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terça-feira, janeiro 01, 2013

Poesia de Rui Knopfli



Despedida

Tudo entre nós foi dito.
Estamos cansados e tristes
neste Outono de folhas pairando
e caindo.
Entre nós as palavras colocam um mundo
de silêncio e vazio estéril.
Os próprios sonhos se encheram de neblinas
e o tempo os amarelece.
Outono de cismo, de folhas secas
e bancos abandonados de cimento frio
Onde não cantam aves
e o vento desce em brandos rodopios.
Apenas uma vaga angústia presente,
uma saudade sem recomeços,
a lembrança, tépida a gelar como
veios de mármore.
Tudo entre nós foi dito,
olhamos o apodrecer do parque,
o vento, o repicar leve das folhas
e, sem ressentimentos dizemos adeus.

*

Mania do suicídio
 
Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

*

Estrada

Súbito apercebo-me:
Segue a viagem dos anos.
Passou o tempo das amoras
e das laranjas furtadas,
a flor da chuva de ouro
para sugar o gostinho a açúcar.

Sonho com uma comprida paisagem de cedros
que nunca vi.
Apetece-me deixar o corpo adormecido
junto ao rádio
e ir passear pelos galhos das árvores
e sobre os fios telefónicos.

Nada feito,
pesada de agruras e desertos
segue a viagem dos anos.

**

A uma criança longe
 
Escrevo-te estas palavras
sabendo que as não lerás.
Entanto, o desejo de comunicar
é maior do que essa certeza.
Estamos irremediavelmente longe
de todos os contactos possíveis,
mas tu aconteceste,
encheste
o frio  de nossas vidas
com o calor do teu sorriso
e a graça de teus gestos.
Breve,
como breve paira
a leve folha outoniça,
ou a humilde gota de chuva
que se desprende do beiral,
foi a tua presença entre nós.
Sua lembrança persistente
está no gosto amargo do sorriso,
marcada na fronte,
no brilho empalidecido de nossos olhos.
Intimamente, no mais íntimo
de mim
esquadrinhei todos os ângulos
do improvável. Nunca mais
nos encontraremos. Jamais.
A morte é isso, é acabar
simplesmente, não acontecer mais
jamais.
Nada me auxiliam as lágrimas
que me salgam a face
e o muito que tenho blasfemado
de borco, rente ao teu silêncio gelado.
Esta a lógica prosaica dos factos:
Continuamos a viver, dolorida
a consciência
da tua cada vez maior ausência.
E teu pequeno corpo moreno,
que nem todo o amor aquece,
é um palmo de ternura
que apodrece.

**

O Ladrão de Versos

Uma gargalhada de meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro do meu filho.

***
O fio da vida
 
Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não crêem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.

***

Telegrama

Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
 Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.

****
 
Verso e Anverso
 
Diria palavras altas como amor,
palavras lentas como ternura,
ou duráveis como amizade.
Desceu um véu de luto sobre o amarelo
Esmaecido da savana, lá onde dormem
os corpos mutilados e onde cresta,
rente à terra, o sangue derramado.
Baixou sobre a serenidade das coisas
um sono obscuro e terrível.
Poluiu o teu sorriso, o meu desejo;
intercala os gestos e as vozes ciciadas.
Cerramos os olhos para a penumbra
donde brotam, nítidas, as imagens:
Há uma criança no fogo,
o pavor de um soluço estrangulado,
fulgurantes, rápidas chamas.
Direi palavras insuportáveis como morte.
 
****
 
Progresso
 
Estamos nus como os gregos na Acrópole
e o sol que nos mira também os fitou.
Mas fazemos amor de relógio no pulso.
 
*****
 
Quina - três elegias breves
 
1
 
Na fuga do tempo, breve
foi o trajecto. Nele coube,
porém - pão e vinho -, a intensa
 
alegria que, em redor,
generosamente partilhavas. Na tua,
principia a nossa morte.
 
2.
 
Tínhamo-lo, quiçá, pressentido.
Nunca de forma tão súbita e brutal.
Julguei voltar à alegria do teu convívio.
Engano. Regresso ao teu lugar,
 
irremediavelmente vazio, ao eco
desvanecido dos teus passos, onde os nossos
se perdem também, ao silêncio
que nos legaste. Este, o lugar de encontro.
 
3.
 
Nos caminhos da sua inescrutável
sabedoria, dá Deus com uma mão
o que, com a outra, retira. Da direita
 
colhemos infinita amizade, só para
que a esquerda, encurtando-nos
a vida, exígua de mais a tornasse
 
para que, numa ou noutra, ambas
coubessem. Perca-se, então, a vida.
Só a nossa morte, da tua nos libertará. 
 
Rui Knopfli, Obra Poética, Lisboa: IN-CM, 2003, p.41, 52, 82, 135-6, 208, 226, 258, 267, 275, 522-3.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Poema de Natal 2012



Quando um homem quiser - José Carlos Ary dos Santos

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

3 poemas de João-Maria Vilanova




Canção de Amanhecer Maio

Céu rente
escasso
e o xinguilar do vento
dorido
por entre as frestas.
Tal se cacimbo
pai ou irmão de longe
regressasse
teu marufo depões
em nossa mesa
tua oferenda.

**

Canção do Pequeno Discípulo

Chuva
deixa reaprender teu gesto
quando madrugada
os dedos tão de leve
sábia vinhas
batucar meu zinco.

Rola
deixa reaprender teu gesto
quando tarde estreita
a rouca tua voz certíssima
contrapontavas
na mulemba.

Noite
deixa reaprender teu gesto
quando calidamente
a veste tua única veste nos trazia
para com ela
amortalharmos a tristeza.
***

Canção com Sabor de Areia

Tempo
que na brisa partias
entre quintais de aduela
cajueiros
e o rugido distante
do mar
na calema

Onde o nocturno rumor
no capinzal
junto à linha?


João-Maria Vilanova, Poesia, Lisboa: Caminho, 2004, p.21, 32. 42.

sábado, dezembro 01, 2012

Poemas de José Saramago

 
 
Processo
 
As palavras mais simples, mais comuns,
As de trazer por caqsa e dar de troco,
Em língua doutro mundo se convertem:
Basta que, de sol, os olhos do poeta,
Rasando, as iluminem.
 
**
 
Epitáfio para Luís de Camões
 
Que sabemos de ti, se versos só deixaste,
Que lembrança ficou no mundo que tiveste?
Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos,
Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?
 
***
 
As palavras são novas: nascem quando
No ar as projectamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias.
 
Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.
 
****
 
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
 
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
 
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
*****
 
Regra
 
Tão pouco damos quando apenas muito
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
 
 
Os Poemas Possíveis, Lisboa: Caminho, 2011 (1966)), p.23, 36, 58, 84, 122


Forja

Quero branco o poema, e ruivo ardente
O metal duro da rima fragorosa,
Quero o corpo suado, incandescente,
Na bigorna sonora e corajosa,
E que a obra saída desta forja
Seja simples e fresca como a rosa.

**

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
  manhãs e madrugadas em que não precisamos de
  morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
  em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
  palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
  mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
  vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
  sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
  mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
  ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
  como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

***

Caminhámos sobre as águas como os deuses
E fomos deuses
Todo o arco do céu as nossas mãos traçaram,
e os traços lá ficaram.
Olhamos hoje a obra, cansados arquitectos:
Não são os nossos tectos.

Provavelmente Alegria, Lisboa: Caminho, 1999 (1970), p.20, 52, 71

domingo, novembro 18, 2012

3 poemas de António Borges Coelho



Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas

**

Quando a noite curva os ombros
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre

Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol

***

Balouça as folhas rústica a varrer
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios

que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste

dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água

curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos

António Borges Coelho, Ao Rés da Terra, Lisboa: Caminho, 2002, p.39, 60, 93.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Breve antologia da poesia de Mia Couto






Despedida


Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve


**

Viagem


O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
da minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos


***

Mãe com criança no colo


No lugar do corpo onde esperou
sua vida frutificar
vai agora afagando a imobilidade

Aconchegando o menino morto
ela prepara seu ventre
para o inverso parto:
da luz para o útero,
da dor para o nada

Pendentes,
os seios
imitam outonais folhas
de mais imutável estação

E só o chão se espanta
por restar uma água
para á tristeza
dar o último redondo ventre


****

Companheiros

quero escrever-me de homens
quero calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo-vos
a paciência dos rios
a idade dos livros que não se desfolham

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me às vezes viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris
 
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros


Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Lisboa: Caminho, 1999, p.23-4, 68, 70, 77-8
 
 
 
Sono coloquial
 
 
Da velhice
Sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nemidade nem cansaço.

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
 senso da poesia.
 
**
 
A Adiada Enchente
 
 
Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me  tornei  antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E  eu a esperei
como  um  rio  aguarda  a  cheia.
 
Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as paalvras.
 
Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.
 
***
 
Doença

O médico serenou Juca Poeira.
Que ele já não padecia da doença
que ali trouxera em tempos.
 
E o doutor disse o nome
da falecida enfermidade:
“Arritmia paroxística supra-ventricular”
 
Juca escutou, em silêncio,
com pesar de quem recebe condenação.
 
As mãos cruzadas no colo
diziam da resignada aceitação.
 
Por fim, venceu o pudor
e pediu ao médico
que lhe devolvesse a doença.
 
Que ele jamais tivera
nada tão belo em toda a sua vida.
 
****
 
Silvestre e o Idioma
 
Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.
 
Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.
 
Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.
 
É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.
 
Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebaptizara, vezes sem fim.
 
Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.
 
 
Mia Couto, Idades Cidades Divindades, Lisboa: Caminho, 2007, p.14, 22, 48, 68-9.
 
 
 
Ignorâncias Paternas
 
Altas horas,
já secos cuspos e copos,
meu pai dizia:
vou reparar o tecto.
 
E saía, para além da noite,
por interditos caminhos.
 
Minha mãe
retorcia a alma
nas magras mãos.
 
No peito, não no ventre,
a mãe vai gerando filhos.
 
Por trás dos cortinados,
seu olhar se desfiava
no longo rosário da espera.
 
Cegos para as suas fadigas
nós, os filhos,
pedíamos que nos alonjasse o medo.
 
E a vos dela acontecia
como inundação do rio:
lavando águas e tristezas.
 
Pobre do vosso pai, suspirava.
Que pena ela dele sentia
que, no escuro, em vão procurava.
 
A nossa casa, de tão alta,
não poderia nunca ter telhado.
 
Filhos deitados,
medos dormindo:
antes do meu pai regressar
já minha mãe
tinha reparado
as telhas todas do mundo.
 
**
 
A Coisa
 
O silêncio é o modo
como o marido habita a casa.

Vencida a porta, ao final do dia,
o homem assume porte e posses.
 
A mesa é onde os seus cotovelos
derramam milenares cansaços.

Nesse cotovelório
vai trocando vida por idade.

Partilha a medonhez dos bichos:
medo do silêncio,
mais pavor ainda das palavras.

Para a mulher,
porém, ele não é senão um menino
no aguardo de um agrado.

Em redor do silêncio
ele rodopia, sem voz, sem cheiro, sem rosto.

Em solidão,
o homem come,
merecedor do que lhe é servido.

Depois,
bebe como se fosse bebido,
tragado pelo vazio dos desertos.
 
Dono do seu despovoado,
entao, ele a agride, com ferocidade de bicho.
 
A mulher se estilhaça no soalho,
sombrio retrato da parede tombado.
 
No leito,
já servido o marido,
as lágrimas vão colando os seus fragmentos.
 
E a esposa volta a ser coisa.
 
***
 
A Casa
 
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
 
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
 
Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
 
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
 
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
 
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam. 
 
****
 
Sementeira

O poeta
faz agricultura às avessas:
numa única semente
planta a terra inteira.

Com lâmina de enxada
a palavra fere o tempo:
decepa o cordão umbilical
do que pode ser um chão nascente.

No final da lavoura
o poeta não tem conta para fechar:
ele só possui
o que não se pode colher.

Afinal,
não era a palavra que lhe faltava.

Era a vida que ele, nele, desconhecia.
 
Mia Couto, Tradutor de Chuvas, Lisboa: Caminho, p.10-1, 46-7, 60-1, 71.


duas perdas em outubro

A poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —


Manuel António Pina, Todas as Palavras, Lisboa: Assírio & Alvim, 2012, p.38
 
 
***
 
Procurarei, tanto quanto possível, não fazer muita literatura, da qual me acho afastado há muitos anos, desde os meus tempos de Faculdade de Direito, quando cometi alguns poemas, reunindo-os em livro, dividido em duas partes, de sonetos parnasianos e poemas modernistas, que tive o bom senso de não publicar.
Não escrevo mais poesia, o meu amior prazer, vício mesmo, é a leitura, a que me entrego muitas vezes horas a fio, neste tempo sem fim de Duas Pontes; é o consolo de uma triste vida, no meu escritório, longe de Sofia.
Farei todo esforço possível para ser objetivo, eu que sou dado aos vôos das divagações desnecessárias. É preciso silenciar o coração, que acredita ter muito a dizer, e procurar a objetividade que devem ter as coisas escritas, mesmo quando se descrevem, estados delirantes - nestes casos, devemos parar, registro numa releitura que fiz dos meus primeiros cadernos. Mas não posso esquecer que muitas vezes consideramos teorização o que é apenas devaneio erradio de uma alma angustiada.
 
Autran Dourado, Confissões de Narciso, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003, p.14-15

quinta-feira, novembro 01, 2012

3 poemas de Octavio Paz



Em Uxmal (fragmentos)

2. Meio-dia

A luz não pestaneja
o tempo esvazia-se de minutos,
um pássaro deteve-se no ar.

3. Mais tarde

A luz despenha-se,
as colunas acordam
e, sem se moverem, dançam.

4. Sol pleno

A hora é transparente:
se o pássaro é invisível, vemos
a cor do seu canto.

**

Nos jardins dos Lodi

No azul unânime
as cúpulas dos mausoléus
- negras. concentradas, pensativas -
rebentam subitamente
                                    em pássaros

***

Aldeia

As pedras são tempo
                                   O vento
séculos de vento
                           As árvores são tempo
as pessoas são pedras
                                    O vento
volta-se sobre si mesmo e enterra-se
no dia de pedra

Não há água mas os olhos brilham



Antologia Poética, Octavio Paz, Lisboa: D. Quixote, 1998: 46-7, 87, 98.

4 poemas de Tomas Tranströmer





Bilhete-Postal Negro

I
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
             acotovelam-se no cais.

II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
             é cosido em silêncio.

**

Segredos pelo Caminho

A luz do dia bateu no rosto de alguém que dormia.
E esse alguém teve um sonho com mais vivacidade,
ainda que sem acordar.

As trevas bateram na cara de alguém que ia andar
entre a multidão, sob os raios
impacientes e fortes do sol.

De repente escureceu, como quando cai uma bátega.
Eu encontrava-me num quarto com espaço patra todos os instantes -
a sala de um museu de borboletas.

Ali, porém, o sol brilhava tão intensamente como antes.
Os seus pincéis impacientes davam cor ao mundo.

***

Abril e o Silêncio

A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.

O que quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.

****

Retrato de Mulher - Século XIX

A sua voz é sufocada pelo vestido. O seu olhar
segue o gladiador. Depois, ela própria
está na arena. É uma mulher livre? Um moldura dourada
                                                        estrangula o retrato.

50 Poemas, Tomas Tranströmer, Lisboa, Relógio D’Água, 2012: p. 17, 25, 47, 109.

sexta-feira, julho 27, 2012

4 poemas de Carlos Wallenstein



Óleo sobre painel. Morning Mist, de Christa Eppinghaus-Johnston



AS MÃOS E A ROSA

(Relatório)

Na madrugada pardacenta
entre armações veleiras
no cais dos pescadores
era ainda o horizonte
coalhado de vagalumes

a Polícia Geral
surpreendeu
a existência clandestina
temerária
para mais parecendo apetecida
de duas mãos e uma rosa

Estes objectos
se passam a descrever:

Rosa sem qualificação particular
entre rosa e vermelho
pétalas semi-abertas
como a boca da detida
a quem pertencia uma das mãos em questão
A outra mão sombria
de pêlos lavrada
e veias atravessada
pertencia ao cidadão
por quem naquele instante
a detida era abraçada

As mãos possuíam a rosa
A rosa era possuída
As mãos mutuamente
possuíam as mãos
E cada pessoa
depois na prisão
se declarou possuidor
da mão que possuía a outra mão
que possuía a rosa

E cada um deles
com grande arrogância
se declarou possuidor
da pessoa do outro
no mesmo teor

em que o eram da rosa
através dum fenómeno
a que chamaram amor
Detiveram-se os três objectos
mas não havendo instrumento
para separar as mãos
dos corpos respectivos
prenderam-se os corpos também
e ainda bem
pois possuindo-se
mutuamente segundo a declaração
bem é que fiquem na prisão

pois todas estas posses
− tanta posse tanta posse −
se verificaram à margem
da Teoria da Tributação


****** Eu José Calcador
****** da Polícia Geral
****** de Sua Majestade Solar
****** El-Rei D. Nabucodonosor


****


Nada sou do que quis. Assim me quero
se é querer o osso que me foi
atirado; se crer no todo influi
desta paisagem desenhada em série.

Assim ou o contrário? Pondere-o
não eu mas quem o ponderar obriga
com metodologias de formiga
e trompas lautas de soar aéreo.

Tem como sou, assim me fui compondo
no desastre e engaste, na fateixa
manual do rapa tira põe e deixa,
eu de mim meu anzol e meu biombo.

Nem outro não ser dói ou me corrói.
Igual aos dois; herói/anti-herói.


****


A água do rio espelhou o teu rosto
e os teus seios, minha amada,
Quando te debruçste para beber
à sombra dos salgueiros

Na foz do rio espero eternamente
que as águas me tragam consigo
a tua imagem

***

Homenagem ao Único/Último

Alegre, alegre sim:
porém, morto


Carlos Wallenstein, Obras Completas. 1 Poesia, Salamandra: 1998:,p.77-9, 167, 205, 310

segunda-feira, julho 23, 2012

Assim são as algas, diz Albano Martins

uma seleção longa, bem sei, mas ainda assim incompleta, de um poeta que me agradou particularmente nestas primórdios de verão. gostei muito, dos poemas com pássaros e flores, dos haikus, das reflexões metapoéticas, das relações intertextuais com pinturas, desenhos e esculturas de diversas proveniências... Há já uma nova edição da sua poesia completa, muito mais extensa que esta que li, mas enfim, era a que havia comprado, mas aqui fica a referência à nova. E aqui alguns dos muitos poemas: 




Não forces a tua inspiração.
Deixa a poesia vir naturalmente
e não obrigues a mentir o coração.

Procura ser espontâneo,
A verdadeira beleza
está no que o homem tem de semelhante
com a natureza.

*

Descem as pálpebras sobre
o sono vigilante.

É preciso, amor,
dar um nome a esse instante.

**

À laranja não
se lhe tira a casca,
mas o coração.

**

Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.

***

A face contra a face. O pulso
contra o peito. A pérgola
do leme a pino e a prumo.

****

Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo - trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.
****

O verão deixa,
como herança, ao outono
um leque de folhas secas.

*****

Romãs; as últimas
brasas do incêndio
do verão.

*****

ÍDOLOS

São de barro, de fibra sintética e de barro, e de barro se diz também que alguns homens têm os pés. Aí reside, por isso, ao mesmo tempo, a sua força e a sua fragilidade. E são, como igualmente se diz, objectos profanos.
Não há diferença entre o profano e o sagrado, nomes inventados, como tantos outros, pelo homem, para iludir a sua ignorância e preencher o intervalo, a que alguns chamam vazio, que há entre a vida e a morte. Por isso os próprios ídolos, que apenas valem como imagens artificiais projectadas no espelho da arte e da vida, aí encontram, umas vezes, a sua força, outras, a sua fragilidade. São como deuses sentados à entrada da morte e velando o seu próprio cadáver.

*****

CIÊNCIA

O crescimento do homem pôde algumas vezes medir-se pelo comprimento ou altura das túnicas. O das mulheres sempre se mede pela roda das saias e dos seios. Ou pela altura das árvores e a fundura dos lagos que habitam no seu corpo.
******

MÁSCARA FUNERÁRIA
DE TUTANCÁMON

Solene, entre o relevo
das serpentes que lhe guardam
o viço constelado,
é apenas uma esfinge,
o seu perfil. O cinzel
que lhe esculpe o lume
e o marfim do rosto. Tem
o azul como estigma, e o brilho
jovem que lhe doura
a cabeça é só
o esplendor do tempo,
não o seu. Também
de azul e ouro
se tingem as tardes
de outubro e são elas
que trazem atrelado o carro
funerário onde se abrigam
as máscaras dos vivos. O rosto
duvidoso e incorpóreo
dos enigmas sem data.
****

Pequenas Coisas


Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.
***

COMPROMISSO

Pertence-te
ser homem, afirmar
todos os dias que tens
um compromisso: ser claro
e brando como a luz
e, como ela,
necessário. E não deixar
crescer à tua porta
ervas daninhas.

**

A MESMA CANÇÃO

A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

*

Indício

Quando alguém morre
apuras o ouvido
em busca dum indício.

Fecha depressa
a janela
antes que ouças
dizer
que é por ti
que os sinos dobram.


Assim São as Algas. poesia 1950-2000, Albano Martins, Campo das Letras: 2000, p.24, 57, 105, 142, 243, 245-6, 251, 259, 277, 278, 348, 408, 411, 412, 416

cinco poemas de Manuel António Pina

LUDWIG W. Em 1951

«As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem
                                                                           [que palavras?
E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma.»

***


Café do molhe


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
****

Uma prosa sobre os meus gatos


Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.





*****

Sétimo Dia


Voltámos, um a um, da tua morte
para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.
*****

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Manuel António Pina, Todas as Palavras. poesia reunida, Assírio & Alvim, 2012, p. 232-233, 240-241, 270-271, 288, 358

dois poemas de António Cândido Franco


Escultura de papel, por Sue Blackwell



VII


Ao céu regresso.
Quero dizer
à terra anoitecida
pelo amor.
Extasio-me
com a terrestre vida dos astros.
Passeio
por uma estrada de estrelas.
Isto é
uma estrada de flores sublimadas
pela noite.
Vou visitar um estábulo
em pleno universo.
Zodíaco.
Jardim zoológico astral.
Lá estão as constelações
irradiando o seu frio.
Quero dizer
os animais pela memória
desterrados.
Regresso à noite.
Piso a escuridão.
Olho o céu
como se a terra visse.
As estrelas são flores.
As constelações são animais.
O céu é um jardim
com um estábulo no meio.
Comem flores os animais da terra.
Mastigam estrelas os do céu.
O céu também é um chão
mas um chão feito de memória.
Estão lá os mitos.
Isto é
homens elevados
pela luz e pela palavra.
Pisam-se lá em cima astros
como em baixo
se pisam pedras.
No céu passo por mitos
e por ideias.
Estão lá poemas.
Quero dizer
coisas metaforizadas
por esta outra noite do mundo
íntima e secreta
que são as palavras.

****

17

Esforço-me por arrumar os pensamentos.

Antes não havia pássaros.
Era eu o pássaro.
Cantava
mas sem o saber.

Agora há pássaros.
Um pássaro sacudiu o corpo.
Acabei de o ver.
E acabei de por duas vezes
o ouvir cantar.
ainda o vejo e escuto
mas ele
prisioneiro do sia e da luz
não me vê.

Esse pássaro
está dentro da sua manhã de Primavera.
É um pássaro
tão alegre para mim
como tão triste é para ele.
Está tão livre e tão preso
como outrora eu estive
na minha infância
antes de nascer
quando cantava e não me ouvia
quando era mas não me via.

E foi preciso perder a minha infância
afastar-me tanto de casa
para que houvesse um pássaro à minha volta.

Quem é mais
ele ou eu?
Aquele que para nascer deixou de ser
ou aquele que continuou a ser para não ser?
Aquele que nem ser sabe
ou aquele que canta sem saber?

Quem devo escolher
aquele que alegria dá mais triste
ou o que tristeza dando conhece a alegria?

O que houve no haver sem ter havido
foi o que foi só feliz ou o que foi triste?


António Cândido Franco, Estâncias Reunidas 1977-2002, Edições Quasi: 2020, p.29-30, 148-149.




quarta-feira, maio 30, 2012

4 poemas de Vitorino Nemésio

Correspondência ao Mar

Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo:
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de polo a polo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim -
Que onde ele acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
Ao rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstracto e imenso:
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
É o golfo de todo o esquecimento
Na mínima lembrança que me deixas,

E a Rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração , lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.

***

26.
O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.
***




Poema de Outra Viagem ao Porto


Noite movida, meu corpo é uma hora antes
Caixa de sangue pronta a amplo socorro.
Eu vou como as manhãs e as sarjas aos doentes:
Sou eu mesmo que morro.
Falto como o menino à vida, escola de ermos.
Quem me dará meus anos, se os perdi?
Só Deus tem paz onde homens gume e fogo,
Do mais não resolvi.
Aqui lá de astro quem
Sobre as águas adusto,
Que nem vendo direi se cumpro ou rego flor?
Tu darás às palavras o que é delas
Como altura com vidros dá janelas
E amor é quando se tem.
Assim te reproduzes.
No redondo das rosas adianto
Como tempo é minha alma por jardim.
Agora não sei mais. Vou para o Porto
Timbre de honra é morar limpo no espanto.
Eu pessoalmente morto.

***

TUBO DE ENSAIO

Árvores do Canadá, uma por uma,
A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.

Poesias de Vitorino Nemésio, por Maria Madalena Gonçalves, Lisboa: Comunicação, 1983: p. 83-84, 97, 174, 184

domingo, abril 29, 2012

5 poemas de Cristovam Pavia




«Violiniste Bleu» (pormenor), Chagall

Poema(de uma fotografia de meu Pai comigo,
pequeno de meses, ao colo)


Vamos através do incêndio
Mas não temas, meu filho,
Podes dormir nos meus braços frescos e fortes,
Embala-te a cadência dos meus passos.

Vamos através do incêndio
E sonhas.
Detrás das tuas pálpebras a tarde
Beija e doira as folhas dos sobreiros.

E quase me esqueço
Deste puro fogo,
P'ra te dar frescura.
Arde o meu sangue calmo.
E o meu suor, arde.

E, devagar,
Vamos através do incêndio.

Dorme, meu filho.
***

O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.
****

Pequeno Poema

Em ti amadurece a vida como um vinho
Obscuro e raro...

Que mais queres?

*****

Que cada palavra trema dizendo
O que não pode ser dito.
E seja a poesia um violino de silêncio
Infinito.

E tu, poeta: vagabundo e despido,
Desprende-te do resto e deixa-os declamar
As vãs frases humanas. Não as ouças,
Vagabundo que passas cantando.

******

Construo a poesia como uma casa
Sem pressa e apenas com a pedra
Alheia. Duramente a construo.
Os meus versos ominados e compactos
Ligo-os com barro cor de sangue,
Amasso-os na água, mais pura do que as lágrimas.
Se comovo, é comoção não minha.
Se os meus versos são inúteis,
É inútil todo o trabalho.


Cristovam Pavia, Poesia, Lisboa: D. Quixote, 2010, p.33, 47, 143, 146, 172

3 poemas de José Alberto Mar



A Lei e a Liberdade

Não entendo essa ausência de rigor
dissipando a morte
no fundo insípido dos dias.

Seja o que for que haja pelo menos uma vez
um olhar grandioso
sobre o grandioso mundo
que uma mão se liberte libertando a imagem
e seja pássaro, ideia ou nuvem
ou apenas
um íntimo segredo abraçado à vida.

***

4

Cai sobre um rosto toda a luz de um dia.
E o rosto é um templo de máscaras
com a idade do mundo.

Nenhuma memória ou esquecimento separa o desejo
dessa luz primeira
que por dentro transforma os olhos
e é para estes que nos voltamos conquistados
sabendo que das máscaras inventadas
todas as sombras nos cativam
todas as sombras nos desmentem.

****

6.

Há lugares onde os silêncios são
outras palavras
mais perto dos simples segredos
do mundo. São lugares como rostos
suspensos por uma leveza nos olhares
e unidos ao sangue universal das vozes
distraidamente esquecidos no fim dos dicionários
por um talento feito de procura e êxtase.

José Alberto Mar, As Mãos e as Margens, Porto: Limiar, 1991, p.17, 38, 40

domingo, março 25, 2012

cinco poemas de Federico García Lorca



Flor

O magnífico salgueiro
da chuva caía.

Oh a lua redonda
sobre as ramagens brancas!

***

Despedida

Se eu morrer,
deixai a varanda aberta.

O menino come laranjas.
(Da minha varanda vejo-o.)

O ceifeiro ceifa o trigo.
(Da minha varanda sinto-o.)

Se eu morrer,
deixai a varanda aberta!

****

Alma Ausente


Não te conhece o touro ou a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino ou a tarde,
porque tu morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
nem o cetim negro onde tu destroças.
Não te conhece tua lembrança muda
porque tu morreste para sempre.

O Outono chegará com búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá olhar teus olhos
porque tu morreste para sempre.

Porque tu morreste para sempre,
como todos os mortos que há na Terra,
como todos os mortos que se esquecem,
num monte enorme de cães apagados.

Não te conhece ninguém. Não. porém, eu canto-te.
Canto para depois teu perfil e tua graça.
A madurez insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo a nascer, se nascer,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto sua elegância com palavras que gemem
e lembro uma brisa triste entre as oliveiras.


****

Poema Duplo do Lago de Éden
(A Eduardo Ugarte) :
        "O nosso gado pasta, o vento espira." — Garcilaso de la Vega
Era a minha voz antiga
ignorante dos densos sumos amargos.
Adivinho-a a lamber-me os pés
sob os frágeis fetos molhados.

Ai voz antiga do meu amor!
Ai voz da minha verdade!
Ai voz de minhas costas abertas,
quando todas as rosas me brotavam da língua
e a relva não conhecia a impassível dentadura do cavalo!

Estás aqui a beber meu sangue,
a beber meu humor de menino passado,
enquanto meus olhos se quebram no vento
com o alumínio e as vozes dos bêbados.

Deixar-me passar a porta
onde Eva come formigas
e onde Adão fecunda peixes deslumbrados.
Deixar-me passar, homenzinhos dos cornos,
o bosque dos espreguiçamentos
e dos saltos alegríssimos.

Eu sei o uso mais secreto
que tem um velho alfinete oxidado
e sei o horror de uns olhos acordados
sobre a superfície concreta do prato.

Mas não quero mundo nem sonho, voz divina,
quero a minha liberdade, meu amor humano
no recanto mais escuro da brisa que ninguém queira.
Meu amor humano!

Esses cães marinhos perseguem-se
e o vento espreita troncos descuidados.
Oh voz antiga, queima com tua língua
esta voz de lata e de talco!

Quero chorar porque me dá gana,
como choram os meninos do banco mais atrás,
porque não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha,
mas um pulso ferido que ronda as coisas do outro lado.

Quero chorar ao dizer o meu nome,
rosa, menino e abeto na margem deste lago,
para dizer minha verdade de homem de sangue
matando em mim a troça e a sugestão do vocábulo.

Não, não. Eu não pergunto, eu desejo.
Voz minha libertada que me lambes as mãos.
No labirinto de biombos é meu corpo nu o que recebe
a lua de castigo e o relógio sob a cinza.

Assim falava eu.
Assim falava quando Saturno parou os comboios
e a bruma e o Sonho e a Morte andavam a buscar-me.
Andavam a buscar-me
ali onde mugem as vacas que têm patinhas de pagem
e onde flutua meu corpo entre os equilíbrios contrários.


****

Madrigal à Cidade de Santiago

Chove em Santiago,
meu doce amor.
Camélia branca do ar,
nas trevas brilha o sol.

Chove em Santiago
na noite escura.
Ervas de prata e sono
cobrem a oca lua.

Olha a chuva na rua,
queixa de pedra e cristal.
Olha no vento desmaiado
sombra e cinza do teu mar.

Sombra e cinza do teu mar,
Santiago, longe do sol;
água de manhã antiga
treme no meu coração.



Federico García Lorca, Obra Poética, Lisboa: Relógio D'Água, 2007: 191, 207, 417, 471-3, 549

Para os amantes de poesia

Reconheço a tua voz
no lume das dunas
clara grave
com um leve travo amargo
entre as vogais

reconheço a tua voz
no tronco retorcido das árvores
simples
palavra a palavra dita

a tua voz é a floresta galeria
na terra vermelha do corpo.


(...)

Perdi as palavras
as dos poemas
e do silêncio

Paula Tavares, Manual para Amantes Desesperados, Lisboa: Caminho, 2007: 17, 30




(...)
sábia é a Criação:
escondeu uma estrela
no peito de um espantalho.

Adalberto Alves, No Vértice da Noite, Lisboa: Argusnauta, 2007:30


A Solidão

queres a alta solidão das estrelas e da flor?
deixa tudo e todos, segue o teu caminho,
escolhe a estrada de quem é sozinho,
não sejas mundano e despreza a dor.


A Verdade

a verdade? é sermos peões jogados
no xadrez de Alá, p'ra frente e para trás.
e depois acabarmos empurrados
para o cofre do Nada quando Lhe apraz.


O Futuro

sabes lá o que o futuro te vai dar!
sê, por isso, hoje feliz até mais não!
pega no copo, bebe, senta-te ao luar:
amanhã... talvez a lua te procure em vão.


poemas de Omar Khayyam recriados por Adalberto Alves, No Vértice da Noite, Lisboa: Argusnauta, 2007: 103, 104, 105

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

três poemas de Wisława Szymborska



Nada duas vezes

Duas vezes nada acontece
nem acontecerá. E assim sendo,
nascemos sem prática
e sem rotina vamos morrendo.

Nesta escola que é o mundo,
mesmo os piores
nunca repetirão
nenhum inverno, nenhum verão.

Os dias não podem ser repetidos,
não há duas noites iguais,
não há beijos parecidos,
não se troca o mesmo olhar.

Ontem, o teu nome
em voz alta pronunciado
foi como se uma rosa
me tivessem atirado.

Hoje, ao teu lado,
voltei a cara para a parede.
Rosa? O que é uma rosa?
Será flor? Talvez rocha?

Porque tu, ó má hora,
me trazes a vã tristeza?
Se és, tens de passar.
Passarás - e daí a tua beleza.

Abraçados, enlevados,
tentaremos vencer a mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas de água.


**
Parábola

Os Pescadores tiraram uma garrafa das profundezas.
Havia nela um papel que continha as seguintes palavras:
"Acudam! Estou aqui. O oceano atirou-me para uma ilha deserta. Estou junto à água à espera de ajuda. Depressa. Estou aqui!"
- Não traz data. Por certo já e tarde. A garrafa poderia ter andado à deriva por muito tempo - disse o primeiro pescador.
- E não indicou o lugar. O oceano, pode ser um qualquer - disse o segundo pescador.
- Não é por ser tarde nem longe. A ilha Aqui pode estar em qualquer parte - disse o terceiro pescador.
Sentiram embaraço, fez-se silêncio. Com as verdades universais, é sempre assim.

***

Impressões do teatro


Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar no campo de batalha,
o agitar das perucas e dos trajes,
o arrancar da faca do peito,
o tirar da corda do pescoço,
o dispor-se na fileira entre os vivos
de cara voltada para o público.

As vénias individuais e coletivas:
a mão branca sobre a ferida no peito,
o reverenciar da suicida,
o acenar da cabeça cortada.

As vénias aos pares:
a fúria dando o braço à brandura,
a vítima trocando um olhar doce com o carrasco,
o rebelde sem rancor acertando o passo com o tirano.

O pisar da eternidade com a biqueira da botina dourada.
O escorraçar da moral com a aba do chapéu.
A incorrigível prontidão de recomeçar amanhã.

A entrada em fila indiana dos mortos
nos actos terceiro, quarto e nos entreatos.
O milagroso retorno dos desaparecidos sem notícia.

Pensar que esperavam pacientemente nos bastidores,
sem tirarem as vestes,
sem limparem a maquilhagem,
comove-me mais do que as tiradas trágicas.

Porém, o mais sublime é o cair do pano
e o que se avista através da fresta minguante.
Aqui, uma mão apressa-se para chegar às flores,
acolá, uma outra apanha a espada caída.
Por fim, uma terceira mão invisível
cumpre o seu dever:
aperta-me a garganta.


Czesław Miłosz e Wisława Szymborska, Alguns Gostam de Poesia. Antologia, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2004:113, 135, 153

outras referências aqui.

Três poemas de Czesław Miłosz


Marta Minujin, Torre de Babel



Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.

**
Amor

Amor significa olharmo-nos
Como se olha as coisas não familiares,
Pois somos apenas uma entre milhares.
E quem assim se olha, mesmo sem saber,
De muitas mágoas o coração vai proteger.
E chama-no de antigo o pássaro e a árvore.

Então sim, quer desfrutar de si e de tudo
Para que tudo brilhe no clarão da plenitude.
E não importa não saber ao que servir,
Nem sempre serve melhor quem sabe.

***
Cardo, urtiga

(...) le chardon et la haute
Ortie et l'ennemie d'enfance belladonne

O. Miłosz


Cardo, urtiga, bardana, beladona
Têm futuro. Deles são os baldios,
Os trilhos enferrujados, o céu e o silêncio.

Quem serei eu para as gerações vindouras,
Quando depois da babel das línguas se premiar o silêncio?

Devia ter.me resgatado o dom de versejar,
Mas tenho de estar pronto para a terra não gramatical.

Com o cardo, a urtiga, a bardana, a beladona,
E sobre eles uma brisa, uma nuvem sonolenta, o silêncio.


Czesław Miłosz e Wisława Szymborska, Alguns Gostam de Poesia. Antologia, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2004:21, 25, 81.