terça-feira, dezembro 14, 2010

Antínoo


Busto de Antínoo de Villa Adriana (Museu do Louvre)


Pois chegou a casa a revista «Forma Breve», n.º 7, onde já publiquei, num número anterior. Desta vez o tema era «Homografias. Literatura e homoerotismo» e, embora pouco percebendo das questões de género e sexualidade na literatura, achei boa altura para estudar a figura de Antinoos na poesia portuguesa contemporânea (muito parecido com o que fiz com a Penélope, para um congresso na FACFIL). Com um ano de atraso, a revista chegou-me mesmo, e com o meu artigo: «Esse humano que foi como um deus grego: Antínoo entre eros e thanatos na poesia portuguesa contemporânea», do qual espero ainda fazer a sequela: Esse humano que ainda é como um deus grego: Antínoo à luz de Sophia e Jorge de Sena» (ou qualquer coisa assim parecida). Fica aqui um excerto:



«Ainda em Dual, na secção V «Arquipélago», encontra-se:

Lamentação de Adriano sobre a morte de Antínoos

Não escreverei mais o meu nome em letras gregas sobre a cera das tabuinhas
Porque estás morto
E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina (Andresen, 2004:64)

O poema, embora parta da mesma história que os anteriores, tem uma construção e temática muito diversa deles. Notavelmente mais breve, aqui o sujeito poético é identificado com Adriano que, em tom de lamentação já anunciado pelo título, assume uma perspectiva de compromisso perante a morte do amado. Esse compromisso revela uma certa negação do futuro. Não está presente a descrição física, mas antes a descrição indirecta do estado psicológico de quem fica vivo e em sofrimento que leva a uma vontade de auto-anulação: o sofrimento provocado pela morte, a solidão provocada pela ausência levam Adriano a desistir do seu «projecto de viver a condição divina», pois a morte física de Antínoo provoca uma espécie de morte espiritual de Adriano, como se morressem ambos com a morte física de apenas um deles. Está subjacente aqui a ideia de que o amor é capaz de pôr em acordo a condição humana e a condição divina, mas que a morte é capaz de destruir esse acordo, pelo menos numa fase inicial (repare-se que o poema permite a leitura de Adriano se dirigir directamente ao corpo morto de Antínoo). A destruição do amado leva à destruição do próprio mundo: amar alguém é amar o mundo em que esse alguém se encontra – e a destruição vai nos dois sentidos».

«Forma Breve 7, Homografias. Literatura e homoerotismo», Universidade de Aveiro, 2009, p.126-127

nota:
já nem me lembrava que também aqui tinham já surgido poemas meus sobre a figura... totinho.

2 comentários:

Ibel disse...

Vou querer ler tudo, Tulisses!!!
"Eis que se apagaram os antigos deuses, sol interior das coisas".Sophia.M.B.A.-Crepúsculo dos Deuses.
Será? Ou outros deuses nascem?

tulisses disse...

Claro, Ibel. Quando voltar lá levarei o volume. Desta vez não ofereceram separatas, por isso tem de ser assim, de empréstimo.