sexta-feira, janeiro 09, 2009

3 poemas de Fernando Assis Pacheco + 1


Selecção tardia (já li há quase um mês) e muito tendenciosa. Há mais do que isto, e que estes temas, e que estas páginas. Mas deu-me para aqui... O último é um recado que deixo a quem nunca o verá, em princípio, e se vir não perceberá que é para si. Mas pode ser que qualquer dia lho diga, de outras maneiras...

ACONSELHO-VOS O AMOR

Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor
cheio de força; os moinhos
girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).

ACONSELHO-VOS A LUTA.


***
SEM QUE SOUBESSES

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.

****
UM CAMPO BATIDO PELA BRISA

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho um «pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

*****
COM A TUA LETRA

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, Asa, p.22, 24, 28, 30

5 comentários:

Paulo disse...

parabéns pela sensibilidade na selecção (tendenciosa - afinal, não é sempre tendenciosa?). gosto muito deste Pacheco! e destes que escolheste, destaco "SEM QUE SOUBESSES" e o último que dedicaste a quem nunca o verá. e nunca se sabe!

abraço

JCD disse...

Já se adivinhava o tem bom gosto...
Um abraço »»»

tulisses disse...

Olá Paulo, sim, sempre tendenciosa, desta vez ainda mais... Gosto muito desse que escolhes, até porque o início me lembra Sophia, mas o último acho-o particularmente pessoal (meu, ou coisa que o valha). E tens razão, talvez venha a ser lido, ainda que sem que a pessoa saiba que é para ela ;)

abraço

tulisses disse...

JCD, obrigado pelo comentário. Também acho que tenho bom gosto (afinal é meu), mas tu também tens, no teu blogue. Tenho de ir lá - comentar - porque ir vou várias vezes.

abraço

Anónimo disse...

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