domingo, março 25, 2012

cinco poemas de Federico García Lorca



Flor

O magnífico salgueiro
da chuva caía.

Oh a lua redonda
sobre as ramagens brancas!

***

Despedida

Se eu morrer,
deixai a varanda aberta.

O menino come laranjas.
(Da minha varanda vejo-o.)

O ceifeiro ceifa o trigo.
(Da minha varanda sinto-o.)

Se eu morrer,
deixai a varanda aberta!

****

Alma Ausente


Não te conhece o touro ou a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino ou a tarde,
porque tu morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
nem o cetim negro onde tu destroças.
Não te conhece tua lembrança muda
porque tu morreste para sempre.

O Outono chegará com búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá olhar teus olhos
porque tu morreste para sempre.

Porque tu morreste para sempre,
como todos os mortos que há na Terra,
como todos os mortos que se esquecem,
num monte enorme de cães apagados.

Não te conhece ninguém. Não. porém, eu canto-te.
Canto para depois teu perfil e tua graça.
A madurez insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo a nascer, se nascer,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto sua elegância com palavras que gemem
e lembro uma brisa triste entre as oliveiras.


****

Poema Duplo do Lago de Éden
(A Eduardo Ugarte) :
        "O nosso gado pasta, o vento espira." — Garcilaso de la Vega
Era a minha voz antiga
ignorante dos densos sumos amargos.
Adivinho-a a lamber-me os pés
sob os frágeis fetos molhados.

Ai voz antiga do meu amor!
Ai voz da minha verdade!
Ai voz de minhas costas abertas,
quando todas as rosas me brotavam da língua
e a relva não conhecia a impassível dentadura do cavalo!

Estás aqui a beber meu sangue,
a beber meu humor de menino passado,
enquanto meus olhos se quebram no vento
com o alumínio e as vozes dos bêbados.

Deixar-me passar a porta
onde Eva come formigas
e onde Adão fecunda peixes deslumbrados.
Deixar-me passar, homenzinhos dos cornos,
o bosque dos espreguiçamentos
e dos saltos alegríssimos.

Eu sei o uso mais secreto
que tem um velho alfinete oxidado
e sei o horror de uns olhos acordados
sobre a superfície concreta do prato.

Mas não quero mundo nem sonho, voz divina,
quero a minha liberdade, meu amor humano
no recanto mais escuro da brisa que ninguém queira.
Meu amor humano!

Esses cães marinhos perseguem-se
e o vento espreita troncos descuidados.
Oh voz antiga, queima com tua língua
esta voz de lata e de talco!

Quero chorar porque me dá gana,
como choram os meninos do banco mais atrás,
porque não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha,
mas um pulso ferido que ronda as coisas do outro lado.

Quero chorar ao dizer o meu nome,
rosa, menino e abeto na margem deste lago,
para dizer minha verdade de homem de sangue
matando em mim a troça e a sugestão do vocábulo.

Não, não. Eu não pergunto, eu desejo.
Voz minha libertada que me lambes as mãos.
No labirinto de biombos é meu corpo nu o que recebe
a lua de castigo e o relógio sob a cinza.

Assim falava eu.
Assim falava quando Saturno parou os comboios
e a bruma e o Sonho e a Morte andavam a buscar-me.
Andavam a buscar-me
ali onde mugem as vacas que têm patinhas de pagem
e onde flutua meu corpo entre os equilíbrios contrários.


****

Madrigal à Cidade de Santiago

Chove em Santiago,
meu doce amor.
Camélia branca do ar,
nas trevas brilha o sol.

Chove em Santiago
na noite escura.
Ervas de prata e sono
cobrem a oca lua.

Olha a chuva na rua,
queixa de pedra e cristal.
Olha no vento desmaiado
sombra e cinza do teu mar.

Sombra e cinza do teu mar,
Santiago, longe do sol;
água de manhã antiga
treme no meu coração.



Federico García Lorca, Obra Poética, Lisboa: Relógio D'Água, 2007: 191, 207, 417, 471-3, 549

Para os amantes de poesia

Reconheço a tua voz
no lume das dunas
clara grave
com um leve travo amargo
entre as vogais

reconheço a tua voz
no tronco retorcido das árvores
simples
palavra a palavra dita

a tua voz é a floresta galeria
na terra vermelha do corpo.


(...)

Perdi as palavras
as dos poemas
e do silêncio

Paula Tavares, Manual para Amantes Desesperados, Lisboa: Caminho, 2007: 17, 30




(...)
sábia é a Criação:
escondeu uma estrela
no peito de um espantalho.

Adalberto Alves, No Vértice da Noite, Lisboa: Argusnauta, 2007:30


A Solidão

queres a alta solidão das estrelas e da flor?
deixa tudo e todos, segue o teu caminho,
escolhe a estrada de quem é sozinho,
não sejas mundano e despreza a dor.


A Verdade

a verdade? é sermos peões jogados
no xadrez de Alá, p'ra frente e para trás.
e depois acabarmos empurrados
para o cofre do Nada quando Lhe apraz.


O Futuro

sabes lá o que o futuro te vai dar!
sê, por isso, hoje feliz até mais não!
pega no copo, bebe, senta-te ao luar:
amanhã... talvez a lua te procure em vão.


poemas de Omar Khayyam recriados por Adalberto Alves, No Vértice da Noite, Lisboa: Argusnauta, 2007: 103, 104, 105

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Desafio 2012 - 2

sem comentários excessivos, a não ser que me tenho divertido muito, mas também chorado, perdido a paciência ou perdido a noção do tempo. e pronto.

Livros:

12. O Doutor Jivago, Boris Pasternak, Público/Mil Folhas, 608p.****
13. Grandes Museus do Mundo, E-Ducation.IT/Portfolio, 150p.****
14. O Diário Gráfico em Braga, Eduardo Salavisa, Fundação Bracara Augusta, 104p.*****
15. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, Jonathan Safran Foer, Quetzal, 456p.*****
16. Pedro I, Manuel Poppe, Teorema, 104p.*****
17. Alguns gostam de poesia. Antologia, Cesław Miłosz e Wisława Szymborska, Cavalo de Ferro, 246p.*****
18. A Lenda de Despereaux, Kate DiCamillo, Gailivro, 288p.****(*)
19. O Mercador de Veneza, William Shakespeare, Cotovia, 180p.*****
20. Antídoto, José Luís Peixoto, Temas e Debates, 92p.***(*)
21. A Madona, Natália Correia, Público/Mil Folhas, 192p.****
22. Boneca de Luxo, Truman Capote, Público/Mil Folhas, 96p.***


Filmes:

26. Camino, Javier Fesser*****
27. Restless, Gus Van Sant****(*)
28. Gladiator, Ridley Scott (outrav vez, mas na versão alargada)*****
29. The Other Boleyn Girl, Justin Chadwick****
30. Kak ya provel etim letem, Aleksey Popogrebskiy****
31. Glitter, Vondie Curtis.Hall***
32. The Artist, Michel Hazanavicius*****
33. Wisegirls, David Anspaugh***(*)
34. The Bang Bang Club, Steven Silver*****
35. Elle S'Appelait Sarah, Gilles Paquet-Brenner*****
36. Jeux d'Enfants, Yann Samuell*****
37. Doctor Zhivago, David Lean****(*)
38. Puss in Boots, Chris Miller***(*)
39. Love Happens, Brandon Campo****
40. Jennifer's Body, Karym Kusama**(*)
41. Extremely Loud and Incredibly Close, Stephen Daldry*****
42. Capitães da Areia, Cecília Amado e Guy Gonçalves***(*)
43. Catch Me If You Can, Steven Spielberg****
44. Biutiful, Alejandro González Iñárritu****(*)
45. Funny People, Judd Apatow***
46. Última Parada 174, Bruno Barreto****
47. Hugo, Martin Scorsese****(*)
48. Scenes of a Sexual Nature, Ed Blum****(*)
49. Lie With Me, Clément Virgo**(*)
50. The Descendants, Alexander Payne****(*)
51. War Horse, Steven Spielberg****
52. The Woman in Black, James Watkins***(*)
53. Moneyball, Bennett Miller****
54. Eating Out, Q. Allan Brocka***
55. Eating Out 2: Sloppy Seconds, Phillip J. Bartell***
56. Eating Out 3: All you can eat, Glenn Gaylord**(*)
57. Eating Out 4: Drama Camp, Q. Allan Brocka**
58. Carnage, Roman Polanski*****

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

três poemas de Wisława Szymborska



Nada duas vezes

Duas vezes nada acontece
nem acontecerá. E assim sendo,
nascemos sem prática
e sem rotina vamos morrendo.

Nesta escola que é o mundo,
mesmo os piores
nunca repetirão
nenhum inverno, nenhum verão.

Os dias não podem ser repetidos,
não há duas noites iguais,
não há beijos parecidos,
não se troca o mesmo olhar.

Ontem, o teu nome
em voz alta pronunciado
foi como se uma rosa
me tivessem atirado.

Hoje, ao teu lado,
voltei a cara para a parede.
Rosa? O que é uma rosa?
Será flor? Talvez rocha?

Porque tu, ó má hora,
me trazes a vã tristeza?
Se és, tens de passar.
Passarás - e daí a tua beleza.

Abraçados, enlevados,
tentaremos vencer a mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas de água.


**
Parábola

Os Pescadores tiraram uma garrafa das profundezas.
Havia nela um papel que continha as seguintes palavras:
"Acudam! Estou aqui. O oceano atirou-me para uma ilha deserta. Estou junto à água à espera de ajuda. Depressa. Estou aqui!"
- Não traz data. Por certo já e tarde. A garrafa poderia ter andado à deriva por muito tempo - disse o primeiro pescador.
- E não indicou o lugar. O oceano, pode ser um qualquer - disse o segundo pescador.
- Não é por ser tarde nem longe. A ilha Aqui pode estar em qualquer parte - disse o terceiro pescador.
Sentiram embaraço, fez-se silêncio. Com as verdades universais, é sempre assim.

***

Impressões do teatro


Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar no campo de batalha,
o agitar das perucas e dos trajes,
o arrancar da faca do peito,
o tirar da corda do pescoço,
o dispor-se na fileira entre os vivos
de cara voltada para o público.

As vénias individuais e coletivas:
a mão branca sobre a ferida no peito,
o reverenciar da suicida,
o acenar da cabeça cortada.

As vénias aos pares:
a fúria dando o braço à brandura,
a vítima trocando um olhar doce com o carrasco,
o rebelde sem rancor acertando o passo com o tirano.

O pisar da eternidade com a biqueira da botina dourada.
O escorraçar da moral com a aba do chapéu.
A incorrigível prontidão de recomeçar amanhã.

A entrada em fila indiana dos mortos
nos actos terceiro, quarto e nos entreatos.
O milagroso retorno dos desaparecidos sem notícia.

Pensar que esperavam pacientemente nos bastidores,
sem tirarem as vestes,
sem limparem a maquilhagem,
comove-me mais do que as tiradas trágicas.

Porém, o mais sublime é o cair do pano
e o que se avista através da fresta minguante.
Aqui, uma mão apressa-se para chegar às flores,
acolá, uma outra apanha a espada caída.
Por fim, uma terceira mão invisível
cumpre o seu dever:
aperta-me a garganta.


Czesław Miłosz e Wisława Szymborska, Alguns Gostam de Poesia. Antologia, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2004:113, 135, 153

outras referências aqui.

Três poemas de Czesław Miłosz


Marta Minujin, Torre de Babel



Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.

**
Amor

Amor significa olharmo-nos
Como se olha as coisas não familiares,
Pois somos apenas uma entre milhares.
E quem assim se olha, mesmo sem saber,
De muitas mágoas o coração vai proteger.
E chama-no de antigo o pássaro e a árvore.

Então sim, quer desfrutar de si e de tudo
Para que tudo brilhe no clarão da plenitude.
E não importa não saber ao que servir,
Nem sempre serve melhor quem sabe.

***
Cardo, urtiga

(...) le chardon et la haute
Ortie et l'ennemie d'enfance belladonne

O. Miłosz


Cardo, urtiga, bardana, beladona
Têm futuro. Deles são os baldios,
Os trilhos enferrujados, o céu e o silêncio.

Quem serei eu para as gerações vindouras,
Quando depois da babel das línguas se premiar o silêncio?

Devia ter.me resgatado o dom de versejar,
Mas tenho de estar pronto para a terra não gramatical.

Com o cardo, a urtiga, a bardana, a beladona,
E sobre eles uma brisa, uma nuvem sonolenta, o silêncio.


Czesław Miłosz e Wisława Szymborska, Alguns Gostam de Poesia. Antologia, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2004:21, 25, 81.

domingo, fevereiro 12, 2012

Whitney Houston. 1963-2012

as canções que, por diferentes motivos, mais gosto de Whitney Houston - longe daqueles grandes clássicos que a maioria escolheria, as canções de amor que a tornaram conhecida. A primeira é, no entanto, uma escolha óbvia: vencedora de um Óscar, as duas vozes femininas dos anos noventa juntas, numa canção belíssima do filme »O Príncipe do Egito»; a segunda, também de um filme, sempre me agradou pelo que de soul existe nela e como facilmente se constrói; a terceira também,além do que traz do amor pela filha. e pronto, aqui ficam, em forma de homenagem:



Mariah Carey e Whitney Houston, «When you Believe», 1998


«Exhale (Shoop Shoop)», 1995


«My love ir your love», 1998


sábado, fevereiro 11, 2012

dois poemas do Doutor Jivago


Hamlet (de  Franco Zeffirelli, com Mel Gibson)

Hamlet

Extinguiu-se o sussurro. Entrei em cena.
Junto à ombreira da porta,
vou surpreendendo no eco longínquo
o quanto a vida me destina.

Uma obscuridade noturna me destaca
frente a milhares de olhos.
Se for possível, pai,
afasta de mim este cálice.

Respeito o teu obstinado desígnio
e representarei em concordância esse papel.
Está-se porém a dar agora um outro drama
e desta vez, pelo menos, peço renúncia.

Mas a ordem dos atos está já fixada.
Fatal o rumo, fatal o fim.
Em meu redor só há hipocrisia. Sinto-me só.
Viver não é simplesmente atravessar um campo.

***

Março

O Sol empapa as gentes de suor
e o barranco agita-se abrasador.
Como o de uma vigorosa pastora
na primavera o labor escalda as mãos.

Desfalece a neve, enferma de anemia,
em ramificações de debilitadas veias azuladas.
Mas vibra de vida o estábulo
e espelham saúde os dentes das forquilhas.

Oh, estas noites, estes dias e estas noites!
O tamborilar das gotas a meio do dia,
pedacinhos de gelo a fundirem-se nos telhados,
chilreio de arroios que não dormem!

Tudo escancarado, a colheita e o estábulo.
Na neve as pombas debicam a aveia
e, de tudo o que é vivificante e reconhecível,
aromatiza o fresco ar o estrume.


Boris Pasternak, O Doutor Jivago, Público/Mil Folhas, 2002: 551, 553

sábado, fevereiro 04, 2012

gatos


Perante a beleza

O gato não é um simples animal
é um pedaço de Deus mas mais divino
sem aquelas horrendas histórias de incestos
dilúvios punições e outras derivações.
O gato não come nem bebe
ele apenas ingere para não ser notado
pois da última vez que o não fez acharam-no o Diabo
ou que ajudava as bruxas nos seus afazeres.
Quando anda pelos telhados quentes
é um bailado com uma música que só ele escuta
as ondas vêm e vão como num oceano
mas elas são quentes e terminam em garras.
O gato não morre mesmo depois das suas sete vidas
vai para o paraíso rasgar sofás e miar à Lua
e de vez em quando é visível nos raios de Sol
que nos batem no rosto e então
temos de fechar os olhos.

****


Em Roma, os gatos são múltiplos e têm um templo.
Lá, todos lhes levam alimentos como antiga oferenda.
Desconfio que são os deuses todos em forma visível.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Wisława Szymborska (1923-2012)



Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

in Alguns gostam de poesia. Antologia. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2004: 215
outro poema aqui.

domingo, janeiro 29, 2012

Desafio 2012 - 1

um homem de desafios não tem medo e não se deixa ir pelos três anos anteriores. muito há ainda por ler e ver nas minhas estantes, pelo que, mais uma vez, me preparo para atingir momentos históricos - não apenas numéricos, que isso pouco me importa, já me provei que consigo ver e ler mesmo muita coisa, mas históricos no sentido de acordos, tréguas, reconciliações com obras que me esperam há anos e que, pelos mais diversos motivos, iam sendo relegadas para tempos que afinal eram os de 2012. coleção Mil Folhas, do «Público», Jorge Luís Borges, Mia Couto e Ondjaki, Flaubert, as Marguerites, e outros, terão seu lugar este ano - bem como os filmes e as séries pendentes. e vai ser bom, pois então!

Livros:


1. No Meu Peito Não Cabem Pássaros, Nuno Camarneiro, D. Quixote, 190p.****(*)
2. Eu, O Povo, Mutimati Barnabé João, BI, 96p.***
3. A Lua e as Fogueiras, Cesare Pavese, Público/Mil Folhas, 160p.**(*)
4. Afirma Pereira, Antonio Tabucchi, Público/Mil Folhas, 160p.*****
5. O Caso Morel, Ruben Fonseca, Público/Mil Folhas, 190p.***
6. Os Mensageiros Secundários, Clara Pinto Correia, Público/Mil Folhas, 320p.****(*)
7. Vento, cordas do violino verde, Luís Ferreira Oliveira, TUM, 48p.**
8. A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias, Antígona, Tim Burton, 128p.*****
9. Poesia Reunida, João Luís Barreto Guimarães, Quetzal, 326p.*****
10. Tudo o que poderíamos ter sido tu e eu se não fôssemos tu e eu, Albert Espinosa, Arcádia, 208p.*****
11. Amo-te em todas as Línguas, Cátia Santos, Chá das Cinco, 160p.****

Filmes:

1. La Ley del Deseo, Pedro Almodóvar***(*)
2. Mujeres al borde de un ataque de nervios, Pedro Almodóvar*****
3. Carne Trémula, Pedro Almodóvar****
4. Abrazos Rotos, Pedro Almodóvar*****
5. Volver, Pedro Almodóvar*****
6. Kika, Pedro Almodóvar****(*)
7. Átame!, Pedro Almodóvar****
8. Contagion, Steven Soderberg***
9. Final Destination, Steven Quale***
10. Incendies, Denb Villeneuve****(*)
11. The Future, Miranda July**(*)
12. What's Your Number, Mark Mylod****
13. Rachel Getting Married, Jonathan Demme****
14. También la Lluvia, Icíar Bollaín****
15. The Princesse and the Frog, Ron Clemments e John Musker****
16. My Bloody Valentine, Patrick Lussier***(*)
17. Miss March, Zack Cregger e Trevor Moore***
18. The International, Tom Tykwer***(*)
19. Inside Man, Spike Lee**(*)
20. Diario de una ninfómana, Christian Molina***
21. Perfect Sense, David Mackenzie*****
22. Morrer como um Homem, João Pedro Rodrigues**(*)
23. Habemus Papam, Nanni Moretti****(*)
24. Immortals, Taroem Singh****
25. Tinker Tailor Soldier Spy, Tomas Alfredson***


outros:
Auto da Barca do Inferno, mais uma vez, pela companhia Teatro Arte d'Encantar.
American Horror Story, com Dylan McDermott, Connie Britton, Even Peters e Taissa Formiga, entre outros. Gostei, mas ao longo da temporada foi-se perdendo...****
Diversão em Paris, na Casa da Música, peças de Berlioz, Debussy, Gounod, Offecbach, Waldteufel sob a direção de José Luis Gomez. Ótima audiência de jovens ouvintes e excelentes comentários ;)

sábado, janeiro 21, 2012

poetas que vão

Rui Costa, de quem pouco lera, mas com quem tinha trocado até uns emails com indicações de uns textos meus que iriam sair numa antologia sobre micro-ficção que ele estava a organizar, foi encontrado numa forma que já não a nossa. É sempre um instante de cegueira a morte de um poeta.

Autobiografia
Não preciso mas tu sabes como eu sou
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos – ,
Ceifando. Saturno.e.o.vento.na.proa.erguendo.
O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.
Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã.

Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Edições Quasi

5 poemas de João Luís Barreto Guimarães



apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia: acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentir os movimentos e escrever a uma

amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.

vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim
mesmo confundir todos os relógios da rota só
apenas para ter mais tempo para ficar. o resto é saber

o alfabeto de cor até ao fim para que as palavras vão
nascendo devagar até ser sonho no sono dos dias
ou ser sono dentro de mim

***

um gato assim era quase um sítio perdido entre
o pelo e o acordar pequena fábula sonhada por
entre as patas quem o enviou quis ensinar ao

mundo o sentimento da inveja. a mãe tirava da
boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia
na hora a que chegava das sete vidas paralelas.
um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo

sem se despedir ou pagar o que levou:
a coleira nova e o guizo ................... 150$00
duas latas de comida ...................... 395$00
um saco de areia higiénica ............... 200$00

dá notícias pedaço de deus se acordares desse
intrigante sono repousando de (qual?) cansaço
que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?


****

deixar assim como que por mistério as
mãos tomarem o atalho do coração como
se os olhos fossem sábios para isso e
nada menos que tudo exigíssemos: sermos

eremitas nos nossos próprios sentimentos
(rasgar desenhos do pôr do sol com um
arpão no coração) e mesmo o céu: trazê-lo

sempre azul sempre muito mais azul. é
dessa cor perfeita que falo por imagens
de dentro é esse o lugar onde as rochas
são grãos de areia no tempo. o pescador

sempre regressa (mil viagens passadas)
para pousar os sentidso e medir rumos
pelo pulso das dunas no coração

****

9 de novembro

O vendedor de castanhas quer duzentos pela dúzia. Embrulha-as de amarelo se a compra é feminina, em folhas telefónicas brancas se quem as descasca é rapaz.
A gata escapa do frio e entra pelo Café. Aproveita o caixilho para afagar todo o pelo, do focinho à cauda ao focinho. Deixa-se ficar ali, circulando entre as mesas, atenta à pressa das mãos que celebram o outono com migalhas já maduras.
O letreiro à entrada diz que bicho algum pode entrar. O mais certo é que a gata ainda não saiba ler.

***

A noite passada enviei um SMS ao meu Pai
mas ele não respondeu. Já kontava kom issu. O
corpo dele baixou faz
outro mês amanhã
nenhum de nós destinou o Sony Ericsson dele
ao rectângulo do caixão. Era
de um género antigo (outrossim
muito estimado)
algumas horas ligado mesmo sem conversação
começava a avisar: bateria esgotada.
Duvido porém que a rede fosse boa
lá no fundo.
Quando descia aos arrumos era o que acontecia.
Sucede que agora se quero falar com ele
tenho de ligar a Deus. E eu não falo com Ele.
Não quero ter de calar (olhando-O
olhos nos Olhos:)
«uma morte nunca é justa»
«foi demasiado cedo» «já agora
passe aí a meu Pai».
Já tenho ligado para Deus
parece dar sempre ocupado.


João Luís Barreto Guimarães, Poesia Reunida, Lisboa: Quetzal, 2011: 31, 53, 89, 112, 274

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Desafio: 12

E assim se chega ao fim de mais um ano e de um desafio, e logo se começará um ano novo e um novo desafio. Em setembro deste ano repensei-o o desafio do ano, já que os valores de 100 livros e de 200 filmes tinham sido já alcançados nesse nono mês, e ultrapassados. Assim, foi investir para que se acrescentasse, a cada um deles, a sua própria metade. 150 livros - dos quais, este mês, se destacam 0 139, o 146, o 147 e 0 150. 300 filmes, além das séries (que não contabilizo), com boas surpresas e alguns de exceção, como 271, 293, 297, entre outros. Referência ainda para mais uma peça de teatro, Último Ato, no Theatro Circo, que, simplesmente, abominei - a últimas das 16 peças a que assisti este ano (a que se juntam 7 concertos ou espetáculos de dança).

Bons números, que se espera que se mantenham em 2012. Quanto aos livros, não tenho fé em 150, até porque o desafio que me lanço é ler os 53 de 104 livros da coleção Mil Folhas/Público, a coleção que comecei a fazer e a ler aos poucos ainda em 2002 - 10 anos depois é hora de os devorar. Além disso, e entremados com outros livros que se insinuem mais, a obra completa em seis volumes de Jorge Luís Borges - vai ser este ano, finalmente. Mas também gostava de ler livros pendentes de Luísa Dacosta, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Guy de Maupassant, Italo Calvino, Aquilino Ribeiro, muita poesia... enfim, letras a mais! Filmes, tudo o que vier é bom, embora tenha ainda algumas séries à espera...

Aqui ficam as propostas deste mês:



Livros:

137. Encenar é Viver, Margarida Lobato Costa, Chiado Editora, 70p.*
138. Nunca é Velha a Esperança…, António Cardoso, Ulmeiro, 136p.**(*)
139. As Obras-Primas de T. S. Spivet, Reif Larsen, Presença, 386p.*****
140. O Soar dos Quissanges, Eugénia Neto, Presença, 112p.***
141. Poemas ao Vento, António Alberto Neto, Kiazele, 110p.*
142. Não posso adiar a palavra, Hélder Proença, Sá da Costa, 92p.***(*)
143. A Estrela dos Amantes, Philippe Sollers, Teorema, 152p.***
144. O Silêncio da Água, José Saramago, Caminho, 24p.****
145. Alice do Outro Lado do Espelho, Lewis Carroll, BI, 160p.****
146. A Estrela de Gonçalo Enes, Rosa Lobato de Faria, Quasi, 224p.*****
147. O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne, LeYa, 192p.*****
148. O Príncipe do Mar, Adolfo Simões Muller, LeYa, 160p.****
149. O Papalagui, Tuiavii de Tiavéa, Antígona, 144p.****
150. A minha palavra favorita, Jorge Reis-Sá, Centro Atlântico, 400p.****(*)


Filmes:

271. Les Petits Mouchoirs, Guilhaume Canet*****

272. Copie Conforme, Abbas Kiarostami****
273. Eat Pray Love, Ryan Murphy****
274. When in Rome, Mark Steven Johnson***(*)
275. Lost Colony - The Legend of Roanoke, Matt Godd**(*)
276. Potiche, François Ozon****(*)
277. Sharktopus, Declan O'Brien*
278. Highlander: The Source, Brett Leonard***
279. Tomorrow, When the War Began, Stuart Beattie****
280. The American, Anton Corbijn***(*)
281. Green Lantern, Martin Campbell****
282. Trespass, Joel Schumacher***(*)
283. The Sourcer's Apprentice, Jon Turtelbaut***(*)
284. Burlesque, Steve Antin****
285. The Holiday, Nancy Meyers****
286. Captain America: The First Avenger, Joe Johnston***
287. The Last Song, Julie Anne Robinson***(*)
288. The Green Hornet, Michel Gondry****(*)
289. Sucker Punch, Zack Snyder****
290. Inversão, Edu Felistoque**
291. The Losers, Sylvain White***
292. Loong Boome Raleuk Chat, Apichatpong Weerasethalcul***(*)
293. The Help, Tate Taylor*****
294. Dream House, Jil Sheridan***(*)
295. A Christmas Carol, Robert Semeckis***(*)
296. Enter The Void, Gaspar Noé**(*)
297. Patagonia, Marc Evans*****
298. Ask Tesadyfleri Sever, Omer Faruk Sorak*****
299. The Ides of March, George Clooney*****
300. Another Year, Mike Leigh****(*)

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Poemas Africanos dos livros lidos este mês



Flache Poético II

Beijo sinceramente a noite
sinto o chilrear sinfónico dos pássaros
na ânsia fértil de possuir
a manhã prata-inicial

Oiço risos abertos
linearmente tecidos de luzes infantis
sobre o ébano movimento das ondas

Entendo a paixão ardente do luar
abraço as buganvílias pálidas
sem cheiro
mortas sobre teus braços traiçoeiros querida!


Hélder Proença, Não posso adiar a palavra, Lisboa, Sá da Costa, 1982:53



Que Lata...

Os fornos crematórios agiram sobre Judeus
A política da terra queimada ceifou Argelinos
Angolanos
Vietnamitas
Chineses
Moçambicanos
Guineenses
Latino-americanos
A política de violência da ganância ceifou a vida
de outros povos
Essa é a história real da Humanidade
Porque não pedem perdão?
Porque ainda continuam dizendo que esses povos oprimidos
ainda não têm história!

António Alberto Neto, Poemas ao Vento, Luanda, Kiazele, 2009:61


Senhor do Universo

Ficas aí mudo
surdo
como se nada
estivesse a acontecer

Os gritos de dor
o choro dos homens
o estrondo dos canhões
as labaredas
e a terra ensopada de sangue
não te dizem nada!?

Ah! Senhor
nesse Olimpo
de estrelas
deixaste-te ultrapassar
pelo tempo
numa velhice senil
de abandono.

Eugénia Neto, O Soar dos Quissanges, Lisboa; Editorial Presença, 2003:44


Onde moras, que tardas?!

Se te penso defendo-me do frio
Das noites. E não ouso repetir
Teu nome, pois logo me nasce rio
Vulcânico nas veias, e este sentir-

-me doído e apunhalado se desfaz
Qual mansa onda na praia imaginada.
Tudo em ti está no vento que me traz
Força para viver ou desesperada

Impotência de já morto me ver...
Bem sei és só sonho... e demais demoras
A vir. (Virás?) Mas, se por te saber

Fumo no cérebro, já me devoras,
Oh, louco sonho!, poderei morrer
Se por acaso souber onde moras!...

António Cardoso, Nunca é Velha A Esperança..., Lisboa: Ulmeiro, 1980:48

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Poema de Natal 2011


Puer Natus Est Nobis


Dos contos de fadas da
minha infância, este da Divina
Criança era dos mais extraordinários. Não
faltaram os exóticos magos guiados
pela mística estrela, a noite gelada, os
mansos animais, o desvalido ermo, a pobreza
transformada em glória. O bem
sucedido parto de uma virgem, tantos séculos
antes das pesquisas genéticas. O pior
foi quando quiseram contar o Tempo
a partir desta história. Podiam ter escolhido
outra, com um fim menos cruel. Antes
a da Cinderela ou a do Princípe Sapo, onde
todos viveram delizes para sempre. Sempre?
E o que é?


Sempre?

Inês Lourenço, in: Natal... Natais. Oito Séculos de Poesia sobre o Natal. Antologia de Vasco Graça Moura, Público, 2005:339.

terça-feira, dezembro 13, 2011

Natal 2011



Mariah Carey, «God Rest Ye Merry, Gentlemen»

Pois bem, como no Natal o que mais recebo são livros mesmo, cá fica a listinha daqueles livros que eu gostava de ter, mas, pelos mais diversos motivos, ainda não me vieram ter à mão. Sim, a lista já foi maior, e tem decrescido a olhos vistos, já que tenho comprado resmas deles. Mesmo sendo difíceis de encontrar (alguns deles só mesmo em alfarrabistas), aí ficam eles:

A casa do pó, Fernando Campos
A criança em ruínas, J. L. Peixoto
A desordem do teu nome, Juan José Millás
A Filosofia Africana na Linha do Tempo, Muanamosi Matumona
A Lenda dos Homens do Vento II, Fernando Fonseca Santos
A Mão de Fátima, Eduardo Falcones
A Pátria dos Loucos, Bernardo Rodo
A Perspectiva da Morte, Assírio & Alvim
A Terceira Metade, Ruy Duarte de Carvalho
As Paisagens Propícias, Ruy Duarte de Carvalho
Coração, cabeça e estômago, Camilo Castelo Branco
Livro do Amigo e do Amado, Ramon Llull
Livros Textos Leituras, Alberto Carvalho
O amor de Pedro por João, Tabajara Ruas
O Cemitério de Praga, Umberto Eco
O livro do riso e do esquecimento, Milan Kundera
O mercador de Veneza, Shakespeare (cotovia)
O sorriso etrusco, José Luis Sampedro
Ofício Cantante, Herberto Helder, Assírio & Alvim
Os Rios Inumeráveis, Álvaro Cardoso Gomes
Peregrinação de Enmanuel Jhesus, P. Rosa Mendes
Poemas, A. Franco Alexandre, Assírio & Alvim
Poesia Reunida, Manuel António Pina, Assírio & Alvim
Relato de um Certo Oriente, Milton Hatoum
Substâncias Perigosas, Pedro Eiras
Teatro, Bernardo Carvalho
Um homem popular, Chinua Achebe
Uma vida de Boy, Ferdinand Oyono
Zona, Mathias Énard

A Guerra dos Tronos, volumes 8, 9 e 10.

Quase impossíveis:
Gulbenkian:
História e Antologia da Literatura Portuguesa (5 vols)
Gramática do Português Antigo
Estética Teatral
Literaturas Africanas

Mil Folhas (ou noutra edição qualquer):
74. O Cônsul Honorário, Graham Greene
77. Big Sur, Jack Kerouac
79. O cheiro da noite, Andrea Camilleri

Unibolso:
24, 56, 57, 69, 72, 89, 94, 111, 113.

RTP:
2, 10, 11, 16, 23, 27, 38, 40, 44, 46, 51, 54, 55, 63, 65, 66, 70, 74, 75, 79, 81, 88, 90, 91, 92, 95, 99.

Grandes Génios da Literatura:
O moinho à beira do rio, George Elio
Moby Dick, Herman Melville


Coleção Grande Sol: O Rapaz do Bairro de Carvão

Coleção Vozes de África: n.º 4, 5, 12, 16, 18, 20, 21.

«Ficções»: n.º 1, 2, Férias, 5, Comer, Humor, Filmes, 12, 14, 16

quarta-feira, novembro 30, 2011

um poema de Flora Osório




Minha colega de trabalho e amiga das aventuras africanas e literárias, vai comigo ao teatro às vezes ;)


Inquietação

Às vezes quero estar bem
por entre imagens e metáforas.
Longe da realidade,
refugio-me a pensar.
Mas quando começo a escrever,
tudo me inquieta
na caligrafia do poema!


Flora Osório, Dos Sons de África aos Sons do Meu Sentir, AEAS, p.43

A Pátria dentro da Pátria



Nasci no Porto. A cidade, os seus arredores, as praias próximas, descendo para o sul, permanecem para mim a pátria dentro da pátria, a Terra materna, o lugar primordial que me funda.


Ali estão as tílias enormes, as manhãs de nevoeiro, as praias saturadas de maresia, os rochedos cobertos de algas e anémonas, as primaveras botticellianas, os plátanos, a cerejeira, as camélias.


Ali o rio, as casas em cascata, os barcos deslizando rente à rua nas tardes cor de frio do Inverno.


Ali o cais, a Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo para o labirinto do fundo do mar da cidade. E, aqui e além, um rosto emergindo do fundo do mar da vida.


Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece.


Porque ali é o lugar onde para mim começaram todos os maravilhamentos e todas as angústias.


Cidade onde sonhei cidades distantes, cidade que habitei e percorri na ilimitada disponibilidade interior da adolescência.


Descia pelo Campo Alegre, passava a Igreja de Lordelo, seguia entre muros de jardins fechados.


Através das grades de ferro dos portões viam-se rododendros, buxos, cameleiras.


Depois surgia um rio e ao longo do rio eu caminhava sobre os cais de pedra, até à barra, até aos rochedos onde se espraiam as ondas.


Histórias de naufrágios, de barcos perdidos, de navios encalhados. Por isso nas noites de temporal se rezava pelos pescadores. Ouvia-se ao longe o tumulto do mar onde navegavam os pequenos barcos da Aguda tentando chegar à praia. Quando a trovoada estava próxima, a luz apagava-se. Então se acendiam velas e se rezava a Magnífica. (…)


Porque nasci no Porto sei o nome das flores e das árvores e não escapo a um certo bairrismo. Mas escapei ao provincianismo da capital.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Eugénio de Andrade,
Daqui Houve Nome Portugal, Antologia de verso e prosa sobre o Porto

Deafio: 11

Em bom ritmo, com boas companhias, o desafio vai-se cumprindo e as sugestões multiplicando. Da descoberta real de (Ana) Paula Tavares e de Joseph Conrad, passando pela belíssima edição de Daqui Houve Nome Portugal, até chegar aos belíssimos livros entre a ficção, o policial e a realidade dos escritores em produções de Manguel e Verissimo, houve tempo para boas leituras (algumas opiniões começam a ser apresentadas aqui). E bons filmes também, de que destaco alguns que me parecem mesmo muito bons, como: Barney's Version, Begginners (com uns irrepreensíveis Ewan McGregor e Christopher Plummer e um cão de que, finalmente, gostei), e ainda La Piel que Habito e Another Earth, que têm um ou outro pormenor de que não gostei tanto, mas muito bons também. Destaque ainda para a curta-metragem Dragons: Gift of the Night Fury, uma espécie de história com sabor natalício a partir do meu filme de animação favorito, How to train your dragon.
O desafio segue a todo o vapor, já dó faltam 14 livros e 30 filmes ;)


Livros:

123. A Cabeça de Salomé, Ana Paula Tavares, Caminho, 144p.****
124. O Lago da Lua, Paula Tavares, Caminho, 56p.***(*)
125. Dizes-me coisas amargas como os frutos, Paula Tavares, Caminho, 48p.***
126. Histórias Inquietas, Joseph Conrad, BI, 192p.***
127. O Coração das Trevas, Joseph Conrad, Visão, 96p.****
128. Juventude, Joseph Conrad, Quasi, 96p.***(*)
129. Linha de Sombra, Joseph Conrad, Público/Mil Folhas, 160p.****(*)
130. Daqui Houve Nome Portugal, org. Eugénio de Andrade, O Oiro do Dia, 294p.*****
131. O Túnel, Ernesto Sábato, Relógio D’Água, 144p.***
132. Dos Sons de África aos Sons do meu Sentir, Flora Osório, AEAS, 88p.***(*)
133. O Romance das Ilhas Encantadas, Jaime Cortesão, Vega, 52p.****
134. Borges e os orangotangos eternos, Luís Fernando Verissimo, Asa, 144p.*****
135. Stevenson sob as palmeiras, Alberto Manguel, Asa, 80p.****
136. A revolução eletrónica, William Burroughs, Vega, 96p.***


Filmes:

241. My Blueberry Nights, Kar Wai Wong****
242. Barney's Version, Richard Lewis*****
243. Humpday, Lynn Shelton***
244. Homme au Bain, Chistophe Honoré**
245. Paranormal Activity, Oren Peli**(*)
246. A Corte do Norte, João Botelho****(*)
247. 2012, Roland Emmerich***(*)
248. Don't be Afraid of the Dark, Troy Nixey***(*)
249. Inkheart, Iain Softley****(*)
250. L'Illusioniste, Sylvain Chomet****
251. Jacboots on Whitehall, Edward McHenry e Rory McHenry****
252. Beginners, Mike Millis*****
253. The Switch, Josh Gordon e Will Speck****
254. War of the Worlds, Steven Spielberg***
255. Kick-Ass, Matthew Vaughn****
256. Mistérios de Lisboa, Raoul Ruíz****
257. Rare Exports, Jamari Helander***(*)
258. The Change Up, David Dobkin***
259. I Sell the Dead, Glenn McQuaid*****
260. Chasseurs de Dragons, Guillaume Evernel, Arthur Qwak****(*)
261. Metropia, Tarik Salch***(*)
262. La Piel que Habito, Pedro Almodóvar*****
263. Beautiful Boy, Shawn Ku****(*)
264. Merlin and the War of Dragons, Mark Atkins**
265. Another Earth, Mike Cahill****(*)
266. The Hangover, Todd Phillips****
267. Dragons: Gift og the Night Fury, Tom Owens*****
268. The Happening, M. Night Shyamalan****
269. Solomon Kane, Michael J. Bassett***(*)
270. Due Date, Todd Phillips****

domingo, novembro 06, 2011

três poemas de (Ana) Paula Tavares

´

Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta

***

O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo.
Planta árvores de seiva e folhas.
Dorme sobre o cansaço
embalado pelo momento breve de esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida.
Depois parte.
...........................................................................................
Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.

*****

Perguntas-me do silêncio
eu digo

meu amor que sabes tu
do eco do silêncio
como podes pedir-me palavras
e tempo
se só o silêncio permite
ao amor mais limpo
erguer a voz
no rumor dos corpos


Paula Tavares, O Lago da Lua, Lisboa: Caminho, 1999, p.17, 19, 29.