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sábado, fevereiro 04, 2012

gatos


Perante a beleza

O gato não é um simples animal
é um pedaço de Deus mas mais divino
sem aquelas horrendas histórias de incestos
dilúvios punições e outras derivações.
O gato não come nem bebe
ele apenas ingere para não ser notado
pois da última vez que o não fez acharam-no o Diabo
ou que ajudava as bruxas nos seus afazeres.
Quando anda pelos telhados quentes
é um bailado com uma música que só ele escuta
as ondas vêm e vão como num oceano
mas elas são quentes e terminam em garras.
O gato não morre mesmo depois das suas sete vidas
vai para o paraíso rasgar sofás e miar à Lua
e de vez em quando é visível nos raios de Sol
que nos batem no rosto e então
temos de fechar os olhos.

****


Em Roma, os gatos são múltiplos e têm um templo.
Lá, todos lhes levam alimentos como antiga oferenda.
Desconfio que são os deuses todos em forma visível.

quarta-feira, julho 27, 2011

Elegia para o Guano Jeremias



Não mais a mão no dorso recolhendo o calor
ou a vida dos bigodes e das orelhas a refilar.

Não mais virás a correr porque me sabes cá
e porque de mim se esperam todas as entregas.

Não mais teu olhar incorreto e longínquo
ou as almofadas em que pousas o peso leve.

Porque decidiste cruzar as sete encruzilhadas
que nos separam disto e doutro infinito qualquer.

Poema do Acordo Ortográfico





Pois o que havia de acontecer à língua
assim, sem mais nem menos, logo agora...
Qual será o factor, perdão, fator que o explica?
coisa tão inusitada, a mudança. Ou não?
Mas enquanto os Velhos do Restelo vociferam
e os defensores vivem a primavera da vitória,
as palavras chegam-nos despidas do velho,
límpidas e exatas no corpo que as diz.
Nada me pesa na ação, na atividade, no atual.
Adoto facilmente o novo, não sou cético - sou arquiteto
das origens renovadas pelo uso e desuso.
Faço coleção de pequenos meses, dias e estações
e de obras, ruas, sabedorias e pessoas superiores
que me surgem como querem que elas surjam.
Não hei-de, perdão, não hei de queixar-me
daquele sinal que separa os elementos que se querem casar,
porque vou fazer um inter-rail, pois sou pró-europeu
e sou super-resistente (até porque uso anti-histamínicos)
e gosto de ver amores-perfeitos pelas ruas em perspetiva,
e porque há tantos outros que se casam
num fim de semana ao pôr do sol:
autorretrato, coautor, cosseno, subregião
e até a minissaia fica mais longa, mas mais perto...
A todos aqueles que me lêem, perdão, leem,
saibam que encontrámos muitos casos giros
porque para o pelo para sair pelo pau onde pelo pêssegos
ou porque o egípcio vive no Egito e não no Egipto
e não é porque há reivindicações por lá.
E porque tudo isto vai já longo - verdadeiros heróis
que me creem de bem com esta paranoia
vamos sair para todas as rosas dos ventos,
olhar o maio deste acordo outonal -
- a dúvida é ficção desmontada dia a dia
e o sol ainda nos chama para o cor de laranja
lá fora.

terça-feira, abril 12, 2011

já um mês depois (ainda sem as fotos)

entrada do caderno de Paris, no dia 7/Março:
Até onde nos leva o querer continuar perante a imensidade de olhos que devíamos ter, e mãos, e bocas, e narizes, para que Paris fosse mais nossa intimamente, mesmo intimamente nossa, em cinco dias de chegar e partir? Voragem, querer ver, querer provar e saber uma parte grande do todo que sabemos ser impossível. Paris é impossível.



e o poema para a Milai:

Vitória de Samotrácia, no Louvre

Pese não correr aqui o vento
conservas a pose e o gesto
e nada em ti se altera com o tempo.

domingo, fevereiro 27, 2011

Poema das evidências

Ao contrário do vento encontro
as ruas em que nos perdemos.

A gaivota na pedra
nada diz da minha condição.

A solidão é menor
quando me estendo ao sol.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

A.


É no teu corpo lento que se esperam as eras
se deseja o movimento
o crescer da verticalidade do horizonte.

O branco é apenas a ausência do medo
e eu vejo-te enfrentando o mundo.

Não há dúvida quando o amor é acerto
cindindo as margens do caos.

terça-feira, janeiro 25, 2011

O Desterrado

O Desterrado, de Soares dos Reis (pormenores)

Nada em ti se exagera ou falta
a harmonia é um círculo incompleto -
- o mar na rocha é no cabelo
e verga e afasta para a imensidão.

Os dedos são texto à margem
Com eles não escreverás com sangue nas paredes.
Nem verás teu branco corpo italiano -
- o olhar perdeu-se já no longe.

Um segredo te concedo:
perder-se é fácil.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Pensamento mais ou menos luxurioso

Porque não há-de o teu coração fazer fronteira com o meu,
quando nos trocam os nomes
e nos pensam o mesmo?


Que será do teu quando me desp(ed)ir em morte?


«Lustful Thoughts», Javier Navarrete (ost Cracks)

quarta-feira, outubro 27, 2010

As mãos inteiras

Quem mas dera agora
inteiras e cheias com as minhas
ou com o meu corpo
água ou vento que nos leve ao encontro do outro mundo.

As mãos que eram andaime e guindaste
cofre do tesouro que era o próprio tesouro sem fim.

As mãos ambas
dextra e sinistra perfeitamente idênticas
onde o sopro do meu ser
pode encontrar abrigo.

quarta-feira, agosto 04, 2010

últimos escritos

Os meus mortos são mais vivos do que eu.
A ampulheta alimenta a solidão
e não há curva que me devolva.


*


Criámos asas para que o tempo fosse menos breve
inventamos máscaras para escondermos seus caminhos no rosto
e ainda assim vem ao de leve
como a mostrar-nos novo último comum posto.


*


Que o gosto a sal na minha língua
seja o meu gosto na tua.

terça-feira, julho 06, 2010

Poema dos jacarandás da Pousada de São Vicente


As flores do jacarandá são bonitas
e ao vê-las retiro-lhes um pouco de azul
não lhes fará falta com o tempo
e com ele pinto o meu olhar de novo
pois talvez assim te veja mais perto.

E de repente neste dia de excessiva luz
são as flores que caem sobre mim
como se me imitassem no movimento.

Livro das Suspeições

terça-feira, maio 18, 2010

sem título

É agora que dizemos os últimos tempos
habituados que estamos a calendários
onde os dias se passam na lentidão da noite
na rapidez trabalhosa das tardes.
Talvez de manhã entre a solidão e a morte
possamos ver-nos inteiros e divididos
do nosso destino de notas comuns
de mão puxando com a outra mão a outra mão
que se desampara entre os números
onde vamos marcando o dia o seguinte
em contínuo antecipar e retomar do tecido
onde nos construímos mão na mão.
É agora que abrimos os pulsos ao vento
para com o seu sangue sabermos de nós
num futuro que se ligará a hoje para sempre.
É agora o tempo de dizermos o interdito
o caroço do pêssego a constituição do gesso
as palavras nele gravadas a cinzel.
Se nos perdemos foi do tempo de chuva
que erodiu os gestos, afogou as palavras.
Que nunca o tempo por ti passe assim
com sua raiz alicerçada na morte e no medo.
Os dias que poderiam ter sido nossos
Sê-lo-ão de leve nas páginas escritas
Mesmo que inventadas pelo imenso tempo
Que - de repente - se abre entre nós.

de Livro das Suspeições

quinta-feira, abril 15, 2010

soltos, em viagem...

Tenho pena da perfeição que não tenho - no duplo sentido - de não o ser, de não ter ao meu lado.


****
Fraga

O cheiro é o da terra
que floresce
em árvores brancas
e rosas de apenas cor.


****
O suicida foi quem
não esperou

a vida parecia
ter horas a mais

****
só dois motivos
um que não é o é
outro que o virá a ser

quarta-feira, novembro 11, 2009

não te sei a dormir

mas

ouve-me
como se fosse um
sonho

sem possível.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Um ano depois, novamente a poesia...


... me visita. Um ano e tal, sem escrever um verso. Não sei se isto vale grande coisa, mas tem o valor do regresso. Regressemos, pois.


Quero ser como a luz
em ti

Raio que não quebra
as fibras

Chegar-te, estar-te,
ser-te
em cada forma

Aquecer-te.

(imagem vista algures....)

quarta-feira, agosto 12, 2009

excertos de «O mundo não passa de mundo» - 2.ª parte

Porque o projecto está adiantado, milagrosamente, porque esteve atrasado - e muito, e antes ainda do conto mais exigente, título homónimo do conjunto todo, pausa para seleccionar pequenos momentos de alguns contos.


III. 27. Endymion

Percebes agora porque digo que hoje, ao ver esta lua extraordinária, algures na Grécia, deve estar um rapaz que dorme de olhos abertos, fitando-a e sonhando-a? E quem diz Grécia diz aqui, neste momento, em que estamos sozinhos frente a frente e o mundo pode ser só nosso, por agora, sem inveja dos deuses… Vamos juntos envelhecer mais ao longe?


III. 30. O gato a tinta-da-china

O seu autor reparou em tudo isto e achou que era um bom desenho, um entre muitos que tinha feito, guardado, vendido, ou à espera de comprador. Foi o caso deste. Cansado de tantos desenhos, de tantos traços a preto sobre o branco, não entendeu a maravilha que era aquele gato e a sua vontade de um afago. Não reparou, cheio de sono, que o gato mudava de posição, rebolando-se no espaço mínimo branco da página, quase com perigo de vida pelas margens abruptas da folha para o abismo. E ao ver-se ignorado, não tentou outras abordagens: talvez pudesse ter miado ou arranhado o papel, mas deixou-se ficar, ferido no seu orgulho de gato e tornou-se indiferente.


III. 33. História de uma viagem indecisa

A minha atenção era a mesma da do sol: brincava com os ramos das árvores, penetrando nas frinchas que elas deixavam. E eu seguia esses raios como uma escapatória para as palavras pausadas do meu interlocutor, tão diferentes de outras («O que foi?», «Caiu-me alguma coisa na cabeça vinda da árvore… ou das tuas mãos», o meu sorriso confirmou a segunda hipótese).


III. 34. A missiva inexistente de Antínoos

Não te prendas às memórias, Adriano, que tiveres de nós. Mas não te esqueças, também. Tudo em perfeita harmonia, na devida proporção. Eu recordar-te-ei enquanto o tempo permitir a memória. Afinal somos mortais, dependentes dele, sempre. Não sei o que se erguerá para mim dentro destas águas, depois de me perder nelas, mas só poderá ser o prémio de uma vida breve, mas certa, desde que me escolheste para teu lado. Oh, Adriano, eu também te escolho, escolho-te para que continues, para que continuemos juntos no resto do tempo que existe, em que será possível sermos entendidos, como agora eu mesmo nos entendo e imploro que me entendas. Não me lamentes, é de livre vontade que sigo a vontade dos deuses. E só a eles pertence a nossa vida. Somos mortais, mesmo que me deifiques, mesmo que sejas o imperador, e todos os mortais morrem, tal como os deuses parecem não escapar, também… Mesmo que dês o meu nome que te é tão querido e que murmuras nas noites de calor de Roma como se ele te matasse a sede, a uma estrela, por influência do teu avô Marulino, de uma constelação boreal, ela será variável, com um período que durará sete dias, quatro horas e catorze minutos, como se mostrasse que eu pouco mais durei que ela, mas que retorno, de cada vez que alguém pronuncia o meu nome, o nosso amor.


III. 35. O apanhador de conchas

Por fim, sentei-me na areia, em frente ao mar, como se lhe dissesse adeus. Ao longe deveriam estar os meus colegas, em tarefas de bom acolhimento, imaginei depois. Disseram-lhe por onde eu estaria, indicaram-lhe o caminho e encontrou-me. Eu estava a olhar o mar onde lavava algumas conchas que traziam algas com elas. E soube, de repente, que estava ali, por alguma razão que desconhecia. Não era promessa de que nos viria ver. Não era o seu perfume, porque o mar dominava tudo, nem os seus passos, porque o mar abafava-os e a areia não os permite iguais ao costume, nem a sua voz, porque não falou. Ou antes, quem falou primeiro fui eu, talvez querendo surpreender e provocar:

segunda-feira, julho 06, 2009

III. 29. E pur si muove


Sentia-se triste como uma casa sem móveis.

Flaubert, Madame Bovary

Os móveis enchiam o espaço interior, e cada um de nós tropeçava, batia, não vivia nele, porque tomavam conta de nós de forma opressiva. Não havia vazio, nem silêncio. E cada um de nós seguiu o seu rumo. Depois, aos poucos, desbaratadas no vento as lembranças e as palavras, queimados que foram os gestos, ficámos sós, eu e a casa. E embora a solidão não doa, entristece. Como a casa sem ti. E perante a minha imobilidade, a minha descrença do vazio que nos tornámos, ela age por mim: de cada vez que olho pelas janelas apercebo-me da mudança como se estivesse num comboio, do que vem e do que ficou para trás, e sempre que me sento no alpendre tenho novas paisagens para apreciar. É a sua forma de ser mais do que uma casa e de me ajudar. Mas alguns sentimentos não se mudam ao mudar-se uma casa, em todos os sentidos.

segunda-feira, junho 22, 2009

III. 19. Conto levemente erótico


Olharem-se era apenas o início, pois o olhar ensinava-os sobre as mãos e sobre a pele. E as mãos ensinavam-nos a ver melhor. E depois do olhar, as bocas percorriam-se com uma falta de algo que só os corpos pudessem mitigar. As mãos procuravam-se, exactas de tempo, exactas na procura do improviso, no imprevisto dos corpos reagentes. Procuravam-se e encontravam-se nas planícies, nas florestas. Perdiam-se e achavam-se, cheias, para novamente se perderem e, cheias de saudade, voltarem a encontrar-se. E depois das mãos e das bocas, todo o restante corpo, um contra o outro, explorando-se na pele, nos pêlos, no sangue latejante, como se o tempo não chegasse, como se a vida pudesse ser sempre aquilo, como se as coisas se reduzissem a ambos tornados unos, perdidos nas palavras sussurradas, gemidas, balbuciadas, até os corpos se soltarem novamente e apenas se abraçarem, enquanto entram num outro mundo, sem consciência.
Acordar-se era tarefa do sol na janela ou do despertador. E era nascer para a consciência da individualidade e da solidão. A cama estava desfeita, ele talvez um pouco molhado ainda, mas só. Porque nada do que se passava era real, apenas fruto do desejo presente e das memórias do passado – viventes ambas nesses tempos, funcionantes de modo imperfeito no presente, mas sem esperança de projecção no futuro. E era certo que depois, no banho, haveria de chorar, mas só no banho, para que as lágrimas não se notassem, nem para ele. E que, em outras noites, olhar-se era apenas o início, pois o olhar ensinava-o sobre a mão e sobre a pele e a mão ensinava-o a ver melhor. E depois do olhar a boca ficava expectante do momento em que tivesse de soltar-se em prazer. Sem tempo, sem espaço de vida a mitigar, a inexactidão do mecânico, ainda assim cheio de saudades da pele, dos pêlos, do sangue latejante, do tempo em que a vida podia ser apenas aquilo, as coisas fossem unas de ambos, em que as palavras tinham o poder de trazer um ao outro em segundos de ser.
Até ao dia em que desaprendesse de amar: os olhos recusassem a ver, as mãos a descobrir, a pele a sentir, as palavras a criar. Ou talvez não fosse ainda tarde nesse dia, se os sonhos e a solidão pudessem funcionar como reservatório de emoções. E um dia, ao acordar com o sol a dourar-lhe o corpo extenuado, talvez não precisasse de chorar, pois teria aprendido alguma coisa que o levaria a ser diferente, mesmo sendo o mesmo.

quinta-feira, maio 28, 2009

O livro dos dias (breve selecção de Maio - e final)

Desisti do projecto. Por falta de ser. Enfim...

1. Sabemos quase sempre que somos melhores do que os outros e piores do que gostaríamos de ser. Ou é ao contrário? Mas o que interessa ser, se não somos reconhecidos nisso pelos outros? Desisto - sou a desistência em consciência - mas só daqui a meses. Há que sobreviver até à data limite.
Depois virão tempos
ainda
piores.

2. É Ma É La é Ri é A: Malária! Viva a Malária! Vamos! Private jock sem piada nenhuma. Mas que nos fez rir como se fôssemos tolos. A desgraça da vida leva-nos a desejar Moçambique. Para acordar, para fugir, para viver. Ou morrer - pois ela está por lá!

5. Preciso que a minha cama seja mais do que eu.

6. Pequena visão da floresta
peito onde dorme a fera
coração (que vai dar no mesmo).

7. Propostas indecentes
RE: um pouco tarde para propostas indecentes. Talvez noutra altura. (eram já 23:50:16)

10. O coração é aquilo que queremos fazer dele, disse um aluno. E o meu coração apertado alargou-se de espanto. E achou-se sozinho, mas a pulsar. Tem dias.

segunda-feira, maio 25, 2009

excertos de «O mundo não passa de mundo»

III. 7. O Grito

A poetisa veio ter connosco, convidando-nos para nos juntarmos ao grupo que lá dentro se ia formando no sofá e nas cadeiras dispostas em círculo para a ouvir. Foi nesse momento, de repente, que o grito ecoou pela praia e ressoou pela casa, como se estivéssemos a ouvir um búzio. Todos ouviram e traduziram em silêncio a espera por alguma reacção que se seguisse. Ao fundo da praia, perto do mar, a mulher que tinha passado por nós, vinha a correr, desvairada, chorando. Eu e a mulher do piano acordámos da letargia e descemos as escadas.

III. 8. Borboletras

Era uma vez um homem que escrevia apenas por fragmentos. Coisas pequenas, se bem que muitas vezes profundas, concisas. Há quem ache que as duas coisas estão intimamente ligadas, mas nem sempre. De qualquer modo, os seus escritos compunham-se de fragmentos: frases breves, às vezes não sendo mesmo frases gramaticais, no sentido estrito, ou apenas letras desenhadas pelo prazer de as escrever, sem significarem nada, mas eram sempre pequenas preciosidades, fruto do acaso, da vida, se bem que muitas vezes apenas da interior; escritos a qualquer momento do dia ou do sono, interrompido a custo para a escrita que se poderia perder na manhã seguinte se não acontecesse naquele momento; sobre tudo o que lhe interessava ou causava espécie.

III. 11. Manual de sobrevivência a um coração partido

Na deslocação, revi a minha comunicação sobre um livro medieval recentemente descoberto pelo meu professor numa biblioteca privada e em cuja edição eu estava envolvido. Um livro interessantíssimo sobre a forma de sobreviver a males de amor, em espécie de manual didáctico. Após várias entradas frescas ou mais conhecidas pelo vulgo, o autor anónimo deixava bem claro, no final: «As receitas que i poderam haver, seerá frol quem no mais tender, ca a seu golpe nom pode durar arma». E era sobre este final, de uma certa desesperança na resolução dos casos com a ajuda do próprio manual, que eu ia falar no congresso. Por experiência própria, pois então.

III. 13. O exílio

Doía-lhe aquela existência e não conseguia perceber como poderia sobreviver no seu próprio espaço, voltar a ser o que era. É que estando ela no seu lugar de sempre, como se poderia sentir em exílio? O exilado é aquele que está morto para a sua terra, em parte, pelo menos, e ela sentia-se assim, morta na sua terra, como que exilada antes desta ser sua e fosse apenas um reflexo e algo que nunca poderia realmente existir – a vida.

III. 15. Deus como romancista

Cá fora, vestiu o casaco rapidamente, e circulou, para não se deixar chorar. Mas chorou, a andar, como se fosse um mendigo sem casa – e era-o, naquele momento, sem a melhor casa da vida, a casa dos verdadeiros amigos que nos abrigam o mais importante: o gosto que têm de nós. E ele via-se assim, de repente, sozinho numa rua que não costumava frequentar, com casas que lhe pareciam vazias de vida, embora fossem bonitas. E, por fim, achou a entrada de uma casa onde se sentar e perder-se durante algum tempo. Nada do que se passou a seguir interessa a ninguém. Dos seus vinte e cinco anos de pouca experiência, o professor não sabia o que era perder um amigo de forma tão voluntária. Nem nunca saberia, de facto.