sábado, outubro 29, 2011

Voltar

houve lugar para «Voltar» na quinta-feira, no Theatro Circo.
voltar a ouvir em presença Rodrigo Leão e o Cinema Ensemble,
voltar a emocionar-me com muitas músicas e muitas canções,
e voltar ao «Voltar», música de amores passados :)



sábado, outubro 22, 2011

Al Berto e Wordsong

Wordsong sobre a poesia de Al Berto. Três exemplos abaixo, aqueles que foi possível encontrar no youtube. Faltam algumas das minhas favoritas como «14 de janeiro», «Telegrama STOP», «Horto dos Incêndios», «Amar, Amar-te»...




«Ouve-me»



«Les Mots»



«Cabeça de Vidro»



uma mão cheia de poemas de Al Berto




é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais… e no ventre impossível das cidades nocturnas
a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com ternura
mas não

águas, águas inquinadas pulsando dentro de meu corpo, como um peixe ferido, louco
em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam.

***

envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer
amassar com os dentes uma morte íntima
durante a sonolência balbuciante das papoulas prolongar
a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer

colher em teu sexo o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos... as bocas
do gado triturando o restolho... as correrias inesperadas
das aves rasteiras

e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca
subirei com a fala ao cimo de teu corpo ausente
transmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes


***

11 de Março

definha-se texto a texto, e nunca se consegue escrever o livro desejado. morre-se com uma overdose de palavras, e nunca se escreve a não ser que se esteja viciado, morre-se, quando já não é necessário escrever seja o que for, mas o vício de escrever é ainda tão forte que o facto de já não escrever nos mantém vivos. morre-se de vez em quando, sem que se conheça exactamente a razão, morre-se sempre sozinho.
nunca fui um homem alegre. morro todos os dias, como poderia estar alegre?
sento-me e medito na busca de novas palavras. tornou-se quase inútil escrevê-las; chega-me saber que, por vezes, as encontro, e nesses momentos readquiro a certeza dalguma imortalidade.


****

[excertos de Carta da Flor do Sol (a meu amigo)]

vou partir
como se dosses tu que me abandonasses

(...)

sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo
ah meu amigo
estou definitivamente só


*****

Recado


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto, O Medo, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p.160, 262, 365, 405-414, 605

pequena obsessão aqui.

segunda-feira, outubro 17, 2011

melancolia dos dias

Alex Turner, «Hiding Tonight»


The Temper Trap, «Love Lost»

segunda-feira, setembro 26, 2011

Desafio: 09

com o aproximar do fim do ano, a passos largos, os desafios realinham-se. de repente, 150 livros num ano parece-me possivel (mesmo que tenham de ser um pouco mais pequenos) e 300 filmes também. muito pela frente, pois claro, mas no bom caminho. será um ano muito cheio e de números irrepetíveis. e será bom!
regresso a Mário de Carvalho e a Pedro Eiras, senhores de quem gosto muitíssimo, descoberta mais profunda de José Cardoso Pires e a descoberta prática de Rui Sousa Basto (livro belíssimo verbal e iconicamente), Jack London  e José Mauro de Vasconcelos (e seu livro que me fez chorar muitas vezes... ). nos filmes, muitos filmes bons, com destaque para o cinema proveniente de muitos sítios que não os EUA, para variar :)
houve ainda tempo para o teatro, com a F, no Theatro Circo. Jardim foi a proposta da Companhia de Teatro de Braga - sobre Inês, Pedro, Constança, com uma parafrenália de sons, objetos, multimédia e outros que levaram à exaustão e pouca resistência aqui do espetador...


livros:

95. O Homem do Turbante Verde, Mário de Carvalho, Caminho, 190p.****(*)
96. Jogos de Azar, José Cardoso Pires, Planeta deAgostini, 246p.***
97. O Delfim, José Cardoso Pires, Visão/JL/D. Quixote, 190.*****
98. Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires, Público/Mil Folhas, 254p.***
99. A República dos Corvos, José Cardoso Pires, Bis/Leya, 160p.*****
100. Contos do Efémero, Rui Sousa Basto, Opera Omnia, 72p.*****
101. Nos Joelhos do Silêncio, Heliodoro Baptista, Caminho, 96p.***
102. Reflexões sobre o Sr. Pessoa, John Wain, 56p.****
103. Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos, Dinapress, 196p.*****
104. A Peste Escarlate, Jack London, Quasi, 96p.***
105. O Apelo da Selva, Jack London, Vega, 104p.*****
106. Fractura, Eduardo Pitta, Angelus Novus, 40p.***
107. Aforismo de aforismos, Vicente Sanches, Cotovia, 58p.***
108. Quinto Império ou A Musa da Casa de Sêr, Vicente Sanches, Cotovia, 104p.*****
109. Os Três Desejos de Octávio C., Pedro Eiras, Relógio D’Água, 176p.*****
110. A Fera na Selva, Henry James, Quasi, 94p.***

filmes:

178. Thor, Kenneth Branagh****
179. Little Deaths, Sean Hogan et alii**
180. Haevnen, Susanne Bier*****
181. Watchmen, Zack Snyder*****
182. The Beaver, Jodie Foster*****
183. The Tempest, Julei Taymor***
184. Tangled, Nathan Greno e Byron Howard****(*)
185. London Boulevard, William Monahan***(*)
186. Vidocq, Pitof****
187. Death in Love, Boaz Yakin***
188. Shaum of the Dead, Edgar Wright*****
189. The Deep End, Scott McGehee e David Siegel****
190. TrolljegerenAndré Øvredal***
191. Your Higness, David Gordon Green****(*)
192. Animals United/Konferenz der Tiere, Reinhard Kloos e Holger Tappe****(*)
193. Uninhabited, Bill Bennett****
194. Sykt Lykkelig, Anne Sewitsky****(*)
195. The Tree, Julie Bertucelli*****
196. Como Desenhar um Círculo Perfeito, Marco Martins***(*)
197. The Presence, Tom Provost***
198. After the Waterfall, Simone Horrocks****
199. Good Night, and Good Luck, George Clooney****(*)
200. The Way, Emilio Estevez*****
201. Kynodontas, Giorgos Lanthimos***
202. It's Kind of a Funny Story, Anna Boden e Ryan Fleck*****
203. Submarine, Richard Ayoade*****
204. Dylan Dog, Kevin Munroe***
205. The Ward, John Carpenter***(*)
206. Gnomeo and Juliet, Kelly Asbury*****
207. Arn - Tempelriddaren, Peter Flinth****

súbita melancolia


«Blood», The Middle East



«Quiet Times», Dido

sábado, setembro 24, 2011

2 poemas de Heliodoro Baptista




Ao Futuro

Saberás um dia que o amor nunca
nasce, nunca deve. O amor é,
sempre foi, sempre esteve.

Rigorosamente contemporâneo
da explosão cósmica
que, contam, declinou ao princípio
do escuro e da luz.
Seguiu-se o espontâneo ciclo
das épocas, das glaciares estações.
Os continentes são da mesma raça.
Os homens do mesmo barro.

Saberás que, para haver história,
os homens mataram e morreram,
morreram e mataram.
Explicaram, em orgias de palavras,
onde nada havia para explicar,
porque tudo se intuía,
o princípio foi só um
e a vida ligou-se à vida.

Saberás
que o amor é tudo
e o tudo nunca foi cognoscível.
Como o nada.

Nunca aceites ser mártir.
Ama o teu presente e o futuro
e, por certas tardes de sábado,
de olhos porventura humedecidos,
limpa docemente a minha tumba.
(Ou, por outra, deposita
as minhas cinzas na caixa
de sândalo: nosso diálogo
terá o sopro indistinto de Apolo
e o mágico da harmonia sem lágrimas!)


****

Thandi

escrevemos na pele:
a morte não existe
porque já dormimos sobre ela;

se se passa alguma coisa? não, meu amor;
ou seja, passa-se absolutamente tudo!
e o tudo é o pão
que nunca houve neste nada;
(mas o nada será o princípio de tudo,
estas já longas servidões humanas);

esquino, te reescrevo, Thandi; e se tenho palavras
é porque imito o canto
de uma ave fecundada adulta;

(claro que o lirismo não se prende ou rotula:
aceita-se tarde ou se nega e muito cedo);

mas o poeta tem boca:
as metáforas o seu ardil,
para que outros leiam
o que ele nunca disse. 

Heliodoro Baptista, Nos Joelhos do Silêncio, Lisboa: Caminho, 2005, p.20-21, 70.



considerações e ligações sobre o poeta aqui.

segunda-feira, setembro 12, 2011

O Sr. Pessoa



Costa Pinheiro, O chapéu do poeta Fernando Pessoa, 1979.
Óleo s/ tela 100 x 100cm.



Ele, o Sr. Pessoa, acolhia bem a vida. Vamos escrever com letra grande:
ama e era sensível à Vida, e se ela assumia um semblante
ele ficava contente por saudá-la e tinha o quarto limpo expressamente
para acolher a deusa - mas não tentava prendê-la ou demorá-la.
Há homens que se portam como se a Vida fosse uma jovem apetecida:
armas ciladas, fazem negaças, exibem-se se sabem que ela os vê.
O Sr. Pessoa por seu lado lidava com a vida mais como vizinho:
ela nunca andava longe e ele tinha a certeza de a encontrar às vezes.
Costumavam falar na rua, cavaqueio sem outras intenções,
às vezes ela passava lá por cada e então durava mais o convívio,
ela era visita, ele anfitrião, e o diálogo parecia mais estruturado
depois, já de saída, mais um sorriso, cinco minutos de conversa à espera do carro.
O grande desejo do Sr. Pessoa era só que a Vida o aceitasse
como presença sem pretensões, amante que não ousava possuí-la:
ficar ali quieto, confiante, até ao dia de irem buscar o seu caixão.


John Wain, Reflexões sobre o Sr. Pessoa, Lisboa: Cotovia, 1993, p.29

domingo, setembro 04, 2011

As palavras mais belas do mundo




motivado pelo espírito de «a minha palavra favorita», que vai pontuar o início deste ano letivo dos alunos do secundário (finalmente), fica aqui a lista das palavras mais bonitas do mundo, de acordo com a revista Kulturaustausch, que já tinha até motivado um conto, entretanto perdido...


Em primeiro lugar surge uma palavra turca, YAKAMOZ, que significa: reflexo da lua na água.

Em segundo lugar: hu lu: dormir, respirando profundamente, da China.

A terceira palavra seleccionada é volongoto: caótico; numa língua africana de uma região do Uganda.

Quarto lugar encontra-se oppholdsvaer: a luz do dia depois da chuva; assim se diz na Noruega.

No quinto lugar lê-se madala: graças a Deus; língua africana Hausa.

No sexto, a portuguesíssima saudade: nostalgia (e muito mais que agora não cabe aqui esmiuçar).

No sétimo lugar colocam perekotipole: o corredor do deserto, segundo o que se diz na Ucrânia.


Nota: os critérios eram relacionados com o significado (e a sua intraduzibilidade), mas também com o significante.

domingo, agosto 28, 2011

Desafio: 08

Férias abençoadas! Pouco calor, pouca vontade de sair por aí, embora Santarém, Lisboa e Parque Natural do Alvão receberam a minha esperada visita. :)
Tempo de ler Dostoiévski - tinha medo de lhe pegar pelo tamanho, mas foi uma agradável surpresa a densidade e, ao mesmo tempo, a voluptuosidade da leitura dos dois romances maiores e a reflexão sugerida e despertada pelo Crime e Castigo, um monumento extraordinário -, de me encontrar com alguns livros de poesia africana (82, 92), de poesia portuguesa (86, 94), alguns clássicos (81, 84, 91, 93), com destaque para a beleza habitual de Raul Brandão.
Muitos filmes, pois claro, na tela, no computador, na televisão - o local cada vez menos me importa. Muitas surpresas boas e pequenas pérolas do cinema quase sempre mais recente, mas também de alguns com uma ou duas décadas em cima.
Bons tempos de traquilidade, caminhadas à noite, conversas inteligentes e estúpidas, batidos de amora, beijos aqui e ali, biblioteca mais arrumada, uma recensão e um artigo escritos (falta um, ainda... e mais uma comunicação - o trabalho não era prioridade, mas ambos em fase de redação). Sem muito Sol, daquele bom como gosto, mas também com um dia daquele tempo de tempestade que também adoro.
Para o ano há mais :)

livros:

81. Histórias Cor-de-Rosa, Ramalho Ortigão, JN, 80p.***
82. MITOgrafias, Arménio Vieira, Vega, 116p.*****
83. Guardador de Almas, Rui Vieira, Ambar, 128p.***(*)
84. As Ilhas Desconhecidas, Raul Brandão, Perspectivas & Realidades, 136p.*****
85. Montedemo, Hélia Correia, Ulmeiro, 56p.*****
86. Da Alma e dos Espíritos Animais, Rosa Alice Branco, Campo das Letras, 88p.****
87. Crime e Castigo, Dostoiévski, Público/Mil Folhas, 578p.*****
88. A Voz Subterrânea, Dostoiévski, Quasi, 128p.***
89. O Idiota, Dostoiévski, JN/DN, 610p.****
90. L’opéra de la lune, Jacques Prévert, La Guide du Livre, 48p.*****
91. Conto de Primavera Dinis e Isabel, António Patrício, Livraria Estante Editora, 128p.*****
92. O Osso Côncavo e outros poemas, Luís Carlos Patraquim, Caminho, 192p.***
93. A Ilha do Doutor Moreau, H. G. Wells, DN, 128p.*****
94. Poesia, Luiza Neto Jorge, Assírio & Alvim, 320p.****


filmes:

141. Jude, Michael Wintwebottom (recuperado)*****
142. The Bachelor, Gary Singor****
143. Carne, Gaspar Noé**
144. Tennessee, Aaron Woodley*****
145. Seven Pounds, Gabriele Muccino****(*)
146. Kaboom, Gregg Anaki***(*)
147. The Rite, Mikael Håfström***
148. Beastly, Daniel Barnz*****
149. Seconds Apart, Antonio Negret****
150. La Solitudine dei Numeri Primi, Saverio Costanzo***
151. The Fighter, David O. Russell***
152. Fading of The Cries, Brian A. Metcalf**
153. Rien à Déclarer, Dany Boom****(*)
154. Wrecked, Michael Greenspan***
155. Black Death, Christopher Smith****
156. I am Number Four, D. J. Caruso****(*)
157. Curtas de Animação - Óscares 2011*****
158. Scream of the Banshee, Steven C. Miller**(*)
159. The Adjustment Bureau, George Noefi*****
160. Hoodwinked Too! Hood vs. Evil, Mika Disa***(*)
161. The Lost Future, Mikael Salomon****
162. Source Code, Duncan Jones****
163. Ceremony, Max Winkler****(*)
164. No Strings Attached, Ivan Reitman****(*)
165. De Vrais Mensonges, Pierre Salvadori*****
166. The Clinic, James Rabbitts****(*)
167. Año Bisiesto, Michael Rowe****
168. Body of Lyes, Ridley Scott***
169. Legend of Guardians, Zack Snyder****(*)
170. Vanishing on 7th Street, Brad Anderson****
171. Life as we know it, Greg Berlauti****
172. Edges of the Lord, Yurek Bogayevicz*****
173. Snatch, Guy Ritchie*****
174. Robots, Chris Wedge e Carlos Saldanha*****
175. Super 8, J. J. Abrams****
176. Jane Eyre, Cary Fukunaga****(*)
177. Womb, Benedek Fliegauf*****

sábado, agosto 27, 2011

4 poemas de Luíza Neto Jorge




I
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas


******

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


****

Nas cidades do sul
há violências e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.

Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.


*****

As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos

Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.


Poesia, Luiza Neto Jorge, Lisboa: Assírio & Alvim, 1993, p. 98, 141, 259, 283

segunda-feira, agosto 22, 2011

3 poemas de Arménio Vieira


A máquina do mundo de Os Lusíadas, por Almada Negreiros,
na fachada da FLUL

Graças dou por Luís Vaz,
Ele-Mesmo, varão audaz,
como Ulisses, nadatório,
ululado por ciclópicos
bêbados canibais.

Mas quem pode afogar
tal homem, decepar suas mãos,
liquefazer seu poema?

Se é verdade que o Novo Reino
sucumbiu à foice com que Deus
decepa a espiga ruim, também é certo
que a partir de um bla-bla ruidoso
com que Viriato, mais que a funda,
espantava os filhos de Eneias,
Luís Vaz, pegando nele, criou o poema
e a pátria que deveras conta.



****

Não há guarda-chuva, João,
contra quem não te ama,
já que o amor só se dá
quando alguém, como um rio,
se alonga e entra no mar,
o qual, embora líquido e salgado,
não é teu suor nem teu sangue.


****

Epopeias

Arma virumque cano... Deixemo-nos
de tretas! Versos destes escreviam-se
antigamente, quando Eneias e Ulisses,
em barquinhos de papel, arrancavam
olhos aos cíclopes, rindo nas barbas
de Neptuno, um rei de óculos e bengala
a precisar de viagra. Ezra Pound,
cow-boy e poeta, quis ressuscitá-los.
Pensando em quem? Mussolini via-se
bem que não. era um anão gorduchinho,
parecido aos que andam nos circos
a divertir a garotada. entre um bicho
assim e um homem chamado Aquiles
a distância é de uma légua.
Canto l'arme pietose e 'l capitano...
Deixemo-nos de tretas! Nós, a mor
das vezes, somos tigres a fazer figura
de urso. As armas e os barões...
Isso era antigamente, quando os Lusos
se riam à custa de Baco, rei sem
préstimo, bebedor de vinho.


Arménio Vieira, MITOgrafias, Lisboa: Vega, 2011:p.14, 22, 43.

quinta-feira, agosto 18, 2011

In this shirt


 THE IRREPRESSIBLES - «IN THIS SHIRT»

caidinho por esta canção, com uma letra tão bonita, uma voz tão fantástica, uma música tão extraordinária e um vídeo tão... artístico... (clicar para ver em grande, merece).



Adenda:

versão 'The Forgotten Circus'




versão de Michael CASSAN

 
 
 
 
versão Season 8 Top 20 

 
 
 
 
 
versão ao vivo, em Londres


nova adenda:



versão Röyksopp Remix

3 poemas de Luís Carlos Patraquim

Lendo Jorge de Sena

«Que tudo seja como outrora eu vi:
Uma figura ao longe recortada.»
Jorge de Sena, Sete Sonetos da Visão Perpétua

porque soberano Amor me ronda
e nos rios o ossário dos meses
em gestação é que vagueio
na ancorada nau das canções de Babel e Sião
hipótese da pedra com sílabas de colmo
e o vento por irmão

este é o campo das regadas areias
onde Heitor apodreceu
que uma sepultura em Creta acolherá
dos deuses o corpo que lhe morreu

não eu hausto na ilha errante
da entumecida voz à míngua
dos seminais lugares da esperança
e porque senão de angústia nos armamos
da exposta lança que é a língua
como se casa houvera desnudamos
extreme peregrinação nenhuma
de visão mais torturada
«uma figura ao longe recortada».


****

MUHÍPITI
É onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como mãos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
É onde me confundo de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.


******

ISLÂNDIA

Uma variação insular

Cratera estranha, fria quanto baste
E húmida, uma secreção intumescendo
A haste da figueira e o figo único
Que a boca rasga;

Não é aqui a saga de Thor, nem a espada
De Tristão, flácida.
Dobra-se o herói de lava e, em rotação de si,
Abraça o fogo petrificado.
E teme o gelo à deriva no mar, as palavras
Brancas, o sal que escorre
- alguém disse: “da terra, de onde sois” –
seu corpo aberto em fissuras cósmicas
ou lucernário; Ele que se metamorfoseou
em relâmpago e breve sabia como derivam
no tempo os frutos e o seu esplendor;

O figo único que a palavra rasga.

Luis Carlos Patraquim, O Osso Côncavo e outros poemas, Lisboa: Caminho, 2004, p.50, 93-4, 130


quarta-feira, agosto 10, 2011

3 poemas de Rosa Alice Branco



Natureza Morta com Chaminé

Vejo o fumo a sair pela chaminé e um pouco acima
as folhas da árvore tremulam. Ainda resistem,
as árvores têm um fôlego extraordinário. É o meu amigo
que vai subindo e eu aqui em baixo troco recordações avulsas
com dois rapazes do nosso tempo. Lá dentro há uma sala de espera
mas aqui também eu vou fumando a minha vida.
Em Auschwitz não havia sala de espera não havia cadeiras
para a família, nem árvores suficientes para soletrar a dor
nas suas folhas. O meu amigo vai saindo pela chaminé
e eu não sei se as nossas brigas ficam nas cinzas e onde são
guardados os afectos. Este ruído da pá que fere os ouvidos junta
tudo o que poderemos visitar num guarda-jóias para bijuteria.
A verdade que nos resta já vai alta. Só a árvore sabe nas folhas
a corporeidade da matéria que se evola. Aqui em baixo eu fumo.
Directo ao céu vai o corpo do meu amigo subindo pela chaminé.

***



Atrás dos Dias

Atravessas as ruas e o meu olhar anda
à volta do teu corpo e quando vais à escola
passo perto dos teus pés, das pernas nuas.
À tarde nos passeios apinhados de gente
não sei onde estou mas trago leite nas mãos
e o mel desce sobre a fome que pudesses ter
para que rias, a tua boca se transforme em trigo
e os teus olhos em luz. Brincas com um amigo,
eu arranco os pregos da madeira, amacio o chão
em que tropeças. Fazes os deveres, ensino
os números a obedecerem-te e a amares
as letras umas ao lado das outras, solidárias
como uma pequena vírgula para que o silêncio
receba a tua voz. Voo junto às tuas asas,
lubrifico-as e fico a ver como se suavizam
os traços do teu rosto. Agora vais partir.
Irei um pouco atrás com a cor da tarde
para não ser vista. Por mais que vás
estarei de mansinho atrás das asas. Ser mãe
é ir assim. É assim que vou à fonte.


****

Desmantelar Certezas

Agora é difícil mentir, acreditar
que as palavras possam não arder.
Foram demasiados incêndios
que passaram de século a século.
Vê como se assemelham os seus rostos,
o rasto de fuligem que os desfigura
é um cometa fugidio, mas nós sabemos
que algumas palavras passaram através do fogo,
mais magras do que os corpos, mais dúplices,
cheias de sentidos cobrindo mil cores
e mais mil ainda por abrir. Quantas vezes
a serva escolheu a quem servir?
E no chão sempre o mesmo sangue,
sempre os mesmos olhos a desmantelar
certezas. Já não podemos acreditar
que as palavras não desfiguram corpos,
não ateiam. É tarde e as palavras que nos vestem
estão cansadas. É tarde desde Abel,
desde o paraíso. E neste fim de tarde
alguém, em qualquer parte, escreve uma palavra
que ainda não foi escrita, uma palavra leve
ferindo os temporais e embora seja tarde
é também cedo e o amanhã começa
com esta palavra a caminho do seu pó.

Rosa Alice Branco, Da Alma e dos Espíritos Animais, Porto: Campo das Letras, 2001: p.
26, 49, 80.

sábado, agosto 06, 2011

5 poemas de Justo Jorge Padrón





Não sei por quanto tempo

Não sei por quanto tempo seguirei
nesta inútil sucessão de instantes.
Caminho pelas ruas com a morte à espreita.
Ainda que o meu coração o peito pise
e o corpo obedeça
às vezes do azar ou ao instinto,
ainda que sinta qua ainda posso ocupar
um trabalho nas máquinas,
um lugar entre os vivos,
eu já não me pertenço.
Olho o horizonte
e nada me devolve a inquietude aos olhos.
Onde estará aquele fogo feliz?
Já nada tenho e a vida não acaba.
Vou escutando o lento desagregar,
o processo invisível até à ruína.

***

Nova primavera

Com um novo esplendor indeciso e ardente
e uma silvestre exactidão de aromas
chegou a primavera.
Chegou como se jamais pudesse ir-se
e se se julgasse jovem para sempre.
Vi-a instalar-se junto da minha janela,
derramando clamor de pássaros e um sol indecifrável
que estalava no ar as cores.
toda a aura letal do longo inverno
se anulou diante do singelo furor
e da graça sem limites da sua primeira flor.

****


Sapatos para um deus grego

E brindei pelo deus grego e pelos seus pés descalços,
e entre o espesso aroma daquele vinho
e da alada loucura do instante,
para acalmar com o couro os seus belos pés de brisa,
abandonei na sombra os meus sapatos.

A noite abriu a porta e na mansão
ouviram.se comovidos os seus passos de silêncio.
O vento vestiu-se com folhas de penumbra
e bebendo na minha taça passou beijando as frontes.
Os nossos olhos criaram uma estrela
que cruzava a obscuridade e as distâncias.

Nunca mais soube daquele par de sapatos.

*****


Texto para um Anjo

Uma vez escrevi um texto para um anjo.
Um poema invisível semelhante às suas asas.
Ignoro ainda quem voará melhor.
Não sei em que ocasiões me recorda
a por vezes, quando durmo, deposita nos meus lábios
polpa de melão níveo ou solta no meu ouvido
ondulantes arpejos que jamais escutei,
ou sussurra palavras trémulas e remotas
que me abrem com as suas chaves as janelas da água,
enfaroladas luzes de um país atrás das suas sombras.
Com segurança conduz-me pela sua cósmica mão
por todos os espaços que sonharam os livros,
e ao mesmo tempo sou a juventude
e os olhos de tudo o que vive
no pulsar fraterno da brisa.
Sinto o calafrio das flores amando-se,
o pranto de uma estrela afundada num charco.
O meu poema invisível é o meu segredo
e ainda que agora o anuncie e o partilhe,
ele, com as suas asas diáfanas, num traço de luz
porá nos vossos sorrisos o esquecimento.

******


Voo em Chamas

Sobre o resplandecente milagre da orquídea
uma azul borboleta ergue as suas asas.
Por um instante duvido se são ondas ou pétalas,
ou se é a luz a nova flor que se abre
na aparência trémula do voo detido.
Permanece o silêncio olhando fixamente
a vertigem incendiada do espaço,
a irisação suprema, o luxo do unânime.
Uma gota de orvalho golpeia a corola.
A súbita centelha sobressalta
a comovida flor e em espiral ressurge
o voo em chamas de uma luz celeste,
enquanto os olhos torpes se perguntam
onde amanhecerá a borboleta.


Justo Jorge Padrón, Obra Poética 1966-1996, Sintra: Tertúlia, 1998: p. 255, 285, 397, 529, 769

quarta-feira, julho 27, 2011

Elegia para o Guano Jeremias



Não mais a mão no dorso recolhendo o calor
ou a vida dos bigodes e das orelhas a refilar.

Não mais virás a correr porque me sabes cá
e porque de mim se esperam todas as entregas.

Não mais teu olhar incorreto e longínquo
ou as almofadas em que pousas o peso leve.

Porque decidiste cruzar as sete encruzilhadas
que nos separam disto e doutro infinito qualquer.

Poema do Acordo Ortográfico





Pois o que havia de acontecer à língua
assim, sem mais nem menos, logo agora...
Qual será o factor, perdão, fator que o explica?
coisa tão inusitada, a mudança. Ou não?
Mas enquanto os Velhos do Restelo vociferam
e os defensores vivem a primavera da vitória,
as palavras chegam-nos despidas do velho,
límpidas e exatas no corpo que as diz.
Nada me pesa na ação, na atividade, no atual.
Adoto facilmente o novo, não sou cético - sou arquiteto
das origens renovadas pelo uso e desuso.
Faço coleção de pequenos meses, dias e estações
e de obras, ruas, sabedorias e pessoas superiores
que me surgem como querem que elas surjam.
Não hei-de, perdão, não hei de queixar-me
daquele sinal que separa os elementos que se querem casar,
porque vou fazer um inter-rail, pois sou pró-europeu
e sou super-resistente (até porque uso anti-histamínicos)
e gosto de ver amores-perfeitos pelas ruas em perspetiva,
e porque há tantos outros que se casam
num fim de semana ao pôr do sol:
autorretrato, coautor, cosseno, subregião
e até a minissaia fica mais longa, mas mais perto...
A todos aqueles que me lêem, perdão, leem,
saibam que encontrámos muitos casos giros
porque para o pelo para sair pelo pau onde pelo pêssegos
ou porque o egípcio vive no Egito e não no Egipto
e não é porque há reivindicações por lá.
E porque tudo isto vai já longo - verdadeiros heróis
que me creem de bem com esta paranoia
vamos sair para todas as rosas dos ventos,
olhar o maio deste acordo outonal -
- a dúvida é ficção desmontada dia a dia
e o sol ainda nos chama para o cor de laranja
lá fora.

terça-feira, julho 26, 2011

Desafio: 07

Tempo para balanço, mesmo antes de ir de férias. Talvez não leve computador comigo para Santarém e Lisboa, por isso mais vale ficar já. Mês de teatro, sobretudo. Mas também de série, alguns filmes e livros. E de baile de finalistas, pois então. E de alunos lindos a tirarem 19 e 20 no exame de Português, e outros igualmente lindos que ficaram mais abaixo. E os meninos do 9.º ano que lá deram o seu melhor (ou não).
Dos livros, coisas me obrigaram a protelar o trabalho, o sono (71, 74, 75, 76, 78 e 79), lágrimas até, o que não acontecia há uns tempos (71 e quase o 74). Muito os recomendo, esses de cinco estrelas, horas bem passadas, sobretudo A Rapariga que Roubava Livros, Sementes de Cabanas e Histórias Amorais para Crianças e Animais pela beleza (verbal e icónica) e originalidade de todos, pela sensibilidade do primeiro, pela imaginação do segundo, pela ironia do terceiro. Tempo para ler prendas (68 - Marta, 79 - António). Falta ainda o último do A. Lobo Antunes, já iniciado e a prometer.


Livros:
68. Livro, José Luís Peixoto, Quetzal, 264p.***(*)
69. O Mito de Sísifo, Albert Camus, Livros do Brasil, 200p.***
70. Cantos Cativos, Arquimedes da Silva Santos, Campo das Letras, 240p.***
71. A Rapariga que Roubava Livros, Markus Zusak, Presença, 468p.*****
72. Inxalá – Espero por ti na Abissínia, Carlos Quiroga, QuidNovi, 96p.***
73. Ensaio Sobre a Cicuta, a partir das peças platónicas, João Diogo Loureiro e Miguel Monteiro, CECH-FESTEA, 58p.****
74. Hipólito, Eurípides, CECH-FESTEA, 78p.*****
75. Sementes de Cabanas, Philippe Lechermeier e Éric Puybaret, Kalandraka, 94p.*****
76. O Retrato, Nikolai Gogol, Quasi, 96p.*****
77. A Morte das Imagens, Helena Malheiro, Ulmeiro, 88p.**(*)
78. Histórias Amorais para crianças e animais, João Diogo Zagalo, Angelus Novus, 164p.*****
79. Quarto Livro de Crónicas, António Lobo Antunes, D. Quixote, 328p.*****
80. Boa tarde às coisas aqui em baixo, António Lobo Antunes, D. Quixote, 576p.***


Filmes:
119. I spit on your grave, Steven R. Monroe***
120. Passangers, Rodrigo Garcia***(*)

121. Rango, Gore Verbinski*****
122. Attenberg, Athina Rachel Tsangari****
123. Hanna, Joe Wright****
124. Happythankyoumoreplease, Josh Radnor*****
125. The Way Back, Peter Weir*****
126. Pixar - Shorts****(*)
127. Death at a Funeral, Neil LaBute**
128. Le Pornographe, Bertrand Bonello**(*)
129. Harry Potter and the Deathly Hallows - 2, David Yates*****
130. Drama, Matias Lira****
131. Une Vie de Chat, Jean-Loup Felicioli e Alan Gagnot****
132. Vacancy, Numoród Antal**(*)
133. Hollow Man II, Claudio Fah**(*)
134. New Moon, Chris Weitz***
135. Eclipse, David Slade***(*)
136. El Secreto de sus ojos, Juan José Campanella*****
137. Insidious, James Wan***(*)
138. The Duel, Dover Koshashvili***
139. Stake Land, Jim Mickle***(*)
140. Last Night, Massy Tadjedin*****


Séries:
The Pillars pf the Earth
minissérie de oito episódios recheada de drama, romance, história, intrigas. Muito interessante, constrói-se em torno da construção da catedral de Kingsbridge, com todas as lutas, sacrifícios, sonhos e artimanhas que uma construção do género envolve. Baseado na obra homónima de Ken Follett, traz Matthew Macfadyen e uma carrada de outros. Visto num ápice. 

Game of Thrones
temporada um, com dez episódios. Adaptação da gigantesca obra de George R. R. Martin. Boa, sim, mas estava à espera de qualquer coisa outra. Pouco fantástico, afinal - uns dragões no fim e uns outros mortos-vivos não chegam. E muitas personagens, pouco desenvolvidas, claro, e tudo um pouco perdido. Mas com coisas muitos boas, a começar por Sean Bean e Peter Dinklage.


Teatro:
Foi o mês de ir muitas noites seguidas ao Mimarte. Apenas não vi uma peça de Molière (estava no baile de finalistas), e gostei em particular da loucura erudita de Os Três Capitães (FC Produções), a comédia policial de inúmeros recursos de Os 39 Degraus (Statement), a destreza e beleza de Losing Grip (Desastronauts), da intensidade do texto de Hipólito (Thíasos) e da loucura alegorizante de A Festa dos Porcos (Jangada Teatro). Mas houve ainda A História de amor da Filha do Regedor (o Tin.Bra a surpreender), o cómico inteligente em A Herança do Jeremias (Teatro Regional Serra de Montemuro), os bonecos e as caixas em Se o mundo fosse bom, o Dono morava nele (CENDREV), O O Auto do Velho da Horta (Teatro ao Largo, fraquinho, embora com coisas giritas), Falatório do Ruzante de Volta da Guerra (PIF'H, com um texto genial e uma ideia de desdobramento quadrúplo interessante e o resto um terror) e um interessante Ensaio sobre a Cicuta (Origem da Comédia, a partir de Platão). O melhor foi ter ido com a Bruna, com a Tânia, ou sozinho, mas sempre com muita gente a encher o Rossio da Sé, ou Theatro Circo e o Museu D. Diogo de Sousa.

Concertos:
Capella Bracarensis e Les Petits Chanteurs de Guewenheim na Igreja de S. Victor, Braga. Foi muito bom e inspirador!