sábado, novembro 27, 2010
Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, de Daniel Filipe (fragmento)
Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,
acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor.
Parto amanhã.
Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo
doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.
Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos con-
tornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.
Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria
e apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.
Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz dis-
tante, entre ruídos de música e interferências aladas.
Não basta ser feliz.
Não basta a Primavera.
Não basta a solidão.
quinta-feira, novembro 25, 2010
Desafio em Novembro
112. A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, Mário de Carvalho, Bis/Leya, 96p.****
113. Fabulário, Mário de Carvalho, Caminho, 128p.***
114. Quatrocentos Mil Sestércios seguido de O Conde Jano, Mário de Carvalho, Caminho, 136p.*****
115. Apuros de Um Pessimista em Fuga, Mário de Carvalho, Caminho, 80p.***
116. Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina, Mário de Carvalho, Caminho, 228p.*****
117. A Sala Magenta, Mário Carvalho, Caminho, 176p.****
118. A Arte de Morrer Longe, Mário de Carvalho, Caminho, 128p.*****
119. Diário da Vida de Um Mocho II, João Lobo, Calígrafo, 172p.**
120. a invenção do amor e outros poemas, Daniel Filipe, Presença, 76p.****
filmes:
Diário de um Mocho - II, João Lobo

Post factum (correu tudo bem, como seria de esperar... ou não)
«Mas porque uma viagem é sempre um mundo de surpresas e porque, não raro, ninguém dá conta da verdade quando ela se nos põe diante dos olhos.» (p.72)
«Nunca saberemos se a vida é feita de mortes ou se a morte é feita de vidas!» (p.108)
«Dos gatos colhi as mais surpreendentes confissões e, através do seu olhar comiserativo e de pedinte a quem não se pode dizer não, as solicitações mais inesperadas. “Já fomos deuses!” - assim começavam quase sempre as duas falas. – “E, com os nossos amos, atravessámos as portas do Mais-Além” – prosseguiam.» (p.163)
terça-feira, novembro 23, 2010
o que me tem feito chorar
quinta-feira, novembro 18, 2010
O que eu quero para o Natal
sábado, novembro 13, 2010
Rodrigo Leão, Coliseu do Porto
Muito se espera :)
depois do concerto:
teve uma primeira parte mais «clássica», como:
e uma segunda com canções de mais sucesso comercial, como:
faltou «Rosa», faltou «Deep Blue», mas já teve tanto ;)
Foi de génio, é o que posso dizer. E teve a minha/nossa canção:
sábado, novembro 06, 2010
Esperar/ (to) Wait
(espécie de mensagem em vice-versa, em desistência momentânea, na belíssima voz de Alexi Murdoch, em canção do filme Away we go)
segunda-feira, novembro 01, 2010
3 dos 125 poemas de Joaquim Pessoa
De pássaros não sei nada.
Também Sócrates diria que dos pássaros nada soube.
Porque um poeta é um filósofo. E um filósofo
é sempre um poeta.
E um poeta não deve saber dos pássaros
mas dos homens.
Eu confesso: de pássaros nada sei.
Sei dos homens. Mas pouco.
Por isso os estudo. Falo deles. Amo-os ou odeio-os.
Aliás, entre os homens raramente há sentimentos intermédios
como a indiferença, por exemplo.
Não consta que os pássaros os conheçam.
Os homens são muito importantes para um poeta.
Tão importantes como as palavras.
Direi mesmo mais importantes.
Porque não poderão existir palavras e poetas sem homens
mas os homens já existiam sem palavras e sem poetas.
E mesmo as palavras e a poesia sem homens não serviriam para nada.
Portanto temos
primeiro o homem
depois a palavra
e por fim o poeta.
Na poesia, é pois, fundamental, o homem.
Sendo assim, é natural que eu fale dos homens
e me recuse a falar dos pássaros
porque, também, para falar de um assunto
é preciso estudá-lo
conhecê-lo
e, como eu já disse, de pássaros não sei nada
prefiro falar dos homens embora deles não saiba tudo
mas vou analisando-os
tentando conhecê-los melhor
em vez de analisar e tentar conhecer os pássaros
porque me parece
não poder haver uma relação por aí além
entre o pássaro e o homem
nem os pássaros poderão resolver os problemas dos homens
(habitação, ensino, desemprego, etc.)
num um homem só que seja pode ser explorado
por um ou mais pássaros
nem os os pássaros fizeram explodir nunca uma bomba atómica
ou se juntaram em bandos para discutir
se hão-de construir centrais nucleares para matar alguns homens
em benefício de qualquer pássaro
ou ainda para conferenciar sobre a bomba de neutrões
que pode ao mesmo tempo matar os pássaros e todos os homens.
Por todas estas razões proponho que
a poesia fale do homem para o homem
porque:
a) falando dos pássaros a poesia fala só dos pássaros;
b) falando dos homens, a poesia fala de tudo
(até dos pássaros);
c) os pássaros nunca poderão entender a poesia nem os poetas nem os outros homens;
d) a poesia falando dos homens fará com que os homens possam entendê-la e entender não só os poetas como também os pássaros e, sobretudo, o que é fundamental, entenderem-se entre si o mais depressa possível.
*****
Tu ensinaste-me a fazer uma casa
Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti os meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.
Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.
E vejo ainda o teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.
****
Perguntas
Onde estavas tu quando fiz vinte anos
e tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
retalhados na Coreia e no Vietname
nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylan
virando também as costas quando arrasaram Wiriammu e enterraram vivas
mulheres e crianças em nome
de uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
que ninguém te encontrou em lugar algum?
quarta-feira, outubro 27, 2010
As mãos inteiras
inteiras e cheias com as minhas
ou com o meu corpo
água ou vento que nos leve ao encontro do outro mundo.
As mãos que eram andaime e guindaste
cofre do tesouro que era o próprio tesouro sem fim.
As mãos ambas
dextra e sinistra perfeitamente idênticas
onde o sopro do meu ser
pode encontrar abrigo.
Desafio em Outubro
livros:
102. 125 poemas. Antologia Poética, Joaquim Pessoa, Litexa, 224p.*****
103. A Ponte Sobre o Drina, Ivo Andrić, Cavalo de Ferro, 418p.*****
104. dentro de mim faz sul seguido de acto sanguíneo, Ondjaki, Caminho, 128p.***
105. Solte os Cachorros, Adélia Prado, Cotovia, 128p.****
106. Contos Cruéis, Villiers de L’Isle-Adam, Estampa, 152p.*****
107. Alicia, ao Amanhecer e outros contos, Carlos Ruiz Zafón, Planeta, 40p.*****
108. Contos do Mal Errante, Maria Gabriela Llansol, Rolim, 240p.****
109. A Feira dos Assombrados e Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis, José Eduardo Agualusa, BIS/LEYA, 144p.*****
110. Lenin Oil, Pedro Rosa Mendes, D. Quixote, 160p.****
filmes:
168. O Reino Perdido, Rob Minkoff***
169. Crank, Mark Neveldine e Brian Taylor***
170. Crank
171. Shelter, Mans Marlind e Bjorn Stein*****
172. Shutter Island, Martin Scorcese*****
173. A Casa das Coelhinhas, Fred Wolf***
174. He's just not into you, Ken Kwapis****
175. Remember Me, Allen Coulter*****
176. Burn After Reading, Ethan e Joel Cohen*****
177. The men who stares at goats, Grant Hesloy*****
178. Les Herbes Folles, Alain Resnais***
179. Les Chansons d'amour, Christophe Honoré****
180. 21: A última cartada, Robert Luketic***
181. Filme do Desassossego, João Botelho****(*)
182. Zoom, Peter Hewitt***
183. Beautiful Kate, Rachel Ward*****
184. A Lenda de Zorro, Martin Campbell***
185. La Journée de la jupe, Jean-Paul Lilienfeld*****
186. Padrinho... mas pouco, Paul Weiland***
187. Regresso a Halloweentown, David Jackson**(*)
188. A Nightmare on Elm Street (2010), Samuel Bayer***
189. Devil's Diary, Farhad Mann**(*)
terça-feira, outubro 19, 2010
sábado, outubro 16, 2010
filme do desassossego
vi ontem, no Theatro Circo, com apresentação breve do realizador, João Botelho, na companhia de colegas e/ou amigos. Para além dos óbvios textos extraordinários, uma imagem e uma banda sonora deslumbrantes, grande elenco, tudo em conformidade, melhor do que esperava. Gostei (menos da "ópera").
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
nota: a visualização do filme não dispensa a leitura. mesmo.
quinta-feira, outubro 14, 2010
Alberto Caeiro certeiro
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
segunda-feira, outubro 11, 2010
quarta-feira, outubro 06, 2010
Tomai lá (não do O'Neill) do Cesariny
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.
O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia.
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.
O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão
Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da Kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço da heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela do lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.
Formado o quadrado
Era quando o Aleyster Crowel aparecia.
"Iô Pan! Iô Pã!", dizia,
E era felatio para todos
E pão de ló molhado em malvasia.
sábado, outubro 02, 2010
ai o Natal!
terça-feira, setembro 28, 2010
Desafio em Setembro
E bem, primeiro mês de trabalho com nova carga horária. E custa, pois claro, e ainda vai ficar pior. Mas a verdade é que, contrariamente às previsões, lá me tenho aguentado a nível de desafios culturais. Consegui ir a Santiago (com a Marta-Mim e a Simona, seguido dos livros 93 e 94), fui ao teatro, e adorei o espectáculo com Ana Bustorff, e a um musical pop com textos de valter hugo mãe, mas outras coisas ficaram pelo caminho - sobretudo o meu curso de Galego, que queria mesmo frequentar... 11 livros, pequenos, sim, mas muito bons, quase todos. Mia Couto (92) em textos circunstanciais que não deixam de ser muito bonitos, finalmente o Bartleby (95 - esperava mais, sim, mas assim mesmo é qualquer coisa) e outros clássicos como a famosa casa trágica (97), a preciosidade azarada da procura de uma vida melhor (100) e a Amazónia eivada de literatura (101). Ainda tempo para o alternativo, embora com diferentes resultados (98 e 99). Tempo ainda para continuar com os filmes (ainda falta um pouco para atingir os 183) e para The Tudors - genial.
livros:
91. F. de Fiama, Fiama Hasse Pais Brandão, Teorema, 100p.***
92. Pensageiro Frequente, Mia Couto, Caminho, 136p.*****
93. Leyendas del Camino de Santiago, Los Cadernos de Urogallo, 60p.****
94. El Camino de Santiago, Los Cadernos de Urogallo, 44p.***
95. Bartleby Escrita da Potência, Giorgio Agamben (inclui Bartleby, O Escrivão, Melville), Assírio & Alvim, 120p.****
96. Novas Histórias ao Telefone, Gianni Rodari, Teorema, 96p.****
97. A Casa de Bernarda Alba, Federico García Lorca, Europa-América, 144p.****
98. Maurice, E. M. Forster, Cotovia, 288p.****
99. Heliogabalo, Antonin Artaud, Assírio & Alvim, 150p.***
100. A Pérola, John Steinbeck, Europa-América, 124p.*****
101. O Velho que Lia Romances de Amor, Luis Sepúlveda, Porto Editora, 128p.*****
filmes:
152. An Education, Lone Scherfig*****
153. Inglorious Basterds, Quentin Tarantino***
154. Casablanca, Michael Curtiz****
155. 3x3 e Momentos, Nuno Rocha****
156. The Ugly True, Robert Luketic****
157. Killers, Robert Luketic***
158. Spread, David Mackenzie**
159. Lesbian Vampire Killers, Phil Claydon****
160. Shrek Forever After, Mike Mitchell***
161. Invictus, Clint Eastwood****
162. Robin Hood, Ridley Scott***
163. The Ghost Writer, Roman Polanski***
164. Tempestade Tropical, Ben Stiller***
165. A Papisa Joana, Sonki Wortmann****
166. George e o Dragão, Tom Reeve***
167. Velvet Goldmine, Todd Haynes****
outros:
The Tudors, temporadas três e quatro, em dois dias de descanso, sem conseguir parar - 18 episódios grandinhos! Obrigado S. por me passares estes episódios que faltavam e, sim, podes agradecer ter-ta apresentado há um ano. Ficam-me personagens interessantes com as desempenhadas por Henry Cavill, Jeremy Northan, Jonathan Rhys Meyers, Emmanuel Leconte, Jamie Thomas King, Natalie Dormer, Maria Doyle Kennedy, Joss Stone, Annabele Wallis, Joely Richardson, entre outras. Muito sangue e morte, sexo, mentiras e conspirações, religião, amor e opulência.*****
E pronto, também continuei a ver Anatomia de Grey, Sobrenatural e Chuck.