sexta-feira, junho 18, 2010

Dos gostos, das memórias, das palavras (José Saramago)

Quem me conhece sabe da minha paixão pela obra de Saramago. E este blogue é testemunha. De como comecei, com receio, pelo Memorial do Convento no primeiro de ano de faculdade, e como de repente, em sete anos, entre muitos outros autores, li todos os seus romances, algumas crónicas e contos, muito por causa da exposição onde fui monitor, mas isso foi apenas um pretexto para ler mais em menos tempo.
Aquele primeiro romance alertou-me para outras possibilidades da narrativa e encantou-me com Blimunda, Baltasar e Bartolomeu e a profunda visão crítica sobre a sociedade religiosa, preconceituosa e fanática. Ensaio sobre a Cegueira foi lido em dois dias, num ápice de devorar o terror que se me abria numa lógica implacável (a que a peça de O Bando e o filme de Fernando Meirelles, em linguagens diferentes, dão o devido valor). Ensaio sobre a Lucidez foi-me estranho inicialmente, por questões mais políticas, mas o humano revelou-se novamente como essencial, e comoveu-me, sobretudo pela relação com o romance anterior. Pelo lado dos afectos, do amor sobretudo, tocaram-me A Caverna, com o seu cão Achado, e um outro, que li enquanto me despedia de Lisboa, História do Cerco de Lisboa, talvez um dos mais complexos, pelos planos temporais distintos, mas com uma semiótica do amor extraordinária. Jangada de Pedra pelo fantástico (também em filme), Levantado do Chão pelo realismo. O Ano da Morte de Ricardo Reis, Todos os Nomes, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, O Homem Duplicado, Caim são livros que me dizem menos, mas de que gostei, pela forma como se dão a ler. Dos últimos, abriram-me a alma A Viagem do Elefante, a fazer recordar tanto o fulgor dos tempos de Memorial, e As Intermitências da Morte, livro que recomendei a alunos e que surtiu efeito positivo, pela forma irónica e interessantíssima do tratamento do tema da morte. De Manual de Pintura e Caligrafia não gosto, e talvez por isso não queria ler Terra do Pecado - ambos antes da «revolução estilística» do autor.
Consti, os livros de poesia e as crónicas não li, só Deste Mundo e do Outro, que tem aquelas «cartas» geniais para/sobre os avós, e O Ano de 1993, que me perturbou. Nem o teatro, nada. Doutros que li, A Maior Flor do Mundo é bonito, as Pequenas Memórias tem passagens interessantes, Os Discursos de Estocolmo e A Estátua e a Pedra são fundamentais para perceber a sua obra. Dos contos, Objecto Quase é interessante, sim, mas O Conto da Ilha Desconhecida enche-me as medidas e trabalhei-o felizmente este ano lectivo com alunos do nono ano. Consti, foi-se-nos o escritor por que esperamos uma tarde no pavilhão Rosa Mota para nos autografar uns quantos livros. E tu tens aquela edição genial da Colóquio/Letras...
Borboletras, foi-se-nos o «olharem-se era a casa de ambos». E o darmos ao mesmo tempo o único autor vivo obrigatório no programa. Ficam-nos as minhas edições: a segunda e a especialíssima do Memorial, para apaixonarmos os piquenos, com o Toninho.
Marta, Patrícia, ficam-nos as memórias daqueles dias em Lisboa de curso livre - e a descoberta da verdade sobre Blimunda -, de visitas guiadas - tantas que fiz à exposição «A Consistência dos Sonhos» e vocês tiveram de ver aquela em que quase era assediado pelas senhoras demasiado atentas e curiosas - de que há provas bonitas em fotos que ainda não me chegaram.
Natacha, Su, tantos outros - o estágio, o seminário...
Rita, ficam-nos agora os livros nas estantes da minha nova biblioteca, e alguns que sei que também foste adquirindo. Gosto de saber que to apresentei e que lhe abriste o teu tempo entre fórmulas químicas e coisas estranhíssimas para mim.
Gosto-o e nada mais há a dizer. Não virão mais livros, ficam-nos estes, e chegam-nos para o que lhe merecemos. Que ela viria um dia, já sabíamos. Como veio já este ano encontrar-se com Miep Gies, Salinger, Alda Espírito Santo, Rosa Lobato Faria, João Aguiar (que ainda esteve no ano passado no colégio). Pena que este encontro seja assim, tão definitivo.

terça-feira, junho 01, 2010

Das coisas que ando a perder...


incerto apenas o teor do espectáculo, não a sua qualidade. linda madrinha :)

Desafio em Maio



Em mês de aniversário e de comunicações, com algum teatro pelo meio, com muitas mini cookies de chocolate consumidas, continuei o meu desafio. Nos filmes é fácil, da pilha que me espera e que vai crescendo apesar dos meus esforços, resgatei 17, alguns já antigos, outros estreados há pouco, dos quais destaco o belíssimo A Single Man (pelas interpretações, banda sonora, direcção artística, argumento... enfim, duas ou três mãos cheias de razões) e ainda os fantásticos Juno e August Rush e The Private Lives of Pippa Lee, num mês com muita Julianne Moore, a «buffy» e Lee Pace. Nos livros, Gonçalo M. Tavares domina, claro. Mas ainda houve tempo para Penélope, por causa do congresso, leituras fáceis, e um livro genial: A Invenção do Dia Claro, que recomendo mais que todos :). E pouco falta já para atingir os 80 livros inicialmente previstos :).

Livros:

38. A Odisseia de Penélope, Margaret Atwood, Teorema, 204p.****
39. O Senhor Kraus, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 124p.****
40. O Senhor Calvino, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 80p.*****
41. O Senhor Walser, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 46p.*****
42. O Senhor Breton, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 66p.*****
43. O Senhor Swedenborg, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 120p.*****
44. Jerusalém, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 256p.*****
45. O Prazer da Leitura (2010), A. A. V. V., FNAC/Teorema, 148p.***
46. O Diário de um Banana 3 – A Última Gota, Jeff Kinney, Vogais & Co., 224p.****
47. A Invenção do Dia Claro, Almada Negreiros, Guimarães/FNAC, 100p.*****
48. PoeMário Cesariny 2010, Assírio & Alvim/FNAC, 328p.***


Filmes:

64. August Rush, de Kirsten Sheridan*****
65. Viagem ao Centro da Terra, de Eric Brevig****
66. Kung Fu Panda, de Mark Osborne e John Stevenson****
67. A Single Man, de Tom Ford*****
68. Madagáscar 2, de Eric Darnell e Tom McGrath****
69. Serpentes a Bordo, de David E. Ellis e Lex Halaby***
70. Soundless Wind Chime, de Kit Hung****
71. Verónica Decide Morrer, de Emily Young***
72. Irmãos Dalton, de Philippe Haim****
73. Possession, de Joel Bergvall e Simon Sandquist***
74. 500 days of Summer, de Marc Webb****
75. Chloe, de Atom Egoyan***
76. The Private Lives of Pippa Lee, de Rebecca Miller*****
77. The Women, de Diane English****
78. Juno, de Jason Reitman*****
79. Brothers, de Jim Sheridan****
80. O Sexo e a Cidade, de Michael Patrick King***

E voltou o sol


pelo menos fisicamente, lá fora.

sexta-feira, maio 28, 2010

A Neve

depois da chuva, a neve. em pleno mês de Maio :)
esta noite, enquanto há feira romana (à qual voltarei), recriando contos de Vergílio Ferreira, a saber: «O Encontro», «A Palavra Mágica», «A Fonte», «A Galinha» e «A Estrela». espectáculo pelo Teatro das Beiras, no sítio do costume.

terça-feira, maio 25, 2010

quinta-feira, maio 20, 2010

palavras


As reflexões sobre estes e outros temas/motivos aparecem por vezes eivadas de «lugares-comuns» e caracterizadas como «óbvias» - mas o que é «lugar-comum» e o que é «óbvio» depende tão-só de quem lê e da sua experiência de leitura do mundo. Por vezes, também o «óbvio» tem de ser evidenciado, e quantas vezes não será ele encarado como «óbvnio»? Também o amor, ao de leve, a felicidade, o tempo são temas que vão surgindo. Mas o tema principal, ou o que mais interessa ao narrador, é o da criação artística, associado à leitura. A leitura como salvação e evasão, a escrita como entretenimento (de si, para os outros), como catarse - «A minha vida está cheia de erros que me levam à escrita. Sou dependente das palavras para colmatar um vazio lúcido que me habita» (PAIVA, 2010, p.131), como compromisso, como libertação.


Mas Penélope é ainda uma presença ausente, feita de subtilezas, de retiros, de silêncios. Ela tem um lugar só seu onde se recolhe e se protege de todos, [...]. Parece isolar-se cada vez mais em si mesma ao longo dos anos, não se interessando com o que os homens vão fazendo na sua casa: delapidando a sua fortuna e dormindo com as servas. É quase vagueante, discreta, despojada, reduzida ao essencial, remetida ao seu interior, quase se destruindo perante a contemplação de uma felicidade que já teve e que está agora ausente da sua vida.

terça-feira, maio 18, 2010

sem título

É agora que dizemos os últimos tempos
habituados que estamos a calendários
onde os dias se passam na lentidão da noite
na rapidez trabalhosa das tardes.
Talvez de manhã entre a solidão e a morte
possamos ver-nos inteiros e divididos
do nosso destino de notas comuns
de mão puxando com a outra mão a outra mão
que se desampara entre os números
onde vamos marcando o dia o seguinte
em contínuo antecipar e retomar do tecido
onde nos construímos mão na mão.
É agora que abrimos os pulsos ao vento
para com o seu sangue sabermos de nós
num futuro que se ligará a hoje para sempre.
É agora o tempo de dizermos o interdito
o caroço do pêssego a constituição do gesso
as palavras nele gravadas a cinzel.
Se nos perdemos foi do tempo de chuva
que erodiu os gestos, afogou as palavras.
Que nunca o tempo por ti passe assim
com sua raiz alicerçada na morte e no medo.
Os dias que poderiam ter sido nossos
Sê-lo-ão de leve nas páginas escritas
Mesmo que inventadas pelo imenso tempo
Que - de repente - se abre entre nós.

de Livro das Suspeições

terça-feira, maio 11, 2010

para quem vê


Dizem que de fora se vêem melhor as coisas. Parece que sim. Ou pelo menos os que vivem um pouco mais fora da minha vida viram. É que por vezes torna-se-me difícil disfarçar. Alunos do oitavo ano perguntaram-me se estava doente. Um colega de Português um pouco mais distante preocupou-se e questionou-me se estava tudo bem, e uma outra, da mesma área, se eu tinha dormido bem. Mas aqueles que realmente importam não notam, não se interessam ou não questionam. E ainda bem, porque não gostaria de falar-lhes de vida e morte, estadias e partidas, viagens eternas. Até porque as certezas são tudo o que não tenho.


Estou doente, sim, mas isto passa. E tenho dormido muito bem, estranhamente. Acho que é já uma certa aceitação. Valham-nos os girassóis. Porquê? Não sei, mas são bonitos e gosto de vê-los. Ou talvez porque ver de frente o sol nos cega - embora eu já tenha perdido as pretensões a ser o sol de quem quer que seja.

segunda-feira, maio 10, 2010

Procura-se



companhia da peça de ontem no Theatro Circo, trilogia José Rubem Fonseca.



Tem altura, ficou ao meu lado e pareceu-me bem interessante :)




p.s. - no único momento interactivo da peça, uma personagem pergunta-me, sim - a mim, se não concordava com ele sobre as virtudes e benefícios da masturbação. Eu concordei, pois claro ;)

sábado, maio 08, 2010

súbita audição do eu 6 (final)

«My shadow's the only one that walks beside me
My shallow heart's the only thing that's beating
Sometimes I wish someone out there will find me
'Til then I walk alone»

Green Day, «Boulevard of broken dreams»

«There are many things that I would like to say to you
But I don't know how»

Oasis, «Wonderwall»

quinta-feira, maio 06, 2010

súbita audição do eu 5

But I just feel too tired
To be fighting
Guess I'm not the fighting kind

Where will I meet my fate?
Baby I'm a man, I was born to hate
And when will I meet my end?
In a better time you could be my friend

Keane, «A Bad Dream»

terça-feira, maio 04, 2010

Súbita audição do eu 4

«And you already know
Yet you already know
How this will end»

Devotchka, «How it ends»

segunda-feira, maio 03, 2010

dois selos e um carimbo ____ ou ____ Deolinda

Novo disco dos Deolinda. E é lindo - pois do que se esperava? «Um Contra o Outros» é o cartão de visita, embora já se conheçam dos concertos as canções «Quando Janto em Restaurantes» e «Entre Alvalade e as Portas de Benfica» - duas das minhas favoritas, com a outra. Mas gosto de todas, sem excepção. Destaque ainda para «A Problemática Colocação de um Mastro», genial no género «Movimento» com uns traços de música de marcha popular, «Passou por mim e sorriu» ou «Fado Notário» (fala-se me focinho, vale a pena)... «Entre Alvalade e as Portas de Benfica» é a que para já mais me «obriga» a carregar no play. Fica o vídeo original, as outras músicas facilmente se encontram no sítio do costume. Ou à venda - as ilustrações de João Fazenda também convencem :)

quinta-feira, abril 29, 2010

Desafio em Abril



O desafio continua, sempre. Entre as mil solicitações, as leituras têm andado... com textos pequenos. Faz-se o que se pode. De Penélope (28) - que me irá ocupar em breve (onde aprendi a escarificar e que o «acto perfeito da entrega e do amor, o difícil limite a alcançar, era escrever um livro em comum, um livro de literatura em que romance e mito se fundissem»p.34), à melhor poesia de 2009 reunida numa edição de ajuda humanitária (29), às aventuras que me acompanham desde sempre (30), a um filme que vi e que descobri ser de um livro, onde as linguagens se distanciam e se complementam para contar uma história de esperança, perserverança e amor num longo domingo que se prolonga na memória de Mathilde - e agora na minha (não andará aqui um pouco de Penélope?), para além da guerra (a primeira), dos quadros, dos gatos (31), ao «Bairro» de Gonçalo M. Tavares - os outros livros ainda esperam mas serão em breve, e aqui também se falará deles (33-36) -, à imperfeição assumida que apresentarei na FNAC em breve (32), ao ensaio sobre Cesário (37)... Muitos filmes, sim, que são mais fáceis de incluir no tempo e no intervalo do cansaço. Até breve, que outras coisas me esperam.

livros:
28. O Regresso de Penélope, António Vieira, Colibri, 154p.*****
29. Resumo. a poesia em 2009, Assírio & Alvim e FNAC, 168p.****
30. Uma Aventura no Pulo do Lobo, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Caminho, 212p****
31. Um Longo Domingo de Noivado, Sébastien Japrisot, Asa, 240p.****
32. Livro Imperfeito, António Paiva, Edições Ecopy, 208p.***
33. O Senhor Valéry, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 88p.*****
34. O Senhor Henri, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 98p.****
35. O Senhor Brecht, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 72p.*****
36. O Senhor Juarroz, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 72p.*****
37. Um Ramalhete Para Cesário, Stephen Reckert, Assírio & Alvim, 104p.****


filmes:
45. Into the Wild, de Sean Penn***** (profundo, não recomendado a gente sem paciência)
46. O Perfume, de Tom Tykwer***** (belíssima adaptação do livro, vale a pena)
47. À Procura da Felicidade, de Gabrielle Muccino****
48. A Noiva Cadáver, de Tim Burton***** (como demorei tanto tempo para ver este filme? linda visão sobre a morte e sobre o amor)
49. Submerged, de Anthony Hickox**
50. Beowulf, de Robert Zemeckis****
51. Marie-Antoniette, de Sofia Coppola***** (com os sem all stars - eu vi ;), no guarda-roupa dela, um grande filme com Kirsten Dunst)
52. The Condemned, Scott Wiper***
53. Eastern Promises, de David Cronenberg****
54. Caos Calmo, de Antonello Grimaldi****
55. Nine, de rob Marshall**** (menos tempo e mais Nicole, tinha sido bom)
56. Disturbia, de D. J. Caruso***
57. Orgulho e Preconceito, de Joe Wright***** (oh meus Deus, como não tinha visto antes? quase tão bom como Expiação! Keira e Matthew impecáveis)
58. O Véu Pintado, de John Curran***** (como se inveja um homem como Edward Norton assim, aqui)
59. Macht Point, de Woody Allen**** (desilusãozita - mas a minha amiga Scarlett compensa)
60. O Rapaz do Pijama às Riscas, de Mark Herman***** (muito interessante, a ver sem falta)
61. O Laço Branco, de Michael Haneke****
62. Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky***
63. Bem-Vindo ao Norte, de Dany Boon***** (impecável para dar umas boas gargalhadas com nível)

outros:
Ensaio Sobre o Medo, pelo grupo Artes Cénicas (Outurela - Carnaxide).

quinta-feira, abril 15, 2010

soltos, em viagem...

Tenho pena da perfeição que não tenho - no duplo sentido - de não o ser, de não ter ao meu lado.


****
Fraga

O cheiro é o da terra
que floresce
em árvores brancas
e rosas de apenas cor.


****
O suicida foi quem
não esperou

a vida parecia
ter horas a mais

****
só dois motivos
um que não é o é
outro que o virá a ser

domingo, abril 11, 2010

súbita audição do eu 3

(assim mesmo, a versão longa e não a comercial que também anda por aí...)

«So I hid my soiled hands behind my back
Somewhere along the line I must've gone off track with you
(...)
Well, excuse me, guess I've mistaken you for somebody else,
Somebody who gave a damn,
Somebody more like myself.»

Jewel, «Foolish Games»