segunda-feira, dezembro 31, 2012

Desafios 2013

Decidi também aderir a alguns desafios de leitura, pois tive preguiça de ir procurar e, como confio neste blogue e nas palavras/propostas da Célia, achei bem, para alterar o modelo dos últimos anos.
Assim, tentarei em 2013:
 
chegar ao Mt. Everest (a pilha de livros que esperam vem já de 2001 e são imensos – e espero este ano andar muitíssimo controlado nas compras),
 
fazer o Bingo (título com número – O 13.º Sol de Daniachew Worku, sugerido por alguém – O coração é um caçador solitário de Carson McCullers, ficção histórica – A Obra ao Negro de M. Yourcenar, bestseller – 2666 de Roberto Bolaño e viagens – A Máscara de África de V. S. Naipaul) e
 
cumprir o Monthly Key Word, com as seguintes hipóteses:

janeiro – Um homem parado no inverno, Baptista-Bastos
fevereiro – O coração é um caçador solitário, Carson McCullers
março – A Casa Verde, Mario Vargas Llosa
abril – O Jardim do Éden, Ernest Hemingway
maio – A Criação Do Mundo, Miguel Torga
junho – Morrer ao Sol, Peter Palangyo
julho – O cheiro da noite, Andrea Camillieri
agosto – O Príncipe das Nuvens, Gianni Riotta
setembro – Adeus, Azules, António Murteira
outubro – O Medo do homem Sábio, Patrick Rothfuss
novembro – O 13.º Sol, Daniachew Worku
dezembro – Pela Estrada Fora, Jack Kerouac

Desafio 12:12


E assim se chega ao fim de mais um ano de desafio. 2013 será diferente, este modelo esgotou-se :)
A ideia deste ano era ler certos autores e tal, mas foram sendo substituídos por outros e muitas obras se foram impondo ao ritmo dos dias - e até em galego! 140 é muito bom, claro! E filmes, numa meta histórica para mim: um por dia, 366! Mas há ainda tanto para ler/ver nas estantes e até no chão... haja vida para tanto ;)

Livros:

126. O País dos Outros. A Poesia de Rui Knopfli, Fátima Monteiro, IN-CM, 200p.****
127. Caliban 1 e 2, 68p.*****
128. O Comboio das Cinco, Luís Afonso, Abysmo, 88p.****(*)
129. Manhã Submersa, Vergílio Ferreira, Europa-América, 176p.****(*)
130. Alegria Breve, Vergílio Ferreira, Amigos do Livro, 224p.*****
131. Contos, Vergílio Ferreira, Quetzal, 240p.*****
132. Na Tua Face, Vergílio Ferreira, Círculo de Leitores, 230p.*****
133. Escrever, Vergílio Ferreira, Bertrand Editora, 280p.*****
134. Memorias dun Neno Labrego, Xosé Neira Vilas, Edicios do Castro, 192p.*****
135. José Saramago – 90 anos 90 palavras, V.V.A.A., Caminho, 56p.*****
136. A Aventura da Memória e Outros Contos, Voltaire, Estrofes & Versos, 140p.*****
137. O Ladrão de Palavras, Francisco Duarte Mangas, Caminho, 28p.****
138. Em Roma Sê Romano, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Caminho, 230p.****
139. Poesia, João-Maria Vilanova, Caminho, 110p.***(*)
140. Tiago na toca e os Poetas, Tiago Bettencourt, 32p.****

Filmes:

345. Anna Karenina, Joe Wright*****
346. Leaves of Grass, Tim Blake Nelson***(*)
347. Sint, Dick Maas****
348. The Art of Gettinh By, Gavin Wiesen****(*)
349. Ciao, Yen Tan***(*)
350. The Chronicles of Narnia:The Voyage of the Dawn Treader, Michael Apted****
351. The Three Musketeers, Paul W. S. Anderson****
352. Dear John, Lasse Hallstrom***(*)
353. Half Nelson, Ryan Fleck*****
354. Teeth, Mitchell Kichtenstein***
355. The Hobbit: An Unexpected Journey, Peter Jackson*****
356. Ken Park, Larry Clark**(*)
357. The Inheritance, Robert O'Hara*(*)
358. Bridget Jones: The Edge of Reason, Beeban Kidron****(*)
359. Poulet aux prunes, Vincent Paronnaud*****
360. Kids, Larry Clark***
361. The Brave One, Neil Jordan****
362. The Words, Brian Klugman*****
363. Cars 2, John Lasseter***
364. Frankenweenie, Tim Burton****(*)
365. Assim Assim, Sérgio Graciano****
366. Putas Marcianas, José João Silva**

outros:

Perdidamente Florbela, de Vicente Alves do Ó, com Dalila Carmo, Albano Jerónio e Ivo Canelas, entre outras. Perdeu-se no argumento, porque de resto estava muito bem!

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Poema de Natal 2012



Quando um homem quiser - José Carlos Ary dos Santos

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

3 poemas de João-Maria Vilanova




Canção de Amanhecer Maio

Céu rente
escasso
e o xinguilar do vento
dorido
por entre as frestas.
Tal se cacimbo
pai ou irmão de longe
regressasse
teu marufo depões
em nossa mesa
tua oferenda.

**

Canção do Pequeno Discípulo

Chuva
deixa reaprender teu gesto
quando madrugada
os dedos tão de leve
sábia vinhas
batucar meu zinco.

Rola
deixa reaprender teu gesto
quando tarde estreita
a rouca tua voz certíssima
contrapontavas
na mulemba.

Noite
deixa reaprender teu gesto
quando calidamente
a veste tua única veste nos trazia
para com ela
amortalharmos a tristeza.
***

Canção com Sabor de Areia

Tempo
que na brisa partias
entre quintais de aduela
cajueiros
e o rugido distante
do mar
na calema

Onde o nocturno rumor
no capinzal
junto à linha?


João-Maria Vilanova, Poesia, Lisboa: Caminho, 2004, p.21, 32. 42.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Anna Karenina e o prazer...


... da leitura e da música!

Ainda por causa desta onda de amor ressuscitado por «Anna Karenina», lembrei-me desta passagem. E lá ainda duas faixas, à sorte, da banda sonora do filme - em «Clerks» ouve-se o comboio ;)
 
 
 
 


Esta aversão à leitura é ainda mais inconcebível, se pertencemos a uma geração, a uma época, a um meio, a uma família em que a tendência era exactamente para nos impedir que lêssemos.
- Para de ler, vais estragar os olhos!
- Vai lá para fora brincar, está um dia lindo.
...
 - Apaga a luz! Já é tarde!
Nesse tempo, os dias estavam sempre demasiadamente bonitos para os desperdiçar com leituras, e as noites eram demasiadamente escuras.
Note-se que, quer se lesse quer não se lesse, o verbo já era conjugado no imperativo. Mesmo no passado já era assim. De certo modo, ler era um ato subversivo. À descoberta do romance acrescia a excitação da desobediência à família. Era um duplo esplendor! Ah, a magnífica recordação de horas de leitura às escondidas, debaixo dos lençóis, à luz da lanterna. Como galopava a Anna Karenina ao encontro do seu Vronski, àquelas horas da noite! Amavam-se um ao outro, o que já era magnífico, mas amavam-se enfrentando a proibição de ler, o que era ainda melhor! Amavam-se contra a vontade do pai e da mãe,contra o trabalho de matemática por acabar, contra a redacção, contra o quarto por arrumar, amavam-se em vez de irem para a mesa, amavam-se antes da sobremesa, preferiam estar um com o outro a irem ao futebol ou a apanharem cogumelos… tinham-se escolhido um ao outro, nada mais queriam que estar um com o outro… meu Deus, como o amor é belo!

E como um romance se lê num instante!

E acima de tudo lemos contra a morte.


Daniel Pennac, Como um Romance

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Anna Karenina


Count Vronsky: I love you!
Anna Karenina: Why?
Count Vronsky: You can't ask Why about love!

 






Ontem, pelas 14.30, eu ia ver «Anna Karenina», em estreia nacional. Ia, mas avisaram-me logo que talvez não fosse possível, porque ainda não tinham experimentado a fita na máquina e tal. Mas, quase vinte minutos depois, deu (cortaram depois o intervalo, para compensar). E uma senhora que ia ver o «Amanhecer» acabou por vir também - não se deve ter arrependido, seguramente. Isto porque o filme é uma experiência artística difícil de definir, melhor, difícil de igualar.
 
Quando temos muitas expectativas sobre alguma coisa, é costume ficarmos desiludidos. Aqui eram muitas. Primeiro porque era de um dos meus realizadores favoritos, que já nos deu outros dois (pelo menos) grandes filmes que fazem parte da minha lista de favoritos: «Pride and Prejudice» e «Atonement», depois porque tem Keira Knightley (Anna) , a mesma que protagonizou os dois filmes acima referidos, com Jude Law (Karenin) a acompanhar (de quem gosto muito desde que o vi nos filmes de Anthony Minghella - «Breaking and Entering» e «Cold Mountain») e Matthew Macfadyen (Oblonsky), que já fora o amor da vida da personagem de Keira em «Pride and Prejudice» e agora passa a ser o irmão, entre outros atores interessantes. Mais ainda porque a banda sonora está a cargo de Dario Marianelli que, pasme-se, já tinha feito as dos dois anteriores filmes também (e a de «Atonement» é das criações mais fantásticas de sempre para filmes e não só). Caso para dizer que em equipa vencedora não se mexe. E, como se compreendeu já e se verá a seguir, não fiquei nada desiludido.
 
Por fim, a adaptação de um dos grandes romances da humanidade, de Tolstoi, que li já há alguns anos, mas que conservo na memória: pelo fascínio de Oblonsky, pela busca de uma dignidade por parte de Levin, pelo amor e pelo sofrimento de Anna. Tinha visto este ano uma adaptação boa do romance, num filme de 1997 com Sophie Marceau e Sean Bean. Mas achei-a um pouco rápida, por vezes superficial, embora os protagonistas estivessem ótimos. Neste não há um Sean Bean - que agora já só poderia ser um Karenin - mas um Aaron Taylor-Johnson que está bem no que tem de fazer.
 
Mal o filme começa, temos a noção de que algo de diferente ali vem. Ousado. Sim, direção artística e fotografia são geniais: haverá o luxo, a sumptuosidade, os mármores, os dourados das paredes e dos objetos, os veludos; o guarda-roupa e a maquilhagem exigidos e perfeitos: os vestidos de cores tanto fortes como pálidas, os casacos com peles, as fardas feitas a preceito, os penteados daquela gente, as joias... Sim, há a câmara virtuosa que desliza, que acompanha, que segue em várias direções sem os cortes costumados (que já havia nos outros filmes dele, mas aqui mais, talvez). E um pouco daquilo que já nos havia habituado: a atenção aos pormenores, as pequenas coisas que de repente ganham uma significação extraordinária - só um exemplo: o leque que Anna abana enquanto vê a corrida de cavalos produz o som dos próprios cavalos em movimento, mas também poderá ser o do seu coração. Essa câmara obsessiva é de tal modo significativa que permite uma economia fantástica no relato de muitos acontecimentos: o escritório onde se encontram certas personagens torna-se no restaurante onde elas mesmas combinaram encontrar-se horas depois, os papéis de uma carta rasgada tornam-se neve; câmara acompanhando a valsa de Anna e Vronsky (numa cena belíssima, mas belíssima de chegar às lágrimas só pela emoção estética) apercebemo-nos de que não foi, afinal, apenas uma dança, mas a noite toda juntos, porque vemos Kitty, por breves momentos, sempre, com um par diferente de cada vez que aparece, sempre à espera que os outros se larguem. Coreografias: sim, muitas. Não apenas a do baile, a da receção com o fogo de artifício, mas de tudo – o filme tem momentos em que tudo se sincroniza, como se se tratasse de um bailado (ou não fosse a Rússia um país com história na dança), são os trabalhadores de Oblonsky, são os trabalhadores com Levin… E o comboio, obsessão que vai percorrendo toda a história, nos brinquedos, nos espelhos, nos sonhos, nas viagens feitas efetivamente, e que vai ser determinante, como é sabido, no final, é até incorporado na banda sonora, brevemente, já como Marianelli fizera com a máquina de escrever em «Atonement». A música é, aliás, um dos aspetos mais emocionantes do filme… a intensidade e a beleza com que foram feitas captam algo da cultura russa sem trair o estilo próprio do autor. E as cenas de amor, perfeitamente desenhadas, para mostrar a felicidade, embora pairando uma certa mão de tragédia, são também belas.
 
É talvez este tom de tragédia que estará na opção de uma filmagem diferente. Lars Von Trier, há uns anos, apostou fazer «Dogville» num palco, em que as casas estivessem desenhadas no chão, quase sem adereços mais. Aqui, os adereços são aos milhares, claro, mas quase tudo foi feito também numa sala de teatro. Não se espantem, portanto, por verem cortinas, cadeiras, palco, bastidores – aqui vivem sobretudo os do povo, os que vivem numa Rússia à beira da revolução e não sabem o que ela é, o que ela promete, e quando sabem nem sabem se a querem. Teatro, portanto, pois a vida é teatro, já se sabe também há muito. Para que não se esqueça tudo aquilo que anda em torno da história. E se tudo se passa naquele sítio, temos painéis que se levantam, portas que se abrem ou se fecham, personagens que passam de um sítio a outro, tudo de uma forma mágica e económica da narrativa, criando uma fluidez inédita, que o teatro tem explorado e que o filme também faz. Tragédia para quem está preso naquele mundo sugerido pelo teatro, mas liberdade para Levin, a única personagem que inicialmente anda pelas paisagens exteriores, pelo mundo real, para onde leva Kitty…
 
Nada a dizer do elenco, a não ser que é muito bom. Muito se disse sobre Keira não poder ser uma boa Anna Karenina. Sim, ela não é boa, é perfeita e as nomeações para prémios já surgiram. Jude Law, que poderia ter sido Vronsky há uns anos, está ótimo na sua contenção, na sua «santidade». Não referi ainda, mas faço-o agora: Domhnall Gleeson é um Levin perfeito, assim como muito bem estão Kelly Macdonald, Emily Watson, Michelle Dockery, além de Matthew Macfadyen e Aaron Taylor-Johnson, já referidos.
 
Fidelíssimo ao livro, a história está toda ela no filme. Toda ela, de uma forma ou outra, sem rapidez no essencial, no que em muitos filmes me leva a perguntar «de onde vem tanto amor?». Aqui há a perseguição, o desespero, a culpa por não ter feito nada ainda, o desespero, a entrega. E tudo o que isso provocará. Há os boatos, o falar dos outros (que bem feitas estas cenas, com as personagens paradas, extáticas, ou só com o som de palavras sussurradas, que não se entendem, até subirem de tom e se tornarem acusadoras), que contrasta com o silêncio do jogo de cubos onde Levin e Kitty finalmente se entendem.
 
Poder-se-á ler por aí críticas de senhores (supostamente) entendidos em cinema. Um dos que li classifica o filme como «razoável». Quem é crítico de cinema tem uma certa tendência para escrever coisas muito más sobre os filmes, muitas vezes só destaca pela positiva filmes enfadonhos, mesmo, de muita política, de senhores cujo nome não pode ser tocado. Está-lhes no sangue, ou na carteira, não sei. Dizer que este filme é razoável é, no mínimo, dizer incompetente o crítico que o afirmou. O «síndrome-souflé» é outra expressão usada noutro sítio, como se os críticos tivessem de escrever com conceitos modernos e bonitos para chamar a atenção de leitores… esperem, têm mesmo! Porque, meus senhores, mesmo que não sintam as angústias das personagens, profundamente marcadas, profundamente vividas, ao menos a criação estética está. E estar isto, pelo menos, é mais, muito mais do que muitos filmes que por aí andam conseguem. Não se chora neste filme pela história em si, ou não só. Há lágrimas de alegria e de tristeza. Eu atrevo-me a dizer que há também lágrimas de beleza. De infinita beleza. O realizador está na posse de uma visão artística inigualável, talvez aqui extremada em virtuosismo, quase a raiar a loucura. Mas não está a própria Anna a raiar a loucura quando a sociedade machista e fechada em que vive desaprova o seu amor?
 
Não sei se transmiti bem o que queria. No final do filme, atordoado, o funcionário do cinema perguntou-me se o filme era bom. Mas percebeu logo que sim, ao ver a minha expressão e os olhos húmidos. Não se enganem, é. Mas o melhor é verem e ajuizarem. A ideia disto tudo é simples: um belo sucessor de «Atonement», também ele adaptado de um romance e o meu de eleição, com uma história extraordinária, complexa, múltipla, abarcada de uma forma singular e que vale a pena ver, em tela grande!
 



 

sábado, dezembro 01, 2012

Poemas de José Saramago

 
 
Processo
 
As palavras mais simples, mais comuns,
As de trazer por caqsa e dar de troco,
Em língua doutro mundo se convertem:
Basta que, de sol, os olhos do poeta,
Rasando, as iluminem.
 
**
 
Epitáfio para Luís de Camões
 
Que sabemos de ti, se versos só deixaste,
Que lembrança ficou no mundo que tiveste?
Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos,
Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?
 
***
 
As palavras são novas: nascem quando
No ar as projectamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias.
 
Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.
 
****
 
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
 
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
 
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
*****
 
Regra
 
Tão pouco damos quando apenas muito
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
 
 
Os Poemas Possíveis, Lisboa: Caminho, 2011 (1966)), p.23, 36, 58, 84, 122


Forja

Quero branco o poema, e ruivo ardente
O metal duro da rima fragorosa,
Quero o corpo suado, incandescente,
Na bigorna sonora e corajosa,
E que a obra saída desta forja
Seja simples e fresca como a rosa.

**

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
  manhãs e madrugadas em que não precisamos de
  morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
  em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
  palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
  mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
  vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
  sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
  mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
  ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
  como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

***

Caminhámos sobre as águas como os deuses
E fomos deuses
Todo o arco do céu as nossas mãos traçaram,
e os traços lá ficaram.
Olhamos hoje a obra, cansados arquitectos:
Não são os nossos tectos.

Provavelmente Alegria, Lisboa: Caminho, 1999 (1970), p.20, 52, 71

sexta-feira, novembro 30, 2012

Desafio 12:11

novembro... mês de alheamento. este foi. Fui ver «O Profissional» pelo Centro Dramático Galego no Theatro Circo, uma interessante reflexão sobre os conflitos na Sérvia, em galego, claro, pois é preciso ouvir, também, para poder falar. O resto foram livros e filmes, como de costume. Bem como o acompnhar das séries «The Big Bang Theory», «The Walking Dead», «Once upon a time» e «Downton Abbey», as quatro eleitas das muitas que andam por aí mas que não consigo acompanhar...   

livros:

112. Castelos de Cartão, Almudena Grandes, D. Quixote, 160p.*****
113. Os Ares Difíceis, Almudena Grandes, D. Quixote, 562p.*****
114. Cemitério de Elefantes, Dalton Trevisan, Relógio D’Água, 94p.**
115. Um Beijo de Colombina, Adriana Lisboa, Temas e Debates, 174p.*****
116. Ao Rés da Terra, António Borges Coelho, Caminho, 104p.****
117. A Aurora dos Bem-Aventurados, Louis Gardel, Bizâncio, 110p.***(*)
118. Os Ciganos, Sophia de Mello Breyner Andresen e Pedro Sousa Tavares, Porto Editora, 64p.*****
119. A Casa de Papel, Carlos María Domínguez, Asa, 80p.*****
120. Cronicando, Mia Couto, Caminho, 194p.*****
121. E Se Obama Fosse Africano e Outras Interinvenções, Mia Couto, Caminho, 214p.*****
122. Os Poemas Possíveis, José Saramago, Caminho, 190p.****(*)
123. Provavelmente Alegria, José Saramago, Caminho, 100p.***
124. Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, José Saramago, Caminho, 136p.****
125. O Livro Branco, Jean Cocteau, Assírio & Alvim, 104p.***


filmes:

296. The Awakening, Nick Murphy****
297. Un été brûlant, Philippe Garrel***
298. Alatriste, Agustín Diaz Yanes**
299. Bramadero, Julián Hernández*
300. Obsluhoval jsem anglického krále, Jirí Menzel*****
301. World Trade Center, Oliver Stone***(*)
302. The Shining, Stanley Kubrick****
303. Cockneys vs Zombies, Mattias Hoene****(*)
304. Abraham Lincoln: Vampire Hunter, Timur Bekmambetov***(*)
305. Wuthering Heights, Peter Korminsky****(*)
306. Wuthering Heights, Coky Ciedroyc***(*)
307. Wuthering Heights, Andrea Arnold***
308. Guest House Paradiso, Adrian Edmondson****
309. Al final del camino, Roberto Santiago****
310. The Good Night, Jake Paltrow****
311. El Bola, Achero Mañas****(*)
312. Desert Flower, Sherry Hormann****(*)
313. Perfect Criature, Glenn Standring**(*)
314. Outlander, Howard McCain***(*)
315. The Experiment, Paul Scheuring***(*)
316. Savage Grace, Tom Kalin**(*)
317. Gomorra, Matteo Garrone***
318. Alpha Dog, Nick Cassevetes**(*)
319. Safety not guaranteed, Colin Trevorrow****(*)
320. Red Riding Hood, Catherine Hardwicke***(*)
321. 30 Minutes or Less, Ruben Fleischen****
322. Cesare deve morire, Paolo Taviani, Cittorio Taviani****
323. New York, I Love You, Faith Akim (entre outros)****
324. The Dark Knight Rises, Christopher Nolan****
325. Brave, Mark Andrews, Brande Chapman***(*)
326. ParaNorman, Chris Butler, Sam Feu***(*)
327. New Year's Eve, Gerry Marshall***(*)
328. Vamps, Amy Hackerling***(*)
329. The Ruins, Carter Smith***(*)
330. Mother and Child, Rodrigo García****
331. The Loved Ones, Sean Byrne**(*)
332. Linhas de Wellington, Valeria Sarmento****
333. Paraísos Artificiais, Marcos Prado***
334. Chernobyl Diaries, Bradley Parker****
335. Judas Kiss, J. T. Teponapa**(*)
336. The First Grader, Justin Chadwick*****
337. V/H/S, Matt Bettinelli-Olpin (e outros)***
338. Detachment, Tomy Kaye*****
339. Los amantes del círculo polar, Julio Medem*****
340. Another gay movie, Todd Stephens***
341. Another gay sequel: gays gone wild, Todd Stephens**(*)
342. Resident Evil: Retribution, Paul W. S. Anderson****(*)
343. The Bourne Legacy, Tony Gilroy****
344. Thale, Aleksander Nadaas***

domingo, novembro 18, 2012

3 poemas de António Borges Coelho



Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas

**

Quando a noite curva os ombros
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre

Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol

***

Balouça as folhas rústica a varrer
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios

que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste

dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água

curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos

António Borges Coelho, Ao Rés da Terra, Lisboa: Caminho, 2002, p.39, 60, 93.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Breve antologia da poesia de Mia Couto






Despedida


Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve


**

Viagem


O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
da minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos


***

Mãe com criança no colo


No lugar do corpo onde esperou
sua vida frutificar
vai agora afagando a imobilidade

Aconchegando o menino morto
ela prepara seu ventre
para o inverso parto:
da luz para o útero,
da dor para o nada

Pendentes,
os seios
imitam outonais folhas
de mais imutável estação

E só o chão se espanta
por restar uma água
para á tristeza
dar o último redondo ventre


****

Companheiros

quero escrever-me de homens
quero calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo-vos
a paciência dos rios
a idade dos livros que não se desfolham

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me às vezes viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris
 
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros


Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Lisboa: Caminho, 1999, p.23-4, 68, 70, 77-8
 
 
 
Sono coloquial
 
 
Da velhice
Sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nemidade nem cansaço.

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
 senso da poesia.
 
**
 
A Adiada Enchente
 
 
Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me  tornei  antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E  eu a esperei
como  um  rio  aguarda  a  cheia.
 
Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as paalvras.
 
Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.
 
***
 
Doença

O médico serenou Juca Poeira.
Que ele já não padecia da doença
que ali trouxera em tempos.
 
E o doutor disse o nome
da falecida enfermidade:
“Arritmia paroxística supra-ventricular”
 
Juca escutou, em silêncio,
com pesar de quem recebe condenação.
 
As mãos cruzadas no colo
diziam da resignada aceitação.
 
Por fim, venceu o pudor
e pediu ao médico
que lhe devolvesse a doença.
 
Que ele jamais tivera
nada tão belo em toda a sua vida.
 
****
 
Silvestre e o Idioma
 
Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.
 
Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.
 
Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.
 
É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.
 
Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebaptizara, vezes sem fim.
 
Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.
 
 
Mia Couto, Idades Cidades Divindades, Lisboa: Caminho, 2007, p.14, 22, 48, 68-9.
 
 
 
Ignorâncias Paternas
 
Altas horas,
já secos cuspos e copos,
meu pai dizia:
vou reparar o tecto.
 
E saía, para além da noite,
por interditos caminhos.
 
Minha mãe
retorcia a alma
nas magras mãos.
 
No peito, não no ventre,
a mãe vai gerando filhos.
 
Por trás dos cortinados,
seu olhar se desfiava
no longo rosário da espera.
 
Cegos para as suas fadigas
nós, os filhos,
pedíamos que nos alonjasse o medo.
 
E a vos dela acontecia
como inundação do rio:
lavando águas e tristezas.
 
Pobre do vosso pai, suspirava.
Que pena ela dele sentia
que, no escuro, em vão procurava.
 
A nossa casa, de tão alta,
não poderia nunca ter telhado.
 
Filhos deitados,
medos dormindo:
antes do meu pai regressar
já minha mãe
tinha reparado
as telhas todas do mundo.
 
**
 
A Coisa
 
O silêncio é o modo
como o marido habita a casa.

Vencida a porta, ao final do dia,
o homem assume porte e posses.
 
A mesa é onde os seus cotovelos
derramam milenares cansaços.

Nesse cotovelório
vai trocando vida por idade.

Partilha a medonhez dos bichos:
medo do silêncio,
mais pavor ainda das palavras.

Para a mulher,
porém, ele não é senão um menino
no aguardo de um agrado.

Em redor do silêncio
ele rodopia, sem voz, sem cheiro, sem rosto.

Em solidão,
o homem come,
merecedor do que lhe é servido.

Depois,
bebe como se fosse bebido,
tragado pelo vazio dos desertos.
 
Dono do seu despovoado,
entao, ele a agride, com ferocidade de bicho.
 
A mulher se estilhaça no soalho,
sombrio retrato da parede tombado.
 
No leito,
já servido o marido,
as lágrimas vão colando os seus fragmentos.
 
E a esposa volta a ser coisa.
 
***
 
A Casa
 
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
 
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
 
Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
 
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
 
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
 
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam. 
 
****
 
Sementeira

O poeta
faz agricultura às avessas:
numa única semente
planta a terra inteira.

Com lâmina de enxada
a palavra fere o tempo:
decepa o cordão umbilical
do que pode ser um chão nascente.

No final da lavoura
o poeta não tem conta para fechar:
ele só possui
o que não se pode colher.

Afinal,
não era a palavra que lhe faltava.

Era a vida que ele, nele, desconhecia.
 
Mia Couto, Tradutor de Chuvas, Lisboa: Caminho, p.10-1, 46-7, 60-1, 71.


duas perdas em outubro

A poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —


Manuel António Pina, Todas as Palavras, Lisboa: Assírio & Alvim, 2012, p.38
 
 
***
 
Procurarei, tanto quanto possível, não fazer muita literatura, da qual me acho afastado há muitos anos, desde os meus tempos de Faculdade de Direito, quando cometi alguns poemas, reunindo-os em livro, dividido em duas partes, de sonetos parnasianos e poemas modernistas, que tive o bom senso de não publicar.
Não escrevo mais poesia, o meu amior prazer, vício mesmo, é a leitura, a que me entrego muitas vezes horas a fio, neste tempo sem fim de Duas Pontes; é o consolo de uma triste vida, no meu escritório, longe de Sofia.
Farei todo esforço possível para ser objetivo, eu que sou dado aos vôos das divagações desnecessárias. É preciso silenciar o coração, que acredita ter muito a dizer, e procurar a objetividade que devem ter as coisas escritas, mesmo quando se descrevem, estados delirantes - nestes casos, devemos parar, registro numa releitura que fiz dos meus primeiros cadernos. Mas não posso esquecer que muitas vezes consideramos teorização o que é apenas devaneio erradio de uma alma angustiada.
 
Autran Dourado, Confissões de Narciso, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003, p.14-15

quinta-feira, novembro 01, 2012

3 poemas de Octavio Paz



Em Uxmal (fragmentos)

2. Meio-dia

A luz não pestaneja
o tempo esvazia-se de minutos,
um pássaro deteve-se no ar.

3. Mais tarde

A luz despenha-se,
as colunas acordam
e, sem se moverem, dançam.

4. Sol pleno

A hora é transparente:
se o pássaro é invisível, vemos
a cor do seu canto.

**

Nos jardins dos Lodi

No azul unânime
as cúpulas dos mausoléus
- negras. concentradas, pensativas -
rebentam subitamente
                                    em pássaros

***

Aldeia

As pedras são tempo
                                   O vento
séculos de vento
                           As árvores são tempo
as pessoas são pedras
                                    O vento
volta-se sobre si mesmo e enterra-se
no dia de pedra

Não há água mas os olhos brilham



Antologia Poética, Octavio Paz, Lisboa: D. Quixote, 1998: 46-7, 87, 98.

4 poemas de Tomas Tranströmer





Bilhete-Postal Negro

I
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
             acotovelam-se no cais.

II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
             é cosido em silêncio.

**

Segredos pelo Caminho

A luz do dia bateu no rosto de alguém que dormia.
E esse alguém teve um sonho com mais vivacidade,
ainda que sem acordar.

As trevas bateram na cara de alguém que ia andar
entre a multidão, sob os raios
impacientes e fortes do sol.

De repente escureceu, como quando cai uma bátega.
Eu encontrava-me num quarto com espaço patra todos os instantes -
a sala de um museu de borboletas.

Ali, porém, o sol brilhava tão intensamente como antes.
Os seus pincéis impacientes davam cor ao mundo.

***

Abril e o Silêncio

A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.

O que quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.

****

Retrato de Mulher - Século XIX

A sua voz é sufocada pelo vestido. O seu olhar
segue o gladiador. Depois, ela própria
está na arena. É uma mulher livre? Um moldura dourada
                                                        estrangula o retrato.

50 Poemas, Tomas Tranströmer, Lisboa, Relógio D’Água, 2012: p. 17, 25, 47, 109.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Desafio 12:10

Outubro, os dias longos começama  ficar mais pequenos, mas isso é só em luz, que em casa o tempo é o mesmo! Reaper - ideia interessante, com gente de bem, a lembrar o Chuck - valeu a pena desenterrar isto! Mergulho na devassidão, luxúria, corrupção e genialidade da família Borgia, em The Borgias. E tempo ainda para ressuscitar FlashForward - que parte de uma ideia interessante, com personagens e atores muito bons, mas que se perde em qualquer coisa... e foi pena ter sido cancelada.

livros:

98. Se fosse fácil era para os outros, Rui Cardoso Martins, D. Quixote, 246p.****
99. No silêncio de Deus, Patrícia Reis, D. Quixote, 260p.****(*)
100. O livro dos prazeres inúteis, Tom Hodgkinson e Dan Kieran, Quetzal, 176p.*****
101. O Último Livro, Zoran Živković, Cavalo de Ferro, 240p.*****
102. O Último Leitor, David Toscana, Oficina do Livro, 216p.*****
103. Peito Grande, Ancas Largas, Mo Yan, Ulisseia, 604p.****(*)
104. Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Mia Couto, Caminho, 92p.****
105. Idades Cidades Divindades, Mia Couto, Caminho, 126p.****
106. Tradutor de Chuvas, Mia Couto, Caminho, 120p.****
107. Ualalapi, Ungulani Ba Ka Khosa, Caminho, 130p.*****
108. 50 Poemas, Tomas Tranströmer, Relógio D’Água, 144p.****
109. A Livreira Anarquista, Bertrand, 152p.*****
110. Antologia Poética, Octavio Paz, D. Quixote, 132p.***
111. Os Indiferentes, Alberto Moravia, Público/Mil Folhas, 288p.****(*)


Filmes:

251. Young People Fucking, Martin Gero***(*)
252. El Mar, Agustí Villaronga****(*)
253. We need to talk about Kevin, Lynne Ramsay*****
254. A little bit of Heaven, Nicole Kassell****(*)
255. Christopher and his kind, Geoffrey Sax*****
256. Prometheus, Ridley Scott***(*)
257. Ronal Barbaren, Kresten Vestjerg Andersen (...)****(*)
258. Zodiac, David Fincher****
259. Les bien-aimés, Christophe Honoré****(*)
260. The Avengers, Joss Whedon*****
261. That thing we do, Andrew Hull***
262. Moonrise Kingdom, Wes Anderson*****
263. 360, Fernando Meirelles***
264. Friends with benefits, Will Gluck***(*)
265. Le Gamin au vélo, Jean-Pierre Dardenne (..)****
266. Exit Humanity, John Geddes**(*)
267. Hot tub machine, Steve Pink***
268. Zambezia, Wayne Thornley***(*)
269. To Rome with Love, Woody Allen****
270. Birdsong, Philip Martin****(*)
271. Evening, Lajos Koltai****(*)
272. Mientras duermes, Jaume Balagueró****
273. La cara oculta, Andrés Baiz****
274. Les adieux à la reine, Benoît Jacquot****(*)
275. Elles, Malgorzata Szumowska****
276. Cosmopolis, David Cronenberg**(*)
277. A Fantastic fear of everything, Crispian Mills (...)***(*)
278. Sur la piste du Marsupilami, Alain Chabat*****
279. Astérix et Obélix: au service de Sa Majasté, Laurent Tirard****(*)
280. Magic Mike, Steven Soderberg***
281. Martha Marcy May Marlene, Sean Durkin***(*)
282. Columbus Circle, George Gallo***
283. Madagascar 3: Europe's most wanted, Eric Darwell (..)*****
284. The wolfman, Joe Johnston***
285. The Mill and the Cross, Lech Majewski****
286. Oslo, 31. august, Joachim Trier****(*)
287. La délicatesse, David e Stéphane Foenkinos*****
288. Ensemble, c'est tout, Claude Barri*****
289. Joyeux Nöel, Christian Carion*****
290. Une vie meilleure, Cédric Kahn*****
291. Dictado, Antonio Chavarrías**(*)
292. Young Adult, Jason Reitman****(*)
293. Italiensk for begyndere, Lone Scherfig****(*)
294. Intruders, Juan Carlos Fresnadillo****
295. The Tall Man, Pascal Laugier****

quinta-feira, outubro 25, 2012

A Livreira Anarquista

Já há em livro (depois do blogue, que continua) e já o li: «A Livreira Anarquista». De rir com as parvoices dos «fregueses» e os comentários da funcionária ;)


um exemplo (p.90-91):




ADIVINHA:

Qual é o titulo do livro de Jorge Amado: ”O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”?
  • O Gato Molhado e a Andorinha Sinhã?
  • O Gato Malhado e a Andorinha Simá?
  • O Gato Marado e a Andorinha?
  • O Gato Espalmado e a Andorinha Sinhá?
  • O Gato Fedorento e a Andorinha Sinhá?
  • O Gato Malhado e a Andorinha Assanhada?
  • O Gato Manhoso e a Andorinha?
  • O Gato Falhado e a Andorinha Dele?
  • Os Livros da Andorinha Sinhá?
  • O Gato Miau e a Andorinha Cinha?
  • O Gato Malvado e a Andorinha Mimi?
  • O Gato Malhado e a Andorinha Sei Lá?
  • O Gato Parolo e a Andorinha Sinhá?
  • O Gato das Botas e a Andorinha Sinhá?
  • O Gato Malhado e a Andorinhazinha?
  • O Gato Malhado e a Andorinha Sisi?
  • O Gato Mamado e a Andorinha Sinhá?
E a tacada final:
Freguês: Tem o “Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”?
Livreira Anarquista: (Muito ingénua, a pensar: «wooow…não posso crer…alguém resolveu este grande enigma!») Não, de momento não temos, vendemos todos…
Freguês: Mas…não tem nenhum dos dois?
E assim se destroem utopias.


também podem consultar aqui. vale bem a pena!

sexta-feira, outubro 19, 2012

Galego, dia 1.


 «O que em Portugal é dialectal é padrão na Galiza. E o que é dialectal na Galiza é padrão em Portugal».
 
 

 A UM é uma confusão e pronto. Cheguei mais do que a tempo, mas não havia maneira de encontrar a sala. Encontrei antes uma ex-aluna ;) Afinal, a sala indicada era «proibida» para os simples mortais... era uma sala de arrumações. Voltas e mais voltas, até me decidir ir ao Babelium e lá me disseram para procurar o «Gabinete de Gestão do Complexo Pedagógico I». Medo. Lá descobri a sala, tinha sido erro e arranjaram uma à pressa.

O grupinho parece simpático. Trabalhei mais com um rapaz que estuda Matemática e Computação. Sim, sou o único de Letras, pelo que percebi, o que pode vir a ser interessante. A formadora é... espetacular. Quase in love, claro.

Aprendemos a escrever em cinco minutos, a falar em dez. Muita eficiência. Ahahah. Obrigado, curso feito. Pois sim...

E pronto, deixo-vos uns versinhos de minha autoria, com as palavras de hoje, a assinalar a ocasião:

«unha bágoa se solta sobre a morriña
cando un bico me toca o corazón»
 
 


 
 
Diz a Lídia para ouvir os Luar na Lubre e diz muito bem. Enviou-me estes dois, mas há mais no youtube. A ver se, com tempo, os vou conhecer melhor.
 
 
 
 
 
p.s. - Todo eu me sinto galego, hoje. já ia para Santiago comer feuchos sentado nas escadas laterais da catedral!

domingo, setembro 30, 2012

Desafio 12:9

Súmula do que me ocupou este mês - entre as decisões académicas, também - e as cinco temporadas de Big Bang Theory (adoro profundamente!) e as duas de Queer as Folk (versão britânica).

Livros:

86. O Sorriso Etrusco, José Luis Sampedro, Martins Fontes, 364p.*****
87. Obra Poética, Rui Knopfli, IN-CM, 544p. *****
88. Vasto Mar de Sargaços, Jean Rhys, Biblioteca Sábado, 180p.***(*)
89. Veneza. Percursos com Corto Maltese, Hugo Pratt, Guido Fuga, Lete Vianello, Asa/Público, 160p.*****
90. A Varanda do Frangipani, Mia Couto, Caminho, 154p.*****
91. Vinte e Zinco, Mia Couto, Caminho, 104p.*****
92. Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, Mia Couto, Caminho, 262p.*****
93. A Confissão da Leoa, Mia Couto, Caminho, 270p.****(*)
94. Primeiro Livro de Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Caminho, 188p.*****
95. Roma. Percursos com Alix, Thérèse de Chérisey, Jacques Martin, Gilles Chaillet e Enrico Sallustio, Asa/Público, 160p.*****
96. Sobre o amor e a morte, Patrick Süskind, Presença, 64p.*****
97. O Prazer da Leitura (2012), V.V.A.A., Teodolito/Fnac, 150p.****(*)

Filmes:

196.The Cabin in the Woods, Drew Goddard***(*)
197. The Hunger Games, Gary Ross****(*)
198. ATM, David Brooks**(*)
199. The Dictator, Larru Charles**(*)
200. Dark Shadows, Tim Burton***(*)
201. La nouvelle guerre des boutons, Christophe Barratier*****
202. Memoria de mis putas tristes, Henning Carlses***
203. Mentiras Y Gordas, Alfonso Albacete e David Menkes**(*)
204. The Lorax, Chris Renaud, Kyle Balda****
205. Snow White and the Huntsman, Rupert Sanders***(*)
206. Silent House, Chris Kentin, Laura Lau***
207. Life of Brian, Terry Jones*****
208. The Divide, Xavier Gens**(*)
209. La Princesse de Montpensier, Bertrans Tavernier****
210. Puncture, Adam Kassen, Mark Kassen***
211. Cowboys & Aliens, Jon Favreau***
212. Truth or Dare, Robert Heath***
213. The Deep Blue Sea, Terence Davies***(*)
214. Ne te retourne pas, Marina de Van****
215. The Raven, James McTeigue***(*)
216. Resident Evil, Paul W. S. Anderson****
217. Resident Evil 3 - Extinction, Russel Mulcahy****(*)
218. Resident Evil 4 - Afterlife, Paul W. S. Anderson***(*)
219. The Guard, John Michael McDouglas***(*)
220. American Pie Presentes The Naked Mile, Joe Nussbaum**(*)
221. Amercian Pie Presentes: The Book of Love, John Putch**(*)
222. Stone, John Curran***
223. The Eye of the Storm, Fred Schepisi***
224. La grande bouffé, Marco Ferreri*(*)
225. Akmareul boatda, Jee-woom Kim***
226. 17 Again, Burr Steers***
227. Les infidèles, Emmanuelle Bercot (entre outros)****
228. The Thing, Matthijs van Heijningen Jr.***
229. Age of Dragons, Ryan Little**
230. The Oxford Murders, Álex de la Iglesia****(*)
231. Star Wars: Edpisode I - The Phantom Menace, George Lucas***(*)
232. Star Wars: Episode II - Attack of the Clones, George Lucas***
233. Star Wars: Episode III - Revenge of the Sith, George Lucas****
234. Star Wars: Episode IV - A New Hope, George Lucas****
235. Star Wars: Episode V - The Empire Strikes Back, Irvin Kershner****
236. Star Wars: Episode VI - Retunr of the Jedi, Richar Marquand*****
237. Star Trek, J. J. Abrams***(*)
238. Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, Steven Spielberg****
239. The Last King of Scotland, Kevin Macdonald*****
240. One for the Money, Julie Anne Robinson***(*)
241. Quo Vadis, Mervyn LeRoy*****
242. 28 Days Later, Danny Boyle****(*)
243. 28 Weeks Later, Juan Carlos Fresnadillo****(*)
244. Monty Python and the Holy Grail, Terry Gilliam, Terry Jones*****
245. The Meaning of Life, Terry Jones*****
246. Holy Flying Circus, Owen Harris****
247. Original Sin. Michael Cristofer***(*)
248. La femme du Vème, Pawel Pawlikawski**(*)
249. John Carter, Andrew Stanton***
250. Le Moine, Dominic Moll***

segunda-feira, setembro 10, 2012

O Último Adeus, António

 
 
 


pois que o tempo nos dobrou e agora sou eu quem parte...

sexta-feira, agosto 31, 2012

Desafio 12:8

Ainda a refazer-me da maleita, um mês demasiado relaxado... Conclusão dos Jogos Olímpicos (que fui acompanhando), o Casamento da Liliana, o concerto dos Monte Lunai no Theatro Circo (ou antes, ao lado do teatro, ao ar livre, com danças e tudo!), a agradável série Camelot (Eva Green, Joseph Finnes e Peter Mooney impecáveis), a fantástica produção da BBC The Line of Beauty, que revi já não me lembrando muito bem da história protagonizada por Dan Stevens e Hayley Atwell, e a grande surpresa que foi Once Upon a Time, uma série de vinte e dois episódios que me prendeu de tal maneira que vi tudo em três dias... Jennifer Morrison, Giniffer Goodwin, Josh Dallas, Eion Bailey a desempenhar algumas das personagens favoritas: contos de fadas revistos, às vezes bem mais coerentes que os que conhecemos, cujas personagens se encontram amaldiçoadas numa cidade de onde não podem sair e onde vivem sem se lembrarem quem são. Muitos livros e muitos filmes, também, como é costume:


livros:

72. O Prisioneiro do Céu, Carlos Ruiz Zafón, Planeta, 400p.*****
73. Resumo. a poesia em 2011, Vários, Assírio & Alvim-Documenta, 192p.****(*)
74. O Conhecimento da Dor, Carlo Emílio Gadda, Ulisseia, 180p.***
75. Contos, Franz Kafka, Relógio D’Água, 90p.****
76. O Outono em Pequim, Boris Vian, Público/Mil Folhas, 256p.****(*)
77. Havia, Joana Bértholo, Caminho, 168p.*****
78. Embaixada a Calígula, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, 376p.****(*)
79. As Suplicantes, Ésquilo, CECH-FESTEA, 92p.****
80. A Sogra, Terêncio, CECH-FESTEA, 132p.***(*)
81. Persa, Plauto, Verbo, 128p.***
82. Bucólicas, Calpúrnio Sículo, Verbo, 144p.**(*)
83. Enciclopédia da Estória Universal. Recolha de Alexandria, Afonso Cruz, Alfaguara, 114p.*****
84. Água, cão, cavalo, cabeça, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 96p.**
85. O Museu da Rendição Incondicional, Dubravka Ugerešić, Cavalo de Ferro, 352p.*****


filmes:

161. Pa Negre, Agustí Villaronga*****
162. Der Untergang, Oliver Hirschbiegel****(*)
163. Five Minutes of Heaven, Oliver Hirschbiegel, ****(*)
164. O Brother, Where Art Thou?, Joel Cohen*****
165. The Prince and the Showgirl, Laurence Olivier****(*)
166. Faubourg 36, Christophe Berratier*****
167. L'Autre Monde, Gilles Marchand***
168. Gegen die Wand, Fatih Akim****(*)
169. Magnolia, Paul Thomas Anderson*****
170. There Be Dragons, Roland Joffé****(*)
171. Odete, João Pedro Rodrigues**(*)
172. Rec3 Génesis, Paco Plaza****
173. Slutty Summer, Caspar Andreas**
174. Les Égarés, André Téchiné****(*)
175. Knocked Up, Judd Apatow****
176. Los Ojos de Julia, Guillem Morales***(*)
177. Dancer in The Dark, Lars Von Trier*****
178. Once, John Carney*****
179. Q., Laurent Bouhnik**
180. The Pirates! Band of Misfits, Peter Lord, Jeff Newitt****(*)
181. Fish Tank, Andrea Arnold****
182. Grande École, Robert Salis****
183. I am Sam, Jessie Nelson*****
184. La Haine, Mathieu Kassovitz****
185. You will meet a tall dark stranger, Woody Allen****(*)
186. Cassandra's Dream, Woody Allen*****
187. De Battre mon Coeur s'est Arrêté, Jacques Audiard****(*)
188. The Shrine, Jon Knautz***
189. A Soldier's Choice, Adrian Benjamin Burke***
190. Shi, Chang-dong Lee*****
191. eCupid, J. C. Calciano****
192. História Trágica com Final Feliz, Regina Pessoa***
193. The Best Exotic Marigold Hotel, John Madden*****
194. The Houseboy, Spencer Schilly***(*)
195. Sangue do meu Sangue, João Canijo***(*)

quinta-feira, agosto 23, 2012

90 Anos, 90 Palavras



Celebrando Saramago, como sempre deve ser, a Fundação a que dá nome pede que os seus leitores escolham uma palavra que relacionem com o autor e que a comentem. Eu fui o quinto a ser publicado, cá fica o textinho. Também podem ler aqui, o sítio original.


Casa

Os livros que nos deixou são casas com as janelas abertas onde deu ao mundo as histórias de que mais fazia caso. Podemos ficar nelas, ir aos seus jardins, percorrer os caminhos que nos levam até elas. oncedido o maior galardão literário da língua portuguesa, um cão assustou tanto uma vizinha que ela gritou a pedir ajuda. Os que estávamos em asa saímos para a rua e vimos que o animal feroz era um cachorro assustado com o susto da mulher. O animal entrou pela porta aberta do jardim, mexendo sem jeito as pernas, um pouco desajeitado, feliz por ninguém o maltratar. Quando Saramago apareceu a anunciar que tinha recebido o Prémio Camões, soubemos, soubemo-lo nesse instante, que o cão que tinha encontrado a sua casa não ia ter outro nome que o do grande poeta português. E assim, pelo menos em Lanzarote, Camões foi mencionado centenas de vezes por dia, foi vida e foi homenagem. E este cão doce e nobre, que nunca aprendeu a comer devagar porque até chegar à Casa tinha tido que lutar contra a fome e o abandono, com a sua gravata branca desenhada no pelo negro, que foi o modelo para “O Achado” d' A Caverna, um cão que, como todos os cães que Saramago inventa, é a melhor resposta animal à melhor consciência humana, morreu com todos os seus anos e sempre amado.

Quando o cão chamado Camões regressou a casa depois da morte de José Saramago, não conseguiu aceitar a ausência. Esteve inquieto durante o dia, mas quando chegou a noite e não viu o dono nem na cama nem no sofá que ocupava habitualmente, quando uma e mil vezes percorreu o espaço entre os dois quartos, quando percebeu que o dono já não estava nem ia estar, que isso é a morte, uivou, gritou, rasgou-se numa dor que arranha a alma só de descrevê-la. Não bastaram abraços para consolá-lo, nem palavras carinhosas: ia e vinha de um lugar para outro, numa correria que partia o coração, gemia com uma dor humana. Por isso, um amigo que estava lá em casa e ali passou a noite, intitulou no dia seguinte a sua coluna jornalística: “Camões chora por Saramago”.

Saramago já não poderá chorar por Camões, agora que morreu tão docemente como viveu, tão honestamente animal que apetece aprender com a sua forma de estar na vida. Ou talvez, sem chorar, se encontrem na sensibilidade criada que nada nem ninguém pode destruir, porque tanta vida partilhada, e em companhia tão amável, não pode perder-se. Estão por aí, em livros e memórias, em corações que não se rendem, José Saramago com os seus três cães, Pepe, Greta e Camões, pondo beleza no mundo, imortais na vivência pessoal dos que sabem ver e também sentir.

Pilar del Río
 Casas tão diferentes, seja o barco ou a mulher do homem que queria um barco, seja a Lisboa do revisor Raimundo Silva ou a que o cão Achado encontrou em Cipriano e Marta - e aquela Casa onde viveu permanece e atrai, porque «olharem-se era a casa de ambos», diz de Baltasar e Blimunda. oncedido o maior galardão literário da língua portuguesa, um cão assustou tanto uma vizinha que ela gritou a pedir ajuda. Os que estávamos em asa saímos para a rua e vimos que o animal feroz era um cachorro assustado com o susto da mulher. O animal entrou pela porta aberta do jardim, mexendo sem jeito as pernas, um pouco desajeitado, feliz por ninguém o maltratar. Quando Saramago apareceu a anunciar que tinha recebido o Prémio Camões, soubemos, soubemo-lo nesse instante, que o cão que tinha encontrado a sua casa não ia ter outro nome que o do grande poeta português. E assim, pelo menos em Lanzarote, Camões foi mencionado centenas de vezes por dia, foi vida e foi homenagem. E este cão doce e nobre, que nunca aprendeu a comer devagar porque até chegar à Casa tinha tido que lutar contra a fome e o abandono, com a sua gravata branca desenhada no pelo negro, que foi o modelo para “O Achado” d' A Caverna, um cão que, como todos os cães que Saramago inventa, é a melhor resposta animal à melhor consciência humana, morreu com todos os seus anos e sempre amado.

Quando o cão chamado Camões regressou a casa depois da morte de José Saramago, não conseguiu aceitar a ausência. Esteve inquieto durante o dia, mas quando chegou a noite e não viu o dono nem na cama nem no sofá que ocupava habitualmente, quando uma e mil vezes percorreu o espaço entre os dois quartos, quando percebeu que o dono já não estava nem ia estar, que isso é a morte, uivou, gritou, rasgou-se numa dor que arranha a alma só de descrevê-la. Não bastaram abraços para consolá-lo, nem palavras carinhosas: ia e vinha de um lugar para outro, numa correria que partia o coração, gemia com uma dor humana. Por isso, um amigo que estava lá em casa e ali passou a noite, intitulou no dia seguinte a sua coluna jornalística: “Camões chora por Saramago”.

Saramago já não poderá chorar por Camões, agora que morreu tão docemente como viveu, tão honestamente animal que apetece aprender com a sua forma de estar na vida. Ou talvez, sem chorar, se encontrem na sensibilidade criada que nada nem ninguém pode destruir, porque tanta vida partilhada, e em companhia tão amável, não pode perder-se. Estão por aí, em livros e memórias, em corações que não se rendem, José Saramago com os seus três cães, Pepe, Greta e Camões, pondo beleza no mundo, imortais na vivência pessoal dos que sabem ver e também sentir.

Pilar del Río


Saramago fica-nos como uma casa onde habita a língua portuguesa em restauro em face a um mundo que precisa de conserto.

quinta-feira, agosto 02, 2012

novo visual

acompanhando as mudanças do meu próprio visual e vida em vários aspetos (só me falta mesmo a pala à Camões...) - uma mudança no aspeto do blogue, mais leve, mais claro, mais fresco.

terça-feira, julho 31, 2012

Desafio 12:7

Além da excelente minissérie Sherlock, de que vi agora a segunda temporada (três episódios cada, mas de hora e meia cada e muito bem feitos, com os geniais Martin Freeman e Benedict Cumberbatch a liderar o elenco), deixo abaixo outras sugestões em mês estranho, marcado sobretudo pela uvéite que me condicionou bastante, mas também o calor e a correção de exames - enfim, mais poesia e filmes, porque a primeira não exige tanto do olho como a prosa, e os segundos porque não exigem tanto como os filmes. reflexão breve sobre o Mimarte, que felizmente foi ainda antes da doença!


livros:

66. Estâncias Reunidas (1977-2002), António Cândido Franco, Quasi, 184p.***(*)
67. Todas as Palavras, Manuel António Pina, Assírio & Alvim, 400p.****
68. Assim São as Algas, Albano Martins, Campo das Letras, 448p.*****
69. Obras Completas - 1 Poesia, Carlos Wallenstein, Salamandra, 320p.***(*)
70. Fabliaux. Erótica Medieval Francesa, Teorema, 116p.****
71. Danúbio, Cláudio Magris, Biblioteca Sábado, 380p.*****

filmes:

121. The Conspirator, Robert Redford*****
122. La Source des Femmes, Radu Mihaileanu*****
123. L'arnacoeur, Pascal Chaumeil****(*)
124. The Whistleblower, Larysa Kondracki*****
125. Warrior, Gavin O'Connor*****
126. Tamara Drewe, Stephen Fears****(*)
127. Breaking and Entering, Anthony Minghella*****
128. Eating Out 5: The Open Weekend, O. Allan Brocka***
129. RRRrrrr!!!, Alain Chabat****
130. Hysteria, Tanya Wexler*****
131. Sherlock Holmes: A Game of Shadows, Guy Ritchie****(*)
132. Ice Age: Continental Drift, Steve Martino e Mike Thurmeier*****
133. Hereafter, Clint Eastwood****(*)
134. Run Fatboy Run, David Schwimmer****(*)
135. Bel Ami, Declan Donnellan e Nick Ormerod****(*)
136. Little Ashes, Paul Morrison*****
137. The Town, Ben Affleck****
138. Banlieue 13 - Ultimatum, Patrick Alessandrin**
139. Sleeping Beauty, Julia Leigh*(*)
140. Anna Karenina, Bernard Rose****
141. Take Shelter, Jeff Nichols*****
142. Pina, Wim Wenders*****
143. Burning Man, Jonathan Teplitzky****
144. The Hangover Part II, Todd Phillips***(*)
145. In The Land of Blood and Honey, Angelina Jolie****(*)
146. Eden Lake, James Watkins***(*)
147. Les Émotifs Anonymes, Jean-Pierre Amério****(*)
148. Black Sheep, Jonathan King***
149. Patrik 1,5, Ella Lemhagen*****
150. Tormented, Jon Wright**(*)
151. Silk, François Girard***(*)
152. Tomboy, Céline Sciamma****
153. Where the Wild Things Are, Spike Jonze***(*)
154. Wet Hot American Summer, David Wain***(*)
155. Limitless, Neil Beerger***(*)
156. Bending All The Rules, Morgan Klein e Peter Knight*(*)
157. My Little Eye, Marc Evans**
158. Weekend, Andrew Haigh****(*)
159. The A-Team, Joe Canahan***
160. Budapeste, Walter Carvalho****(*)

Mimarte:

por ordem de preferência:
1.º 1325 - Peripecia: genial, como de costume; a força das mulheres nos conflitos humanos ou de como se pode dizer o horrível de forma poética, bela e cómica.
2.º A Ilha dos Deuses - FC Produções: as máscaras ao serviço do encontro de culturas, do outro que nos completa.
3.º As Suplicantes - Thíasos: um coro muito interessante, seguido do egípcio, superou as falhas das outras duas presenças masculinas...
4.º Médico à Força - Jangada Teatro: comédia agradável, sobretudo com a cena da fotografia final e a caixa de medicamentos :)
5.º Os Portas-Comédia da Noite - Sola no Sapato: em especial pelo Fernando Ferrão (e sua Vanessa) e Pedro Teixeira (e sua Susy e Manel).
6.º Falar Verdade a Mentir - CTB, pelos espelhos, pelo General Lemos e pelo Duarte (embora um pouco exagerado, André Laires, mas foi o que lhe pediram, certamente). E chega.
7.º Auto do Velho Vaqueiro na Visitação da Horta Lusitânia - Teatro Construção: muito Gil Vicente, com um «Auto da Índia» muito engraçado, interativo e estúpido.
8.º O Mentiroso - Teatro ao Largo: Veneza e Goldoni bem tratados, mas faltou ali qualquer coisa...
9.º A Sogra - Thíasos: texto estranho e encenação muito simples... José Luís Brandão em destaque.
10.º Plim! Tragicomédia à Moda de Braga - PIF'H: enfim... nem Júlio Gonçalves salva isto. Tudo em excesso de... nada!


sexta-feira, julho 27, 2012

4 poemas de Carlos Wallenstein



Óleo sobre painel. Morning Mist, de Christa Eppinghaus-Johnston



AS MÃOS E A ROSA

(Relatório)

Na madrugada pardacenta
entre armações veleiras
no cais dos pescadores
era ainda o horizonte
coalhado de vagalumes

a Polícia Geral
surpreendeu
a existência clandestina
temerária
para mais parecendo apetecida
de duas mãos e uma rosa

Estes objectos
se passam a descrever:

Rosa sem qualificação particular
entre rosa e vermelho
pétalas semi-abertas
como a boca da detida
a quem pertencia uma das mãos em questão
A outra mão sombria
de pêlos lavrada
e veias atravessada
pertencia ao cidadão
por quem naquele instante
a detida era abraçada

As mãos possuíam a rosa
A rosa era possuída
As mãos mutuamente
possuíam as mãos
E cada pessoa
depois na prisão
se declarou possuidor
da mão que possuía a outra mão
que possuía a rosa

E cada um deles
com grande arrogância
se declarou possuidor
da pessoa do outro
no mesmo teor

em que o eram da rosa
através dum fenómeno
a que chamaram amor
Detiveram-se os três objectos
mas não havendo instrumento
para separar as mãos
dos corpos respectivos
prenderam-se os corpos também
e ainda bem
pois possuindo-se
mutuamente segundo a declaração
bem é que fiquem na prisão

pois todas estas posses
− tanta posse tanta posse −
se verificaram à margem
da Teoria da Tributação


****** Eu José Calcador
****** da Polícia Geral
****** de Sua Majestade Solar
****** El-Rei D. Nabucodonosor


****


Nada sou do que quis. Assim me quero
se é querer o osso que me foi
atirado; se crer no todo influi
desta paisagem desenhada em série.

Assim ou o contrário? Pondere-o
não eu mas quem o ponderar obriga
com metodologias de formiga
e trompas lautas de soar aéreo.

Tem como sou, assim me fui compondo
no desastre e engaste, na fateixa
manual do rapa tira põe e deixa,
eu de mim meu anzol e meu biombo.

Nem outro não ser dói ou me corrói.
Igual aos dois; herói/anti-herói.


****


A água do rio espelhou o teu rosto
e os teus seios, minha amada,
Quando te debruçste para beber
à sombra dos salgueiros

Na foz do rio espero eternamente
que as águas me tragam consigo
a tua imagem

***

Homenagem ao Único/Último

Alegre, alegre sim:
porém, morto


Carlos Wallenstein, Obras Completas. 1 Poesia, Salamandra: 1998:,p.77-9, 167, 205, 310