quinta-feira, agosto 02, 2012

novo visual

acompanhando as mudanças do meu próprio visual e vida em vários aspetos (só me falta mesmo a pala à Camões...) - uma mudança no aspeto do blogue, mais leve, mais claro, mais fresco.

terça-feira, julho 31, 2012

Desafio 12:7

Além da excelente minissérie Sherlock, de que vi agora a segunda temporada (três episódios cada, mas de hora e meia cada e muito bem feitos, com os geniais Martin Freeman e Benedict Cumberbatch a liderar o elenco), deixo abaixo outras sugestões em mês estranho, marcado sobretudo pela uvéite que me condicionou bastante, mas também o calor e a correção de exames - enfim, mais poesia e filmes, porque a primeira não exige tanto do olho como a prosa, e os segundos porque não exigem tanto como os filmes. reflexão breve sobre o Mimarte, que felizmente foi ainda antes da doença!


livros:

66. Estâncias Reunidas (1977-2002), António Cândido Franco, Quasi, 184p.***(*)
67. Todas as Palavras, Manuel António Pina, Assírio & Alvim, 400p.****
68. Assim São as Algas, Albano Martins, Campo das Letras, 448p.*****
69. Obras Completas - 1 Poesia, Carlos Wallenstein, Salamandra, 320p.***(*)
70. Fabliaux. Erótica Medieval Francesa, Teorema, 116p.****
71. Danúbio, Cláudio Magris, Biblioteca Sábado, 380p.*****

filmes:

121. The Conspirator, Robert Redford*****
122. La Source des Femmes, Radu Mihaileanu*****
123. L'arnacoeur, Pascal Chaumeil****(*)
124. The Whistleblower, Larysa Kondracki*****
125. Warrior, Gavin O'Connor*****
126. Tamara Drewe, Stephen Fears****(*)
127. Breaking and Entering, Anthony Minghella*****
128. Eating Out 5: The Open Weekend, O. Allan Brocka***
129. RRRrrrr!!!, Alain Chabat****
130. Hysteria, Tanya Wexler*****
131. Sherlock Holmes: A Game of Shadows, Guy Ritchie****(*)
132. Ice Age: Continental Drift, Steve Martino e Mike Thurmeier*****
133. Hereafter, Clint Eastwood****(*)
134. Run Fatboy Run, David Schwimmer****(*)
135. Bel Ami, Declan Donnellan e Nick Ormerod****(*)
136. Little Ashes, Paul Morrison*****
137. The Town, Ben Affleck****
138. Banlieue 13 - Ultimatum, Patrick Alessandrin**
139. Sleeping Beauty, Julia Leigh*(*)
140. Anna Karenina, Bernard Rose****
141. Take Shelter, Jeff Nichols*****
142. Pina, Wim Wenders*****
143. Burning Man, Jonathan Teplitzky****
144. The Hangover Part II, Todd Phillips***(*)
145. In The Land of Blood and Honey, Angelina Jolie****(*)
146. Eden Lake, James Watkins***(*)
147. Les Émotifs Anonymes, Jean-Pierre Amério****(*)
148. Black Sheep, Jonathan King***
149. Patrik 1,5, Ella Lemhagen*****
150. Tormented, Jon Wright**(*)
151. Silk, François Girard***(*)
152. Tomboy, Céline Sciamma****
153. Where the Wild Things Are, Spike Jonze***(*)
154. Wet Hot American Summer, David Wain***(*)
155. Limitless, Neil Beerger***(*)
156. Bending All The Rules, Morgan Klein e Peter Knight*(*)
157. My Little Eye, Marc Evans**
158. Weekend, Andrew Haigh****(*)
159. The A-Team, Joe Canahan***
160. Budapeste, Walter Carvalho****(*)

Mimarte:

por ordem de preferência:
1.º 1325 - Peripecia: genial, como de costume; a força das mulheres nos conflitos humanos ou de como se pode dizer o horrível de forma poética, bela e cómica.
2.º A Ilha dos Deuses - FC Produções: as máscaras ao serviço do encontro de culturas, do outro que nos completa.
3.º As Suplicantes - Thíasos: um coro muito interessante, seguido do egípcio, superou as falhas das outras duas presenças masculinas...
4.º Médico à Força - Jangada Teatro: comédia agradável, sobretudo com a cena da fotografia final e a caixa de medicamentos :)
5.º Os Portas-Comédia da Noite - Sola no Sapato: em especial pelo Fernando Ferrão (e sua Vanessa) e Pedro Teixeira (e sua Susy e Manel).
6.º Falar Verdade a Mentir - CTB, pelos espelhos, pelo General Lemos e pelo Duarte (embora um pouco exagerado, André Laires, mas foi o que lhe pediram, certamente). E chega.
7.º Auto do Velho Vaqueiro na Visitação da Horta Lusitânia - Teatro Construção: muito Gil Vicente, com um «Auto da Índia» muito engraçado, interativo e estúpido.
8.º O Mentiroso - Teatro ao Largo: Veneza e Goldoni bem tratados, mas faltou ali qualquer coisa...
9.º A Sogra - Thíasos: texto estranho e encenação muito simples... José Luís Brandão em destaque.
10.º Plim! Tragicomédia à Moda de Braga - PIF'H: enfim... nem Júlio Gonçalves salva isto. Tudo em excesso de... nada!


sexta-feira, julho 27, 2012

4 poemas de Carlos Wallenstein



Óleo sobre painel. Morning Mist, de Christa Eppinghaus-Johnston



AS MÃOS E A ROSA

(Relatório)

Na madrugada pardacenta
entre armações veleiras
no cais dos pescadores
era ainda o horizonte
coalhado de vagalumes

a Polícia Geral
surpreendeu
a existência clandestina
temerária
para mais parecendo apetecida
de duas mãos e uma rosa

Estes objectos
se passam a descrever:

Rosa sem qualificação particular
entre rosa e vermelho
pétalas semi-abertas
como a boca da detida
a quem pertencia uma das mãos em questão
A outra mão sombria
de pêlos lavrada
e veias atravessada
pertencia ao cidadão
por quem naquele instante
a detida era abraçada

As mãos possuíam a rosa
A rosa era possuída
As mãos mutuamente
possuíam as mãos
E cada pessoa
depois na prisão
se declarou possuidor
da mão que possuía a outra mão
que possuía a rosa

E cada um deles
com grande arrogância
se declarou possuidor
da pessoa do outro
no mesmo teor

em que o eram da rosa
através dum fenómeno
a que chamaram amor
Detiveram-se os três objectos
mas não havendo instrumento
para separar as mãos
dos corpos respectivos
prenderam-se os corpos também
e ainda bem
pois possuindo-se
mutuamente segundo a declaração
bem é que fiquem na prisão

pois todas estas posses
− tanta posse tanta posse −
se verificaram à margem
da Teoria da Tributação


****** Eu José Calcador
****** da Polícia Geral
****** de Sua Majestade Solar
****** El-Rei D. Nabucodonosor


****


Nada sou do que quis. Assim me quero
se é querer o osso que me foi
atirado; se crer no todo influi
desta paisagem desenhada em série.

Assim ou o contrário? Pondere-o
não eu mas quem o ponderar obriga
com metodologias de formiga
e trompas lautas de soar aéreo.

Tem como sou, assim me fui compondo
no desastre e engaste, na fateixa
manual do rapa tira põe e deixa,
eu de mim meu anzol e meu biombo.

Nem outro não ser dói ou me corrói.
Igual aos dois; herói/anti-herói.


****


A água do rio espelhou o teu rosto
e os teus seios, minha amada,
Quando te debruçste para beber
à sombra dos salgueiros

Na foz do rio espero eternamente
que as águas me tragam consigo
a tua imagem

***

Homenagem ao Único/Último

Alegre, alegre sim:
porém, morto


Carlos Wallenstein, Obras Completas. 1 Poesia, Salamandra: 1998:,p.77-9, 167, 205, 310

segunda-feira, julho 23, 2012

Assim são as algas, diz Albano Martins

uma seleção longa, bem sei, mas ainda assim incompleta, de um poeta que me agradou particularmente nestas primórdios de verão. gostei muito, dos poemas com pássaros e flores, dos haikus, das reflexões metapoéticas, das relações intertextuais com pinturas, desenhos e esculturas de diversas proveniências... Há já uma nova edição da sua poesia completa, muito mais extensa que esta que li, mas enfim, era a que havia comprado, mas aqui fica a referência à nova. E aqui alguns dos muitos poemas: 




Não forces a tua inspiração.
Deixa a poesia vir naturalmente
e não obrigues a mentir o coração.

Procura ser espontâneo,
A verdadeira beleza
está no que o homem tem de semelhante
com a natureza.

*

Descem as pálpebras sobre
o sono vigilante.

É preciso, amor,
dar um nome a esse instante.

**

À laranja não
se lhe tira a casca,
mas o coração.

**

Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.

***

A face contra a face. O pulso
contra o peito. A pérgola
do leme a pino e a prumo.

****

Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo - trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.
****

O verão deixa,
como herança, ao outono
um leque de folhas secas.

*****

Romãs; as últimas
brasas do incêndio
do verão.

*****

ÍDOLOS

São de barro, de fibra sintética e de barro, e de barro se diz também que alguns homens têm os pés. Aí reside, por isso, ao mesmo tempo, a sua força e a sua fragilidade. E são, como igualmente se diz, objectos profanos.
Não há diferença entre o profano e o sagrado, nomes inventados, como tantos outros, pelo homem, para iludir a sua ignorância e preencher o intervalo, a que alguns chamam vazio, que há entre a vida e a morte. Por isso os próprios ídolos, que apenas valem como imagens artificiais projectadas no espelho da arte e da vida, aí encontram, umas vezes, a sua força, outras, a sua fragilidade. São como deuses sentados à entrada da morte e velando o seu próprio cadáver.

*****

CIÊNCIA

O crescimento do homem pôde algumas vezes medir-se pelo comprimento ou altura das túnicas. O das mulheres sempre se mede pela roda das saias e dos seios. Ou pela altura das árvores e a fundura dos lagos que habitam no seu corpo.
******

MÁSCARA FUNERÁRIA
DE TUTANCÁMON

Solene, entre o relevo
das serpentes que lhe guardam
o viço constelado,
é apenas uma esfinge,
o seu perfil. O cinzel
que lhe esculpe o lume
e o marfim do rosto. Tem
o azul como estigma, e o brilho
jovem que lhe doura
a cabeça é só
o esplendor do tempo,
não o seu. Também
de azul e ouro
se tingem as tardes
de outubro e são elas
que trazem atrelado o carro
funerário onde se abrigam
as máscaras dos vivos. O rosto
duvidoso e incorpóreo
dos enigmas sem data.
****

Pequenas Coisas


Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.
***

COMPROMISSO

Pertence-te
ser homem, afirmar
todos os dias que tens
um compromisso: ser claro
e brando como a luz
e, como ela,
necessário. E não deixar
crescer à tua porta
ervas daninhas.

**

A MESMA CANÇÃO

A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

*

Indício

Quando alguém morre
apuras o ouvido
em busca dum indício.

Fecha depressa
a janela
antes que ouças
dizer
que é por ti
que os sinos dobram.


Assim São as Algas. poesia 1950-2000, Albano Martins, Campo das Letras: 2000, p.24, 57, 105, 142, 243, 245-6, 251, 259, 277, 278, 348, 408, 411, 412, 416

cinco poemas de Manuel António Pina

LUDWIG W. Em 1951

«As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem
                                                                           [que palavras?
E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma.»

***


Café do molhe


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
****

Uma prosa sobre os meus gatos


Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.





*****

Sétimo Dia


Voltámos, um a um, da tua morte
para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.
*****

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Manuel António Pina, Todas as Palavras. poesia reunida, Assírio & Alvim, 2012, p. 232-233, 240-241, 270-271, 288, 358

dois poemas de António Cândido Franco


Escultura de papel, por Sue Blackwell



VII


Ao céu regresso.
Quero dizer
à terra anoitecida
pelo amor.
Extasio-me
com a terrestre vida dos astros.
Passeio
por uma estrada de estrelas.
Isto é
uma estrada de flores sublimadas
pela noite.
Vou visitar um estábulo
em pleno universo.
Zodíaco.
Jardim zoológico astral.
Lá estão as constelações
irradiando o seu frio.
Quero dizer
os animais pela memória
desterrados.
Regresso à noite.
Piso a escuridão.
Olho o céu
como se a terra visse.
As estrelas são flores.
As constelações são animais.
O céu é um jardim
com um estábulo no meio.
Comem flores os animais da terra.
Mastigam estrelas os do céu.
O céu também é um chão
mas um chão feito de memória.
Estão lá os mitos.
Isto é
homens elevados
pela luz e pela palavra.
Pisam-se lá em cima astros
como em baixo
se pisam pedras.
No céu passo por mitos
e por ideias.
Estão lá poemas.
Quero dizer
coisas metaforizadas
por esta outra noite do mundo
íntima e secreta
que são as palavras.

****

17

Esforço-me por arrumar os pensamentos.

Antes não havia pássaros.
Era eu o pássaro.
Cantava
mas sem o saber.

Agora há pássaros.
Um pássaro sacudiu o corpo.
Acabei de o ver.
E acabei de por duas vezes
o ouvir cantar.
ainda o vejo e escuto
mas ele
prisioneiro do sia e da luz
não me vê.

Esse pássaro
está dentro da sua manhã de Primavera.
É um pássaro
tão alegre para mim
como tão triste é para ele.
Está tão livre e tão preso
como outrora eu estive
na minha infância
antes de nascer
quando cantava e não me ouvia
quando era mas não me via.

E foi preciso perder a minha infância
afastar-me tanto de casa
para que houvesse um pássaro à minha volta.

Quem é mais
ele ou eu?
Aquele que para nascer deixou de ser
ou aquele que continuou a ser para não ser?
Aquele que nem ser sabe
ou aquele que canta sem saber?

Quem devo escolher
aquele que alegria dá mais triste
ou o que tristeza dando conhece a alegria?

O que houve no haver sem ter havido
foi o que foi só feliz ou o que foi triste?


António Cândido Franco, Estâncias Reunidas 1977-2002, Edições Quasi: 2020, p.29-30, 148-149.




sábado, junho 30, 2012

Desafio 12:6

Mês para Italo Calvino, que já me merecia atenção e que veio confirmar o que já suspeitava depois de outros livros lidos, como Se Numa Noite de Inverno um Viajante e As Cidades Invisíveis: o meu escritor italiano favorito! Certo, não conheço assim tantos - reformulo: um dos meus escritores favoritos. Bons filmes, em geral, e umas saídas para Serralves e Mimarte. E pronto, trabalho nas horas livres...

Livros:

54. O Visconde Cortado ao Meio, Italo Calvino, Teorema, 160p.*****
55. O Barão Trepador, Italo Calvino, Visão, 320p.*****
56. O Cavaleiro Inexistente, Italo Calvino, Teorema, 192p.*****
57. Porquê Ler os Clássicos?, Italo Calvino, Teorema, 272p.*****
58. O Caminho de San Giovanni, Italo Calvino, Teorema, 164p.****(*)
59. Seis Propostas para o Próximo Milénio, Italo Calvino, Teorema, 176p.*****
60. Todas as Cósmicas, Italo Calvino, Teorema, 448p.****(*)
61. O Castelo dos Destinos Cruzados, Italo Calvino, Teorema, 136p.****
62. A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina, Italo Calvino, Teorema, 164p.****
63. Os Amores Difíceis, Italo Calvino, Teorema, 176p. (2.ª vez)*****
64. A Contradição Humana, Afonso Cruz, Caminho, 32p.*****
65. Nova Geração do Cancioneiro, poemas ditos por Maria de Jesus Barroso com música de Luísa Amaro, althum.com e m-neorealismo, 64p.****(*)

Filmes:

108. The Invention of Lying, Ricky Gervais e Matthew Robinson*****
109. Coriolanus, Ralph Fiennes****(*)
110. The Soloist, Joe Wright*****
111. Iris, Richard Eyre*****
112. Intouchables, Olivier Nakache e Eric Toledano*****
113. Wrath of Titans, Jonathan Liebesman*****
114. The Debt, John Madden*****
115. Coco Avant Chanel, Anne Fontaine*****
116. A Good Year, Ridley Scott*****
117. Rec, Jaume Balagueró e Paco Plaza****
118. Rec2, Jaume Balagueró e Paco Plaza****(*)
119. Mirror Mirror, Tarsem Singh****(*)
120. Livide, Alexandre Bustillo e Julien Maury***

Outros:

Serralves em Festa - assisti apenas a Foté Foré, de que gostei muito, pela energia, ritmo, beleza, dança, acrobacias, riscos, música e humor:



e também a The Irrepressibles, que adoro profundamente, mas que me deixaram insatisfeitos: pelo local (não gosto muito de espetáculos destes em descampados), pela atenção dada ao novo disco que ainda ninguém conhece, pela pouca teatralidade que prometiam do que vira no youtube. Mas são geniais e o vocalista tem mesmo aquela voz toda potente. Espero um regresso:



Game of Thrones - 2.ª temporada: um pouco... não sei... penso que esperava mais. Continuam a morrer alguns dos meus favoritos, assim, do nada, em toda a série; continua a ser tudo muito rápido e de uns acontecimentos para outros, em cada história, há mil de outras, o que se torna confuso e irritante, pois são muitas personagens e quase nenhuma adquire intensidade por isso. Talvez valha a pena continuar a ver, mas... os livros me aguardam!***(*)

Mimarte: Plim! Tragicomédia à Moda de Braga (PIF'H) e Médico à Força (Jangada Teatro) - em post separado, em breve.


quinta-feira, junho 07, 2012

Ray Bradbury (1920-2012)

Fahrenheit 451 é um livro fantástico. Não conheço mais, mas livros sobre livros prendem-me para sempre...

em paródia, em bela homenagem:


quinta-feira, maio 31, 2012

Desafio 12:5

Maio... o mês das flores, da Nossa Senhora, das cerejas... o mês mais louco do ano (pelo menos para já)!
Não há vida, não há tempo para grandes coisas... nem para pequenas!

Livros:

44. Roma Reconstruída, ArcheoLibri, 108p.****
45. Poesias de Vitorino Nemésio, Maria Madalena Gonçalves, Comunicação, 204p.***
46. Livro de Mágoas, Florbela Espanca, organização de Cláudia Pazos Alonso e Fábio Mario da Silva, 152p.***
47. Quo Vadis?, Henryk Sienkiewicz, JN, 446p.*****
48. Septimínio e outros poemas, Alexandre Passos, Centro Cultural do Alto Minho, 36p.**(*)
49. Regresso à Patagónia, Bruce Chatwin e Paul Theroux, Quetzal, 74p.****(*)
50. Pequenas Histórias do Fim do Mundo, Vários, Prefácio, 102p.****
51. O Leão e o Coelho Saltitão, Ondjaki, Caminho, 42p.***
52. Ynari, A Menina das Cinco Tranças, Ondjaki, Caminho, 46p.*****
53. A Mãe que Chovia, José Luís Peixoto, Quetzal, 62p.*****

Filmes:

95. It's Complicated, Nancy Meyers****(*)
96. Zack & Miri Make a Porno, Kevin Smith***
97. The Twilight Saga: Breaking Dawn 1, Bill Condon***
98. Faces in the Crowd, Julien Magnat****
99. In Time, Andrew Niccol****
100. The Caller, Matthew Parkhill**(*)
101. The Brothers Bloom, Rian Johnson*****
102. The Duchess, Saul Dibb****(*)
103. Jamón, Jamón, Bigas Luna***
104. Les Edades de Lulú, Bigas Luna***
105. Memento, Christopher Nolan****(*)
106. Get Low, Aaron Schneider***
107. Serious Moonlight, Cheryl Hines***

Outros:

Spartacus: Vengeance: excelente continuação, com um Liam McIntyre que substitui bem Andy Whitfield, apesar de algumas diferenças notórias. Regresso das armadilhas, esquemas e até loucura de Lucretia e Ilithya, da exposição muito à frente de Glaber, de uma Mira muito interessante. Sexo, nudez, sangue, morte (horrorosas, fenomenais - a de Seppia nas mãos de Ilithya, tocantes - a de Mira),  a garantirem o impacto de dez episódios muitos bons (sobretudo o terceiro e o décimo!). Muita coisa fica em aberto, ainda, mas a pergunta que realmente se impõe é: será que foi mesmo desta vez, depois de se atirar do penhasco, que a Lucretia morreu?

Coldplay no Porto - ver aqui e aqui. E sem mais, só quem foi sabe o que foi.

Apresentação do livro A Confissão da Leoa, com Mia Couto. Na BLCS, um momento interessante de audição de um dos meus autores favoritos, com a sua tranquilidade, sabedoria, mundividência diferente, confluência de mundos e áreas do saber, magia, literatura... Com direito a autógrafo, depois de ter d eouvir também Fernando Pinheiro dizer uma ou outra coisa interessante...

Houve também Alice Vieira no colégio, mas mal a vi. E Ana Bacalhau, pois claro, que adorei conhecer e "entrevistar" ;)

quarta-feira, maio 30, 2012

Coldplay no Porto (2)

Sem palavras, ficam as imagens (com a pulseira da Ariana, a minha é amarelinha e ainda vai funcionando...)









Muitos vídeos no sítio do costume! Destaco: «Viva la Vida», que foi um momento mágico, e «Violet Hill», uma das minhas favoritas!

4 poemas de Vitorino Nemésio

Correspondência ao Mar

Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo:
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de polo a polo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim -
Que onde ele acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
Ao rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstracto e imenso:
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
É o golfo de todo o esquecimento
Na mínima lembrança que me deixas,

E a Rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração , lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.

***

26.
O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.
***




Poema de Outra Viagem ao Porto


Noite movida, meu corpo é uma hora antes
Caixa de sangue pronta a amplo socorro.
Eu vou como as manhãs e as sarjas aos doentes:
Sou eu mesmo que morro.
Falto como o menino à vida, escola de ermos.
Quem me dará meus anos, se os perdi?
Só Deus tem paz onde homens gume e fogo,
Do mais não resolvi.
Aqui lá de astro quem
Sobre as águas adusto,
Que nem vendo direi se cumpro ou rego flor?
Tu darás às palavras o que é delas
Como altura com vidros dá janelas
E amor é quando se tem.
Assim te reproduzes.
No redondo das rosas adianto
Como tempo é minha alma por jardim.
Agora não sei mais. Vou para o Porto
Timbre de honra é morar limpo no espanto.
Eu pessoalmente morto.

***

TUBO DE ENSAIO

Árvores do Canadá, uma por uma,
A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.

Poesias de Vitorino Nemésio, por Maria Madalena Gonçalves, Lisboa: Comunicação, 1983: p. 83-84, 97, 174, 184

sexta-feira, maio 18, 2012

Coldplay no Porto

Aqui fica a lista selcionada nos últimos dias das canções, à razão de duas por disco, que gostaria de ouvir/cantar/sentir amanhã no Estádio do Dragão:


«Trouble»



«Everytinhg's not lost»



«Amsterdam»




«Politik»



«A Rush of Blood to the Head»



«The Scientist»



«Fix You»



«Violet Hill»



«Viva la Vida»



«Glass of Water»



«Now my feet won't touch the ground»



«Princess of China»



«Hurts Live Heaven»


e, para terminar em (ainda mais) beleza:


«Clocks»

sexta-feira, maio 11, 2012

Bernardo Sassetti (1070/2012)

«conheci» Sassetti com o filme Alice. A história ia-me estrangulado com o medo da perda, Nuno Lopes e Beatriz Batarda faziam-me chorar porque a dor era real, os planos e a fotografia da cidade de Lisboa, a realização impecável de Marco Martins, o momento em que parece que tudo se resolve e se tem medo de sofrer mais... um peso, uma força... tudo servido pela música perfeita de Sassetti. Muitas vezes ouço o disco, que vale por si mesmo. E gosto-o tanto. E depois há coisas assim, partidas tão inesperadas quanto as da ficção e das artes!





 

quinta-feira, maio 03, 2012

V Sarau Cultural

9 de maio de 2012
Parte I
21h00 – Das Palavras: «Secretas vêm, cheias de memória», Eugénio de Andrade – Isabel Fidalgo

21h05 – Convidada: Ana Bacalhau - Deolinda (moderação por Marta Barreto e Tiago Aires)

Tema: A palavra

Parte II

22h00 – «Palavra Favorita» - 12.º E/F (projeção vídeo)

22h05 - «Tributo aos Deolinda» –  12.º B

22h20 - Ensemble de cordas do Colégio

22h25 – «Mensagem de dor de Rute Mendes» Adriana Silva, Marta Pires, Beatriz Abreu e José Pedro Ribeiro - 11.º B

22h30 – «Velho» de Mafalda Veiga –  9.º ACDE e 11F
22h35 – «Todo o tempo do mundo» de Rui Veloso – David Duque -11.º E, Diogo Jorge Silva -11.º E, José Pedro Ribeiro -11.º B.

22h40 – Medley de dança - Mariana Patrício e Miguel Cunha - 9.º D
22h45 – «Meras palavras» –  12.º A

23h00 - Encerramento

segunda-feira, abril 30, 2012

Desafio 12:4

Depois de uma extraordinária viagem por Roma e por Veneza, houve momentos para algumas coisitas. Destaque para a leitura das obras que me faltava ler do Ondjaki, que adorei, o Titanic 3D (não sei quantos depois!) e para o The Walking Dead!


Livros:
34. Crimes Exemplares, Max Aub, Antígona, 144p.*****
35. Momentos de Aqui, Ondjaki, Caminho, 144p.****
36. O Assobiador, Ondjaki, Caminho, 132p.*****
37. E se Amanhã o Medo, Ondjaki, Caminho, 104p.****
38. Os da Minha Rua, Ondjaki, Caminho, 128p.****(*)
39. AvóDezanove e o Segredo do Soviético, Ondjaki, Caminho, 200p.*****
40. A Bicicleta que Tinha Bigodes, Ondjaki, Caminho, 86p.*****
41. Viagem com Quino e Mafalda, Quino, Teorema, 112p.*****
42. As Mãos e as Margens, José Alberto Mar, Limiar, 48p.***
43. Poesia, Cristovam Pavia, D. Quixote, 284p.****

Filmes:
85. Synecdoche New York, Charlie Kaufman****
86. Oss 117: Le Caire, Nid d'Espions, Michel Hazanavicius****
87. Oss 117: Rio ne Répond, Michel Hazanavicius****(*)
88. Paul Blart: Mall Cop, Steve Carr***
89. Titanic 3D, James Cameron*****
90. Shame, Steve McQueen**
91. Lat den ratte komma in, Tomas Alfredson***(*)
92. Ink, Jamie Winans****
93. Imago Mortis, Stefano Bessoni****
94. Heartless, Philip Ridley***(*)


Outros:

17.ª Mostra da Escola da Dança do Centro Municipal de Vila do Conde - muito bom, com coreografias e desempenhos muito variados, com músicas bonitas e inspiradas (incluindo o meu adorado Anton Sanko), fotografias, textos e luzes a condizer. Gostei, mais do que das francesinhas logo a seguir :)

The Walking Dead - marcou o mês de uma forma inegável. As conversas com os alunos em que eu adivinhava sempre o que vinha a seguir, o chegar a casa e ver três ou quatro episódios seguidos, a locura de dezanove episódios em cinco dias... com Andrew Lincoln, Jon Bernthal e Sarah Wayne Callies, nos principais papéis, as duas primeiras temporadas prenderam-me, apesar de alguma previsibilidade e, até, momentos de «Zeus, a sério?», compensados com outros muito bons, como Sofia saindo do celeiro, o «walker» no poço, enfim... Venham mais episódios!

Dona Pura e os Camaradas de Abril - produção do Teatro das Beiras e do Teatro do Trigo Limpo/teatro Acert, no Theatro Circo, numa adaptação do romance homónimo de Germano Almeida. Gostei muito de quase tudo - é teatro, e pouco mais há a dizer.

Falar Verdade a Mentir - de Almeida Garrett, da companhia Arte D'Encantar. Tenho de concordar com os alunos: um pouco exagerado e infantil, em alguns momentos. Mas bem!

domingo, abril 29, 2012

5 poemas de Cristovam Pavia




«Violiniste Bleu» (pormenor), Chagall

Poema(de uma fotografia de meu Pai comigo,
pequeno de meses, ao colo)


Vamos através do incêndio
Mas não temas, meu filho,
Podes dormir nos meus braços frescos e fortes,
Embala-te a cadência dos meus passos.

Vamos através do incêndio
E sonhas.
Detrás das tuas pálpebras a tarde
Beija e doira as folhas dos sobreiros.

E quase me esqueço
Deste puro fogo,
P'ra te dar frescura.
Arde o meu sangue calmo.
E o meu suor, arde.

E, devagar,
Vamos através do incêndio.

Dorme, meu filho.
***

O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.
****

Pequeno Poema

Em ti amadurece a vida como um vinho
Obscuro e raro...

Que mais queres?

*****

Que cada palavra trema dizendo
O que não pode ser dito.
E seja a poesia um violino de silêncio
Infinito.

E tu, poeta: vagabundo e despido,
Desprende-te do resto e deixa-os declamar
As vãs frases humanas. Não as ouças,
Vagabundo que passas cantando.

******

Construo a poesia como uma casa
Sem pressa e apenas com a pedra
Alheia. Duramente a construo.
Os meus versos ominados e compactos
Ligo-os com barro cor de sangue,
Amasso-os na água, mais pura do que as lágrimas.
Se comovo, é comoção não minha.
Se os meus versos são inúteis,
É inútil todo o trabalho.


Cristovam Pavia, Poesia, Lisboa: D. Quixote, 2010, p.33, 47, 143, 146, 172

3 poemas de José Alberto Mar



A Lei e a Liberdade

Não entendo essa ausência de rigor
dissipando a morte
no fundo insípido dos dias.

Seja o que for que haja pelo menos uma vez
um olhar grandioso
sobre o grandioso mundo
que uma mão se liberte libertando a imagem
e seja pássaro, ideia ou nuvem
ou apenas
um íntimo segredo abraçado à vida.

***

4

Cai sobre um rosto toda a luz de um dia.
E o rosto é um templo de máscaras
com a idade do mundo.

Nenhuma memória ou esquecimento separa o desejo
dessa luz primeira
que por dentro transforma os olhos
e é para estes que nos voltamos conquistados
sabendo que das máscaras inventadas
todas as sombras nos cativam
todas as sombras nos desmentem.

****

6.

Há lugares onde os silêncios são
outras palavras
mais perto dos simples segredos
do mundo. São lugares como rostos
suspensos por uma leveza nos olhares
e unidos ao sangue universal das vozes
distraidamente esquecidos no fim dos dicionários
por um talento feito de procura e êxtase.

José Alberto Mar, As Mãos e as Margens, Porto: Limiar, 1991, p.17, 38, 40

sábado, abril 14, 2012

Millôr Fernandes (1923-2012)

Dele li apenas Pif-Paf, um conjunto de textos publicados em jornais. E tanto recomendo (encontra-se nas estações de comboios, em edição de O Independente). Texto de autoapresentação aqui. Ficam aí umas pérolas:

«Quem não tem lenço se despede menos.»

«Errar é humano. Ser apanhado em flagrante é burrice.»

«Em geral as pessoas que se perdem em pensamentos é porque não conhecem muito bem esse território.»

«Amigo, jamais procure ler nas entrelinhas. Sobretudo se um trem vem vindo.»

«Ser génio não é difícil. Difícil é encontrar quem reconheça isso.»

«Uma mulher perdida não passa de uma mulher muito encontrada.»

«O egoísta não é um mau. É um bom que começa por querer bem, acima de tudo, a si mesmo.»

«Para bom entendedor meia palavra basta, não é imbe...?»

«Errar é humano. Botar a culpa nos outros também.»

«Suicidou-se porque não tinha onde cair morto.»

...



Da outra perda, A. Tabucchi, fica este texto inspirado, como de costume.

Tonino Guerra (1920-2012)

Já tinha andado por , regresso a ele, em tempos de despedida - e em atraso, porque andava mesmo alheado do mundo dos acontecimentos. Em jeito de homenagem e apreço: 


A Cerejeira em Flor

O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.
Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.
Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.

Histórias para uma Noite de Calmaria, de Tonino Guerra, trad. de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim: 2002

domingo, abril 01, 2012

Desafio 12: 3

Livros:

23. Obra Poética, Federico García Lorca, Relógio D’Água, 694p.****
24. Se eu fosse um Livro, José Jorge Letria e André Letria, Pato Lógico, 60p.*****
25. No Vórtice da Noite, Adalberto Alves, Argusnauta, 128p.***
26. O Jardim das Delícias, Fernando Pinheiro, Calígrafo, 128p.***
27. Contos Gregos, António Sérgio, Sá da Costa, 64p.****
28. Purosexo.com, Dennis Cooper, Bico de Pena, 208p.**
29. Uma Aventura no Sítio Errado, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Caminho, 180p.***
30. Senilidade, Italo Svevo, Público/Mil Folhas, 192p.***(*)
31. Manual para Amantes Desesperados, Paula Tavares, Caminho, 38p.****
32. A Roma Antiga e o Império Romano, Michael Kerrigan, Livros e Livros/BBC, 96p.****
33. Arte Greco-Romana, Susanna Sarti, Scala, 256p.*****

Filmes:

59. The Girl with the Dragon Tattoo, David Fincher****
60. The Iron Lady, Phyllida Lloyd***(*)
61. Ricky, François Ozon***(*)
62. 50/50, Jonathan Levine*****
63. Kung Fu Panda 2, Jennifer Yuh***(*)
64. Anonymous, Roland Emmerich***(*)
65. Blacklight, Fernando Fragata***(*)
66. The Jane Austen Book Club, Robin Swicord***(*)
67. Bridesmaids, Paul Feig****
68. Barry Lyndon, Stanley Kubrick****
69. A Dangerous Method, David Cronenberg***
70. The Adventures of Tintin, Steven Spielberg****(*)
71. Chico e Rita, Fernando Trueba (...)***(*)
72. The Fall, Tarsen Singh****(*)
73. The Grey, Joe Carnahan**(*)
74. My Week With Marilyn, Simon Curtis*****
75. J. Edgar, Clint Eastwood***(*)
76. Testosterone, David Moreton***
77. Main Street, John Doyle***
78. Stolen Lives, Anders Anderson****
79. Albert Nobbs, Rodrigo García***(*)
80. Delicatessen, Jean-Pierre Jeunet*****
81. Cars, John Lasseter, Joe Ranft****
82. Transporter 3, Olivier Megaton***
83. Tristam Shandy: A Cock and Bull Story, Michael Winterbottom****(*)
84. La Dolce Vita, Federico Fellini****

Outros:
Março foi mês para concertos diferenciados, como o da Banda de la Escuela Municipal de Música de Medina del Campo, a fim de marcar a geminação entre Braga e Medina del Campo em torno das celebrações pascais, o de Os Capitães da Areia, na FNAC, enquanto estava a ver livros e tal, depois parei lá um pouco a ver a atuação, e o genial concerto, no Theatro Circo, de Marco Rodrigues e de Mafalda Arnauth (primeiro ele, depois ela, depois ambos juntos):




Algumas exposições, também. Primeiro, com a minha irmã, fui a Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?, sobre Anne Frank, no Seminário de Nossa Senhora da Conceição, recriando o espaço de um campo de concentração para, através de painéis, contar a história e o testemunho do Holocausto. Vi ainda O Mundo dos Dinossauros, no Porto, com minha irmã, Milai, Áurea e Ricardo, que nos pareceu um pouco... ridícula... Por fim, Ele vai passar por ti! Olha-O!, uma exposição dos alunos de artes do colégio, na Casa dos Crivos, com fotografia e pintura sobre a Páscoa - muito boa!
Nas séries, vi episódios soltos de  Big Time Rush, uma série juvenil engraçadinha, mas é só isso, engraçadinha. E vi, de enfiada, entusiasmado, mas por vezes a pensar «porquê???», Downton Abbey, de que gostei bastante, não fossem algumas situações excessivas, aparecimentos sem consequências a não ser tornar a série mais longa, como se a ideia inicial de ser uma minissérie não fosse afinal válida. Mas, ainda assim, vale muito a pena!