terça-feira, julho 26, 2011

Desafio: 07

Tempo para balanço, mesmo antes de ir de férias. Talvez não leve computador comigo para Santarém e Lisboa, por isso mais vale ficar já. Mês de teatro, sobretudo. Mas também de série, alguns filmes e livros. E de baile de finalistas, pois então. E de alunos lindos a tirarem 19 e 20 no exame de Português, e outros igualmente lindos que ficaram mais abaixo. E os meninos do 9.º ano que lá deram o seu melhor (ou não).
Dos livros, coisas me obrigaram a protelar o trabalho, o sono (71, 74, 75, 76, 78 e 79), lágrimas até, o que não acontecia há uns tempos (71 e quase o 74). Muito os recomendo, esses de cinco estrelas, horas bem passadas, sobretudo A Rapariga que Roubava Livros, Sementes de Cabanas e Histórias Amorais para Crianças e Animais pela beleza (verbal e icónica) e originalidade de todos, pela sensibilidade do primeiro, pela imaginação do segundo, pela ironia do terceiro. Tempo para ler prendas (68 - Marta, 79 - António). Falta ainda o último do A. Lobo Antunes, já iniciado e a prometer.


Livros:
68. Livro, José Luís Peixoto, Quetzal, 264p.***(*)
69. O Mito de Sísifo, Albert Camus, Livros do Brasil, 200p.***
70. Cantos Cativos, Arquimedes da Silva Santos, Campo das Letras, 240p.***
71. A Rapariga que Roubava Livros, Markus Zusak, Presença, 468p.*****
72. Inxalá – Espero por ti na Abissínia, Carlos Quiroga, QuidNovi, 96p.***
73. Ensaio Sobre a Cicuta, a partir das peças platónicas, João Diogo Loureiro e Miguel Monteiro, CECH-FESTEA, 58p.****
74. Hipólito, Eurípides, CECH-FESTEA, 78p.*****
75. Sementes de Cabanas, Philippe Lechermeier e Éric Puybaret, Kalandraka, 94p.*****
76. O Retrato, Nikolai Gogol, Quasi, 96p.*****
77. A Morte das Imagens, Helena Malheiro, Ulmeiro, 88p.**(*)
78. Histórias Amorais para crianças e animais, João Diogo Zagalo, Angelus Novus, 164p.*****
79. Quarto Livro de Crónicas, António Lobo Antunes, D. Quixote, 328p.*****
80. Boa tarde às coisas aqui em baixo, António Lobo Antunes, D. Quixote, 576p.***


Filmes:
119. I spit on your grave, Steven R. Monroe***
120. Passangers, Rodrigo Garcia***(*)

121. Rango, Gore Verbinski*****
122. Attenberg, Athina Rachel Tsangari****
123. Hanna, Joe Wright****
124. Happythankyoumoreplease, Josh Radnor*****
125. The Way Back, Peter Weir*****
126. Pixar - Shorts****(*)
127. Death at a Funeral, Neil LaBute**
128. Le Pornographe, Bertrand Bonello**(*)
129. Harry Potter and the Deathly Hallows - 2, David Yates*****
130. Drama, Matias Lira****
131. Une Vie de Chat, Jean-Loup Felicioli e Alan Gagnot****
132. Vacancy, Numoród Antal**(*)
133. Hollow Man II, Claudio Fah**(*)
134. New Moon, Chris Weitz***
135. Eclipse, David Slade***(*)
136. El Secreto de sus ojos, Juan José Campanella*****
137. Insidious, James Wan***(*)
138. The Duel, Dover Koshashvili***
139. Stake Land, Jim Mickle***(*)
140. Last Night, Massy Tadjedin*****


Séries:
The Pillars pf the Earth
minissérie de oito episódios recheada de drama, romance, história, intrigas. Muito interessante, constrói-se em torno da construção da catedral de Kingsbridge, com todas as lutas, sacrifícios, sonhos e artimanhas que uma construção do género envolve. Baseado na obra homónima de Ken Follett, traz Matthew Macfadyen e uma carrada de outros. Visto num ápice. 

Game of Thrones
temporada um, com dez episódios. Adaptação da gigantesca obra de George R. R. Martin. Boa, sim, mas estava à espera de qualquer coisa outra. Pouco fantástico, afinal - uns dragões no fim e uns outros mortos-vivos não chegam. E muitas personagens, pouco desenvolvidas, claro, e tudo um pouco perdido. Mas com coisas muitos boas, a começar por Sean Bean e Peter Dinklage.


Teatro:
Foi o mês de ir muitas noites seguidas ao Mimarte. Apenas não vi uma peça de Molière (estava no baile de finalistas), e gostei em particular da loucura erudita de Os Três Capitães (FC Produções), a comédia policial de inúmeros recursos de Os 39 Degraus (Statement), a destreza e beleza de Losing Grip (Desastronauts), da intensidade do texto de Hipólito (Thíasos) e da loucura alegorizante de A Festa dos Porcos (Jangada Teatro). Mas houve ainda A História de amor da Filha do Regedor (o Tin.Bra a surpreender), o cómico inteligente em A Herança do Jeremias (Teatro Regional Serra de Montemuro), os bonecos e as caixas em Se o mundo fosse bom, o Dono morava nele (CENDREV), O O Auto do Velho da Horta (Teatro ao Largo, fraquinho, embora com coisas giritas), Falatório do Ruzante de Volta da Guerra (PIF'H, com um texto genial e uma ideia de desdobramento quadrúplo interessante e o resto um terror) e um interessante Ensaio sobre a Cicuta (Origem da Comédia, a partir de Platão). O melhor foi ter ido com a Bruna, com a Tânia, ou sozinho, mas sempre com muita gente a encher o Rossio da Sé, ou Theatro Circo e o Museu D. Diogo de Sousa.

Concertos:
Capella Bracarensis e Les Petits Chanteurs de Guewenheim na Igreja de S. Victor, Braga. Foi muito bom e inspirador! 

sábado, julho 23, 2011

3 poemas de Arquimedes da Silva Santos

Fragmentos de "Rapsódia da Guerra"

1

Em todos os portos do mundo
há sempre um velho marinheiro olhando olhando
íris esbranquiçada do sal do mar.
Em todos os portos há sempre um velho marinheiro olhando
e perscrutando o que as ondas segredam.
Que sobre as onsas do largo mar não há mais Paz
porque as tinge o sangue de corpos estilhaçados
corpos por minas despedaçados
retesados e hirtos e inchados
boiando sobre as ondas num sonho de Paz...

E velhos marinheiros ouvem águas murmurar
a elegia dos gemidos de jovens marinheiros...


****

Luso leixa mais de ouvir
Profecias de bandarras.
Em areais dos quibir
Fados de morte ou fugir
Soluçam sempre guitarras.
Dom sebastião primeiro
Não esperes pobre e nu.
Neste país marinheiro
Povo sai do nevoeiro
O desejado é só tu.



****

O guardador de pombas
Livra-as pela tardinha

E voam e revoam
Circulos espirais

Ruflam céleres
E tornam e retornam

Graves ao pôr do sol
Retombam nos pombais

Por fios de assobios
Ó guardador de pombas


Arquimedes da Silva Santos, Cantos Cativos, Porto: Campo das Letras, 2003, p.17, 146, 161

domingo, julho 10, 2011

repeat... again... again...


«Worlds Apart», The Mostar Diving Club


 «How to Say Goodbye», Paul Tiernan

segunda-feira, julho 04, 2011

Da Capo


Sementes de Cabanas, Philippe Lechermeier e Éric Puybaret


apesar de não me falares há quase um mês (a não ser por razões profissionais)
e de teres feito muitas escolhas que me excluem do tempo, da vida
e de preferires a companhia dos outros (o que eu entendo)
mesmo que não me perca em futilidades e vaidades
em divertimentos e frases fáceis
em comentários ao mundo
em coscuvilhices,

aqui ficam elas, em memória do que fomos.

domingo, julho 03, 2011

4 poemas de José Tolentino Mendonça

Primavera

a face breve
enuncia o esplendor


****

Coisas da tristeza

Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias

Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes

Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque


****

Frésias
 
Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem como segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia

****

Uma taça ática

Aos heróis pertenciam formas de veneração
talvez o aspecto do mundo antigo mais renegado
pelo nosso século extinto

Não seriam diferentes de nós:
temiam as estações severas
o idioma da névoa
o instante de vidro
onde a respiração se quebra

Mas a vida era para eles um sopro
que levavam sempre consigo
aurora incólume em expansão

Quando Orfeu cantou diante do Hades
as filhas de Danao interromperam a tarefa
Tântalo esqueceu fome e sede
Sísifo sentou-se sobre a pedra
e diz-se que até Caronte
por momentos abandonou
a nave onde nos leva


José Tolentino Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos, Lisboa: Assíro & Alvim, 2006: 20, 50, 109, 232 

quinta-feira, junho 30, 2011

Desafio: 06

Mais um mês de existência cheia (não direi plena, que são coisas diferentes, apesar da origem comum das palavras). Um pouquinho mais de tempo para mim e para as coisas do espírito que tanto aprecio e de aqui ficam em lista.
Nos livros, muita poesia por entre as horas ocupadas da primeira parte do mês, os livros de Manuel da Fonseca, que nem tiveram de esperar muito, e o mesmo para Jacinto Lucas Pires (muito interessante); e ainda livros infantis, lidos enquanto vigiava um aluno a fazer uma prova de acesso ao quinto ano do colégio. Coisas boas, no geral. Destaque para o divertido romance de Juva Batella, O Verso da Língua, sobre o acordo/desacordo ortográfico.
Nos filmes foram grandes as surpresas! A animação continua em grande (94, 97, 109), comédias delirantes (110, 117) com Simon Pegg (96, 101) ou com um pouco de terror absurdo (98), romance (99, 104, 113, 116) e drama (103, 107, 111) e uma extraordinária curta-metragem (114). 118, «apenas», porque entretanto me perdi com o Spartacus :)

Livros:

52. Um calculador de improbabilidades, Ana Hatherly, Quimera, 408p.****
53. Dois Corpos Tombando na Água, Alice Vieira, Frente e Verso/Visão, 80p.***
54. Antologia Poética, Natércia Freire, Assírio & Alvim, 168p.***(*)
55. Figurantes e outras peças, Jacinto Lucas Pires, Cotovia, 268p.****
56. Escrever, falar, Jacinto Lucas Pires, Cotovia, 176p.***(*)
57. Poemas anónimos. Turcos, mongóis, chineses e incertos, Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 80p.**
58. Livro de Receitas, Luís Adriano Carlos, Campo das Letras, 70p.***(*)
59. O Verso da Língua, Juva Batella, Presença, 216p.****
60. O Fogo e as Cinzas, Manuel da Fonseca, Europa-América, 172p.***
61. Seara de Vento, Manuel da Fonseca, Planeta, 190p.****
62. A Noite Abre meus Olhos, José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, 256p.****
63. Conto de Amor e Psique, Apuleio, BI, 128p.****
64. A Viagem das Três Gotinhas de Água, Lúcia Vaz Pedro (ilustrações de Raquel Pinheiro - lindas!), Gailivro, 36p.***
65. Histórias Pequenas de Bichos Pequenos, Álvaro Magalhães, Asa, 34p.*****
66. O Príncipe que Guardava Ovelhas, Luísa Dacosta, Asa, 28p.****
67. Caneta Feliz, João Pedro Mésseder, Trampolim, 38p.****

Filmes:

93. Cidade dos Homens, Fernando Meirelles e Regina Cassé****
94. Mary and Max, Adam Elliot*****
95. Amália, Carlos Coelho da Silva***
96. Paul, Greg Mottola*****
97. Rio, Carlos Saldanha****
98. Tucker and Dale vs Evil, Eli Craig***(*)
99. Penelope, Mark Palansky*****
100. While she was out, Susan Montford**
101. How to lose friends and alienate people, Robert B. Weide*****
102. Devil, John Erick Dawdle***(*)
103. Des hommes et des dieux, Xavier Beauvois*****
104. Waiting for Forever, James Keach*****
105. Season of the Witch, Sominic Sena****
106. The Eagle, Kevin Macdonald****
107. Genova, Michael Winterbottom****(*)
108. The Sex and the City 2, Michael Patrick King***
109. Idiots and Angels, Bill Plyton****(*)
110. Scott Pilgrim vs the World, Edgar Wright*****
111. Gran Torino, Clint Eastwood*****
112. Law Abiding Citizen, F. Gary Gray***(*)
113. Nick and Norah's Infinite Playlist, Peter Sollett*****
114. I'm Here, Spike Jonze*****
115. Priest, Scott Charles Stewart***
116. Water for Elephants, Francis Lawrence*****
117. Zavet, Emir Kusturica*****
118. Cztery noce z Anna, Jerzy Skolimowski***


Outras sugestões:

Sangue Bom, pela companhia PEQUOD, uma interessante história de amor entre um vampiro e uma mortal que poderia ser perfeitamente banal caso não fosse contada da forma como é: sem palavras, só gestos e alguns gemidos, músicas, cenários que são caixotes que se abrem, com bonecos e não com atores, embora eles também lá estejam e nós os vejamos a manobá-los: uma boneca com tendências suicidas, um vampiro apaixonado e o gostoso do caçador de vampiros. Muito giro! Visto no Theatro Circo.

Spartacus: blood and sand - 13 episódios de muita violência, sangue, sexo, intrigas, reconstituição da sociedade romana centrada nos gladiadores e seus organizadores. Muito bom, em crescente interesse e excitação ao longo da temporada, que encerra apoteoticamente. Melhores: Andy Whitfield, Jay Courtney, Lucy Lawless, Viva Blanca, Katrina Law,...

Spartacus: gods of the arena - seis episódios que recuperam o antes da chegada de Spatacus ao «ludus»; é interessante para perceber melhor algumas aitudes e a evolução de algumas personagens (sobretudo Lucretia), mas menos interessante, parece-me, porque o grau de surpresa foi bastante menor, condicionado que estava pelos acontecimentos da série «blood and sand». Melhores: Peter Mensah, Jaime Murray, Lesley-Ann Brandt.  

sexta-feira, junho 24, 2011

1 poema de Ana Hatherly + fragmento de um outro

O tempo como factor de correcção semântica

século VII (a. C.)


Aos meus ilustres antepassados e perante os espíritos
perspicazes apresento minhas oferendas de joelhos


século III (a. C.)


Ó meus nobres antepassados espíritos tenazes aceitai
minhas oferendas de joelhos


século I (a. C.)


Ó meus nobres antepassados ofereço-vos pertinazes
minhas oferendas de joelhos


século III (d. C.)


Os antepassados dos espíritos aceitariam perspicazes
as oferendas de joelhos


século VII (d. C.)


No passado acreditámos perspicazes nos espíritos e
nas oferendas de joelhos



*****


 O sol         desce       japonês

                       p e n s o

    pensar é hipótese



como outros corpos

                              desejo-te



Ana Hatherly, um calculador de improbabilidades, Lisboa: Quimera, 2001, p. 63, 258
outros poemas por , e aqui.

Susana Félix, Procura-se

«olha p'ra mim, bem-vindo a tudo o que é meu, que o melhor dos nossos mundos é tão pouco afinal»

«Bem-vindo»

Novo álbum. Ouvido, estranhado, entranhado. Gosto.

Sítio aqui. Com as participações de Steve Jansen (ex-Japan), João Cabrita, Jorge Drexler (vencedor de um Óscar para melhor canção original) que faz um dueto com Susana em "A Idade do Céu” e Carlos Tê. O album inclui ainda duas versões, uma de Marcelo Camelo (Los Hermanos) e outra dos Xutos e Pontapés (a música menos forte, mas muito melhor que o original).

Gosto particularmente do «Bem-vindo», mas há outros versos na sua voz fantástica em canções como:
«Já foi», «Cartas na Mesa», «Meia Palavra», «Idade do Céu», «Quem diria»

2 poemas de Luís Adriano Carlos

Um verso vem

Um verso vem. Calculo o peso da neblina
que envolve o seu teor, o preso ritmo
da esfera em movimento: cerro o olhar na alma tensa
que ao longo do percurso mais ensina. O verso
vem por si em si da imagem que vier
no imaginar do corpo em sua ascese leve, peso
de uma estrutura fina ao seu redor.

Um verso vem. O olhar na alma mais se inclina.


****
À Espera da Musa

Espero pela musa como quem confia
na transfiguração do mundo e na transmigração das almas.
Espero pela musa como quem não usa
usar o pensamento no lugar do génio
que todo o verso puro traz da luz eterna. Espero
pela musa, louco, pela musa espero, fonte
da minha criação sem termo. Um verso, musa,
um verso mais espero. E, se não vem,
sempre virá depois de apenas não ter vindo.

Musa espero, como quem confia.

Luís Adriano Carlos, Livro de Receitas, Porto: Campo das Letras, 2000, p.9, 12

sexta-feira, junho 17, 2011

Os resistentes - o 12.ºD



ou: de como são importantes as aulas de Português

ou ainda: como se faz um texto com fragmentos de alguns textos lidos mais umas sentimentalidades



Todos somos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera. É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos (FL,89). Por isso escrevo em meio (12,32) de palavras de outros e minhas, agora que é a hora (12,159)!

         Tanto de meu estado me acho incerto (10,191), turma primeira de três anos, em que os resistentes a tudo tão bem e tanto cresceram, que meu coração e os lábios disseram em uníssono (10, 48): a memória é um espelho velho, com falhas no estanho e sombras paradas (10, 159), mas sei que o desgaste será lento e esse comboio de corda que se chama coração (12,30) não me fará esquecer-vos.

Para vos dizer, seriam precisas sagradas palavras e essas não cabem em nossas humanas vozes (10,303): Vos estis sal terrae (11,88). A loucura de alguns, a paixão de outros, a indiferença de alguns tolinhos pela arte das palavras, pelas alusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião (11, 133), e outras atitudes e caraterísticas que não vale ou não merece agora a pena referir, ensinaram-me a olhar a cada momento para a eterna novidade do mundo (12,58). Se eu não morresse, nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas! (11,273) talvez tudo pudesse ter sido melhor, mais intenso…

Se pouco eu vos ensinei, espero que pelo menos vos fique/surja o carinho pelos livros, pela poesia, porque os livros trazem tantas vidas e tantos conselhos como a vida em si, se vivermos e lermos, quantas vidas teremos vivido? O mito é o nada que é tudo (12,129) dizia o nosso poeta, e mesmo no crepúsculo dos dias de hoje felizmente há luar! (FL,140), por isso, e se Ser descontente é ser homem (12,157), continuemos na busca do Caminho da virtude, alto e fragoso (12,145), para que façam saber-se no mundo que ainda há um português em Portugal (11,144) – ou catorze! Não iremos dar-nos por satisfeitos (11,103) com o que já alcançámos. Não se esqueçam, e sejamos um poucos deuses [sei que sei, não sei como sei (MC,73)], do Deus quer, o homem sonha, a obra nasce (12,139) – o «Todo Pessoa» lá nasceu!

Depois pensemos, crianças adultas, que (12,74) tudo vale a pena (12,150), mesmo Cada hora a mais que gasta no caminho (10,253) que incomoda como andar à chuva (12,53): saibamos aproveitar não só os fins, mas também os meios; saibamos dizer Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi (10,174); que cada um saiba ser rei de si próprio (12,73).

         Uma superfície branca é como um dia que quer romper (10,135), por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco (10,250), novos alunos me virão, novos professores vos encontrarão, pois muito há a fazer, sempre. Chegou a hora (11,102) e digo-vos mais uma vez: olharem-se era a casa de ambos (MC,149), que também serei uma casa quando me precisarem, como sempre.



Receita: Para ser grande, sê inteiro: nada / teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és no mínimo que fazes (12,81).


sábado, junho 11, 2011

2 poemas de Natércia Freire

Cidade de Água

O sol e o mar recolhem-se na infância
De áridas terras e de casas frias.
São um ser que já foi, nessa distância,
De estar no Tempo em praias de outros dias.


Por dentro, é a penumbra do casulo,
Cerrado à luz na expectativa informe.
Se vou nascer - a vida não regulo;
Se vou morrer - a morte ainda não dorme.


Tinha histórias de espectros para contar,
Labirintos de seda para correr.
Tudo o que foi o inverno do luar,
Numa cidade de água a amanhecer...



*****

Guerra


São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Via-os chegar, às tardes, comovidos,
nupciais e trementes
do enlace da Vida com os sentidos.


Estiveram no meu colo, sonolentos.
Contei-lhes muitas lendas e poemas.
Às vezes, perguntavam por algemas.
Respondia-lhes: mar, astros e ventos.


Alguns, os mais ousados, os mais loucos,
desejavam a luta, o caos, a guerra.
Outros sonhavam e acordavam roucos 
de gritar contra os muros que há na Terra.


São meus filhos, gerei-os no meu ventre.
Nove meses de esperança, lua a lua.


Grandes barcos os levam lentamente..




Natércia Freire, Antologia Poética, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001

2 poemas de Alice Vieira

é claro que sei dizer palavras calmas
e amar devagar os que chegam a meu lado
e recordam o meu nome de todas as maneiras
com que ao redor da vida o foram construindo

é claro que sei inventar cantigas breves
das que à meia-noite perdem as notas mais vibrantes
quando fogem precipitadamente dos nossos bolsos

 
é claro que sei voltar a casa e abrir a porta
e fingir que tudo está perfeito sobre a mesa
e os objectos guardam os lugares de sempre
e eu continuo na moldura com um riso de quinze anos
tropeçando no teu ar sério quase a sair do retrato

é claro que sei passar os dedos devagar pelo teu corpo
nas noites em que chegas e dizes já não chove
como se colocasses no meu colo uma prenda de natal
e pudesses apagar a tempestade
no brevíssimo instante em que a vida se resume
aos nossos olhos tentando
acreditar que é cedo

é claro que sei esperar por ti
sabendo desde sempre que não vens e mesmo assim
escolho sem sobressalto a música perfeita
de te acolher no sono com o enevoado rumor
de todos os encontros improváveis

é claro que sei as palavras mesmo que as não diga
que misturas ao longe com os afiados gumes
com que tentas a custo perdoar-te
as horas roubadas a todos os seus legítimos donos

é claro que sei fechar as janelas às armadilhas
que as noites constroem dentro dos teus medos
e donde não consegues regressar
e com sorte encontrar numa cómoda
qualquer coisa tua que esqueceste
na pressa da saída e pensar
que foi por mim que ela apareceu
em tão estranho lugar

- mas quando entre os ruídos da noite
a tua ausência é a única divisão da casa
que razoavelmente partilhamos
tudo isso serve desculpa de muito pouco


******


eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando através de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar

mas de anda serve inventar palavras
quando as palavras que inventamos
não passam de frágeis lugares de exílio
dos gestos inventados fora de horas
delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
de que jurámos ressuscitar um dia

- quando os deuses se lembrassem
de acordar ao nosso lado



Alice Vieira, Dois Corpos Tombando na Água, Lisboa: Caminho, 2007

terça-feira, maio 31, 2011

Desafio: 05

Zeus, o que foi este mês... Tantos testes, Sarau Cultural, apresentações de manuais, os Stomp, a escrita de dois artigos, as aulas pelo meio, a Feira Romana, uma peça de teatro (Transit)... Foi um mês esgotante, para além do meu aniversário. Feio, porco e mau, é assim que me sinto agora :) Mas Junho vai ser melhor!
Aqui fica, como sempre, o que de cultural me passou pelos olhos, destacando a beleza das crónicas de Miguel Sousa Tavares (42), do reconto de uma história popular por Alice Vieira (45), a ironia e brincadeiras literárias Urbano Bettencourt (50), e os ensaios, os meus livros favoritos deste mês, de Michael Onfray sobre a viagem (43) e de Sophia sobre o nu na arte clássica (51).

Livros:

39. Astérix – O Pesadelo de Obélix, R. Goscinny e A. Uderzo, Meribérica/Liber, 50p.***
40. Efeito Borboleta e Outras Histórias, José Mário Silva, Visão, 172p.***
41. O Prazer da Leitura (2011), vários, Teodolito/FNAC, 122p.*****
42. Não Te Deixarei Morrer, David Crockett, Miguel Sousa Tavares, Bis/Leya, 192p.*****
43. Teoria da viagem (uma poética da geografia), Michael Onfray, Quetzal, 128p.*****
44. Onde Estás, Fátima Rolo Duarte, Oficina do Livro, 140p.**
45. Leandro, Rei da Helíria, Alice Vieira, Caminho, 116p.*****
46. Entre lençóis, Cândido de Figueiredo, Tinta da China, 120p.***
47. O pauzinho do matrimónio, Anónimo, Tinta da China, 176p.***
48. 351 Tisanas, Ana Hatherly, Quimera, 132p.***
49. O Mestre, Ana Hatherly, Quimera, 136p.***
50. Que paisagem apagarás, Urbano Bettencourt, Publiçor, 192p.****
51. O Nu na Antiguidade Clássica, Sophia de Mello Breyner Andresen, Caminho, 130p.*****

Filmes:

81. Predators, Nimród Antal***(*)
82. Megamind, Tom McGrath***(*)
83. Holy Water, Tom Reeve****(*)
84. Wild Target, Jonathan Lynn****
85. A maior flor do mundo, Juan Pablo Etcheverry*****
86. Dia Triunfal, Rita Nunes****(*)
87. Uncertanty, Scott McGehee e David Siegel****
88. Buried, Rodrigo Cortés****
89. Winter's Bone, Debra Granik***(*)
90. Monsters, Gareth Edwards****
91. Monster House, Gil Kenan*****
92. 9 Songs, Michael Winterbottom**

domingo, maio 29, 2011

Stomp no Porto


fica aqui um vídeo que mostra um pouco do que vi ontem à tarde, aqui em contexto informal de backstage. vassouras, caixas de fósforos (amei), tubos de borracha, areia, jornais, lava-loiças, contentores, cadeiras, isqueiros, bolas de basquete, paus - e até uma banana -, tudo serviu para se juntar aos pés e às mãos do fabulosos performers. muito bom :)

domingo, maio 22, 2011

IV Sarau Cultural

E assim foi o IV Sarau Cultural, organizado pelo departamento de Língua Portuguesa e Latim. Com alguns nervos à mistura, mas sobretudo com vontade de fazer o melhor. O tema era o AMOR e foi de facto uma noite inspiradora :)


Sarau Cultural

21 de Maio de 2011

Parte I

21h00 – Receção aos convidados
21h30 - «Meu amor querido», António Lobo Antunes - 10.º C

21h35 – Convidadas: Inês Pedrosa e Patrícia Reis


Tema: O afeto

Parte II

22h15 - «O Amor na Poesia» –  12.º A
22h25 - «Lisbon Revisited», Fernando Pessoa –  12.º B

22h30 – «Tudo o que te dou», Pedro Abrunhosa - Raquel Guimarães, Carolina Gomes, Teresa Lacerda - 11.º A


22h35 - «Questiona se são estas frias neves», Diogo Ribeiro - Flávia Ramos e José Miguel Sousa - 11.º B
22h40 - «Todo Pessoa» – 12.º D

22h45 - Dança Clássica - Bárbara Henriques (antiga aluna), Fernanda Machado (12º F), Isabel Paiva (11.º E), Maria Miguel Gomes (11º A)
22h55 – «Aos Amores!», Sérgio Godinho – Maria João Silva - 11.º A

22h50 – «Só mais uma volta», Tiago Bettencourt – Pedro Mello - 12.º A
23h00 - Romeu e Julieta, William Shakespeare (adaptação de Diogo Ribeiro) – 11.º B

Apresentadores: Joana Barros (12.º D) e João Louro (12.º B).

terça-feira, maio 10, 2011

Deolinda, outra vez


porque é tempo dela, porque (ainda) gosto de Lisboa, porque é uma grande canção. e são os Deolinda, claro. porque de tão triste acaba por me animar :)

«só resta esperar...»

sábado, abril 30, 2011

Rabbit Hole e Never Let Me Go

«The Cookout», Anton Sanko


«The Boat», Rachel Portman

nota: para desgraçar os olhos com lágrimas...

quinta-feira, abril 21, 2011

quarta-feira, abril 20, 2011

Desafio: 04

Que extraordinário mês para as coisas da mente e da alma. Decidi-me finalmente a ler os seis livros de Lobo Antunes (29 a 34) que me aguardavam (já havia lido Manual dos Inquisidores há uns anos, mas ontem comprei mais um, aproveitando um preço fantástico na FNAC, Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, para breve). E Orwell (28), no seguimentos das distopias literárias, mas não apreciei muito, embora tenha gostado dos textos teóricos que acompanham a edição. Destaque ainda para a poesia (35 e 37), vale a pena :). Nos filmes, coisas muito boas, imperdíveis: para rir muito (70, 72), para ver bem (54, 55, 60, 62, 65, 71), para chorar muito - e os meus favoritos de todos estes - (67, 73). O meu destaque vai, sobretudo, para o Rabbit Hole, pelas interpretações extraordinárias, pela música, pela fotografia, argumento, tudo - grande Nicole  Kidman que me faz chorar sempre que vejo determinadas cenas!

Livros:

27. As Magias, Herberto Helder, Assírio & Alvim, 80p.**
28. A Quinta dos Animais, George Orwell, Antígona, 160p.***
29. D’este viver aqui neste papel descripto. Cartas de guerra, António Lobo Antunes, D. Quixote, 432p.*****
30. Memória de Elefante, António Lobo Antunes, Booket, 192p.****
31. Auto dos Danados, António Lobo Antunes, RBA, 272p.*****
32. A Morte de Carlos Gardel, António Lobo Antunes, D. Quixote, 394p.****
33. As Naus, António Lobo Antunes, D. Quixote, 192p.***
34. Terceiro Livro de Crónicas, António Lobo Antunes. D. Quixote, 292p.*****
35. Resumo – a poesia em 2010, Assírio & Alvim, 184p.****
36. Fernando Pessoa, João Gaspar Simões, Texto Editores/Expresso, 112p.***

37. Luz Indecisa, José Mário Silva, Visão, 52p.****
38. Uma Aventura na Ilha de Timor, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Caminho, 234p.***

Filmes:

54. Paris, Cédric Klapisch*****
55. Gru, Pierre Coffin e Chris Renaud*****
56. Katalin Varga, Peter Strickland****
57. Sophia de Mello Breyner Andresen, João César Monteiro****
58. Sinais de Fogo, Luis Filipe Rocha****
59. True Grit, Ethan e Joel Cohen****(*)
60. Drillbit Taylor, Steven Brill**(*)
61. Opera n.º1, Hal Hartley***
62.
Relatório Kinsey, Bill Condon*****
63. The Aviator, Martin Scorsese***(*)
64. Somewhere, Sofia Coppola***
65.
The Virgin Suicides, Sofia Coppola*****
66. Just Visiting, Jean-Marie Poiré***
67.
Never Let Me Go, Mark Romanek*****
68. Nights in Rodanthe, George C. Wolfe***
69. Carriers, David Pastor e Alex Pastor****

70. Hot Fuzz, Edgar Wright*****
71. Tudo sobre a minha Mãe, Pedro Almodóvar*****
72. Burke & Hare, John Landis*****
73. Rabbit Hole, John Cameron Mitchell*****
74. Smiley Face, Gregg Araki***(*)
75. The last house on the left, Dennis Iliadis***(*)
76. The Resident, Antti Jokinen***
77. Princess of Thieves, Peter Hewitt***(*)
78. Embargo, António Ferreira****
79. Wake Wood, David Keating****
80. Four Lions, Christopher Morris****

terça-feira, abril 12, 2011

já um mês depois (ainda sem as fotos)

entrada do caderno de Paris, no dia 7/Março:
Até onde nos leva o querer continuar perante a imensidade de olhos que devíamos ter, e mãos, e bocas, e narizes, para que Paris fosse mais nossa intimamente, mesmo intimamente nossa, em cinco dias de chegar e partir? Voragem, querer ver, querer provar e saber uma parte grande do todo que sabemos ser impossível. Paris é impossível.



e o poema para a Milai:

Vitória de Samotrácia, no Louvre

Pese não correr aqui o vento
conservas a pose e o gesto
e nada em ti se altera com o tempo.

domingo, abril 03, 2011

terça-feira, março 29, 2011

Desafio: 03

devia estar a corrigir testes, mas acabei agora uma turma e não me apetece pegar em mais nada. mês daqueles, de fugir e regressar a Paris e não voltar (mas nunca de autocarro, coitados dos meus meninos!!!).


livros:

17. O que vai acontecer?, José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 112p.**
18. O Instante da Minha Morte, Maurice Blanchot, Campo das Letras, 32p.***
19. A Génese do Amor, Ana Luísa Amaral, Campo das Letras, 64p.****
20. Missa in Albis, Maria Velho da Costa, Planeta deAgostini, 466p.*****
21. Um Homem Singular, Christopher Isherwood, Quetzal, 160p.****
22. A Função do Geógrafo, Rui Coias, Quasi, 48p.**
23. Indignai-vos!, Stéphane Hessel, Objectiva, 52p.****
24. Davy Crockett, Enid Lamonte Meadowcroft, JN/DN, 96p.***
25. A Laranja Mecânica, Anthony Burgess, Planeta, 160p. ****
26. O Contrabaixo, Patrick Süskind, DN/JN, 96p.*****



filmes:
49. La vie en rose, Olivier Dahan***
50. Paris, je t'aime, (vários)*****
51. Lucky Luke, James Huth****
52. A Zona, Sandro Aguilar**
53. A Outra Margem, Luís Filipe Rocha*****

sábado, março 26, 2011

Confusão esclarecida


é a minha, nos últimos tempos. mas quem manda ser superior e genial para me aperceber de que tudo gira desconcertado e as pessoas nem se aperceberem da trágica patetice de serem?



(a imagem é uma brincadeira, as juro que é assim que está no sítio da loja, com aquele pequeno erro...)


(pena não saber discutir/insultar como os meus alunos do 9D: Olha o nível de discussão e insulto no 9D: «eu sou insurrecto, sim, mas tu é ignóbil e vil»)

quinta-feira, março 24, 2011

um poema de Rui Coias

São os olhos que aproximam os lugares do coração.
Agora que regressamos é nisto que penso
enquanto fazemos sinais uns para os outros com as luzes
dos carros, na rápida estrada, ao anoitecer.
Olha-se devagar para a vida e sobretudo assim
damos conta dos silêncios,
dos nomes devolvidos ao tão de leve silêncio.
A casa vincada pela névoa, a
aldeia imobilizada ao passearmos em grupos,
o café que me conforma quando o recebo entre as mãos.
Como dizer que são estas as mais secretas regiões da alma
a que voltamos sempre
nos maiores frios de dezembro?
Se de repente dizem que estamos a uma eternidade
frágil dos dias inquietos,
cruzas uma palma da mão sobre a outra e olhas para as
unhas, rindo de quando em vez para mim, que fico tão feliz.
e no regresso, quando os sobressaltos se repetem
e anoitece nas estradas vazias e o mundo adormece,
há uma solidão que estremece as bermas e nos aflige debaixo da
língua, como uma chuva miudinha.
Como falar depois da tua inclinada casa a meu lado
e do recanto mais longínquo dos pinhais?
Como acreditar que o tempo não tratá aos olhos a maior
solidão
em que ficámos?

Rui Coias, A Função do Geógrafo, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2000, p.15-6

segunda-feira, março 21, 2011

Primavera e Poesia ou como fazer dois em um :)

rimam, são verdades e lindas.


aqui, na interpretação poderosa de uma poesia em primavera que parece não me querer chegar. e aqueles que nos escrevem e a quem recorremos sempre.



«Primavera», David Mourão-Ferreira, Mariza


«Poetas», Florbela Espanca, Mariza

domingo, março 20, 2011

acordo ortográfico

Depois do castanho e do branco, e do azul com apontamentos rosa, um castanho-laranja e cinza. Cada vez menos tempo duram as escolhas que faço. Mudança, variação, não sei por quanto tempo. A paciência é uma chata. Depois do casamento em Santarém, depois de Paris, com peças de teatro em breve e muito por fazer, vou assim procrastinando a correção de testes...


(a partir de agora em diante, com o AO em mente, espero)
:)

quinta-feira, março 17, 2011

Japão e os eixos do mundo

o sismo deslocou lá a terra 2,5 metros.
o eixo da terra também, em 10 cm.

mas tu aproximaste-te 10.000 km, mais ou menos, que isto do tempo e do espaço é tudo menos matemático quando manda o coração. São apenas agora 2515km que marcam a distância real.
trago-te agora até aqui, na voz de Ryan Tedder. Pessoa encontrada e nunca perdida.



«Missing Persons 1 & 2», OneRepublic (versão acústica e bastante alternativa)

sexta-feira, março 11, 2011

três poemas de David Mourão-Ferreira

Inscrição sobre as ondas

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.


**

Itinerário Grego

I

Há sempre na vigia uma ilha que oscila
entre a gola do Mar e o turbante do céu

Mas de todas somente a que se chama Ítaca
parece a rapariga à espera de eu ser eu


***

Os Sinais

I

Olhar de frente o Sol Assim se aprendem
as letras iniciais da Solidão


David Mourão-Ferreira, Obra Poética, Lisboa: Presença, 1988: 27, 210, 251

excerto de um poema de Ana Luísa Amaral



Topografias em quase dicionário


(...)

Não interessa onde
estou

Diz-se que os gregos
tinham cinco formas para falar
de amor.
Nós temos uma só, onde não cabe
o quase paradoxo
de que amor é tudo o que dele sabemos.
Nada mais.

(...)

Não sei se os gregos tinham várias
formas para falar da morte,
nem mesmo sei se o amor
foi buscar alguma dessas formas
para se definir

Há literatura que fala do que está
a montante do amor,
mas não lhe está - eros, tanatos,
a sua ligação, o seu estar-
entre-estar

(...)


Ana Luísa Amaral, A Génese do Amor, Porto: Campo das Letras, 2005:10-1

sexta-feira, março 04, 2011

Mensagem

Se eu não voltar, é porque fiquei por lá, mas bem.
Não prometo que não aconteça :)

Encontro marcado com a Vitória de Samotrácia, a Vénus de Milo, a Padeira de Tanagra... (e outras damas do mesmo teor - nem todas mutiladas) e até com o Antínoo!

para além da Amélie, do Moulin, dessas coisas que todos sabemos ;)


à bientôt!

Paris

como me conhece bem quem tratou dos bilhetes :)



quarta-feira, março 02, 2011

3 poemas de Mário Rui de Oliveira

(imagem retirada daqui)

Vizinho de Deus

Saio de casa para olhar o mundo. Olhá-lo, sem mais. Debaixo do outono, amealhava pinhões, tecia colares de caruma, cruzava um regato, o cheiro da terra molhada. Anotava o geométrico voo dos estorninhos e pensava crer como um corpo adolescente.
Face a face com o mundo. Ou quase. Talvez seja isto que Balthus refere: «pintar o que se tem diante dos olhos é um modo de se tornar vizinho de Deus».


Um Amigo

Num daqueles dias de outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pedia que lhe contasse uma história. «Salva-me a vida, conta-me uma história». E eu recordei aquela mulher das Mil e Uma Noites, que encadeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois ó a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.
Um amigo é uma história que nos salva.

Os Padres do Deserto

Os monges do deserto, esses que chegam da vigília do silêncio, diante de um cesto, escolhem os frutos mais apodrecidos. Gestos assim podem parecer-nos insignificantes, até indiferentes, mas, na realidade, revelam aqueles que os cumprem. Os santos sentem-se indignos de receber e preferem reservar, aos outros, o melhor. «Para eles, somente a visão perfumada dos pomares.


Mário Rui de Oliveira, O Vento da Noite, Lisboa: Assírio & Alvim: 20, 29, 31

domingo, fevereiro 27, 2011

Poema das evidências

Ao contrário do vento encontro
as ruas em que nos perdemos.

A gaivota na pedra
nada diz da minha condição.

A solidão é menor
quando me estendo ao sol.