domingo, janeiro 09, 2011

Azul

imagem vista aqui


Quando sai, de manhã, ele fica a dormir. Ao fim da tarde, não é raro encontrá-lo a um canto do sofá, a cama ainda por fazer.
As janelas quase não são abertas. Há uma luz cheia de sombras, um odor saturado, uma acidez morna, de paredes que não respiram. Já não há quem a acompanhe a casa, quem a visite, quem ela convide. Pouco a pouco, até os telefonemas se fazem raros, secretos, como conspirações breves.
Com as amigas, mostrava-se de um indecoro insinuante, roçando a inconveniência. Com os amigos, tornava-se uma presença castradora, corpo de silêncio ou de insónia, subindo de debaixo do sofá ou da cama.
Por vezes, todas as estações, uma estação qualquer, ela regressa com um cheiro que ele não reconhece. Quando se despe, olha-a como se a não visse. A perseguição silenciosa dos passos, eis tudo o que acontece.
Enquanto ela se lava, toda a atenção dele se concentra no fascínio do jorro tombando, no nível da água subindo. Ele sabe: só depois ela lhe servirá o prato e lhe poderá tocar o pulso com a humidade do focinho.
(Num gato, diz-se azul a cor que em tudo o resto se diz cinzenta.)


Rute Mota, in Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, V. N. de Gaia: Exodus, 2008:132

1 comentário:

O cozinheiro solitário disse...

Olá a todos os que vão ler este comentário neste blogue ou noutro muito bom como este. Pois é, estou encantado com todos estes posts bem feitos, quase que desenhados. Pois, eu gostava de fazer igual, mas não consigo. O meu dilema agora é cozinhar… A vida é dura e obrigou-me a morar sozinho, e a cozinha não é de todo o meu local favorito. Mas estou a tentar conhecê-la, mas as aventuras têm sido imensas. Fiz um blog humilde para colocá-las em forma de crónica pouco extensas. Gostava muito que todos vocês o visitassem e se possível o seguissem. É que tentar cozinhar e depois não ser ajudado, é algo muita mau.
Cumprimentos a todos!

http://tenhosalfaltamecolher.blogspot.com/