, e circulou, para não se deixar chorar. Mas chorou, a andar, como se fosse um mendigo sem casa – e era-o, naquele momento, sem a melhor casa da vida, a casa dos verdadeiros amigos que nos abrigam o mais importante: o gosto que têm de nós. E ele via-se assim, de repente, sozinho numa rua que não costumava frequentar, com casas que lhe pareciam vazias de vida, embora fossem bonitas. E, por fim, achou a entrada de uma casa onde se sentar e perder-se durante algum tempo. Nada do que se passou a seguir interessa a ninguém. Dos seus vinte e cinco anos de pouca experiência, o professor não sabia o que era perder um amigo de forma tão voluntária. Nem nunca saberia, de facto.

aniversário

Cansado.

Ofereceram-me uma televisão para eu não me deitar tão cedo, para me fazer companhia. Foi uma prenda de anos. Resmunguei, pois claro. E além dos boxers (tamanho acima, enfim), de um livro (poesia de Saúl Dias), de uma carta, um postal, dinheiro, bolos, Expiação com primos, mensagens e chamadas e beijos (que aproveito para agradecer), recebi, um pouco por todo o lado, um número novo na minha conta pessoal.

Agora tenho 26 anos e uma televisão no quarto de cá. Ontem liguei-a para ouvir falar de medos e morte, e para choramingar com a Izzy. Hoje, são quase nove horas, tenho 26 anos e estou pronto para ir dormir.

Ideias...

P.S - E não era esta a companhia de que eu precisava.

Adenda: ao menos já tenho resposta para aqueles questionários tão típicos, quando me perguntarem «Qual foi o pior presente que te ofereceram?» Escrevi coisas bem piores sobre o assunto no meu caderninho actual, mas é melhor não partilhar.

domingo, maio 10, 2009

um poema de Fernando Pinto do Amaral

para a Inês

Aprende o infinito, recupera
a distraída bússula da alma
pouco a pouco sonâmbula, o exausto
sabor da tua vida enquanto é mais
que um recado de lume no teu corpo,
que a promessa da febre no teu sangue,
e a prende sobretudo a suspender
o tempo quando abraça quem morreu
só pra ressuscitar dentro de ti
ao cumprir a memória incandescente
dos dias que o amor transforma em meses,
dos meses que o amor transforma em anos,
dos anos que o amor rasga e entrega
ao rosto azul do céu e destes versos.

sábado, maio 02, 2009

III. 5. Amores imperfeitos



Tinha orgulho no seu jardim. Havia nele flores de várias espécies, recolhidas por várias gerações de que se sentia a herdeira espiritual. Tratava dele como se fossem filhos que não podia ter e conversava com elas como se houvesse resposta às coisas que lhes dizia. Quando uma planta morria, sepultava-a debaixo de outras, como que a perpetuá-la nelas, de modo a que nunca se faltassem. Eram lindas e toda a gente as elogiava na variedade, nas cores, no perfume, na perfeição. Um dia, acordou e viu que a cada um dos amores-perfeitos faltava uma pétala. Sorriu de ironia, a seguir apeteceu-lhe chorar, mas não o fez. Fechou a janela para não se ver e cismou para não emurchecer.

O que é aquilo?


É bonito, possibilita reflexão, e é grego.
Visto aqui.

E é melhor vê-lo lá, porque aqui não aparece a imagem toda... :(

quinta-feira, abril 30, 2009

O livro dos dias - (breve selecção de Abril)

3. Tenho de voltar a ouvir, insistentemente, «I get along without you very well» (versão Diana Krall). Mas sem o final, pois parte-me cada vez mais em mil fragmentos de nada...

9. Somos nós também aquilo que somos? O que não queremos ser? O que queremos e não conseguimos? Onde começa e termina o ser e o querer? Ou o não ser e o não querer? ___________ O Sol hoje nada pode esclarecer.

14. «P´ra frente é que é caminho». Ou para trás, ou para os lados. Qual frente? Estamos a falar de espaço ou de tempo?
16. A genialidade é uma questão de tempo e de espaço.

17. Custa-me a solidão dos dias, ao contrário do hábito. Dos dias que vivo e que tinha projectado diferentes, contigo. O que custa não é a solidão, é ver-te sem ter-te, é depois não te ver chegar a casa, e ter-te apenas na memória. Face ao vazio e à loucura: as palavras ou o silêncio da solidão.

19. Eu não preciso de saber de nada do mundo. Eu sou um mundo e já me chego!

23.
I get along without you very well
I get along without you very well
I get along without you very well
I get along without you very well
I get along without you very well
I get along without you very well
I get along without you very badly
I get along with(out) you very well
I (don't) get along without you very well

24. Já não havia estrada, apenas um muro. E para além dele era impossível ver.

domingo, abril 19, 2009

desafio em abril

Bibliotèque, Vieira da Silva


Do imenso tempo inicial das férias das Páscoa ainda em Braga ao tempo curto com a família e com o regresso atarefado, foi isto que li. O João Aguiar autografado foi leve e empolgante, outros foram bons enquanto momentos de leitura, outros muito bons e intensos, como o Richard Yates e a Agustina (que mais uma vez me desconcerta, com um livro onde me seduziram sobretudo algumas construções frásicas). E depois há um chamado o remorso de baltazar serapião, que não cumpriu as minhas expectativas em relação à inovação da linguagem tão apregoada (não me pareceu muito experimental nem arrojado - mas talvez isso seja das minhas leituras rosianas, coutianas, luandinas, ondjakianas ou, no mesmo eixo temporal medieval, do Pedro Eiras), mas incomodou-me enquanto livro, história, e seduziu sobretudo pela irrupção do fantástico retratado, em alguns casos, como real habitual.

39. O Priorado do Cifrão, João Aguiar, Porto Editora, 384p****
40. O Profeta, Kahlil Gibran, Europa-América, 94p****
41. Revolutionary Road, Richard Yates, Civilização, 286p*****
42. Uma migalha na saia do universo (antologia da poesia neerlandesa do séc. XX), org. de Gerrit Komrij, Assírio & Alvim, 144p***
43. Mal por Mal, F. Scott Fitzgerald, Teorema/FNAC, 72p***
44. Contos negros para os filhos dos brancos, Blaise Cendrars, Teorema, 94p***
45. As Pequenas Memórias, José Saramago, Caminho, 150p***
46. Os Meninos de Ouro, Agustina Bessa-Luís, Focus, 316p****
47. o remorso de baltazar serapião, valter hugo mãe, Círculo de Leitores, 190p.****(*)


Outras:
Wall-E*****
Awake***
Slumdog Billionaire****
P.S. I Love You****

terça-feira, abril 14, 2009

Ada Plays - Gabriel Yared

de um dos meus filmes favoritos, uma das minhas músicas. tão bonita que faz chorar...

terça-feira, março 31, 2009

(bem) na minha mão - Susana Félix

Porque faz cada vez mais sentido. Mesmo depois do que aqui já disse. Sobretudo o refrão, impagável: «enquanto vergo, não parto/ enquanto choro, não seco/ enquanto vivo, não corro/ à procura do que é certo» (todos reparámos nos pares antitéticos e todos sabemos do que se fala no final).

sábado, março 28, 2009

O livro dos dias - (breve selecção de Março)

5. Primeira frase, em muitas das últimas, que não é sobre ti, ou para ti. Ou então não...

6. O comprazimento da dor. O gostar de sofrer. Não é isso que quero mas às vezes parece que sim. É como se nada valesse realmente a pena e o melhor seria fugir e ler, apenas, até a morte chegar e levar-me para uma biblioteca eterna. Mas não é de livros que preciso, T., é de ti. do teu assoar discreto, do riso tão próprio, dos olhos inquietos. É por eles, pela falta deles e de tudo que sofro. Não podes ser da amizade, tens de ser também do amor, do meu amor - isso já és, falta o resto...

8. «O meu Guano desapareceu, fiquei muito triste... e o Rafa: ó Rita, não fiques triste, o Guano só morreu e depois volta.» - A sabedoria das crianças!

9. Esses botões desapertados, por esquecimento, em lugar tão crítico, bastariam para encher a minha mão. Mas não para saciar o que tu sabes que também termina em ão.

10. Deus é realmente um romancista dos ranhosos. E o resto é silêncio, pois então.

14. E não é que voltou mesmo! O meu primo Rafael afinal sabe mesmo destas coisas. E ainda comentou «Foi às meninas»!

19. E «enquanto eu não reclamo a dor dos dias» e a morte não toma conta dessa reclamação, continuarei aqui, à espera...

27. «É para dizer que em parte a minha vida está ligada à tua e tens que cuidar de ambas - agora não tens outra saída senão viver eternamente.» Marta
embora "eternamente" seja demasiado para mim...

29. «A ouvir o silêncio que a ausência da tua voz, do teu abraço... de ti... traz até a mim...» (roubado ao Tozé - frase do msn)

30. Face ao vazio e à loucura: as palavras.

31. Pergunto-me quantas vezes te terás lembrado de mim hoje. Nenhuma, ou uma ou outra, por acidente. Pois eu apenas uma; ao acordar lembrei-me da tua ausência real... e nunca mais apaguei de mim o desejo de ti.

terça-feira, março 24, 2009

desafio em março


Do tempo apertado, sem tempo quase, entre os afazeres de final de período sem vontade, e o fantasma da dissertação, e o fantasma da minha própria vida... fez-se este conjunto de leituras. Gradual, demorado no caso do Vale Abraão (brilhante, mas denso e não me apanhou na melhor fase), enquanto que os seguintes, a partir de Um Crime no Expresso do Oriente, me apanharam na fase do tudo preparado até ao final das aulas, o matar o tempo que devia ser para a dissertação. E continuo a ler, como um maluco. E ainda bem, porque soube-me muito bem percorrer As Cidades Invisíveis, ler as histórias com bichos, ou chegar à conclusão que O Resto é Silêncio. E o que mais virá, diria o meu pai se lesse isto.

25. O Beijo da Palavrinha, Mia Couto, Caminho, 30p.*****
26. Fanny Owen, Agustina Bessa-Luís, Público/Mil Folhas, 224p.****
27. Crime no Expresso do Tempo, Luísa Ducla Soares, Lisboa Editora/Civilização, 80p.****
28. Sonetos Luxuriosos, Pietro Aretino, Guerra & Paz, 96p.***
29. Só de Amor, Maria Teresa Horta, Frente e Verso/Visão, 80p.***
30. Vale Abraão, Agustina Bessa-Luís, Planeta DeAgostini, 306p.*****
31. Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie, RBA, 240p.*****
32. Raízes do Porvir, Domingos Florentino (Marcolino Moco), Universitária, 84p.***
33. Sem Título e Bastante Breve e Outros Poemas, Al Berto, Assírio & Alvim/FNAC, 32p.***
34. O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro, 200p.*****
35. As Batalhas no Deserto, José Emílio Pacheco, Oficina do Livro, 88p.****
36. «Ficções de bichos», direcção de Luísa Costa Gomes, 160p.*****
37. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Biblioteca Sábado, 180p.*****
38. Falar Verdade a Mentir, Almeida Garrett (ilustrações de João Caetano), Porto Editora, 60p.****


Recomendam-se ainda Milk e Changeling - dois filmes muito bons.

domingo, março 22, 2009

Revolutionary Road - algumas pequenas pérolas


April Wheeler: Come on, tell me the truth, Frank. Remember that? We used to live by it. You know what's so good about the truth? Everyone knows what it is, however long they've lived without it. No one forgets the truth, Frank, they just get better at lying.



April Wheeler: So now I'm crazy because I don't love you, right? Is that the point?

Frank Wheeler: No! Wrong! You’re not crazy, and you do love me. That’s the point, April.

April Wheeler: But I don’t. I hate you. You were just some boy who made me laugh at a party once, and now I loathe the sight of you. In fact, if you come any closer, if you touch me or anything, I think I’ll scream.

Frank Wheeler: Oh, come on, stop this April. [He touches her for an instant and she screams at the top of her lungs before walking away. He chases after her] Fuck you, April! Fuck you and all your hateful, goddamn - [He breaks a chair against a wall]

April Wheeler: What are you going to do now? Are you going to hit me? To show me how much you love me?

Frank Wheeler: Don’t worry, I can’t be bothered! You’re not worth the trouble it would take to hit you! You’re not worth the powder it would take to blow you up. You are an empty, empty, hollow shell of a woman. I mean, what the hell are you doing in my house if you hate me so much? Why the hell are you married to me? What the hell are you doing carrying my child? I mean, why didn’t you just get rid of it when you had the chance? Because listen to me, listen to me, I got news for you - I wish to God that you had!


John Givings: Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.

*********
Não transcrevo um dos melhores momentos do diálogo: a revelação da infidelidade dele e a reacção dela. Fica para ser visto, que é bem melhor. Um grande filme, sobre tudo o que já se disse por aí sobre ele, sobre a inutilidade, a futilidade, o sentir-se preso a um quotidiano que oprime e não permite ser-se maior, vivo, do desejo da mudança e da realização, do ser-se especial e não sentir-se desse modo... Eu próprio já devo ter dito da banda sonora (que ouço amiudadamente), das interpretações (e de uma grande Kate Winslet), da fotografia, do guarda-roupa, da direcção artística, do guião...
O que vai abaixo é só para quem viu:
No final, o desfecho inevitável de April foi acidente ou suicídio? Quando vi no cinema fiquei mais convencido pela primeira hipótese, mas agora, ao ver novamente em casa, parece-me que há uma certa tendência para a segunda. E ainda gosto mais do filme assim, ambíguo...

sábado, março 21, 2009

Dia da poesia, ó T!


Porque é dia de poesia (supostamente):
«andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada»
e «falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior»,
como diz Fernando Assis Pacheco, acrescentando:
«hoje os versos são para entenderes».
Se é que me faço entender pelas palavras dos outros.

(isto não é um poema, é uma sms com versos de Fernando Assis Pacheco - o poema completo pode ser lido aqui. E esta é também a entrada do Livro dos Dias de hoje)

domingo, março 15, 2009

In Memoriam

Simples, como deveria ser, apesar de tarde. Com umas músicas dos nossos Radiohead, que me apresentaste e me fizeste apreciar. Talvez não sejam as tuas favoritas, acho que a tua era «Creep», não me lembro bem (isto da memória tem destas coisas), mas estas são as minhas. Não te preocupes que não te sigo, nem eu estou preocupado, agora, com o ter-te sugerido um caminho.


E obrigado pela caixa, pelo barco com a carta (apesar de não ter gostado de tudo o que lá escreveste), pelo livro O Resto é Silêncio que lerei o mais depressa possível. Obrigado sobretudo por teres partilhado comigo uma amizade - breve, mas a sério. E talvez um dia nos possamos ver.

As minhas favoritas, além de «No Surprises»:

«High and dry» e «Karma Police».

Ano Agustina


Parece que escolhi bem o ano para ler, finalmente, os livros de Agustina que estavam nas estantes. Não foi bem escolher, aliás. Era para ter sido já no ano passado, mas passou e não foi. E era para ter sido aquando do Honoris Causa em que tive o provilégio de ser o transportador das suas insígnias. E a presença frequente dela na minha faculdade, e o facto de viver perto da minha residência (nos tempos do Porto), sempre me despertaram para a sua leitura...

No início deste ano, a Denise disse-me que era giro eu escrever um artigo para a «Textos E Pretextos», para o número dedicado à escritora. Pois até era, mas eu só tinha lido A Sibila há muitos anos e não compreendera; Dentes de Rato e não era a minha praia; Aquário e Sagitário e não saberia o que dizer dele. Então, a Flora, muito amavelmente, ofereceu-me O Comum dos Mortais e emprestou-me As Fúrias. E deixei os que tinha em casa por ler. Escolhi ler As Fúrias, por ser mais pequeno (em tempo de trabalho e com prazos...) e adorei. Pensei: que andei a fazer para adiar a leitura de Agustina? Escrevi o artigo, veremos se é publicado.

Entretanto já li Fanny Owen, que é também muito bom, e ando perdido pelo Vale Abrãao (mas vai lentamente, não é uma boa altura). Seguir-se-ão O Comum dos Mortais e Os Meninos de Ouro. Mas mais poderão fazer parte da minha biblioteca em breve.

Disse que era um bom ano para estas leituras porque este é o Ano Agustina. Assim mesmo, segundo o JL ou IC. A «Ler» já lhe dedicou um número, que a Flora também me ofereceu, e vêm aí exposições, um filme de João Botelho, a reedição da obra e disponibilização para leitura no IC, conferências, colóquios, ciclos de cinema... Uma excelente oportunidade para conhecer a obra de um dos melhores escritores portugueses vivos.

excerto do artigo - «As Fúrias em "sede absurda de ruína"»

«Fica antes uma sugestão de suspensão, de ruína não totalmente concretizada, como se fosse possível um ressurgimento de que é símbolo a «energia» acima referida, ou ainda a salamandra negra referida no final do romance, a salamandra cuja vida se coloca em hipótese, mas «sem ética possível e sem transcendência» (Bessa-Luís, 1977, 179). No entanto, a configuração que se apresenta não pode deixar de se considerar como disfórica e sem solução, uma vez que o espaço, agora transformado em lugar, segundo a distinção estabelecida por Michel de Certeau, não parece deixar lugar a uma nova transformação. Mas isso não se afirma como certo, pois há na sua obra, e nesta também, uma vacilação das certezas, um romper do esperado, e tudo é possível, como a contradição – um dos pactos que o leitor de estabelecer de início com a obra de Agustina, a fim de a pretender conhecer um pouco melhor, como afirma, exemplarmente, Lídia Jorge: «o contraditório é o chão do pensamento. Quem não entender essa raiz profunda terá dificuldade em compreender a obra que produziu» (Jorge, 2009, 53). Mesmo da destruição pode nascer a criação – ainda que ficcional e de papel.»

sábado, fevereiro 28, 2009

Desafio em Fevereiro

Young Girl Reading - Jean Honor Fragonard


O Desafio continua, ainda de forma um pouco trapaceira, parece-me. A maior parte ainda é constituída por livros pequenos, o que não significa que não sejam bons e profundos. Contos, sobretudo. Mas lá está a Agustina, que me acompanhará nos próximos tempos. E avizinham-se leituras mais substanciais. Estes dois primeiros meses, no fundo, foram a rampa de lançamento desta missão: deram-me alguma margem de segurança.


13 - O Principezinho, Joann Sfar, Presença, 110p.****
14 - A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi, Booket, 114.*****
15 - «Ficções 6», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 150p.****
16 - Livro do Português Errante, Manuel Alegre, colecção Frente e Verso - Visão, 78p.***
17 - Amor, Amor, Amor, Andy Warhol, Campo das Letras, 50p,****
18 - «Ficções de Guerra», direcção de Luísa Costa Gomes, Tinta Permanente, 182p.****
19 - Camões, Miguel Torga, Coimbra, 20p****
20 - As Fúrias, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, 180p.*****
21 - Pedro, Lembrando Inês, Nuno Júdice, colecção Frente e Verso - Visão, 60p***
22 - Os Contos de Beedle o Bardo, J. K. Rowling, Presença, 118p***
23 - O Desejo, Safo, Teorema, 88p***
24 - Dos Livros, Montaigne, Teorema, 60p***


Mais sugestões: a (polémica) Feira do Livro de Braga, apesar de pequena. E um filme, um grande filme: Revolutionary Road - com a muito grande Kate Winslet!

O Livro dos Dias - (breve selecção de Fevereiro)


2. Estou com vontade de me zangar com alguém hoje. E queria que fosses tu, para a seguir fazer as pazes…

3. Eu tenho sempre palavras, às vezes não sei é o que fazer delas…

4. Ontem foi quase. Hoje não me apetece. É preciso, portanto, ter cuidado. São estes os dias, os momentos mais perigosos. Os que são do contra, os que se seguem aos frustrados, os que subitamente nos escapam das mãos.

6. O momento da tarde, do dia, em que guardei nas minhas as tuas mãos durante o breve segundo de as sentires quentes e o longo instante de tas saber frias, e fortes e tuas, valeu por outros momentos feitos de palavras, hesitações, ironias. Admirável mundo este o do tacto. Estou em tempo de o explorar mais.

7. As mãos hoje enchem-se de livros, letras, pó – já que não te tenho para voltar a enchê-las de ti.

8. Hoje não pensei em ti… Não pensei, a sério. Hoje não. Não te imaginei comigo, não tentei ouvir o teu sorriso que não me saiu nunca dos ouvidos. Não. Não pensei em ti. Não pensei eu noutra coisa – por isso não pensei em ti. Fui em ti. E agora ao escrever isto não penso em ti, mas em nós – que ainda não somos.

13. Hoje é o dia. Escolhe entre as palavras, o objecto e o gesto. As palavras são ao que são, valem o que quisermos fazer delas. Os objectos são mais fáceis, mas menos expressivos. Os gestos dizem tudo, mas são os mais difíceis – porque não se sabe a resposta que podem suscitar. Podem ser os três, também, embora se excluam por redundância. E eu que sou sempre tão seguro e só relativizo e duvido porque tenho as minhas certezas estou sem saber o que dirás, farás ou me darás. Talvez por isso goste de ti.

15. Coloquei o tinteiro novo, comprado ontem. Peguei no saco plástico pequeno e ia arrumá-lo, para outra vez. Mas senti que havia algo mais lá dentro, que não era suposto, que não tinha comprado. Eram dois corações em forma de chupa-chupa – tal igual, porque era o dia e não sei o quê. Não foi a solidão que me impeliu, foi o desânimo – porque ela sempre me teve e me guardou, este é que é novo e invasivo. E faz-me tanto mal que os dois corações foram encarcerados na caixa das goluseimas, como quaisquer outras, à espera de vez. Como todos, afinal.

19. Trocámos mais algumas palavras, as do dia-a-dia, as normais e esperadas. Menos mal, as coisas. Mas iguais, e eu não as queria assim. Ou ainda não normais, aliás. Faltam aquelas que nos definam, definitivamente, as verdadeiras. Aquelas que não quero ouvir, as que seria quase melhor ficarem em silêncio. A verdade é que te amo – mesmo que não deva, que não possa, mesmo se não quisesse. E por isso mesmo, não insistirei. E as palavras serão silêncio entre nós.

20. «Um mar rodeia o mundo de quem está só.» Nuno Júdice, Pedro, lembrando Inês

Que nomes têm estes mares que me rodeiam, sem mundo?

25. Eu não tenho nada. A sério que não tenho nada. Não se preocupem e acreditem: eu não tenho nada. Nada, nada. Porque o nada não pode possuir-se. E eu sou isso, apenas. Nada de nada importa, portanto.

26. Fiz um barco. Dobra aqui, vinco mais forte ali – e foi ganhando a forma desejada. Depois levei-o ao ribeiro da aldeia. A água era fria e corria livre, cheia. O barco não durou muito nela: virou, não conseguiu voltar à posição inicial. Ajudei o caudal com o meu próprio, mas sem exageros. E fiquei a vê-lo afundar-se, desfazer-se, pensando que eu próprio podia estar ali e o barco ser eu e eu o barco. E nada se perderia, segundo Lavoisier. Amen.

28. Destruo-me nestas coisas que escrevo, no que imagino, naquilo que faço sem ti. Mas até a destruição é criação! Assim, vale a pena, como quase tudo. E estas coisas, só minhas, não poderão destruir mais ninguém – mas também não criam…

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

O mundo não passa de mundo

É o título do terceiro livro de contos. Substitui o antigo e provisório título Já deste corda ao Pardal?. Este de agora é menos concreto, mas mais meu, depois do espectáculo do Shakespeare e de acontecimentos recentes. Assim mesmo: O mundo não passa de mundo. E dos cinco primeiros contos:

1. Cosmos
2. Das palavras inúteis
3. Martim e a demanda
4. Conto contando-te
5. O homem sem a sua sombra

selecciono estes excertos só porque sim (os outros contos são mais privados e inacabados, ainda)

III. 1. Cosmos: «Mas nesse dia, estando ele à beira de um rio borbulhante, nu para tomar banho, apareceram uns seres estranhos, que ele pensou serem homens, por serem feitos à imagem e semelhança deles. Estes viram-no belo e harmonioso, mas acharam-no horrível, embora não se saiba se por ser diferente se por inveja dessa diferença. E perceberam quem era, e o que tinham de fazer. Por isso, atiraram-se a ele, para o afogar. Desse deus simples, sem nome, sem rosto, ficou a flutuar no rio amansado uma luz, e dessa luz, intensa, quente, começou a libertar-se um nevoeiro cerrado, que subia e formava nuvens mais grossas e escuras. Os seres parecidos com homens tiveram medo e fugiram, sabendo que tinham atentado contra um deus. Eram eles próprios deuses, mas sem a simplicidade e sem a pureza daquele que ali andava a ocupar espaços que eles próprios ambicionavam. Mas temeram e fugiram. Mais tarde viriam, dar-se-iam a conhecer e também eles viriam a ser expulsos deste mundo, mas deles ficaram estas estátuas, estas pinturas, estes templos como memória, como habitação. »

III. 2. Das palavras inúteis: «Ela não leu as palavras dele, ele não soube dizê-las de outra forma e as coisas teriam sido perdidas como num deserto um grão de arroz, se ela não fosse diferente, se ela não precisasse de as ouvir, de saber como «Dou por mim muitas vezes ao longo do dia a pensar no teu sorriso, nas tuas palavras e fico sempre cm vontade de estar contigo, de te abraçar, de te beijar e de dizer ao teu ouvido o quanto eu gosto de ti.». Não precisava, ao contrário dele e de tantos outros, das palavras para estabelecerem certezas. Mas ela não sabia como as palavras são importantes para que as certezas não passem drasticamente a dúvidas.»

III. 3. Martim e a Demanda: «Na verdade, a torre da vitória, apesar de bem conhecida por todos, de vista, ao longe, era tida como o maior mistério das redondezas. Era uma torre muito alta, coberta de silvas até metade, negra no restante, com pedras salientes como escamas, brilhantes ao sol, assustadoras em qualquer momento do dia ou da noite, envoltas num clima que lhe parecia intrínseco e que raiava a maldade pura. Ninguém, no castelo, percebia era o objectivo de guardar o livro do Graal num sítio mau. Ninguém achava também outro lugar onde fosse possível ter guardado uma coisa tão importante, embora não pensassem que poderia não estar ali, mas num mundo tão vasto como a soma dos reinos que ainda faltavam conquistar para juntar aos já conquistados. Ninguém que se tivesse aventurado pela floresta para chegar à torre tinha voltado para contar o que vira o que lhe sucedera…»

sábado, janeiro 31, 2009

O Livro dos Dias - (breve selecção de Janeiro)

2. Eu, de vez em quando, T.
Porque a rotina da escrita interlocutiva me exige uma marca pessoal além da óbvia, da lógica, da vulgar. E porque «eu sou um outro», ou muitos, às vezes.

6. Hoje estou com preço verde FNAC: €12,95.

(pista: Expiação)

7. «Sentia-se triste como uma casa sem móveis.» Flaubert, Madame Bovary
Os móveis enchiam o espaço interior, e cada um de nós tropeçava, batia, não vivia neles, porque tomava, conta de nós de forma opressiva. Não havia vazio, nem silêncio. E cada um de nós seguiu o seu rumo. Depois, aos poucos, desbaratadas no vento as lembranças, as palavras, queimadas, que foram os gestos, ficámos sós, eu e a casa. E embora a solidão não doa, entristece. Como a casa sem ti.

10. «Olha sexto, fazemos assim, nada de promessas, nem de palavras vãs… Pois… Não sei… Sem palavras é complicado… eu sei… Mas as palavras não resultam comigo. O que faço?» Pensamentos Blogueados

Cortava os pulsos para poder escrever assim.

12. Em demanda de um novo ser. Não ser tão, mas ser. Ser implica tão. E não somos apenas uma matilha de lobos solitários que andam ao desencontro ansiando por uma alma gémea que teima em não aparecer, somos, mais a matilha que também não a quer achar. Ou a nós.

15. 14 de Janeiro. Todo o santo dia bateram à porta. Gostava que sim. Mas só estive em casa à noite, Al Berto. Estás a ver, o teu dia foi melhor do que o meu. Abriria, e verias as pessoas. Escrevo agora, apenas. Não ouço o mar nem me sobressalto, mas as tuas palavras dizendo-o desconfiam-me de o ver entrar pelos olhos, a outra janela para lado nenhum. Serei um homem privilegiado não por (não) ouvir o mar ao entardecer, mas por desejar mais. Estou tão triste e apaixonado. E escrevo sem fim. Oh!

16. Dizem que sou demasiado intenso… ou demasiado superficial… decidam-se e depois avisem-me.

17. Se fosse para comentar o teu epíteto, «o amado», seria para o transformar em forma verbal de primeira pessoa. Com pronome de segunda. E seria então ainda mais óbvio.

21. O teu nome persegue-me no que leio, no que assisto, ao acaso. Em O Mercador de Veneza, no Boa Noite Senhor Soares. Eu não acredito em sinais, mas gostava. E saber interpretá-los dava jeito.

22. Não se sabe por que gostamos de pessoas que não conhecemos, mas gostamos. Coisas estranhas. E gostamos. Não de todas as coisas estranhas, mas algumas tuas. Ou todas. Ou tu, em suma. Tudo o que não de ti está no meu gosto. E sei que gosto de ti, porque fico triste se, por qualquer motivo, me atraso a chegar à nossa sala e menos tempo estaremos juntos, a falar do trivial, enquanto me perco como se te abraçasse e estivéssemos sós. Gosto só de ti.

25. Diz Kierkegaard qualquer coisa parecida com isto: que o Homem, não ser ele próprio, é o desespero. Mas onde fica o desespero do Homem na procura de si próprio?

27. Eu também sei que nenhum de nós não será alguma coisa. Ou seja, todos nós seremos alguma coisa. Nem que seja apenas agora nesta hora em que nos deixamos acreditar podermos ser. E mais não digo, que estou baralhado (as minhas certezas são sempre tão efémeras).

29. Pode ser que te surpreendas um dia, velho amigo. De não falares abertamente, não em rodeios, às voltas, mas como se percorresses com a linguagem um labirinto do qual não consegues sair – talvez porque não o queiras. Mas não te arrependas: nesses labirintos surgem portas, janelas, bifurcações. E se as tomares, quem sabe onde irás parar, o que te reservam para além do visível indistinto. Mas talvez possas arrepiar já caminho e em vez de janelas ou portas tenhas varandas. E daí ao infinito é um passo – sem perdas, pelos menos de maior.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

7 maravilhas de origem portuguesa no mundo

É só fazer o registo e escolher. E algumas valem bem a pena a nossa atenção. Aí fica o link. De Marrocos a Angola, do Brasil à Índia, vários monumentos que mostram um pouco dos portugueses espalhados pelo mundo. Eu já votei!

Adenda: estão também em votação as 7 Maravilhas Naturais do Mundo, ainda numa fase intermédia. Eu já escolhi as minhas sete (incluindo o Douro, pois claro). Aí fica também o link.